17 agosto 2026

Lula em São Bernardo

Lula dá largada à campanha de 2026 com soberania no centro da disputa
Em São Bernardo, presidente abre sua sétima campanha presidencial com ato marcado por memória sindical, defesa da democracia e mobilização popular.
Barbara Luz/Vermelho  
 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu oficialmente, neste domingo (16), sua sétima campanha à Presidência da República com um ato no Estádio Primeiro de Maio, a histórica Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP). O lançamento reuniu militância do PT e das legendas da coligação “O Brasil Pronto Pra Mais” — PDT, PSB, PCdoB, PV e Psol e Rede —, além de centrais sindicais, movimentos sociais, caravanas de diferentes estados e apoiadores da chapa Lula-Alckmin.

A escolha do local buscou conectar a disputa de 2026 à trajetória política e sindical de Lula. Foi na Vila Euclides que milhares de metalúrgicos realizaram as grandes assembleias das greves do ABC no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, mobilizações que desafiaram a ditadura militar e contribuíram para a reorganização do movimento sindical e para o surgimento do PT. Em 1979, uma das primeiras grandes assembleias reuniu mais de 60 mil trabalhadores.

Antes do discurso do presidente, trabalhadores que participaram daquele período subiram ao palco e relembraram a organização nas fábricas e a luta pela democracia. Ao final do encontro, Lula e antigos companheiros de movimento sindical deram as mãos e as ergueram diante da militância que ocupava as arquibancadas e o gramado.

O passado também apareceu em um vídeo exibido durante o ato, no qual imagens das greves de 1979 foram combinadas com uma espécie de diálogo entre o Lula daquele período e o atual presidente. “Aguenta companheiro, que a democracia vai vencer”, diz Lula. Em seguida, a mensagem aponta para a nova etapa da disputa: “Aqui, em 2026, a gente reconstruiu o Brasil e quer mais”.

Soberania e segurança pública no centro do discurso

A defesa da soberania nacional atravessou os discursos do ato. O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), candidato novamente na chapa de Lula, associou a mobilização histórica dos trabalhadores à defesa da democracia. “Aqui quem faz o gol é a democracia. Os trabalhadores nos ensinaram como se faz a democracia”, afirmou. Alckmin também defendeu a indústria nacional, o Pix e a soberania brasileira.

Lula também tratou da segurança pública, reafirmando o compromisso de criar o Ministério da Segurança Pública caso a PEC da Segurança seja aprovada no Congresso. O presidente criticou o afrouxamento das regras para compra de armas promovido pelo governo anterior e disse que parte do arsenal vendido naquela gestão acabou abastecendo o crime organizado.

Em tom emotivo, o presidente relembrou a trajetória da mãe, Dona Lindu, e a greve de 1979, e voltou a fazer acenos ao eleitorado feminino, tema recorrente nas falas de aliadas como a primeira-dama Janja da Silva, que discursou e cantou ao lado do cantor Kleber Lucas, e as candidatas ao Senado Simone Tebet (PSB-SP), Marina Silva (Rede-SP) e Gleisi Hoffmann (PT-PR). Ao falar às mulheres, fez um chamado contra a violência e a submissão: “Mulheres desse país, não abaixem a cabeça nunca, porque nós homens precisamos aprender a responder vocês”.

Tebet e Gleisi dirigiram críticas à campanha de Flávio Bolsonaro (PL), principal adversário de Lula segundo pesquisas recentes, em especial ao uso de bandeiras dos EUA em atos do candidato do PL. “Enquanto eles falam de pátria, quem defende as cores da bandeira somos nós”, disse Tebet.

PCdoB convoca militância às ruas e às redes

Integrante da coligação que apoia a reeleição de Lula, o PCdoB participou do lançamento com dirigentes e militantes. A presidenta nacional do partido, Nádia Campeão, afirmou que a abertura oficial da campanha inaugura uma nova etapa de mobilização e convocou a militância a disputar votos para Lula e para as candidaturas comunistas. “Hoje começa a campanha, agora é pra valer, dá pra usar nome, número, agora é pedir voto. Pedir voto pro Lula, pros nossos candidatos a governador, governadora, senadores, mas principalmente, vamos pedir voto pros nossos candidatos e candidatas do PCdoB”, afirmou.

