23 janeiro 2026

Palavra de poeta

Anáforas
Alberto da Cunha Melo  

A palavra sabe doer
quando esfria o sangue no rosto,
assim de surpresa, navio
atropelando o próprio porto;

sabe degolar a sereia:
chamar de gorda a moça feia;

sabe emudecer os aplausos
que aconteceram anteontem,
depois de décadas de atraso;

sabe matar pelo distrito,
sem deixar marcas do delito.

[Ilustração: Viola Babol]

Importa saber: Êxitos concretos da Lei Rouanet https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/frutos-da-lei-rouanet.html 

Estética imperialista

A política do espetáculo
Estética ganha dimensão de poder e controle cultural para legitimar narrativa de Trump e seus asseclas
Adriana Ferreira da Silva/Liberta   

Preso à poltrona de um avião, Nicolás Maduro aparece algemado, vendado, com os ouvidos cobertos por um fone. Suas mãos apertam uma garrafa d’água de plástico, reforçando a ideia de fragilidade. Numa sala que simula um bunker, Donald Trump fixa a tela à sua frente com os olhos semicerrados. O semblante tenso dos homens que o cercam reforça o clima de suspense.

Em cortes feitos para viralizar, as cenas mostrando a humilhação do primeiro e a vitória do segundo reafirmam um modelo de gestão baseado no espetáculo da força bruta. No show de Trump, ele encarna o xerife, numa encenação de valentia em detrimento do trabalho burocrático e deliberativo de leis e instituições como o Congresso e as organizações multilaterais.

Aqui, a estética ganha uma dimensão central de poder e controle cultural, com o objetivo de legitimar a narrativa do presidente e de seus asseclas. “Trump é um líder do passado. Sua promessa política singular é: ‘Vou levá-los de volta a um passado imaginário – antes de tudo isso acontecer, antes de todas as coisas ruins do passado acontecerem, antes de vocês se sentirem desconfortáveis, antes de sentirem medo do que poderia acontecer com vocês, antes de sentirem medo de serem alienados de seus filhos. Vai ser acolhedor e confortável, exatamente como você imagina que o passado tenha sido’”, diz Masha Gessen, jornalista e ativista em causas LGBTQIAP+, de origem russa.

Entre os livros que Gessen publicou, estão O Homem Sem Rosto: A Improvável Ascensão de Vladimir Putin (Ed. Intrínseca), Surviving Autocracy (Sobrevivendo à Autocracia) e The Future Is History: How Totalitarianism Reclaimed Russia (O Futuro É História: Como o Totalitarismo Recuperou a Rússia, em tradução livre), com o qual venceu o National Book Award, em 2017, principal prêmio literário dos Estados Unidos.

(Por se identificar como uma pessoa trans, não binária, ao longo do texto, Gessen receberá tratamento neutro.)

Propaganda do ato

Numa entrevista ao podcast Ezra Klein Show, Gessen concentra-se na dimensão do espetáculo e do que chama de “propaganda do ato”, na qual o Estado opera por meio de choques visuais para redefinir a realidade.

Realidade que, nos Estados Unidos, é moldada pela ascensão ao poder do que Naomi Klein batiza de mundo-espelho no livro Doppelgänger – Uma Viagem Através do Mundo-Espelho (Ed. Carambaia). Segundo a jornalista canadense, nessa versão invertida da vida em sociedade, fato e ficção se misturam numa existência alternativa, em que as coisas mais absurdas passam a fazer sentido e onde a verdade é distorcida e manipulada.

No mundo-espelho, Maduro infestou os Estados Unidos de pessoas saídas de instituições de saúde mental e delinquentes, a poeta Renee Nicole Good foi assassinada por tentar atropelar um agente do ICE (forças policiais que perseguem imigrantes) e os integrantes do Partido Democrata são responsáveis por uma rede de pedofilia. Deu para entender, né?

Tendo as redes sociais como plataforma perfeita de disseminação, o mundo-espelho desenhado por Donald Trump e pelo movimento MAGA (Make America Great Again) inclui essa nova modalidade de governança na qual Trump tudo pode para que os estadunidenses retornem a “gilded age”, como é chamado o período de crescimento econômico e industrialização no final do século 19 e início do 20, pouco importando as profundas desigualdades de gênero, raça e classe dessa mesma época.

