05 março 2026

Abraham Sicsu opina

Na política, terceira via?
Abraham B. Sicsu      

Realidade e ficção se confundem. Um político em um ambiente altamente polarizado. Dois grupos se digladiam em busca da hegemonia. Sabe não ter nenhuma densidade eleitoral. Mas, eleição em dois turnos, se lança e tem menos de 4% dos votos. Tinha se definido como Terceira Via e se cacifa para a barganha. Vira linha auxiliar da oposição ao Governo e levanta uma série de acusações infundadas. Dá argumentos, com discurso virulento, para um ataque baseado em notícias falsas ou não verificáveis. Ficará quatro anos exigindo e obtendo benesses e recompensas, dizendo que a eleição só foi ganha com seu apoio. No nosso país isso define essa via, parece.

O fato acima parece hipotético, mas tem elementos muito concretos de factibilidade. Com ele aprendi três coisas. Em primeiro lugar que, em nosso sistema eleitoral, Terceira Via é moeda de barganha. Em segundo, que é caminho fácil para desestabilizar candidaturas e criar desconfianças. Em terceiro lugar, é instrumento de interesses não explícitos, muitas vezes utilizado por grupos economicamente poderosos que precisam de pretexto para não expor seus reais interesses que, evidentemente, os beneficiam.

Na literatura política internacional Terceira Via tem uma definição mais clara e precisa, com certeza, diferente. Uma corrente política que acredita no mercado livre, mas que vê a necessidade de políticas sociais robustas para evitar as assimetrias características do processo concentrador capitalista. Opõe-se ao liberalismo e às correntes mais a esquerda radical. Vai além da social democracia convencional com propostas integradoras e forte combate ás disparidades de renda e regionais.

De certa maneira Clinton, rompendo lógicas dos democratas nos Estados Unidos, ou Blair com os trabalhistas no Reino Unido, mesmo estando em partidos tradicionais, podem ser considerados dentro desse perfil.

Definir-se Terceira Via antes de ter consolidado propostas consistentes parece insensato e pouco produtivo. A educação, a saúde, o combate à miséria e a estabilidade dos aposentados e desfavorecidos devem passar a ser o centro de seu programa de ação. O Estado tem papel decisivo no garantir a justiça social. Ter claro que o mercado não se preocupa com isso. A modernização, inclusive tecnológica, das estruturas é caminho obrigatório para reorientar o processo de desenvolvimento.

Responsabilidade tem um duplo sentido, o econômico e o social.  Sem essas duas variáveis articuladas é mais uma aventura, não há consistência. De certa maneira, já tivemos e temos governos, mesmo aqui no Brasil, que procuravam se estruturar fortemente alicerçados com muitas dessas características e visões.

Na eleição de 2022 fiz duras críticas ao que chamavam Terceira Via. Disse que não tinham lógicas nem estruturas para romper paradigmas estabelecidos. Pior, não tinham lideranças viáveis. Chamei de um exército de Brancaleone. Poderia ter me referido a Quixote de Cervantes e os moinhos de vento. Um grupamento, que pode até ser bem intencionado, mas, sem propostas claras, sem representatividade política, que, esfarrapados, acreditavam poder desestabilizar a polarização que era extremamente patente na economia brasileira.

Fui fortemente achincalhado e atacado pessoalmente. Nada que me abalasse. Mas, a virulência mostrava o ego inflado de uma classe média intelectualizada que só via em suas pessoas/grupos, nos seus pensamentos, a possibilidade de reverter os graves problemas estruturais do País. Sem negociar, sem dispor-se a dialogar. Sem entender a realidade concreta de um País muito desigual. Sem tomar partido realmente possível em momento decisivo para a democracia.

Noto que novamente essa corrente se organiza, repetindo, no meu entender, o mesmo erro, dando oportunidade a que possa voltar a plutocracia excludente no Brasil. E os argumentos são os mesmos.

Dizem, se existem dois turnos, porque entregar de cara? Ledo engano. Não percebem que farão críticas mordazes como sempre acontece nas campanhas eleitorais, que levantarão suspeitas sem necessariamente comprová-las, que estarão dando oportunidades e argumentos para desestabilizar um projeto político, sem ter nenhum programa alternativo já bem definido, sem ter liderança de peso já consolidada, sem ter efetivamente relevância político eleitoral. Servirão de linha paralela para confrontar um projeto de longo prazo que pode ter sólidas raízes transformadoras. Por que não procuram ser coerentes e fazem proposições efetivas no sentido de corrigir possíveis rumos equivocados?

Um político intelectual, a quem muito respeito, afirmou:

“O erro dos que consideram a alternativa de uma Terceira Via é ver os independentes como um bloco, quando na verdade eles são divididos, não formam uma via. Para ser uma via ela precisaria de um conjunto de propostas próprias e uma liderança com a qual se identificassem. Enquanto isso não existir, não é alternativa....não se constitui uma alternativa, apenas um grupo de esperneio.”

Concordando plenamente com essa visão, vale ressaltar que isso não se constrói de uma hora para outra. Uma liderança nacional tem que ser trabalhada com o tempo, um programa tem que ser estruturado pela mobilização de muitos pensadores. E isso não foi feito nos anos recentes.

Fica claro que essas aventuras que começam a se desenhar apenas terão o papel de ajudar a criar um clima de revanchismo, de não analisar os avanços significativos que foram dados nos últimos três anos, de não colaborar com uma proposta para o País, de médio e longo prazo, onde a visão social compatibilizada com avanços econômicos e ambientais significativos, o que permitiria ter perspectivas de um Brasil inclusivo e mais justo.

Não é essa a proposta de nossos políticos e intelectuais auto centrados e convictos de que para haver mudanças, seus geniais intelectos têm que ser consultados, mais que isso, reverenciados. Não se dignam a pensar num mundo excludente em alternativas possíveis, seus egos inflados é a razão maior que os move.

Ao que chamam Terceira Via podemos denominar de glória vã, um movimento que pode servir apenas para ajudar a consolidar avanço de forças reacionárias e conservadoras.

Desemprego atinge menor patamar no Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/boa-noticia_30.html

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