18 janeiro 2019

Um tipo peculiar de eleição



Acesse e se inscreva no canal ‘Luciano Siqueira opina’, no YouTube https://bit.ly/2RTfyZl   e leia mais sobre temas da atualidade http://migre.me/ kMGFD

Firme nos princípios, hábil na tática


PCdoB e sua histórica luta por democracia e liberdades
Renato Rabelo*

Diante de um contexto tão desfavorável e ameaçador, no âmbito do debate partidário e junto a aliados do PCdoB, a direção do Partido tem discutido e levado em conta vários ângulos da realidade e analisado alternativas.

É necessário o debate no campo das forças de esquerda, populares e democráticas a fim de se alcançar as posições mais justas. É bem-vindo o debate. O que eu não posso entender, já no longo tempo de militância, é o desvirtuamento da questão no tempo da modernidade da internet, em que forças aliadas descambam para o debate rasteiro, marcado por desdém e grosseria dentro de um mesmo campo politico. Até mesmo com as forças adversarias é preciso elevar o nível do debate.

O PCdoB não atua de modo desrespeitoso e nem estimula o desrespeito às forças irmãs, aliadas e amigas. O que presenciei estarrecido nesses últimos dois dias foram setores do campo de esquerda estimulando seus militantes e aderentes a compartilhar coisas horrendas, num ataque desabrido ao PCdoB, uma investida inteiramente inaceitável.

Desde que o PCdoB sinalizou, ad referendum de instâncias mais elevadas, a indicação de Rodrigo Maia para a presidência da Câmara de Deputados, o líder da nossa bancada, deputado Orlando Silva, a deputada Jandira Feghali e demais lideranças partidárias que vêm se pronunciando têm se postado na defesa dessa indicação, invocando os argumentos que serviram de base para a decisão, sem usar agressão ou desacato a qualquer dirigente ou militante do nosso campo político.

O PCdoB, em toda a sua extensa trajetória, tem a nítida marca da defesa intransigente da democracia e nos períodos mais duros assumiu mais ainda o combate pelas liberdades, sobretudo a liberdade política.

Qual a questão em debate? São as reais condições da disputa que envolve a escolha da Mesa Diretora da Câmara dos Deputados e do caminho a seguir. Não é de agora que o PCdoB tem afirmado que o tipo de acordo nessa disputa no âmbito do parlamento segue procedimento próprio. Assim, não significa e não inclui nenhum pacto programático com o postulante à presidência da Casa. Uma circunstância, portanto, em que esse postulante não comunga da nossa linha política, muito menos da nossa ideologia.

O que está em jogo então nesse tipo de acordo? É o que os parlamentares do PCdoB têm situado, um caminho para se conquistar condições para a atuação democrática e pluripartidária. Em suma: respeito à democracia interna, impedir a asfixia regimental e garantir instrumentos institucionais para fortalecer a luta e a resistência.

Ora, qual o contexto atual? A democracia e as liberdades estão em perigo, além da imposição de retrocessos e de alienação da soberania da Nação. E o governo eleito salienta seu caráter autoritário, porquanto está no centro dos seus objetivos perseguir e, se possível, suprimir a esquerda e os movimentos sociais.

Nestas exatas condições, na qual assume a hegemonia politica forças de extrema direita, sugando até partes da direita tradicional, resta para as forças de oposição contra essa hegemonia a ampla resistência dos brasileiros(as), a luta de massas crescente dos trabalhadores e camadas populares. E mais: o único poder de Estado no qual a oposição ainda tem uma presença minoritária é o parlamento.

Na Câmara dos Deputados não existem condições favoráveis sequer para a disputa de um candidato da esquerda com qualquer outro. Os exemplos maiores da história das lutas emancipadoras mostram que em tais situações é preciso aproveitar o possível, mesmo que seja o mínimo de espaço para melhor atuação da oposição. 

Também é explicito, da parte do PCdoB, que nessa situação, e diante de alternativas e tendências postas, o nosso Partido não aceitará fazer bloco parlamentar com o partido do governo, o PSL. Tem procurando concretizar acordos e unidade maior com os partidos de nosso campo. Tudo isso está explícito nos pronunciamentos da presidenta do PCdoB, Luciana Santos.

Diante de um contexto tão desfavorável e ameaçador, no âmbito do debate partidário e junto a aliados do PCdoB, a direção do Partido tem discutido e levado em conta vários ângulos da realidade e visto alternativas. Pela experiência recente na Câmara dos Deputados, após o golpe parlamentar que destituiu a presidenta Dilma Rousseff, nas condições adversas advindas disso, foi sendo construído, mesmo com altos e baixos, uma relação de bom diálogo e respeito mútuo com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

O que ficou para o Partido, nesse momento singular, respaldado na vivência da nossa bancada, é que esse candidato oferece alguma possibilidade de garantias para preservar a ação parlamentar ampla e plural, tão imprescindível à oposição. Esse é o processo de debate em que vive o PCdoB no processo de preparação da reunião em instância superior, no dia 30 deste mês, quando então se poderá avançar o debate e concluir a posição.
Leia também:

*Renato Rabelo é presidente nacional da Fundação Maurício Grabois.
Acesse e se inscreva no canal ‘Luciano Siqueira opina’, no YouTube https://bit.ly/2RTfyZl   e leia mais sobre temas da atualidade http://migre.me/ kMGFD

Que Justiça temos?


