Deslocamento geoeconômico e
populacional
O Brasil vive uma silenciosa marcha para o interior,
impulsionada pela desindustrialização das metrópoles e pela expansão do modelo
primário‑exportador, redefinindo população, trabalho e território
Marcio Pochmann/A
Terra é Redonda
Desde o final do século XX, o Brasil vem mudando de forma relevante o seu padrão histórico de ocupação do território. Após décadas em que a produção, a população e a ocupação se concentravam nas grandes metrópoles litorâneas, observa-se uma crescente desconcentração relativa.
O interior do país e
as cidades médias crescem mais rapidamente do que as capitais e as regiões
metropolitanas tradicionais. Esse deslocamento não é apenas demográfico, pois
se apresenta como expressão direta da transformação estrutural do capitalismo
contemporâneo que impõe novos desafios para a governança do território, planejamento,
políticas públicas e produção de estatísticas e a geociências oficiais.
A
nova geoeconomia do país resulta de um duplo movimento que acontece
simultaneamente. De um lado, o processo de desindustrialização foi mais intenso
nas áreas metropolitanas litorâneas, uma vez que somente as regiões
metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre responderam por
quase quatro quintos da desindustrialização do país.
De
outro lado, a especialização da estrutura produtiva mais voltada a produção
primário-exportadora avanço para a sua interiorização. Tanto assim que pode
estar apontando para uma espécie de marcha para o Oeste brasileiro,
considerando a evolução do movimento redistributivo da população, produção e
ocupações no espaço nacional.
Com
isso, os antigos centros industriais localizados nas regiões litorâneas perdem
parcela da densidade produtiva e empregos no setor manufatureiro. Em sequência,
novas áreas de parte do interior do país ganham dinamismo econômico
impulsionado pela especialização produtiva, sobretudo pelo protagonismo do
setor primário-exportador.
Mudanças na dinâmica
populacional e nos fluxos migratórios
Dados
censitários e estimativas populacionais indicam que, entre 2000 e 2022, por
exemplo, que os municípios não metropolitanos tiveram crescimento médio
superior ao das capitais e regiões metropolitanas. Naquele mesmo período, as
capitais expandiram, em média, 0,8% ao ano, as regiões metropolitanas sem
capitais em 1,0%, os municípios do interior em 1,3% e as cidades médias (100 a
500 mil habitantes) em 1,6%.
Essas
informações sinalizam uma mudança do eixo dinâmico do dinamismo populacional,
com destaque para as cidades médias no interior das regiões Sudeste,
Centro-Oeste e Nordeste. Uma mudança de padrão vinculado ao novo perfil
migratório, uma vez que atualmente predominam migrações urbano–urbano, muitas
vezes de curta distância.
As
regiões metropolitanas do país como São Paulo e Rio de Janeiro têm registrado
saldos migratórios internos negativos, ao mesmo tempo em que os polos regionais
do interior absorvem parcelas crescentes da população. Em termos práticos, há
perda líquida nos espaços metropolitanos mais caros e densos e ganho em
periferias metropolitanas, cidades médias e interior que resulta do movimento
coerente com a dispersão urbana e a busca por custos menores e melhor qualidade
de vida.
No
estado de São Paulo, por exemplo, a capital paulistana ampliou o saldo líquido
migratório negativo médio anual de cerca de 32 mil pessoas/ano (2000–2010) para
cerca de 76 mil pessoas/ano (2010–2022). O interior do estado paulista, por sua
vez, continuou ganhando população, ainda que com a desaceleração (de cerca de
80 mil/ano para 50 mil/ano nos mesmos intervalos).
Além
disso, convém ressaltar que o perfil dos migrantes contemporâneo também tem
mudado significativamente. Com o arrefecimento do êxodo rural, o migrante atual
tende a ser mais urbano, em geral mais qualificado e mais apto a se mover entre
cidades, sobretudo de porte médio, em uma sociedade de serviços já plenamente
urbana e integrada por redes de serviços e conectividade digital.
Um
contraste direto e inegável com o período entre as décadas de 1960 e de 1980,
quando se consolidou a urbanização concentrada nas capitais e metrópoles
litorâneas. Durante a industrialização, por exemplo, dezenas de milhões de
brasileiros migraram direta ou indiretamente do campo para grandes cidades,
enquanto o interior perdia população.
Estrutura produtiva
transformada pela desindustrialização
A
reorganização econômica geográfica do país reflete o conjunto das
transformações na estrutura produtiva em curso desde 1990. A partir da abertura
comercial acelerada e pouco planejada, acompanhada de privatizações e
desnacionalizações, o Brasil passou a conviver com a desindustrialização,
especialmente em segmentos de maior intensidade tecnológica e com forte marca
metropolitana em grande parte das regiões litorâneas.
A
participação da indústria de transformação no PIB caiu de forma expressiva em
relação ao auge da sociedade industrial na passagem dos anos de 1970 para 1980.
Os principais indícios da desindustrialização prematura aconteceram nas grandes
regiões geográficas do Sudeste, Sul e Nordeste, enquanto outras regiões
exibiram trajetória distinta, o que reforçou o fenômeno do deslocamento
econômico, demográfico e ocupacional na dimensão espacial.
Com
o esfriamento da centralidade produtiva nas regiões litorâneas outrora as mais
dinâmicas, o interior do país passou a deter certo protagonismo vinculado à
expansão da produção de commodities e da
infraestrutura comprometida com a viabilização do ciclo exportador.
