Blog de Luciano Siqueira
A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
09 abril 2026
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"Se você conhece seu inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de centenas de batalhas." (Sun Tzu, A arte da guerra)
Mais atenção à realidade concreta! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minha-opiniao_26.html
Autonomia tecnológica brasileira
Soberania digital como missão nacional
Infraestrutura, dados e poder de compra do
Estado – um programa concreto para reconstruir a autonomia tecnológica
brasileira
Celso
Pinto de Melo/Jornal GGN
O Brasil não perdeu a corrida digital por falta de capacidade. Perdeu por falta de estratégia.
Se, ao longo dos dois
primeiros artigos desta série, vimos como o país financia infraestruturas
tecnológicas externas e como seus próprios dados passam a ser operados com base
nessas plataformas, resta agora a questão decisiva: é possível reverter esse
processo?
A resposta é sim – mas não por inércia de mercado A dependência digital brasileira não é episódica. Ela é estrutural. Por isso, sua superação exige mais do que ajustes pontuais: requer organização deliberada, coordenação institucional e decisão política.
Missão nacional, não
agenda setorial
A
reconstrução da soberania digital brasileira não pode ser tratada como uma
agenda técnica restrita a órgãos de tecnologia da informação. O que está em
jogo é o controle de infraestruturas críticas, a proteção de dados estratégicos
e o uso do poder de compra do Estado para formar mercados e competências.
Trata-se,
portanto, de uma missão nacional no sentido forte do termo.
Missões não são listas
de intenções. São processos organizados em torno de objetivos de longo prazo,
com instrumentos coordenados, metas verificáveis e capacidade de indução
estatal [1].
Se
a dependência digital é estrutural, sua superação também precisa ser.
Sem
missão nacional, a transformação digital tende a permanecer fragmentada – e não
se consolidar como projeto de país.
O erro de origem
O
Brasil não fracassou na transformação digital por falta de capacidade técnica.
Ao contrário, construiu uma das mais abrangentes infraestruturas públicas de
dados do mundo em desenvolvimento.
O
fracasso foi institucional.
A digitalização foi
tratada como modernização administrativa, e não como política de
desenvolvimento.
Enquanto
países centrais utilizaram o poder de compra estatal para construir suas
capacidades tecnológicas, o Brasil consolidou um modelo em que o Estado atua
como cliente, e não como indutor.
O
resultado é uma dependência crescente, acompanhada de vazamento de valor e
perda de capacidade decisória [2].
Infraestrutura digital é
infraestrutura crítica
O
primeiro passo para reverter esse quadro é reconhecer algo ainda pouco
internalizado: infraestrutura digital é infraestrutura crítica.
Ela
deve ser tratada no mesmo nível que energia, telecomunicações, sistema
financeiro e defesa. Não se trata apenas de escolher tecnologias eficientes,
mas de definir quem controla as bases sobre as quais o Estado opera.
Essa mudança desloca o
foco do “que contratar” para o “como organizar”.
É
nesse plano – o da arquitetura institucional – que experiências internacionais
se tornam instrutivas, não como modelos a copiar, mas como evidência de que
diferentes arranjos produzem resultados distintos.
Arquitetura aberta e
interoperabilidade: a lição mais importante da Estônia
A experiência da Estônia
tornou-se referência global não apenas pela eficiência, mas pela arquitetura
institucional adotada [3, 4].
Desde
o início, a Estônia estruturou sua transformação digital com base em padrões
abertos, interoperabilidade e modularidade. A plataforma X-Road – uma camada
que conecta bases distribuídas e permite a troca segura de informações sem
centralização – integra sistemas públicos e privados, sem depender de um único
fornecedor.
O
modelo é híbrido. Mas seu núcleo é claro: impedir o aprisionamento tecnológico.
Dados são portáveis.
Sistemas são substituíveis. As interfaces seguem padrões definidos pelo Estado.
Soberania
digital não se constrói escolhendo fornecedores diferentes – constrói-se
criando condições para que qualquer fornecedor seja substituível.
Escala não é desculpa
Uma objeção recorrente é
a escala.
Argumenta-se
que um país como o Brasil seria grande demais para implementar soluções desse
tipo.
