23 março 2026

Minha opinião

Estarei errado em minhas escolhas? 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65     

Estou entre os militantes do Partido Comunista do Brasil habituados a amanhecer o dia buscando informações sobre o que acontece no mundo, no país e cá na província como alimento cotidiano da indispensável análise política. 

Tudo importa, inclusive fatos aparentemente fortuitos mas significativos o suficiente para repercutirem no comportamento das correntes políticas em presença. 

Porém a julgar pelo que produz cotidianamente o sistema Globo de comunicações, estou equivocado. 

Explico: enquanto busco correlacionar a mais nova diatribe de Donald Trump com o cenário nacional brasileiro, e a repercussão tática disso, sou bombardeado em todas as mídias da família Marinho pela informação posta em absoluto destaque de que a fala de fulano tem sido influenciada por cicrano, segundo a avaliação de beltrana — no intragável BBB Brasil.

Tivesse ainda entre nós, Gramsci certamente diria que essa idiotice faz parte da luta pela hegemonia cultural e a classe dominante se esforça por mantê-la para alimentar o poder que exerce. 

Isso mesmo! Acrescento: deplorável e deprimente. 

O diabo é que tem muita gente esclarecida e ativa na luta por um Brasil progressista e favorável aos direitos fundamentais do nosso povo que, sem o menor escrúpulo, acompanha atentamente se possível cada cena do tal BBB, escolhe os participantes da sua predileção e desperdiça inteligência e emoção na torcida para que este ou aquela vença seus concorrentes. 

Vade retro!

[Ilustração: Francisco Goya]

Leia também: Saudade do glamour imaginário da infância https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/tempos-idos.html    

Abraham Sicsu opina

Uma conversa sobre divulgação científica
Abraham B. Sicsu    

Dia chuvoso. Na esquina da Peixoto Gomides com a Alameda Santos, bar Pirajá, um encontro interessante. Anos atrás. Claudio, bom amigo e entusiasta da divulgação científica.

Democratizar o conhecimento, responder as angústias da sociedade, mostrar a importância da Ciência para a construção de uma sociedade mais harmônica, responsável e sustentável. Dedicamos nossos anos produtivos nessa missão, muitas vezes despercebida, mas importante para a população em geral. Agora aposentados gostaríamos de ver mais resultados.

Tornar acessível os avanços do pensamento humano e combater a desinformação, tarefa árdua e pouco compreendida. Contextualizar o que foi produzido e permitir que seja compreensível para os que não são especialistas, desafio que poucos fazem com eficiência.

Entender que nosso cotidiano e os caminhos futuros são fortemente influenciados por esses avanços, tentar explicar para que isso faça sentido aos não iniciados na área. Procurar meios que permitam essa disseminação.

Já estamos no segundo chopp e nos bolinhos de “aipim”. Uma pergunta surge. O que motivaria as pessoas, hoje em dia, para se interessarem e se motivarem a aprofundar o tema?

Atualmente, muitos são os tópicos que afetam diretamente as pessoas e com os quais elas tem que se preocupar. Na maioria, os rumos, até individuais, que tomarão estão fortemente condicionados aos caminhos que o conhecimento seguirá e seus avanços.

Evidentemente, não sejamos ingênuos de acreditar que é a Ciência que dará a direção do Mundo, muitos outros fatores influenciam até mais, como a Política ou mesmo a Economia, mas, mudanças de rumo que efetivamente signifiquem melhoria da qualidade de vida, encontram no avanço do conhecimento alicerce seguro para se consolidar.

Mais uma caneca, notamos muito discurso e pouca objetividade. Ao mesmo tempo, perguntamo-nos, no concreto, o que realmente interessa, em que assuntos podemos nos centrar para uma real motivação?

No genérico, temas como a Inteligência Artificial, nas diferentes áreas, avanços na Saúde, a Transição Energética, a nova Bioeconomia, as Mudanças Climáticas, a Genética e seus impactos, inclusive na alimentação, são bons motes para começar. Temas atuais que se tornam importantes quando se tem como princípio a busca de uma sociedade mais sustentável.

Falando em sustentabilidade, as energias renováveis e a transição energética, focada em fontes alternativas como a eólica e a solar, além dos novos processos, como o hidrogênio verde, parecem dar um bom debate. Há prós e contras, como enfrentar os impactos negativos, como viabilizar novos processos sem gerar um volume crescente de novos problemas. Procuramos enumerá-los, eram muitos, desejosos que os entendidos nos expliquem.

A questão climática é um real problema. A Ciência já comprovou serem bastante concretas as deteriorações causadas pelo modelo de desenvolvimento que a humanidade assumiu. Mas, ainda há negacionistas, que difundem informações baseadas em falsas premissas. Fundamental veicular, em linguagem compreensível, os estudos sobre aquecimento global, estratégias adaptativas e de mitigação, novos processos sobre descarbonização, entre outros.

Não nos esqueçamos das questões de poluição e a contaminação ambiental, principalmente com os microplásticos. Além dos fortes impactos na saúde humana, outras vidas ameaçadas num mundo em que ecossistemas estão sendo totalmente desestruturados é resultado altamente destrutivo notados. Apercebemo-nos de que o mundo é interativo e que os impactos do modo de produção e consumo adotados afetam profundamente a estabilidade da natureza e de diferentes vidas?

