Nações Digitais: o projeto das Big Techs para substituir os Estados
nacionais
Por trás do discurso libertário, emerge um plano de
reorganização do poder mundial baseado em criptomoedas, vigilância digital e
controle das consciências.
Eduardo
Siqueira/Portal Grabois https://grabois.org.br/
Nos últimos anos, uma ideologia delirante cresceu e apareceu entre a elite do Vale do Silício vislumbrando repensar a governança tradicional, através de ideias como Estado Rede, sociedades dirigidas por criptomoedas e cidades totalmente governadas pelo setor privado. Nomes famosos como Peter Thiel, Elon Musk e Balaji Srinivasan lideram a empreitada, os dois primeiros também conhecidos como parte da máfia PayPal. Muitos deles acham que os Estados Unidos estão em declínio, mas a solução é a completa reimaginação da sociedade capitalista, não a sua reforma.
Balaji
Srinivasan, principal dirigente tecnológico (Chief Technology Officer em
inglês) da firma Coinbase e ex-sócio da companhia de investimentos financeiros
Andreessen Horowitz, tem sido um dos maiores defensores da ideia. Ele escreveu
o livro The Network State: How to Start a Country (O Estado
em rede: como começar um país, em tradução livre), no qual elabora o
conceito do que seriam comunidades virtuais descentralizadas com o objetivo de
comprar terras e eventualmente funcionar como nações independentes. O livro
esquematiza um modelo para administrar essas comunidades como corporações.
Este
delírio utópico não é novo. A novela Atlas Shrugged, de Ayn Rand, e
a ficção científica Terminus from Foundation, de Isaac Asimov,
foram inspirações, já que o primeiro aborda uma utopia capitalista, enquanto o
segundo sugere alternativas para um império em colapso. Curtis Yarvin (também
conhecido como Mencius Moldbug), um blogueiro, analista político de
extrema-direita dos Estados Unidos, com formação em computação, foi quem
primeiro disseminou a ideia de um sistema “onde territórios soberanos pequenos,
dominados por corporações, substituiriam governos tradicionais”. Os territórios
priorizariam a eficiência em vez da opinião pública e manteriam controle
através de tecnologias como vigilância biométrica.
Alguns
dos chamados barões das Big Tech, como Thiel, investidores capitalistas como
Balaji, Musk e os assessores do DOGE (Ministério da Eficiência Governamental)
Marc Andreessen e Joe Lonsdale, entre outros, fazem parte de uma organização
chamada Praxis, que defende uma utopia supostamente
anarco-libertária denominada “Nação Digital.” Os novos libertários
globalistas usam Trump para dar peso à visão deles de reformatar o mundo e
reescrever regras, ignorando completamente a opinião pública e a democracia.
Trump na verdade já andou falando sobre a ideia de “Cidades Livres” em terras
federais, como possíveis centros de inovação e progresso.
Dadas as relações de Trump com oligarcas
como Peter Thiel, não há como achar apenas uma coincidência entre a
afirmação do presidente e a visão dos magnatas do Vale do Silício sobre cidades
totalmente privatizadas e governadas pelo setor privado. Aliás, Thiel
argumentou em 2009 que a democracia é incompatível com a liberdade. O
vice-presidente JD Vance discute abertamente as ideias de Yarvin e tem relações
antigas com Thiel, o que sugere que deve haver uma articulação entre eles para
mudar como se governa nos Estados Unidos e talvez além dos EUA.
A
Groenlândia é vista como um nó potencial nessa rede, o que explica o interesse
dos oligarcas em dominar a ilha, que se tornaria um laboratório potencial para
eles administrarem, sem supervisão ou prestação de contas a ninguém. Na visão
delirante dos oligarcas defensores da ideologia mal classificada como
anarco-libertária, também apoiada pelo embaixador dos Estados Unidos na
Groenlândia, Ken Howery, a ilha congelada seria uma cidade livre dos
“Estados-Nações.”
As nações digitais e a Praxis
Segundo a
revista Vanity Fair, a Praxis (praxisnation.com)
foi criada para salvar a civilização ocidental. Defende uma rede global de
cidades que funcionaria fora do controle de Estados-Nações, fora de qualquer
controle financeiro e governada por oligarcas das Big Techs. Para a Praxis,
Estados-Nações são coisas do passado e “Nações Digitais, alinhadas em
comunidades em cadeia com aspirações de status de Estado, emergirão como o novo
paradigma político global”. Em manifesto intitulado Nações Digitais,
postula:
“O sistema global moderno, no passado o maior poder na história humana, se
tornou uma frágil, improvisada engenhoca incapaz de realizar as mais básicas
funções. Administradores dos “Estados-Nações” estão correndo para manter o seu
sistema diante de uma onda crescente de crises. Enquanto estas instituições que
governam continuam a degradar-se, as pessoas se darão conta de que ninguém está
do lado delas e que elas são abandonadas pelos mesmos sistemas cujo objetivo
era servi-las. Quando reconhecerem esse fato, entenderão que a sua sobrevivência
e prosperidade não depende das estruturas existentes, mas de sua reunião com
outras pessoas em um mundo crescentemente fraturado. Simultaneamente, as
ferramentas da Internet para alinhamento, coordenação e financiamento estão
ficando cada vez mais potentes. Enquanto os “Estados- Nações” fracassam, as
“Nações Digitais” tornam-se inevitáveis.”
