05 janeiro 2026

Imperialismo mostra suas garras

Falar em imperialismo é cafona? A Venezuela e a lógica da dominação
Sequestro do presidente da Venezuela pelo exército dos EUA demonstra que o imperialismo está mais vivo do que nunca
Theófilo Rodrigues/PortalGrabois 
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Em 1914, pouco antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial, Karl Kautsky, então principal dirigente da social-democracia alemã e da II Internacional, publicou na Die Neue Zeit o artigo Ultra-imperialismo, que se tornaria referência nos debates da época. Seu argumento era relativamente simples: a rivalidade violenta entre as potências capitalistas tenderia a dar lugar, em um estágio posterior, a uma cooperação entre elas  uma espécie de cartelização da política externa ou “santa aliança dos imperialistas”  capaz de conter a corrida armamentista e estabilizar o sistema internacional.

Lênin discordou frontalmente dessa leitura. Em Imperialismo, fase superior do capitalismo (1916), argumentou que o ultra-imperialismo não passava de uma “consolação arqui-reacionária das massas”, pois ignorava o caráter estrutural da concorrência capitalista. Para ele, a exportação de capitais  traço central do capitalismo financeiro  não atenuaria, mas aprofundaria as contradições entre Estados, tornando as guerras não acidentes históricos, mas expressões da luta pela redistribuição de mercados, territórios e esferas de influência.

As tragédias da Primeira e da Segunda Guerra Mundial deram razão a Lênin. O capitalismo não caminhou para uma governança global pacificada; ao contrário, a competição interestatal se intensificou, assim como a colonização, a dominação econômica e a violência imperialista.

Com o fim da União Soviética e a ascensão do neoliberalismo nos anos 1990, versões renovadas da tese do ultra-imperialismo reapareceram sob o nome de “globalização”. Em suas formulações mais fortes, defendia-se que o capital teria se tornado transnacional, os Estados-nação perderiam centralidade e o imperialismo seria um conceito ultrapassado, substituído por mercados integrados, instituições multilaterais e mecanismos de governança global.

A prática externa da maior potência de nosso tempo, no entanto, insiste em desmentir essa tese. No início dos anos 2000, o governo George W. Bush justificou a invasão do Iraque com a alegação – posteriormente desmentida – de que o país estaria produzindo armas de destruição em massa. Como sabemos, logo após as bombas, chegarem ao território iraquiano os gerentes da Halliburton – empresa de petróleo vinculada ao vice-presidente dos EUA, Dick Cheney – para assumir a exploração e produção da principal riqueza do país.

No último sábado o mundo acordou atônito com a notícia de que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, foi sequestrado pelo exército dos EUA e levado para Nova York para ser julgado por narcoterrorismo. Em coletiva para a imprensa, Donald Trump, sem qualquer constrangimento, explicou a razão daquele ato de guerra:

“Vamos incentivar nossas grandes empresas de petróleo dos Estados Unidos, as maiores do mundo, a entrar na Venezuela.”

Ou seja, mais uma vez, a principal potência militar do mundo promove a guerra para garantir a acumulação do capital de suas empresas nacionais. Qual o nome disso mesmo?

Circulou recentemente um vídeo em que uma jornalista brasileira afirma que “falar em imperialismo é cafona”. Cafona, no entanto, é ignorar que o mundo contemporâneo segue sendo atravessado pela violência estrutural do capital, mediada por Estados, exércitos e mercados. Se há algo fora de moda, é a ilusão de que o capitalismo teria superado suas próprias contradições.

Theófilo Rodrigues é professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da UCAM e coordenador do Grupo de Pesquisa da FMG sobre a Sociedade Brasileira.

Paz e soberania na Venezuela! Sangue por petróleo, não! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_5.html 

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