De acordo com Gessen, a promessa de riqueza da “era de ouro” é acompanhada de uma “barganha totalitária” similar à usada por Vladimir Putin na Rússia. Quando o líder já não pode garantir o bem-estar econômico individual, ele oferece em troca a glória imperial: você pode ser pobre, mas fará parte de uma nação que toma a Groenlândia ou subjuga a Venezuela. É a troca do conforto pela grandeza bélica.

Para corroborar essa volta aos tempos áureos, a estética trumpista inclui desde a reforma neoclássica, que encheu de dourado o salão oval da Casa Branca, à desqualificação de qualquer pessoa que não se enquadre no padrão de “raça pura” europeia, incluindo estadunidenses de ascendência africana, asiática ou latina. Nas recentes incursões da polícia migratória em Minneapolis, há relatos de perseguição a cidadãos dos Estados Unidos devido à cor da pele e outras características físicas.

“Esteticamente, uma representação desse passado é a arquitetura clássica. É uma história americana inteiramente branca. São os grandes monumentos e tudo o mais que ele [Trump] prometeu trazer de volta”, diz Gessen. A outra perspectiva, explica, é a afirmação de uma raça superior. “Essa é a outra dimensão do fascismo. E, esteticamente, ela está muito presente. Raça pode ser definida de maneiras diferentes, mas o que vemos são homens cisgêneros brancos em excelente forma física. Esse é o ideal deste governo.”

Vírus da fraqueza

A obsessão com o vigor físico não é apenas vaidade. Para Gessen, a ideologia do governo vê a empatia, os direitos humanos e a deliberação democrática como um “vírus de fraqueza”, que teria infectado a sociedade, impedindo a “vitalidade natural” de conquista e dominação masculina, que, na visão deles, fez a “América grande” originalmente.

É claro que, como em todo Estado autoritário, essas pessoas estão longe de tal modelo. Uma demonstração é o ensaio publicado na edição de dezembro da revista Variety com personagens da alta cúpula do governo Trump, como o vice-presidente JD Vance, o secretário de Estado Marco Rubio, o conselheiro Stephen Miller e a secretária de imprensa Karoline Leavitt.

Deslocados, mal posicionados ou retratados em closes que evidenciaram poros, imperfeições e procedimentos estéticos – o preenchimento labial de Karoline recebeu comentários cruéis –, as fotos expunham o ridículo daquelas figuras. Rodaram o mundo como exemplo de desconstrução de imagens de controle que esses personagens tentam estabelecer, graças ao talento do fotógrafo Christopher Anderson.

Junto à espetacularização das demonstrações de autoridade externas e internas (como a federalização da Guarda Nacional em estados governados por democratas, como a Califórnia), Gessen destaca a “propaganda do ato”. O termo se refere a uma tática anarquista do início do século passado, que considerava que ações muitas vezes violentas e espetaculares poderiam romper com a normalidade social e mostrar que o Estado não tem o poder que se imagina.

Na versão trumpista, o cerco à Venezuela, os ataques a embarcações sob a justificativa de estarem à serviço do tráfico de drogas e o sequestro de Nicolás Maduro, bem como o assassinato de Renee Nicole Good pela repressão estatal, cumprem o papel de mostrar ao mundo e aos próprios estadunidenses que o líder “não está para brincadeira”.

Junta-se a essa estratégia uma sucessão ininterrupta de eventos para dominar o debate público numa velocidade alucinante, que, segundo Gessen, é a forma como a autocracia “hackeia” o sistema. Para ele, a democracia é, por desenho, lenta e deliberativa. Ao acelerar a produção de crises e espetáculos, o regime impede que as instituições de arbítrio tenham tempo hábil para reagir, tornando a opinião pública e a checagem de fatos irrelevantes.

Por tudo isso, Gessen é pessimista quanto às consequências dessas e de outras ações nas eleições de meio de mandato deste ano, nos Estados Unidos. Até lá, quem ainda vai se lembrar de Maduro ou Renee?

O jogador, sua aposta e a desordem mundial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eua-e-ordem-mundial-fissurada.html

Postei nas redes

Donald Trump baixou a bola no discurso sobre tomar a Groenlândia diante dos principais líderes europeus no Fórum Econômico de Davos, na Suíça. Até quando? 

