Por dentro do Irã: origens históricas do conflito com os EUA
Como décadas de ingerência externa, disputas energéticas e resistência nacional ajudam a explicar a escalada militar contemporânea
Carlos Azevedo/Portal Grabois https://grabois.org.br/
Este texto é uma resenha do livro Por dentro do Irã: a verdadeira história política da República Islâmica, de Medea Benjamin.
Início de 2026, o governo dos Estados Unidos desloca para o Oriente Médio uma frota de porta-aviões e outros armamentos em escala sem precedentes fora de tempo de guerra. O presidente Trump repete a ameaça de que o plano é atacar o Irã, mas logo depois diz que prefere negociar. A imprensa do país imperial vem em seu auxílio promovendo o pânico ao anunciar que a ofensiva é iminente. Ameaça que se concretizaria semanas depois. O governo da república islâmica responde afirmando que pode causar danos irreparáveis aos interesses dos Estados Unidos na região. Apesar de toda a tensão, há uma sensação de que já vimos esse filme. Os Estados Unidos ameaçam atacar o país persa desde 1979, quando se deu a Revolução Iraniana.
Por que tanta hostilidade contra o Irã?
A resposta não é simples. Em primeiro lugar, é preciso ter em vista a política imperial, que sempre busca exercer influência sobre outros países e povos, promover governos submissos e se apropriar de suas riquezas. No caso concreto, os Estados Unidos se ofendem porque o povo do Irã derrubou uma dinastia serviçal ao império, do xá Reza Pahlavi, invadiu sua embaixada e manteve seus diplomatas reféns por 444 dias. O poder foi assumido por clérigos radicais muçulmanos xiitas e esse governo se opõe aos aliados do governo dos Estados Unidos no Oriente Médio, como a Arábia Saudita e Israel, apoia e arma os movimentos palestinos como o Hamas, a Jihad Islâmica e o Hezbollah, partido revolucionário do Líbano.
Além do mais, o Irã em tese é uma presa extremamente atraente para os apetites imperiais. País estrategicamente posicionado na Ásia Ocidental, tem sete vizinhos, Afeganistão, Paquistão, Armênia, Azerbaijão, Turcomenistão, Iraque e Turquia. Está próximo da Índia e da China. Detém o litoral do Golfo Pérsico e domina o Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do petróleo mundial. Tem enormes reservas de petróleo e é um importante produtor. Presa atraente, mas não é fácil.
Civilização persa e identidade histórica
Os governos e políticos ocidentais padecem de grande ignorância sobre o Irã. Costumam confundi-lo com os povos árabes que vivem no Oriente Médio. Os iranianos não são árabes. Seus 90 milhões de habitantes são persas, falam a língua persa, o farsi, e têm uma longa tradição que vem desde a Antiguidade. É mais antigo do que qualquer nação ocidental, tem 2.500 anos e foi um grande império, que se estendia por três continentes, Norte da África, os Bálcãs europeus e tinha sede em Persépolis, na Ásia Central. Seu auge se deu sob o governo de Ciro o Grande, generoso defensor dos direitos humanos, e se estendeu entre 550 a 350 a.C. (antes de Cristo).
Sua influência cultural, arquitetura, arte, escrita, filosofia, estendeu-se muito além de suas fronteiras, para Europa, África, China e Índia. Exaurido por guerras com o Império Bizantino, sucumbiu à invasão árabe que se deu a partir de 633 d.C. (depois de Cristo). Com o tempo, a maioria dos iranianos se converteu ao islamismo, do ramo xiita, seguidores do Imã Ali, primo e genro do profeta Maomé, que é a religião predominante até nossos dias. Embora tenha sido islamizado, o Irã não foi arabizado. Os persas permaneceram persas.
Devido à localização estratégica, o país foi alvo de inúmeras invasões ao longo dos séculos, começando pelos mongóis de Gengis Khan, no século 13. Mas sua cultura permaneceu forte e se faz presente em todo o mundo muçulmano. O O Xá Abbas, o Grande, governou de 1588 a 1629. Construiu a sua capital, Isfahan, joia da coroa da arquitetura islâmica. Fez acordos com os ingleses. Auxiliado por eles, retomou o Estreito de Ormuz, que havia sido ocupado por Portugal, e restabeleceu sua presença no Golfo Pérsico. O período registra também o crescimento do papel do clero xiita e perseguições aos sunitas, sufis, judeus, cristãos e outros.
