30 abril 2026

Intervencionismo bélico dos Estados Unidos

A violência plurissecular dos Estados Unidos
O intervencionismo bélico dos Estados Unidos como mecanismo de preservação imperial em um cenário de transição hegemônica inconclusiva
Tadeu Valadares*/A Terra é Redonda   

“Ou bem o livre ou o determinado; não há lugar para o indeterminado”
(Fernando Pessoa).

1.

Diante da enormidade da crise geopolítica de fato mundial, impossível, de momento e tendo em conta a enxurrada dos acontecimentos cotidianos, elaborar mapa preciso de conjuntura tão complexa quanto desnorteante. Daí que me limite a esboçar precário portulano que traduz meu sentimento de estarmos vivendo à beira do abismo.

Aceita essa ideia inicial, algo se torna em decorrência evidente: a ordem antiga se esgotou – há quem negue isso –, mas outra ainda não surgiu, e há quem isso também negue. Para mim, estamos vivendo paradoxal momento longo, perigosamente longo, dessa transição de um mundo a outro, de uma hegemonia a outra. Seu término, indeterminável. Em princípio, não se estenderá pelo que resta do século.

Tão enormes quanto a enormidade da crise que é policrise são as expectativas que a provável quebra de hegemonia em curso desperta no Sul global, em especial nos países – Estados, sociedades, povos e nações – que desde 1945 constituem a periferia imediata e a periferia extrema do sistema que funciona para afirmar o centro, beneficiário maior do esquema global de extração de recursos do Sul global para o Norte, cujo primeiro momento ‘orgânico’, no dizer dos historiadores da longa duração, foi o ciclo genovês-espanhol nos séculos XV e XVI.

Para boa parte do Sul global, a transição de um ciclo sistêmico a outro e de uma hegemonia a outra, bem como seu vetor final, são favas contadas. Estamos prestes a deixar para trás a ordem exaurida, estamos prontos para ingressar no mundo novo. Em outras palavras, o grande jogo da política e da economia mundial nos favorece estruturalmente. Para o novo que desejamos caminhamos com olhos abertos.

Mas quando se observa a coisa mais de perto, depois de registrarmos o óbvio esgotamento da ordem caduca, pouco se detecta quanto ao que será a base essencial a sustentar a ordem futura. Por enquanto, invisível os delineamentos da estrutura formal jurídico-política e diplomática eletivamente afim com esse projeto audaciosa e ideologicamente inovador. Por enquanto inexiste a malha mínima de instituições suficientemente cristalizadas – instituições, não grupos de países, não acertos informais –, capazes de eficientemente operar o cotidiano do novo sistema, conferir-lhe vida efetiva.

Nesse contexto, o BRICS e outros agrupamentos mais ou menos similares são desde já evidentemente importantes, mas ainda não deixaram de todo o embrionário. Ainda estão no casulo enquanto em geral os vemos como belas borboletas. E, completando o raciocínio, até o momento não ocorreram, nem parecem prestes a ocorrer, os grandes acertos de poder que em última instância são os estruturadores da ordem nova como espaço institucionalizado favorável ao exercício de algum novo tipo de hegemonia, algum tipo novo de ciclo de acumulação de poder e de capital, ambos por igual indeterminados.

2.

Estamos, portanto, na plena ambiguidade que marca as grandes transições históricas de hegemonia. A ‘ordem onusiana’ perdeu quase completamente sua relevância, e o quase é cláusula minha de prudência. A velha ordem representa o mundo velho nos estertores. Mas o novo ainda não nasceu, não se sabe se nascerá e, se nascer, qual será sua real fisionomia. Provável seja bastante diferente das tantas configurações imaginárias que tantos analistas de grande fôlego e saber generosamente desenham, quem sabe se guiados pelos votos do coração. O curso real do mundo não disse sua palavra final. Ela, até pronunciada, persistirá como claro enigma.