Como Flávio Bolsonaro liquidou o jogo de cena do STF
Luís Nassif, Jornal GGN

Quando assume um novo presidente, o prazo e carência, perante a opinião pública, costuma ser de 6 meses. Jair Bolsonaro está a caminho de quebrar um recorde. Poucas vezes se viu uma família tão despreparada na arte de se tornar vidraça.
É evidente que, com mais de vinte anos frequentando o baixo clero, Bolsonaro se lambuzou com muitas práticas comuns à sua turma – que estão longe de alta corrupção, mas muito perto da noção de corrupção dos baixos eleitores. E também de seu maior avalista, as Forças Armadas.
A maneira como os Bolsonaro se enredaram no caso do motorista Queiroz caminha para se tornar um clássico na galeria das trapalhadas políticas. 
São uns completos sem-noção  O STF (Supremo Tribunal Federal), através de Dias Toffoli, e a Procuradoria Geral da República, com Raquel Dodge, montaram um jogo complexo, para manter a aparência de autonomia, na quadra atual de democracia monitorada. Eles estavam recuando, não tão lentamente, que parecesse provocação, nem tão rapidamente, que parecesse pânico.
Ao apelar ao STF para interromper as investigações, Flávio Bolsonaro desmonta o castelo de cartas, obrigando o ex-implacável Ministro Luiz Fux a “matar no peito”  e, por conta do foro, a jogar a bomba no colo da PGR Raquel Dodge.
Se não enfrentar o caso Flávio Bolsonaro, depois da perseguição feroz ao ex-presidente Lula, só restará ao STF e à PGR fechar as portas da casa e entregar a chave para o Forte Apache.
Aliás, a opinião pública está sequiosa para ouvir os ensinamentos do Ministro Luis Roberto Barroso, um dos principais patrocinadores dessa refundação do Brasil, que jogou o país nos braços dos Bolsonaro.
O episódio enfraquece também os álibis do Ministro Sérgio Moro, de que as concessões populistas são relevantes para se aprovar as tais reformas estruturais – explicitando cada vez mais suas motivações políticas.
Na entrevista à Globonews, Moro fez uma defesa eloquente (dentro dos limites de sua eloquência) da maneira como foi montado o Ministério, “sem concessões políticas”. No dia seguinte, a imprensa revela que o Ministro do Meio Ambiente conseguiu mais que dobrar o patrimônio no curto período de vida pública, simplesmente comprando um apartamento por R$ 2 milhões, reformando e dividindo por dois apartamentos, de R$ 4 milhões cada, mostrando um tino comercial de dar inveja ao comércio de carros de Queiroz.
Mesmo com o voo de galinha que se prenuncia, haverá o desafogo com certo otimismo inicial com a economia, enquanto o Ministro Paulo Guedes vai empinando as pipas das tais reformas – as “balas de prata” que resolverão imediatamente todos os problemas nacionais.
Como me dizia ontem um experiente alto funcionário público, Guedes está praticando a estratégia empresarial onde deveria existir a estratégia política.
Explicando: nas negociações empresariais, a lógica é começar pedindo muito para se chegar a um meio termo. Nas negociações políticas, se o negociador começa propondo muito, qualquer resultado inferior – mesmo que positivo – será interpretado como derrota.
Além disso, Guedes não tem a dimensão, nem o pragmatismo, de seu guru maior, Roberto Campos. Campos tornou-se um ideólogo radical depois que se aposentou da vida pública. Enquanto Ministro, movia-se por pragmatismo, por buscar soluções para problemas. Jamais abriria mão de uma instituição como o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social).
Guedes, não. É partidário tardio da teoria do choque aplicado no Chile de Pinochet. Ou seja, aproveite tempos de desacertos para impor mudanças de cunho ideológico, que não seriam aceitas em tempos de normalidade.
É por isso que, com o país necessitando urgentemente de retomar os investimentos em infraestrutura, esvazia o BNDES, criminaliza suas operações, visando viabilizar as debêntures de infraestrutura – aumentando o custo do capital, sem ter a menor segurança sobre a capacidade do mercado em prover fundos.
O grande problema é que, depois da sova de realidade que receber, não terá mais cacife para as mudanças de rumo que se fizerem necessárias.
Acesse e se inscreva no canal ‘Luciano Siqueira opina’, no YouTube https://bit.ly/2RTfyZl   e leia mais sobre temas da atualidade http://migre.me/ kMGFD

17 janeiro 2019

A quem serve a liberação de armas de fogo?



Acesse e se inscreva no canal ‘Luciano Siqueira opina’, no YouTube https://bit.ly/2FtVPsP  e leia mais sobre temas da atualidade http://migre.me/ kMGFD

Arte é vida

Amedeo Modigliani

Opostos

Mercado otimista versus povo apreensivo. Essa será uma marca permanente do governo Bolsonaro, expressão do conflito entre interesses antagônicos e da opção preferencial do presidente.

Bola fora


O impacto negativo do decreto que flexibiliza a posse de armas de fogo em todo o país é de proporções desastrosas; em toda a imprensa nacional e mundial não houve uma defesa sequer da liberação das
armas e as críticas se multiplicaram desde o momento fatídico da assinatura do documento; dentre as inúmeras críticas e constatações dramáticas da liberação de armas em um país que já é a capital mundial do assassinato por armas de fogo, está o reforço que a medida dará ao crime organizado, que tem meios para 'legalizar' suas aquisições – assinala matéria no Vermelho. Leia mais https://bit.ly/2SYTlGP

Para o YouTube


Hoje cedo, com Antônio Nunes, Pedro Caldas e Sennor Ramos, gravei um comentário para meu cabal no YouTube ‘Luciano Siqueira opina’, sobre a eleição do presidente da Câmara dos Deputados. #lucianosiqueira65 #cenapolitica