Sofreu invasões, como em 1722, por um exército afegão de Candaar. O chefe militar Nader conseguiu expulsar os invasores em 1729 e se tornou Xá. Tinha sede de conquista, formou um exército de 375 mil soldados, considerado o maior do mundo na época, conquistou territórios desde a Índia até o Iraque. Ditador brutal, foi assassinado em 1747. O país caiu em um período de anarquia, chefes militares formaram feudos, a população sofreu com a violência e a fome.
No fim do século XVIII, o país foi reunificado pelo Xá Aga Maomé Cã Cajar e viveu um período de recuperação e paz. Mas teve que enfrentar novos desafios provocados por interferências e rivalidade entre britânicos, russos e franceses. Em 1800 a Grã-Bretanha enviou uma missão com 500 homens ao Irã e o Xá assinou um tratado comercial e um acordo de armas com os britânicos.
A Rússia anexou a província iraniana da Geórgia, o Xá pediu ajuda aos britânicos que recusam por estarem aliados à Rússia contra os franceses. O Xá se aproximou dos franceses com os quais assinou um tratado, a França tornando-se protetora e parceira comercial. Mas logo fez as pazes com a Rússia e o Irã ficou desprotegido. Em 1809 os britânicos enviaram nova missão para reconquistar o controle do Irã. Prometeram apoio contra intervenção de qualquer potência europeia, mas em 1812 quando os britânicos foram chamados para arbitrar um tratado do Irã com a Rússia sobre terras disputadas no Cáucaso, os britânicos favoreceram a Rússia.
O “Grande Jogo” e as intervenções estrangeiras
O Irã teve que entregar Baku, Tbilisi, Darband e Ganja para a Rússia e a marinha iraniana foi excluída de entrar no Mar Cáspio. Os iranianos perderam a confiança nos ingleses e nas outras potências europeias. O Irã se percebeu como peão no que ficou conhecido como o “Grande Jogo”.
No início da década de 1870, endividado e sem alternativa, o Irã deu enormes concessões econômicas aos britânicos alienando estradas, telégrafos, moinhos, fábricas, extração de minerais, florestas e obras públicas. Esse acordo foi descartado um ano depois devido à indignação popular e pressão da Rússia.
Em 1890, pela primeira vez os clérigos xiitas perceberam sua força na sociedade iraniana. Um empresário britânico recebeu o controle total sobre a produção, venda e exportação de tabaco por 50 anos. Os comerciantes e os clérigos xiitas somaram forças e resistiram ao acordo e o Xá foi obrigado a voltar atrás.
A concessão mais lamentável se deu em 1901 com a concessão pelo Xá de direitos exclusivos de perfuração de petróleo a um empresário britânico. Foi o primeiro passo na tomada dos recursos petrolíferos do Irã pelo Reino Unido.
Ao mesmo tempo, crescia na opinião pública iraniana a desconfiança sobre a credibilidade das atitudes dos governos estrangeiros e com a natureza exploradora de suas empresas. Nenhum deles seria confiável. E crescente frustração pública com os fracassos dos governantes em defender a soberania da Nação. Somada ao descontentamento pela elevada inflação, resultou em 1906 na Revolução Constitucionalista que conquistou uma assembleia constituinte que produziu uma Constituição, fortaleceu o Parlamento tornando o governo mais representativo da sociedade e reduzindo os poderes do Xá. O islamismo xiita conseguiu mais espaços, tornando-se religião oficial.
As potências estrangeiras não estavam satisfeitas. Em 1907, Reino Unido e Rússia assinam acordo dividindo o Irã em duas partes, zona russa e zona britânica, desconsiderando a soberania do país. O Parlamento foi impotente para impedir isso. Em 1908, os britânicos iniciaram a exploração de petróleo sem nada pagar ao Irã que tinha a economia arruinada.
Em 1908, o Xá e os ricos seus apoiadores, com incentivo da Rússia, deram um golpe militar contra o Parlamento bombardeando o prédio e matando 250 pessoas. A reação popular promoveu uma guerra civil por dois anos e o Xá foi obrigado a abdicar.
Em 1914, quando a Primeira Guerra Mundial estourou, a Inglaterra decidiu incorporar o Irã inteiro ao Império Britânico. Pagou 600 mil dólares ao primeiro-ministro para fazer passar a proposta no Parlamento. Mas o país inteiro se levantou contra e ele teve que renunciar.