As pandemias são uma ameaça constante. Vivemos anos terríveis recentemente. Novas vacinas foram fundamentais. Regiões periféricas têm problemas estruturais com doenças negligenciadas que o avanço do conhecimento tem conseguido minorar. Será que as pessoas  sabem? Será que aumentou a credibilidade da Ciência junto às populações afetadas?

A moda agora é a Inteligência Artificial - IA. Impactos relevantes na vida dos homens. Profissões desaparecerão, os espaços urbanos e até os rurais serão totalmente modificados, os modos de vida serão profundamente alterados. Podemos explicar melhor essa revolução que celeremente transforma os modos de convivência, o ambiente em que estamos inseridos?

 A medicina, com a IA, estará em outro patamar e a saúde humana terá novos mecanismos de proteção, a robótica é o caminho para as cirurgias. O atendimento à distância, associado aos avanços da genética, faz com que doenças possam ser tratadas com grande eficiência. Estarão acessíveis quando e para quem?

As tecnologias mudam rapidamente. Com os avanços do 5G, tendo por base a IA,  a conectividade é outra. Espaço e tempo mudam de dimensão. A sociedade terá que se adaptar a um estilo de vida profundamente alterado em suas dimensões, em suas escalas de uso do conhecimento. Estamos preparados?

Novos materiais surgem para reorientar a engenharia, o perfil de sofisticação da sociedade muda. O mundo dos chips e as terras raras, algo ainda pouco conhecido. Como participar desse universo com autonomia e responsabilidade? Pergunta que exige que a sociedade se posicione.

Estes temas, todos, têm premissa de posicionamento, espero. Defender um ambiente com justiça social e que valorize a biodiversidade. E nele, há um grande empecilho.  O excesso de dados e informações faz proliferar a desinformação, o uso de falsas notícias e afirmações. Mais um tópico relevante para a Ciência. Como verificar a veracidade dos fatos?

O papo se prolonga e buscam-se meios para efetivar esses caminhos de divulgação. Publicações, debates, palestras em escolas, espaços de exposições, muitos outros surgem. Mas, a chuva não para.

Cambaleantes, dois guarda-chuvas, um para a Paulista, outro descendo a ladeira. Anos avançam, pouco se fez, sem perder a esperança, de que o próprio avanço da civilização fará que a preocupação com a divulgação científica seja considerada prioridade de formação para os cidadãos responsáveis.

Leia também: Luciana Santos diz que conceito do plano brasileiro de IA é ser inclusivo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/08/palavra-da-ministra-luciana.html

Renovação conscienciosa

Idosos em suas trincheiras 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65 

Li de relance que o presidente Lula recomenda que o seu partido, o PT, promova renovação etária na Câmara dos Deputados. 

Ou seja, no próximo pleito nomes já carimbados pelo tempo (porém firmes na luta, observo) deem lugar a militantes novos. 

Nada contra. A renovação etária é sempre bem-vinda à luta do povo brasileiro em todas as suas trincheiras. 

Entretanto, partícipe que sou da geração mais antiga de quadros partidários, no PCdoB, meu partido, creio que a mescla de gerações é sempre mais salutar e eficiente. 

No próprio PT, o ex-ministro e ex-deputado José Dirceu, meu companheiro de geração, já anunciou o propósito de retornar à Câmara, candidato pelo seu partido em São Paulo. Ótimo!

Bato sempre nessa tecla: renovação, sim; mas dispensar os idosos jamais!

Leia também: "Presença de Renato" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/camarada-renato-presente.html  

Humor de resistência

 

Caio Gomez

O sadismo digital da Casa Branca https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/o-espetaculo-da-guerra.html 

Colonialismo algorítmico

Elogio da pausa e demora, face ao frenesi digital
Cinco pontos para compreender a erosão da política pelo colonialismo algorítmico, com sua sede de imediatez, rankings e simplismos. Resistir pode não ser abandonar a máquina, mas o que ela produz em nós – e resgatar o tempo sereno da reflexão
Pedro Paulo Gomes Pereira/OutrasPalavras   

Há um momento em que a política deixa de bater à porta e passa a vibrar no bolso. A exceção já não chega apenas por decretos: acende na tela. Desce pelo feed como quem percorre um nervo exposto. Antes de converter-se em ato jurídico, militar ou diplomático, aprende a respirar nas redes sociais digitais, onde o mundo é reeditado a cada segundo por métricas de visibilidade e economias da atenção que recompensam o choque, a simplificação e a punição simbólica. 

Chamo de exceção o regime em que a suspensão das mediações democráticas – possibilidade inscrita na própria ordem política – passa a ser desejada como solução legítima para os conflitos. A figura simbólica dessa promessa é o que denomino Pai autoritário: a autoridade que oferece ordem como atalho, decisão como cura, comando como descanso diante da vertigem do plural. Ele encarna a fantasia de simplificação do mundo. Em contextos marcados por histórias coloniais, porém, essa figura raramente permanece apenas interna. Surge, então, o Pai estrangeiro: a autoridade deslocada para fora, investida do poder de legitimar, corrigir ou purificar a política local. Se o Pai autoritário promete decidir, o Pai estrangeiro promete autorizar essa decisão. E há mais: ele nomeia o desejo de submissão que atravessa o corpo político, oferecendo-lhe reconhecimento e justificativa.