Diferenças estratégicas


O que a China faz, e o Brasil não, para dar certo
Luís Nassif, Jornal GGN

Um bom resumo do modelo chinês de desenvolvimento foi preparado por Ricardo Lopes Katz, da Universidade Federal de Santa Catarina, a partir de sua dissertação “A nova rota da seda: entre a tradição histórica e o projeto geoestratégico para o futuro” (https://goo.gl/tu3SnG).
O sucesso do modelo é indiscutível. Tirou 800 milhões de pessoas da linha da pobreza, de 1978 para cá aumentou a renda per capita de menos de US$ 1.0000,00 para mais de US$ 8.800,00. O país representava 3% da economia global quando Deng Xiaoping iniciou seu mandato. Agora, representa 19%. Mais que isso, enquanto as democracias liberais estão em crise, China continua em trajetória pujante, apesar de muitos problemas ainda não resolvidos, como a desigualdade entre o leste e o oeste do país, questões ambientais e de sustentabilidade, envelhecimento da população, bolha imobiliária, como explica Katz.
Xiaoping avançou em quatro grandes modernizações:
1. Agricultura, com o objetivo de se alcançar a autossuficiência alimentar.
2. Forças Armadas, reduzindo a burocracia e investindo em equipamentos de maior intensidade tecnológica.
3. Indústria, mudando do modelo intensivo em capital (herdado da ex-URSS), para indústrias leves intensivas em mão-de-obra.
4. Promoção das exportações, seguindo o modelo vitorioso de outros países do leste asiático.
O modelo de inovação consistiu em abrir zonas econômicas especiais no sudoeste, para atrair investimentos e integrar o país ao comércio exterior. E usou o mercado interno como instrumento de barganha. Empresa estrangeira, para investir na China, deveria obrigatoriamente estabelecer uma joint venture com empresa local.
Ao Estado coube papel central:
1. Grandes investimentos em infraestrutura. No Brasil, tenta-se esvaziar o maior financiador da infraestrutura, o BNDES.
2. Grandes investimentos em ciência, tecnologia e inovação. No Brasil, entrega-se o setor a um ex-astronauta, sem nenhuma familiaridade com políticas de inovação.
3. Investimento em educação básica e superior, incluindo intercâmbios universitários no exterior. No Brasil, acabam com o programa Ciência Sem Fronteias.
4. Proteção às indústrias nascentes e subsídios às empresas chinesas, além de políticas monetária e cambial estimulando a competitividade nas exportações com conteúdo nacional. No Brasil, anuncia-se um processo de abertura indiscriminada da economia, sem negociação de contrapartidas.
Como explica o economista Paulo Gala, no caso da indústria automobilística, exigiu-se que as montadoras estrangeiras tivessem um nível de conteúdo nacional de autopeças de até 70% no prazo de três anos (https://goo.gl/URh1vz). Essa exigência fez com que as montadoras cooperassem estreitamente com os fornecedores locais. A capacitação foi tão completa que, depois de ter sido derrubado esse requisito (quando a China aderiu à Organização Mundial do Comércio), manteve-se a fidelização.
Na fase mais auda da globalização, a China conseguiu se inserir com sucesso. Agora, que a globalização entra em xeque, e até os Estados Unidos acenam com políticas protecionistas, o Brasil caminha célere para a abertura indiscriminada às exportações.
Espera-se que os Ministros da Infraestrutura e de Energia, que parece ter pés no chão, incutam um mínimo de racionalidade e discernimento à tropa bolsonariana-guediana.
Acesse e se inscreva no canal ‘Luciano Siqueira opina’, no YouTube https://bit.ly/2FtVPsP  e leia mais sobre temas da atualidade http://migre.me/ kMGFD

16 janeiro 2019

Desarmamento


As evidências científicas têm demonstrado de forma consistente que o desarmamento tem um impacto significativo de redução das taxas de homicídio, afirma Jorge Alexandre Neves em artigo no Jornal GGN. Estatuto do Desarmamento teve, sim, um efeito bastante relevante de contenção das taxas de homicídio, no Brasil. Ou seja, as taxas de homicídio atualmente seriam bem maiores se o Estatuto do Desarmamento não tivesse existido”, afirma. Leia aqui https://bit.ly/2syxgD3

Bobo da Corte


Prestar atenção ao que diz o chanceler Ernesto Araújo tem sem mostrado tarefa penosa, mas fundamental para compreender como a ideologia do Governo Bolsonaro está sendo construída. O diplomata foi indicado por Olavo de Carvalho, considerado o “guru da nova direita” brasileira, desde sua casa nos Estados Unidos. Claramente, Araújo tem a pretensão de dar a base intelectual ao que o bolsonarismo chama de “nova era”. Se integrantes mais preparados do governo concordam, há dúvidas robustas para suspeitar que não. Araújo, porém, segue firme em seu propósito, publicando artigos onde consegue espaço. O discurso de posse como novo ministro de Relações Exteriores é uma falsificação da história, com o objetivo de justificar o presente e o futuro próximo. Leia matéria em El País https://bit.ly/2FHzND3

Eleição na Câmara


Hilma Af Klint
É preciso ouvir Guimarães Rosa
As eleições para as mesas da Câmara e do Senado sempre ensejam muita intriga política, disputas por protagonismo e por objetivos das forças políticas que compõem o Parlamento, sejam elas governistas ou de oposição. Muitas vezes, para galvanizar prestígio na opinião pública “engajada” e deslegitimar movimentos de outras forças, argumentos enviesados são apresentados, como se as eleições internas do parlamento seguissem as mesmas regras ou fossem um terceiro turno das eleições gerais.
Orlando Silva*, no Vermelho
A verdade, no entanto, é que são eleições em quase tudo distintas. Nas eleições gerais são debatidos – ou ao menos deveriam ser – projetos para o país, objetivos a perseguir na economia, em políticas públicas para as diversas áreas, como saúde e educação, que, ao fim, são submetidos a escolha popular através do voto em candidatos que sustentem tais programas. 