O jogador, sua aposta e a desordem mundial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eua-e-ordem-mundial-fissurada.html 

Minha opinião

Raquel Lyra e a instabilidade persistente
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65   

Mudanças no primeiro escalão de qualquer governo são naturais no espaço de quatro anos de mandato. Por razões diversas, sobretudo de natureza política ou simplesmente administrativa.

Mas o bom senso recomenda um mínimo de estabilidade para garantir continuidade e consequência na implementação das políticas públicas.

Na chefia do governo de Pernambuco Raquel Lyra tem pleno direito de fazer as modificações em sua equipe que considere necessárias, porém o que chama a atenção é a quantidade de mudanças que se tem operado: 22 no primeiro escalão do governo em 36 meses.

E como que para confirmar a regra, a governadora acaba de mudar a presidência da Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco (Adepe).

A estrutura administrativa do governo conta com 24 Secretarias de Estado, incluindo pastas como Saúde, Educação, Defesa Social, Fazenda, etc. e órgãos equivalentes, como Procuradoria-Geral do Estado (PGE), Controladoria-Geral do Estado (CGE) e Gabinete de Projetos Estratégicos.

Na prática, uma gestão errátil, modulada essencialmente pela permanente necessidade, por parte da chefe de governo, de diminuir arestas, fazer novas composições e reduzir a margem de desacerto. 

Não parece um bom desempenho administrativo e tampouco político. De tal modo que fica evidente no inicio deste quarto ano de gestão o embaraço da governadora às voltas com a perda de apoiadores e com a busca de aliados de última hora. 

Certamente o insucesso administrativo e a instabilidade política contribuirão para que enfrente o seu principal adversário, o prefeito do Recife João Campos (PSB), em evidente desvantagem.

A resultante virá da peleja eleitoral propriamente dita, sempre complexa e às vezes surpreendente.

Leia também: Descortino tático na disputa eleitoral https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_15.html 

22 janeiro 2026

Palavra de poeta

bolas de vidro
Cida Pedrosa
para Luciano Siqueira    


sob as patas dos cavalos
o asfalto de vidro
derrapa a farda

os meninos brincam
com bolas-de-gude

os soldados de chumbo
em posição de ataque
empinam cachorros
e sacam baionetas

as meninas escondem a bailarina
da caixinha de música

os teus olhos encontram os meus
entre nós: lágrimas e caos

chove chuva de sal no sol
é o casamento da raposa

as pernas se movem
em direção ao mar

nos ouvidos
latidos sirenes solidão

asas nos transportam para a aurora

o capibaribe é ponto de esconder
as pontes são pontes de arribação

Leia também um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/palavra-de-poeta_3.html 

China & Groenlândia

A China representa uma ameaça para a Groenlândia?
Pei Si/Global Times  

Desde o início de 2026, os EUA têm afirmado repetidamente que precisam assumir o controle da Groenlândia para evitar ameaças da China e da Rússia, alegando que há embarcações chinesas e russas "por toda parte" nos arredores da Groenlândia. Qual é a realidade? Qual é a presença real da China na Groenlândia? E a China representa alguma ameaça à Groenlândia?

Com ​​base em informações de diversas fontes, a China atualmente não possui instituições oficiais na Groenlândia, nem projetos de investimento, nem empresas residentes. Há apenas cerca de 30 trabalhadores chineses atuando em empresas de frutos do mar groenlandesas. A cooperação entre a China e a Groenlândia se limita, em grande parte, ao comércio, particularmente de produtos aquáticos. Em 2025, o comércio bilateral entre a China e a Groenlândia atingiu US$ 429 milhões, dos quais as exportações da Groenlândia para a China somaram US$ 420 milhões, principalmente camarão do Ártico, alabote, bacalhau, lagosta e outros frutos do mar. As importações da Groenlândia provenientes da China totalizaram US$ 9 milhões, consistindo principalmente em bens de consumo diário.

Além disso, o número de turistas chineses que visitam a Groenlândia é baixo. Embora a ilha possua paisagens naturais deslumbrantes, não é fácil chegar lá partindo da China, e continua sendo um destino de nicho para viajantes chineses. Em 2024, apenas cerca de 3.500 turistas chineses visitaram a Groenlândia.