Esse
argumento é equivocado.
A concepção de uma
arquitetura digital – seus protocolos, padrões e princípios – é um problema de
desenho institucional cujo custo é majoritariamente fixo. O que escala é a
implementação.
O
problema brasileiro não é excesso de escala – é insuficiência de arquitetura.
Um horizonte necessário:
2027–2050
Missões dessa natureza
não cabem no tempo curto dos ciclos políticos. Elas exigem continuidade,
coordenação e horizonte de longo prazo.
O
percurso brasileiro pode ser compreendido como uma travessia em três tempos. O
primeiro, com início ainda nesta década e projeção até 2030, é o tempo da
fundação: mapear dependências, classificar dados estratégicos e reorganizar
contratos. Entre 2031 e 2040, inicia-se a fase de construção, marcada pela
ampliação das capacidades nacionais, pela consolidação de uma infraestrutura
sob governança própria e pela estruturação de sistemas interoperáveis. Por fim,
entre 2041 e 2050, chega-se ao patamar da maturidade, quando o país passa a
operar com capacidade decisória própria em áreas críticas.
Não
se trata de autossuficiência – trata-se de capacidade de escolha
Pensado assim, o
horizonte 2027–2050 deixa de ser um cronograma burocrático e passa a funcionar
como uma forma de organizar o tempo de uma escolha histórica: permanecer como
usuário avançado de sistemas concebidos fora ou tornar-se, gradualmente, autor
das próprias infraestruturas que estruturam sua vida econômica e política.
É
dessa passagem – do tempo à ação – que emerge a necessidade de metas claras.
Metas que tornam a
missão real
Sem metas verificáveis,
missões se dissolvem em intenções.
No
horizonte de 2030, o país precisa ser capaz de inventariar seus dados
estratégicos e redirecionar parcela relevante do gasto em tecnologia para
soluções sob controle efetivo. Na década seguinte, o desafio deixa de ser
apenas diagnóstico e passa a ser estrutural: alcançar, até 2040, ao menos
metade do processamento de dados críticos sob governança nacional. Já em 2050,
a meta deve ser inequívoca: assegurar que a maior parte desses dados,
idealmente acima de 80%, esteja sob controle soberano.
Sem
parâmetros desse tipo, o debate tende a oscilar entre retórica e improviso.
O papel do Estado: de
cliente a arquiteto
Essa
transformação depende de redefinir o papel do Estado. Como argumenta Mariana
Mazzucato, os Estados moldam mercados [1].
O
Estado brasileiro precisa deixar de atuar como usuário de tecnologia e passar a
organizá-la como estratégia.
Não se trata de
isolamento – mas de capacidade de escolha
Nenhum
país relevante opera em plena autonomia tecnológica – e certamente não em
autarquia (isto é, em um modelo de isolamento econômico e tecnológico,
praticamente inexistente no mundo contemporâneo).
A
questão não é eliminar tecnologias externas, mas evitar dependência estrutural.
Isso implica garantir a
portabilidade de dados, a interoperabilidade e a capacidade de substituição
tecnológica.
Em
termos práticos, significa que as soluções devem poder ser auditadas, integradas
e substituídas sem que haja ruptura operacional.
O custo de não agir
A alternativa à
construção dessa missão não é neutra.
É
a continuidade da trajetória atual, marcada por uma crescente dependência
tecnológica, perda de autonomia e vazamento de valor [5].
Isso
não implica apenas atraso econômico, mas também a redução da capacidade do
Estado de definir prioridades e de proteger ativos estratégicos.
Nesse cenário, o Brasil
tende a consolidar uma posição periférica na economia digital – não apenas como
consumidor de tecnologia, mas também como fornecedor de dados para sistemas
controlados externamente.
Em
trabalhos recentes [6], tenho argumentado que a crescente integração entre Big
Techs, o aparato militar e o poder estatal configura um novo complexo
industrial-digital [7].
A escolha histórica
O Brasil não parte do
zero. Possui base de dados robusta, capacidade técnica e Estado relevante.
O
que falta não é capacidade material.
É
decisão política.
Sem missão nacional, a
soberania digital continuará a aparecer nos discursos e desaparecer nas
contratações.