No caso das eleições para o comando das casas legislativas, os debates giram entorno da reafirmação da autonomia do poder e não submissão ao Executivo, dos compromissos com a manutenção da democracia interna da Casa, do respeito ao regimento e à proporcionalidade para distribuição dos espaços na mesa diretora, em comissões, relatorias. Não são questões menores, pois garantem a própria condição para o exercício de prerrogativas caras às minorias e oposições. Mas também não são, como alguns querem fazer parecer, debates entre programas de governo. Tais pactos firmados pelos candidatos guiam as posições partidárias – não é, portanto, necessariamente, uma disputa entre direita e esquerda, nem uma questão de princípios.

A ação dos comunistas no Parlamento sempre esteve acompanhada de polêmica. É natural, trata-se de uma instituição que ganhou formas mais precisas com a democracia liberal e se constituiu em mecanismo funcional para o domínio institucional das classes dominantes. Por outro lado, pode ser uma caixa de ressonância das demandas dos trabalhadores e, a depender da correlação de forças, até um espaço de conquistas para o povo.

O PCdoB já tem uma tradição relevante de atuação parlamentar, que remonta a 1945. Já atravessamos momentos bem distintos da vida nacional. E essa história deve nos inspirar. A conjuntura atual tempera muito os debates políticos, exigindo balizar e justificar a posição a ser tomada pelos comunistas com base em objetivos traçados para atuação no Congresso no próximo período. A meu ver:

1. Garantir funcionamento democrático do parlamento, de maneira que a oposição possa exercer efetivamente seu papel;

2. Atuar para o que o legislativo reequilibre a relação com outros poderes. Isso nos interessa porque interessa à estabilidade democrática, o que no quadro atual tem especial importância. No Brasil de hoje, a estabilidade institucional tem um valor chave.

3. Manter relações políticas amplas, fundamentais para nossa ação política nos próximos anos.

4. Participar da governança da Casa e das comissões, com alguma relevância.

Tenho dito que eleição da Mesa da Câmara não é do líder do Governo, nem da Oposição. Isso é importante porque o ambiente político está extremamente polarizado e essa polarização vai prosseguir, pois ela é funcional para os polos. Um alimenta o outro: facilita o exercício do poder para um lado, e mantém a perspectiva de poder para o outro. E o interesse nacional vai sucumbindo nesse estica e puxa. É triste.

No caso concreto da eleição para a direção da Câmara, a candidatura de Rodrigo Maia polariza o debate. Natural, é o atual presidente. É um político conservador. Na economia, um liberal convicto. Mas é um democrata, não um déspota.

Com a queda de Eduardo Cunha, foi eleito presidente. Assumiu e cumpriu movimentos delicados, como impedir que instrumentos legislativos fossem utilizados para perseguir e criminalizar entidades e movimentos sociais ou o acordo que retirou de pauta o projeto de privatização da Eletrobrás.

Na eleição atual para a Mesa, havia uma construção para unir um bloco em defesa da política.

O PSL percebeu o jogo e correu para anunciar o apoio a Maia, assim reduzindo o risco do governo sofrer uma derrota estratégica. Contudo, a eventual vitória de Rodrigo Maia não deve ser lida como uma vitória do campo governista, uma vez que este sempre o qualificou como “velha política”. Lembremos que o Clã Bolsonaro anunciou a quem quisesse ouvir que “o tempo de Rodrigo Maia havia passado” – mais claro, impossível. 

Candidaturas forjadas só para marcar posição servem para ganhar likes nas bolhas das redes sociais, mas seguem uma lógica de isolamento que em nada serve à oposição.

Há, também, candidatos avulsos tentando pescar em águas turvas, buscando bênçãos da sorte “Severina”. Lembram do Severino?

Esse é o quadro, com uma novidade aqui e outra ali, fatos acessórios, úteis à crônica política. No mais, há uma polêmica na esquerda, que diz respeito a diferenças estratégicas e táticas, de leitura de correlação de forças, de frente ampla ou frente de esquerda. Na eleição da Câmara, tais divergências vão aparecer sempre. O debate de fundo se arrasta faz tempo. Esse será apenas mais um round.

O país vive uma situação delicada. Temos um governo de extrema direita, que diz abertamente que entre seus objetivos está perseguir a esquerda, acabar com direitos sociais e democráticos. Neste quadro extremamente desfavorável para as forças progressistas, o isolamento no Congresso pode ser fatal até mesmo para o exercício pleno da oposição ao governo. 

Guimarães Rosa já nos ensinou que “o sapo não pula por boniteza, mas por precisão”. É o caso. Rodrigo Maia, nas atuais condições políticas, é o nome que reúne melhores condições para presidir a Câmara dos Deputados e garantir o seu funcionamento democrático e autonomia diante dos outros poderes.

O PCdoB indicou sua posição. E busca construir com PSB e PDT um caminho comum. 

* Orlando Silva é líder do PCdoB na Câmara dos Deputados.

