09 fevereiro 2026

Palavra de poeta

Os vivos
Ferreira Gullar        

Os vivos são vorazes
são glutões ferozes:
até dos mortos comem
carnes ossos vozes


Se devoram os mortos

devoram os outros vivos:
pelos olhos e sexo
elogios, sorrisos

 

Os vivos são dotados
de famintas bocas:
devoram o que veem,
o que cheiram e tocam

 

Os vivos são fornalhas
em sempre operação:
em sua mente e ventre
tudo vira carvão

 

O mar a pedra a manhã
são ali combustível:
o vivo, voraz, muda
o visível em visível

 

O mar a pedra a manhã
— que ele queima em seus risos —
viram pele e cabelos
do corpo, que é ele vivo

 

e onde habita alguém
— seja espírito ou não —
alimentado também
por essa combustão

 

que tudo vaporiza.
Mas que agora na pele
desta efêmera mão
é afago de brisa

[Ilustração: Antonio Sgarbossa]

Em tempo real. Será? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minha-opiniao_6.html 

Minha opinião

Alckmin e a sina dos vices
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65   

Óbvio que há um milhão de quilômetros de distância entre os cargos de vice-presidente da República e vice-prefeito do Recife.

Entretanto, permito-me um comentário a propósito da dúvida que paira na cena política pré-eleitoral: Geraldo Alckmin permanecerá vice do presidente Lula ou não? 

Como se sabe, fui vice-prefeito da capital pernambucana por quatro mandatos. Portanto, companheiro de chapa dos titulares por duas vezes em duas gestões distintas. 

Quando candidato pela primeira vez na chapa do então deputado João Paulo, abordei Fernando Lyra, destacado deputado federal pernambucano e ex- candidato a vice-presidente da República numa chapa com Leonel Brizola:

— Como deve se comportar um bom candidato à vice? 

— Amigo, a primeira condição para ajudar é não atrapalhar, advertiu-me ele, com o seu habitual bom humor. 

Levei a sério o assunto e, de fato, procurei ajudar em tudo na campanha e no exercício do governo, com toda a discrição possível.

Na candidatura à reeleição, o próprio prefeito demoveu o seu partido de qualquer propósito de mudança na chapa. 

Anos depois, com o prefeito Geraldo Júlio, do PSB, a situação se repetiu. 

Em dimensão obviamente muito maior, a situação se apresenta no caso de Geraldo Alckmin e Lula. 

Presidente e vice têm perfis bem distintos e inclusive diferentes abordagens sobre questões essenciais da economia do país. A despeito disso, Alckmin tem cumprido um papel importantíssimo tanto no que diz respeito à manutenção da unidade possível no seio de um governo de composição muito heterogênea, como na relação com a sociedade. 

Lula candidato à reeleição deve manter a composição da chapa? 

Talvez sim, sobretudo se Alckmin estiver cumprindo o papel que se supõe na manutenção da frente ampla e até no esforço de alargá-la mais ainda.

O Brasil é infinitamente maior e mais complexo do que a cidade do Recife, mas nada me impede de comparar as situações e torcer pela manutenção do equilíbrio e do bom senso.

Após o carnaval tudo pode acontecer https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_29.html

Arte é vida

Lúcia Helena 

Uma crônica de Paulo Nogueira Batista Jr.

Confissões de um ex-dinossauro
Enfim, eis o que queria dizer hoje: eu mudei. Acredite, leitor ou leitora, não sou mais a mesma pessoa num ponto fundamental: na maneira de ver o sexo oposto
Paulo Nogueira Batista Jr./Vermelho    

Para Lavínia


“Em questões de gênero, deve-se guardar o mais absoluto silêncio.”
(Frase de grande sabedoria, de autoria desconhecida, que eu, como muitos, não consigo seguir)

A crônica que hoje publico foi escrita no finalzinho de 2025. Minha ideia era aproveitar a calmaria de virada de ano para fugir dos meus assuntos habituais.

No entanto, o ataque à Venezuela, além das ameaças, pressões e violências contra Irã, Cuba e várias outras nações, conformaram o início de ano mais turbulento de que se tem notícia. Acabei publicando, nesse meio tempo, dois artigos sobre o quadro internacional (um em coautoria com o ilustre embaixador Bustani).

