04 março 2026

Irã: guerra prolongada

“Iranianos estão preparados para seis meses de guerra. Para eles, vencer é simplesmente não ser vencido”, diz ex-diplomata
No Observatório de Geopolítica da TV GGN, Valadares explica por que os EUA dificilmente vencerão o Irã, e Tatiana Teixeira expõe motivos para Trump entrar na guerra
Cintia Alves/Jornal GGN     

Em meio à escalada da guerra dos Estados Unidos-Israel no Irã, analistas têm apontado que dificilmente o regime iraniano sairá derrotado desta nova ofensiva. Segundo o diplomata aposentado Tadeu Valadares, a sociedade iraniana tende a se unir ainda mais contra a ameaça externa. Além disso, a mídia internacional tem colhido depoimentos que apontam que o arsenal de mísseis usado até agora nas retaliações do Irã são de equipamentos “obsoletos”. Ou seja, o uso de tecnologia de ponta contra Israel e as bases norte-americanas no Oriente Médio ainda está por vir.

“Temos um quadro em que fica claro que não será rápido. Muitos especialistas em armamento dizem que EUA e Israel estão com poucas reservas de armas de defesa antimísseis. Na guerra de 12 dias, lá pelo sétimo e oitavo dia, Israel já não tinha como sustentar sua defesa antimísseis e os EUA entraram para fechar aquele episódio, que agora foi reaberto. Só que os iranianos avisaram que, dessa vez, a coisa será diferente. Muito provavelmente por terem assassinado o líder religioso e outros 40 e tantos líderes e religiosos de alto nível, eles despertaram nos iranianos a noção muito clara de que agora, para eles, é uma guerra pela sobrevivência”, apontou Valadares.

Ex-embaixador em Bucareste, São José e Doha, Tadeu Valadares é um dos analistas do time do Observatório de Geopolíticaprograma que estreou a nova temporada de 2026 no canal TV GGN, no Youtube, na noite de segunda-feira, 2 de março. Ancorado pelo cientista político e analista de relações internacionais Pedro Costa Jr, o programa também contou com a participação da editora-chefe do Observatório Políticos dos Estados Unidos (OPEU), Tatiana Teixeira, que falou sobre as pressões internas e figuras que levaram Donald Trump à guerra contra o Irã.

Trump chegou a anunciar à imprensa que a campanha militar levaria cerca de 4 a 6 semanas para ser concluída. Porém, segundo Valadares, os iranianos estão prontos para prolongar essa guerra, o que deve levar o governo dos Estados Unidos a um desgaste interno ainda maior do que vive hoje. Na visão de Valadares, os EUA não contavam que o assassinato do aiatolá Ali Khamenei logo no primeiro dia de ataque elevaria o conflito a outro patamar para o Irã. 

“Há muitas teorias. Alguns analistas dizem que quem está conduzindo essa guerra não entende o Irã historicamente. A pior coisa que eles poderiam fazer, eles fizeram, que foi assassinar o aiatolá Ali Khamenei. O xiismo [vertente do Islã que acredita que a liderança política e religiosa deve descender de Maomé] é o mais mobilizado politicamente. Os xiitas têm um complexo de culpa porque eles acham que deveriam ter apoiado, lutado e morrido com o neto de Maomé na batalha de Karbala [que resultou na divisão entre o islamismo sunita e xiita]. É por isso que eles se autoflagelam. O xiismo iraniano é absolutamente politizado. E isso ficou evidente na Revolução Islâmica. Eles têm esse culto de que é preciso se sacrificar para que eles estejam à altura do momento atual e não repetir a batalha de Karbala. Então eles a gora estarão cada vez mais unidos”, explanou Valadares.

“Os iranianos estão preparados para 6 meses de guerra. Para eles, vencer é simplesmente não ser vencido, ou seja, não ser balcanizado pelos EUA. Para os EUA, vencer é impossível no sentido literal, de ocupar o país por terra ou através de uma estratégia que leve à uma revolução popular que destrua o país”, acrescentou o diplomata aposentado.

Ainda de acordo com o ex-diplomata, a estratégia dos Estados Unidos e Israel, de lançar mão de bombardeios maciços sobre o Irã, não resolverá a guerra a curto prazo. Uma campanha terrestre tampouco seria rápida, porque o Irã é uma fortaleza natural. “Colocar tropas no Irã é possível, mas é altamente improvável e leva muito tempo. Ele tem barreiras naturais e um dos desertos mais hostis do mundo. Eles têm todas as vantagens de uma defesa convencional.”

Os fatores que levaram os Estados Unidos à guerra no irã

Pesquisadora de Pós-Doutorado da Universidade Federal de Uberlândia, Tatiana Teixeira também compôs a bancada do Observatório de Geopolítica do canal TV GGN e explicou os motivos que levaram os Estados Unidos à guerra no Irã. Ela listou as cinco principais razões:

1- Epstein Files e o desgaste sofrido por Donald Trump. Lembrando que o serviço secreto de inteligência de Israel, Mossad, deve ter material explosivo para chantagear Trump – amigo de Epstein – e induzi-lo a se alinhar aos interesses do regime de Benjamin Netanyahu no Oriente Médio.
2 – A situação econômica dos Estados Unidos, que tem deixado a população doméstica alvoroçada, o que leva ao terceiro motivo…
3 – A baixa aprovação do governo Trump, que está com abaixo de 40% – uma média de 36% de aprovação, considerando vários institutos de pesquisa.
4 – A intensa polarização política interna, como raramente se viu na história dos EUA, que aprofunda a divisão interna e leva ao quinto motivo…
5 – O aumento das tensões eleitorais. Em alguns meses, os EUA terão as eleições de meio mandato, com boa parte dos analistas antecipando a derrota do Partido Republicano na Câmara e Senado. Isso sem contar a turbulência que será causada pelas ameaças de Trump ao próprio processo eleitoral.

Segundo explicou Tatiana Teixeira, todos esses fatores internos formam “um contexto de forte polarização e pressão eleitoral, e a política doméstica se entrelaça às decisões de política externa. Isso pressiona um governo que precisa, mais uma vez, de uma estratégia de distração e de caos informacional.”

Para ela, “é para desviar a atenção das vulnerabilidades internas do governo” que Trump recorreu à guerra contra o Irã ao lado de Israel. Mas “essa guerra contra Irã não faz sentido para a maioria dos americanos. Menos de 30% aprovam. E faz menos sentido ainda quando os americanos lembram da promessa que Trump fez na campanha, de evitar novas guerras.”

Por tarifas, Trump admite que EUA estão quebrados https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/eua-imbroglio-finaneiro.html 

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