Hoje, o Pai estrangeiro já não fala apenas do alto dos palanques imperiais; sussurra em vídeos de trinta segundos, em cortes virais, em memes que comprimem uma ontologia inteira numa gargalhada rancorosa. A tutela colonial, antes sustentada por rituais solenes de obediência, tornou-se interface – e a submissão, gesto cotidiano de deslizar o dedo.

O problema é compreender como as redes sociais digitais se tornaram um meio de produção da exceção: um laboratório em que se fabrica o desejo por soluções soberanas e se treina o olhar para reconhecer, na violência decisória, a única gramática inteligível do mundo. A exceção circula nas redes, mas nelas também se interioriza. Aprende-se a sentir pressa, a confundir justiça com impacto, a tomar a humilhação pública como método pedagógico e a imaginar o conflito democrático como ruído a ser eliminado.

A lógica de recomendação do feed funciona como uma forma difusa de soberania. Não decide por sentenças, mas por rankings; não pune com prisões, mas com invisibilidades; não proclama estados de sítio, mas estados de tendência. Distribui presenças e ausências, define o que merece ser visto, quem deve ser ouvido, quais afetos receberão amplificação. Nesse regime, a política deixa de ser espaço de argumentação e se converte em engenharia de engajamento. A pergunta decisiva já não é “isto é verdadeiro?”, mas “isto performa?”. A verdade transforma-se em variável subordinada à circulação.

A fábrica digital da exceção começa nesse deslocamento: quando o critério público da razão cede ao critério privado da métrica. Medido pelo tempo de retenção do usuário, o enunciado favorece a excitação em vez da moderação, o gatilho em vez da dúvida, o corte em vez do processo. A democracia – com sua temporalidade lenta e sua indecidibilidade constitutiva – torna-se fricção no regime que recompensa a decisão imediata. O regime de visibilidade do feed privilegia o inimigo nítido, a narrativa maniqueísta, a figura providencial que promete encurtar caminhos. Recompensa o Pai autoritário e amplifica o Pai estrangeiro.

Este ensaio percorre cinco movimentos. O primeiro interroga o soberano estatístico e a forma de sujeito que ele produz; o segundo descreve a gramática cultural da exceção, feita de memes, virilidades e atalhos linguísticos; o terceiro examina a economia política do ressentimento, suas infraestruturas e seus mercados; o quarto articula tempo e colonialidade digital, mostrando como a urgência reativa o desejo de tutela externa; o quinto recolhe rachaduras e impasses, permanecendo junto ao problema sem convertê-lo em programa. O ensaio busca acompanhar o modo como a exceção passa a nos habitar – e como passamos, talvez rápido demais, a chamá-la de habitual.

O soberano estatístico e a produção do sujeito 

Nas redes sociais digitais, a exceção deixa de aparecer como acontecimento extraordinário e passa a operar como lógica ordinária de organização do conflito político. A autoridade já não se afirma por decretos, mas por métricas; não por sentenças, mas por rankings; não por proibições explícitas, mas por regimes de visibilidade. O poder opera sem decisão visível: recomenda, retém, acelera, silencia. A soberania assume forma estatística.

Essa lógica técnica fabrica o sujeito que lhe convém. O usuário experimenta o mundo como uma sequência de estímulos concorrentes, cada qual disputando frações de segundo de atenção.

feed não descreve a realidade: treina o sentir.

Reagir antes de compreender, sentir antes de julgar, confundir intensidade com verdade – eis a pedagogia elementar do feed. A participação converte-se em consumo; a cidadania, em índice de engajamento.

A exceção possui vantagens competitivas porque coincide com a própria engenharia das redes. Os sistemas de recomendação privilegiam conteúdos capazes de prolongar o tempo de tela e gerar interações rápidas; o autoplay e o scroll infinito transformam a hesitação em desvio custoso; os botões de reação comprimem posições políticas em gestos elementares. O que não se traduz nesses formatos aparece como ruído. A denúncia furiosa circula melhor que a análise; o gesto punitivo retém mais que a deliberação; a ameaça performa melhor que o argumento.

O “soberano estatístico” atua sem rosto. Ele decide o que pode continuar a aparecer e o que será empurrado para o fundo da tela. Mecanismos como shadowban, desmonetização e moderação opaca não proíbem diretamente; apenas reduzem alcance, quebram a cadeia de recomendações, tornam invisível sem deixar rastro jurídico. A cada rolagem, o sujeito é treinado a reconhecer binarismos elementares – traidor/herói, puro/corrupto, patriota/inimigo – enquanto a história se converte em caricatura operável. A exceção não rompe o sistema: é seu formato nativo.

Essa administração do visível possui um verso sombrio. Certos corpos e vozes são amplificados até a saturação, enquanto outros desaparecem em zonas de irrelevância onde a violência se torna inaudível. Desaparecer do feed equivale a perder existência política. No Brasil, isso é cotidiano: operações policiais espetacularizadas, a agonia Yanomami, vidas anônimas nas prisões – quando não convertidas em imagens rentáveis, deslizam para um território onde a contagem substitui o luto. A lógica do feed não puxa o gatilho, mas decide quais gatilhos merecem ser vistos.

