09 maio 2026

IA no mundo em transição

Governança da IA ​​uma nova "interseção" para a cooperação global
Global Times 

Recentemente, em um auditório na sede da ONU em Nova York, uma discussão sobre o desenvolvimento da inteligência artificial (IA) foi além de algoritmos e modelos, focando-se na ideia de "um futuro compartilhado". O encontro temático do Grupo de Amigos para a Cooperação Internacional em Capacitação em IA, copresidido por representantes da China e da Zâmbia, reuniu mais de 120 representantes de mais de 50 países e organizações internacionais. Da capacidade computacional fundamental aos avanços algorítmicos, e das aplicações de engenharia à computação espacial, a tecnologia de IA está avançando rapidamente, ao mesmo tempo que cria um significativo vácuo de governança. Garantir que o princípio da IA ​​para o bem e para todos seja efetivamente implementado tornou-se, portanto, uma tarefa urgente para a comunidade internacional.

À medida que o mundo entra na era da IA, os riscos de segurança não estão mais confinados à ficção científica. Por um lado, existem oportunidades sem precedentes; por outro, surgem riscos imprevisíveis. Modelos avançados de IA podem resolver problemas complexos e detectar vulnerabilidades em uma velocidade e escala muito além da capacidade humana, mas também reduzem o limiar para o uso malicioso. Seja em comunidades de código aberto ou sistemas de código fechado, todos enfrentam o desafio assustador de alcançar uma governança eficaz e prevenir a disseminação global de riscos. O colunista do The New York Times, Thomas L. Friedman, certa vez ofereceu uma analogia vívida: dois homens em uma caverna com um laptop, acesso aos modelos de IA mais recentes e um terminal Starlink poderiam atacar a infraestrutura crítica de qualquer sociedade. Isso não é alarmismo. Especialistas em segurança cibernética alertaram que os modelos de IA de ponta reduziram o tempo necessário para identificar vulnerabilidades do sistema de semanas ou até meses para apenas minutos. Os atacantes precisam encontrar apenas uma vulnerabilidade, enquanto os defensores devem protegê-las todas.

Quando a "governança não consegue acompanhar o rápido desenvolvimento da IA" se torna um desafio compartilhado por todos os países, a necessidade de construir uma estrutura global de governança de IA baseada em ampla consulta, contribuição conjunta e benefícios compartilhados torna-se ainda mais urgente. 

De deepfakes e ataques cibernéticos ao recente uso de IA em aplicações militares em conflitos no Oriente Médio, o mau uso da tecnologia soou o alarme para a humanidade. Nenhum país pode permanecer imune, e as lacunas regulatórias em qualquer país podem se tornar fontes de risco global. Todas as partes precisam urgentemente adotar uma perspectiva mais ampla, fundamentada na construção de uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade, dialogar sobre seus respectivos marcos regulatórios e legislativos e padrões de governança, e buscar um amplo consenso, ao mesmo tempo que fortalecem a coordenação de políticas em questões-chave, como a segurança da IA ​​e os fluxos de dados.

Em relação à governança global da IA, a postura da China tem sido consistentemente proativa, responsável, aberta e coerente. Guiada pela visão de um futuro compartilhado para a humanidade, a China implementou ativamente a Iniciativa de Governança Global (GGI) e a Iniciativa de Governança Global da IA, propostas pelo Presidente Xi Jinping, e manteve seu compromisso de contribuir para o desenvolvimento global e fornecer bens públicos. O país propôs e impulsionou sucessivamente iniciativas como o Plano de Ação para o Fortalecimento das Capacidades em IA para o Bem e para Todos, o Plano de Ação para a Governança Global da IA ​​e a Iniciativa de Cooperação Internacional em IA+, transformando essas visões em ações concretas. Em julho de 2024, a 78ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas adotou por consenso uma resolução proposta pela China sobre o Fortalecimento da Cooperação Internacional no Fortalecimento das Capacidades em Inteligência Artificial, que foi prontamente copatrocinada por mais de 140 países. Este é um exemplo típico da contribuição da China com sua sabedoria e soluções para a governança global da IA.