Acesse e se inscreva no canal ‘Luciano Siqueira opina’, no YouTube https://bit.ly/2FtVPsP  e leia mais sobre temas da atualidade http://migre.me/ kMGFD

Armas & suicídio


Sim, há uma correlação imensa entre o aumento de suicídios e a circulação das armas de fogo. Essa relação está mais do que estabelecida: a circulação de armas está ligada ao aumento de homicídios, acidentes com crianças e adolescentes e violência doméstica, inclusive há uma maior dimensão da violência doméstica nas casas onde o agressor detém uma arma de fogo”, afirma Felippe Angeli, do Instituto Sou da Paz, em entrevista à CartaCapital, onde aborda de modo crítico o decreto de flexibilização do acesso às armas de fogo assinado por Jar Bossonaro. Leia mais https://bit.ly/2TSjQO7

Retrógrado e contraditório

O primeiro grande ato de Jair Bolsonaro dividiu o núcleo duro de seus apoiadores, reforçou críticas de setores que fazem oposição a ele e marcou a estreia – com derrota – de Sergio Moro (Justiça) contra o núcleo político do governo na queda de braço pela persuasão do presidente. O alarde de entidades que militam pelo desarmamento contrastou fortemente com a decepção dos entusiastas da revogação do estatuto. Estes disseram que o decreto pró-posse de armas ficou abaixo da expectativa, registra a Folha de S. Paulo. [Não é falta de habilidade, pesa mesmo o caráter retrógrado e contraditório da agenda do governo. Resistir é preciso.]

Uma crônica (minha) para descontrair


Combatidas, porém indispensáveis
Luciano Siqueira

Aqui na praia, onde reunimos uma boa turma de diferentes gerações da família, trava-se duro combate às moscas.

Repudiadas por todos - dos mais velhos, como eu, a Alice, de apenas cinco anos.

Um veneno de minúsculos grãos cor de rosa foi adquirido numa lojinha quebra-galho, que atrai os pequeninos insetos e os abate de modo inclemente.

Pedro, nosso jovem sábio, disserta sobre a morte gradativa de cada uma das moscas atingidas, afetadas no seu aparelho respiratório.

(Se é uma verdade científica, aqui ninguém duvida – por absoluta ignorância sobre o assunto).

Mas eis que encontro arquivada em meu lap top (salvo engano do New York Times, transcrita no G1) matéria mais do que edificante, em certos aspectos, sobre a importância das moscas na vida de nós humanos.

Para o bem ou para o mal: ajudam a fertilizar plantas, consomem corpos em decomposição e também estragam as colheitas, espalham doenças, matam aranhas e caçam libélulas, diz a matéria.

Para cada pessoa da Terra, há 17 milhões de moscas!

Sem as moscas não haveria chocolate, pois elas polinizam o cacau.

E são de enorme utilidade a inúmeras modalidades de pesquisa científica.

Ainda no curso médico da antiga Faculdade de Medicina da UFPE, conheci a variedade Drosophyla Melanogaster – que compartilha o mesmo DNA básico de todos os seres vivos -, utilizada no Departamento de Microbiologia.

Reza a lenda que certa vez uma funcionária encarregada da limpeza do laboratório considerou sujeira um bom número de laminas nas quais estavam fixadas moscas dessa espécie e jogou tudo na lata de lixo – para desespero do pesquisador, que na manhã seguinte simplesmente viu meses de trabalho interrompido e teve que começar tudo novamente!

Voltando à matéria do NYT, anoto essa passagem: “As larvas (de moscas) se atiram nas aranhas, pousam sobre elas e se enterram em seu abdômen. Então, comem as aranhas de dentro para fora. 
Mas, se as aranhas ainda não estão maduras, as larvas podem dormir por alguns anos até que o aracnídeo cresça e se torne uma grande refeição.”

Fazem o bem quando limpam detritos do mundo biológico - da madeira apodrecida à sujeira de esgotos.

Mas quando se reproduzem em excesso e se espalham por toda parte, incomodam muito! E as tratamos como inimigas.

Para concluir, essa me surpreende: no Instituto de Pesquisa Janelia do Instituto Médico Howard Hughes, na Virginia, cientistas desenvolvem um diagrama das conexões do cérebro das moscas e, a partir daí, pretendem descobrir mais detalhadamente como elas pensam.

Se esses pequeninos seres pensam – ou seja, racionam -, que sejamos capazes de estabelecer um modus vivendi com as ditas cujas. Pelo bem do mundo animal – para além dos interesses específicos dos humanos.

Acesse o canal ‘Luciano Siqueira opina’, no YouTube https://bit.ly/2SVup2z  
Leia mais sobre temas da atualidade: https://bit.ly/2Jl5xwF

O voto do PCdoB


A direção nacional do PCdoB anunciou nesta terça-feira sua posição em relação à disputa da mesa-diretora da Câmara dos Deputados. Em nota divulgada no final da tarde, a legenda a Executiva Nacional afirma o objetivo dos comunistas é criar, na Câmara, "as melhores condições possíveis para que a oposição exerça a resistência democrática, assim como a defesa dos direitos do povo e da soberania do país". Para tanto, indica preferência pela candidatura do atual presidente Rodrigo Maia. Leia mais https://bit.ly/2RM0k8F

Ilegalidade


O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), comentou em suas redes sociais que o decreto de flexibilização de posse de armas no Brasil, assinado nesta terça-feira pelo presidente Jair Bolsonaro, pode estar ferindo a legislação, já que muda o texto de uma lei que só poderia ser alterada pelo Poder Legislativo. Leia mais https://bit.ly/2VVhjEB

15 janeiro 2019

Lição de vida


Bang-bang

‘O decreto que facilita a posse de arma de fogo no Brasil, assinado nesta terça-feira, 15, pelo presidente Jair Bolsonaro, permite um limite de quatro armas por pessoa.’ [Daí para a ampliação e o fortalecimento das milícias é um pulo. Para o bem dos fabricantes de armas e munição]

Gol contra

"Os embaixadores da Bolívia e da Itália não participaram do almoço com o presidente Jair Bolsonaro (PSL) no Ministério da Defesa nesta segunda-feira (14). O encontro havia sido divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores", diz a Folha. [Coisa de amadores ou: "Campanha de autodesmoralização da política externa brasileira"]

Ineficiência benéfica


Vai mal e poderia ser pior
Luciano Siqueira

Completa-se uma quinzena do novo governo e o noticiário é rico em trapalhadas do capitão e seus ministros.

