Enquanto o Rei não fica nu
Crônica alegórica sobre poder, normalização e autoritarismo
Celso Pinto de Melo/Jornal GGN
“O problema de Eichmann era precisamente que tantos eram como ele, e que os muitos não eram perversos nem sádicos, mas eram, e ainda são, terrivelmente normais.”
Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal
No início, ninguém percebeu, porque tudo parecia fazer sentido. O homem não surgiu como político, nem como ideólogo, nem como salvador. Apresentou-se como alguém de fora, um empresário bem-sucedido no mundo dos negócios, com passagem pela mídia, habituado a lidar com audiências, tendências e narrativas. Dizia ter aprendido, ao longo dos anos, a reconhecer talentos, a separar ruído de potência real e converter visibilidade em poder. Contava histórias de empresas resgatadas do fracasso, de campanhas improváveis que se tornaram fenômenos, de projetos desacreditados que floresceram sob sua orientação.
Repetia que nunca gostara de governos, que detestava burocracias, que desprezava partidos. Acrescentava que especialistas complicavam o óbvio, que universidades produziam gente treinada para não enxergar o que estava diante dos olhos, que estudo excessivo deformava o instinto e que gente muito inteligente costumava ser incapaz de agir. Segundo ele, pensar demais era uma forma elegante de paralisia. Os grandes saltos da história, dizia, sempre foram dados por quem teve coragem de fazer antes de entender.
A casa estava bagunçada. Alguém precisava arrumá-la. Não prometia igualdade. Não prometia justiça. Prometia ordem. Criou cedo um lema simples, fácil de memorizar, repetido em entrevistas, transmissões improvisadas e postagens: Ordem, força e grandeza.
As pessoas, cansadas de ambiguidades, agarraram-se àquela tríade como quem segura o corrimão de uma escada escura. Convidaram-no para coordenar um pequeno grupo consultivo, algo provisório, quase simbólico. Ele aceitou, com uma relutância cuidadosamente encenada, afirmando que não queria poder, apenas ajudar. Recebeu um estúdio improvisado, que logo transformou em um centro de reuniões, transmissões e encontros. Chamou aquilo de O Movimento. Nunca explicou exatamente o que isso significava. E, de algum modo, isso reforçava seu apelo às massas.
Falava muito, mas raramente de modo direto. Seus raciocínios serpenteavam, misturavam dados, metáforas, intuições, acusações vagas e promessas grandiosas. Para observadores externos, soavam confusos. Para os primeiros seguidores, soavam profundos. A sensação de entender algo que os outros não viam tornou-se um vício.
O homem tinha um talento peculiar para identificar ressentimentos e traduzi-los em linguagem de missão. Aproximava-se de pessoas frustradas, ambiciosas, marginalizadas, e dizia enxergar nelas grandeza sufocada. Convencia cada uma de que fazia parte de uma minoria lúcida cercada por massas cegas.
Criou pequenos círculos de iniciados. Pertencer a esses círculos passou a ser sinal de distinção. O Movimento cresceu. Vieram patrocinadores. Vieram influenciadores. Vieram empresários inquietos, militares aposentados, policiais ressentidos, religiosos em busca de palco.
Desde cedo, porém, havia um detalhe que poucos pareciam notar: todas as decisões econômicas relevantes, todas as reformas silenciosas, todos os rearranjos práticos apontavam sempre na mesma direção. Incentivos, contratos, perdões fiscais, desregulações e exceções beneficiavam os mesmos grupos. Os grandes ficavam maiores. Os poderosos, mais blindados.
O Movimento avançava entre as massas, falando em dignidade, mas operava como uma engrenagem afinada para concentrar riqueza no topo. Quando alguém apontava a contradição, o homem respondia que, primeiro, era preciso salvar os fortes para que, depois, algo pudesse respingar nos demais. Poucos se davam conta de que o “depois” nunca chegava.
O homem nunca organizou essas pessoas em estruturas claras. Preferia redes frouxas, dependentes de sua mediação, atravessadas por rivalidades sutis. Alimentava disputas internas, alternava elogios e desprezo, distribuía pequenas migalhas de prestígio. Aprendeu desde cedo que as pessoas inseguras são mais leais.
Aos poucos, deixou de falar apenas de eficiência. Passou a falar de identidade. Dizia que as sociedades adoecem quando perdem os critérios. Que critérios não nascem da compaixão, mas da força. Que força não é violência, mas capacidade de impor forma ao caos. Afirmava que o mundo era simples, embora conspiradores profissionais o quisessem fazer parecer complexo. Segundo ele, só existiam dois tipos de pessoas: as que constroem e as que atrapalham. Quem tentava introduzir zonas intermediárias era acusado de confundir para proteger culpados.
