A vitória nas urnas, o futuro nas nossas mãos
Estudantes que ajudaram a eleger Lula querem ser protagonistas de um governo que escute os movimentos populares
Bianca Borges*/Liberta
Bastou sair o resultado do primeiro turno para que as universidades entrassem em movimento. Ainda em 4 de outubro, a União Nacional dos Estudantes convocou assembleias por todo o país. No dia seguinte, a Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF) protagonizou a primeira das mobilizações. Auditórios lotaram, estudantes que nunca haviam participado do movimento estudantil se organizaram e, em poucos dias, as manifestações atravessaram os portões dos campi para ocupar as ruas, das capitais ao interior. Nascia o Tsunami da Esperança.
O movimento estudantil brasileiro sempre soube transformar a inquietação de uma geração em força nacional. Foi assim na campanha O Petróleo é Nosso, na resistência à ditadura, nas Diretas Já e com os caras-pintadas. Desta vez, quando muitos julgavam impossível a virada eleitoral, escolhemos não assistir à história de braços cruzados. A vitória de Lula demonstrou que a política não se resume ao cálculo das pesquisas: ela também se faz na coragem de organizar o povo e disputar o futuro.
Essa mobilização não termina nas urnas. Ela nos impõe a tarefa de transformar a energia da campanha em participação permanente. O quarto mandato de Lula terá diante de si um Congresso Nacional ainda mais conservador, uma extrema direita que não renunciou ao autoritarismo e enormes expectativas populares. Para defender a democracia e conquistar avanços, será preciso construir maiorias na sociedade, nas universidades, nos locais de trabalho e nas ruas. Um governo eleito pelo povo precisa ter o povo como sujeito das transformações que pretende realizar.
A juventude tem razões concretas para reconhecer o legado de Lula. Milhões de famílias viram o ensino superior deixar de ser um privilégio distante. Hoje, muitos estudantes são os primeiros de suas casas a chegar à universidade; outros são filhos de uma geração que também conquistou esse direito graças à expansão de vagas, às cotas, ao Prouni, ao Fies e à interiorização da rede federal. Mas reconhecer o que foi feito não significa aceitar que já fizemos o suficiente.
O primeiro compromisso do novo governo deve ser tornar a educação prioridade real do projeto nacional. A meta de investir 10% do PIB em educação pública, reafirmada no novo Plano Nacional de Educação, precisa sair do papel. Isso exige financiamento estável, valorização dos professores, infraestrutura, ciência, pesquisa e expansão com qualidade das universidades e dos institutos federais. Exige enfrentar a lógica que trata a educação como despesa a ser comprimida, em vez de investimento estratégico na capacidade de o Brasil decidir seu destino, assim como a lógica de mercantilização da educação a partir da ação de conglomerados com fins lucrativos e, muitas vezes, capital estrangeiro. A tecnologia e a Inteligência Artificial devem ampliar possibilidades pedagógicas, não servir de pretexto para precarizar o ensino.
Democratizar o acesso, entretanto, já não basta. É necessário garantir condições para permanecer e concluir os estudos. Alimentação, moradia, transporte, saúde mental e bolsas não podem ser soluções improvisadas. A Política Nacional de Assistência Estudantil precisa de recursos; um Pé-de-Meia Universitário e políticas de aluguel universitário podem mudar a vida de quem hoje precisa escolher entre estudar e pagar as contas. É indispensável proteger as cotas, enfrentar o endividamento estudantil e coibir taxas abusivas nas instituições privadas. Não há democratização verdadeira quando a porta da universidade se abre, mas as condições materiais empurram o estudante para fora, no que chamamos de exclusão adiada.
uventude trabalhadora
Essa agenda precisa olhar para a juventude trabalhadora. Para quem enfrenta jornadas exaustivas, longos deslocamentos e aulas noturnas, ter tempo para estudar não é detalhe: é condição para exercer um direito. Por isso, o fim da escala 6×1 e a redução da jornada sem redução salarial fazem parte da luta pela educação. O mesmo vale para a valorização dos estagiários, proposta pela UNE em projetos de lei que tramitam na Câmara e no Senado, com remuneração digna e proteção contra o uso do estágio como mão de obra barata. A tarifa zero no transporte e novas políticas de permanência devem integrar uma estratégia de inclusão que acompanhe o jovem fora da sala de aula.
A UNE também reivindica um horizonte mais ambicioso. Queremos universidades que formem profissionais, mas também produzam ciência, pensamento crítico, cultura e soluções para os problemas nacionais. A reindustrialização, a transição energética, a soberania tecnológica e o aproveitamento soberano dos minerais estratégicos precisam caminhar com o fortalecimento das instituições públicas de ensino e pesquisa. Um país que abdica de produzir conhecimento abdica de decidir sobre suas riquezas. Queremos educação comprometida com o desenvolvimento, a justiça social e a democracia, não subordinada exclusivamente às demandas imediatas do mercado.
Nada disso será possível apenas pela vontade do presidente. O resultado das eleições legislativas evidenciou a necessidade de disputar cada conquista com organização social, diálogo e pressão democrática. Os estudantes querem ter voz nas escolhas orçamentárias, na formulação das políticas educacionais e nas decisões estratégicas do país. Queremos participar não como plateia convocada nos momentos difíceis, mas como protagonistas de um governo que escute e construa com os movimentos populares.
O Tsunami da Esperança deixou uma lição: uma geração muitas vezes descrita como distante da política reencontrou, na ação coletiva, a capacidade de mudar os acontecimentos. O desafio é fazer dessa redescoberta uma força duradoura. A vitória nas urnas abriu uma possibilidade histórica; realizá-la dependerá do que formos capazes de conquistar juntos. Os estudantes que ajudaram a eleger Lula não querem apenas defender seu governo. Querem construir um Brasil em que estudar, trabalhar, viver com dignidade e participar das decisões nacionais sejam direitos de todos. A democracia que vencemos nas urnas precisa seguir viva nas ruas e produzir um futuro à altura da esperança que a tornou possível.
*Bianca Borges é presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE)
Subiu o sarrafo da luta política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0999410531.html






