24 dezembro 2021

Crônica da sexta-feira

Ah, "folhinhas" ainda existem!

Luciano Siqueira

 

Quando garoto, uma das curiosidades de fim de ano eram as "folhinhas" que os fornecedores da mercearia do meu pai traziam de brinde.

Assim chamadas porque continham folhas destacáveis, correspondentes a semanas ou meses do ano; também ditas “calendários” ou mesmo “cromos”, em alusão às ilustrações.

De muitos tipos. 

Algumas traziam, ao modo destacável, todos os dias do ano em formato quase que três por quatro, com algum dizer para cada dia.

Outras, do tamanho de um cartaz médio, ostentavam fotos de paisagens de lugares desconhecidos. Era como se a gente viajasse através daquelas imagens, pois o mundo era muito maior do que o bairro da Lagoa Seca, em Natal, Rio Grande do Norte, onde vivi parte da infância e da pré-adolescência. 

Não gostava do modelo religioso, na página correspondente a cada mês do ano a imagem de um santo ou uma santa que pudesse corresponder à devoção de alguém.

Dessas, minha avó Neném gostava. Escolhia uma dentre várias, que permaneceria na parede do seu quarto o ano inteiro. 

Alegria imensa aconteceu no ano em que meu pai providenciou uma “folhinha” com a propaganda da própria Mercearia Natalense. Era como se o nosso modesto comércio ganhasse outro status.

Motivo de orgulho diante dos amigos de escola e da vizinhança. 

Depois vieram os calendários de bolso, em plástico, ornamentados ou não, tendo no verso o anúncio de alguma loja ou produto, como o “Biotônico Fontoura”, ou mesmo a foto de um político, antecipando a propaganda eleitoral.

Cheguei a guardar na carteira esses calendários de bolso, do sabonete “Eucalol”, creio, muito úteis. 

Nem sei se ainda existem, pois mais de 80% da população adulta brasileira usa o smartphone, onde facilmente se consulta o calendário. 

As "folhinhas", entretanto, nunca me saíram da memória. 

Delas recordo inclusive quando recebo algum desses “calendários” de alta qualidade gráfica, como os da Cepe, ostentando fotos de altíssima qualidade ou reprodução de obras de arte.

Eis que hoje, nesta véspera de Natal de 2021, ganhei uma “folhinha” — elas ainda existem! — (ou calendário, se você preferir chamar assim) da oficina de lanternagem onde fiz pequeno reparo em meu carro.

Muito simples. Duas páginas apenas, cada uma com os meses correspondentes à metade do ano e ambas com a foto de um automóvel. 

A oficina é muito modesta. Pequena. Desarrumada. Dois ou três veículos em conserto convivem lado a lado com carcaças de outros que parece já não serão mais reparados.

O proprietário e chefe de serviço faz-se acompanhar de um filho. Creio que não há mais ajudantes, embora numa outra oportunidade uma nora sua eu vi empenhada no polimento de um veículo recém consertado. 

Tudo muito simples, mas o serviço quase perfeito.  

Já ia saindo quando recebi o brinde, que em fração de segundos me transportou para a infância na Lagoa Seca e me fez reviver imagens e sensações de nossa mercearia, esquina das ruas São João com Alberto Silva, sem pavimentação, onde a gente improvisava memoráveis disputas de barra-a-barra com bolas de meia. 

Senti-me renovado. Afetuosamente envolvido pela saudade de um tempo que se foi.

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Veja: imagens da vida como ela é – ou como desejamos que seja  https://bit.ly/3E95Juz

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