O país seguiu atribulado pela insatisfação popular e pelas intervenções das potências europeias. Em 1921 começou a ascensão da dinastia Pahlavi. Reza Khan lidera tropa do Exército que toma o controle de Teerã. Passa a liderar o Exército, pressiona o Parlamento e se torna primeiro-ministro. Em 1926 o Parlamento o coroa como Xá. Ele adota o nome Pahlavi, nome de uma antiga escrita persa.
Forma um Estado centralizado forte e usa o petróleo como receita importante com burocracia eficaz e grande exército permanente. Fez acordo com a Anglo-Persian Oil recebendo apenas 16% dos royalties, essa era uma quantia considerável devido ao grande volume da produção.
Sempre fardado, comanda um regime militar repressivo com milhares de prisioneiros políticos e execução de adversários. Busca ocidentalizar o país até mesmo obrigando as pessoas a usarem roupas ocidentais, as mulheres eram obrigadas a remover o xador, vestido que cobre o corpo e o cabelo. Ultrajando os clérigos xiitas e aterrorizando as mulheres que, sem as roupas tradicionais se sentiam nuas. O projeto do Xá era quebrar o poder da hierarquia religiosa o que lhe rendeu a inimizade dos clérigos.
Na Segunda Guerra Mundial, o Xá resolveu apoiar a Alemanha nazista. Em agosto de 1941, o país foi invadido por uma força conjunta de britânicos e soviéticos. Seu exército, tão poderoso para reprimir o povo, só resistiu por três dias. Foi obrigado a abdicar em favor de seu filho, Mohammad Reza Pahlavi com a condição de que britânicos e soviéticos pudessem ocupar o norte e o sul do país.
O período entre 1941 e 1953 registra um breve período de governo constitucional renovado, o Parlamento voltou a funcionar e o Tudeh, um novo partido socialista vai conquistando a classe trabalhadora. O governo alegou que o Tudeh apoiava secessionistas incentivados pela URSS e lançou uma repressão generalizada. O partido foi proibido, seus jornais fechados, muitos de seus líderes presos e outros fugiram para o exterior.
Apesar disso, a população havia elevado seu nível de consciência política e clamava pela nacionalização da Anglo-Iranian Oil Company.
No vácuo político deixado pelo extinto Tudeh surgiu Mohammad Mossadegh, defensor da Constituição e da soberania nacional e independência diante da dominação estrangeira. Eleito primeiro-ministro tentou encontrar equilíbrio entre as potências europeias. Denunciou antigas concessões de petróleo concedidas a britânicos e russos bem como negociações em curso com empresas dos Estados Unidos. Atendeu a pressão popular pela nacionalização da indústria do petróleo insistindo que era direito inalienável do país ter controle total sobre sua produção, venda e exportação.
Petróleo, soberania e o despertar nacional
Em 1951, Mossadegh uniu diferentes forças políticas para formar uma Frente Nacional. Teve o apoio do aiatolá Kashani, o membro mais ativo politicamente do clero. Foi autorizado pelo Parlamento a nacionalizar o petróleo. Seu governo criou a National Iranian Oil Company, NIOC. Quando a empresa inglesa recusou entregar suas instalações e operações, ele ordenou que a NIOC assumisse seus poços, oleodutos, refinarias e escritórios. A Anglo Oil Company retirou seu pessoal técnico e congelou os ativos do Irã em bancos ingleses. Mossadegh fechou a embaixada inglesa e rompeu relações diplomáticas com a Grã-Bretanha.
Tratou de se fortalecer politicamente e enfraquecer o Xá. Em cadeia de Rádio e TV, disse à Nação que precisava do controle dos militares para impedir que o Xá e os britânicos minassem seu plano de nacionalizar o petróleo. A população inundou as ruas por três dias em protestos contra o Xá que foi obrigado a ceder.
O primeiro-ministro, que os iranianos consideravam incorruptível, devolveu ao Estado terras ilegalmente apropriadas pelo Xá e o proibiu de se comunicar com embaixadas. Buscou o controle dos militares. Comprou apenas armas defensivas e expurgou 136 oficiais militares. Transferiu 15 mil militares para a polícia e cortou o orçamento militar em 15%.
