10 março 2026

Minha opinião

A turma da usura abalada
Luciano Siqueira 

Em breve pausa para um cafezinho no shopping, sou abordado por cidadão de meia idade, de bom trato, como se dizia no século passado:

- Sei que não é do seu ramo, mas pergunto se concorda que o sistema está vazando que nem peneira...

- Que sistema?

- O sistema financeiro, depois desse escândalo do Banco Master.

- Ah, sim...

- Sou das antigas, tudo o que consegui juntar na vida apliquei em imóveis, nunca me arrisquei com ações nem títulos na Bolsa...

A conversa não prosperou, felizmente, porque ambos estávamos apressados. Eu, que já pagando o café; e ele que estava apenas de passagem.

Já a caminho das Graças, dirigindo o carro, imaginei as centenas de milhares (ou milhões?) de pequenos investidores que arriscam suas economias na Bolsa, agora inseguros quanto aos destinos de suas aplicações diante da derrocada do Banco Master, que culminou em liquidação extrajudicial pelo Banco Central no final do ano passado e na prisão de seu controlador, o banqueiro Daniel Vorcaro.

Um dos episódios mais traumáticos para a credibilidade do sistema financeiro brasileiro na última década. Mais do que um caso isolado, a revelação de fissuras institucionais que atingem desde o pequeno investidor até os pilares da regulação estatal.

Tudo como resultado de um modelo de negócios apoiado em práticas que, segundo a Operação Compliance Zero, da Policia Federal, envolvia a fabricação de carteiras de crédito falsas e a oferta de CDBs com rendimentos irreais para captar recursos além da conta.

Mais: a revelação de uma rede de influência que chegava às altas esferas do Estado, incluindo consultorias informais prestadas por servidores do Banco Central justamente responsáveis pela fiscalização.

Ao cidadão comum cabe a pergunta: quem disse que o mercado financeiro é um ambiente de regras iguais para todos? Quando a influência política e vantagens pessoais vêm à tona, os riscos se mostram sistêmicos.

Mais: o impacto no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), cujo desembolso ultrapassa R$ 51 bilhões para ressarcir centenas de milhares de credores, perto de um terço do seu caixa.

Na prática, todo o sistema é atingido, inclusive porque os demais bancos são levados a aumentar seus aportes no Fundo, o que encarece o crédito para o consumidor.

​Enfim, um sistema vulnerável. E duramente atingido em sua credibilidade.

Como Paulo Guedes e o BTG construíram uma bolha bilionária em precatórios https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/a-bolha-dos-precatorios.html

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