Neurônios de molho
Corrigi uma resposta burra da IA sobre certo
assunto e ela assimilou minha correção. Se a IA se compõe de redes neurais
capaz de gerar textos humanos, não temos a menor chance
Ruy
Castro/Folha de S. Paulo
Você
talvez se lembre. Há meses, escrevi que, ao não me ocorrer o nome de uma rua em
que Tom Jobim morara, resolvi
consultar a IA. Digitei: "Em que ruas
morou Tom Jobim no Rio?". A IA não vacilou: "Tom Jobim nunca morou
nas ruas do Rio. Morou em casas e apartamentos de Ipanema, do Jardim Botânico etc.".
Estupefato por aquela perfeita idiotice da objetividade, comecei a duvidar da
auto-apregoada inteligência da IA. Afinal, só uma caranguejola sem noção
imaginaria que Tom Jobim, de sólida classe média carioca muito antes de
"Garota de Ipanema", um dia teria morado na rua.
Não
me contive e escrevi uma coluna a respeito ("Tom pelas ruas",
29/11/2025), zombando daquela lógica burra diante de uma pergunta tão simples.
E me lembrei do nome da rua que procurava: a Codajás, entre o Leblon e a Gávea.
Mas
quem sabe aquela não seria uma IA recém-saída dos juniores ou coisa assim? Daí
perguntei-lhe: "Quem é você?". Veio a resposta: "Eu sou um
modelo de linguagem grande, treinado pelo Google. Sou uma inteligência artificial projetada para
processar informações, responder perguntas, traduzir idiomas, escrever diversos
tipos de conteúdo e ajudar com tarefas criativas". E, modesta, concluiu:
"Não sou uma pessoa real. Não tenho sentimentos, opiniões próprias ou
consciência".
Algo
na resposta me intrigou: o que seria "linguagem grande"? Fui lá e
perguntei também. Ela: "Linguagem grande é um tipo avançado de
inteligência artificial generativa baseado em redes neurais projetadas para
entender, pesquisar e gerar textos humanos de forma fluida". O quê??? Ali
me rendi. Por mais que duvidasse da inteligência do artifício, ao ler
"redes neurais projetadas para gerar textos humanos" botei meus
neurônios de molho.
Ontem,
por acaso, surgiu-me de novo na tela a pergunta sobre em que ruas Tom morara.
Fui reler a resposta. Surpresa: a informação de que ele nunca morara nas ruas
desaparecera. E lá estava agora a resposta correta, com os endereços.
Ou
seja, a IA já se apropriara de parte dos meus neurônios.
Leia também: "Tomara", um poema de Vinícius de Moraes https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/palavra-de-poeta_10.html

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