Na prática, a China já assumiu a liderança. Por meio de um planejamento estratégico responsável, o governo chinês garante que modelos de código aberto de grande porte, como o DeepSeek e o MiniMax M2.5, sejam utilizados para impulsionar uma ampla gama de indústrias, aumentar o bem-estar público e promover a cooperação internacional. 

De universidades no Brasil a instituições financeiras na África do Sul, da ajuda na construção de pontes de resgate após um grande terremoto em Mianmar ao apoio à transição do setor pesqueiro do Camboja para práticas menos intensivas, a IA chinesa, além de contribuir para o seu próprio desenvolvimento de alta qualidade, também beneficiou o mundo por meio da abertura tecnológica e da construção conjunta de ecossistemas.

Transformar a "IA para o bem" em realidade é responsabilidade e obrigação de todos os países. Nenhuma nação, por mais poderosa que seja, pode monopolizar esse vasto campo da IA, nem pode arcar sozinha com os riscos globais associados à tecnologia. Desde o início deste ano, vozes mais racionais têm surgido nos EUA, defendendo a cooperação sino-americana em IA. Em 6 de maio, o Wall Street Journal citou fontes afirmando que a China e os EUA estão considerando realizar um diálogo mais amplo e formal sobre a governança da IA. Esta é uma boa notícia para o mundo. De fato, os dois países têm mantido a coordenação na governança da IA ​​por meio de diálogos oficiais e informais nos últimos anos. No entanto, para alcançar mais progressos, a chave está em os EUA trabalharem com a China, abandonando suas restrições e medidas repressivas contra a China no campo da IA, bem como suas tentativas negativas de construir blocos exclusivos internacionalmente.

Claramente, o pensamento de soma zero e a rivalidade geopolítica tornaram-se os maiores obstáculos à governança global da IA. A IA não deve se tornar propriedade privada monopolizada por nenhum poder individual, nem uma ferramenta para clubes fechados de países selecionados, e certamente não uma espada sobre as costas da humanidade. 

Construir um sistema de governança global da IA ​​que seja inclusivo, equitativo e sustentável é vital para o futuro e o destino da humanidade. Todas as partes devem defender o multilateralismo genuíno e unir esforços no âmbito da ONU para alcançar um desenvolvimento de alta qualidade. A troca de experiências e o aprendizado mútuo são essenciais para superar os dilemas de governança. Espera-se que todas as partes demonstrem maior sinceridade em abertura e cooperação, para que a IA possa se tornar uma ponte que conecta o mundo e beneficia a sociedade.

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Comandos e desmandos da inteligência artificial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/ia-condicao-humana.html

Sylvio: altivez

Lula conversa com quem quer que seja em pé de igualdade e sem abrir um centímetro da defesa de nossa soberania. 

Sylvio Belém  

Luciana Santos: Tecnologia e inovação na prevenção de desastres climáticos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/luciana-santos-opina.html

Palavra de poeta

instantâneo
Cida Pedrosa    

a morte passou por aqui
conduzindo a agonia
 
a cama de vara
vara o sexo
 
olhos da moça
pendurados na parede
 
barro bonina
ofusca a lente
e treme a mão
 
rosto da moça
sentado no sofá
 
meia janela meio dia todo sol
a dor em close faz a festa
 
[Ilustração: 
Andrey Remnev]

Leia também: "Cantiga para não morrer", poema de Ferreira Gullar https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/palavra-de-poeta_80.html 

Dia da Vitória

Há 81 anos, União Soviética esmagava o nazismo e redesenhava a história
O Dia da Vitória, em maio de 1945 marcou o nascimento de uma nova era. Junto à derrota do nazismo, emergiu um mundo bipolar, ideologicamente dividido e profundamente transformado pela ascensão da União Soviética.
André Cintra/Vermelho 

Em maio de 1945, o mundo assistia ao colapso definitivo do 3º Reich e à emergência de uma superpotência. Uma imagem simbolizava os dois feitos: em Berlim, um soldado soviético – o sargento Meliton Kantaria, de origem georgiana – hasteava bandeira vermelha sobre o Reichstag em chamas.