Pensando a partir dessa moldura algo (?) heterodoxa, decerto coisa muito frágil, importante assinalar: para os da longa duração, a decadência final do hegemon de turno e o estabelecimento em cada ciclo de seu eventual sucessor foram sempre mediatizados por período com características particulares, os chamados tempos de “caos sistêmico”. Esse tempo de caos ocorreu tanto na passagem da hegemonia genovesa-espanhola para a holandesa quando na transição da hegemonia de Amsterdã para Londres. Também na ‘chegada à hegemonia’ de Nova Iorque em substituição a londrina.

Parece-me bem mais do que aceitável trabalhar com a hipótese de que – desde mais ou menos 50 anos atrás, e muito especialmente no curso do século XXI – estamos vivendo o caos sistêmico mediador da queda da hegemonia americana e da ascensão da China ao ápice do sistema. Ordem e sistema que, ao permanecerem em última análise como sistema e ordem, permitem ao novo hegemon dar início a novo e diferente ciclo de acumulação de capital e poder.

Certo, isso tem muito de teórico, especulativo, hipotético. A hegemonia prevista e desejada pela maioria do Sul Global tem de deixar de ser teoria, especulação, hipótese. Tem que se afirmar na prática da realidade efetiva. Lembrando Friedrich Engels, a prova da materialidade do pudim está em comê-lo.

O conhecimento acumulado pelos historiadores no que diz respeito às transições de hegemonia induz a certa sobriedade: nas quatro passagens conhecidas de hegemonia, todas mediatizadas por períodos de caos sistêmico, as guerras foram as parteiras da história. Em todo esse período, que cobre o desenvolvimento do capitalismo histórico desde ao menos o século 15, como os historiadores da longa duração viram a relação entre guerra e capitalismo?

Para autores como Fernand Braudel (1902-1985), Charles Tilly (1929-2008) e José Luís Fiori, octogenário como eu, a guerra, fenômeno fundamental que singulariza o homo sapiens, nos acompanha como uma espécie de invariante histórico.

Para Fernand Braudel, a constância das guerras se expressa muito além das fronteiras do capitalismo histórico. A guerra acompanha e conforma em grande medida toda a história da espécie“, como se fosse uma necessidade biológica’. O americano Charles Tilly, ao analisar o fenômeno no período que mais ou menos se inicia no século 15, realça : “De 1480 a 1800, a cada 2 ou 3 anos iniciou-se em algum lugar do mundo um conflito internacional expressivo’. Diz ainda que “de 1800 a 1944, esse tipo de conflito passou a ocorrer a cada 2 anos’. E sinaliza: ‘a partir da II Guerra Mundial, um conflito internacional expressivo eclodiu a cada 14 meses’.

3.

Mais preocupante ainda, sugiro, o ingresso da humanidade na era nuclear não enfraqueceu essa tendência ou pulsão que vem dos tempos mais recuados. Agora, evidente para mim, a guerra é feita nos moldes ditados pela expansão do modo de produção capitalista, processo e dinâmica irremediavelmente conflitivos, vigentes no mínimo há mais de cinco séculos.

Para José Luís Fiori, a guerra – em suas diversas modalidades – é desde sempre a ultima ratio a que recorrem todos os que exercem o poder tentando acumulá-lo, independentemente dos tipos ou formas de vida social humana predominantes. E não há como, em se tendo poder, deixar de obsessivamente acumulá-lo. Idealmente, acumular poder até exercer uma espécie de monopólio temporário.

A guerra é, portanto, mais do que uma possibilidade. É necessidade a que todas as formas sociais estão – queiram ou não – submetidas. Diferentemente do dito por Fernando Pessoa, neste mundo – o do poder – não há lugar para o livre nem para o indeterminado. Diria eu, então, que só há lugar, nesse registro que é do mundo, para o que é determinado pela própria lógica eternamente expansiva do poder. Eternamente, enquanto homens houver.

