Adolescência nublada
Luciano
Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
Verdade que já estou há algum tempo na categoria dos idosos, muito distante da minha adolescência. Entretanto, desperta a minha curiosidade o anúncio de que "adolescente sente tudo em demasia", segundo pesquisas mais recentes.
Diz-se que além das mudanças físicas marcantes também as emoções ganham
outro colorido e invulgar intensidade.
Tudo bem. Como esses traços característicos daquela fase da vida se expressaram
em mim?
Eis um problema: tive sim uma adolescência intensa, como de resto todas
as fases da minha vida, mas agora percebo que me faltam recordações mais
nítidas a propósito de como evolui do ponto de vista anatômico e fisiológico e
também emocional.
Lembro apenas da abertura de um leque maior das minhas leituras: Isaac
Asimov entrou na lista despertando meu interesse crescente pelas coisas da
ciência; Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Guimarães Rosa, José
Lins do Rego e mesmo Gilberto Freyre com o seu "Casa Grande e Senzala"
me atraíram para uma melhor compreensão do país e da gente que nós somos, além
dos clássicos da literatura universal que lhe foram apresentados pelo meu tio
Paulo Rosas, desde que me contratou para cuidar da sua biblioteca particular.
Eu tinha entre 15 e 16 anos.
E as outras manifestações de transição física e espiritual própria da
adolescência? Creio que passei por elas sem lhes dar muita importância, pois
agora não consigo com nitidez.
Adiante, já no início da juventude, minhas emoções foram despertadas
pelo curso médico na Universidade Federal de Pernambuco concomitantemente com a
militância política organizada no Diretório Acadêmico e na Ação Popular,
organização clandestina e de resistência à ditadura.
Donde posso concluir que da minha adolescência propriamente dita resta
uma memória meio que nublada.
Meio estranho, não?, considerando que o cérebro passa por intensa
reorganização neurológica em conexão com o cotidiano da vida, segundo
cientistas especializados na matéria.
O jeito é viver intensamente a condição de idoso em boa parte com o
espírito adolescente de abertura no plano das ideias, da experiência prática e
das emoções.
Veja e ouça: Caetano Veloso, "Sozinho" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/caetano-veloso-sozinho.html

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