Não é acaso que as figuras do populismo digital falem como memes encarnados. Elas oferecem ao sistema o que ele mais remunera: clareza binária, energia emocional e conflito contínuo. O espaço público cede a um arquipélago de bolhas que confirmam expectativas e radicalizam ressentimentos. A diferença converte-se em prova de hostilidade; o adversário reaparece como corpo a ser extirpado – terreno fértil para o chamado do Pai autoritário, promessa de ordem sem mediações.

Assim, o feed não ordena apenas preferências; distribui destinos. Entre o que reluz e o que se apaga, forma-se uma economia moral que ensina a desejar a eliminação como solução. A exceção torna-se gramática cotidiana do político.

A gramática cultura da exceção

A subjetividade do feed precisa de formas expressivas que tornem desejável o que o sistema recompensa. O meme, a performance viril e o idioma do atalho funcionam como máquinas pedagógicas que ensinam a imaginar a exceção como solução natural dos conflitos. A língua democrática (lenta e argumentativa) entra em tensão com um dialeto de cortes e bravatas, feito para a mensuração.

O meme coincide com a própria lógica técnica das redes. Templatesremix, dueto e cortes curtos permitem replicação infinita com variações mínimas. O valor está na reprodutibilidade com engajamento. A imagem irônica condensa o programa da exceção: ridiculariza procedimentos, glorifica o atalho, converte o outro em figura risível. A humilhação substitui o debate; o linchamento simbólico antecede o jurídico.

Ao repetir cenas de vitória moral, estreita-se o imaginável até que apenas a intervenção violenta pareça razoável. Conteúdos com alta retenção sobem; o que exige contexto afunda. A exceção torna-se estética cotidiana, e o Pai autoritário surge como protagonista de um seriado infinito, sempre pronto a “fazer o que precisa ser feito”.

A pedagogia da exceção é também de gênero. O herói das redes é o homem que decide sem hesitar, que exibe dureza como verdade. A masculinidade converte-se em interface política: voz grave, desafio, ameaça jocosa. Armas e bravatas produzem reações imediatas – combustível afetivo para a máquina.

Há, ainda, a cena das redes fechadas. No WhatsApp e no Telegram, a exceção assume tom íntimo. A criptografia cria sensação de segredo; listas de transmissão transformam boatos em ordens; o áudio substitui a prova pela confiança. Forma-se uma pedagogia subterrânea em que o “agir agora” precede qualquer verificação. Nesse mercado da atenção, a política vira competição de performances. O vídeo curto vence o argumento longo; o print triunfa sobre o processo. A exceção vence por audiência – glória que legitima o poder para além da lei. O cidadão dá lugar ao usuário. Ele não delibera; reage. A vontade geral converte-se em trending topic. A tutela do Pai autoritário torna-se atraente: figura que promete simplicidad e num mundo complexo.

Tudo isso produz mutação da experiência política. A exceção torna-se clima sensorial. A paciência soa como fraqueza; a dúvida, como traição. O presente comprime-se num agora contínuo, e o Pai autoritário aparece como único capaz de impor forma ao caos.

Economia política do ressentimento

A exceção digital não flutua como ideologia: ancora-se em cabos, data centers, mercados de dados e modelos de negócio. O ressentimento tornou-se matéria-prima porque retém atenção e produz informação valiosa. A economia das redes converte o tempo psíquico em ativo mensurável: cada pausa, cada comentário, cada segundo de vídeo alimenta sistemas de recomendação que decidem o próximo estímulo. A exceção prospera porque oferece o insumo mais rentável – excitação contínua.

No Brasil, desigualdade histórica, baixa confiança institucional e difusão massiva de smartphones compuseram laboratório ideal. WhatsAppYouTube e Telegram funcionam como dispositivos complementares: intimidade criptografada, espetáculo audiovisual e coordenação opaca. A verdade deixa de ser critério e converte-se em efeito comunitário. O que “faz sentido” é o que confirma fronteiras morais; o resto vira ruído. A exceção oferece narrativa simples para país complexo: existe um mal interno que exige ação imediata.

As métricas de engajamento transformam esse dualismo em motor de circulação. Conteúdos emocionalmente carregados recebem prioridade porque prolongam o watch time e a taxa de comentário – métricas que orientam o leilão de anúncios. Instituições que produzem fricção – Supremo, imprensa, universidade – aparecem como obstáculos ao fluxo. O sistema trata essas instituições como ruído e recompensa quem promete silenciá-las. A exceção torna-se política de limpeza do feed.

Nada disso ocorreria sem rentabilidade. A indignação é ativo valioso: mantém o usuário conectado, gera dados comportamentais e alimenta o microtargeting publicitário. Quanto mais radical o conteúdo, maior a probabilidade de retenção; quanto maior a retenção, maior o preço do anúncio. O desejo é capturado antes de virar experiência. A exceção torna-se modelo de negócio.

