Perdas de um boêmio
Abraham B. Sicsu
Gerson sempre disse,
“você é um boêmio diurno”. A mais pura verdade. A noite não me fascina tanto,
mas adoro a boemia.
Gosto de boteco, do
papo descompromissado, dos sonhos revelados, das mentiras disfarçadas, sem
dizer, da cachacinha, do rum, da cerveja e dos manjares maravilhosos que chamam
de tira gosto. Não sei o porquê?
Meu dia é sábado,
pontualmente às 10 horas da manhã, começo os trabalhos, encontro com amigos e
faço as reverências ao dia da farra. Sempre tenho um local ao qual me dirijo,
posso ir para outros depois, mas o início tem que ser nele.
Quando morava em
Ponto de Parada era o Mercado da Encruzilhada. Mais precisamente o Bar Academia
do querido Eduardo. Lá chegava mais cedo. Não para me iniciar com os prazeres
que Baco nos dá e abençoa, mas para ver um grupo muito peculiar.
A Turma das seis, uma
agregação de farristas que passavam a noite em festas e tinham que estar no
mercado às seis da manhã. Totalmente alcoolizados saiam lá pelas oito. Mas,
eram organizados tinham até camisa uniformizada e reverenciavam a todos que
fossem se aproximando.
Passados esses
momentos de entretenimento, ficava conversando com o dono do boteco esperando o
grupo das dez e meia. Evidentemente, com meu rum e coca.
Velhinhos que
chegavam às dez e meia e tinham duas mesas reservada. Com minha bebida ficava
ao lado bisbilhotando, escutando as conversas malucas. De Von Romel a Zepellin,
de política a sacanagem. Uma delícia de ser escutado. Mentiras históricas se
tornavam verdades absolutas, com juras de testemunho ocular.
Lá pelo meio dia os
filhos chegavam de carro para levá-los embriagados.
O português Eduardo
foi mudar de vida, ser gerente de suprimentos no Real Hospital. O bar mudou de
dono e virou um self service. Triste.
Mudei para a Boa
Vista. Novamente o Mercado. Lá tinha o Bar do Roberto, amigo fraterno, e
excelente papo. Também, o garçom Geraldo, bom de fala e de copo, mas com uma
vida muito difícil. Muitas desgraças, muito infortúnio. Apesar disso,
tratava-nos muito bem.
Reservava a mesa sob
a árvore frondosa, sempre atento a que não invadissem esse espaço. Verdade,
nossa mesa era freqüentada por políticos, cordelistas, artistas plásticos,
professores e escritores que por ali passavam e conosco confraternizavam.
Roberto tinha ganho
um festival de boteco com o seu famoso patinho. Osso de carne gorda com feijão
preto. Mas, mudava sempre de cozinheira o que não trazia qualidade. Como dizia
meu companheiro inseparável de boemia diurna, professor Polica, “a cerveja é
quente, a comida é ruim, mas não podíamos deixar de ir lá”.
O Mercado mudou, se
modernizou, infelizmente, Roberto vendeu o bar. Soube depois que ele e Geraldo
tinham falecido. Perdemos grandes amigos.
Venho para Casa
Amarela. Chique, mudaram o nome do bairro
da rua para Parnamirim. Na minha rua abriu um bar. Orobó. Ia com meu
neto, na época com três ou quatro anos. O garçom era Matheus. Um jovem
atencioso que brincava com ele e sempre me atendia bem.
Se ainda não tinha
aberto, dava um jeito de me colocar para dentro numa mesa escondida. Melhores
tira gosto da região. Mas, veio a eleição de 2018. A chamada polarização.
Tinha gente que ia lá
só para brigar. O clima ficou muito carregado. Não havia dia sem discussão.
Pior, o dono tomou partido. Colocou várias bandeiras brasileiras, à época
caracterizando apoio a um lado. Metade da freguesia se afastou. Não havia mais
aquele clima de união e amizade.
Passados alguns meses
da eleição, é fechado. Matheus voltou para o interior, perdi o convívio com um
amigo. Não tinha mais os caldinhos
deliciosos, o escondidinho de charque, nem o camarãozinho crocante.
Desde que vim para
onde moro, rua do clube América e do Consulado Chinês, faz mais de quinze anos,
meu sábado sempre começa na Mercearia Nabuco. Na Rua da Harmonia, a venda de
seu Artur. Viramos grandes amigos. Pessoa afável, com bom senso de humor,
sempre cordial, pelo menos com os amigos.
Lá fiz boas amizades.
Tenho até mesa cativa. É uma mercearia, tira gosto é queijo ou mortadela. Mas,
para minha mesa, sempre tem uma carne guisada, um charque no molho, um
camarãozinho ou uma saladinha de bacalhau. Feitos pelas mãos de fada de Dona
Dalva.
A tristeza também
aparece. Lá perdi dois amigos. Zé que me servia como ninguém, que contava suas
aventuras de velho solteiro, que comigo compartilhava suas dificuldades com a
mãe idosa e a irmã protetora. Diabético, não se cuidava, bebia e comia tudo,
faleceu.
Sônia, que ajudava no
balcão. Fazia aniversário no mesmo dia que eu. Sempre disposta, sempre atenta.
Para nós fazia questão de trazer à mesa o que de melhor podia oferecer. Doente,
com muitos filhos e netos, nos últimos nos, sofria muito, mas tinha que
trabalhar. Sua perda foi muito sentida.
Faz quase 20 dias que
seu Artur não aparece na venda. Está internado num hospital. As pernas inchadas
e com grossas varizes, resultado de ficar o dia todo em pé, também, fortes
dores intestinais advindas do alimentar errático e sem disciplina. Nos seus 83
anos, as preocupações com os negócios, com os filhos, com a mulher, sem um dia
de folga ou umas férias faz mais de trinta anos.
Rezando por ele com o
coração apertado. Não posso ter uma nova perda. Uma pessoa a quem muito quero e
que é muito querida por muitos.
Boemia, o escape para
as agruras que a vida traz, um caminho para o espairecer, para o encontro
fraterno, para o fazer amigos. Sem ela, suportar a vida se torna muito mais
pesado. Adaptando o verso dos poetas Edvaldo Gouveia e Jair Amorim, sem ela,
“angustia, solidão, um triste adeus em cada mão.”
Leia também uma crônica de Luis Fernando Verissimo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/01/uma-cronica-de-luis-fernando-verissimo.html

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