A
questão não é se o Brasil precisa de soberania digital – é se está disposto a
construí-la.
Porque
soberania digital não é um destino – é uma decisão reiterada ao longo do tempo.
Bibliografia
1. Mazzucato, M., The Entrepreneurial State: Debunking
Public vs. Private Sector Myths. 2013, London: Anthem Press.
2. Srnicek, N., Platform Capitalism. 2017,
Cambridge: Polity Press.
3.
Vassil, K., Estonian e-Government Ecosystem: Foundation,
Applications, Outcomes. 2016, Tallinn: Tallinn University of
Technology Press.
4. Kalvet, T., Innovation: A Factor Explaining
E-government Success in Estonia, in Electronic Government: An
International Journal. 2012, IOS Press: Amsterdam.
5. Varoufakis, Y., Technofeudalism: What Killed
Capitalism. 2023, London: Bodley Head.
6. de Melo,
Celso P., Democracia tutelada: Big Tech, poder militar e o novo complexo
industrial-digital. Le Monde Diplomatique Brasil, 2026. Disponível em:
https://diplomatique.org.br/big-tech-poder-militar-e-o-novo-complexo-industrial-digital/.
7. da
Silveira, S.A., As big techs e a guerra total: o complexo
militar-industrial-dataficado. 1 ed. 2025, São Paulo: Hedra.
Celso Pinto
de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE – Pesquisador 1A do CNPq –
Membro da Academia Brasileira de Ciências
IA: Como a China está vencendo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ia-china-vence-eua.html
EUA x Irã & crise energética
Guerra no Irã, petróleo e crise energética: choque de preços no mercado global
Iranianos respondem a ataques de EUA e Israel com medidas que afetam o transporte global de petróleo. O bloqueio no Estreito de Ormuz produz efeitos econômicos comparáveis aos de um embargo, instrumento recorrente de pressão geopolítica
Luís Eduardo Duque Dutra/Portal Grabois
A aliança israelo-estadunidense contra o Irã e o resto do mundo
Às portas de uma crise econômica em razão da escalada do conflito militar iniciado em 28 de fevereiro, cabe perguntar até onde pode chegar a guerra desencadeada pelos ataques ao Irã. Em poucas semanas, o confronto deixou de ser regional e passou a afetar diretamente a logística energética mundial, com impactos imediatos sobre preços, cadeias produtivas e o funcionamento da economia global. Este primeiro artigo analisa o caráter sistêmico do conflito e suas consequências iniciais para o mercado internacional de petróleo e gás. No próximo texto, serão examinados os efeitos mais amplos da guerra sobre a dinâmica macroeconômica, a transição energética e o cenário geopolítico internacional.
O conflito não é periférico, nem é somente regional
O ataque de Israel e dos Estados Unidos ao Irã trouxe de volta imagens do século passado que, de tão antigas, não estão gravadas na memória de quem tem menos de cinquenta anos. A Guerra do Yom Kippur, em 1973, e a derrubada do Xá do Irã, em 1979, deram início às duas crises que selaram os trinta anos de prosperidade do pós-guerra. Foi a primeira vez que o petróleo serviu de arma de guerra na confrontação entre nações periféricas e hegemônicas. Embargos ao fornecimento e aumentos de preço do barril foram usados por persas, árabes, venezuelanos e indonésios para paralisarem os aliados de Israel e dos EUA. Na primeira vez, o preço quadruplicou, na segunda, ele mais que dobrou.
Nas televisões à época, as cenas eram como as de hoje: no Oriente Médio, a destruição massiva causada pelas bombas, os tanques de guerra avançando sem parar sobre todos e tudo, além de tropas armadas até os dentes. Nos países importadores, gigantescas filas de carros e motos, preço dos combustíveis em forte alta, uso das reservas estratégicas (a Agência Internacional de Energia foi criada em 1974 para organizar a resposta à OPEP), refinarias paradas por falta de matéria-prima e, por fim, o racionamento puro e simples. Em termos de planejamento energético, a lembrança leva a duas constatações: primeiro, a dependência ao petróleo permanece e, segundo, a novidade que é a relevância do gás natural liquefeito e não só do gás natural.
