22 outubro 2026

Palavra de poeta

Sou negro
Solano Trindade           

Sou Negro
meus avós foram queimados

pelo sol da África
minh'alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gonguês e agogôs

Contaram-me que meus avós

vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.

Depois meu avô brigou
como um danado nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu

o pau comeu
Não foi um pai João

humilde e manso.

Mesmo vovó

não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês

ela se destacou.

Na minh'alma ficou

o samba
o batuque

o bamboleio
e o desejo de libertação.  

[Ilustração: Candido Portinari]

Leia também "Mãos dadas", poema de Carlos Drummond de Andrade  https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_11.html 

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