04 junho 2026

Minha opinião

Adversário oportuno*
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65     

Campanhas eleitorais são uma espécie de arena onde gladiadores disputam o pódio com todas as armas disponíveis.

Em princípio, seria o confronto de atributos positivos, de diversas naturezas, que uma vez assimilados pela grande plateia - o eleitorado -, propiciaria a vitória ao melhor dos contendores.

Mas não é bem assim. Ou é, porém numa complexidade em boa parte determinada pelas circunstâncias da luta e pela “bagagem” exibida por cada gladiador.

O presidente Lula disputará o pleito contra mais de um oponente, mas dentre eles, pelos menos por enquanto, o senador Flávio Bolsonaro (PL), dito filho 01 do ex-presidente encarcerado Jair, se destaca.

Um adversário oportuno. Vulnerável, ainda que arrogante e predisposto a toda sorte de manobras distantes anos luz de qualquer consideração de ordem ética.

Um candidato em ascensão? Longe disso. Desde que reveladas suas relações comprometedores com o ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro, o senador dedica parte substancial do seu tempo a se explicar diante da opinião pública e mesmo dos próprios correligionários. O que se reforça agora com a retomada do “tarifaço” de Donald Trump contra a economia brasileira, onde estão nítidas as digitais do bolsonarismo.

Na correspondência enviada por Trump a Lula, são mencionadas supostas fragilidades no combate à corrupção e questionamentos ao sistema Pix para justificar as barreiras protecionistas. Tudo a ver com a retórica enviesada do clã Bolsonaro, tornando justa a alcunha de "Tariflávio" que agonia o senador nas redes sociais.

Num ambiente político minimamente sério e sujeito a normas jurídicas aplicáveis e diante de uma opinião pública atenta e crítica, o candidato bolsonarista raiz já teria desistido ou afastado pelo próprio partido.

Ao contrário, esperneia como pode e aciona o arsenal de comunicação digital pautado pelo conceito de “pós-verdade”, em que a fronteira entre o acontecido e o inventado é tão tênue quanto um fio dental.

Nessas circunstâncias, avulta um paradoxo: o principal candidato da extrema direita, herdeiro direto de minoritário, porém consistente naco do eleitorado de todo o país é também o melhor adversário a ser enfrentado pela ampla coalização democrática e popular liderada pelo presidente Lula.

Antes de tudo porque, em razão das diatribes do senador junto ao governo norte-americano, com o qual se relaciona de forma subserviente, a defesa da soberania nacional avulta como destaque na cena eleitoral, bandeira capaz, a um só tempo, de demarcar campos e elevar o nível de consciência da população.

Politiza a disputa, para além do confronto entre as chamadas “entregas”, quase sempre referidas a politicas e programas socialmente compensatórios que, embora importantes, não podem nem devem se sobrepor à questão nacional e à defesa da democracia.

O discurso das “entregas” gera gratidão, mas não a consciência política necessária.

Mas quando se relacionam as “entregas” com a soberania nacional e a defesa e o aprimoramento do regime democrático, à gratidão se acrescenta a consciência política que esclarece, organiza e mobiliza.

Sim, o senador bolsonarista raiz é o melhor adversário a enfrentar nas atuais circunstâncias.

*Texto da minha coluna semanal no portal ‘Vermelho’

[Ilustração: imagem produzida por IA]

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Lula desmascara extrema direita https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/palavra-de-lula.html 

03 junho 2026

Surpreendente, emocionante

A Buenos Aires nordestina que admira e torce pela Argentina
Documentário que estreia neste mês traz cotidiano da cidade pernambucana que tem o nome da capital do país vizinho. Dirigida por Tuca Siqueira, obra exibe torcida na Copa e decisão com Boca quase homônimo do clube argentino
Luís Curro/Folha de S. Paulo    
 

"Como o filme fala de universos que de alguma maneira tentam se aproximar —ou, ao menos, como a Buenos Aires pernambucana tenta se assemelhar a uma outra Buenos Aires, a argentina—, existe um espírito da Copa que atravessa o filme" - Tuca Siqueira produtora, roteirista e diretora do documentário 'BuenosAires’ 


No dia em que a Copa do Mundo deste ano dá seu pontapé inicial, 11 de junho, com México x África do Sul, estreia nos cinemas um documentário que mostra uma Buenos Aires diferente da conhecida mundialmente.