Em julho de 1953, sob sua influência, o Parlamento estava debatendo como substituir a monarquia por uma república democrática. Os britânicos tinham muito a perder com a nacionalização do petróleo iraniano, do qual a economia inglesa tinha grande dependência. Trataram de alarmar seus aliados dos Estados Unidos dizendo que se isso acontecesse, a Indonésia, a Venezuela e o Iraque, grandes produtores de petróleo, seguiriam o mesmo caminho com consequências terríveis para a economia dos dois países. Partiram para a propaganda de guerra aterrorizando a opinião pública chamando Mossadegh de “maluco, fanático, louco, desequilibrado, selvagem” e outros tantos nomes apelativos.
O golpe de 1953 e a consolidação do Xá
A CIA e MI6 começaram a planejar o golpe em fim de 1952. Estavam amplamente infiltrados entre os militares iranianos. Em julho de 1953, Foster Dulles, secretário de Estado dos Estados Unidos, apresentou o plano aos formuladores de políticas e anunciou: “É assim que nos livraremos de Mossadegh”.
Em 15 de agosto, o Xá emitiu um decreto demitindo Mossadegh e nomeando primeiro-ministro o general Zahedi. Mossadegh se negou a renunciar e transmitiu uma mensagem de que o Xá, encorajado por “elementos estrangeiros” havia tentado um golpe. No dia seguinte aconteceram grandes manifestações em apoio a Mossadegh e à Frente Nacional. Provocadores da CIA na multidão atacaram clérigos e mesquitas forçando Mossadegh a condenar a violência. Em 19 de agosto, gangues e soldados pagos pela CIA, em trajes civis, encenaram uma contramanifestação agressiva pró Xá e anti-Mossadegh que levou a turbulência nas ruas ao clímax. A multidão que chegou a Teerã e foi decisiva na derrubada era uma multidão mercenária. Foi paga com dólares estadunidenses.
Em meio ao caos, 32 tanques Sherman entraram na cidade e cercaram prédios importantes, inclusive a casa de Mossadegh. Em seguida, os líderes do golpe transmitiram uma proclamação do Xá nomeando o general Zahedi como novo primeiro-ministro. A luta continuou por mais seis horas. Ficando sem munição, as tropas leais a Mossadegh se renderam. Estima-se que houve 300 mortos.
O presidente Eisenhower disse ao povo estadunidense que o povo iraniano havia “salvado o dia” por causa de sua “repulsa ao comunismo e seu profundo amor por sua monarquia”. Na verdade, o Xá e os militares ficaram fortemente identificados com os interesses imperialistas. Em contraste, Mossadegh é considerado pelo povo um líder nacionalista como Gandhi, da Índia, Sukarno, da Indonésia e Nasser, do Egito.
A repressão foi brutal. Mossadegh permaneceu preso por três anos e o resto da vida em prisão domiciliar. Até os dias de hoje, milhares de estudantes se reúnem no dia da sua morte para prestar homenagem. Todos os partidos e organizações seculares que se opuseram ao Xá foram desmantelados e banidos. A única instituição importante que manteve alguma independência e ainda falava com autoridade moral sobre os problemas do povo foi o clero xiita, preparando o cenário para a Revolução Islâmica de 1979.
Modernização autoritária e repressão
O Xá Mohammad Reza governou com punho de ferro. Estado forte, centralizado e militarizado, tinha dinheiro. O Irã estava recebendo 50% da receita anual da cada vez maior produção de petróleo. Destinou grande parte dessa riqueza a sua prioridade, o exército. O Irã tornou-se o maior comprador de armas do mundo. Construiu a maior marinha do Golfo Pérsico, a maior força aérea da região e o quinto maior exército do mundo. Também construiu um serviço de segurança aterrorizante, com 5 mil homens, além de recrutar um em cada 450 homens adultos como informantes. Torturou, matou e desapareceu com dissidentes políticos. Estima-se entre 25 a 100 mil prisioneiros políticos e a maior taxa de pena de morte do planeta.
O Xá tornou-se megalomaníaco, dizia que recebia mensagens religiosas de Deus e do Imam Ali. Lançou ataques suicidas contra os comerciantes dos bazares e contra o clero xiita. Seus tribunais processaram 180 mil comerciantes, aplicaram 250 mil multas e 8 mil penas de prisão.
Seu apelo pelos direitos das mulheres de votar, de iniciar o divórcio, de viajar sem permissão de um homem foi ferozmente contestado pelo clero. Declarou-se líder espiritual e político. Substituiu o calendário muçulmano por um antigo calendário persa. Assumiu o controle da Faculdade de Teologia da Universidade de Teerã e de outras instituições de ensino religioso.
