28 fevereiro 2026

Celso Pinto de Melo opina

O mapa mental do poder
Como elites governamentais decidem em cenários complexos – e os riscos de transformar a máquina pública em arma de guerra cultural
Celso Pinto de Melo/Substack   


“O ideal do governo totalitário não é o homem convicto, mas o homem para quem a distinção entre fato e ficção não existe mais”(Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo) [1]

 

Introdução

Em momentos de crise, a política revela o que costuma esconder: a qualidade real de quem decide. E, em democracias, uma dúvida retorna com insistência: quem ocupa os cargos centrais do governo – ministros, secretários e conselheiros – está preparado para lidar com o mundo real?

Frequentemente, essa inquietação se traduz numa comparação simplificada: onde estudaram essas pessoas? Que títulos têm? A que universidades pertencem? É um impulso compreensível, mas enganoso. E pode produzir um elitismo disfarçado de análise.

Dois alertas para evitar o fetichismo

Convém começar por dois alertas.

O primeiro é direto: não pode haver fetichismo de currículos. Chefes de governo não precisam ser acadêmicos – e muitas vezes não o são. O essencial é outra coisa: discernimento, experiência de vida acumulada e a capacidade de escolher bem seus assessores, ouvindo cenários divergentes, avaliando riscos e tomando decisões com prudência. Um exemplo notório é Luiz Inácio Lula da Silva: torneiro mecânico e líder sindical que se tornou presidente e estadista respeitado internacionalmente, em grande parte por sua habilidade de negociação, leitura política e construção de equipes capazes de transformar decisões em ação.

O segundo alerta é ainda mais decisivo: títulos acadêmicos não conferem atestado de integridade, humanidade ou superioridade moral. A história mostra, com brutal clareza, que sociedades altamente escolarizadas podem produzir barbaridades administradas com eficiência.

A Conferência de Wannsee, realizada em 20 de janeiro de 1942, é o exemplo mais sinistro e pedagógico. Quinze altos dirigentes do Reich e do aparelho de segurança (oito deles com título acadêmico de doutorado) se reuniram para coordenar e viabilizar administrativamente a chamada “Solução Final da Questão Judaica” – isto é, a deportação sistemática e o assassinato em massa dos judeus europeus, articulando os ministérios civis, o aparato policial e a administração territorial sob uma mesma lógica de extermínio [2].

Essa constatação ganha densidade ainda maior quando se lê Christian Ingrao: em “Crer & Destruir”, o autor reconstrói como parte significativa da inteligência acadêmica alemã – juristas, historiadores, economistas e doutores em humanidades – aderiu à SS e colocou repertório, método e ambição intelectual a serviço da violência [3]. Mais do que cúmplices, muitos desses quadros ajudaram a transformar guerra e ocupação no Leste europeu em um projeto “racional”, combinando doutrina racial com linguagem administrativa: produziram relatórios, memorandos, mapeamentos e estimativas que convertiam povos inteiros em categorias gerenciais – “populações excedentes”, “grupos indesejáveis”, “números a deslocar”. A barbárie, assim, não dispensou a inteligência: ela a recrutou.

Por isso, a questão central não é quantos diplomas há no governo. É outra: que valores, que visão de mundo e que responsabilidade ética orientam o uso do poder.

O primeiro escalão como “mapa mental” do Estado

Feitos esses alertas, a pergunta decisiva fica mais útil: que tipo de repertório intelectual, institucional e humano predomina no primeiro escalão?

Formação e trajetória não são medalhas. Elas funcionam como lentes. Moldam reflexos, definem prioridades e influenciam o que uma elite governante reconhece como risco real – e o que ela despreza como detalhe.

Num século marcado por crises sistêmicas – pandemias, guerras híbridas, energia, tecnologia, migrações, inflação – essas lentes pesam mais do que slogans.

O primeiro escalão é o sistema nervoso do Executivo. É ali que se decide o que é urgência e o que é rotina; o que exige negociação e o que vira confronto; o que deve ser coordenado com método e o que pode ser improvisado como gesto. É nesse ponto que as diferenças entre elites governamentais – e não apenas entre presidentes – ficam nítidas.

A tradição do Estado como coordenação

Em muitas administrações norte-americanas do pós-guerra, apesar de variações ideológicas e de estilo, consolidou-se uma tradição: governar era entendido como coordenar complexidade.

O Estado era percebido como um sistema: um conjunto de instituições, rotinas, limites legais, compromissos internacionais e consequências não intencionais. Isso não significa governos prudentes ou éticos: erros graves atravessam a história de todas as democracias.

Mas, em geral, existia um ethos institucional claro. Dito de forma simples: governo não era apenas palco; era máquina.

A inflexão do trumpismo: do Estado-sistema ao Estado-conflito

É nesse contraste que se compreende o sentido mais profundo da inflexão recente associada ao trumpismo.

Não se trata de ausência de inteligência, nem de uma suposta “degeneração educacional” do poder. Trata-se de uma mudança no modo de selecionar, legitimar e organizar a elite governamental. Onde antes se privilegiava a pergunta “quem consegue administrar, negociar e coordenar?”, passa a ganhar centralidade outra lógica: “quem consegue mobilizar, combater e vencer a guerra política?”.

Isso muda o perfil do primeiro escalão. Cresce o peso de quadros voltados ao confronto simbólico, à comunicação agressiva, à guerra cultural e à disciplina interna. Não desaparece a elite. Ela muda de natureza.

Política performática e risco cognitivo

Essa transformação se combina com um fenômeno típico do século XXI: quanto mais complexo o mundo se torna, maior a demanda social por explicações simples.

A política performática explora isso com habilidade. Ela transforma dilemas técnicos em dramas morais. Converte incerteza em certeza agressiva. E substitui problemas estruturais por culpados bem identificáveis.

O risco cognitivo é evidente. Em cenários de ansiedade e polarização, coerência narrativa pode valer mais do que as evidências. “Parecer firme” vale mais do que “ser prudente”. O problema é que os governos não operam no teatro da retórica. Operam no terreno das consequências. Em política externa, sinais importam. Em economia, expectativas importam. Na saúde pública, método importa. Em gestão de crise, coordenação importa.

O segundo governo Trump e a “roteirização” do Estado

No segundo governo Trump, essa inflexão ganha um componente adicional: a consolidação de uma espécie de governo por manuais do poder.

Documentos como o Project 2025, formulado no entorno da Heritage Foundation, defendem uma reorganização estrutural do Executivo, ampliando a capacidade presidencial de remodelar a burocracia federal e enfraquecendo proteções típicas do serviço civil baseado em mérito [4]. Não se trata apenas de escolher ministros alinhados, algo normal na política. Trata-se de redesenhar o Estado para que o critério central deixe de ser competência institucional e passe a ser, antes de tudo, fidelidade política.

Nesse ecossistema, o chamado Project Esther aparece como outro roteiro político-ideológico. O documento procura redefinir as fronteiras entre dissenso, ativismo, universidade e ameaça pública, propondo estratégias legais e administrativas de contenção e enquadramento [5]. Ainda que esses documentos não se convertam automaticamente em política oficial integral, sua circulação e influência sinalizam um princípio: o Estado deixa de ser mediador de conflitos e passa a ser um instrumento de conflito.

Quando o conhecimento vira inimigo

Nesse ponto, vale mencionar – com parcimônia – declarações e atitudes de figuras centrais desse ambiente político, ridicularizando a academia, a ciência e o conhecimento especializado. Não se trata de colecionar frases estapafúrdias, mas de registrar um sintoma: quando o conhecimento é apresentado como “inimigo”, o Estado perde seus instrumentos de autocrítica e de correção institucional. O desprezo performático pela expertise funciona como sinal político e como instrumento de disciplina institucional, reduzindo o espaço do dissenso técnico e transformando instituições produtoras de conhecimento em alvo permanente.

No campo da saúde pública, a ascensão de figuras como Robert F. Kennedy Jr., associado há anos ao ativismo antivacinas, evidencia o risco institucional de decisões orientadas por suspeita ideológica em vez de evidência [6].

É aqui que surge um nome-chave: Stephen Miller, um dos principais formuladores do núcleo duro do trumpismo no segundo mandato, descrito como peça central na máquina interna de decisão e na condução de políticas, especialmente em temas de imigração e segurança interna [7]. Em temas como a imigração, Miller tem rejeitado e atacado evidências acadêmicas sobre a contribuição de imigrantes para a ciência e tecnologia, em contraste com um amplo corpo de pesquisa disponível. Em vez de debater dados, esse tipo de retórica recorre a frases de efeito que tratam universidades e especialistas como parte de uma “máquina” a ser derrotada – e não como instituições públicas a serem aprimoradas. E isso não é um detalhe retórico: é uma “teoria do Estado” em ação, onde o conhecimento deixa de ser um instrumento de diagnóstico e vira inimigo político.

A mensagem é simples e dura: não se trata de aperfeiçoar políticas públicas. Trata-se de vencer uma batalha cultural.

Um contraste internacional

A comparação internacional ajuda a completar o quadro – e mostra que a questão não é “ter diplomas”, mas sim qual o tipo de elite um Estado recruta e forma para governar.

Ao longo do século XX, os Estados Unidos produziram, em diversas conjunturas, elites dirigentes que combinavam repertório intelectual e experiência administrativa. Basta lembrar o ecossistema de quadros que orbitou Franklin D. Roosevelt, com o New Deal e a profissionalização das agências federais, ou de John F. Kennedy, que mobilizou especialistas e gestores para lidar com os dilemas estratégicos da Guerra Fria. Mesmo em governos conservadores, como o de George H. W. Bush, manteve-se por décadas uma tradição de Estado em que a política externa, a defesa e a economia eram tratadas como campos complexos, exigindo prudência institucional, negociação e burocracia qualificada.

Na Europa ocidental, com diferenças nacionais, o padrão foi ainda mais claro. Na França, a formação das elites administrativas nas grandes escolas e nas carreiras de Estado consolidou um modelo tecnocrático voltado ao planejamento e à execução de políticas públicas. Já na Alemanha, a cultura de serviço público e da legalidade reforçou uma elite dirigente treinada para conciliar eficiência e previsibilidade. E no Reino Unido, o serviço público sustentou um ethos duradouro: governos mudam, mas o Estado preserva continuidade, método e capacidade de implementação.

Cada modelo tem riscos próprios. Tecnocracias podem se afastar do eleitorado. Elites securitárias, formadas no entorno de aparelhos de segurança e defesa, podem naturalizar coerção. A existência de partidos-Estado (isto é, sistemas em que o partido dominante se confunde com o aparelho estatal, reduzindo a alternância e subordinando as instituições a uma hierarquia política única) pode limitar ou impedir a diversidade de opiniões. Ainda assim, há um ponto em comum: tais sistemas tendem a produzir elites com socialização institucional profunda, treinadas para operar máquinas estatais complexas, comparar cenários e ajustar rumos.

O trumpismo, em contraste, expressa uma elite típica da democracia hiper midiatizada: menos baseada em carreiras institucionais e mais na mobilização permanente, na guerra cultural e na disputa narrativa. Em vez de administrar divergências, a prioridade torna-se vencer adversários; em vez de coordenar complexidade, simplificar conflitos. É nesse contexto que documentos como o Project 2025 ganham centralidade: não apenas para orientar políticas, mas também para reordenar o próprio Estado, deslocando o eixo do mérito para a lealdade. O resultado é uma mudança de linguagem – e de método: o Estado deixa de ser visto como um sistema que exige aprendizado e moderação e passa a ser tratado como um instrumento de combate.

Os custos: instabilidade global e fratura interna

Essa mudança de “mapa mental” não afeta apenas a eficiência administrativa do Estado. Ela traz riscos maiores, com impactos que ultrapassam fronteiras.

No plano geopolítico, quando governos passam a operar sob a lógica de confronto permanente, cresce a probabilidade de decisões tomadas como gestos. E gestos podem virar escaladas. Adversários leem imprevisibilidade como ameaça. Aliados leem inconstância como abandono.

A estabilidade internacional depende, em grande parte, da capacidade dos Estados de sinalizar compromissos, honrar pactos e modular tensões – evitando que crises se convertam, por inércia ou por cálculo político, em escaladas irreversíveis. Uma política externa convertida em extensão da guerra cultural doméstica fragiliza esse equilíbrio e amplia as instabilidades.

No plano interno, o custo pode ser ainda mais corrosivo: a erosão da coesão social e da confiança institucional. Quando burocracia, ciência, imprensa e universidade passam a ser tratadas sistematicamente como inimigas do povo – e não como instituições criticáveis, porém necessárias –, o debate público deixa de ser disputa entre projetos e vira disputa entre identidades irreconciliáveis.

O resultado é conhecido: dissensões se aprofundam, ressentimentos se intensificam e o espaço para mínimos consensos nacionais se reduz. Justamente aqueles consensos indispensáveis para enfrentar crises sem romper o tecido social.

Conclusão: não é “pedigree”, é gramática de Estado

A elite governamental associada ao trumpismo destoa de modelos centrados em coordenação institucional. Mas não por pedigree. Destoa por razões práticas: pela centralidade da lealdade como critério de recrutamento, pela conversão de instituições técnicas em alvos preferenciais e pela predominância de decisão por narrativa e confronto, em detrimento da coordenação e da revisão por evidências.

Nada disso garante o fracasso por si só – assim como também não impedia erros nos governos anteriores. Mas altera a gramática do Estado.

E, num mundo de crises sistêmicas, governar como espetáculo aumenta o preço da realidade. O dilema democrático do nosso tempo talvez seja este: como combinar legitimidade popular com competência institucional, sem cair nem no elitismo que despreza a sociedade, nem no anti-intelectualismo que despreza as evidências.

Porque, quando a política transforma o Estado em guerra permanente, o preço não recai só sobre os adversários: recai sobre o país – e, no caso da maior potência do planeta, sobre o mundo.

Bibliografia

1. Arendt, H., Origens do totalitarismo. 2013, São Paulo: Companhia de Bolso.

2. United States Holocaust Memorial, M. Wannsee Conference and the “Final Solution”. Holocaust Encyclopedia 2026 2026–01–19; https://encyclopedia.ushmm.org/content/en/article/wannsee-conference-and-the-final-solution.

3. Ingrao, C., Crer & destruir: os intelectuais na máquina de guerra da SS nazista. 2015, Rio de Janeiro: Zahar.

4. Heritage, Foundation, Mandate for Leadership: The Conservative Promise (Project 2025). 2022, The Heritage Foundation: Washington, DC.

5. Heritage, Foundation, Project Esther: A National Strategy to Combat Antisemitism. 2024, The Heritage Foundation: Washington, DC.

6. Caplan, A., D. Milbank, e R. Kocher. RFK Jr.’s history of medical misinformation raises concerns over HHS nomination. Brookings Institution 2025 2025–02–06; https://www.brookings.edu/articles/rfk-jr-s-history-of-medical-misinformation-raises-concerns-over-hhs-nomination/.

7. Cook, N. Who Is Stephen Miller? The Trump Aide Driving Policy in the Second Term. Bloomberg 2026 2026–01–09; https://www.bloomberg.com/news/features/2026-01-09/who-is-stephen-miller-the-trump-aide-driving-policy-in-the-second-term.


[1] Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

Questão nacional e transição socialista no século XXI https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/soberania-socialismo.html

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