A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Luciana Santos (PCdoB), destacou a necessidade de levar a campanha às ruas e às redes, com um debate capaz de mobilizar a sociedade em torno de um projeto de país. “Agora nós precisamos garantir nas ruas e nas redes o bom debate, elevado, politizado, que empolgue as pessoas, que inspire as pessoas para agarrar sonhos, para acreditar nesse país”, declarou. Luciana vinculou a disputa eleitoral à defesa do interesse nacional: “Nós somos os verdadeiros brasileiros. Somos nós que defendemos o interesse nacional. Viva a soberania, viva Luiz Inácio Lula da Silva”.

Com a largada em São Bernardo, a campanha Lula-Alckmin entra oficialmente nas ruas buscando transformar a memória das lutas do ABC em mobilização para a disputa de outubro — agora sob o lema de que o Brasil está “pronto pra mais”.

A soberania em destaque https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_01847079127.html 

Minha opinião

Anel pra quê?
Luciano Siqueira 

A novidade agora é um tal anel inteligente que você põe no dedo e ele monitora indicadores fisiológicos, como o sono, a frequência cardíaca e a temperatura corporal. Permanentemente.

Se for um modelo mais sofisticado, mais caro, com ele é possível fazer pagamentos por aproximação, receber notificações através de vibrações e coisas mais. 

Sinceramente, nada contra artefatos tecnológicos produtos do incessante desenvolvimento da ciência. 

Neste caso, trata-se de algo para mim inalcançável: custa em média R$ 6000 e os mais sofisticados em torno de 8.000.

“E se você ganhasse na mega-sena, com dinheiro sobrando no banco, comprar um anel desses seria fichinha” — comenta meu amigo Epaminondas, ele impressionadíssimo com a geringonça. 

Digo que não. De jeito nenhum! 

Basta o telefone celular, esse computador minúsculo que carregamos no bolso. Nem sei o que falta fazer através dele, bastando 3 ou 4 toques num aplicativo qualquer. 

Dito isso, chama a atenção um detalhe: o tal anel não tem tela e os dados que emite temos que ler na tela de um celular via aplicativo específico. 

Como costuma dizer o querido Marquinhos, de Aracaju, "estou fora!"

A soberania em destaque https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_01847079127.html 

Arte é vida

 

Candido Portinari

Três "questões de ordem" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0658357328.html 

Thiago Modenesi opina

Milei, a extrema direita e a erosão da democracia nas Américas
A tecnologia política da extrema direita não admite mediação; é um mecanismo que exige o esvaziamento da própria democracia
Tiago Modenesi/Vermelho    

A participação de Javier Milei na convenção nacional do Partido Liberal (PL) em São Paulo, no dia 25 de julho, não foi um mero gesto de solidariedade ideológica entre pares. Foi a materialização de um projeto continental da extrema direita: o desmonte sistemático das relações institucionais entre os países das Américas como estratégia para enfraquecer a democracia, substituindo o diálogo diplomático pela provocação, o respeito mútuo pelo insulto e a cooperação regional pela interferência eleitoral descarada.

Milei subiu ao palco do Pacaembu ao som de rock e, durante quase 30 minutos, ofereceu um show de degradação do debate político. Chamou o presidente Lula de “ladrão”, “presidiário”, “lixo socialista” e “totalitário”. Referiu-se ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, como “lixo careca”. Acusou Lula de tentar fraudar as eleições argentinas de 2023 e de conduzir o Brasil a uma crise de dívidas.

Não se tratam de críticas políticas. Trata-se de um método: a aniquilação do outro como sujeito político legítimo. A extrema direita de Milei não reconhece adversários, reconhece todos como inimigos a serem destruídos. É uma tecnologia política que não admite mediação, um mecanismo que exige o esvaziamento da própria democracia.

A reação do Itamaraty foi imediata: convocou o embaixador argentino e chamou de volta o embaixador brasileiro em Buenos Aires para consultas. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, classificou Milei como palhaço. O presidente Lula, com a ironia que lhe é característica, respondeu ao ser perguntado sobre os ataques: “Quem é esse cara?”. Mas, a crise não é apenas diplomática. É estrutural.