A decisão de iniciar a guerra foi tomada por Donald Trump e Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, em demonstração de absoluto descaso com o direito internacional. Veio na esteira da Guerra dos Doze Dias, entre 13 e 24 de junho de 2025, na qual Israel procurou acabar com o programa nuclear iraniano e do surpreendente sequestro de Nicolás Maduro, então presidente da Venezuela, em 3 de janeiro passado. O relativo sucesso e a limitada repercussão das duas agressões podem ser creditados ao meticuloso preparo de ambas, o que faltou de forma flagrante na guerra em andamen to, de acordo com a maioria das análises. A História e a Geografia foram inteiramente ignoradas: as últimas grandes guerras travadas pelo país foram incursões em países como Coreia, Vietnã, Iraque e Afeganistão. São nações de dimensões e tradições regionais que não se comparam à Civilização Persa e ao papel do Irã até hoje. Ademais, nestas guerras assimétricas, a disparidade militar não bastou para assegurar a vitória incontestável da força hegemônica; bem ao contrário.
No presente conflito, a velocidade e a intensidade da reação do Irã, a primordial assistência da inteligência russa e chinesa para tanto, os ataques às bases militares estadunidenses em países vizinhos e o vasto arsenal iraniano composto de mísseis balísticos e drones eram certamente conhecidos pelos militares. O pouco-caso em relação à competência de seus generais foi então notável, quando Donald Trump ignorou a possibilidade do Estreito de Ormuz ser fechado. Não seria a primeira vez, aconteceu durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), no segundo choque do petróleo e, faz pouco, algo semelhante ocorreu durante a Guerra dos Doze Dias, quando os Houthis, aliados dos iranianos, atacaram embarcações no Mar Vermelho.
A mais elementar análise da logística de transporte marítimo apontará dois acidentes geográficos no Oriente Médio: o Estreito de Ormuz, por onde transitam um quinto do petróleo e um quinto do gás natural liquefeito exportados no mundo e o Estreito de Bab al-Mandab, à entrada do Mar Vermelho e que dá acesso ao canal de Suez. Nesta última via, embora fretes e seguros já tenham disparado, não houve bloqueio à navegação. Contudo, no Estreito de Ormuz, em 20 de março, contavam-se cerca de 400 navios-tanques à espera de permissão para atravessar. Somente foi escoada a produção iraniana e algumas poucas embarcações destinadas aos mercados chineses, paquistaneses e indianos. É uma versão atualizada do embargo feito no primeiro choque de petróleo e tão eficiente quanto, uma vez que a ação s e concentra em apenas um ponto e é conduzida por um único país. Não resta dúvida, o estrangulamento super seletivo do Estreito tem um impacto econômico comparável a um embargo.
Breve síntese de vinte dias de guerra
Os superlativos não faltam: em décadas, é a maior guerra que o Oriente Médio experimentou, assim como é, em décadas, a maior ruptura da logística do transporte marítimo mundial. Na história, é a maior crise que os países do Golfo Pérsico enfrentaram, interrompendo o duradouro boom iniciado na década de 1970. Também na história, para mitigar o impacto no preço, é a maior liberação de reservas estratégicas já feita em conjunto por países importadores: 409 milhões de barris; menos de quatro dias do consumo mundial, ou aproximadamente vinte dias do petróleo movimentado pelo Estreito. Cabe colocar ainda: é a primeira grande guerra em uma economia mundial inteiramente globalizada.
Depois da pandemia, não se previa tamanha restrição à circulação das pessoas, ao comércio de mercadorias e ao bom funcionamento das cadeias produtivas. O grande capital multinacional está sendo submetido a interrupções operacionais inesperadas, enfrenta rupturas no abastecimento e escoamento, bem como enormes incertezas para sua futura reprodução. A continuação da guerra com a escalada militar do conflito não pode ser descartada e, portanto, a esta altura, o cenário de agravamento do conflito é aquele mais provável, ou ainda, o que melhor antevê as ameaças.