A cena, fotografada há 81 anos por Yevgeny Khaldei, registra o Dia da Vitória e é um dos documentos visuais mais poderosos do século 20. Com a rendição incondicional da Alemanha nazista, a União Soviética e o Exército Vermelho alcançavam uma vitória histórica sobre a máquina de guerra mais destrutiva que a humanidade já conheceu.

O Dia da Vitória é lembrado em datas diferentes. A maior parte da Europa Ocidental o celebra em 8 de maio. Monumentos são iluminados, sinos repinicam e veteranos de guerra (cada vez mais raros) recebem homenagens em praças públicas de Paris a Varsóvia. É o Dia da Vitória na Europa, o V-E Day (Victory in Europe Day).

A milhares de quilômetros dali, a comemoração esperará mais 24 horas. Na Rússia e em diversos países da antiga União Soviética, o Dia da Vitória é 9 de maio. A divergência se deve ao horário da capitulação final da Alemanha, assinada na noite de 8 de maio de 1945, em Berlim, a capital arrasada do 3º Reich. Devido ao fuso horário, em Moscou já era madrugada de 9 de maio.

Para os russos, a celebração é a mais importante do país. Além do tradicional desfile militar na Praça Vermelha, em Moscou, a programação inclui marchas civis, homenagens aos soldados mortos na “Grande Guerra Patriótica” e uso da fita de São Jorge. A memória soviética da guerra se baseia num aspecto irrefutável: o centro decisivo da guerra foi o front oriental – do Ártico à Crimeia –, onde se concentrou o principal esforço de destruição do nazismo.

27 milhões de mortos

Adolf Hitler queria destruir a União Soviética, exterminar o comunismo e submeter os povos eslavos ao projeto colonial nazista. Buscando ganhar tempo frente à perspectiva de uma guerra inevitável, a União Soviética assinou com a Alemanha, em agosto de 1939, o Pacto Molotov-Ribbentrop – um acordo de não agressão com prazo de dez anos.

Mas Josef Stalin sabia que os alemães quebrariam o pacto a qualquer momento – o que ocorreu em junho de 1941. Na maior invasão militar da história, mais de 3 milhões de soldados alemães foram mobilizados para a Operação Barbarossa. O 3º Reich previu mais uma vitória rápida, a fim de conquistar “espaço vital” e recursos, avançando pelo front oriental.

Foi o início de uma ofensiva que se estendeu por quatro anos (1941-1945) e teve um custo humano colossal. A União Soviética perdeu aproximadamente 27 milhões de pessoas entre civis e militares – 14% de sua população pré-guerra. Para cada soldado norte-americano ou britânico perdido, 20 soviéticos tombavam. Só o cerco de Leningrado produziu baixas humanas comparáveis – e possivelmente superiores – às sofridas por Estados Unidos e Inglaterra em toda a guerra.

Foram as mães, os operários e os camponeses da União Soviética que absorveram o choque principal do nazismo. Cidades inteiras foram arrasadas; regiões industriais desapareceram sob bombardeios; milhões morreram em cercos, massacres, campos de concentração e batalhas de extermínio.

Porém, em meio ao inverno russo e graças à determinação do Exército Vermelho, os soviéticos impuseram a derrota aos nazistas às portas de Moscou em janeiro de 1942. O fracasso da Operação Barbarossa pôs em xeque a superioridade da Wehrmacht, a força armada unificada da Alemanha Nazista, e assinalou o primeiro de três reveses do 3º Reich no território soviético.

A epopeia industrial soviética

Com a Barbarossa, a União Soviética perdeu suas regiões mais industrializadas, como a Ucrânia, a Bielorrússia e os territórios bálticos. Diante do colapso iminente, Moscou apostou num prodígio de engenharia industrial: desmontou mais de 1.500 fábricas inteiras, carregou-as em trens para o leste dos Urais, fora do alcance alemão, e as remontou no meio do inverno, nas estepes congeladas, em tempo recorde.

A audácia surtiu efeito: quando os dois países voltaram a se enfrentar nas maiores e mais sangrentas batalhas de todos os tempos, a produção soviética de tanques – especialmente o lendário T-34 – já superava a alemã. Em Stalingrado (1942-1943), o verdadeiro ponto de virada da guerra, o 6º Exército alemão – que tinha 300 mil homens e era tido como invencível –, foi cercado e arrasado. Nunca antes um exército de Hitler havia capitulado em massa.

