12 março 2026

Estamos juntos

 


Palavra de poeta

Solo para Vialejo

(excerto)

Cida Pedrosa     

 

o violão de seu dim
cordas quase elétricas rosto ancestral

andaluz
andaluz
andaluz

voz ligeira indigenando a melodia
tarde e tristeza em uma cidade
que parece cochilar enquanto ferve o mundo
várzea do meio você era tão perto e eu não sabia

a destreza de raimundo e zé pereira irmãos de
sangue e de música guiados por violões ciganos
de cordas inquebrantáveis recuerdos de boleros
e passos de fox dance em infinitas noites sem lua
e lobisomem onde pixinguinha pinicava nossas
almas e jackson espetava nossos corpos e todos
beberam dessa água incandescente onde a musa
vermelha fez morada e anunciou que da pequena
várzea vilarejo mameluco o som se expandiria
serra acima

andaluz andaluz andaluz

um dia minha mãe me disse
a várzea do meio é terra de índios

o sax de seu miguel
o sax de otacílio rodrigues
o clarinete de raimundo maciel

os negros tocavam banjo os negros tocavam banjo
os negros tocavam os negros sem nome tocavam
banjo

jazz band
jazz band
jazz band

jazz band união bodocoense o símbolo delicado
escrito
no bombo indicava que a borboleta azul pousou
ali

jazz band
jazz band
jazz band

quem são estes cavaleiros do
apocalipse new andarilhos de rostos
apagados silenciados nas lembranças
de uma cidade sem presente
irmanados em uma velha foto de
trincheira onde identifico apenas três
três acordes do blues

o sax de seu miguel
o sax de otacílio rodrigues
o clarinete de raimundo Maciel

a santíssima trindade da música sertã
a tríade balsâmica do araripe
o terceto identificado

entre os

nove cavaleiros emplumados
nove cavaleiros emplumados
nove cavaleiros emplumados

a tríade branca em uma jazz band onde ninguém
sabe dos negros que tocavam banjo

a linhagem
a linhagem
a linhagem

cadê a linhagem dos negros que tocavam banjo?

os negros
os negros
os negros

tocavamtocavamtocavamtocavamtocavam

[Ilustração: Killi Sparre]

Leia também: "Solidão", poema de Mia Couto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/palavra-de-poeta_22.html

11 março 2026

Ciência & Tecnologia

Investimentos em ciência e tecnologia batem recorde e chegam a quase R$ 50 bilhões em três anos
Recursos quase dobram em relação ao período anterior e impulsionam inovação, vacinas nacionais e plano brasileiro de inteligência artificial
Brasil 247  

O Brasil registrou um crescimento significativo nos investimentos em ciência e tecnologia nos últimos três anos. Desde janeiro de 2023, os recursos destinados ao fortalecimento do setor alcançaram R$ 49,3 bilhões, valor que representa quase o dobro do total aplicado entre 2019 e 2022, período em que foram investidos R$ 26,3 bilhões.

Os dados foram apresentados pela ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, durante participação no programa Bom Dia, Ministra, exibido pelo Canal Gov. Segundo a ministra, o volume de recursos tem ampliado o apoio às universidades, institutos de pesquisa e iniciativas de inovação tecnológica no país.

“É muito investimento que está indo para as universidades, institutos de ciência e tecnologia, e é o que muda na vida das pessoas”, afirmou Luciana Santos durante a entrevista.

Avanços científicos e vacinas nacionais

Durante a conversa com radialistas de diversas regiões do país, a ministra destacou resultados concretos obtidos a partir dos investimentos, como o desenvolvimento de vacinas produzidas integralmente no Brasil.