Daí que a guerra seja copresente ao arco inteiro da história humana, desde as organizações comunitárias e tribais mais recuadas, passando pelas cidades, reinos, estados, repúblicas e impérios antigos e medievais. Essa quase que necessidade bioógica, na formulação ‘braudeliana’, vige, creio que até mesmo com mais força, desde os começos do mundo moderno. Sobredetermina, parece-me, os detinos dos estados nacionais ou plurinacionais, dos impérios, repúblicas – entre elas a imperial –, e as reveste com diversificadas formulações retóricas legitimadoras, muitas delas imperiais.

Resumida de maneira obviamente abrupta e incompleta as formulações de alguns dos principais historiadores da longa duração – os que tentam fazer convergir a dimensão estrutural com a conjuntural, ambas inseridas no corpo mais amplo da história humana –, façamos (outro?) corte abrupto: deixemos essa moldura-macro e foquemos nossa atenção nos Estados Unidos.

Ao fazermos isso, a violência plurissecular que os Estados Unidos deflagaram ao longo de sua história – até mesmo, via guerras contra os povos indígenas, no seu período de colônia britânica – pode nos deixar com a sensação de que o que era o famoso cinza que se põe sobre o cinza hegeliano ameaça de vez com a escuridão completa. A escuridão nuclear que poria termo ao último voo do mocho de Minerva.

4.

Minha hipótese sobre a violência plurissecular dos Estados Unidos talvez pareça no mínimo exagerada. Entendo. Então, vamos a uma tentativa de ilustração da tese.

Quatro anos atrás, o Instituto Quincy para Política Estatal Responsável (em inglês Quincy Institute for Responsible Statecraft) circulou os resultados de ampla pesquisa sobre os Estados Unidos e suas guerras. Resumidamente: de 1946 a 1989 (43 anos) os Estados Unidos realizaram 104 intervenções militares; de 1990 a 2019 (29 anos), 112 intervenções foram feitas. No período pós-Guerra Fria coberto pela pesquisa (1991-2022), mais de 100 intervenções militares em 31 anos.

No debate ocorrido no lançamento do relatório do Instituto Quincy, John Mearsheimer sublinhou que de 1946 a 1989 (43 anos), Washington operacionalizou 104 intervenções militares. Em média, 2,4 intervenções por ano. Mas de 1990 a 2019 (29 anos), 112 intervenções americanas ocorreram. Em média, 3.7 por ano. Ou seja, houve aumento do número de intervenções e de sua média durante os tempos da ‘hegemonia liberal’ americana. Isso ocorreu enquanto a ‘ordem internacional baseada em regras’ era cantada em prosa e verso neoliberal no centro, na periferia imediata e na periferia extrema do sistema internacional crescentemente em crise. Por quem, bem sabemos.

Desde 2022, o quadro não mudou para melhor. Tanto assim que de certa forma contabilizando o estado bélico do mundo, dois anos atrás o espanhol El país circulou matéria pela qual informou estarem em curso 56 “guerras ativas entre países”. Também em 2024, relatório elaborado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha registrou mais de 120 conflitos armados a envolver cerca de 60 estados. Ou seja, mais ou menos 30% dos países que estão representados na Assembleia-Geral da ONU. A maioria desses conflitos armados, para nenhuma surpresa nossa, se concentra na África e na Ásia.

Simplificando escandalosamente o panorama geopolítico mundial no registro bélico que vai muito além dele mesmo, registremos que ele é pontuado: (a) pela guerra ou operação militar especial na Ucrânia, em que os Estados Unidos desempenharam e desempenham papel fundamental; e (b) pela guerra relâmpago de agressão à Venezuela, feita ao arrepio de todas regras estabelecidas pela ONU, mas que numa subserviência com medo e mácula foi  aceita pelo Conselho de Segurança; e (c) pela ‘guerra de escolha’ contra o Irã encetada por Washington e Tel Aviv.