As alegações de que há embarcações chinesas por toda parte nas águas próximas à Groenlândia, ou de que a Groenlândia enfrenta uma suposta "ameaça chinesa", são ainda mais infundadas. Em 16 de janeiro, Soren Andersen, major-general do Comando Conjunto do Ártico Dinamarquês na Groenlândia, refutou tais alegações em uma entrevista, afirmando claramente que "não havia navios chineses ou russos perto da Groenlândia". Dados de rastreamento de embarcações da MarineTraffic e da LSEG também não mostram a presença de navios chineses perto da Groenlândia. O ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, esclareceu repetidamente à imprensa que não há nenhuma "ameaça iminente" da China. Rasmus Jarlov, presidente da comissão parlamentar de defesa da Dinamarca, foi ainda mais direto: a alegação de que "há uma grande ameaça da China e da Rússia contra a Groenlândia é delirante".

Seja em termos de fatos ou de políticas, a China não representa uma ameaça para a Groenlândia. Na verdade, a China tem sido submetida a restrições injustas naquele país. O Ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Lökke Rasmussen, reconheceu abertamente que o governo dinamarquês já utilizou medidas administrativas para vetar a participação de empresas chinesas em projetos de expansão aeroportuária e mineração na Groenlândia, e já estabeleceu um mecanismo de triagem de investimentos que não permitirá investimentos chineses na Groenlândia no futuro. É altamente duvidoso que tais sacrifícios por parte da China possam garantir uma postura de "não intervenção" dos EUA — e dificilmente merecem respeito.

É evidente que as tensões atuais no Ártico decorrem principalmente das ações de um determinado país que reivindica direitos que violam o direito internacional e os propósitos e princípios da Carta da ONU. Em contrapartida, a China deixou explícito em seu livro branco de 2018, "Política da China para o Ártico", que "todos os Estados devem respeitar tratados internacionais como a Carta da ONU e a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), bem como o direito internacional em geral. Devem respeitar a soberania, os direitos soberanos e a jurisdição dos Estados árticos desta região, bem como a tradição e a cultura dos povos indígenas". 

Em 12 de janeiro, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, reiterou, em uma coletiva de imprensa regular: "O Ártico afeta os interesses comuns da comunidade internacional. As atividades da China no Ártico visam promover a paz, a estabilidade e o desenvolvimento sustentável da região. Estão em conformidade com o direito internacional. O direito e a liberdade dos países de realizar atividades no Ártico de acordo com a lei devem ser plenamente respeitados. Os EUA não devem usar outros países como pretexto para buscar ganhos egoístas."

Do ponto de vista da China, o futuro do Ártico não deveria ser um campo de batalha para rivalidades geopolíticas, mas sim uma região de baixa tensão para a cooperação internacional em mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável. As alegações de que "a China ameaça a Groenlândia" são simplesmente absurdas demais para merecerem refutação.

As incertezas do futuro para Trump https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/trump-em-caixa-de-maribondo.html

Elias Jabbour opina

A China diante do caos e de Taiwan
A reunificação com Taiwan é apresentada como tendência histórica irreversível, onde o “pacífico” desaparece do léxico, e a China acelera sua integração econômica e preparo militar ante o caos global fomentado pelos EUA
Elias Jabbour/A Terra é Redonda      

1.

O presidente chinês Xi Jinping em sua mensagem de final de ano lançou uma frase muito objetiva e que, mesmo para o senso comum diplomático, pode ter passado despercebido: “A tendência histórica de reunificação da pátria é irreversível”. O presidente claramente estava se referindo a Taiwan. Qual a grande novidade semiótica deste pronunciamento? Simples sem ser simplista: a noção de unificação pacífica desapareceu do léxico colocando em seu lugar a nada sutil expressão de “tendência histórica”.

A tradução de “tendência história” deve ser a mais clara possível. Trata-se de um processo cuja nenhuma ação humana seja capaz de conter. Da mesma forma que as leis da natureza impõe regularidades que dão o ritmo das mudanças no meio natural. Na prática, nem as ações de outras potências – notadamente os Estados Unidos – poderão conter esse processo. Processe este que já não poderá ser pacífico como outrora e sim de acordo com as necessidades colocadas pela própria história. Inclui-se a guerra propriamente dita.

De um ponto de vista particular, para o lado chinês, o melhor cenário é o da manutenção do atual status quo com a ilha mantendo seus símbolos, moeda e sistema, porém sem declarar independência. Porém, o cenário muda ao longo das duas últimas décadas na mesma proporção em que as forças de oposição ao Kuomintang acumulam forças e alcançam o poder central da ilha em linha com a direita mais inconsequente dos EUA que podem ser localizadas tanto dentro dos Partido Democrata quando no Partido Republicano.