Não com um outro olhar em relação à capital da Argentina. É uma outra Buenos Aires mesmo. A cidade de Buenos Aires que fica no interior de Pernambuco, a cerca de 80 km do Recife, na Zona da Mata do estado nordestino.

"BuenosAires", produzido e dirigido por Tuca Siqueira, que se tornou uma frequentadora do município a fim de conhecê-lo e compreendê-lo para roteirizá-lo, não tem como foco único o futebol, porém ele está presente de forma significativa no dia a dia da população de 13 mil habitantes.

Nesse "filme-paisagem", assim definido pela diretora, que tem narração em espanhol (com legendas em português) de uma professora que ensina na Buenos Aires pernambucana a língua falada na Argentina, a população, ao menos parte dela, identifica-se com a Argentina.

No comércio, as camisas da seleção liderada por Lionel Messi aparecem em número similar ao da seleção brasileira. Cidade afora, pessoas andam costumeiramente com a vestimenta com listras verticais azuis e brancas. Houve, tamanha veneração, quem desse ao filho o nome Lionel.

Um visitante desavisado que chegue à cidade pode, com razão, não entender nada, e o filme peca por não explicar –talvez por meio de um historiador– por que a localidade, que um dia chamou-se Jacu (uma ave), desde 1928 é Buenos Aires. Falta esse contexto.

O fato é que as pessoas de lá convivem bem com o gentílico buenos-airense, e muitas gostam bastante desse elo com a xará famosa.

Um exemplo da conexão: a empanada, um salgado muito consumido na Argentina, está presente na alimentação cotidiana da Buenos Aires de Pernambuco.

Nos dias de jogos da seleção alviceleste na Copa, muitos dos habitantes estarão reunidos suas casas, em bares ou espaços comunitários para torcer fervorosamente pela atual campeã mundial, como aconteceu, conforme mostra "BuenosAires", no Mundial no Qatar, no final de 2022.

[Ilustração: Cartaz do documentário "BuenosAires", de Tuca Siqueira]

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Veja trailer no YouTube https://www.youtube.com/watch?v=7370QIONXFE&t=5s 

"Sem essa de que o sonho acabou"

BUENOSAIRES
Os sonhos dos moradores da cidade homônima argentina em Pernambuco
Edjuardo Escorel/piauí    

Duas citações, feitas no início da narração de BuenosAires, deixam claro o propósito da diretora e roteirista Tuca Siqueira. A intenção dela é tratar dos sonhos, ou expectativas, de moradores de Buenos Aires, município situado na Zona da Mata de Pernambuco, com cerca de 13 mil habitantes, homônimo da capital da Argentina, metrópole com população aproximada de 3,1 milhões.

Primeiro é mencionado, em voz off, o título da famosa obra de Calderón de La Barca, A vida é sonho, do século XVII. Em seguida, é reproduzido o que Waly Salomão teria dito no século XX: “Sem essa de que o sonho acabou: A Vida é Sonho. A Vida é Sonho. A Vida é Sonho” (versão gravada, disponível no YouTube, mostra ligeira diferença no que Salomão diz: “Chega de papo furado de que o sonho acabou. A vida é sonho, a vida é sonho.”