Com vinte dias de conflito, os desdobramentos se multiplicaram e ampliaram o alcance da guerra. Além dos alvos militares e do bloqueio do Estreito, foram visadas instalações petrolíferas em toda região. As petroleiras estatais como a Aramco, ADNOC, KPC e QPC suspenderam a maioria das operações. A entrada do Golfo Pérsico é um gargalo logístico crítico para os Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Kuwait, Arábia Saudita e Iraque. Cálculos da Rystad (empresa de consultoria norueguesa) indicam que cerca de 9 milhões de barris por dia não estão sendo escoados com o bloqueio. Grosso modo, a capacidade de produção dos cinco países soma 25 milhões de bpd, sendo que 5 milhões estavam ociosos antes da guerra.
Observe que não existem alternativas. Na Arábia Saudita, a saída é o gasoduto de Yanbu em direção ao Mar Vermelho, mas ele possui uma capacidade limitada a 6 milhões de bpd e, atualmente, movimenta cerca de 4 milhões de bpd. Nos Emirados Árabes Unidos, um segundo duto dispõe de três vezes menos capacidade, aproximadamente 1,8 milhões de bpd e leva ao porto de Fujairah, fora do Estreito. Ocorre, porém, que ele já foi alvo de alguns ataques iranianos. Por fim, no Iraque existe um oleoduto bem menor entre Kirkuk e Ceyhan (porto turco) que movimenta apenas 200 mil bpd. Praticamente toda a exportação do país, quase 5 milhões de bpd em média, passa pelo Golfo Pérsico.
Em resumo, considerando os cinco países anteriormente citados às margens do Golfo Pérsico, a produção soma 21 milhões de barris por dia, o consumo doméstico é 6 milhões de bpd e 15 milhões de bpd são exportados (em números aproximados). Destes, devido ao bloqueio, como foi colocado, 9 milhões não estão sendo escoados, ou 60% das exportações, o que dá bem a medida das perdas. Enquanto na costa do Mediterrâneo, Israel abriu um segundo front avançando sobre o Líbano, o Irã conseguiu estender o conflito para os países vizinhos. Em 13 de março, o Financial Times registrava que um quinto navio-tanque tinha sido atingido pela Guarda Revolucionária Iraniana e que, ao todo, dezoito embarcações comerciais tinham sido danificadas. Diante da disparidade do poder militar, a extensão geográfica e o prolongamento da conflagração parecem favorecer o Irã.
O preço do barril de petróleo superou cem dólares e, nos piores cenários de guerra, as projeções apostam em preços entre US$ 135 e US$ 150 por barril. Comparado ao preço médio de 2025, em torno de US$ 65 por barril, por enquanto, o aumento foi de 55%, mas pode chegar ao dobro em curto prazo. Dois setores serão os primeiros a suportar o choque de oferta: por um lado, o transporte, tanto aeroviário, quanto rodoviário, em razão do preço dos combustíveis e, por outro, a transformação petroquímica, em razão do preço da nafta, do etano e do GLP (propano e butano). O consumo das famílias também é fortemente impactado devido ao uso do GLP nas residências e em razão da importância do gás natural para gerar eletricidade na Europa, Japão e Coreia. Nos dois últimos, o gás natural liquefei to, GNL, é essencial; em especial aquele exportado pelo Qatar através do Estreito.
Entre os segmentos atingidos, cabe destacar os fertilizantes em função dos efeitos em cascata nas cadeias agropecuárias. Em 13 de março, produzida a partir do gás natural e matéria-prima para fabricação de fertilizantes, o preço da ureia alcançou US$ 700 por tonelada; um acréscimo de 45% frente ao preço da semana anterior. O The Wall Street Journal, em 13 de março último, afirmou que os agricultores do Meio-Oeste estavam comprando fertilizantes 30% mais caros, a despeito da guerra ter começado a menos de quinze dias e ocorrer a milhares de quilômetros das plantações. De qualquer modo, os preços da soja e do milho já tinham subido na bolsa de Chicago. Não faltam exemplos de choques e rupturas nas cadeias produtivas pelo mundo afora. O dióxido de enxofre é outro insumo para a fabricação de fertiliz antes, sendo o destino de seis décimos de sua produção. Ora, metade do que é exportado, também é escoado pelo Estreito de Ormuz. O ácido sulfídrico é indispensável à produção do cobre, mineral estratégico para a indústria elétrica e eletrônica. O maior produtor de cobre do mundo é o Congo. O país importa todo o ácido que usa de países banhados pelo Golfo Pérsico. Enfim, um derradeiro exemplo, agora do segmento de gases industriais: um terço do hélio tem origem nesta mesma região. Ele é essencial para “resfriar” a fabricação de semicondutores.