-  Do jeito que vai é muito ruim para o País!, comenta um vizinho aqui do meu prédio.

-  Nada disso, melhor que continue assim.

- Melhor assim!?...

Contei-lhe uma historinha que ouvi de Miguel Arraes.

Certa vez, numa localidade de nossa Zona da Mata Sul, em razão de delito simples um trabalhador rural estava sendo conduzido à delegacia por um cabo da PM, que de vez em quando batia com o cassetete na cabeça do prisioneiro, a ponto de sangrar.

— Faça isso não, seu cabo! Desse jeito é melhor matar..., gritou um cidadão que assistia a cena de dentro de uma barraca.

— Nada disso, matar, não! Como vai, vai bem, respondeu o prisioneiro.

Pois diante da agenda ultra liberal, regressiva de direitos, atentatória à soberania do país, melhor que o governo Bolsonaro siga atrapalhado, metendo os pés pelas mãos, um ministro desmentindo o outro ou discordando em público do próprio presidente e o presidente dizendo e desdizendo através do Twitter.

Quanto mais demorarem a aprender a governar, melhor.

Porque essa é uma das variáveis contidas na nova situação do País. Pode estar acontecendo o início de um novo ciclo regressivo, de desmonte de direitos e de salvaguardas de nossa soberania e de caráter autoritário— cujo conteúdo, grau de realização e ritmo dependem essencialmente da correlação de forças real na sociedade e também, em boa medida, da capacidade gerencial do governo.

Trava-se uma batalha que será cada vez mais renhida entre a extrema direita vitoriosa e seu projeto político versus forças que resistem, tendo como pedra de toque a defesa da democracia e a tentativa de impedir a plena realização do plano de governo.

Entre um polo e outro, humores e tendências comportamentais de grandes contingentes da população, que podem se inclinar para um lado ou para o outro.

O governo Bolsonaro carece de gente competente e enraizada nas diversas instituições formadoras de políticas públicas e de quadros, salvo ministros militares e o grupo dos chamados Chicago Boys, aglutinado no ministério da Economia.

Então, por enquanto, como vai, vai bem...


Acesse e se inscreva no canal ‘Luciano Siqueira opina’, no YouTube https://bit.ly/2FtVPsP  e leia mais sobre temas da atualidade http://migre.me/ kMGFD

13 janeiro 2019

Perde e ganha

Colunista do Estadão lamenta que “a estreia do governo Jair Bolsonaro produziu menos decisões e metas do que recuos e confusões”. [Que assim seja. Quanto mais incompetência no governo, menos prejuízo para o povo.]

Nomes & táticas


Cândido Portinari
A nostálgica esperança dos torcedores
Tostão*, Folha de S. Paulo

Existem curiosidades e dúvidas, entre jornalistas e torcedores, sobre como Abel Braga vai escalar todos os bons e caríssimos jogadores do meio para frente.
Provavelmente, vai adotar a estratégia de Felipão de ter dois times para diferentes competições. Esta postura não significa, necessariamente, que é a fórmula ideal para todas as equipes. Não há uma regra permanente em um esporte de tantas possibilidades e acasos como é o futebol.
O Flamengo, com boa situação financeira, graças à diretoria anterior, tem o direito de contratar bons e caros jogadores. Irresponsáveis são os que contratam e não pagam.
Acho apenas que Arrascaeta e Gabigol, ótimos atletas para o nível de futebol que se joga no país, não valem tanto dinheiro. Eles estão no mesmo nível de outros que o Flamengo já tem nas mesmas posições.
Arrascaeta atua melhor pelo centro e perto do centroavante. Como o Cruzeiro tem Thiago Neves, Mano Menezes insistiu, por um bom tempo, para Arrascaeta se adaptar a jogar pela esquerda, marcando e atacando. Quando ele se cansava ou estava com preguiça para voltar, Mano colocava o disciplinado e veloz Rafinha.
Gabigol é o melhor finalizador do futebol brasileiro. Fora isso, tem um repertório pequeno. Quando não faz gols, costuma ficar apagado. Os italianos só conheceram o lado sombrio do jogador.
Gabigol pode atuar como um centroavante, da direita para o centro, para finalizar, ou como um segundo atacante, perto do centroavante. É bem diferente de Diego, que é um armador.
O Palmeiras, preocupado, vê o Flamengo aparecer, com velocidade, pelo retrovisor. Para não ser ultrapassado, tenta contratar Ricardo Goulart, que seria um grandíssimo reforço.
Poderemos ter, nos próximos anos, uma disputa pelo poder, entre Palmeiras e Flamengo, o que não significa, obrigatoriamente, que vão ganhar todos os títulos. Para isso, os dois times têm técnicos experientes, grandes, durões, chefões e carinhosos.
No Brasil, tornou-se um lugar-comum dizer que um time grande, quando não ganha, é porque faltou comando no vestiário. Seria, para muitos, a diferença entre Felipão e Roger Machado. Os ingleses não gostaram do estilo paizão de Felipão. Aqui, os jogadores são mais carentes, dependentes das ordens do técnico.
Esta frágil postura emocional é uma das razões de muitas derrotas e decepções do futebol brasileiro ao longo da história. Os próprios jogadores do Palmeiras, contra o Boca Juniors, na última Libertadores, pareciam anestesiados, à espera de Felipão decidir a partida.
Os outros grandes times brasileiros não querem ficar por baixo e correm atrás de reforços. O São Paulo tem tudo para melhorar com Tiago Volpi, Hernanes e Pablo. O Atlético-MG também cresceu, com a nova zaga (Réver e Igor Rabello).
O Corinthians contratou Carille, Boselli e Ramiro. Cruzeiro e Grêmio perderam jogadores importantes (Marcelo Grohe e Arrascaeta, respectivamente) e precisam se fortalecer. O sonho do Cruzeiro é Bruno Henrique, do Santos, ótimo substituto para Arrascaeta. O Grêmio contratou Vizeu, ex-Flamengo que estava na Udinese, da Itália, um limitado Henrique Dourado mais jovem. Se der certo, vou ter de engoli-lo.
Rafael Sóbis, que, durante anos, ganhou no Cruzeiro como craque e jogou como um atacante razoável, disciplinado taticamente, foi tratado como um reforço do Internacional. Existe uma nostálgica esperança de que ele volte a brilhar, como no início de carreira.
Se der certo, será outro para engolir. Vou ficar engasgado.
Cronista esportivo, participou como jogador das Copas de 1966 e 1970. É formado em medicina
Acesse e se inscreva no canal ‘Luciano Siqueira opina’, no YouTube https://bit.ly/2FtVPsP  e leia mais sobre temas da atualidade http://migre.me/ kMGFD