Já em Kursk (1943), na maior batalha de tanques da história, a capacidade blindada da Wehrmacht foi definitivamente destruída. Quando os aliados desembarcaram na Normandia, em 1944, 80% da máquina de guerra alemã já havia sido aniquilada na União Soviética. Além disso, 75% das perdas militares alemãs na 2ª Guerra ocorreram na frente oriental, diante do Exército Vermelho.

O Dia da Vitória foi o ponto culminante do contra-ataque. Em 1945, os soviéticos tomaram Berlim rua por rua, bunker por bunker, obrigando a Alemanha a se render e silenciando o rugido dos canhões na Europa. O pesadelo de seis anos que destruiu nações, dizimou 70 milhões de vidas e expôs o pior da natureza humana chegava ao fim. Após um esforço gigantesco, a União Soviética esmagou o nazismo, salvou o mundo e redesenhou a história.

O comunismo no auge

Tamanha proeza transformou a União Soviética na principal potência moral e militar do pós-guerra. Foi um Estado socialista, dirigido por um partido comunista, que suportou o maior peso da luta contra o nazifascismo. Enquanto Londres e Washington retardavam a abertura de uma segunda frente no oeste europeu, o Exército Vermelho sustentava praticamente sozinho o choque principal da guerra terrestre contra o pior regime da história.

Stalin, antes visto com desconfiança em grande parte do Ocidente, foi reconhecido como o dirigente que comandou a derrota do nazismo. Como seu país havia pagado o maior preço, o líder soviético se sentou à mesa das conferências de Teerã e Yalta como igual ou superior a Franklin Roosevelt ou Winston Churchill. Chamado de “Pai da Vitória”, Stalin se tornou o principal rosto da vitória aliada. Revistas como a Time – que já o havia aclamado “Homem do Ano” por duas vezes durante a guerra – davam-lhe ainda mais destaque.

A vitória soviética também produziu uma mudança profunda na ordem mundial. O comunismo deixou de ser visto apenas como uma corrente revolucionária isolada e passou a aparecer, para milhões de pessoas, como uma força moderna, patriótica, industrializante e capaz de derrotar o fascismo. Era um modelo de sociedade a ser seguido.

Intelectuais e artistas em todo o mundo ocidental aderiram ao movimento comunista, que estava no auge de seu prestígio histórico. Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir simpatizavam abertamente com o marxismo. Pablo Picasso se filiou ao Partido Comunista Francês. Nos anos seguintes à guerra, os partidos comunistas da França e da Itália – que lideraram a resistência contra o nazifascismo – tornaram-se forças políticas eleitorais de primeira grandeza.

Outras legendas marxista-leninistas cresceram rapidamente na Grécia e na China, bem como em diversos países da América Latina, África e Ásia. Ao mesmo tempo, o avanço do Exército Vermelho sobre o Leste Europeu abriu caminho para o surgimento do bloco socialista. Polônia, Hungria, Tchecoslováquia, Bulgária, Romênia, Albânia e a própria Alemanha Oriental passaram a integrar a órbita soviética, inaugurando um novo equilíbrio global de forças.

A nova ordem mundial

A derrota do nazismo acelerou o declínio das antigas potências coloniais europeias e inspirou movimentos de libertação nacional em todo o Sul Global. Revoluções e processos anti-imperialistas passaram a enxergar na União Soviética uma referência política e estratégica. Com a ascensão socialista em escala mundial, o sonho de uma sociedade sem exploração, longe de desaparecer, alastrou-se por um terço da humanidade.

Em 1949, a República Popular da China foi proclamada por Mao Tsé-tung, após uma guerra civil em que os comunistas derrotaram os nacionalistas. O modelo soviético de revolução havia se espalhado para o país mais populoso do planeta. Em 1950, a Coreia estava em guerra, dividida exatamente na fronteira entre os dois mundos que Yalta havia desenhado. Em 1959, Fidel Castro e Che Guevara chegavam a Havana. Em 1975, o Vietnã se unificava sob bandeira vermelha.