Consolidou-se, assim, uma nova fronteira econômica que se estende do Mato
Grosso passando por Goiás, Tocantins, Maranhão e Piauí, alcançando o Pará,
articulando soja, carne e mineração.
Essa
interiorização não ocorre como uma simples repetição do ciclo industrial e urbano
ocorrido mais centrado nas regiões litorâneas. Atualmente, o processo de
interiorização tem sido movido pela retomado do modelo econômico
primário-exportador que se se organiza em torno de cadeias intensivas em
recursos naturais, logística e serviços associados à demanda externa, com pouca
mobilização integrativa interna.
Neste
início do século XXI, o movimento da desconcentração econômica segue mais
intenso em algumas regiões litorâneas, sem compensar, contudo, o impacto
nacional derivado do enfraquecimento da capacidade das capitais em reter
população. No período 2002–2023, por exemplo, as grandes regiões geográficas
como Norte e Nordeste registraram o crescimento anual médio de renda per
capita mais elevado do que Sul e Sudeste.
Somente
a região Centro-Oeste conseguiu elevar a sua posição relativa. O salto da
terceira, em 2002, para a primeira posição nacional na renda per
capita, em 2023, o que permitiu ultrapassar o Sul e Sudeste,
revelou o peso do modelo primário-exportador e seus encadeamentos com
agroindústria, serviços e construção na região Centro-Oeste.
Repercussões na
distribuição ocupacional no território nacional
No
primeiro terço do século XXI ocorreu no Brasil uma importante reorganização da
ocupação em todo o território nacional. Nas metrópoles pertencentes às regiões
litorâneas, a perda de densidade manufatureira foi acompanhada pela conversão
de parte do emprego industrial de maior valor agregado em serviços, muitas
vezes de baixa produtividade e maior precarização e informalidade.
No
ano de 1985, por exemplo, cerca de dois terços dos empregos existentes no setor
industrial estavam concentrados no conjunto das capitais e regiões
metropolitanas e somente um terço em todo o interior do país. Quatro décadas
depois, quase 55% do total dos empregos industriais se localizam no interior do
país.
Em
paralelo, o processo de interiorização da população, produção e ocupações
acontece combinado com a abertura de novas fronteiras econômicas. Em grande
medida são as responsáveis pela mobilização de ocupações associadas ao ciclo
das commodities e
suas repercussões na agroindústria, logística, construção, serviços públicos
descentralizados e serviços privados que acompanham a nova renda regional.
Ao
mesmo tempo, a interiorização recente tendeu a se apoiar, em grande medida, nas
atividades econômicas menos complexas e mais dependentes das decisões
provenientes do exterior. Assim, a expansão econômica no território e o
crescimento nos serviços e infraestrutura transcorrem sem que, necessariamente,
alcancem a mesma densidade tecnológica e produtiva que antigamente a indústria
de transformação gerava nos antigos polos litorâneos.
Isso,
talvez, ajude a entender parte das razões da estagnação da produtividade no
Brasil desde os anos de 1980. Mesmo que o processo de interiorização em curso
contribua para adicionar um novo componente geopolítico-logístico para a
mobilidade populacional e ocupacional, a perda de participação do Brasil no
Produto Interno Bruto mundial não foi interrompida.
Acresce,
ademais, que o avanço da demanda externa por commodities com
respostas positivas em regiões não litorâneas tem sido acompanhado por
importantes investimentos internos e externos. A experiência atual das rotas de
integração sul-americana busca viabilizar os novos corredores de transporte
(ferrovias, hidrovias e rotas multimodais) que reforçam ainda mais a conexão
entre interior produtivo do país e os mercados globais desde a nova saída
exportadora pelos portos do Oceano Pacífico.
Com
o encurtamento de distâncias logísticas entre a produção nacional e os locais
de consumo externo, a garantia da maior competitividade nacional própria do
modelo primário-exportador. Nesse contexto global que o Brasil redefine a sua
posição na Divisão Internacional do Trabalho, tendo o ingresso de investimentos
estrangeiros em energia e infraestrutura papel complementar.
Assim
como a Inglaterra teve centralidade no comércio externo brasileiro durante o
século XIX, os Estados Unidos exerceu função equivalente no século XX, ao passo
que a China ocupa essa mesma posição atual. No ano de 2025, por exemplo, a
China respondeu por 28,7% do total das exportações brasileiras e por 43% do superávitcomercial
do Brasil. De todas as commodities exportadas,
74,1% foram para os chineses que responderam por 79% das vendas externas de
soja, 67% do minério de ferro e 45% do petróleo.
O
avanço do Brasil no século XXI caracteriza-se por uma nova configuração
territorial de sua população, estrutura produtiva e distribuição ocupacional.
As metrópoles litorâneas mais servicializadas e menos industriais, enquanto
parte do interior do país mais dinâmico por cadeias exportadoras e serviços
associados.
Em
função disso, a mobilidade populacional tem sido marcada pelo processo de
interiorização, sobretudo a dispersão urbana com fortalecimento de cidades
médias. Isso redefine as prioridades do planejamento territorial, oferta de
serviços públicos, regulação urbana, logística e da própria forma de produzir e
interpretar estatísticas e a geociências sobre o trabalho, a renda e a população
brasileira.
*Marcio Pochmann, professor
titular de economia na Unicamp, é o atual presidente do IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística). Autor, entre outros livros, de Novos
horizontes do Brasil na quarta transformação estrutural (Editora da
Unicamp). [https://amzn.to/46jSkQk]
O Brasil não precisa ser colônia global https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/autonomia-tecnologica.html

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