Ela citou o caso da vacina nacional contra a Covid-19 desenvolvida no Centro de Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), financiada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

“Vou dar um exemplo. Nós agora temos uma vacina 100% brasileira da Covid. Todos nós sabemos o que aconteceu no período anterior, que nós tivemos uma dependência enorme, mesmo tendo o Butantan e a Fiocruz, que são patrimônio do povo brasileiro na área de vacinas, nós ficamos muito dependentes dos IFAs, dos insumos farmacêuticos ativos, e de uma posição negacionista do governo anterior. Então isso tudo adiou a capacidade que a gente tem de produção de vacinas. Agora nós temos uma vacina 100% brasileira, que é financiada exatamente pelo nosso ministério na Universidade Federal de Minas Gerais, que é o Centro de Vacinas, que se chama Espintec. Então isso é uma grande vitória para a ciência brasileira, nós vamos nos tornar autônomos, assim como também na dengue. Nós temos agora uma vacina 100% brasileira de prevenir a dengue, que é um fenômeno brasileiro relevante, e a gente está se preparando para isso”, explicou.

Recursos estratégicos para inovação e indústria

De acordo com o governo federal, 64% dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) foram direcionados para programas considerados estratégicos, como a Nova Indústria Brasil (NIB) e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

A estratégia busca fortalecer a inovação tecnológica e estimular setores industriais de base científica, capazes de gerar empregos qualificados e melhor remunerados. Luciana Santos destacou também o impacto desses investimentos na autonomia produtiva do país.

“Os investimentos servem para que a gente tenha autonomia no complexo industrial de saúde. A gente tem o segundo déficit da balança comercial (neste complexo). São 20 bilhões de dólares de déficit da balança comercial, e a gente está fazendo investimentos para ter equipamentos. É para isso que serve, para proteger o povo brasileiro de qualquer tipo de dependência que a gente tenha, ainda mais nesse mundo da geopolítica, a gente tem que tomar medidas para fortalecer”, afirmou.

Ela acrescentou que o fortalecimento científico e tecnológico tem impacto direto em diferentes áreas estratégicas.

“É para isso que serve a ciência e tecnologia. Estou dando o exemplo de saúde, porque ele impacta mais diretamente na vida do povo brasileiro, mas isso vai para a área de defesa, isso vai para várias áreas de conhecimento para aquecer a nossa indústria, nós temos que ter indústria de microeletrônica, nós temos que ter indústria de semicondutores, e isso tudo é ciência e tecnologia”.

Plano brasileiro de inteligência artificial

Outro tema abordado pela ministra foi o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), iniciativa que prevê investimentos de R$ 23 bilhões até 2028. Os recursos devem vir de instituições públicas e privadas, incluindo o FNDCT, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o setor privado.

O plano está estruturado em cinco eixos principais: infraestrutura tecnológica, formação de especialistas, melhoria de serviços públicos com IA, inovação empresarial e governança da inteligência artificial.

Segundo Luciana Santos, o projeto inclui a aquisição de supercomputadores para ampliar a capacidade nacional de processamento de dados e treinamento de sistemas de inteligência artificial.

“Vamos adquirir computadores de alto desempenho e vamos nos colocar entre as dez maiores nações com capacidade de computadores de alto desempenho, que vão poder treinar a inteligência artificial. E vamos fazer editais ainda neste primeiro semestre para possibilitar que muita gente das áreas de engenharia, de ciência da computação, possam fazer IA no Brasil. 60% dos nossos dados são armazenados fora do Brasil. Então nós precisamos que esses dados sejam armazenados aqui. Soberania nacional hoje é sinônimo de domínio tecnológico”.

A ministra também ressaltou que o país busca ampliar sua autonomia em áreas estratégicas de infraestrutura digital e comunicação.

“Vamos abrir o mercado para outras economias. Mas nós precisamos ter os nossos. E o papel da ciência de tecnologia é fazer os nossos. Nós temos um satélite nosso de telecomunicações que é militar e civil. Mas existe um plano da gente fazer o nosso satélite de comunicação, assim como existe o plano de a gente fazer o nosso GPS. Não podemos depender exclusivamente do GPS norte-americano. Nós temos que fazer o nosso. E nós estamos em curso com esses projetos estratégicos que dão autonomia. Nós estamos confiantes que nós vamos dar o salto que o Brasil merece. Nós teremos esses supercomputadores e vamos ter, portanto, a capacidade brasileira de armazenar e processar dados”.