Milei não age sozinho. Ele é a ponta de lança de uma ofensiva coordenada da extrema direita que já governa sete dos 12 países da América do Sul. Da Colômbia de Abelardo de la Espriella ao Chile de José Antonio Kast; da Bolívia de Rodrigo Paz ao Peru de Keiko Fujimori, o que se vê é a ascensão de um bloco político que não apenas compartilha uma agenda econômica ultraliberal, mas também uma mesma concepção autoritária do poder.

Essa direita não é liberal no sentido clássico. É uma direita que ataca direitos das minorias, que tem uma relação mais precária com a democracia, que professa um alinhamento automático com os Estados Unidos e que vê nas instituições (tribunais, parlamentos, organismos multilaterais) não garantias da democracia, mas obstáculos a serem removidos.

O próprio Milei já anunciou o desmonte total do Estado argentino com 90 reformas estruturais. Seu governo é uma experiência política radicalizada de reconfiguração do Estado e da economia, na qual a suposta emergência econômica é instrumentalizada para justificar um estado de exceção permanente que favorece a reconfiguração do Estado em prol do capital financeiro.

Aqui está o núcleo da questão: a diminuição da institucionalidade é a diminuição da democracia. As relações institucionais entre países, o respeito à soberania alheia, a não interferência em assuntos internos, o diálogo diplomático como norma, não são formalidades vazias. São os andaimes da convivência democrática entre nações.

Quando um chefe de Estado viaja a outro país para interferir abertamente em seu processo eleitoral, chamando o presidente em exercício de “ladrão” e “presidiário”, o que está em jogo não é apenas o protocolo. É o princípio da autodeterminação dos povos.

Mas a interferência de Milei não é um desvio. É a regra da nova extrema direita continental. Ela se insere em um movimento mais amplo que busca se posicionar como um contrapeso à chamada ordem liberal internacional e aos valores progressistas que sustentaram o sistema internacional do pós-guerra.

Desmontar as instituições internacionais, desde a diplomacia bilateral até os fóruns multilaterais, é desmontar a democracia, porque é desmontar os mecanismos pelos quais os povos e seus representantes dialogam, negociam, resolvem conflitos e constroem futuros comuns.

Milei encerrou seu discurso com um grito: “Viva la liberdade, carajo!”. É a mais cruel das ironias. Porque o que sua postura e a de seus aliados continentais promovem não é liberdade, mas a liberdade do mais forte, a liberdade do capital financeiro de subjugar Estados, a liberdade do discurso de ódio de destruir a política, a liberdade do autoritarismo de solapar a democracia em nome de uma suposta emergência permanente.

A extrema direita que avança nas Américas não quer menos Estado. Quer um Estado diferente: um Estado que não proteja, que não regule, que não redistribua, que não dialogue. Um Estado que se curve ao mercado e à geopolítica dos EUA, que desmonte direitos e que transforme a política em espetáculo.

O episódio da convenção do PL não é apenas mais um escândalo diplomático. É um sintoma e um presságio. Sintoma de que a extrema direita continental descobriu que pode avançar não apenas pelas urnas, mas pelo desmonte das regras do jogo, dentro e entre os países. Presságio de que, se esse projeto não for enfrentado, a democracia nas Américas será cada vez mais um invólucro vazio, uma formalidade sem substância.

A resposta a Milei não pode ser apenas o “quem é esse cara?” de Lula, por mais precisa que tenha sido a ironia. A resposta deve ser o fortalecimento das instituições democráticas, nacionais e internacionais. A defesa da diplomacia como prática civilizatória. A rejeição de qualquer tentativa de transformar a política em guerra e o adversário em inimigo.

Porque, no fim das contas, a democracia não é um estado de natureza. É uma construção institucional, frágil, contingente, sempre ameaçada. E quando as instituições caem, o que sobra não é liberdade. É o deserto.

Leia também: Trump com poucas cartas na mão https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/fragilidades-de-trump-contra-ira.html

Postei nas redes

Trump ameaça bombardear Omã em caso de acordo do país com o Irã para controlar navegação em Ormuz. Não é um estadista; é um neofascista ensandecido. 

