19 fevereiro 2026

Thiago Modenesi opina

As universidades ajudam a construir um Brasil melhor em tempos democráticos
Expansão das federais, Reuni, Prouni e Fies ampliaram acesso, interiorizaram campi e impulsionaram ciência, inclusão social e desenvolvimento no Brasil democrático.
Thiago Modenesi/Vermelho      

A primeira década e meia do século 21 representou um capítulo fundamental para a educação superior brasileira. Durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e Dilma Rousseff (2011-2016), o país testemunhou uma transformação profunda em suas universidades, combinando expansão física, inclusão social e um vigoroso investimento público que reafirmou o papel central dessas instituições na construção de um país mais desenvolvido e menos desigual.

O principal motor dessa transformação foi o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). Instituído em 2007, o Reuni não se limitou a um mero aumento de vagas, ele promoveu uma reestruturação acadêmica e pedagógica, com investimentos superiores a R$ 9 bilhões. Os números são expressivos: a rede federal saltou de 45 universidades em 2003 para 63 em 2014, com a construção de 126 novos campi, levando a educação superior pública e de qualidade a 289 municípios, muitos deles no interior do país, em regiões historicamente desassistidas.

Essa interiorização teve um duplo efeito. Primeiro, democratizou o acesso, permitindo que jovens de cidades de pequeno e médio porte pudessem frequentar uma universidade federal sem precisar migrar para as grandes capitais. Segundo, gerou impactos socioeconômicos significativos nessas regiões, fomentando o desenvolvimento local e a criação de novos polos de conhecimento e inovação. O resultado foi um aumento de cerca de 30% no número de matrículas entre 2003 e 2009 e de impressionantes 70% na oferta de vagas no mesmo período, com um incremento de 90% nos recursos financeiros destinados às federais.

Paralelamente, programas como o Programa Universidade para Todos (Prouni) e o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) atuaram no setor privado, ampliando o espectro da inclusão. Criado em 2004, o Prouni oferece bolsas de estudo integrais e parciais em instituições particulares para estudantes de baixa renda, utilizando a nota do Enem como critério. Já o Fies, reformulado no período, facilitou o financiamento das mensalidades com condições especiais. Em 2026, por exemplo, só o Prouni ofereceu mais de 594 mil bolsas em seu primeiro semestre.

Ao longo dos governos Lula e Dilma, essas políticas públicas, embora tensionadas entre a democratização e a mercantilização do ensino, foram bem-sucedidas em um objetivo central: formar uma geração de profissionais mais competentes, críticos e reflexivos, oriundos de camadas da população que até então tinham pouco ou nenhum acesso ao ensino superior. Ao levar a universidade para o interior e abrir suas portas para negros, indígenas e jovens de famílias de baixa renda, o Estado brasileiro não apenas distribuiu conhecimento, mas também oxigenou o ambiente acadêmico com novas perspectivas e demandas sociais, enriquecendo o debate e a produção de saberes.

Os avanços obtidos nesse período só foram possíveis graças a uma visão de Estado que compreende a universidade como um bem público e um espaço estratégico para o desenvolvimento nacional. As políticas implementadas partiram do princípio de que a universidade é um ambiente de circulação plural de ideias, de construção de saberes e de busca por soluções para os problemas reais e objetivos do país.

Em um ambiente democrático, as universidades florescem. Elas se tornam espaços onde a liberdade de cátedra e o pensamento crítico são protegidos, permitindo a formação de cidadãos conscientes e de profissionais preparados para inovar e enfrentar os desafios contemporâneos. O investimento público consistente, materializado no Reuni, no Prouni, no Fies e na expansão da pós-graduação, foi a base material que vem sustentando essa visão.

Os frutos desse investimento são colhidos por toda a sociedade. O financiamento público permitiu a criação de novas universidades federais focadas na integração regional e internacional, como a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) e a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab).

Também trouxe a modernização de laboratórios e bibliotecas, essenciais para a produção de ciência e tecnologia de ponta e a contratação de milhares de novos professores e técnicos, reduzindo a defasagem de quadros e melhorando a qualidade do ensino e da pesquisa.

Além da criação de condições para que estudantes em situação de vulnerabilidade pudessem não apenas ingressar, mas também permanecer na universidade, com políticas de assistência estudantil.

Ao investir na universidade pública e em políticas de acesso ao ensino privado com forte regulação social, os governos Lula e Dilma semearam um ciclo virtuoso.

Formaram-se mais engenheiros, médicos, professores e pesquisadores, muitos dos quais são os primeiros em suas famílias a obter um diploma superior. Esses profissionais, por sua vez, contribuem para o aumento da produtividade, para a inovação tecnológica e para o fortalecimento das instituições democráticas. Em suma, construiu-se um país melhor, menos desigual e com maior capacidade de produzir ciência e gerar desenvolvimento com inclusão social.

A experiência desse período deixou um legado inequívoco: quando o Estado democrático assume a educação superior como prioridade e a financia de forma robusta, os resultados transcendem os muros das universidades e se traduzem em progresso econômico, justiça social e fortalecimento da cidadania. Mesmo com a interrupção dessas políticas pelos Governos Temer e Bolsonaro, hoje o Brasil retoma essa forma de compreender o ensino superior como um espaço fundamental para superar gargalos históricos, o terceiro governo Lula vem ampliando o investimento em Ciência, Tecnologia e Inovação, trazendo de volta os concursos para docentes e técnicos, bem como anuncia novas universidades públicas, a exemplo da Universidade Federal Indígena e da Universidade Federal do Esporte, além da meta de criação de 100 novos Institutos Federais até o fim do mandato.

Tudo isso aponta para um novo Brasil, com uma parcela maior da população com nível superior e em condições de contribuir para a edificação de um país melhor, mais preparado, democrático e formado para superar problemas centenários que ainda carregamos, como a fome, a desigualdade e a disseminação de desinformação.

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