Na verdade, guerra em dois estágios, o dos 12 dias de junho passado e o atual, que no momento em que escrevo chegou ao seu quinquagésimo-sétimo dia. Guerra que pode voltar ao estado mais ativo e destrutivo a qualquer momento, dada a imprevisibilidade que caracteriza as ações, intenções, gestos, falas e incoerências geopolíticas do governo americano. Impossível vencer o Irã, mas bem possível para os Estados Unidos e Israel nesse intento destruírem ‘nolens volens’ – dada a segura reposta iraniana à terceira onda agressiva – toda a infraestrutura das monarquias do Golfo e a maior parte da israelense. Isso seria uma espécie de suicídio que levaria o capitalismo planetário a uma crise que muitos só encontram termo de comparação no caos provocado pela crise de 1929.

Esses, os focos principais. Indispensável, entretanto, não esquecer: o genocídio em Gaza e a falsa paz imposta por Donald Trump e Benjamin Netanyahu com o beneplácito vergonhoso do Conselho de Segurança; as violências cotidianas cometidas contra o povo palestino na Margem Ocidental e em Jerusalém Oriental; a guerra de ocupação em curso contra o Líbano, com remoção forçada de 20% da população libanesa antes concentrada no sul do país.

Em todos esses ‘conflitos internacionais expressivos’, para lembrar a categoria elaborada por Tilly, os Estados Unidos ou são participantes ativos ou apoiadores pavlovianos de Israel. Reflexo condicionado substituiu qualquer estratégia minimamente racional. Isso, no caso de Israel como um quase-estado americano, sua condição desde ao menos 1967.

A quase perenidade com que os Estados Unidos recorrem à guerra para manter o império se manifesta num dado nem tão conhecido assim: desde o término da Segunda Guerra Mundial, a república imperial – cada vez menos república, cada vez mais imperial e imprevisível – só não esteve em guerra contra um ou mais países em três ‘anos fora da curva’: 1946, 1952 e 1974.

Arrisco especular, a despeito da frase de Augusto Roa Bastos segundo a qual no futuro a gente entra de costas. De costas, sim, tal como de costas está o Anjo de Paul Klee descrito por Walter Benjamin na nona tese em Sobre a filosofia da história. Para mim, dos resultados dessas duas guerras, a da Ucrânia e a resultante da agressão cometida contra o Irã, em muito depende, para voltarmos ao início deste texto, o surgimento com dose de clareza, em lugar de um ainda obscuro esboço de outra ordem internacional que consagre uma nova hegemonia. As duas guerras bem podem funcionar como aceleradores, dependendo dos respectivos vetores finais.

Mas apesar do papel e do peso desses dois eventuais ‘aceleradores’, não creio que o mundo novo surja no prazo curto de anos. A nova ordem continua em potência. Torná-la realidade efetiva, só no longo prazo keynesiano, aquele que se aplica muito especialmente a todos os da minha geração. Até lá é viver o momento tendencialmente catastrófico. Ou não-catastrófico, como quer nossa esperança. Mas decerto caracterizado pela vigência do caos sistêmico mediador. Viver é mesmo muito perigoso, como nos ensinou Riobaldo.[1]

*Tadeu Valadares é embaixador aposentado.

Nota


[1] Este texto é dedicado à professora Paula Bastos, da UnB. Com a professora, alunos e alunas conversei, em 24 de abril, sobre os temas aos quais voltei para esboçar este portulano à beira do abismo.

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"Uma crítica oportuna, mas insuficiente" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_15.html

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Crônica de uma vitória a conquistar*
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Tão logo proclamada a rejeição de Jorge Messias, indicado pelo presidente da República ao STF, explodiu na mídia dominante uma espécie de comemoração do que se convencionou denominar "derrota histórica" de Lula.

Histórica sim, pois só no governo Floriano Peixoto, na República Velha, em 1894, cinco nomes foram barrados.

Porém não o fim da linha. 

Embora com pequena margem de flutuação (os que oscilam conforme as circunstâncias), é preciso considerar, grosso modo, que dos 81 senadores apenas 38 são considerados da base do governo; entre 14 a 15 se situam no Centrão conservador; e 29 se postam na oposição, dos quais 15 do PL bolsonarista.

Uma maioria que votou em Bolsonaro duas vezes.