A breve narração no prólogo acompanha imagens que variam entre um tom onírico e outro mais documental – em contraluz, um homem, com um detector de metais e uma picareta, faz prospecção em meio à plantação e próximo ao canavial. Surgem dois personagens do Maracatu, vestindo trajes típicos, e como que ensaiam sua coreografia perto dele sem que tomem conhecimento um do outro. Siqueira reafirma, por sua vez, a premissa do filme – a preservação dos sonhos – ao declarar no press release que, após ter passado a frequentar a cidade em 2016, a cada ida a Buenos Aires, enxergava um pouco mais daquela pequena cidade simples que me mostrava uma realidade vestida de sonho e graça. Pessoalmente, acredito que, desde 2016, sofremos politicamente de uma tentativa constante de roubar nossos sonhos. Roteirizar, dirigir, produzir e, sobretudo, estar em contato com esses personagens me proporcionou o exercício da manutenção do sonho. E é disso que esse filme fala.

O detector de metais que permite encontrar moedas antigas enterradas talvez possa ser tomado como metáfora do próprio filme que não deixa de também estar à procura de tesouros escondidos. Sem se preocupar em esclarecer a origem do nome da cidade – uma curiosidade legítima e inevitável –, mas que pode ser satisfeita consultando matéria publicada em 2007 –, Siqueira se concentra em apresentar os sonhos de um rol de moradores da Buenos Aires pernambucana, além dos sinais da presença da metrópole argentina na cidade de Pernambuco. Uma certa melancolia perpassa os desejos e as fantasias relatados. Alguns guardam vínculo com o nome da cidade – visitar a capital portenha, ter um time de futebol chamado Boca J uniors, viver na Argentina. Outros independem dessa relação – o próximo desfile de carnaval do Maracatu Estrela Dourada, continuar provendo casa e comida para a mulher e o filho, ser roqueiro, ser enterrado no cemitério onde trabalha, jogar futebol em grandes equipes, criar o Museu dos Engenhos.

No final, antes da despedida na aula de espanhol e do carro com placa de PE BUENOS AIRES ir se afastando com os créditos de encerramento superpostos, o plano geral da Buenos Aires pernambucana é acompanhado por um trecho da narração eivado de didatismo, em princípio dispensável:

Em qualquer canto do mundo haverá distâncias entre o que quer ser e o que pode ser. Habitando exatamente os mesmos espaços onde vivem sonhos novos, sonhos velhos, sonhos ignorados e sonhos ainda não conhecidos.

Embora, além da curiosidade de seu tema, tenha também o mérito de ser curto – exatos 70 minutos –, BuenosAires repete e prolonga em demasia algumas sequências, em especial às relacionadas ao futebol. O que talvez se explique pela necessidade de atender a duração mínima exigida pela Ancine para ser considerado um longa-metragem. Há, por outro lado, algumas demonstrações valiosas de sabedoria popular, como a do coveiro Souza que pergunta: “Já viu morte boa? Não tem. Ter tem. A morte boa é aquela que a gente morre em casa, né? Sem acontecer nada, igual aqui esse [referência a um falecido enterrado em um túmulo ao seu lado]. Estava em casa dormindo. Massa de homem, olha! E pá, pá.”

Após ser exibido na Mostra de Cinema de Gostoso, em 2025, e participar, este ano, do Cine/PE Festival do Audiovisual, de 1 a 7 de junho, a estreia em cinemas de BuenosAires está marcada para o próximo dia 11 no Rio de Janeiro e São Paulo, além de Recife, João Pessoa e Niterói.

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A Buenos Aires nordestina que admira e torce pela Argentina https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/surpreendente-emocionante.html 

Palavra de poeta

No meio do caminho
Carlos Drummond de Andrade   

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

[Ilustração: Di Cavalcanti]

Leia também: “O fascinio da lata de sardinhas” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/minha-opiniao_2.html 

Fotografia

Pedro Caldas

Editorial do 'Vermelho'

Redução da jornada e fim da escala 6×1: a batalha agora é no Senado
Primeira vitória da proposta é resultado de ampla mobilização, que deve ser reforçada como pressão para que os senadores confirmem a votação da Câmara
Editorial do 'Vermelho'   

A aprovação pela Câmara dos Deputados, em dois turnos, da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que reduz a jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas por semana em até 14 meses e decreta o fim da escala 6×1 foi uma vitória expressiva, com 472 votos a 22 na primeira etapa e 461 votos a 19 na segunda. Foi uma vitória da justeza, condizente com a realidade da estrutura econômica do país, com ganhos de produtividade – o valor produzido por hora trabalhada – injustamente distribuídos.