Cada um desses eventos tinha raízes distintas e trajetórias próprias. Mas todos bebiam, de alguma forma, da fonte de legitimidade que o Dia da Vitória havia criado: a prova, escrita em sangue e fogo, de que o socialismo podia vencer.

Maio de 1945 marcou, portanto, o nascimento de uma nova era. Junto à derrota do nazismo, emergiu um mundo bipolar, ideologicamente dividido e profundamente transformado pela ascensão da União Soviética. O capitalismo ocidental já não era a única força capaz de projetar poder global. O socialismo passava a disputar os rumos da humanidade em escala planetária.

O Dia da Vitória, celebrado em 8 ou 9 de maio, permanece como memória de um feito histórico sem precedentes: a derrota do nazifascismo pelas mãos de milhões de trabalhadores, soldados e povos soviéticos que resistiram, sangraram e mudaram o destino do século 20.

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China reduziu a pobreza em proporção sem precedentes na história https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/china-reducao-da-pobreza.html

Humor de resistência


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Fotografia & IA

Quando a técnica escreve: da fotografia à IA
A história da arte é também a evolução da técnica. No século XX, a fotografia deslocou o gesto manual para o olhar. Hoje, a estética produzida pela IA reabre cenário semelhante, mas transfere o gesto à linguagem – o que não excluí o debate sobre autoria e consentimento
Hélio Miranda Costa Jr./Outras Palavras    


No início do século XX, a arte entrou em crise não por falta de imaginação, mas por excesso de técnica. A fotografia deixou de ser curiosidade científica e passou a ocupar o espaço simbólico antes quase exclusivo da pintura. O desconforto não era apenas uma disputa de estilo. Tocava algo mais sensível: a maneira como a cultura ocidental compreendia singularidade, autoria e criação.

Quando uma imagem pode ser reproduzida indefinidamente, o que acontece com sua autoria? Onde se localiza o gesto artístico quando a máquina participa do processo? Essas perguntas desestabilizavam uma tradição que associava arte à presença irrepetível.

Walter Benjamin captou essa inflexão ao afirmar que “aquilo que se atrofia na era da reprodutibilidade técnica da obra de arte é a sua aura”. A aura não é misticismo. É o “aqui e agora” da obra, sua presença singular ligada a uma história concreta. A reprodução técnica desloca essa presen&cc edil;a.

Como ele observa, “a técnica reprodutiva desliga o reproduzido do campo da tradição”. O valor de culto cede espaço ao valor de exposição. O que antes exigia recolhimento passa a circular.


A reação foi intensa. Muitos viram na fotografia uma ameaça à profundidade da arte. A máquina parecia incapaz de intenção. O temor era que a técnica empobrecesse o sensível. Benjamin, porém, desloca o foco. Ele lembra que, ao longo da história, quando o modo de vida coletivo se transforma, também se transforma a percepção. A técnica não apenas produz novas imagens. Ela reorganiza o modo de ver.

Com a fotografia, “a mão foi aliviada das mais importantes obrigações artísticas”. O gesto manual não desaparece, mas muda de função. A máquina registra. O fotógrafo escolhe. O enquadramento, o instante, a insistência passam a definir o resultado. A autoria já não coincide totalmente com a execu&c cedil;ão material.

Esse deslocamento não é abstrato. Durante anos, desenhar exigia de mim uma concentração quase física. O traço dependia da pressão da mão, da repetição paciente, da tentativa e erro. Quando passei a fotografar com mais frequência, percebi que o esforço não diminuía; apenas mudava de lugar. Uma fo tografia não nasce do clique automático. Ela exige deslocamento no espaço, espera pela luz adequada, insistência. Muitas vezes são necessárias dez ou vinte tentativas até que uma imagem corresponda ao que estava apenas intuído.

A câmera registra, mas o gesto é meu. A escolha do ângulo, o momento do disparo, a decisão de insistir pertencem ao humano. O dispositivo não elimina o autor. Ele reorganiza sua atuação.

