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Luciano Siqueira Tão logo terminei a apresentação do tema, cuidei de deixar o auditório
em função da agenda apertada. Mas não resisti à interpelação do cidadão de
meia-idade, traços rudes e olhar triste: - Prefeito, o
senhor me emocionou com aquela rosa vermelha. - Como assim? Deu
para entender a idéia de que, no cotidiano do nosso trabalho, precisamos
imitar os bons poetas que enxergam o sentido universal e a beleza do
desabrochar de uma rosa? - Entendi, sim, o
que o senhor quer dizer com isso. Não dá pra gente ficar preso às pequenas
coisas, é necessário ligar o que a gente faz com a luta do povo para mudar o
Brasil. - Então, ótimo. - Mas o que mais
emocionou foi quando o senhor disse que a rosa vermelha simboliza a luta e o
amor. - Sim... - Porque já não
aguento encarar a minha solidão. Pronunciou as
últimas palavras com a voz embargada, os olhos marejados, tomado de profunda
emoção. E ficamos por alguns segundos a olharmo-nos, sem nada dizer, um tanto
embaraçados. Com um aperto de mão forte, tentando expressar minha
solidariedade, arrematei: - Pois é, a vida
tem dessas coisas. Não basta colher rosas, é preciso ter a quem ofertá-las. Saí
apressadamente, com a consciência de que ali ficara um homem solitário e
triste, que se encorajara a trocar duas palavras com o vice-prefeito,
abrindo-se em sua melancolia; e, ao invés de uma palavra de estímulo, colhera
uma sentença fatalista. Durante o resto
do dia não consegui me concentrar no trabalho. Persistia a imagem tocante do
homem solitário e a sensação incômoda de que não soubera confortá-lo. Agora,
relembrando o fato, dá um desejo enorme de voltar a encontrá-lo, quem sabe
para refletirmos juntos sobre as agruras de quem vive na cidade grande,
marcada por um ambiente de tensões e conflitos que desumanizam e embotam a
sensibilidade. A solidão, mais do que uma desventura pessoal, parece um
fenômeno coletivo que se avoluma e ameaça a própria condição humana. Decresce
a vida em comunidade na medida em que as pessoas se auto-enclausuram em suas
residências, temerosas da violência. Urge trabalhar por uma cidade saudável que valorize o poético gesto de
colher e ofertar rosas vermelhas. Uma crônica de 2020 O tempo nosso de cada
instante https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_62.html |
A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
18 fevereiro 2026
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