Trump e a diplomacia anárquica https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_01291229765.html 

Traço totalitário do capitalismo

Capitalismo digital e uberização social
Mais que um fenômeno laboral, a uberização social constitui a faceta totalitária do capitalismo contemporâneo, na qual Big Techs e algoritmos controlam, punem e extraem valor, ao passo que a educação crítica se impõe como antídoto necessário
VINICIO CARRILHO MARTINEZ, ESTER DIAS DA SILVA BATISTA & IZABELA VICTÓRIA PEREIRA*/A Terra é Redonda 
 

Há dois conceitos, que são fatos e fenômenos hegemônicos na atualidade: o capitalismo digital e a uberização social. Qualquer decisão institucional ou ação política tem que passar por essa análise. Depois, enquanto esforço docente, por exemplo, nossa obrigação, além de entender melhor a nossa realidade, é pensar na proposição de uma Educação crítica a esses processos, especialmente a uberização social – uma vez que está presente na vida de todos nós, sem que tenhamos consciência disso. A uberização social, assim como o “servilismo voluntário”, é fato notório para quem pede uma pizza em casa – ou quando acessa alguma rede social.

Esses “dados” estão interligados. Uma observação essencial diz respeito à perda total de autonomia e liberdade, por quem trabalha sob alguma plataforma de uberização. Confunde-se, pelo sentido pejorativo da ideologia, uberização e empreendedorismo, e isso é um erro absurdo, uma falha total na epistemologia diante desses processos, uma vez que a pessoa uberizada perde totalmente a autonomia frente à plataforma que também atua como meio de controle social e punição.

Por uberização nas relações de trabalho, basicamente, entende-se a máxima exploração das classes trabalhadoras (agora, em parte, uberizadas) e da total insegurança jurídica: as plataformas contratantes da mão de obra uberizada não tem nenhum vínculo trabalhista, não se comprometem com nenhum direito assegurado, inclusive, constitucionalmente. Não é difícil encontrar instituições, institutos, universidades que compram um “curso” de docentes – pagando somente as horas gravadas – e o revendem infinitamente.

Essa forma de uberização, ligada ao formato EAD – educação à distância, bem distante da dignidade humana – é uma das formas mais graves de expropriação do esforço docente: é sinônimo de vassalagem no Mundo do Trabalho.

É interessante lermos o artigo 7º da Constituição de 1988, na esteira dos direitos sociais fundamentais, e assim compararmos com a realidade laboral, existencial, de qualquer motorista uberizado/a ou entregador/a como mototáxi (ou docente de EAD). Do ponto de vista jurídico e de quem é explorado/a (controlado/a em todos os passos), nossa observação verifica um quadro que poderíamos chamar de “escravidão moderna”. Aliás, não será coincidência a implicância regular, diária, da “exploração do trabalho em condições análogas à escravidão” – como nos diz a mesma Lei Constitucional.

As plataformas digitais contribuem magistralmente com esse cenário porque foram elas que redigiram ou implementaram os algoritmos que tanto servem ao controle social – no caso específico de quem está sob júdice da uberização –, quanto lucram absurdamente com a total desregulamentação como temos hoje.

A margem de lucro (ou extração de mais-valia) das plataformas pode facilmente vencer a barreira de 60% (sessenta por cento) dos valores pagos em cada corrida ou entrega. Num exemplo simples, uma corrida de Uber que nos custe 10 reais destina seis reais (ou mais) para a plataforma. No caso de cancelamento de uma corrida acionada, o/a motorista de Uber – mas, somente se o/a passageiro/a assim o desejar – recebe pouco mais de três reais.

Isso a depender da gentileza ou consciência de quem tomou aquela prestação de serviço uberizado, e se for mototáxi a taxa de “compensação” pelo cancelamento talvez nem chegue a um real. Essa lógica imposta pelas plataformas, todas elas, só vigora porque está listada nas prioridades hegemonizadas do “novo BBB”: Big Techs, Big Datas/Data Centers e Bets.

