20 fevereiro 2026

Palavra de poeta

Poema 18
Pablo Neruda   

Aqui te amo.
Nos escuros pinheiros desenreda-se o vento.
Fosforescente a lua sobre as águas errantes.
Dias comuns costumam seguir-nos sempre.

Liberando-se a névoa em dançantes figuras.
Uma gaivota de prata desprende-se do entardecer.
Às vezes uma vela. Altas, altas estrelas.

Ou a cruz de um barco.
Só.
Às vezes amanheço, e até minha alma está úmida.
Soa, ressoa o mar distante.
Este é um porto.
Aqui te amo.

Aqui te amo e em vão te oculta o horizonte.
Estou te amando ainda entre estas frias coisas.
Às vezes vão meus beijos nesses barcos graves,
que correm pelo mar até onde não chegam.

Já me sinto esquecido nessas velhas âncoras.
São mais tristes os portos quando chega a tarde.
Fatiga-se a minha vida inútil e faminta.
Eu amo o que não tenho. E tu estás distante.

Meu tédio forceja com os lentos crepúsculos.
Mas, ao chegar, a noite já começa a cantar.
A lua faz girar o seu círculo de sonho.

Olham-me com teus olhos as estrelas maiores.
E como eu te amo, os pinheiros, na ventania,
querem cantar teu nome com suas folhas de arame.

[Ilustração: Gilvan Samico]

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