Ou seja, uma correlação de forças abertamente adversa. Tanto que a cada matéria relevante, o governo precisa negociar pacientemente para obter maioria circunstancial.

Demais, pelo Regimento o presidente da Casa detém superpoderes, inclusive sobre a pauta dos trabalhos, ele próprio (David Alcolombre, União Brasil-Amapá) dúbio e chantagista.

E o ambiente de ontem, marcadamente influenciado pelas eleições de novembro e (para parcela dos senadores oposicionistas) sob tensão diante do rumoroso caso do Banco Master, objeto de uma emenda destinada a elevar a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, que beneficiaria diretamente os investidores em caso de quebra.

De quebra, a rejeição de Jorge Messias também tem como alvo o STF, ora em confronto aberto com o Senado.

Ou seja, ambiente maduro para uma derrota do governo.

Mas daí a avaliar que as possibilidades de reeleição do presidente estariam irremediavelmente comprometidas, como assinalam comentaristas da Globo News, entre outros, é de uma irresponsabilidade jornalística sem tamanho!

Terá sido o momento oportuno para a deliberação sobre a indicação de Jorge Messias? Parece que não, mas agora é tarde, Inês é morta...

Às forças que dão sustentação ao governo, por seu turno, cabe fortalecer a sua unidade em torno reeleição de Lula e por cadeiras no Senado (que poderá ser renovado em dois terços) e na Câmara dos Deputados (onde a base governista também é minoritária).

A empreitada é hercúlea. Como bem assinala a Resolução Política do XVI Congresso do PCdoB, duas grandes tarefas se impõem: batalhar por nova vitória da frente ampla democrática e lutar pela realização de mudanças estruturais, com um plano e um polo estratégicos, constituídos pela esquerda e por forças populares e patrióticas.

​​​​Não é fácil, mas é possível.

*Texto da minha coluna no portal Vermelho.

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O lugar do PCdoB na cena política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/partido-renovado-e-influente.htm

Palavra de poeta

Poema XLIV*

Pablo Neruda    

Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

*Excerto de Cem Sonetos de Amor”

[Ilustração: Edvard Munch]

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Leia também “Segunda-feira”, poema de Primo Levi https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/palavra-de-poeta_48.html 

29 abril 2026

Europa submissa

Europa transfere € 108 bilhões aos EUA e expõe dependência econômica
Dados do BCE e Eurostat mostram saída recorde de riqueza para Washington e apontam domínio norte-americano em setores estratégicos do continente
Davi Molinari/Vermelho   


A economia europeia vive um paradoxo crescente: mantém produção elevada e superávit comercial em bens, mas perde renda de forma consistente para os Estados Unidos. Em 2025, essa transferência atingiu € 108 bilhões, segundo dados do Banco Central Europeu (BCE), evidenciando um movimento estrutural de deslocamento de riqueza para fora do território europeu.

O dado — que mais que dobrou em relação aos € 49 bilhões registrados em 2024 — não se refere apenas ao intercâmbio comercial, mas ao fluxo de renda gerado por investimentos, lucros, dividendos e juros. Trata-se, na prática, de riqueza produzida na Europa que termina apropriada por empresas e investidores, majoritariamente estadunidenses. A tendência reforça o diagnóstico apresentado pela publicação The Economist, que classificou o fenômeno como uma forma de “vassalagem econômica” construída ao longo das últimas décadas.

Produção europeia, renda americana

A diferença entre a produção e a apropriação da riqueza aparece de forma clara na renda primária — indicador que mede o saldo entre o que um país recebe e paga ao exterior em lucros e investimentos. Segundo o BCE, a zona do euro passou de um superávit de € 54 bilhões em 2024 para um déficit global de € 44 bilhões em 2025. O principal fator desta inversão foi a relação com os Estados Unidos.

Dados do Eurostat mostram que, apenas no quarto trimestre de 2025, o déficit europeu em renda primária chegou a € 18 bilhões, confirmando a aceleração da saída líquida de recursos. Esse movimento significa que empresas estrangeiras — sobretudo norte-americanas — não apenas operam na Europa, mas capturam uma parcela crescente do valor gerado no continente.