Lula defende governança global da IA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/lula-na-india-posicao-avancada.html 

Arte é vida

 

Alfredo Volpi

A repórter que desnudou o ChatGPT https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/resistencia-social-e-codigo-aberto.html 

Parceria resistente

Irã fecha Estreito de Ormuz, mas não interrompe comércio com a China

Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65     

A China é o parceiro número 1 do Irã quanto ao comércio bilateral. Agora, diante da agressão dos EUA-Israel, o governo persa interrompeu o fluxo no Estreito de Ormuz, mas segue com a exportação de petróleo para a China.

Alguns dados contribuem para aquilatarmos a importância dessas relações bilaterais.

A China compra 91% de todo o petróleo exportado pelo Irã, orçando em torno de US$ 32,5 bilhões.

Mais: em outubro-novembro de 2025, as exportações não petrolíferas giraram em torno de US$ 1,03 bilhão por mês. Anualmente, esse item representa de US$ 14,8 bilhões.

Nos principais itens exportados pelo Irã para a China figuram itens como o petróleo bruto, gás natural e condensados, que têm peso na matriz energética chinesa.

Além desses, polietileno, metanol, polímeros de etileno e outros plásticos em forma primária. Dentre minérios e metais, ferro, cobre e alumínio.

Acrescentam-se dentre os produtos agrícolas, frutos secos e nozes, com destaque para o pistache (em concorrência direta com os EUA).

Por sua parte, a China exporta para o Irã bens de alto valor agregado: maquinário industrial e equipamentos elétricos, peças automotivas e veículos (CKD - prontos para montar), e eletrônicos (telefones e semicondutores) e painéis solares (células fotovoltaicas).

​Esses dados, fruto de um “garimpo” rápido de informações disponíveis na mídia, traduzem a importância da parceria entre os dois países.

A Guerra EUA x Irã e Clausewitz https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_5.html

Humor

Nando Motta

Oceanos, uma peça central da ordem capitalista globalizada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/oceanos-sanha-do-lucro.html 

 

Uma crônica de Abraham Sicsu

Triste sina do Partidão
Abraham B. Sicsu  

Partidão, era assim chamado o PCB. Teve muitos erros e acertos. Sem dúvida, todos da minha geração foram influenciados e tiveram algum contato com o velho partido.

Partido que teve sua história marcada por intelectuais como Jorge Amado, Oscar Niemeyer, Candido Portinari, Astrojildo Pereira, Ferreira Gullar e Graciliano Ramos, partido que influenciou o pensamento progressista nacional e enfrentou perseguições durante a ditadura, partido que começava a ser reconstruído.

Leio um texto. De Luiz Felipe Miguel, um velho camarada catarinense, professor da UNB, sobre a crise do que sobrou do esgarçado Partido. Muita tristeza. Deu-me vontade de escrever sobre a história que vivi.

Na minha juventude, não era filiado ao Partido. Mas, como estudante secundarista, tive bons amigos que fizeram um curso introdutório que era dado por ele. Lembro até hoje um texto que apresentavam, “os Princípios Fundamentais do Marxismo”, de Plekhanov. Fascinados pelo materialismo dialético era o princípio do engajamento dos jovens na “luta libertária”.

Na Universidade, não era filiado, mas me consideravam um “Simpa”. Alguém que ajudava dentro de suas limitações. O movimento estudantil da USP era fortemente influenciado e comandado por elementos do Partido.

Fui vice-presidente da Liga das Atléticas da USP. O presidente era do Partido.  Enquanto ele tratava de Política, minha função era organizar jogos, ver tabelas, resolver conflitos. Não reclamava e me sentia útil.

