06 janeiro 2026

Thiago Modenesi opina

Após a invasão na Venezuela haverá mesmo um feliz ano novo para o mundo?
Ataque direto dos EUA à Venezuela rompe o direito internacional, expõe a lógica do intervencionismo e coloca a soberania latino-americana sob ameaça inédita.
Thiago Modenesi/Vermelho    

A ação militar executada em 3 de janeiro de 2026 representa um ponto de inflexão catastrófico nas relações interamericanas e no direito internacional, um marco de ruptura histórico. Pela primeira vez na história moderna, os Estados Unidos realizaram um ataque direto, sem qualquer cobertura legal internacional, contra uma nação soberana das Américas para capturar e remover seu chefe de Estado. Este ato não é apenas uma agressão à Venezuela, mas sim um ataque frontal aos princípios fundacionais do sistema interamericano, à Carta da ONU e, paradoxalmente, às próprias leis dos Estados Unidos que tradicionalmente, ainda que de forma seletiva, procuravam justificar suas intervenções.

A iniciativa de Trump contém um paradoxo profundo: ao buscar demonstrar força máxima e “resolver” unilateralmente a questão venezuelana, ele destruiu completamente a última camada de legitimidade. Durante décadas, essa hegemonia se sustentou não apenas pelo poderio militar incontestável, mas pela pretensão, e muitas vezes pela capacidade, em representar algo além do puro poder: supostas ideais de democracia, legalidade e ordem internacional.

Os Estados Unidos sempre desrespeitaram o direito internacional quando lhes foi conveniente (Guatemala em 1954, República Dominicana em 1965, Brasil em 1964, Chile em 1973, Panamá em 1989, Iraque em 2003). No entanto, mantinha-se uma ficção essencial: a de respeitar as formas legais. Inventavam-se justificativas (combate ao comunismo, restauração democrática, armas de destruição em massa…), buscava-se, ainda que de forma manipulada, o aval da OEA ou passavam-se resoluções pelo Conselho de Segurança da ONU. O sistema, embora desigual, mantinha uma gramática comum.

Em 3 de janeiro de 2026, essa gramática foi abandonada. O governo Trump nem sequer fingiu. Agiu com violência nua e arbitrariedade explícita, estabelecendo um precedente que ameaça toda e qualquer nação que se coloque na mira de potências que decidam agir como juízes, júris e carrascos globais.

A Venezuela detém a maior reserva de petróleo do mundo, explora o recurso mineral há mais de 100 anos, e hoje vende cerca de 80% da produção para a China. A invasão com o sequestro do presidente Nicolás Maduro tem como pano de fundo o petróleo, que foi nacionalizado pelos venezuelanos na década de 70 do século XX, muito antes dos bolivarianos chegarem ao poder com Hugo Chávez.

A gravidade do ato é evidenciada pelas reações internacionais. Pela primeira vez, uma ação estadunidense foi criticada abertamente não apenas pela esquerda global e por governos do Sul, mas também por importantes figuras da direita e extrema-direita europeia. Líderes como Giorgia Meloni (Itália) condenaram, ainda que sutilmente, afirmando que “a ação militar externa não é a via para pôr fim aos regimes totalitários”, também a francesa Marine Le Pen repudiou o ataque à Venezuela. Quando até aliados ideológicos históricos atacam uma iniciativa, fica claro que os Estados Unidos, sob esta lógica trumpista, colocaram-se à direita da extrema-direita mundial, defendendo uma doutrina de intervenção que nem setores de seus parceiros ideológicos estão dispostos a abraçar.

A soma do ataque direto ao território venezuelano, o sequestro do presidente da nação, o ato de não comunicar o congresso dos EUA e todo o desrespeito perpetrado por Trump as próprias leis do país que preside levam a que se acredite na possível morte do Direito Internacional como conhecemos hoje. Isso não é algo novo, mas sim parte de um processo que tem como um dos marcos a invasão na extinta Iugoslávia pela OTAN em 1999 sem o consentimento do Conselho de Segurança da ONU, o mundo parece ir retornando ao cenário anterior a Segunda Guerra Mundial.

No episódio da Venezuela reside o perigo imediato para a América Latina: a normalização do inaceitável. Não podemos tratar este evento como mais uma “crise venezuelana”. É um ataque a toda a região, uma violação da soberania como princípio que protege todas as nações, independentemente de seu alinhamento político. Aceitar ou relativizar este ato é abrir as portas para futuras intervenções contra qualquer país cujo governo seja inconveniente para Washington. Bem como legitima ações similares por qualquer outra grande potência e enterra de vez a ONU.

Neste contexto, é fundamental denunciar veementemente o papel da extrema-direita brasileira. Figuras como Ratinho Jr., Tarcísio de Freitas, Romeu Zema e Ronaldo Caiado não apenas celebraram o sequestro de Maduro e a invasão, como acabam subjetivamente validando abertamente medidas similares no Brasil contra adversários políticos. Esta posição revela uma profunda traição aos interesses nacionais e à soberania brasileira, mostrando que estes atores estão dispostos a sacrificar a independência do país em troca de alinhamento ideológico e político com uma potência estrangeira, são comandados por Trump, vassalos do imperialismo estadunidense. É uma admissão clara de que apoiariam uma intervenção estrangeira em território brasileiro se isso servisse aos seus objetivos de poder. Há de se valorizar o pronunciamento de nomes d e direita como João Amoêdo, Eduardo Leite e Aécio Neves, sinalizando que é possível construir uma unidade mais ampla e consistente em defesa da nação brasileira se necessário for.

A invasão de 3 de janeiro de 2026 marca o momento em que a máscara de Trump caiu definitivamente. A hegemonia estadunidense, incapaz de se sustentar mesmo por meio de suas ficções legais, recorreu ao puro poder coercitivo. A resposta da América Latina precisa ser uníssona e firme, algo que não é simples devido ao avanço da extrema-direita nas recentes eleições da região e os pronunciamentos pró-Trump dos presidentes do Paraguai, da Argentina e do recém-eleito no Chile.

Mas se faz necessária a denúncia em nível multilateral, levando o caso a todos os fóruns internacionais possíveis, exigindo a libertação imediata de Maduro, o fim da ocupação e a responsabilização dos perpetradores perante o Direito Internacional. O julgamento do venezuelano sem provas, baseado em suposições criadas desde o primeiro governo Trump, é uma farsa. Há mais provas de Donald Trump ser pedófilo do que de Nicolás Maduro chefiar um cartel.

Também é preciso buscar resistência diplomática e econômica, reforçando mecanismos de integração regional como a CELAC, que já se reuniu nesse 4 de janeiro. A autodeterminação dos povos não é um princípio abstrato, é a barreira última contra a lei do mais forte. Hoje, essa barreira foi rompida na Venezuela. Amanhã, poderá sê-lo em qualquer outro lugar. A resposta da América Latina determinará se 3 de janeiro de 2026 será lembrado como o início de uma nova era de intervencionismo desinibido ou como o momento em que o continente disse basta e se uniu para defender sua soberania coletiva.

Paz e soberania na Venezuela! Sangue por petróleo, não! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_5.html

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