Começou, então, a surgir a figura do inimigo interno. Não um inimigo visível, organizado. Mas tipos humanos incompatíveis com grandeza. Não falava em maldade. Falava em inadequação. Falava em defeito. Falava em erro estrutural. A palavra “diferente” passou a circular com uma tonalidade negativa. Depois vieram “desajustado”, “degenerado”, “parasita social”.
O Movimento começou a produzir relatórios vagos, dossiês imprecisos e listas sem critérios transparentes. Não diziam exatamente qual era o problema, mas deixavam claro que ele existia, espalhado, infiltrado, disfarçado. O homem falava em teias ocultas, conexões subterrâneas, alianças invisíveis que atravessavam instituições. Falava em universidades capturadas, redações contaminadas, centros de pesquisa transformados em fábricas de mentira. Quanto menos evidências apresentava, mais convicto soava.
No início, cada pequeno ato de agressão causava choque. Em poucas semanas, virava polêmica. Em poucos meses, tornava-se rotina. Até que deixou de ser assunto. Parte crescente da mídia passou a tratar os episódios como excessos isolados, ruídos de transição, efeitos colaterais inevitáveis. Fazia malabarismos retóricos para explicar que talvez fosse cedo para julgar, cedo para condenar, cedo para chamar as coisas pelo nome. Chamavam brutalidade de método. Chamavam perseguição de correção. Chamavam medo de governabilidade.
A claque inicial começou a se formar. Logo centenas. Depois milhares. Cores semelhantes. Símbolos improvisados. Gestos repetidos. O homem passou a ser chamado de Chefe. Não corrigiu. Enquanto a multidão crescia, surgiam grupos que se organizavam espontaneamente para “monitorar” ambientes considerados contaminados: escolas, universidades, redações, centros culturais.
O homem jamais ordenava. Limitava-se a comentar que certos lugares estavam infestados por mentalidades tóxicas. Horas depois, surgiam vídeos de pessoas sendo humilhadas, expulsas, agredidas. Ele dizia não apoiar excessos, mas lembrava que a paciência dos normais tinha limites.
Ordem, força e grandeza. Começou a circular a ideia de que não fazer nada era, em si, traição. Era melhor errar agindo do que acertar refletindo. A dúvida passou a ser vista como um luxo de covardes.
Paralelamente, o Movimento ganhou braços. Criaram-se unidades auxiliares de apoio, oficialmente destinadas à proteção de instalações e de eventos. Na prática, grupos armados, com treinamento precário, autoridade ampla e identidade difusa. O homem passou a falar em limpeza moral. Comparava sociedades a organismos que, às vezes, precisam de amputações para sobreviver. Empresários críticos perdiam contratos. Jornalistas eram expostos. Professores eram silenciados. Pesquisadores tinham financiamentos suspensos. Juízes recebiam ameaças. Não havia decreto geral. Havia um terror difuso.
Havia também satisfação visível na divisão. Havia conforto em saber de que lado se estava. Ser “nós” tornou-se mais importante do que ser justo. O Chefe parecia no auge. Falava como quem já não precisava convencer. Anunciava ambições cada vez maiores. Dizia que o país era pequeno demais para seu destino. Que fronteiras eram construções artificiais. Que aliados haviam se acomodado. Rompeu acordos históricos com naturalidade. Celebrava traições como coragem. Passou a dizer, sem rodeios, que os acordos só valiam enquanto fossem úteis. Que direito era ferramenta dos fracos. Que, no mundo real, mandava quem podia.
“Quem vai impedir?”, perguntava, com um sorriso sarcástico. Afirmava que não precisava de pesquisas, porque sentia o país pulsar dentro de si. “Quando eu falo, é o povo que fala.” A multidão delirava.
Por um tempo, o mundo aprendeu a aceitar. Primeiro, com desconforto. Depois com justificativas. Mais tarde, com silêncio. Até que o absurdo passa a parecer apenas mais um traço da paisagem.
Mas às vezes um único gesto de recusa é suficiente para que a névoa comece a se dissipar – um ponto inicial de ruptura, e todo o espelho trinca de repente.
Basta. Não dá mais. Um corpo que não obedece, uma voz corajosa e dissonante, um gesto que desmonta a encenação. Nesse instante, o Rei se faz nu.
Pode ser sofrido, pode demorar. Mas quando finalmente o pesadelo terminar, a pergunta que restará não será sobre o Chefe, mas sobre nós: como permitimos que isso viesse a acontecer?
Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.
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