As lições da agressão à Venezuela e sequestro de seu presidente
Enio Lins
NARRAÇÕES ABUNDAM para explicar como aconteceu o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cilia Flores. Como se diz no Nordeste, o fato é que foram frutos “colhidos no pé”, sem dificuldades. Cerca de três horas depois do rapto, Donald Trump divulgou sua versão, num roteiro com forte odor ficcional, do tipo “missão impossível”. Deve-se aguardar a divulgação de cenas “heroicas” filmadas na ação, como aconteceu quando do fuzilamento sumário de Bin Laden.
COMO NO CASO OSAMA, sob o comando de Obama, a tremenda facilidade da empreitada deixa no ar suspeitas de colaboração por parte de quem deveria estar protegendo o alvo. Talvez a recompensa de US$ 50 milhões (cerca de R$ 270 milhões) por Maduro possa jogar alguma luz, mas a coisa parece ser mais ampla. Para Bin Laden foram ofertados outros US$ 50 milhões (no câmbio de 2011, R$ 76,5 milhões). No caso do saudita, o governo americano afirmou, na época, que ninguém receberia a grana, pois o comandante da al-Qaeda teria sido localizado graças à eficiência da CIA. No sequestro do presidente venezuelano, a versão oficial é que, mais uma vez, foram “agentes da CIA infiltrados” os responsáveis pela entrega, de bandeja, do casal presidencial. Informações desencontradas, com mais de 24 horas de atraso, dão conta que teriam sido assassinados entre 60 e 80 defensores do presidente raptado, dentre esses, 32 cubanos. Os sequestradores não teriam tido nenhuma baixa (zero morte, zero ferimento), o que levanta a hipótese de não ter havido combate, apenas execuções. Se confirmado, expõe uma inacreditável vulnerabilidade da estrutura militar chavista.
SÃO ESPECULAÇÕES IMPORTANTES, mas diversionistas em sua maioria. A questão central é a denúncia da pirataria americana, afrontando todas as normas internacionais em vigor. Trump, com sua típica desfaçatez, verbalizou que o objetivo real é governar a Venezuela e roubar descaradamente suas riquezas naturais, a começar pelo petróleo. E, gesto não menos importante, Donald jogou no lixo as pretensões imediatas da oposição de extrema-direita, descartando a golpista Maria Cocorina (com seu Nobel pendurado no pescoço) e seu irrelevante parceiro que jura ter ganhado a última eleição. Não vão assumir nada, no momento. A Casa Branca afirma abertamente sua intenção de colonizar, sem intermediários, o patrimônio venezuelano. Lógico que, depois de garantida a vampirização ampla, geral e irrestrita, alguma colher de chá possa ser dada aos traidores nativos antichavistas – talvez, até uma “presidência” decorativa.
MIRIAM LEITÃO, na GloboNews, soube resumir bem o cenário, acusando “um retrocesso de 215 anos”, visando a revogação da independência da Venezuela, declarada em 1811. Realçou o óbvio: é “um risco para outros países, uma ilegalidade, e um desrespeito internacional”. Nas redes sociais, análises importantes não faltam, e o debate deve se alongar. Enquanto isso, os próximos capítulos do drama venezuelano são aguardados com ansiedade. A bem da verdade, os Estados Unidos estão praticando o que praticam há mais de 180 anos, desde quando tomou o Texas dos mexicanos, como bem lembra reportagem da BBC (escrita por Felipe Llambías), em outubro de 2024, quando da posse de Donald Trump. O jornalista chama a atenção para um trecho do discurso: “Vamos perseguir o nosso Destino Manif esto até as estrelas”, apontando aí a reafirmação da crença supremacista estadunidense como “uma nação escolhida por Deus”, superior aos outros povos, destinada a dominar o mundo. Em 1901, Theodore Roosevelt avançou nesse rumo, definindo a Doutrina do Big Stick: “Fale com suavidade e tenha à mão um grande porrete”. 125 anos depois, Trump ajusta para pior a consigna: “Fale com agressividade e desça o porrete com força”, turbinando a mesma velha política imperialista da Casa Branca: invadir, dominar, pilhar.
E O CHAVISMO, como fica? Aí é outra conversa, para outro dia.
Lula condena ataque à Venezuela https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/lula-protesta-contra-agressao-venezuela.html

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