Como se constata, o impacto inflacionário decorre da natureza ubíqua dos hidrocarbonetos e de sua importância para a química, que também possui natureza ubíqua. Depois de criada, a substância química se espalha e toma distância do criador. Ao final, ela está em todos os lugares, em tudo e ao mesmo tempo. A ruptura do fluxo, a montante, impacta a todos. O estrangulamento do comércio à altura do Estreito de Ormuz reduz em 9 milhões de barris por dia as exportações da OPEP, que somaram 20 milhões de bpd em média no ano passado. No preço do barril, o impacto do corte de quase metade destas, fez ele sair de US$ 60 e ultrapassar US$ 100 por barril. Quanto ao GNL, entre 28 de fevereiro e 17 de março, naquele mercado mais dependente das importações do Golfo Pérsico, o preço Japan-Korean Market, JKM, saltou de US$ 11,5 para US$ 20,5 p or milhão de Btu; ou seja, praticamente dobrou. Na Europa, o movimento de preço do gás não ficou muito atrás.
Mesmo terminando amanhã, o choque gerado pela guerra terá significativas repercussões no médio e longo prazo para a indústria de hidrocarbonetos e de energia. Foi mencionado que as alternativas são muito limitadas e só permitem aos países da região escoarem pouco mais de um terço do volume exportado em fevereiro, entre 6 e 6,5 milhões de barris por dia em média. A capacidade ociosa, que somava 5 milhões de bpd, em 25 milhões bpd de capacidade total, desfez-se quase subitamente, bastaram quinze dias de conflito. E, considerando apenas os danos causados aos ativos petrolíferos até aqui, demandará mais do que alguns meses a recuperação da capacidade de produção, armazenamento e escoamento anterior. Antes, contudo, sem paz, ao menos, será preciso baixar as armas.
Além disso, com a guerra, o lado negativo de recentes mudanças estruturais na oferta acabou revelado. Desenvolvidos logo após o fim da II Guerra Mundial, os gigantescos campos em terra chegaram, ou estão chegando, à maturidade. Eles fizeram a fortuna dos países da região. A reposição está sendo realizada com o desenvolvimento de reservas de petróleo sob as águas do Golfo Pérsico e pela produção e liquefação de gás natural em enormes instalações fabris que abastecem navios-metaneiros. Atualmente, um terço da produção saudita vem de reservas offshore e quatro quintos das receitas de exportação do Catar derivam do gás natural. No caso da Aramco, os campos de Marjan, Berril e Zuluf serão aqueles que responderão pelo aument o da produção de óleo por vir e todos estão localizados no mar.
Quanto ao gás, com os megaprojetos em andamento e em carteira, Tanajib, Fadihili e Jafurah, a estatal saudita visa produzir um pouco mais de 16 bilhões de pés cúbicos por ano em 2030. Em 2021, a produção foi de 9 bilhões de pés cúbicos, o que significará um aumento de 80% na presente década. A maior novidade é a natureza não convencional da extração de Jafurah, onde uma estrutura produtiva complexa e diferenciada, em 2030, deverá escoar 2 bilhões de pés cúbicos de metano, 400 milhões de pés cúbicos de etano e mais de 600 mil barris por dia de pentano, ou condensado de gás. A sumária descrição anterior já indica que a atividade offshore e a megaescala dos projetos de gás trazem novos desafios à indústria, em especial, no que diz respeito à segurança operacional e ao risco geopolítico. Nem as questões de segurança nem de risco são desconhecidas, contudo, em decorrência da ascensão do offshore e da liquefação do gás, a guerra apontou novas ameaças e vulnerabilidades.
Referências
CHEVALIER, Jean-Marie (2004). Les grandes batailles de l’énergie : petit traité d’une économie violente. Paris: Gallimard.
