A escala 5 x 2 e as manipulações estatísticas
O malabarismo de Daniel Duque para provar que trabalhadores brasileiros são privilegiados se comparados aos europeus e norte-americanos.
Luís Nassif/Jornal GGN
O inacreditável economista Daniel Duque, pesquisador do FGV Ibre, em parceria com o inacreditável colega Samuel Pessoa, produziu manchete de domingo na Folha, para comprovar que brasileiro trabalha pouco.
Baseou-se em um estudo publicado em uma base de dados global.
Seu artigo mostra um vício terrível do chamado economista de resultado. Suas pesquisas não visam desbravar a realidade, dar uma interpretação lógica e submeter os fatos à sua teoria. Mas em manipular as conclusões para favorecer os argumentos. E o objetivo final é juntar toda sorte de argumentos e sofismas para desacreditar a jornada 5 x 2.
O que diria um liberal intelectual honesto: no Brasil, os salários são baixos, as condições de trabalho precárias, mas uma redução na jornada de trabalho aumentará os custos das empresas. A partir daí, pode-se abrir uma discussão honesta, com argumentos honestos sendo brandidos de lado a lado. Entrariam, aí, conceitos dos quais os cabeças-de-planilha passam longe, como análises sistêmicas do desenvolvimento.
O que faz o economista de resultado? Simplesmente tortura os números para mostrar que, no Brasil, os trabalhadores vivem uma situação privilegiada, por trabalharem menos que os colegas europeus e norte-americanos.
Como Daniel Duque conseguiu essa alquimia?
Sofisma 1 – não considerou o tempo no trânsito
Mostrei aqui o sofisma utilizado pelo autor. Comparou o número de horas trabalhadas de vários países sem levar em conta o tempo perdido no trânsito.
Quando se inclui, o resultado muda. No modelo utilizado, o trabalhador brasileiro passa de -6,09% de horas trabalhadas para -1,31%
Sofisma 2 – considerou todos os empregos, formais e informais.
No Brasil, a informalidade atinge entre 38% e 40% dos trabalhadores. Na União Europeia é de 10 a 15%. Nos Estados Unidos, é de 8 a 12%.
Nem se comente a afirmação do autor, de que um sistema previdenciário benevolente faz o trabalhador parar de trabalhar mais cedo.
Sofisma 3 – o salário médio de cada região
Ajustado pela Paridade do Poder de Compra, percebe-se que o salário médio brasileiro é 52,78% menor que o da União Europeia e 71,67% menor que dos Estados Unidos:
Sofisma 4 – formalidade e informalidade
Essa é outra maneira de esconder a realidade.
Entre 15 a 18% da força de trabalho no país, segundo o PNAD (Pesquisa Anual de Amostra de Domicílios) é formada por desempregados, subocupados, desanimados (que desistiram de procurar emprego). Os subocupados por insuficiência de horas respondem por 8% da força de trabalho. Trabalham menos de 40 horas por semana, por falta de oportunidade.
Vamos brincar mais um pouco com os números.
O que se fez ali.
- O Brasil tem por volta de 15% da Força de Trabalho desempregada ou subempregada. Subempregada é que trabalha menos do que gostaria.
- Fiz uma regra de 3 simples. Supus que o contingente de sub e desempregados só conseguem trabalhar, em média, 30 horas por semana. Quantas horas deveriam trabalhar os 85% restantes para se chegar à média de 40,795 horas semanais do trabalhador brasileiro (sem contar o tempo no trânsito)? Deu 42,70 horas, o mesmo que os trabalhadores europeus e norte-americanos.
Está certo, joguei os números para atender à minha tese. Mas demonstro o ridículo que é a manipulação de estatísticas para esconder o fato real: o trabalhador brasileiro trabalha muito, em condições precárias, e recebe pouco.
Dilemas da economia brasileira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/dilemas-da-economia-brasileira.html



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