Volto agora à crônica. Não que a situação tenha se acalmado – a superpotência delinquente continua fazendo das suas. Mas não tenho neste momento muito a acrescentar sobre o tema.

Enfim, eis o que queria dizer hoje: eu mudei. Acredite, leitor ou leitora, não sou mais a mesma pessoa num ponto fundamental: na maneira de ver o sexo oposto.

É verdade que Schopenhauer disse: “A maior prova de superficialidade é acreditar que as pessoas mudam”. E Roberto Mangabeira Unger acrescentou em comentário à frase de Schopenhauer: “É mais fácil mudar um país do que uma pessoa”. Boas frases, sem dúvida. Sempre gostei delas e citei a de Schopenhauer repetidamente. E, no entanto, por experiência própria, não acredito mais nelas.

Bem sei que, do ponto de vista estritamente subjetivo, a crença em alguma “essência imutável” funciona como uma espécie de tranquilizante contra a passagem vertiginosa e devastadora do Tempo (deve-se sempre capitalizar a palavra). Cultivamos a nossa suposta essência estável como forma de aplacar essa angústia. Mas a verdade é que nós também mudamos, inclusive aquela nossa essência supostamente profunda e constante.


Não quero que o leitor ou leitora me considere volúvel demais, mas devo dizer, a bem da verdade, que nos recém-publicados Estilhaços, há passagens que eu hoje renegaria taxativamente. Várias observações e piadas sobre a mulher, em especial. São bem datadas e envelheceram rapidamente. Talvez as retire em uma segunda edição.

Por exemplo, numa das crônicas do livro, achei bonito tomar Descartes como ponto de partida para um suposto “elogio” à mulher. No Discurso do Método, Descartes observou que o bom senso é uma qualidade comum a todos os homens, usando a palavra no sentido tradicional que abarcava homens e mulheres. E construiu toda uma filosofia em cima dessa premissa. Invoquei, também, Aristóteles e sua célebre definição do homem como “animal racional”.

Vejam vocês o que me ocorreu escrever – aplicadas à mulher, essas frases revelam todo o seu absurdo, pois a mulher se opõe radical e indisciplinadamente ao bom senso, ao razoável, ao racional. E acrescentei: nisso reside grande parte do seu charme e da sua importância histórica.

Em outra passagem, achei interessante recuperar a anedota de Churchill que, quando confrontado com a previsão de que as mulheres dominariam o mundo no ano 2000, teria respondido: “They still will, will they?”. Parêntese: Churchill é uma figura histórica por quem a minha antiga admiração já não é a mesma. Embora tenha tido um momento heroico na resistência, às vezes quase solitária, a Hitler e à Alemanha nazista, foi também um imperialista linha dura, violento e racista. Os indianos que o digam. Mas não quero perder o fio da meada e fecho o parêntese. 


Uma amiga (feminista light), ao ler algumas passagens dos Estilhaços sobre a mulher, disse, tolerante: “Você é um homem da sua geração, cabe relevar”. 


Mas, não, justamente não! Não se deve ser um homem ou uma mulher da sua geração, um ser confortavelmente inserido na sua época. O que interessa é ser inatual, como dizia Nietzsche. 

Não se faz nada de original e duradouro sem ser contra, fundamentalmente contra a própria época. O homem ou a mulher representativo da sua geração não passa em geral de uma figura irrelevante, acomodada e cronicamente incapaz de inovar e criar. O que é o “espírito da época” ao final senão um amontoado de clichés e convenções? Sem jogá-las ao mar, sem desafiá-las, nada se pode fazer de novo. O inovador, para ser de fato inovador, sempre deve criar certa estranheza, resistência e repulsa. E deve aceitar a solidão que a inatualidade frequentemente acarreta.

Por isso, proclamo em alto e bom som: nos Estilhaços e em outras ocasiões, errei, de alto a baixo, e de modo estrondoso, no que disse sobre as mulheres. Mas estou exagerando um pouco: não de alto a baixo, mas em grande parte. Mantenho, por exemplo, o que escrevi sobre o efeito arrebatador da beleza feminina, algo que será válido, acredito, por todas as gerações até que a humanidade encerre a sua Odisseia na Terra.