Pensava ser amado, mas era rejeitado pela intelectualidade, pela classe trabalhadora que apoiara Mossadegh e o via como um fantoche americano e britânico. A classe média conservadora de comerciantes, proprietários de terras e os clérigos haviam cortado seus laços com ele. A dinastia Pahlavi havia chegado ao fim.
A Revolução Islâmica e a ascensão do clero
A Revolução islâmica de 1979 que levou ao poder uma teocracia fundamentalista foi uma combinação complexa de nacionalismo, populismo e radicalismo religioso. Enfraquecidas pela repressão do Xá as forças progressistas foram superadas pelo clero xiita a única força política que fora tolerada pela ditadura. A tomada do poder teve um caráter popular. Imensas massas armadas foram as ruas e cercaram os quartéis tornando os militares impotentes apesar da repressão sangrenta.
Mantido no exílio por 15 anos e sempre criticando o regime, o aiatolá Khomeini havia se tornado muito popular. Assume o poder, contrariando as forças progressistas, e defende que não haja separação entre Igreja e Estado. Forma-se um governo provisório, mas em paralelo Khomeini cria o Conselho dos Guardiões formado por religiosos. As forças seculares acusam violação da soberania popular e de consagrar o clero como “classe dominante”.
Os Estados Unidos dão asilo ao Xá e os iranianos se revoltam. Quatrocentos estudantes invadem a embaixada estadunidense em Teerã e fazem os diplomatas de reféns por 444 dias. Khomeini recusa intervir. O primeiro-ministro Barzaghan renuncia. Khomeini venceu. Uma Constituição islâmica foi aprovada em dezembro de 1979.
Guerra, islamização e consolidação do regime
Em 1980, o Iraque de Saddam Hussein invade o Irã, que tem um exército forte herdado do Xá e reage duramente. Foi uma guerra brutal que iria durar por oito anos com cerca de 400 mil mortos somando os dois lados. Os Estados Unidos procuram se aproveitar jogando um contra o outro, vendendo armas aos dois beligerantes.
Por iniciativa do governo dá-se uma islamização da sociedade enquanto acontece uma centralização da economia com empresas passando à posse do Estado (sem esquecer o petróleo cuja produção e venda estavam nacionalizadas). Importantes benefícios foram dados à classe trabalhadora. Ao mesmo tempo ocorreu um aumento da repressão a outros credos religiosos e a qualquer manifestação de oposição ou descontentamento. Toda publicação tornou-se alvo de censura. Direitos das mulheres foram suprimidos. Em dois anos cerca de 500 oponentes foram executados. Os prisioneiros políticos contavam-se aos milhares.
Logo após o fim da guerra contra o Iraque, em 1988, o aiatolá Khomeini autorizou outra rodada de execuções em massa. Um expurgo político sem precedentes, estimado em pelo menos duas mil execuções de prisioneiros políticos. A organização Human Rights Watch considerou um crime contra a humanidade.
Com a morte de Khomeini, em 1989, seu sucessor Ali Khamenei tentou enfrentar a crise econômica restabelecendo laços com o Ocidente. Um acordo com a empresa estadunidense de petróleo de 1 bilhão de dólares foi barrado pelo governo de Bill Clinton. O programa de energia nuclear iraniano provoca sanções dos Estados Unidos e outros países ocidentais. Em 2002 o presidente Bush declarou o Irã como fazendo parte do “eixo do mal” junto com Coreia do Norte e Iraque.
Em 2005 o populista conservador Ahmadinejad vence as eleições e irá governar num clima repressivo e de agravamento das relações com os Estados Unidos, tendo sempre como motivo ou pretexto o programa de energia nuclear iraniano. Sua reeleição em 2009 é acusada de fraude. Surge o movimento “onde está meu voto?” Seu líder Mega Aghan Soltan foi moro a tiros. E o movimento cresce e enfrenta a repressão por vinte meses culminando com a proposta de fim da República Islâmica.
Em 2013, assume um presidente reformista, Hassan Rouhani, que promoveu mais liberdade. Foi reeleito em 2017 com uma votação contra o domínio dos aiatolás. O poder secular e o poder religioso se confrontam num ambiente de abertura política. Mas o aiatolá continua a ser o líder supremo, controla os militares (cuja elite forma a Guarda Revolucionária) o judiciário, imprensa, rádio, TV, as agências policiais de repressão.