Vejamos, ao mesmo tempo em que Donald Trump desautoriza a primeira-ministra japonesa a provocar abertamente a China usando-se da questão de Taiwan como meio, os Estados Unidos venderam um pacote de US$ 12 bilhões em armas à província. Tratou-se de uma provocação aberta aos chineses que, por sua vez, responderam com sanções contra cerca de 20 empresas de defesa dos EUA edez altos executivos ligados às vendas de armas. Ao lado destas medidas, exercícios militares na região foram retomados em clara demonstração de força e das capacidades do continente em cercar e bloquear a ilha.

2.

Porém, ficam duas questões mais estratégicas. Como a China se preparou, e se prepara, para o caos global tendo em vista seus interesses em Taiwan e no mar do Sul da China? E como o país trabalha diante de um “acordão” com os Estados Unidos?

A segunda questão é menos complexa, pois demanda um exercício de lógica formal simples para uma conclusão. Os EUA não são um país confiável, mesmo acenando para um recuo às outrora “áreas de influência”, o que deixaria a China com liberdade de ação em seu entorno. Perguntemos. Tendo em vista que o grande interesse estratégico estadunidense é deter a China, o que demanda desgastá-la, qual o sentido de “abandonar” Taiwan e o mar do Sul da China? Respondo: nenhum.

Já a primeira questão tem mais alto grau de complexidade. O caos. Ainda precisamos encontrar uma dialética que nos entregue a relação entre a atual doutrina de política externa do país, o “Corolário Trump” e a estratégia global de uma potência decadente que necessita do caos enquanto forma de governança em um mundo em intensa transformação e com bases materiais muito diferentes da “retomada da hegemonia” nos anos de 1980 com Ronald Reagan.

Traduzindo, a China de hoje é completamente diferente da então União Soviética e o próprio Japão. No limite, os EUA nunca aceitarão sua superação. E nisso Taiwan é ainda um grande ativo em suas mãos como forma de conter e desgastar a China.

A China diante desse cenário opera em várias frentes e em nenhuma delas o trabalho deu-se início agora ou recentemente. O próprio projeto de modernização iniciado em 1978 foi uma resposta à demanda histórica de reunificação do país via criação de uma zona de convergência econômica entre o continente e Hong-Kong, Macau e Taiwan enquanto base do conceito de “um país, dois sistemas”.

O resultado é uma dependência econômica de Taiwan em relação ao continente nada pequena: quase um terço das exportações de Taiwan vai para a China, e cerca de um quinto das suas importações vêm do continente – o que faz de China/Hong Kong o parceiro econômico mais importante do ponto de vista do comércio. Do ponto de vista econômico e comercial, Taiwan já foi absorvida pela China. E isso é fundamental.

Militarmente, a expansão dos gastos chineses no setor é uma necessidade tanto histórica quanto de um entorno regional cada vez mais instável, incluindo a própria dinâmica taiwanesa. Entre 2019 e 2025 o orçamento militar oficial da China tem crescido todos os anos a taxas médias de 6,9%. Suas capacidades de dissuasão e coerção tem-se elevado em grande proporção, ainda que uma ocupação militar da província ainda não seja uma opção imediata.

O mais importante nesse ponto é a já citada e demonstrada capacidade chinesa em isolar Taiwan por mar, ar e terra. O país já conta com três porta-aviões, muito distante dos EUA ainda, mas o recém-lançado Fujian é capaz de rivalizar com o USS Gerald R.

A elevação da pressão psicológica aliada a crescentes gastos e presença militar ao redor da ilha tem sido altamente funcional para, ao menos por enquanto, manter o atual status quo. Ao que tudo indica, a mudança semiótica conforme notada no discurso de ano novo e Xi Jinping esteja em conformidade com a oficialização do caos enquanto instrumento de governança mundial.

As coisas não tendem a parar por aí. O consenso entre especialistas ocidentais é que em 2027 o continente esteja pronto para uma tomada militar total da “província rebelde”.

*Elias Jabbour é professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ. Autor, entre outros livros, junto com Alberto Gabriele, de China: o socialismo do século XXI (Boitempo) [https://amzn.to/46yHsMp]

Leia também: O segundo choque global da China https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/renildo-souza-opina.html