O dia em que o homem deixar de ser fascinado pela beleza da mulher será exatamente o nosso fim como espécie. Lavínia, minha companheira, não gostou deste parágrafo e avisou: “Prepare-se para apanhar”. Mesmo assim, ficou feliz de ver que a crônica está dedicada a ela. 



De fato, eu estava soando antigo novamente. A mulher não quer (ou finge não querer?) ser admirada apenas pela beleza. Quer ser, entre outras coisas, uma profissional bem-sucedida e contribuir para o progresso social. Quer abrir espaço para si e teme voltar a ser enquadrada como elemento meramente decorativo. Não aceita mais a exortação de Nelson Rodrigues que sempre dizia: “Beleza também é serviço público!”.

Elas têm razão, não há a menor dúvida. E surge a dúvida atroz: minha mudança terá sido tão completa? Cabe talvez emendar o título para “Confissões de um dinossauro”?

Mas, não. Fica assim mesmo.

[Ilustração: Tim Mossholder/Via Pexels]

Fotografia

Luciano Siqueira 

Leia: A morte e a infelicidade do ministro japonês https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_8.html 

Edilson Silva opina

A radicalidade da resiliência
Radicalizar neste momento é manter a marcha para frente, colocando o enfrentamento às contradições estratégicas e históricas na presidência de nossas decisões
Edilson Silva/Vermelho       

A pressão das forças da modernidade impõe uma regra nas sociedades humanas que trocam experiências culturais: o movimento. E é essa regra que coloca a humanidade de tempos em tempos em desequilíbrios mais intensos, que suscitam rupturas na realidade. O tempo, então, por vezes, assume um espírito de rebeldia. A este respeito, Marx e Engels foram definitivos para o Materialismo Histórico.

Vivemos nos últimos dez a quinze anos, mais uma vez, nesse espírito rebelde do tempo. O que especificamente ocasionou isso? Há sinais robustos de que tenha sido a falência terminal do capitalismo financeiro e o seu neoliberalismo por um lado, e por outro o exercício humano nas redes sociais digitais, que conectaram tudo e quase todos ao mesmo tempo. Fato é que a rebeldia está aí.

Nestes momentos históricos, o espírito do tempo sopra as velas das pequenas embarcações de revolucionários de ocasião, e de rebeldes reacionários de ocasião também, cheios de soberba, soluções rápidas e atalhos sedutores, à esquerda e à direita, agora potencializados pelas redes sociais sem filtros, uma fábrica de aprendizes de caudilhos, lacradores de vários tamanhos.

O presidente Lula, que teve a sorte, o azar e a sabedoria de se reerguer presidente da República nesta conjuntura quase indecifrável, é chamado de neoliberal por um lado e comunista por outro. Como se a radicalidade só tivesse vida nos extremos do pensamento. Aristóteles já resolveu esta demanda, mas como o espírito do tempo se renova na história, os argumentos também devem ser ditos novamente.   

É bastante compreensível que segmentos relevantes das esquerdas – em tamanho e honestidade – se levantem em simpatia pelos autodenominados radicais de esquerda. Afinal, há um portal que se abriu, uma janela de oportunidades, urgências históricas que entraram na ordem do dia, a extrema direita estaria “roubando” a narrativa antissistema das esquerdas. Sim, todos estes argumentos são plausíveis, a questão é o que fazemos com isso, para não corrermos o risco de vermos outro Kadhafi refugiado num buraco e assassinado por uma turba sem consciência histórica e recheada de conscientes assassinos portadores da barbárie.

Muita calma nessa hora. Quem vem de longe, maratonando sob sol e tempestade, nem se desespera com ladeiras acima, e nem se embriaga com ladeiras abaixo. Na política que busca de fato o poder, no Estado e na sociedade, a matéria-prima fundamental a ser trabalhada são as pessoas, as maiorias. No campo das esquerdas, qualquer objetivo real abaixo disso é hobby, clube literário ou parasitismo de quem sabe que os adultos farão o trabalho adulto. A luta de ideias tem seu lugar cativo na lida política do povo, é claro, mas luta de ideias sem povo organizado e mobilizado, sem constituição de maiorias sob um programa mínimo de transição, não muda a vida. Lênin chamou isso de “doença infantil do comunismo”.