A maior pesquisa empírica se verifica – e ainda permanecerá por muito tempo, para quem não dirige – nas viagens de Uber, nas conversas insistentes que se tenha com essas pessoas escravizadas pela modernidade (ou pós-modernidade fragmentada). Sempre quando se pergunta sobre as condições de trabalho, destacando-se o quanto as plataformas se apropriam do trabalho delas, e sem nenhuma contrapartida, as respostas são constrangedoras.

Neste sentido, um dos apêndices de um livro recém-publicado traz precisamente algumas narrações de viagens pessoais e conversas: Histórias de Uber,[i] na forma de crônica articulada a um evento real. Pode-se dizer que há uma pequena etnografia nessa conversação com os/as motoristas de Uber. Algumas dessas histórias narradas no livro são verdadeiras “lições de vida”.

Foi com esse espírito que, no primeiro livro de 2026, esse pequeno livro foi abordado em sala de aula, especialmente esses dois aspectos da realidade, esses dois enormes problemas sociais e econômicos que se comunicam em perfeição: o capitalismo digital e a uberização social. Esse livro foi, literalmente, construído em sala de aula. Com a proposição do tema, de algumas intercorrências que vínhamos pensando desde 2025, e com a participação dos alunos e alunas, promovendo-se provocações na forma de pensar, pudemos encontrar pontos que ainda estavam obscuros.

Nas aulas de licenciatura, por necessidade de explorar algumas diferenças entre o capitalismo clássico do pós revoluções industriais, do advento da chamada maquinaria e até mesmo com referência à automação e ao toyotismo – as células de produção, ao invés da linha de produção: o notável fordismo dos Tempos Modernos, de Charles Chaplin – e os nossos “novos” tempos modernos, sempre esteve no repertório conceitual a incidência do capitalismo de dados: a monetização a partir das redes sociais, a compra e venda de dados pessoais digitalizados.

Porém, em seguida, nos deparamos com a insuficiência dessa base analítica. A massa crítica já sinalizava que o passado sempre acompanha o presente, no Brasil, e isso fomentou o ingresso do Pensamento escravista no escopo do capitalismo brasileiro – e que sempre combinou capitalismo com escravismo.

Além disso, a atuação do “novo” BBB já bateu em nossa porta. Em conjunto com o setor financeiro (Bancos e fintechs), em parceria com o antigo BBB (bancadas da bíblia, do boi e da bala), a hegemonia do capital mudou de cara, hoje está assentada nas Big Techs, nas Big Datas/Data Centers e nas Bets (“o novo BBB”).

Da forma como pensamos e tentamos descrever, o livro não se dirige a um público específico, pois pode ser lido – como dizia João Ubaldo Ribeiro – por estudantes, docentes, mas também pelo motorista uberizado, pela diarista. Essa diarista que, na imensa maioria das vezes, é outra notável encarnação, reaparição do passado brasileiro e que sempre atua como fantasma do presente: a mulher negra, pobre, uberizada (oprimida), que, “com sorte”, encontrará algum abrigo no famoso “quartinho de empregada” – numa verdadeira provisão (prescrição, diria Paulo Freire) advinda diretamente da Casa Grande e tão ao gosto da nossa classe média ou do “novo rico”.

A contribuição do livro para a ciência, além de todo o exposto, está na necessidade de aproximarmos os dois conceitos básicos, se queremos uma leitura científica, não sectária ou reacionária, acerca do atual “estado de coisas”. Muitos outros aspectos poderiam, deveriam ser somados a esse conceito (refundado) de capitalismo digital. Porém, sem que esses mencionados componentes façam parte do corpus teórico, aí sim, não há como falarmos em termos de ciência social dirigida ao século XXI.

Comparativamente, não há como tratar o mundo do trabalho, na China, sem destacar em primeiro plano a fadiga imposta pela conhecida jornada 9-9-6 (trabalho das nove da manhã às nove da noite, seis dias por semana). Ironicamente, ao menos partes desse inventário é copiado pelo “anarcocapitalismo” de Javier Milei, na Argentina. E o segundo conceito, que é a uberização social.

