Criador do termo BRICS admite: moeda comum pode deixar de ser fantasia
Em artigo, Jim O’Neill diz que moeda pode deixar de ser fantasia diante
do “efeito Trump” e das mudanças no comércio global
Tatiane
Correia/Jornal GGN
A possibilidade de uma moeda comum dos BRICS desafiar o dólar
como principal referência global pode deixar de ser apenas uma tese para se
tornar uma possibilidade, segundo Jim O’Neill, economista britânico criador do
acrônimo BRICS e ex-ministro do Tesouro do Reino Unido.
Em artigo publicado no Project Syndicate,
O’Neill explica que as moedas de reserva
historicamente exigem condições que são difíceis de cumprir: plena
conversibilidade da conta de capital, confiança institucional e — no caso de
uma moeda compartilhada — a criação de um banco central supranacional, com
perda de soberania monetária dos países membros.
Considerando
tais critérios, a ideia da moeda comum parecia improvável principalmente
considerando rivalidades geopolíticas como a de China e Índia, além dos
controles de capital mantidos por Pequim. Mas o cenário mudou, segundo O’Neill.
O
que aconteceu?
O
autor aponta três fatores principais para revisar sua posição. O primeiro é
político: líderes do BRICS+ têm manifestado insatisfação crescente com a
dominância do dólar.
O
segundo é estratégico: a política externa e comercial dos Estados Unidos sob
Donald Trump — marcada por tarifas, tensão institucional e questionamentos à
autonomia do Federal Reserve — estaria corroendo a base de confiança que
sustenta a hegemonia da moeda americana.
O
terceiro fator é tecnológico. O’Neill argumenta que as mesmas inovações
digitais que podem fortalecer o dólar, como stablecoins denominadas na moeda
americana, também podem facilitar a criação de “trilhos alternativos” de
pagamento entre países que desejem reduzir a dependência do sistema financeiro
dominado pelos EUA.
Embora
reconheça os obstáculos existentes, o articulista sugere que, mesmo sem
liberalizar contas de capital ou criar um banco central comum nos moldes
europeus, os países do bloco poderiam desenvolver um mecanismo de compensação
comercial baseado em uma cesta de moedas, ponderada pelo peso econômico de cada
membro.
Em
um mundo no qual 75% do PIB global está fora dos Estados Unidos, e onde acordos
comerciais entre grandes blocos se multiplicam, a discussão sobre alternativas
ao dólar deixa de ser apenas retórica política e passa a integrar o debate
estrutural sobre a arquitetura monetária internacional.
A
pergunta final de O’Neill permanece em aberto: trata-se de uma fantasia ou do
embrião de uma nova etapa na ordem econômica global?
Turbulências na economia global https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/turbulencias-na-economia-global.html

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