Lula defende governança global da IA e alerta para dominação das big techs
Em encontro de cúpula em Délhi, presidente propõe regulação multilateral para evitar que algoritmos aprofundem a desigualdade mundial
Davi Molinari/Vermelho
Na vanguarda do debate sobre a soberania digital, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou a tribuna da quarta cúpula sobre o tema, em Délhi (Índia), nesta quinta-feira (19), para lançar um chamado urgente à governança global da Inteligência Artificial (IA). No discurso, o líder brasileiro reverenciou o país anfitrião ao lembrar que “em Délhi o mundo digital retorna à sua terra natal”, uma vez que foram os matemáticos indianos que desenvolveram, há dois milênios, o sistema binário.
Para Lula, a tecnologia posiciona-se como o grande dilema ético e político da Quarta Revolução Industrial. O presidente entende que o avanço tecnológico ocorre em um momento crítico de recuo do multilateralismo, o que exige uma postura firme das nações do Sul Global para que a inovação não se transforme em uma nova ferramenta de opressão.
Em sua análise, o presidente enfatizou o caráter duplo de toda grande inovação. “Toda inovação tecnológica de grande impacto possui caráter dual e nos confronta com questões éticas e políticas”, afirmou, citando como exemplos os avanços na aviação, energia atômica, engenharia genética e corrida espacial: “tecnologias que podem multiplicar o bem-estar ou ameaçar a humanidade”.
Por um lado, Lula elogiou os benefícios da IA, como ganhos em produtividade, serviços públicos, medicina, segurança alimentar e energética; por outro, criticou potenciais abusos provenientes do mau uso da tecnologia, como armas autônomas, discurso de ódio, desinformação, pornografia infantil, feminicídio, violência contra mulheres e precarização do trabalho. “Conteúdos falsos manipulados por IA distorcem processos eleitorais e põem em risco a democracia”, alertou. Para Lula, algoritmos não são neutros: “São parte de uma complexa estrutura de poder.”
“Não estamos falando de inovação, mas de dominação”
O diagnóstico apresentado aponta para uma exclusão digital que remete às velhas formas de colonialismo. “Quando poucos controlam os algoritmos e as infraestruturas digitais, não estamos falando de inovação, mas de dominação”, denunciou o presidente, ao criticar o modelo de negócios baseado na exploração de dados pessoais sem retorno de valor local. Diante desse cenário, Lula defendeu a regulação das big techs para salvaguardar direitos humanos, sustentando que “colocar o ser humano no centro das nossas decisões é tarefa urgente”.
Embora tenha citado a importância do Brics e do diálogo com o G7, o presidente sustentou que nada substitui a universalidade da ONU e defendeu uma governança que “reconheça a diversidade de trajetórias nacionais e garanta que a IA fortaleça a democracia, a coesão social e a soberania dos países”.
Ao integrar a pauta da IA com a busca por autonomia em cadeias de suprimentos e energia limpa, o governo brasileiro demonstra que a soberania digital é indissociável do desenvolvimento econômico. Esta é a primeira participação de um presidente brasileiro em uma cúpula dedicada exclusivamente ao tema. Desde 2023, líderes globais passaram a se reunir em encontros específicos sobre segurança e governança da IA, inaugurados pela AI Safety Summit, no Reino Unido, seguidos pela AI Seoul Summit, em 2024, e pela AI Action Summit, em Paris, em 2025, que pavimentaram o caminho para a atual cúpula em Nova Délhi, a primeira sediada no Sul Global.
Lula e Modi trabalham convergência política bilateral
A agenda de Lula em solo indiano, que se estende até o dia 21 de fevereiro, consiste em uma visita de Estado a convite do primeiro-ministro Narendra Modi. O encontro entre os dois líderes busca consolidar um bilateralismo em ascensão, com a meta ousada de elevar o intercâmbio comercial dos atuais US$ 12,1 bilhões para US$ 20 bilhões até 2030.
As conversas bilaterais focam na cooperação em minerais críticos para a transição energética e no aprofundamento de parcerias em defesa e transformação digital. Lula e Modi trabalham para que a convergência política se traduza em acordos concretos, incluindo investimentos conjuntos em centros de dados e tecnologias de descarbonização.
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