Décadas depois, a estética produzida por sistemas de inteligência artificial reabre cenário semelhante. Quando uma imagem surge a partir de uma descrição textual, as perguntas retornam: isso é arte? Há intenção? Existe autor?< /span>

É impreciso afirmar que a IA cria sem referente. Se na fotografia o referente estava diante da lente, aqui ele se desloca para o horizonte da linguagem. A imagem nasce da ativação de possibilidades descritas por palavras. Ainda assim, há intenção humana. Alguém formula. Alguém direciona. Alguém escolhe.

A experiência revela isso com nitidez. Ao descrever uma cena em um prompt, raramente a primeira imagem corresponde ao que se imaginava. Ajusta-se a linguagem, modifica-se o estilo, retira-se um elemento, acrescenta-se outro. Às vezes surge um detalhe inesperado que melhora o resultado. Não foi exatamente pedido, mas é acolhido. A imagem final emerge desse vaiv&eac ute;m.

O processo já não é linear. Humano orienta. Máquina sintetiza. Humano seleciona. Humano itera. A criação torna-se distribuída. Uma coagência.
Se a fotografia deslocou a mão para o olho, a inteligência artificial desloca o gesto para a linguagem. O artista não desaparece. Ele reformula sua posição. A questão ética não reside na ausência do humano, mas na redistribuição da autoria e da responsabilidade nesse novo arranjo técnico.< /span>

Essa perspectiva ajuda também a relativizar parte do debate contemporâneo. É legítimo discutir os bancos de dados que treinam os modelos e as assimetrias envolvidas nesse processo. Mas a fotografia nunca foi completamente neutra. Ao registrar uma multidão atravessando uma avenida, cada rosto captado participa da imagem sem consentimento formal. A cidade int eira torna-se matéria visual. O que está em jogo não é pureza, mas negociação constante entre intenção, técnica e mundo.

Nesse ponto, o conceito de shanzhai, discutido por Byung-Chul Han, oferece outro deslocamento. No pensamento chinês, a criação não se funda em um início absoluto. Não há obsessão pela origem únic a. A obra é processo contínuo. Copiar não é trair; é participar da transformação. Os selos nas pinturas não fecham a obra, mas a mantêm aberta ao diálogo.

A tradição ocidental, ao contrário, consolidou a ideia de criação como ruptura inaugural. A assinatura sela. Afirma uma identidade fixa. Essa concepção está ligada à noção de verdade como permanência.

Quando modelos algorítmicos operam por recombinação em vastos conjuntos de dados, eles expõem algo que sempre esteve na base da criação: variação dentro de um campo compartilhado. O que inquieta talvez não seja a cópia, mas a erosão do mito da origem pura.

Isso não dissolve a ética. Ao contrário, torna-a mais complexa. Quem responde pelas exclusões que estruturam os bancos de dados? Quem responde pelos vieses incorporados ao modelo? A neutralidade estatística não elimina responsabilidade.

A história da fotografia mostra que a técnica não destrói automaticamente a arte. Ela a obriga a se reinventar. A pintura encontrou novos caminhos. O cinema consolidou sua própria linguagem. A estética algorítmica pode representar outro momento dessa transformação.

Talvez a repetição histórica não esteja na técnica, mas na inquietação que ela provoca. Sempre que a arte se aproxima da máquina, surge o temor de perder algo essencial. E, no entanto, é nesse encontro que novas formas emergem.

Se a fotografia ensinou que singularidade pode conviver com reprodução, a inteligência artificial nos convida a repensar originalidade como processo contínuo. Não se trata de proteger uma essência imutável, mas de habitar o fluxo sem abdicar da responsabilidade que acompanha cada gesto, mesmo quando esse gesto passa pela linguagem e pelo c&aacu te;lculo.

A técnica não escreve sozinha. Mas quando escreve conosco, obriga-nos a revisar o que entendemos por criação, autoria e ética. A história não se repete mecanicamente. Ela ecoa. E nesses ecos talvez possamos reconhecer que a ética sempre habitou as evoluções estéticas, não como freio externo, mas como consci& ecirc;ncia interna do modo como criamos e transformamos o mundo.