Neste caso, no entanto, abre-se parênteses, pois a adjetivação de “social” tem o intuito de transcender a exploração brutalizada do mundo do trabalho (neoliberalismo extremado), se observarmos que o “servilismo voluntário” atinge a todos que vivem sob as bolhas digitais. Essa é a ciência social que se propôs a esboçar nesse pequeno livro. E que custa um dólar apenas, menos do que um café expresso. 

Da fábrica ao algoritmo

Atualmente, a tecnologia encontra-se literalmente na palma das mãos, integrando-se quase de forma simbiótica.[ii] Se, no século XX, a mecanização estava no chamado chão de fábrica, hoje ela assume novas configurações mediadas por algoritmos e sistemas automatizados, que extrapolam o ambiente produtivo. No uso de cada aplicativo gratuito, “o produto é você”.

Os algoritmos passam a influenciar decisões relacionadas ao consumo e até mesmo às oportunidades de trabalho. Em muitos processos seletivos, por exemplo, a presença e o comportamento dos candidatos nas redes sociais tornaram-se elementos relevantes na avaliação profissional, evidenciando-se como a lógica algorítmica interfere em diferentes dimensões do cotidiano.

Como mencionado, uma obra clássica que demonstra esse movimento histórico é o filme Tempos Modernos (1936),[iii] de Charles Chaplin, cuja narrativa denuncia os efeitos da mecanização industrial, ao evidenciar como a organização mecanizada do trabalho o transforma em uma extensão da máquina, submetendo-o à repetição constante de movimentos e ao controle do ritmo produtivo.

Curiosamente, outra obra de mesmo nome percebe essa relação de uma forma diferente. Enquanto Charles Chaplin evidencia os efeitos da mecanização sobre a condição humana, a canção Tempos modernos (1982),[iv] de Lulu Santos, expressa o otimismo e a expectativa a fim de que o avanço científico e tecnológico conduziria ao progresso social, à liberdade e à melhoria das condições de vida.

Essa dualidade entre o avanço científico e seus impactos sociais permite compreender como isso não ocorre, necessariamente, de forma linear. Uma ideia de que o avanço científico conduziria ao desenvolvimento tecnológico, este produziria crescimento econômico e, consequentemente, maior bem-estar social (PALACIOS et al., 2001),[v] mostra-se insuficiente quando confrontada com a realidade, especialmente ao se comparar as expectativas construídas em torno do progresso tecnológico com o atual contexto.[vi]

Os meios digitais, por mais inovadores que sejam, se tornaram uma forma de exploração ampliada. Se, no âmbito laboral, a exploração se manifesta pela intensificação da produtividade e pela flexibilização das relações de emprego, no ambiente digital ela alcança o tempo, os dados e as formas de interação social. A exploração deixa de restringir-se à extração da mais-valia e passa a incorporar aspectos da própria experiência humana, transformando elementos da vida privada em recursos economicamente exploráveis.

É nesse contexto cada vez mais predatório que se torna essencial uma educação capaz não apenas de apresentar aos indivíduos o contexto tecnológico, algo que, diga-se de passagem, pouco se faz necessário para uma geração que já nasce imersa nas tecnologias, mas que, sobretudo, seja capaz de problematizar o fato de que as tecnologias não são neutras, nem, por si só, emancipadoras.

Para além da formação de sujeitos aptos a utilizar os meios digitais, faz-se necessária uma educação crítica que possibilite compreender e questionar as formas contemporâneas de exploração, controle e desigualdade que permeiam o desenvolvimento tecnológico. Edgar Morin, célebre filósofo da ciência e da tecnologia, falecido recentemente, merece destaque quanto ao escopo dessa análise.[vii] 

A ilusão do empreendedorismo

Desta forma, a uberização do trabalho nasce durante o século XXI, configurando as relações de trabalho. De forma mais flexível, o indivíduo trabalha conforme a demanda. Entretanto, o sistema vende a ideia de que o trabalhador terá sua emancipação, em que pese se torna uma moeda na relação de trabalho deteriorada. Dialogam com a lógica de estar empreendendo, no entanto, camufla-se a precarização do trabalho.

