27 fevereiro 2026

Thiago Modenesi opina

Quadrinhos para refletir, formar senso crítico e novos leitores
Histórias em quadrinhos deixam de ser mero entretenimento e se afirmam como ferramenta essencial para formar novos leitores, ampliar o senso crítico e fortalecer o hábito da leitura.
Thiago Modenesi/Vermelho   

Tive a felicidade de ser apresentado a vários bons livros na minha infância e adolescência, isso se deu quase simultaneamente a minha descoberta das histórias em quadrinhos. 

Li A Droga da Obediência, Meninos sem Pátria, clássicos de Machado de Assis e Aluísio Azevedo, Vito Grandam, de Ziraldo, do qual também degustei O Menino Maluquinho e vários outros. Tudo isso mais ou menos nos mesmos anos em que conheci O Lobo Solitário, na sua primeira versão, publicado em formato americano pela Editora Cedibra, American Flagg, de Howard Chaykin, O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, que completou 40 anos de publicado em 2026, os quadrinhos nacionais de Laerte, Angeli e Glauco que brilhavam nas páginas da Chiclete com Banana e os nostálgicos formatinhos, publicados pela Editora Abril, trazendo quadrinhos da Marvel e DC, os álbuns europeus que chegavam por aqui importados pela Meribérica do Brasil, uma subsidiária da editora portuguesa Meribérica/Líber, e outros milhares que aprec io até o presente.

Durante décadas, as histórias em quadrinhos foram vistas com certo preconceito, rotuladas como um mero passatempo infantil ou um gênero menor dentro da literatura. No entanto, essa visão não poderia estar mais distante da realidade atual, e também já foi bastante superada academicamente. Hoje, as HQs não apenas conquistaram seu espaço como a Nona Arte, mas também se consolidaram como uma ferramenta ainda poderosa e essencial para a formação de novas gerações de leitores.

Dezenas de pequenas e grandes editoras inundam a internet e lojas especializadas com quadrinhos para todos os gostos, infelizmente não o fazem como antigamente em bancas de jornal, porque essas se tornaram cada vez mais escassas, mas nunca tivemos um cardápio tão vasto e variado como o que vemos a partir dos anos 2000 em nosso país.

O universo dos quadrinhos passou por uma transformação significativa. Longe de se limitarem a super-heróis e tramas simplórias, os romances gráficos contemporâneos (também chamadas de graphic novels, alguns acreditam que O Contrato com Deus, de Will Eisner, pode ter sido o marco zero desse formato e alcunha) abordam temas profundos e complexos, como memória, identidade, luto e política. Obras como Maus, de Art Spiegelman (que venceu o Prêmio Pulitzer), Persépolis, de Marjane Satrapi, Watchmen, de Alan Moore e Daytripper, de Fábio Moon e Gabriel Bá, são provas cabais de que os quadrinhos podem alcançar o mesmo nível de sofisticação e relevância dos melhores romances da literatura tradicional.

Essa diversidade temática é o primeiro grande atrativo para cativar novos leitores. Para uma criança ou um adolescente, a barreira de entrada para um livro denso ainda pode ser grande. A combinação sinérgica entre texto e imagem auxilia na compreensão da narrativa, enriquece o vocabulário e desenvolve o letramento visual, uma habilidade cada vez mais necessária em um mundo dominado por telas e estímulos rápidos. Ao ler uma HQ, o jovem leitor não está apenas decodificando palavras, mas interpretando cores, traços e enquadramentos, exercitando a leitura em múltiplas camadas.

Além disso, ao crescerem e descobrirem que as HQs também falam com os adultos, esses leitores mantêm o contato com o hábito da leitura. Eles percebem que o formato não é algo a ser deixado de lado com a maturidade, mas sim um meio que amadureceu junto com eles. Essa continuidade é vital: um leitor que se sente representado e desafiado pelas histórias que consome dificilmente abandona os livros.

Portanto, incentivar a leitura de histórias em quadrinhos é, acima de tudo, incentivar o prazer de ler. Seja pela fantasia descompromissada que diverte ou pela narrativa profunda que faz refletir (e por vezes ganha prêmios), os quadrinhos formam leitores mais críticos, criativos e preparados para o mundo. E, no final das contas, o que importa não é o formato, mas a magia da história que ele carrega e a sua capacidade de formar, entre crianças e adultos, uma sociedade de leitores.

Parece algo óbvio, mas no momento em que se lê pouco, e o nosso país ainda está entre os que leem muito pouco, e as redes sociais e internet tomam praticamente todas as atenções de crianças, jovens, adultos e idosos, a defesa da leitura e da busca por novos leitores é uma necessidade basilar para termos cidadãos com mais e melhores condições de interpretar e transformar a realidade.

Mergulhar fundo para avançar na superfície https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/11/meu-artigo-no-portal-da-fundacao.html

Nenhum comentário: