O mapa mental do poder
Como
elites governamentais decidem em cenários complexos – e os riscos de
transformar a máquina pública em arma de guerra cultural
Celso Pinto de Melo/Substack
Introdução
Em
momentos de crise, a política revela o que costuma esconder: a qualidade real
de quem decide. E, em democracias, uma dúvida retorna com insistência: quem
ocupa os cargos centrais do governo – ministros, secretários e conselheiros –
está preparado para lidar com o mundo real?
Frequentemente,
essa inquietação se traduz numa comparação simplificada: onde estudaram essas
pessoas? Que títulos têm? A que universidades pertencem? É um impulso
compreensível, mas enganoso. E pode produzir um elitismo disfarçado de análise.
Dois alertas para evitar o fetichismo
Convém
começar por dois alertas.
O
primeiro é direto: não pode haver fetichismo de currículos. Chefes de governo
não precisam ser acadêmicos – e muitas vezes não o são. O essencial é outra
coisa: discernimento, experiência de vida acumulada e a capacidade de escolher
bem seus assessores, ouvindo cenários divergentes, avaliando riscos e tomando
decisões com prudência. Um exemplo notório é Luiz Inácio Lula da Silva:
torneiro mecânico e líder sindical que se tornou presidente e estadista
respeitado internacionalmente, em grande parte por sua habilidade de
negociação, leitura política e construção de equipes capazes de transformar
decisões em ação.
O
segundo alerta é ainda mais decisivo: títulos acadêmicos não conferem atestado
de integridade, humanidade ou superioridade moral. A história mostra, com
brutal clareza, que sociedades altamente escolarizadas podem produzir
barbaridades administradas com eficiência.
A
Conferência de Wannsee, realizada em 20 de janeiro de 1942, é o exemplo mais
sinistro e pedagógico. Quinze altos dirigentes do Reich e do aparelho de
segurança (oito deles com título acadêmico de doutorado) se reuniram para
coordenar e viabilizar administrativamente a chamada “Solução Final da Questão
Judaica” – isto é, a deportação sistemática e o assassinato em massa dos judeus
europeus, articulando os ministérios civis, o aparato policial e a
administração territorial sob uma mesma lógica de extermínio [2].
Essa constatação ganha densidade ainda maior quando se lê
Christian Ingrao: em “Crer
& Destruir”, o autor reconstrói como
parte significativa da inteligência acadêmica alemã – juristas, historiadores,
economistas e doutores em humanidades – aderiu à SS e colocou repertório,
método e ambição intelectual a serviço da violência [3]. Mais do que cúmplices,
muitos desses quadros ajudaram a transformar guerra e ocupação no Leste europeu
em um projeto “racional”, combinando doutrina racial com linguagem
administrativa: produziram relatórios, memorandos, mapeamentos e estimativas
que convertiam povos inteiros em categorias gerenciais – “populações
excedentes”, “grupos indesejáveis”, “números a deslocar”. A barbárie, assim,
não dispensou a inteligência: ela a recrutou.
Por
isso, a questão central não é quantos diplomas há no governo. É outra: que
valores, que visão de mundo e que responsabilidade ética orientam o uso do
poder.
O primeiro escalão como “mapa mental” do Estado
Feitos
esses alertas, a pergunta decisiva fica mais útil: que tipo de repertório
intelectual, institucional e humano predomina no primeiro escalão?
Formação
e trajetória não são medalhas. Elas funcionam como lentes. Moldam reflexos,
definem prioridades e influenciam o que uma elite governante reconhece como
risco real – e o que ela despreza como detalhe.
Num
século marcado por crises sistêmicas – pandemias, guerras híbridas, energia,
tecnologia, migrações, inflação – essas lentes pesam mais do que slogans.
O
primeiro escalão é o sistema nervoso do Executivo. É ali que se decide o que é
urgência e o que é rotina; o que exige negociação e o que vira confronto; o que
deve ser coordenado com método e o que pode ser improvisado como gesto. É nesse
ponto que as diferenças entre elites governamentais – e não apenas entre
presidentes – ficam nítidas.
A tradição do Estado como coordenação
Em
muitas administrações norte-americanas do pós-guerra, apesar de variações
ideológicas e de estilo, consolidou-se uma tradição: governar era entendido
como coordenar complexidade.
O
Estado era percebido como um sistema: um conjunto de instituições, rotinas,
limites legais, compromissos internacionais e consequências não intencionais.
Isso não significa governos prudentes ou éticos: erros graves atravessam a
história de todas as democracias.
Mas, em geral, existia um ethos institucional claro. Dito
de forma simples: governo não era apenas palco; era máquina.
A inflexão do trumpismo: do Estado-sistema ao Estado-conflito
É
nesse contraste que se compreende o sentido mais profundo da inflexão recente
associada ao trumpismo.
Não
se trata de ausência de inteligência, nem de uma suposta “degeneração
educacional” do poder. Trata-se de uma mudança no modo de selecionar, legitimar
e organizar a elite governamental. Onde antes se privilegiava a pergunta “quem
consegue administrar, negociar e coordenar?”, passa a ganhar centralidade outra
lógica: “quem consegue mobilizar, combater e vencer a guerra política?”.
Isso
muda o perfil do primeiro escalão. Cresce o peso de quadros voltados ao
confronto simbólico, à comunicação agressiva, à guerra cultural e à disciplina
interna. Não desaparece a elite. Ela muda de natureza.
Política performática e risco cognitivo
Essa
transformação se combina com um fenômeno típico do século XXI: quanto mais
complexo o mundo se torna, maior a demanda social por explicações simples.
A
política performática explora isso com habilidade. Ela transforma dilemas
técnicos em dramas morais. Converte incerteza em certeza agressiva. E substitui
problemas estruturais por culpados bem identificáveis.
O
risco cognitivo é evidente. Em cenários de ansiedade e polarização, coerência
narrativa pode valer mais do que as evidências. “Parecer firme” vale mais do
que “ser prudente”. O problema é que os governos não operam no teatro da
retórica. Operam no terreno das consequências. Em política externa, sinais
importam. Em economia, expectativas importam. Na saúde pública, método importa.
Em gestão de crise, coordenação importa.
O segundo governo Trump e a “roteirização” do Estado
No
segundo governo Trump, essa inflexão ganha um componente adicional: a
consolidação de uma espécie de governo por manuais do poder.
Documentos como o Project
2025, formulado no entorno da Heritage
Foundation, defendem uma reorganização
estrutural do Executivo, ampliando a capacidade presidencial de remodelar a
burocracia federal e enfraquecendo proteções típicas do serviço civil baseado
em mérito [4]. Não se trata apenas de escolher ministros alinhados, algo normal
na política. Trata-se de redesenhar o Estado para que o critério central deixe
de ser competência institucional e passe a ser, antes de tudo, fidelidade
política.
Nesse ecossistema, o chamado Project
Esther aparece como outro
roteiro político-ideológico. O documento procura redefinir as fronteiras entre
dissenso, ativismo, universidade e ameaça pública, propondo estratégias legais
e administrativas de contenção e enquadramento [5]. Ainda que esses documentos
não se convertam automaticamente em política oficial integral, sua circulação e
influência sinalizam um princípio: o Estado deixa de ser mediador de conflitos
e passa a ser um instrumento de conflito.
Quando o conhecimento vira inimigo
Nesse
ponto, vale mencionar – com parcimônia – declarações e atitudes de figuras
centrais desse ambiente político, ridicularizando a academia, a ciência e o
conhecimento especializado. Não se trata de colecionar frases estapafúrdias,
mas de registrar um sintoma: quando o conhecimento é apresentado como “inimigo”,
o Estado perde seus instrumentos de autocrítica e de correção institucional. O
desprezo performático pela expertise funciona como sinal político e como
instrumento de disciplina institucional, reduzindo o espaço do dissenso técnico
e transformando instituições produtoras de conhecimento em alvo permanente.
No
campo da saúde pública, a ascensão de figuras como Robert F. Kennedy Jr.,
associado há anos ao ativismo antivacinas, evidencia o risco institucional de
decisões orientadas por suspeita ideológica em vez de evidência [6].
É
aqui que surge um nome-chave: Stephen Miller, um dos principais formuladores do
núcleo duro do trumpismo no segundo mandato, descrito como peça central na
máquina interna de decisão e na condução de políticas, especialmente em temas
de imigração e segurança interna [7]. Em temas como a imigração, Miller tem
rejeitado e atacado evidências acadêmicas sobre a contribuição de imigrantes
para a ciência e tecnologia, em contraste com um amplo corpo de pesquisa
disponível. Em vez de debater dados, esse tipo de retórica recorre a frases de
efeito que tratam universidades e especialistas como parte de uma “máquina” a
ser derrotada – e não como instituições públicas a serem aprimoradas. E isso
não é um detalhe retórico: é uma “teoria do Estado” em ação, onde o
conhecimento deixa de ser um instrumento de diagnóstico e vira inimigo
político.
A
mensagem é simples e dura: não se trata de aperfeiçoar políticas públicas.
Trata-se de vencer uma batalha cultural.
Um contraste internacional
A
comparação internacional ajuda a completar o quadro – e mostra que a questão
não é “ter diplomas”, mas sim qual o tipo de elite um Estado recruta e forma
para governar.
Ao longo do século XX, os Estados Unidos produziram, em diversas
conjunturas, elites dirigentes que combinavam repertório intelectual e
experiência administrativa. Basta lembrar o ecossistema de quadros que orbitou
Franklin D. Roosevelt, com o New
Deal e a profissionalização
das agências federais, ou de John F. Kennedy, que mobilizou especialistas e gestores
para lidar com os dilemas estratégicos da Guerra Fria. Mesmo em governos
conservadores, como o de George H. W. Bush, manteve-se por décadas uma tradição
de Estado em que a política externa, a defesa e a economia eram tratadas como
campos complexos, exigindo prudência institucional, negociação e burocracia
qualificada.
Na Europa ocidental, com diferenças nacionais, o padrão foi
ainda mais claro. Na França, a formação das elites administrativas nas grandes
escolas e nas carreiras de Estado consolidou um modelo tecnocrático voltado ao
planejamento e à execução de políticas públicas. Já na Alemanha, a cultura de
serviço público e da legalidade reforçou uma elite dirigente treinada para
conciliar eficiência e previsibilidade. E no Reino Unido, o serviço público
sustentou um ethos duradouro: governos
mudam, mas o Estado preserva continuidade, método e capacidade de implementação.
Cada
modelo tem riscos próprios. Tecnocracias podem se afastar do eleitorado. Elites
securitárias, formadas no entorno de aparelhos de segurança e defesa, podem
naturalizar coerção. A existência de partidos-Estado (isto é, sistemas em que o
partido dominante se confunde com o aparelho estatal, reduzindo a alternância e
subordinando as instituições a uma hierarquia política única) pode limitar ou
impedir a diversidade de opiniões. Ainda assim, há um ponto em comum: tais
sistemas tendem a produzir elites com socialização institucional profunda,
treinadas para operar máquinas estatais complexas, comparar cenários e ajustar
rumos.
O trumpismo, em contraste, expressa uma elite típica da
democracia hiper midiatizada: menos baseada em carreiras institucionais e mais
na mobilização permanente, na guerra cultural e na disputa narrativa. Em vez de
administrar divergências, a prioridade torna-se vencer adversários; em vez de
coordenar complexidade, simplificar conflitos. É nesse contexto que documentos
como o Project
2025 ganham centralidade: não
apenas para orientar políticas, mas também para reordenar o próprio Estado,
deslocando o eixo do mérito para a lealdade. O resultado é uma mudança de
linguagem – e de método: o Estado deixa de ser visto como um sistema que exige
aprendizado e moderação e passa a ser tratado como um instrumento de combate.
Os custos: instabilidade global e fratura interna
Essa
mudança de “mapa mental” não afeta apenas a eficiência administrativa do
Estado. Ela traz riscos maiores, com impactos que ultrapassam fronteiras.
No
plano geopolítico, quando governos passam a operar sob a lógica de confronto
permanente, cresce a probabilidade de decisões tomadas como gestos. E gestos
podem virar escaladas. Adversários leem imprevisibilidade como ameaça. Aliados
leem inconstância como abandono.
A
estabilidade internacional depende, em grande parte, da capacidade dos Estados
de sinalizar compromissos, honrar pactos e modular tensões – evitando que
crises se convertam, por inércia ou por cálculo político, em escaladas
irreversíveis. Uma política externa convertida em extensão da guerra cultural
doméstica fragiliza esse equilíbrio e amplia as instabilidades.
No
plano interno, o custo pode ser ainda mais corrosivo: a erosão da coesão social
e da confiança institucional. Quando burocracia, ciência, imprensa e
universidade passam a ser tratadas sistematicamente como inimigas do povo – e
não como instituições criticáveis, porém necessárias –, o debate público deixa
de ser disputa entre projetos e vira disputa entre identidades
irreconciliáveis.
O
resultado é conhecido: dissensões se aprofundam, ressentimentos se intensificam
e o espaço para mínimos consensos nacionais se reduz. Justamente aqueles
consensos indispensáveis para enfrentar crises sem romper o tecido social.
Conclusão: não é “pedigree”, é gramática de Estado
A
elite governamental associada ao trumpismo destoa de modelos centrados em coordenação
institucional. Mas não por pedigree. Destoa por razões práticas: pela
centralidade da lealdade como critério de recrutamento, pela conversão de
instituições técnicas em alvos preferenciais e pela predominância de decisão
por narrativa e confronto, em detrimento da coordenação e da revisão por
evidências.
Nada
disso garante o fracasso por si só – assim como também não impedia erros nos
governos anteriores. Mas altera a gramática do Estado.
E,
num mundo de crises sistêmicas, governar como espetáculo aumenta o preço da
realidade. O dilema democrático do nosso tempo talvez seja este: como combinar
legitimidade popular com competência institucional, sem cair nem no elitismo
que despreza a sociedade, nem no anti-intelectualismo que despreza as evidências.
Porque,
quando a política transforma o Estado em guerra permanente, o preço não recai
só sobre os adversários: recai sobre o país – e, no caso da maior potência do
planeta, sobre o mundo.
Bibliografia
1. Arendt,
H., Origens do totalitarismo. 2013, São Paulo: Companhia de Bolso.
2. United States
Holocaust Memorial, M. Wannsee Conference and the “Final Solution”.
Holocaust Encyclopedia 2026 2026–01–19; https://encyclopedia.ushmm.org/content/en/article/wannsee-conference-and-the-final-solution.
3. Ingrao,
C., Crer & destruir: os intelectuais na máquina de guerra da SS
nazista. 2015, Rio de Janeiro: Zahar.
4. Heritage,
Foundation, Mandate for Leadership: The Conservative Promise (Project
2025). 2022, The Heritage Foundation: Washington, DC.
5. Heritage,
Foundation, Project Esther: A National Strategy to Combat Antisemitism.
2024, The Heritage Foundation: Washington, DC.
6. Caplan, A., D.
Milbank, e R. Kocher. RFK Jr.’s history of medical misinformation
raises concerns over HHS nomination. Brookings Institution 2025
2025–02–06; https://www.brookings.edu/articles/rfk-jr-s-history-of-medical-misinformation-raises-concerns-over-hhs-nomination/.
7. Cook, N. Who
Is Stephen Miller? The Trump Aide Driving Policy in the Second Term.
Bloomberg 2026 2026–01–09; https://www.bloomberg.com/news/features/2026-01-09/who-is-stephen-miller-the-trump-aide-driving-policy-in-the-second-term.
[1] Professor Titular Aposentado da UFPE,
Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.
Questão nacional e transição socialista no século XXI https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/soberania-socialismo.html

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