EUA ampliam vantagem global

Enquanto a Europa registra saída líquida de renda, os Estados Unidos consolidam a posição inversa. Dados do Bureau of Economic Analysis indicam que a renda nacional estadunidense alcançou cerca de US$ 31,4 trilhões no final de 2025, sustentada por ganhos obtidos no exterior.

Este diferencial é estrutural: empresas dos EUA operam globalmente e repatriam lucros, enquanto economias europeias absorvem investimento estrangeiro sem reter integralmente os resultados. A transferência de renda acompanha a presença dominante de corporações norte-americanas em áreas centrais da economia europeia.

No sistema de pagamentos, Visa e Mastercard concentram a maior parte das transações. Na infraestrutura digital, Amazon (AWS) e Microsoft (Azure) lideram o mercado de nuvem e inteligência artificial. No setor energético, os EUA ampliaram sua participação como fornecedores de gás natural liquefeito. Na defesa, cresce a dependência de equipamentos militares adquiridos por meio de contratos com o Pentágono.

Vulnerabilidade e a armadilha tecnológica

A análise da The Economist sugere que o cenário de transferência de renda não é acidental. Segundo a publicação, a arquitetura regulatória europeia — com regras rigorosas em concorrência, dados e meio ambiente — teria limitado a expansão de empresas locais, abrindo espaço para as multinacionais estrangeiras. 

Entretanto, analistas ponderam que o argumento liberal ignora questões estruturais de soberania tecnológica. O domínio das corporações dos EUA não decorre apenas de normas flexíveis, mas de um vácuo de política industrial na Europa. Enquanto Washington utiliza massivos subsídios estatais para integrar seu setor de defesa às big techs, o mercado europeu, fragmentado e dependente de infraestruturas externas — como o mercado de nuvem, dominado em mais de 70% por empresas americanas —, tornou-se um exportador líquido de lucros.

Essa vulnerabilidade econômica já é reconhecida por lideranças do bloco. Em relatório recente sobre o futuro da competitividade do continente, o ex-presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, alertou para a necessidade de mudanças profundas. “A Europa está perdendo sua relevância no cenário global porque falhou em se tornar um polo de inovação tecnológica. Estamos financiando o crescimento de outros blocos enquanto nossas empresas ficam presas em um emaranhado burocrático que as impede de escalar”, afirmou Draghi.

Na mesma linha, o chanceler alemão destacou a urgência de uma maior autonomia financeira. Durante um fórum econômico em Berlim, realizado na última quinta-feira (16) de abril de 2026, declarou: “Não podemos ser apenas um mercado consumidor para as big techs americanas. A soberania europeia depende da nossa capacidade de manter os lucros e a inovação dentro de nossas fronteiras”.  Uma crise que ja havia sido antecipada pela própria presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em setembro do ano passado. “A União Europeia deve reduzir sua dependência econômica dos Estados Unidos e diversificar suas parcerias estratégicas”, afirmou

Superávit comercial não impede perda de riqueza

Mesmo com um superávit de € 199,6 bilhões em bens em 2025, a Europa não consegue reter plenamente a riqueza gerada. O motivo reside na combinação do déficit em serviços, dominado por empresas estrangeiras; na saída de renda primária (lucros e dividendos) e na dependência tecnológica e financeira. O resultado é um equilíbrio externo mais frágil do que sugerem os dados comerciais isolados.

A relação entre Europa e Estados Unidos deixou de ser apenas comercial e passou a envolver um fluxo contínuo de transferência de renda. Mais do que produzir, o ponto central da economia global contemporânea é a capacidade de capturar valor. Nesse aspecto, os Estados Unidos operam em posição vantajosa, enquanto a Europa enfrenta dificuldades para reter os ganhos gerados dentro de seu próprio território.

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Europa, a capitulação permanente https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/europa-submissa.html

Humor de resistência

 

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