Em 1975 houve o grande baque no movimento estudantil. As principais lideranças desapareceram, ou presos por um bom tempo, ou desaparecidos ate hoje, ou escondidos meses a fio. Ficamos muito confusos e perplexos. O que fazer? A orientação, para aqueles, como eu, que podiam, era continuar as atividades, sem esmorecer. Assim foi feito e, pouco a pouco, se vê a volta das lideranças, evidentemente, com muito menos força.

Venho para Pernambuco e me torno professor universitário. O PCBão tinha pouco peso. Mas, dialogava com os demais partidos. O crescimento político maior já era do outro PC, o do B.

Cai o Muro de Berlim. O Comunismo como bandeira de luta fica amenizado, pelo menos para os que comandavam o Partido. Resolve-se aderir aos novos tempos. Discordo, mas não sendo filiado, apenas observo.

Refunda-se com o nome de Partido Popular Socialista- PPS. Já com um “dono”, alguém inteligente, mas autoritário e dominador, que definia os rumos e não admitia discussão.

Um grande amigo político precisa se filiar à nova sigla. Precisa levar um grupo de peso com ele. Na Universidade se articula com professores e colegas. Nunca tendo me filiado a nenhum partido, resolvo aderir. Com ele assino a ficha de filiação.

Foram poucos anos. Mas intensos. Sou nomeado coordenador da seção do Instituto Astrogildo Pereira em Pernambuco. Convivo com intelectuais do melhor quilate. Formamos lideranças que até hoje estão presentes. Poucos anos, muito trabalho.

Sou nomeado para a Comissão de Ética do Partido. Composta com mais duas lideranças da maior envergadura moral e intelectual. Orgulhoso assumo a missão. Não deu certo.

Meses depois surge um caso emblemático. Um acordo tinha sido registrado em cartório. Com outro partido, onde se assumia que numa eleição nossa candidata assumiria a frente e na seguinte apoiaríamos o do outro partido. Como fizemos um bom mandato, querem ignorar o acordo. Vai para a Comissão de Ética.

O presidente Nacional, aquele que chamei de dono do Partido, vem defender. Diz que Política é assim mesmo, acordos devem ser ignorados com a dinâmica dos acontecimentos.

Manifesto-me, dizendo discordar. Para mim, não era ético. A virulência do presidente, com um discurso inflamado, faz-me pensar. Resolvo sair do Partido. Termina assim minha participação de três anos.

Cada vez mais se vêem lideranças o abandonando. As propostas eram personalistas, as opiniões eram evitadas. A influência junto ao operariado, ao movimento sindical, às lides universitárias, eram quase nenhuma. Começa a fazer alianças confusas e perder o papel emblemático que desempenhou junto à sociedade brasileira. Avançando no tempo, vira um tal de Cidadania.

Muitos dos velhos perderam o rumo. Poucos ficaram por não conseguirem mais direcionar suas vidas. Mas, eram peso morto, pessoas que seguiam a rotina na espera do fim político.

Faz pouco tempo, acredito que não mais de dois ou três anos. Lideranças nacionais e velhos companheiros resolvem se unir para mudar o caminho que foi dado. Tentam a reconstrução, inclusive atraindo jovens lideranças.

 O ideário de esquerda, pouco a pouco, volta a dar o norte, a busca de conexão com a sociedade brasileira, com as classes menos favorecidas, procura ser retomado.

O velho “CZAR” não admite, perde as eleições internas, mas procura subterfúgios para retomar. Faz um Congresso paralelo. Com participação ínfima de membros do partido. Nomeia uma nova direção e, inclusive, destitui as lideranças estaduais. Tenta fazer uma Federação com a extrema direita bolsonarista, o Partido Republicanos. Ignora uma história construída em muitas lutas.

Triste sina, sim, haverá revolta. Está sendo judicializado. Mas, manchar uma história de tantas batalhas, tão importante para a formação da sociedade brasileira é vergonhoso. Um desastre que não pode ser ignorado. Tenho esperança que essa aventura possa ser revertida.

Leia também: Feliz Ano Novo em Santana do Ipanema https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/12/minha-opiniao_31.html