21 fevereiro 2026

Uma crônica de Ruy Castro

Da tela para a vida
Quem inventou 'Ninguém é perfeito', 'Siga o dinheiro' e 'Elementar, meu caro Watson?' Frases boas de filmes são aquelas que entram para o nosso dia-a-dia e não sabemos de onde vieram
Ruy Castro/Folha de S. Paulo    

Todas as reportagens que se fizeram sobre o excepcional ator Robert Duval, morto no domingo (15), citaram sua fala no papel do tenente-coronel Kilgore em "Apocalipse" (1979), de Francis Ford Coppola. De farda, mas sem o dólmã e com um chapéu de ranger da Cavalaria americana, em meio às explosões no Vietnã, ele diz, já com uma ponta de nostalgia da guerra: "Adoro o cheiro de napalm pela manhã".

É uma grande fala, escrita pelo roteirista John Milius. Duval a imortalizou, mas só tem sentido no filme. Você nunca a aplicou na vida real. Frases boas de filmes são aquelas que entram para o nosso dia-a-dia e não se sabe de quem são ou de onde vieram. Como "Ninguém é perfeito", que Joe E. Brown diz para Jack Lemmon em "Quanto Mais Quente Melhor" (1959), de Billy Wilder. Quem a escreveu? I.A.L. Diamond, parceiro de Billy como roteirista em 12 filmes.

E "Quando a lenda supera a realidade, publica-se a lenda", em "O Homem que Matou o Facínora" (1962), de John Ford? De quem é? De James Warner Bellah. E "Amar é não ter de pedir perdão", em "Love Story" (1970), de Arthur Hiller? De Erich Segal. E "Vou fazer uma proposta que [você] não conseguirá recusar", em "O Poderoso Chefão" (1972), também de Coppola? De Mario Puzo. E "Siga o dinheiro", em "Todos os Homens do Presidente" (1976), de Alan J. Pakula? De William Goldman.

"Casablanca" (1942), de Michael Curtiz, deixou duas frases para a história: "Nós sempre teremos Paris", suspira Humphrey Bogart para Ingrid Bergman, e "Prenda os suspeitos de sempre", ordena ao soldado o chefe de polícia Claude Rains. De quem são? De Howard Koch ou dos irmãos Julius e Philip Epstein, dos vários que trabalharam no roteiro.

E "Elementar, meu caro Watson"? Ficou famosa por causa de um filme, "As Aventuras de Sherlock Holmes" (1939), de Alfred Werker, criada pelos roteiristas Edwin Blue e William Drake e dita por Basil Rathbone como Sherlock. Não consta de nenhum dos 66 contos e quatro romances de Arthur Conan Doyle sobre Holmes. Cinema também é cultura.

Ilustração: Heloisa Seixas

"Nosso amado planeta vítima da indiferença" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/minha-opiniao_9.html

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