03 março 2026

Uma crônica de Ruy Castro

Neurônios de molho
Corrigi uma resposta burra da IA sobre certo assunto e ela assimilou minha correção. Se a IA se compõe de redes neurais capaz de gerar textos humanos, não temos a menor chance
Ruy Castro/Folha de S. Paulo 

 

Você talvez se lembre. Há meses, escrevi que, ao não me ocorrer o nome de uma rua em que Tom Jobim morara, resolvi consultar a IA. Digitei: "Em que ruas morou Tom Jobim no Rio?". A IA não vacilou: "Tom Jobim nunca morou nas ruas do Rio. Morou em casas e apartamentos de Ipanema, do Jardim Botânico etc.". Estupefato por aquela perfeita idiotice da objetividade, comecei a duvidar da auto-apregoada inteligência da IA. Afinal, só uma caranguejola sem noção imaginaria que Tom Jobim, de sólida classe média carioca muito antes de "Garota de Ipanema", um dia teria morado na rua.

Não me contive e escrevi uma coluna a respeito ("Tom pelas ruas", 29/11/2025), zombando daquela lógica burra diante de uma pergunta tão simples. E me lembrei do nome da rua que procurava: a Codajás, entre o Leblon e a Gávea.

Mas quem sabe aquela não seria uma IA recém-saída dos juniores ou coisa assim? Daí perguntei-lhe: "Quem é você?". Veio a resposta: "Eu sou um modelo de linguagem grande, treinado pelo Google. Sou uma inteligência artificial projetada para processar informações, responder perguntas, traduzir idiomas, escrever diversos tipos de conteúdo e ajudar com tarefas criativas". E, modesta, concluiu: "Não sou uma pessoa real. Não tenho sentimentos, opiniões próprias ou consciência".

Algo na resposta me intrigou: o que seria "linguagem grande"? Fui lá e perguntei também. Ela: "Linguagem grande é um tipo avançado de inteligência artificial generativa baseado em redes neurais projetadas para entender, pesquisar e gerar textos humanos de forma fluida". O quê??? Ali me rendi. Por mais que duvidasse da inteligência do artifício, ao ler "redes neurais projetadas para gerar textos humanos" botei meus neurônios de molho.

Ontem, por acaso, surgiu-me de novo na tela a pergunta sobre em que ruas Tom morara. Fui reler a resposta. Surpresa: a informação de que ele nunca morara nas ruas desaparecera. E lá estava agora a resposta correta, com os endereços.

Ou seja, a IA já se apropriara de parte dos meus neurônios.

Leia também: "Tomara", um poema de Vinícius de Moraes https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/palavra-de-poeta_10.html

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