Essa lógica cria incentivos perversos. Moderadores são pressionados a tolerarem extremismos para não perderem engajamento; criadores aprendem a exagerar para sobreviver na creator economy; políticos descobrem que o escândalo rende mais que o trabalho silencioso. A esfera pública transforma-se em bolsa de valores do ressentimento, e o Pai autoritário em ativo de alta performance – figura que garante cliques ao prometer decisão sem processo.

Empresas de marketing político, no Brasil, exploraram essa economia com profissionalismo. Redes de perfis coordenados, disparos em massa e canais temáticos compuseram indústria de exceção. A campanha permanente substituiu o governo; a guerra cultural, a política social. O país tornou-se laboratório de monetização do ódio, onde a moderação é vista como custo e a dúvida como prejuízo.

A erosão do idioma democrático é efeito direto dessa infraestrutura. A política, para existir como espaço comum, depende de gramática de prova, responsabilidade e tempo. As redes introduzem outra língua (emojis, cortes, reações) que privilegia o atalho. O vídeo de quinze segundos pesa mais que o processo de quinze meses; o print vale mais que a sentença fundamentada.

Nesse idioma, a decisão rápida parece mais verdadeira que a decisão justa. Aprende-se a desconfiar do que exige leitura longa ou comparação de fontes. A exceção apresenta-se como tradução acessível de um mundo opaco: “eles” complicam, “nós” simplificamos. O Pai autoritário encarna essa promessa de clareza imediata.

A exceção exige pressa. Os ambientes digitais produzem uma sensação permanente de emergência; o usuário vive como sentinela de uma guerra infinita. A política democrática – arte do tempo longo – aparece como luxo. O futuro é comprimido num presente contínuo, e o Pai autoritário surge como gestor da ansiedade coletiva, promessa de sincronizar o país com o ritmo do feed.

Essa economia política do ressentimento prepara mutação mais profunda: a reorganização do tempo social pela urgência algorítmica. A próxima seção examina como essa compressão temporal converte a exceção em linguagem cotidiana do pertencimento e da eliminação.

Tempo e colonialidade digital

A exceção digital não reorganiza apenas afetos; reorganiza o tempo. O feed organiza o tempo pela interrupção: notificações que fraturam a duração, vídeos que substituem a memória, crises que se sucedem antes de sedimentar experiência. O presente é comprimido num agora contínuo em que a democracia – arte de demorar – aparece como fricção.

Essa urgência não é metáfora. O design técnico premia a velocidade: o tempo de resposta vale mais que a consistência; o comentário imediato pesa mais que a investigação; a atualização contínua desautoriza a lembrança. O feed substitui a narrativa por série de impactos. O futuro encurta; o passado vira arquivo morto.

A modernidade sempre distribuiu o tempo de forma desigual. Certos territórios foram definidos como “atrasados”, outros como vanguarda. A lógica do feed atualiza essa hierarquia ao prometer sincronização instantânea com um ritmo global idealizado. A exceção aparece como atalho temporal: decidir rápido para não ficar para trás, punir logo para “entrar no mundo”.

Nas telas, essa promessa ganha corpo sensível. Narrativas de eficiência policial, empreendedorismo militarizado e soluções mágicas circulam como modelos de aceleração. O usuário aprende a medir o país pelo compasso do feed e a interpretar a própria realidade como defeito de velocidade. A tutela do Pai autoritário oferece reconciliação imaginária entre nação e ritmo – alguém que “corta a burocracia” e “resolve hoje”.

Essa temporalidade produz também zonas de não-tempo. Enquanto certos corpos são sincronizados com o espetáculo, outros permanecem presos a um presente repetitivo: favelas atravessadas por operações sucessivas, garimpos onde a destruição não vira notícia, prisões que não contam histórias. A visibilidade organiza quem acelera e quem fica imóvel.

A pressa redefine o que conta como ação legítima. Processos judiciais, políticas públicas e deliberações coletivas parecem lentos demais para o compasso das redes. O Pai autoritário encarna a promessa de eficiência sem mediação: decisão sem processo, proteção sem conflito, verdade sem demora. A exceção torna-se método de governo do tempo.

Nessa disputa, o problema não é apenas moral, mas técnico. A lógica de engajamento recompensa rupturas rápidas e penaliza relações que exigem acompanhamento. O que pede cuidado, verificação e aprendizagem aparece como custo improdutivo. A política é traduzida em cronômetro de engajamento.

Tempo e exceção convergem para produzir um sujeito que deseja ser governado pelo impacto. Resta perguntar o que escapa a essa máquina: hesitações, práticas lentas, narrativas que recusam o corte. A próxima seção permanece junto a esses impasses, sem convertê-los em programa fechado.

Rachaduras e impasses

Se a exceção digital parece onipresente, ela não é total. Esta seção recolhe as fissuras do quadro sem convertê-las em programa. Não se trata de oferecer um programa normativo capaz de substituir a máquina. O que essas fraturas revelam é outra coisa: o reconhecimento de que a disputa política se deslocou para as próprias infraestruturas de visibilidade e de tempo que organizam a experiência pública. A questão já não é simplesmente o que dizer no fluxo, mas como disputar seus ritmos, suas métricas e seus regimes de aparição. Mesmo no interior da máquina persistem gestos que não se deixam traduzir integralmente em métricas: lutos que insistem contra o esquecimento, redes improvisadas diante de catástrofes, circuitos de informação que preferem a verificação lenta ao impacto. São movimentos menores, frequentemente invisíveis, mas que interrompem a pedagogia da urgência.