DUTRA, Luís Eduardo Duque (2019). Capital petróleo: a saga da indústria entre guerras, crises e ciclos. Rio de Janeiro: Ed. Garamond.
MARX, Karl (1867,1883 et 1884), Le capital. Moscou : Editions du Progrès (ed. francesa de 1982).
RICARDO, David (1821), On the principles of political and taxation. Cambridge: Cambridge Univerty Press (ed. de 1951).
SMIL, Vaclav (2017). Energy and civilization: An History. Cambridge, MA: MIT Press,.
SMITH, Adam (1776), An inquiry into the nature and causes of the wealth of nations. Londres: Deut (ed. de 1910).
YERGIN, Daniel (1991). The prize: the epic quest for oil, money, and power. New York: Penguin Group.
Luís Eduardo Duque Dutra é doutor em Ciências Econômicas pela Universidade de Paris-Nord e professor associado da Escola de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
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Minha opinião
Sistema partidário “tipo isopor”*
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
A um observador pouco afeito à realidade política
brasileira, a miríade de legendas partidárias e as alianças que se desenham
para o pleito deste ano causam, no mínimo, perplexidade.
Composições em torno de pré-candidaturas à presidência
da República aparentemente quase nada têm a ver com a disputa nos estados.
Uma espécie de sistema partidário “tipo isopor”,
sólido na aparência mas frágil na essência, a ponto de se esfarelar facilmente.
E não é de agora. Em seu opúsculo "Teoria e História dos Partidos
Políticos no Brasil" , do longínquo 1948, Afonso Arinos de Melo
Franco analisa o caráter regional dos partidos a partir de uma perspectiva
histórica e sociológica, salientando que, durante grande parte da história
brasileira, o "partido nacional" foi mais uma ficção jurídica ou uma
coalizão temporária do que uma realidade orgânica.
Segundo ele, tudo a ver com a extensão territorial,
a diversidade regional e a presença de lideranças locais fortes, sobretudo a
partir da República Velha (1889-1930), auge do regionalismo partidário de então.
Os partidos não eram nacionais, mas sim estaduais,
como o PRM de Minas Gerais e o PRP de São Paulo e assim por diante.
Cerca de 70 anos após, esse desenho institucional
partidário se mantém na essência. Nem a Constituinte de 1988 corrigiu a
anomalia, nem as sucessivas reformas parciais ocorridas desde então, que sempre
tiveram caráter circunstancial e, na essência, fortaleceram os males de origem.
Hoje são 30 os partidos legalmente constituídos,
confirmando a pulverização crônica, a despeito do advento recente das federações
partidárias (hoje são 5), como Brasil da Esperança (PT-PCdoB-PV), a primeira
delas, e a mais recente União Progressista (União Brasil
e PP).
As sucessivas reformas pós-Constituinte têm sido
pontuais, parciais e conservadoras.
Pesquisas recentes convergem para a confirmação de que 32% do eleitorado não se identifica com nenhum partido, escolhe candidatos por seus supostos atributos pessoais. Daí nenhuma estranheza quando parlamentares, governadores e prefeitos mudam de partido nas chamadas “janelas”.
Este ano, 138 deputados
federais mudaram de legenda, 25% da Câmara (um em cada quatro parlamentares) por razões
meramente circunstanciais.
Nesse cenário, o PCdoB – de inarredável caráter
programático nos seus 104 anos de existência – na Resolução Política do recente
XVI Congresso reafirma a sua identidade de classe e a preservação de sua
independência programática no seio da frente ampla ora aglutinada na luta pela
reeleição do presidente Lula e a absoluta necessidade de fazer valer a coesão
interna e o dinamismo prático mediante pleno exercício das atribuições dos
órgãos dirigentes e de suas organizações de base.
Quem sabe numa próxima Assembleia Nacional
Constituinte, em conjuntura menos adversa, seja possível dar um passo adiante.
*Texto da minha coluna desta quinta-feira no Portal Vermelho
Direita e extrema direita se dividem, Lula une a esquerda e busca a centro-direita https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/editorial-do-vermelho.html





