Palavras muito mais do
que palavras
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
Vi de relance uma declaração em vídeo do poeta Manoel de Barros:
- As palavras me fascinam,
diz.
Palavras fascinam a todos nós
- pela sonoridade, pelo sentido.
Mas é claro que depende de
como são pronunciadas e em que tom. Uma mesma frase pode soar carinhosa ou
autoritária.
Poetas guardam com as
palavras uma relação de amor e ódio.
Basta ler atentamente os
versos de um João Cabral, Vinícius, Drummond ou – para citar a poeta
pernambucana que ganhou audiência nacional com o Prêmio Jaboti – Cida Pedrosa para
muitas vezes sentir que as palavras ali contidas brotaram da sensibilidade, da
inquietação, da busca.
Dizem que Caymmi demorava
meses a fio para concluir a letra de uma canção, aguardando que a palavra
adequada lhe chegasse.
O mesmo ocorre com
romancistas e contistas. O moçambicano Mia Couto nos dá a impressão de que sua
relação com o idioma é um caso de imorredoura paixão, ora alimentada com
leveza, ora com certa rispidez. Navega entre o real e o imaginário com
fascinante habilidade. As palavras fluem com sedutora intimidade.
Mas não perdoam quando
maltratadas.
Conheço pelo menos uns três
escribas que se dão ao trabalho de vagar por dicionários em busca de expressões
pouco usadas, na tentativa de demonstrar erudição que não possuem.
A um deles eu disse certa vez
que sua atitude era digna de um Marquês do Pombal, que a seu tempo foi
reconhecido por ressuscitar termos ultrapassados.
Não combina.
Um personagem humorístico de
Chico Anízio costumava encerrar seus discursos afirmando que “palavras são
palavras, não mais do que palavras” ...
Porém tem razão o poeta
Manoel de Barros: a palavra é tudo.
[Uma crônica de 2020]
Ilustração: Albert Anker
Leia: Graciliano Ramos e o texto no tempo das redes https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/06/expoente-da-literatura-brasileira.html

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