A circulação incessante de agressões e exposições públicas treina para a indiferença; o adversário converte-se em objeto de escárnio. Quando certos corpos deixam de ser reconhecíveis como vidas, a violência já começou. Ainda assim, o roteiro não se cumpre sem restos. Boatos que não viralizam, vídeos que não retêm, campanhas que fracassam – a própria infraestrutura produz falhas de captura. A exceção precisa repetir-se porque nunca se estabiliza completamente.

Essas fraturas não são heroicas. Surgem de atritos banais: moderações comunitárias que desaceleram a circulação, coletivos que recusam transformar dor em espetáculo, usos das redes por povos indígenas como suporte de memória e defesa territorial, circuitos coletivos de verificação que retardam a amplificação da informação, arquivos digitais comunitários que transformam o fluxo efêmero em memória durável, usuários que abandonam a discussão para preservar vínculos. Não derrotam a lógica do feed, mas desobedecem ao seu ritmo, abrindo intervalos nos quais a decisão instantânea perde autoridade.

Podemos ler tais movimentos como tentativas de repolitizar a técnica: disputas por critérios de recomendação, exigências de transparência, experiências de verificação compartilhada, criação de zonas lentas dentro do fluxo. Cada fricção reabre o tempo que a lógica do feed tenta comprimir e mostra que a infraestrutura é também campo de conflito sensível. Nessas fraturas surge também outra tarefa: experimentar formas de recompor aquilo que o dispositivo desagrega.

Há, contudo, um limite nessas rachaduras. Enquanto o regime de visibilidade continuar a operar segundo uma lógica necropolítica, muitos seguirão desaparecendo sem luto. A questão não é apenas quem fala, mas quem pode aparecer – e em que condições. O Pai autoritário prospera justamente onde essas ausências se naturalizam e onde a pressa substitui a justiça.

Os impasses revelam que o problema pertence à própria política e se inscreve nas tecnologias que habitamos. As fissuras não anunciam salvação; mantêm o horizonte aberto. Podemos nomear o que emerge dessas fissuras como uma política da fricção. Se a exceção prospera na aceleração – na resposta imediata, no impacto contínuo, na compressão do tempo –, resistir passa também por disputar o ritmo. Em vez de desligar a máquina por decreto, trata-se de introduzir intervalos em seu funcionamento: momentos em que a reação automática falha, em que o gesto de compartilhar hesita, em que a visibilidade deixa de obedecer inteiramente às métricas da excitação.

A exceção não é exterior à democracia; ela atravessa suas próprias formas. O que muda é o regime temporal que a torna operável. É a partir dessas fissuras que a última seção retoma a pergunta sobre como permanecer com o problema sem convertê-lo em ordem. Dessas fraturas emerge outra tarefa: experimentar modos de recompor aquilo que o dispositivo desagrega.

Ficar com o problema

Talvez o primeiro gesto seja recusar a pressa de concluir. A fábrica digital da exceção nos treina justamente para isso: fechar questões com rapidez, substituir a pergunta pelo veredito, transformar inquietação em sentença. Permanecer no problema é quase um ato de desobediência ao ritmo do feed.

O que fazer com um mundo em que os sistemas de recomendação operam mais rápido que a política? Como pensar a soberania quando ela se desloca para sistemas estatísticos que ninguém elegeu? Que nome dar a essa autoridade que não decreta, mas recomenda; que não proíbe, mas invisibiliza – forma de governo sem decisão que administra o possível em vez de legislar o justo? Ainda chamamos isso de governo ou já habitamos outra modalidade de poder?

E o que resta da democracia quando o tempo da deliberação parece deslocado diante do tempo do feed? A exceção prospera porque promete sincronizar o mundo com nossa impaciência. Mas de onde vem essa impaciência? É desejo de justiça ou reflexo condicionado por interfaces que confundem intensidade com verdade e decidem, de antemão, quem merece ser ouvido e quem pode ser descartado?

Também não é simples nomear o lugar do Pai autoritário nesse cenário. Ele é causa ou efeito da máquina? Lidera o processo ou é apenas seu avatar mais carismático? A promessa de tutela organiza o desejo coletivo, e o próprio feed aprende com esse desejo. Quem governa quem?

Há, ainda, a questão do sujeito. Somos usuários, cidadãos, espectadores, dados? Em que momento a participação se converte em captura? Quando o compartilhamento deixa de ser gesto político para tornar-se trabalho gratuito para a máquina – estreitamento do imaginável até que só reste obedecer ao fluxo? A exceção digital produz pertencimento ou apenas simula comunidade enquanto contabiliza cliques?

Essas perguntas não pedem resposta imediata. Pedem demora. Pedem o desconforto de reconhecer que já não sabemos onde termina a técnica e começa a política. Pedem, sobretudo, aceitar que o problema não é defeito passageiro do sistema, mas sua própria forma de funcionamento.

