25 fevereiro 2026

Uma crônica de Abraham Sicsu

Perdas de um boêmio
Abraham B. Sicsu     

Gerson sempre disse, “você é um boêmio diurno”. A mais pura verdade. A noite não me fascina tanto, mas adoro a boemia.

Gosto de boteco, do papo descompromissado, dos sonhos revelados, das mentiras disfarçadas, sem dizer, da cachacinha, do rum, da cerveja e dos manjares maravilhosos que chamam de tira gosto. Não sei o porquê?

Meu dia é sábado, pontualmente às 10 horas da manhã, começo os trabalhos, encontro com amigos e faço as reverências ao dia da farra. Sempre tenho um local ao qual me dirijo, posso ir para outros depois, mas o início tem que ser nele.

Quando morava em Ponto de Parada era o Mercado da Encruzilhada. Mais precisamente o Bar Academia do querido Eduardo. Lá chegava mais cedo. Não para me iniciar com os prazeres que Baco nos dá e abençoa, mas para ver um grupo muito peculiar.

A Turma das seis, uma agregação de farristas que passavam a noite em festas e tinham que estar no mercado às seis da manhã. Totalmente alcoolizados saiam lá pelas oito. Mas, eram organizados tinham até camisa uniformizada e reverenciavam a todos que fossem se aproximando.

Passados esses momentos de entretenimento, ficava conversando com o dono do boteco esperando o grupo das dez e meia. Evidentemente, com meu rum e coca.

Velhinhos que chegavam às dez e meia e tinham duas mesas reservada. Com minha bebida ficava ao lado bisbilhotando, escutando as conversas malucas. De Von Romel a Zepellin, de política a sacanagem. Uma delícia de ser escutado. Mentiras históricas se tornavam verdades absolutas, com juras de testemunho ocular.

Lá pelo meio dia os filhos chegavam de carro para levá-los embriagados.

O português Eduardo foi mudar de vida, ser gerente de suprimentos no Real Hospital. O bar mudou de dono e virou um self service. Triste.

Mudei para a Boa Vista. Novamente o Mercado. Lá tinha o Bar do Roberto, amigo fraterno, e excelente papo. Também, o garçom Geraldo, bom de fala e de copo, mas com uma vida muito difícil. Muitas desgraças, muito infortúnio. Apesar disso, tratava-nos muito bem.

Reservava a mesa sob a árvore frondosa, sempre atento a que não invadissem esse espaço. Verdade, nossa mesa era freqüentada por políticos, cordelistas, artistas plásticos, professores e escritores que por ali passavam e conosco confraternizavam.

Roberto tinha ganho um festival de boteco com o seu famoso patinho. Osso de carne gorda com feijão preto. Mas, mudava sempre de cozinheira o que não trazia qualidade. Como dizia meu companheiro inseparável de boemia diurna, professor Polica, “a cerveja é quente, a comida é ruim, mas não podíamos deixar de ir lá”.

O Mercado mudou, se modernizou, infelizmente, Roberto vendeu o bar. Soube depois que ele e Geraldo tinham falecido. Perdemos grandes amigos.

Venho para Casa Amarela. Chique, mudaram o nome do bairro  da rua para Parnamirim. Na minha rua abriu um bar. Orobó. Ia com meu neto, na época com três ou quatro anos. O garçom era Matheus. Um jovem atencioso que brincava com ele e sempre me atendia bem.

Se ainda não tinha aberto, dava um jeito de me colocar para dentro numa mesa escondida. Melhores tira gosto da região. Mas, veio a eleição de 2018. A chamada polarização.

Tinha gente que ia lá só para brigar. O clima ficou muito carregado. Não havia dia sem discussão. Pior, o dono tomou partido. Colocou várias bandeiras brasileiras, à época caracterizando apoio a um lado. Metade da freguesia se afastou. Não havia mais aquele clima de união e amizade.

Passados alguns meses da eleição, é fechado. Matheus voltou para o interior, perdi o convívio com um amigo.  Não tinha mais os caldinhos deliciosos, o escondidinho de charque, nem o camarãozinho crocante.

Desde que vim para onde moro, rua do clube América e do Consulado Chinês, faz mais de quinze anos, meu sábado sempre começa na Mercearia Nabuco. Na Rua da Harmonia, a venda de seu Artur. Viramos grandes amigos. Pessoa afável, com bom senso de humor, sempre cordial, pelo menos com os amigos.

Lá fiz boas amizades. Tenho até mesa cativa. É uma mercearia, tira gosto é queijo ou mortadela. Mas, para minha mesa, sempre tem uma carne guisada, um charque no molho, um camarãozinho ou uma saladinha de bacalhau. Feitos pelas mãos de fada de Dona Dalva.

A tristeza também aparece. Lá perdi dois amigos. Zé que me servia como ninguém, que contava suas aventuras de velho solteiro, que comigo compartilhava suas dificuldades com a mãe idosa e a irmã protetora. Diabético, não se cuidava, bebia e comia tudo, faleceu.

Sônia, que ajudava no balcão. Fazia aniversário no mesmo dia que eu. Sempre disposta, sempre atenta. Para nós fazia questão de trazer à mesa o que de melhor podia oferecer. Doente, com muitos filhos e netos, nos últimos nos, sofria muito, mas tinha que trabalhar. Sua perda foi muito sentida.

Faz quase 20 dias que seu Artur não aparece na venda. Está internado num hospital. As pernas inchadas e com grossas varizes, resultado de ficar o dia todo em pé, também, fortes dores intestinais advindas do alimentar errático e sem disciplina. Nos seus 83 anos, as preocupações com os negócios, com os filhos, com a mulher, sem um dia de folga ou umas férias faz mais de trinta anos.

Rezando por ele com o coração apertado. Não posso ter uma nova perda. Uma pessoa a quem muito quero e que é muito querida por muitos.

Boemia, o escape para as agruras que a vida traz, um caminho para o espairecer, para o encontro fraterno, para o fazer amigos. Sem ela, suportar a vida se torna muito mais pesado. Adaptando o verso dos poetas Edvaldo Gouveia e Jair Amorim, sem ela, “angustia, solidão, um triste adeus em cada mão.”

Leia também uma crônica de Luis Fernando Verissimo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/01/uma-cronica-de-luis-fernando-verissimo.html 

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