Os
ideólogos de um futuro baseado em “Nações Digitais” acreditam que a principal
batalha no mundo atual é conquistar as mentes dos indivíduos, porque tudo depende
das mentes, seja das massas, seja daqueles que controlam bens estratégicos, em
contraste com a posse da terra, que foi no passado o espaço primordial dos
confrontos. Para eles, “hoje nos encontramos em um ponto de inflexão, onde
o poder é determinado de forma progressiva pela habilidade de capturar o
‘mercado de consciências’ (mindshare em inglês) de comunidades
globais dispersas. Os tradicionais Estados-Nação, construídos sobre territórios
físicos e governos de cima para baixo, não estão mais alinhados com a maneira
como as pessoas formam suas identidades e organizam suas vidas.”
Um
aspecto central da teoria sobre o futuro do mundo divulgada pelos líderes ditos
anarco-libertários é a substituição das velhas moedas pelas criptomoedas, que,
para eles, já criou um novo e completo sistema financeiro paralelo. As “Nações
Digitais” serão parteiras das “Cripto Nações”, uma vez que “o frenesi
especulativo atual das cripto está atraindo os colonos e catalisando a
infraestrutura necessária para transformar um planeta estéril em uma
criptocivilização próspera.”
A Praxis
é o primeiro “Estado Rede, uma aliança de nativos da internet para acelerar o
progresso tecnológico e revitalizar a civilização ocidental. Mais de 14.000
praxianos residem em 84 países e fundaram companhias no valor de 400 bilhões de
dólares. As “Nações Digitais” criam uma nova economia de criptomoedas ao
integrar a infraestrutura ‘onchain’ em instituições paralelas que suplantam as
funções centrais do sistema global.”
A
primeira “Nação Digital” construída pela organização é uma comunidade de
projetos financiados por vaquinha (crowdfunding em inglês) com o
objetivo de tornar realidade a sua visão para o futuro — começando por uma
cidade nova. A Praxis anunciou recentemente que a primeira vaquinha arrecadou
525 milhões de dólares para construir esta cidade, com a participação das
empresas Arch Lending, GEM Digital, Manifold Trading, entre outras, e o apoio
de Tom Schmidt (sócio da Dragonfly), Rob Hadick (sócio da Dragonfly), Anirudh
Pai (sócio da Dragonfly), Mert (CEO dos Laboratórios Helius), Max Novendstern
(cofundador da Worldcoin), Will Price e muitos outros.
A
organização justifica a necessidade desta nova cidade por três razões
principais:
- Liberar possibilidades
tecnológicas e científicas através da formação de uma Zona de Aceleração —
ou Zona Econômica Especial — com forte densidade de talentos, reduzindo
barreiras regulatórias e permitindo inovações disruptivas em inteligência
artificial, criptomoedas, biotecnologia, energia e manufatura avançada.
- Criar modos de vida mais
bonitos e heroicos através do desenvolvimento cultural e institucional.
- Demonstrar ao mundo que é
possível construir uma grande cidade no século 21.
Essa e
outras iniciativas são difundidas como defensoras da liberdade e da inovação,
mas, na verdade, parecem promover ditaduras de corporações, nos quais o uso de
tecnologias de vigilância, políticas de exclusão e o controle de terras revelam
os reais objetivos dos projetos.
A visão de mundo das Big Techs e a hora dos
monstros
A visão
de mundo que vem sendo elaborada por representantes da elite tecnocrática do
Vale do Silício precisa ser mais conhecida por todos, sobretudo por aqueles que
se preocupam com o monopólio das Big Techs e seus aliados sobre a mídia, a
internet e as redes sociais em quase todos os países do planeta.
Muitas
das ideias e projetos resumidamente descritos acima parecem roteiros de filmes
de ficção científica. Também podem ser considerados delírios típicos de “barões
ladrões” — os antigos robber barons dos EUA do início do
século 20 — divorciados das realidades dos povos. Na verdade, porém, eles
expressam a análise profunda que esse setor da burguesia monopolista faz da
crise do capitalismo financeirizado e das soluções que vislumbra para
resolvê-la mantendo sua hegemonia. O desejo de criar um Éden baseado em novas
tecnologias e muita testosterona revela que pretendem destruir os Estados e as
nações para substituí-los por uma nova estrutura utópica na qual serão
dominantes através de uma rede de cidades livres de qualquer lei ou regra
atualmente vigente.
