Triste sina do Partidão
Abraham B. Sicsu
Partidão, era assim
chamado o PCB. Teve muitos erros e acertos. Sem dúvida, todos da minha geração
foram influenciados e tiveram algum contato com o velho partido.
Partido que teve sua
história marcada por intelectuais como Jorge Amado, Oscar Niemeyer, Candido Portinari,
Astrojildo Pereira, Ferreira Gullar e Graciliano Ramos, partido que influenciou
o pensamento progressista nacional e enfrentou perseguições durante a ditadura,
partido que começava a ser reconstruído.
Leio um texto. De
Luiz Felipe Miguel, um velho camarada catarinense, professor da UNB, sobre a
crise do que sobrou do esgarçado Partido. Muita tristeza. Deu-me vontade de
escrever sobre a história que vivi.
Na minha juventude,
não era filiado ao Partido. Mas, como estudante secundarista, tive bons amigos
que fizeram um curso introdutório que era dado por ele. Lembro até hoje um
texto que apresentavam, “os Princípios Fundamentais do Marxismo”, de Plekhanov.
Fascinados pelo materialismo dialético era o princípio do engajamento dos
jovens na “luta libertária”.
Na Universidade, não
era filiado, mas me consideravam um “Simpa”. Alguém que ajudava dentro de suas
limitações. O movimento estudantil da USP era fortemente influenciado e
comandado por elementos do Partido.
Fui vice-presidente
da Liga das Atléticas da USP. O presidente era do Partido. Enquanto ele tratava de Política, minha
função era organizar jogos, ver tabelas, resolver conflitos. Não reclamava e me
sentia útil.
Em 1975 houve o
grande baque no movimento estudantil. As principais lideranças desapareceram,
ou presos por um bom tempo, ou desaparecidos ate hoje, ou escondidos meses a
fio. Ficamos muito confusos e perplexos. O que fazer? A orientação, para
aqueles, como eu, que podiam, era continuar as atividades, sem esmorecer. Assim
foi feito e, pouco a pouco, se vê a volta das lideranças, evidentemente, com
muito menos força.
Venho para Pernambuco
e me torno professor universitário. O PCBão tinha pouco peso. Mas, dialogava
com os demais partidos. O crescimento político maior já era do outro PC, o do
B.
Cai o Muro de Berlim.
O Comunismo como bandeira de luta fica amenizado, pelo menos para os que
comandavam o Partido. Resolve-se aderir aos novos tempos. Discordo, mas não
sendo filiado, apenas observo.
Refunda-se com o nome
de Partido Popular Socialista- PPS. Já com um “dono”, alguém inteligente, mas
autoritário e dominador, que definia os rumos e não admitia discussão.
Um grande amigo
político precisa se filiar à nova sigla. Precisa levar um grupo de peso com
ele. Na Universidade se articula com professores e colegas. Nunca tendo me
filiado a nenhum partido, resolvo aderir. Com ele assino a ficha de filiação.
Foram poucos anos.
Mas intensos. Sou nomeado coordenador da seção do Instituto Astrogildo Pereira
em Pernambuco. Convivo com intelectuais do melhor quilate. Formamos lideranças
que até hoje estão presentes. Poucos anos, muito trabalho.
Sou nomeado para a
Comissão de Ética do Partido. Composta com mais duas lideranças da maior
envergadura moral e intelectual. Orgulhoso assumo a missão. Não deu certo.
Meses depois surge um
caso emblemático. Um acordo tinha sido registrado em cartório. Com outro
partido, onde se assumia que numa eleição nossa candidata assumiria a frente e
na seguinte apoiaríamos o do outro partido. Como fizemos um bom mandato, querem
ignorar o acordo. Vai para a Comissão de Ética.
O presidente
Nacional, aquele que chamei de dono do Partido, vem defender. Diz que Política
é assim mesmo, acordos devem ser ignorados com a dinâmica dos acontecimentos.
Manifesto-me, dizendo
discordar. Para mim, não era ético. A virulência do presidente, com um discurso
inflamado, faz-me pensar. Resolvo sair do Partido. Termina assim minha
participação de três anos.
Cada vez mais se vêem
lideranças o abandonando. As propostas eram personalistas, as opiniões eram
evitadas. A influência junto ao operariado, ao movimento sindical, às lides
universitárias, eram quase nenhuma. Começa a fazer alianças confusas e perder o
papel emblemático que desempenhou junto à sociedade brasileira. Avançando no
tempo, vira um tal de Cidadania.
Muitos dos velhos
perderam o rumo. Poucos ficaram por não conseguirem mais direcionar suas vidas.
Mas, eram peso morto, pessoas que seguiam a rotina na espera do fim político.
Faz pouco tempo,
acredito que não mais de dois ou três anos. Lideranças nacionais e velhos
companheiros resolvem se unir para mudar o caminho que foi dado. Tentam a
reconstrução, inclusive atraindo jovens lideranças.
O ideário de esquerda, pouco a pouco, volta a
dar o norte, a busca de conexão com a sociedade brasileira, com as classes
menos favorecidas, procura ser retomado.
O velho “CZAR” não
admite, perde as eleições internas, mas procura subterfúgios para retomar. Faz
um Congresso paralelo. Com participação ínfima de membros do partido. Nomeia
uma nova direção e, inclusive, destitui as lideranças estaduais. Tenta fazer
uma Federação com a extrema direita bolsonarista, o Partido Republicanos.
Ignora uma história construída em muitas lutas.
Triste sina, sim,
haverá revolta. Está sendo judicializado. Mas, manchar uma história de tantas
batalhas, tão importante para a formação da sociedade brasileira é vergonhoso.
Um desastre que não pode ser ignorado. Tenho esperança que essa aventura possa ser
revertida.
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