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08 maio 2026

Ciro entranhado no bolsonarismo

Operação da PF contra Ciro Nogueira expõe entranhas do bolsonarismo
Investigação sobre propinas de R$ 500 mil pagas pelo Banco Master atinge ex-ministro da Casa Civil e gera crise na articulação política da extrema direita
Davi Molinari/Vermelho   

A deflagração da 5ª fase da Operação Compliance Zero pela Polícia Federal, nesta quinta-feira (7), colocou o senador Ciro Nogueira (PP-PI) no centro de um esquema de corrupção que reverbera diretamente nos planos eleitorais da extrema direita para 2026. 

Ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, Nogueira é investigado por supostamente receber repasses mensais de R$ 500 mil do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, em troca de favorecimentos parlamentares e liberação de emendas. A ação, autorizada pelo ministro André Mendonça, incluiu mandados de busca e apreensão e a proibição de contato entre os investigados, aprofundando o desgaste de uma figura que, até então, era tratada como peça orgânica do ecossistema político da família Bolsonaro.

Ciro Nogueira:  o homem do Centrão no governo Bolsonaro

A trajetória de Ciro Nogueira no núcleo duro do governo anterior consolidou-se em julho de 2021, quando ele assumiu a chefia da Casa Civil. A nomeação marcou o momento em que o governo Bolsonaro entregou formalmente as chaves da articulação política ao chamado Centrão, abandonando o discurso de campanha de 2018 que prometia o fim da “velha política”. No cargo, Nogueira não apenas coordenou o fluxo de decisões do Executivo, mas operou como fiador da governabilidade, prometendo uma base fiel de mais de 370 deputados. Relatórios de gestão da Presidência da República documentam que sua função ia além da burocracia, servindo como a principal ponte entre o Palácio do Planalto, liberação de emendas para atender  e os interesses fisiológicos do Congresso Nacional.

A simbiose entre Nogueira e o clã Bolsonaro ultrapassou os limites ministeriais e refletiu-se em uma atuação parlamentar coordenada no Senado. Registros oficiais mostram que o senador piauiense e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) assinaram conjuntamente proposições de alto impacto, como a PEC 4/2026, que trata de regras de inelegibilidade. Notas de comissões como a de Constituição e Justiça (CCJ) também revelam momentos de sintonia operacional, com Flávio Bolsonaro intervindo pessoalmente para garantir que o tempo de votação fosse respeitado para aguardar o voto de Ciro. Essa proximidade institucional alimentou, nos últimos meses, a construção de uma chapa presidencial para o próximo pleito, na qual Nogueira era abertamente cotado como o “vice dos sonhos”.

Lei mais: PF mira Ciro Nogueira em apuração de escândalo do banco Master

Declarações públicas recentes reforçam a profundidade dessa aliança. Flávio Bolsonaro chegou a exaltar o perfil nordestino de Ciro e sua “lealdade demonstrada ao presidente” como trunfos para uma candidatura unificada da direita. Por sua vez, o presidente nacional do PP admitiu que, em um cenário ideal, escolheria Flávio como sucessor político de Jair Bolsonaro, condicionando o apoio apenas a uma suposta “moderação” para evitar o rótulo de extrema direita. Encontros frequentes na residência de Nogueira, em Brasília, serviam de palco para as negociações da federação entre o PP e o União Brasil, projeto que visava garantir capilaridade regional e tempo de televisão para o projeto bolsonarista.

Contudo, o avanço das investigações sobre as fraudes ligadas ao Banco Master altera sensivelmente o tabuleiro político. Diante da gravidade das acusações de “mesadas” para favorecer interesses financeiros no Legislativo, o tom de Flávio Bolsonaro sofreu uma inflexão imediata. Em declarações recentes, o filho do ex-presidente classificou as denúncias como graves e defendeu apuração rigorosa, sinalizando uma tentativa de distanciamento para evitar que o escândalo contamine sua pré-campanha. Para analistas políticos, a operação torna a aliança “tóxica”, uma vez que aproxima suspeitas de crimes financeiros do núcleo político que tenta se reorganizar após a derrota de 2022. O impacto da Compliance Zero agora coloca sob suspeita a viabilidade de uma coalizão que parecia consolidada.

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Crônica de uma vitória a conquistar https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/minha-opiniao_30.html