Figuras
como Peter Thiel, fundador da Palantir, ou Musk demonstram não ter nenhuma
solidariedade com bilhões de seres humanos que sofrem com as consequências das
revoluções coloridas, guerras e invasões imperialistas
organizadas pelo chamado Estado Profundo dos Estados Unidos e seus aliados no
Reino Unido e na OTAN. Não é à toa que colaboram com o sionismo do
Estado de Israel para desenvolver tecnologias de vigilância e monitoramento,
via inteligência artificial, usadas também pela polícia de imigração (ICE) no
governo Trump 2.0. A Palantir, por exemplo, tem recebido contratos no valor de
bilhões de dólares do governo dos EUA, principalmente do Ministério da Guerra,
para desenvolver software e inteligência artificial para analisar dados d os
cidadãos coletados por diversos órgãos do governo.
Se, por
um lado, estes supostos libertários entendem corretamente que o império dos
Estados Unidos está decadente e, portanto, incapaz de manter sua hegemonia por
muito mais tempo, por outro ocultam que as Big Techs que sustentam o império
dependem das tetas do governo, como diria Delfim Neto, para continuar a
crescer, bloquear a concorrência com a China e os BRICS e fortalecer todo tipo
de manifestação neofascista, entreguista, racista, homófoba e misógina que
prolifera nas redes cada vez menos sociais.
A
caracterização desta ideologia como anarquista é também falsa. Embora se
proponha como alternativa inevitável aos falidos “Estados-Nações”, o anarquismo
de uma rede de cidades livres e autônomas em um “criptomundo” nada mais é do que
a substituição dos Estados nacionais por “Nações Digitais” vigiadas,
organizadas e dirigidas por uma “tecnoelite” globalizante, que se acha mais
inteligente, democrática e progressista, porém sem nenhuma ética ou compromisso
com a democracia, com o planeta e, por que não dizer, com a humanidade.
Ademais, a ideologia das tais “Nações Digitais” lembra muito o mundo distópico imaginado por
Orwell no livro 1984, onde a sociedade era dirigida por
uma elite ditatorial que controlava as mentes e os comportamentos dos
indivíduos.
Gramsci
um dia escreveu no livro Cartas do Cárcere:
“O velho mundo está morrendo e o novo mundo luta por nascer: agora é a hora
dos monstros.”
Ele se
referia ao declínio da aristocracia e do capitalismo no início do século 20, na
Europa, combinado com a falência da democracia liberal, que levou o continente
europeu ao confronto entre o fascismo e o socialismo. Durante este período de
transição entre o velho e o novo, segundo Gramsci, a instabilidade, a incerteza
e forças reacionárias predominam, criando um caldo de cultura para o
extremismo, ditaduras e monstros políticos ou movimentos reacionários que
ganham força nos tempos de desordem.
Qualquer
semelhança entre o que pensam e fazem Trump e seus asseclas como Marco Rubio ou
JD Vance, os líderes europeus Starmer, Merz, Macron, Von der Leyen, Rutte,
Kallas, entre outros — sem falar na rede de pedofilia liderada por
Epstein — além de Thiel e Musk, entre muitos outros, não é
nenhuma coincidência. Podemos também incluir nesta lista os papagaios de
pirata, amigos dos monstros, do sul do Equador, como Bolsonaro, Milei, Noboa ou
Bukele. A aliança de neofascistas com falsos anarquistas libertários faz parte
de uma complexa combinação de interesses de classe em desenvolvimento há pelo
menos uma década, sustentada pelo capital financeiro e conglomerados de
empresas transnacionais de tecnologia informacional que produzem mentiras no
atacado para tentar enganar a grande maioria dos povos do Sul e Norte globais.
O novo
mundo já nasceu e cresce a passos rápidos, liderado pela China e Rússia, em
aliança cada vez mais sólida com países que fazem parte do BRICS Plus, da
Organização de Cooperação de Xangai e muitos outros da Ásia e da África
Subsaariana. Neste mundo novo, o que está em pauta é a soberania dos “Estados
Civilização”, dos “Estados-Nação”; o comércio e o desenvolvimento ganha-ganha;
o multilateralismo; a paz; a diversidade de culturas; enfim, o futuro
compartilhado por todos e para todos, conforme tem afirmado o presidente da
China, Xi Jinping. Neste novo mundo, não haverá espaço para monstros!
Eduardo Siqueira é professor
na Universidade de Massachusetts, Boston, EUA e pesquisador do Observatório Internacional da FMG.
[Iustração: A arquitetura tecnológica global torna-se o novo
terreno da disputa por hegemonia e reorganização da soberania estatal. Foto:
Nabeel Hussain / Unsplash]
Há espaço para a Soberania Digital https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/brasil-na-era-digital.html

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