Desse modo, o indivíduo imerso neste cenário não é amparado pela legislação trabalhista (CLT), por não fazer parte do regime formal de trabalho. Sob a uberização, presta-se serviço às empresas sem atribuir-se valor à mão de obra, que por sua vez é barata: a classe trabalhadora arca com o ônus do trabalho e a transferência de riscos.

Um exemplo recente dessa realidade ocorreu durante a pandemia da Covid-19, quando milhares de motoristas de aplicativos continuaram exercendo suas atividades para assegurar sua renda, apesar da elevada exposição ao vírus e da ausência de garantias trabalhistas que lhes permitissem interromper o trabalho com segurança.

Na obra Filosofia, um modo de vida (2025),[viii] Marilena Chauí apresenta-nos como os valores éticos eram enxergados no pré-capitalismo, o que antes era considerado virtuoso – o indivíduo de coragem e glória –, e, inversamente, na sociedade capitalista é a produção: trabalho e expropriação. A classe trabalhadora é integrada à perspectiva de que o trabalho o engrandece, e com o avanço do capitalismo digital semeia-se a ilusão do empreendedorismo. O que não se revela é a ausência total das garantias políticas, a contínua e acelerada venda da força de trabalho e a dependência economicamente, crônica, da plataforma extratora de mais-valia.

É possível visualizar esse controle social e o rompimento da consciência crítica dos indivíduos diante dos fatos, especialmente quando observamos o enfraquecimento da educação básica pública, subsumida numa condição em que a carga horária de disciplinas da área de ciências humanas foi reduzida, enfraquecendo-se a formação do pensamento crítico, e, de modo contrário, ao passo em que matérias inconsistentes (por exemplo, educação financeira para jovens pobres) e cursos técnicos são implementados e priorizados. A escola passa a priorizar a formação de mão de obra adaptada às exigências do mercado, em vez de promover a reflexão crítica e a capacidade dos indivíduos de compreender e questionar as estruturas sociais que os cercam.

*Vinício Carrilho Martinez é professor do Departamento de Educação da UFSCar. Autor, entre outros livros, de Bolsonarismo. Alguns aspectos político-jurídicos e psicossociais (APGIQ). [https://amzn.to/4aBmwH6]

*Ester Dias da Silva Batista é licenciada em biologia na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

*Izabela Victória Pereira é graduanda em filosofia na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Notas


[i] MARTINEZ, Vinício Carrilho. Educação crítica à uberização: A era do capitalismo digital e uberização social. São Carlos: KDP (https://a.co/d/0cV60SjP), 2026.

[ii] Utiliza-se o termo simbiose para caracterizar a relação de interdependência entre os indivíduos e as tecnologias digitais, na qual as plataformas integram o cotidiano e influenciam comportamentos, ao mesmo tempo em que dependem da atividade constante dos usuários para seu funcionamento.

[iii] CHAPLIN, Charles (direção). Tempos modernos. Estados Unidos: United Artists, 1936. 1 filme (87 min.), sonoro, preto e branco.

[iv] SANTOS, Lulu. Tempos modernos. In: SANTOS, Lulu. Tempos modernos. Rio de Janeiro: WEA, 1982. Disponível em: https://youtu.be/me2Xv_Np9xA?si=m3zq0l9Flxrm-TeD.

[v] PALACIOS, Eduardo Marino García., et al. (orgs.). Ciencia, tecnología y sociedad: una aproximación conceptual. Madrid: Organización de Estados Iberoamericanos para la Educación, la Ciencia y la Cultura (OEI), 2001.

[vi] Outro vínculo havido entre ciência, tecnologia e condição social, na esteira do pensamento de Edgar Morin, está na linha de que é mais complexo explicar a dinâmica da luta de classes, hoje, do que a complexidade do universo observável. Se não houver reducionismo às formulas tradicionais, dos séculos XIX e XX, a missão não é simples, tanto quanto é custoso interpretarmos as principais atribulações entre Ciência e tecnologia na atualidade: MARTINEZ, Vinício Carrilho. Ideias para uma Educação do século XXI: Edgar Morin.

[vii] MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1996.

[viii] CHAUÍ, Marilena. Filosofia, um modo de vida. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025.

Marcio Pochmann: "O Estado do século XXI" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/soberania-fragiliada.html