Numa demonstração de capacidade científica, técnica e habilidades pessoais o Irã desenvolve ainda mais seu programa de energia nuclear e enriquecimento de urânio. Os Estados Unidos e seus aliados ocidentais retaliam assassinando seus cientistas, aplicando pesadas sanções, produzindo crise na economia, inflação, escassez de alimentos e outros bens como gasolina refinada.
O alvo principal é o programa de energia nuclear. São feitas exigências absurdas, como o fim do programa, consideradas inaceitáveis pelo Irã. As pressões têm resultado contrário porque o Irã acelera ainda mais o programa e chega a três meses de produzir a bomba nuclear.
Programa nuclear, sanções e realinhamento geopolítico
Em 2015, o governo Obama recua e aceita que o Irã continue desenvolvendo o enriquecimento do urânio desde que não chegue ao ponto de poder produzir uma bomba e que seja rigorosamente fiscalizado pela Agência Internacional de Energia Atômica, controlada pelas potências ocidentais. Esse acordo, chamado 5+1, porque firmado com os Estados Unidos e as potências europeias alivia as sanções que haviam provocado grandes sofrimentos à população que manifestava fortemente sua insatisfação mantendo o governo entre dois fogos.
Cem bilhões de dólares congelados foram liberados, o país compra aviões da Boeing e Airbus. A francesa Total investe na exploração de um grande campo de gás, a Citroën volta a fabricar carros no Irã. Um dos mais interessantes resultados do isolamento do Irã promovido pelas potências ocidentais foi o crescimento de seu relacionamento com a China, grande compradora de petróleo, tornou-se seu principal parceiro comercial, fornecendo equipamentos, bens de consumo e armas. A Índia também estreitou relações e é o segundo parceiro comercial. Com a Rússia foram restabelecidas relações estratégicas na área militar envolvendo armas de última geração, transações no setor de petróleo e fornecimento de equipamentos. As sanções ocidentais acabaram por jogar o Irã nos braços de seus adversários estratégicos.
O foco da estratégia internacional do Irã é a defensiva ativa. Não ataca ninguém, mas se atacado se defenderá. Apoia com recursos e armas os seus aliados com o xiita Hezbollah no Líbano, os palestinos Hamas e Jihad Islâmica, os houthis no Iêmen, como apoiava a Síria enquanto Assad governava, que estão em confronto com os Estados Unidos e Israel. Por isso, o Irã é permanentemente ameaçado por Israel, e é hostilizado por Arábia Saudita e Emirados Árabes, todos armados até os dentes pelos Estados Unidos.
Em 2017 o presidente recém-eleito Donald Trump rompeu o acordo com o Irã sobre o seu programa nuclear, que chamou de “o pior acordo já negociado”.
Em seu segundo governo, em 2025, Trump lançou um ataque militar contra o Irã bombardeando as instalações do programa nuclear. Chegou mesmo a declarar que havia destruído totalmente o programa, o que não era verdade. O Irã continuou desenvolvendo o processo de enriquecimento do urânio, sempre alegando que é para fins pacíficos.
No início de 2026, o governo Trump mantinha tensas negociações com o Irã, faz exigências de encerramento do programa nuclear e ultimamente também para paralisar a produção de mísseis de alcance continental e grande potência que o Irã desenvolveu e do qual já havia dado uma didática, mas moderada demonstração ao lançar contra Israel alguns desses mísseis na ocasião que era bombardeado pelos Estados Unidos. As defesas de Israel foram impotentes para contê-los.
No momento atual, o governo Trump deslocou formidável frota militar para o Oriente Médio e concretizou a ameaça de ataque ao Irã, em operação conjunta com Israel, em 28 de fevereiro de 2026. A ação foi apresentada como instrumento de pressão para que a República Islâmica capitule e aceite os termos de um acordo humilhante. Como tantas vezes em sua história recente, repetiu-se: não vai ser fácil.
Serviço
Título: Por dentro do Irã: a verdadeira história política da República Islâmica
Autora: Medea Benjamin
Tradução: Amauri Gonzo
Editora: Autonomia Literária
Ano: 2025
ISBN: 978-65-5497-059-4
Trump mente sobre risco nuclear do Irã https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/trump-mente-e-agride.html

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