19 fevereiro 2026

De volta ao real

As cinzas de ontem e de agora
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65       

Já não se ouvem os sinos ao alvorecer anunciando a quarta-feira de cinzas. A folia segue e se prolonga um pouco mais, como no Recife e em Olinda.

No século passado, a quarta-feira era um dia de luto sub-reptício, não havia arrependimento, mas um ar solene de que os tempos se transfiguravam desde a madrugada.

Ao trabalho, gente! Apenas a concessão de uma visita às redes digitais para a constatação de que os cinco dias mágicos deixaram suas marcas, as mais diversas e imagináveis, conforme os sonhos vivos sob o som dos tambores e o traçado apaixonante dos clarins.

Mas é obrigatório conferir e-mails, atualizar a agenda, retomar compromissos.

O peso da realidade se impõe.

Nas ruas ainda palmilhadas por confetes, serpentinas, restos de fantasias, marcas da jornada vivida, a cidade retoma pouco a pouco a sua rotina.

Trabalhar é preciso.

E a consciência da finitude. A eternidade apenas na promessa dos versos do samba e do frevo-canção, nas juras de amor pronunciadas sob o fogo da paixão.

E consolo nas palavras do poeta: “Mundo, vasto mundo,/se eu me chamasse Raimundo/seria uma rima, não seria uma solução./Mundo, mundo vasto mundo,/mais vasto é o meu coração.”

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