Ficar com o problema significa admitir que as redes não são ferramentas externas; são ambientes que nos habitam. Significa perceber que a exceção se infiltra nas pequenas decisões de cada rolagem de tela. Implica, também, reconhecer que o desejo de tutela diz algo verdadeiro sobre nosso cansaço diante da complexidade – sem transformar essa constatação em novo mandamento.

Permanecer na pergunta não é paralisia. É recusa de soluções fáceis. É suspeitar das promessas de limpeza do mundo, sejam militares, jurídicas ou algorítmicas. É desconfiar do conforto que o Pai autoritário oferece quando nos livra da tarefa de decidir juntos – lembrando que toda política da visibilidade produz também zonas onde a vida pode ser deixada morrer sem luto.

Quem sabe o mais difícil seja aceitar que não há exterior puro a partir do qual julgar a máquina. Estamos dentro dela, aprendendo sua língua enquanto tentamos criticá-la. A exceção digital é nossa contemporânea íntima, não um monstro distante. Como pensar com aquilo que nos pensa?

Ficar com o problema é como conviver com um animal estranho: sem domesticá-lo depressa, mas também sem abandoná-lo ao descontrole. Nem rendição ao Pai, nem ilusão de pureza – apenas a arte incerta de coabitar com forças que nos atravessam.

O mundo que encolhe exige imaginação para suportar sua ambiguidade. A fábrica digital da exceção é ameaça e espelho: revela nossa fome de sentido e nossa dificuldade de produzi-lo sem tutela. Perguntar por ela é perguntar por nós.

Seremos capazes de habitar as redes sem desejar que alguém nos salve delas? Ou continuaremos a oferecer nossa inquietação ao primeiro Pai autoritário que prometa silenciar o ruído?

Ficar com o problema é aprender a viver sem essa promessa.

O problema pode não estar apenas nas redes. Pode estar na estranha facilidade com que aprendemos a viver dentro delas, como quem aprende um novo modo de respirar sem perceber que o ar mudou. Deslizamos o dedo e o mundo se recompõe em pequenos clarões: indignação, punição, alívio. Tudo acontece rápido demais para ganhar espessura. A exceção passa entre as imagens como um costume antigo, discreto, quase íntimo – como se sempre tivesse habitado conosco e apenas esperasse o momento de se tornar visível.

Resistir não é simplesmente abandonar a máquina. É interromper o reflexo que ela produz em nós: reagir antes de compreender, julgar antes de ouvir, punir antes de pensar. Entre a pressa que nos captura e a lentidão que ainda respira em algum lugar, talvez a política sobreviva apenas assim: como um pequeno atraso no tempo do mundo.

Uma pausa no gesto que desliza.

O dedo hesita.

E, por um instante, o mundo volta a pesar.

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Palavra de poeta

Marcas

Ana Suy

Parir um mundo,
porque qualquer coisa que alguém dê à luz
tem vida própria.
É todo um mundo,
com marquinhas do Outro.

Escrevo para salvar a minha mãe em mim.
Para honrar minhas pequenas e profundas marcas do Outro.
Serei eu marca ou
serei eu marcada?

Entre mim e ti, eu.
E se eu te fosse?
E se eu me fosse?
Então (me) fui.

[Ilustração: Pierre August Renoir]

"O teu riso", poema de Pablo Neruda https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/palavra-de-poeta_69.html 


Financeirização, fraude & especulação

Risco sistêmico x fraude
O diálogo com Marx sobre o escândalo de 1856 revela o óbvio que a ciência econômica insiste em ignorar: na financeirização, fraude e especulação não são acidentes, mas a própria alma do negócio
LUIZ GONZAGA BELLUZZO & MANFRED BACK*/A Terra é Redonda 
   

1.

Os escribas deste artigo tiveram a oportunidade de conhecer e entrevistar Karl Marx, colunista do New York Daily Tribune, Marx denunciou o escândalo financeiro que abalou os súditos de sua majestade britânica em 1856. O Banco Master? Não, o Royal British Bank.

Aqui vamos transcrever partes da conversa com o colunista Karl Marx:

Nós: o senhor considera como um fato novo a fraude ocorrida no Royal British Bank?

Marx: O que distingue o período atual de especulação na Europa é a universalidade da febre. Já houve manias de jogos de azar antes das manias do milho, das ferrovias, da mineração, dos bancos, da fiação de algodão… embora todos os ramos da atividade industrial e comercial tenham sido afetados, uma mania principal conferiu a cada época seu tom e caráter distintos. Com todos os setores invadidos pelo espírito da especulação, cada especulador ainda se limitava ao seu próprio setor.

Nós: no seu entendimento, houve algo de novo no sistema?

Marx: ao contrário, o princípio fundamental no Crédit Mobilier, representante da atual mania, não é especular em uma linha específica, mas sim especular na especulação, e universalizar a fraude na mesma medida em que a centraliza.

Nós: vamos insistir para que nosso leitor entenda, por que os experts não conseguem explicar a crise do Crédit Mobilier?

Marx: Para que um grupo de diretores consuma o capital de uma empresa, enquanto anima os acionistas com altos dividendos e seduz depositantes e novos acionistas com demonstrações financeiras fraudulentas, não é necessário muito requinte. Basta a lei inglesa… Todos os anos, desde que o banco iniciou suas operações, acumulava um prejuízo de £50.000 e, mesmo assim, os diretores vinham anualmente parabenizar os acionistas pela prosperidade.