Humor de resistência

Alves vê a saia justa de Bolsonaro no Twitter


Acesse e se inscreva no canal ‘Luciano Siqueira opina’, no YouTube https://bit.ly/2FtVPsP  e leia mais sobre temas da atualidade http://migre.me/ kMGFD

Recife, 'Cidade rebelde'



Acesse e se inscreva no canal ‘Luciano Siqueira opina’, no YouTube https://bit.ly/2FtVPsP  e leia mais sobre temas da atualidade http://migre.me/ kMGFD

Quem é quem e faz o quê?


Onde está a inteligência

Janio de Freitas, Folha de S. Paulo

A melhor medida que Jair Bolsonaro tomou até agora, apesar de infrutífera, foi o cala a boca dirigido aos seus circunstantes. Inaugurado com o vice Mourão, não parou de repetir-se com vários outros, por reconhecida necessidade e total inutilidade.
Um erro de princípio, aliás, contribuiu para o fracasso: Bolsonaro não se incluiu na conveniência do mutismo. E as asneiras e inverdades destrinchadas pelo noticiário não abarcam a safra diária.
O general Augusto Heleno, por exemplo, diz que “fizeram um auê disso aí sem nada”, sendo o “disso aí” a possibilidade de instalação de uma base militar americana no Brasil. O “auê” foi a simples notícia proveniente de Bolsonaro.
O general mostra sua firmeza: “Ele falou comigo que não falou nada disso. Foi um comentário quando falaram de base russa, não sei quê, aí saiu esse assunto, de repente é base americana.”
A tal base russa foi uma hipótese da guerra verbal contra a Venezuela. Mas se “aí saiu esse assunto” que é a base americana, o general diz, de modo indireto, que o assunto foi falado.
E, de fato, Bolsonaro disse no SBT que poderia negociar com os Estados Unidos a instalação aqui de uma base americana.
Se a ideia foi uma leviandade a mais ou se teve algum propósito definido, negar sua ocorrência na TV não é inteligente. E atribuí-la a um “auê” da imprensa é uma tentativa de tapear a opinião pública. O que em poucos dias já mostra mais uma deformidade dos novos governantes.
Onyx Lorenzoni demite em massa na assessoria da Presidência: “É a despetização do governo”. Daí decorrentes, dois títulos da Folha informam sobre o resultado: “’Caça a petistas’ de Onyx desarticula todo o corpo técnico da Casa Civil” e “Exonerações de Onyx paralisam Comissão de Ética da Presidência” (dias 7 e 8).
As demissões tão citadas em postagens de Bolsonaro e tão exploradas por Lorenzoni são uma farsa com face dupla. Quem tinha vínculo com o PT foi substituído, junto a muitos outros, por vinculados a Geddel Vieira Lima, Moreira Franco, Eliseu Padilha, Carlos Marun e, claro, Temer e seu compra-e-vende com deputados e senadores.
As demissões estão feitas sem critério algum, para abrir o máximo de vagas aos vinculados à nova turma do poder. Várias nomeações do gênero já foram noticiadas, casos com algum atrativo particular. O dispositivo técnico está arruinado.
A extinção da Justiça do Trabalho, disse Bolsonaro também no SBT, “está sendo estudada”. Porque há “excesso de proteção” ao assalariado. Sua convicção: “Tem que ter a justiça comum” para o assalariado reclamante. “Até um ano e meio atrás, eram em torno de 4 milhões de ações trabalhistas por ano. Ninguém aguenta isso.”
Extinguir a Justiça do Trabalho, para eliminar o que Bolsonaro considera insuportável, é só uma obtusidade. Por sua receita, apenas acrescentaria milhões de processos ao entupimento da Justiça Cível e da Criminal, inviabilizando-as em definitivo. E isso é chamado de reforma.
O que Bolsonaro deseja está na eliminação de direitos. Tornados leis e regulamentos porque o patronato brasileiro, envenenado pelos legados escravocratas e pela concentração dos recursos financeiros, burlava com frequência até os mínimos deveres humanitários.
Esse patronato, por sua vez, deixou herança “cultural”. E a ela se deve a quase totalidade dos milhões de pedidos à Justiça do Trabalho para verificação de direitos talvez relegados —isto é o processo trabalhista. Mas Bolsonaro não pode compreender.
Acesse e se inscreva no canal ‘Luciano Siqueira opina’, no YouTube https://bit.ly/2FtVPsP  e leia mais sobre temas da atualidade http://migre.me/ kMGFD