O objetivo da política real e efetiva deve ser unir e mobilizar as pessoas, contingentes de massas, para seguir no sentido estratégico dos interesses históricos das classes trabalhadoras. Um desafio gigantesco. Movimentar dezenas de milhões de espíritos humanos, com seus interesses pontuais e não raro até contraditórios no plano imediato, com suas trajetórias desiguais, crenças e culturas diferentes, urgências sem sincronia, mesmo no refluxo de lutas sociais, e colocá-los todos para marchar na mesma direção, mesmo que de forma mais lenta, é missão para radicais da resiliência, com profunda convicção do caminho a seguir.

Não é trivial, ainda mais sob a hegemonia das teses liberais e sob a ameaça de forças ultraliberais e fascistas, um governo fortalecer aspectos de um Estado de bem-estar social, com programas e políticas públicas de redistribuição de renda. Construir uma agenda humanista, de defesa da soberania e do multilateralismo num ambiente global belicista, com um imperialismo decadente esperneando e ameaçando a integridade das nações. Unir as forças democráticas e progressistas em defesa dos pilares da República, atraindo antigos adversários até do campo da Direita, e colocando-os sob a batuta de uma hegemonia progressista.

Um governo como este, que reuniu uma maioria eleitoral em regime de mutirão, e que para isto teve que congregar contradições, tem, por óbvio, questões internas a serem superadas. O controle da política monetária é uma necessidade urgente, que se encontra sequestrada por interesses da elite financeira, e é talvez o maior exemplo daquilo que a atual esquerda no poder deve buscar transpor. A falta de uma política nacional mais efetiva para a segurança pública e para o combate à criminalidade é outra. A ausência de uma política mais efetiva para avançar na Reforma Agrária também é um déficit. A redução da jornada de trabalho da escala 6×1, mais um exemplo.

A esquerda radical resiliente, que não baixa suas bandeiras quando está na defensiva, quando está sob ditaduras sanguinárias, e que sabe apontar na direção da conquista de direitos para o povo quando a correlação de forças se apresenta favorável, como quando conquistamos a Constituição de 1988, está agora desafiada a dialogar com este momento histórico, desafiando com sabedoria o Sistema estrutural de poder, e mantendo-se no centro do poder Estatal com a reeleição do presidente Lula. Essa é a prioridade das prioridades.

Está desafiada também a construir outra correlação de forças no Congresso Nacional em contraposição ao Centrão, e a construir nos estados uma base de sustentação política para as pautas progressistas. Tudo isto enfrentando uma extrema direita raivosa, criminosa e com apelo popular, e ainda sob a sabotagem das Big Techs que controlam as principais redes sociais digitais. Radicalizar neste momento, portanto, é manter a marcha para frente, colocando o enfrentamento às contradições estratégicas e históricas na presidência de nossas decisões.

Desenvolvimento: estatísticas em disputa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/desenvolvimento-estatisticas-em-disputa.html  

Etiqueta no carnaval?

Etiqueta de quê?
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65        

Com razoável frequência registro aqui breve comentário a propósito de matérias da grande mídia que me despertam atenção apenas por alguns segundos — porque me intrigam, mas realmente não me interessam. 

Caso de um artigo de que apenas li de relance o lide, mas anotei: “atenção para etiqueta sexual no carnaval”. 

— Oxente, até isso!, comenta o amigo Epaminondas, ele igualmente pouco afeito a futilidades midiáticas.

Na verdade, a vida real na sociedade desigual e preconceituosa em que vivemos, cujo valor imperante é a busca do lucro máximo por meio da exploração da mão de obra alheia. 

— Essas baboseiras são apenas para distrair os incautos e atrair mais audiência para o que não vale a pena, completo o amigo.

Bem, por aqui eu paro para não recair no mesmo erro de perder tempo com bobagem.

Intolerável vício de linguagem https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/minha-opiniao_29.html