17 fevereiro 2026

Uma crônica de Abraham Sicsu

E a vida continua...
Abraham B. Sicsu     

Não tenho ressaca. Tenho, sim, um leve temor. Acho que meu corpo guarda tudo para explodir de uma só vez. Mas, como já sou idoso, melhor aproveitar o álcool e as gorduras deglutíveis sem muito remorso, sem um gosto amargo na vida.

É domingo de Carnaval. Festa que para mim sempre acabou no sábado. Brinquei o que podia, sexta e sábado de alegria. Com direito a café da manhã festivo, desfile de rua, boa música de corais femininos e muita farra musical, comida e bebida não faltaram, feijoada e caipirinha, muito mais.

Passou, tudo correu bem. Muita gente feliz, muitos inconsequentes que esquecem, de propósito, que haverá o amanhã. Para que se preocupar hoje? Quando a realidade, os problemas, voltarem se resolve.

Descrença nos acompanha. Ministro da Suprema Corte gerando desconfiança.  Na véspera de Natal marcou acareação entre acusados e Diretor do Banco Central. Sem depoimentos prévios que permitissem confrontação, sem razão explícita alguma.

Na véspera do Carnaval, com muita pressão, fundamentada em seu envolvimento com personagens chaves do caso, abre mão da relatoria. Não porque quisesse. Lembro que sempre fui funcionário público e mesmo quando tive funções de relevo sempre recebia um livrinho com normas de conduta. Por que não no STF?

Notar, em datas que acobertam para o grande público a importância dos atos. O povão preocupado com os festejos não dispersa para outras pautas. Os fatos e motivos que encurralaram a autoridade, nada explícitos, sem explicações plausíveis sendo dadas, ficam quase acobertados.

O ano continua lindo, pelo menos, na economia. Nada de estouro na inflação, dólar se desvalorizando, Bolsa subindo. Sem grandes preocupações no emprego. Mas, é ano eleitoral. Terão que gerar polêmica, já começou, terão que dizer que está tudo errado. Até chamar Presidente de carro velho. E eu que adoro carros antigos, muito mais um Opala, têm charme, bem cuidado faz muito sucesso, brilha, muito admirado.

Ganhamos uma medalha. E é de ouro. Somos deuses no Olimpo do Inverno nevado.  O país do calor, tropical, brilha na neve. Um nascido na Noruega optou por competir pelo Brasil. Não interessa se teve sua formação lá, o importante é que a medalha veio para nós. Os jornais exultam, o nacionalismo quase xenofóbico aflora. Só dá isso no noticiário da manhã. Algo inusitado, uma madrugada atípica em que conseguimos sentir o frio em um país tórrido. Acho estranha tanta euforia. Em todo o caso, todos felizes, também fico.

Leituras me marcam. “Parque Industrial” da militante revolucionária Pagu. Os anos da primeira metade do século passado. O Brasil em sua formação. O sofrimento dos empobrecidos, das mulheres que foram sendo alijadas do crescer social, párias que se tornavam com a miséria. Seus corpos eram das poucas coisas que lhes trazia sobrevivência. Dizem que melhorou muito, tenho minhas dúvidas. Os excluídos têm pouco a comemorar nesta vida, infelizmente, até hoje.

“A Filha Única” de uma autora mexicana, Guadalupe Nettel. Fantástica. Livro muito bem escrito. Acabei faz instantes. As novas “famílias”, a maternidade como opção, as contradições e os valores, o amor e quatro mulheres. Cada vez mais complexo num mundo competitivo. Em que o ser mãe se choca com a profissional, em que o se dedicar aos filhos é razão de vida, ou não, mesmo não sendo recompensado socialmente. 

Mulheres abrindo mão de uma vida mais serena, enfrentando doenças e, ás vezes, tendo que conviver com a clareza escancarada da finitude intrínseca a todas as vidas humanas. Mais ainda quando desacreditados pelos semideuses médicos que tudo sabem.

A leitura me faz pensar nas muitas jovens que, hoje, têm a firme decisão de não parir, as tendências, nos países mais ricos, de diminuição demográfica, frente um mundo da pobreza onde a população continua a explodir. E a fome também. O arbítrio individual e a sua estreiteza nos dias atuais.

A questão ambiental surge nas folhas dos periódicos. A crise é grave. As metas de controle para aquecimento global foram todas ultrapassadas. Está no jornal de hoje. Um mundo em que o imediatismo ameaça as perspectivas de gerações futuras. Questões que não são tratadas com a serenidade necessária. Medidas de precaução abandonadas.

Na mesma linha, novas mensagens que recebo. O grupo dos “ecochatos” propõe o “fim da sociedade atual” sem dar alternativas concretas. Prendem-se a experiências de sociedades isoladas, países minúsculos, impossíveis de serem generalizadas. Não há uma proposta séria. Enquanto isso, o Imperador do Norte arma a estratégia para a volta da massificação do carvão, para inundar o mundo de petróleo, sem muito disfarçar, sem muito abdicar.

Uma época em que as máquinas substituem os homens. Aprendi esses dias o que são agentes de inteligência artificial. Explicitado um problema eles, per si, definem estratégias e caminhos para sua solução. Não são homens, são algoritmos computacionais. Os mais eficientes possíveis. Mesmo que para resolver esse problema gerem transtornos muito maiores. Autonomamente fazem e não se consegue parar. O homem perdeu o controle dos processos transformadores.

Parece que a vida continua. No entanto, ainda é Carnaval. Tudo esquecido, somente suor e muita alegria. Deixemos tudo para depois da quarta feira. Pois, “há frevo ainda, apesar da quarta feira, no cordão da saideira vendo a vida se enfeitar.” Grande Edu Lobo sempre teve razão.

[Ilustração: Georg Baselitz]

Leia também: Após o carnaval tudo pode acontecer https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_29.html

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