Arte é vida

Manabu Mabe

Uma pérola da MPB: Caetano Veloso canta "Inútil paisagem"



Acesse e se inscreva no canal ‘Luciano Siqueira opina’, no YouTube https://bit.ly/2FtVPsP  e leia mais sobre temas da atualidade http://migre.me/ kMGFD

Qual a cor do diabo?


Qual o modelo de governo de Bolsonaro?
É muito cedo para uma interpretação segura do que será o governo Bolsonaro, mas seus primeiros dias no posto, em especial com as questões da redução da idade mínima para a aposentadoria e da extensão das novas privatizações (rejeitadas pela população, segundo o Datafolha), confirmam minhas dúvidas. Que talvez possam ser mais bem entendidas se considerarmos as possíveis formas de governo.
Luiz Carlos Bresser-Pereira*, no Vermelho

No Brasil as alternativas são ou governos neoliberais, como foram os governos Temer, Cardoso e Collor, ou governos desenvolvimentistas, que defendem uma intervenção moderada do Estado na economia e o nacionalismo econômico, como foram os governos populistas de centro-esquerda do PT.

Existe, ainda, a possibilidade de os governos desenvolvimentistas serem populistas de direita, como é o governo Trump, ou novo-desenvolvimentistas, que, se forem de centro-direita, têm como referência os países do leste da Ásia; se de centro-esquerda, os países europeus democráticos e sociais do pós-guerra.

Em princípio não podemos ter governos ao mesmo tempo neoliberais e populistas de direita, como propôs Bolsonaro na campanha presidencial. Os neoliberais são populistas cambiais, porque defendem "crescimento com poupança externa", que envolve déficits em conta-corrente elevados e uma taxa de câmbio apreciada, mas não são populistas completos porque não praticam o populismo fiscal --uma vez que esperam resolver todos os problemas de desajuste macroeconômico apenas com ajuste fiscal.

Existe uma contradição entre o neoliberalismo e o populismo fiscal. O populista busca manter sua popularidade gastando; o neoliberal, além de acreditar que o mercado coordene de maneira ótima toda a economia, é conservador; defende os interesses dos ricos.

Ele quer resolver todo o desajuste macroeconômico, inclusive o cambial, apenas com ajuste fiscal. Defende, portanto, a austeridade, que não é apenas a defesa da responsabilidade fiscal. É combinar um forte ajuste fiscal, que inclui o corte dos investimentos públicos, com a recusa a realizar depreciação cambial.

Assim, a recuperação da competitividade do país se faz por meio do desemprego e da diminuição dos salários reais, via ajuste "interno", preservando-se os rendimentos dos rentistas (juros, dividendos, e aluguéis).

O único governo que foi estritamente neoliberal no Brasil foi o de Temer. Este nunca foi um neoliberal, mas conseguiu derrubar Dilma Rousseff e ocupar seu posto graças ao apoio dos neoliberais. No governo, fez aprovar um absurdo teto fiscal que congelou o gasto per capita do governo, uma reforma trabalhista que tirou direitos dos trabalhadores e enfraqueceu os sindicatos. Como se a causa da semiestagnação da economia brasileira desde 1990 fossem salários diretos e indiretos elevados, em vez de juros altos e câmbio apreciado no longo prazo.

O neoliberalismo de Temer dificultou a recuperação da economia brasileira, aprofundou a desigualdade e manteve sua popularidade muito baixa. Popularidade que não era importante para ele, já que não fora eleito nem espera ser no futuro.

O caso de Bolsonaro é diferente. O apoio popular é seu grande trunfo, muito mais importante do que o apoio do neoliberalismo financeiro-rentista e dos interesses estrangeiros. Mas não poderá ignorar os neoliberais, porque eles continuam hegemônicos na alta classe média, que é formadora de opinião.

Essa classe média tradicional tende a ser conservadora e a se submeter à hegemonia das elites neoliberais internacionais. Mas a hegemonia neoliberal está em plena crise, como vemos nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Itália. Por outro lado, o êxito do novo desenvolvimentismo no leste da Ásia é evidente.

Por enquanto, a alternativa novo-desenvolvimentista não está aberta para o Brasil. Temos apenas o neoliberalismo, que fracassa em toda parte; o populismo de centro-esquerda, que fracassou no Brasil; e o populismo de direita, que hoje ameaça os brasileiros. Não seria possível um novo-desenvolvimentismo de centro-direita, como no leste da Ásia?

Sim, mas para isso é preciso encontrar os defensores desse modelo de governo e levá-los a estabelecer acordos com os novo-desenvolvimentistas de centro-esquerda, cujo modelo é a social-democracia europeia.
*Luiz Carlos Bresser-Pereira é economista, professor universitário e ex-ministro
(Fonte: página do autor no Facebook, publicado originalmente na Folha de S. Paulo, em 09/01/2019).

Acesse e se inscreva no canal ‘Luciano Siqueira opina’, no YouTube https://bit.ly/2FtVPsP  e leia mais sobre temas da atualidade http://migre.me/ kMGFD