Dividendos de seis por cento eram pagos trimestralmente, embora, segundo declaração do contador oficial Sr. Coleman, os acionistas jamais tenham sido pagos trimestralmente…

Quando o banco estava completamente insolvente, novas ações foram emitidas, em meio a relatórios otimistas sobre seu progresso e voto de confiança aos diretores. Essa emissão de novas ações não foi, de forma alguma, concebida como uma medida desesperada para aliviar a situação do banco, mas, simplesmente, para fornecer material para fraudes da diretoria. Embora uma das regras do estatuto social proibisse o banco de negociar suas próprias ações, parece ter sido prática constante onerá-lo, a título de garantia, com suas próprias ações sempre que estas se desvalorizavam nas mãos dos diretores.

Nós: o senhor tem conhecimento de envolvimento de altos funcionários do banco e o uso do que chamamos hoje de “laranjas”?

Marx: Havia dois grupos de diretores: um que se contentava em embolsar seu salário de £10.000 por ano sem saber nada sobre os negócios do banco e, assim, manter a consciência tranquila; e outro que se preocupava com a verdadeira direção do banco, mas que se tornava seu primeiro cliente, ou melhor, seu saqueador. Este último grupo, dependendo do gerente, começava por deixar o gerente se acomodar sozinho.

Além do gerente, eles também tinham que manter em segredo o auditor e o advogado da empresa, que, consequentemente, recebiam subornos em adiantamentos. Além dos adiantamentos feitos a si mesmos e a seus familiares em seus próprios nomes, os diretores e o gerente passaram a nomear vários laranjas, em nome dos quais embolsaram novos adiantamentos. O capital integralizado totaliza agora £150.000, dos quais £121.840 foram absorvidos direta e indiretamente pelos diretores.

O fundador da empresa, Sr. McGregor, membro do Parlamento por Glasgow e renomado escritor de estatísticas, deixou um empréstimo de £7.362 para a empresa; outro diretor e membro do Parlamento, Sr. Humphrey Brown, de Tewkesbury, que utilizou o banco para pagar suas despesas de campanha eleitoral, chegou a ter um débito de £70.000 com a instituição e parece ainda estar devendo £50.000. O Sr. Cameron, o gerente, recebeu adiantamentos no valor de £30.000. Não deveriam ter recebido dividendos. No verão passado, demonstrações contábeis fraudulentas no valor de mais de £370.000

Todos os anos, desde que o banco iniciou suas operações, acumulava um prejuízo de £50.000, e mesmo assim os diretores vinham anualmente parabenizar os acionistas pela prosperidade”.

Nós: houve algum tipo de triangulação com setores da indústria inglesa? Há indícios claros de que se trata de “lavagem de dinheiro”?

Marx: “Uma das transações mais extraordinárias e características do Royal British Bank foi sua ligação com uma siderúrgica galesa. Na época em que o capital integralizado da Companhia era de apenas £50.000, os adiantamentos feitos somente a essa siderúrgica totalizaram £70.000 a £80.000. Quando a Companhia tomou posse dessa siderúrgica, ela estava inviável.

Após se tornar viável com um investimento de cerca de £50.000, a propriedade ficou nas mãos de um Sr. Clarke, que, depois de explorá-la “por algum tempo”, a devolveu ao banco, “expressando sua convicção de que estava desperdiçando uma grande fortuna”, deixando, no entanto, o banco com uma dívida adicional de £20.000 referente à “propriedade”.

Assim, essa empresa saía das mãos do banco sempre que havia perspectivas de lucro e retornava ao banco quando novos adiantamentos eram necessários. Essa brincadeira de mau gosto que os diretores tentavam levar adiante até o último momento de sua confissão, ainda exaltando a capacidade lucrativa das instalações, que, segundo eles, poderiam render £16.000 por ano, esquecendo-se de que custaram aos acionistas £17.742 durante cada ano de existência da empresa.

Os negócios da empresa serão agora liquidados no Tribunal da Chancelaria. Muito antes que isso possa ser feito, porém, todas as aventuras do Royal British Bank terão sido afogadas no dilúvio da crise europeia generalizada”.

2.

Nunca é um caso isolado, como a economia das expectativas racionais brada aos sete ventos. “Racional” na economia monetária-financeira capitalista é a ganância. Há quase uma correlação perfeita entre dinheiro e ganância: são estes os “fundamentos” que sustentam a relação entre especulação e alavancagem. A fraude é só uma extensão.

Nossos experts da ciência triste, a economia, insistem que o mercado financeiro e a especulação seriam uma espécie de tumor do sistema, um planeta distante na galáxia. Não teria importância nem qualquer efeito no dia a dia do mundo produtivo real da dita “economia racional”.  Outros Masters virão, previsão mais do que certa!

*Luiz Gonzaga Belluzzo, economista, é Professor Emérito da Unicamp. Autor entre outros livros, de O tempo de Keynes nos tempos do capitalismo (Contracorrente). [https://amzn.to/45ZBh4D]

*Manfred Back é graduado em economia pela PUC –SP e mestre em administração pública pela FGV-SP.

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