Trata-se de uma matéria difícil, por conta da barreira contrária que se ergueu, um espectro que abrange setores empresariais e seu braço político, a extrema direita e parte da direita. A bancada do PL, do candidato Flávio Bolsonaro, em sequência, tentou adiar a votação, impor uma transição de dez anos à redução da jornada e, horas antes da decisão em plenário, passou a defender a redução de escala para 4×3 como forma de enfrentamento político, um factoide com o declarado intuito de fazer algazarra e prejudicar a votação. Derrotado em todas essas manobras, o PL, no plenário, indicou o voto contra. Flávio Bolsonaro e a bancada bolsonarista deixaram claro que são inimigos dos trabalhadores.

A vitória é resultado de tomada de consciência dos trabalhadores sobre a necessidade imperativa dessa medida, num movimento que agregou grandes parcelas do povo pela correta tática de mobilização contínua nas ruas e nas redes, puxada pelo fórum das centrais sindicais – o vértice de todo o processo – e entidades dos movimentos sociais, e ampla articulação política e social, inclusive com segmentos do empresariado.

Como destacou Adilson Araújo, presidente da Central dos Trabalhadores e trabalhadoras do Brasil (CTB), “depois de uma longa transição de 38 anos, desde que aprovamos na Constituição Cidadã a redução da jornada de 48 horas para 44 horas, a decisão dessa matéria segue sendo aguardada com muita ansiedade por milhões de brasileiras e brasileiros”.

Destaque-se o papel do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que celebrou a vitória como uma “conquista civilizatória”, e do governo como um todo, que atuou na linha de frente nas negociações no Congresso Nacional, empunhando uma bandeira histórica de direitos trabalhistas no centro da agenda econômica nacional, como ocorreu com a criação da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) pelo presidente Getúlio Vargas em 1943, com o limite da jornada de trabalho em 48 horas semanais, e na Constituinte de 1987-1988, com a redução para 44 horas.

Lula articulou reuniões estratégicas com lideranças políticas, incluindo o presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB). A liderança do governo negociou o modelo de transição para desarmar resistências, conseguindo apoio inclusive do denominado “centrão”. Outro fator mobilizador foi a batalha de ideias, que ecoou forte em debates, seminários e reuniões de variados gêneros. Contou também a pressão do ano eleitoral sobre os deputados.

Merece destaque ainda a atuação das bancadas do campo progressista e o importante papel dos deputados do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) no debate, na articulação entre os movimentos sindical e sociais, além do permanente diálogo na Câmara dos Deputados. Hugo Motta elogiou e reconheceu publicamente os méritos das deputadas Daiana Santos (PCdoB-RS) e Erika Hilton (PSOL-SP) e do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que haviam apresentado propostas de redução da jornada, sem redução salarial.

O PCdoB, seja no movimento sindical, seja no parlamento tem se dedicado a essa bandeira. Em 2006, o deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA) apresentou um Projeto de Lei sobre a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. Antes, em 1995, o deputado Inácio Arruda (PCdoB-CE) apresentou a PEC que reduz a jornada para 40 horas e aumenta o valor da hora extra de 50% do valor normal para 75%.  A proposta foi arquivada em 1999, em razão da mudança de legislatura, sendo desarquivada em seguida e arquivada novamente em 2003 e em 2007.

Daiana Santos definiu a luta pela proposta como anseio “do povo que trabalha duro para viver”. “A redução da jornada é uma resposta concreta a essa demanda, que reflete o anseio de milhões de brasileiros por melhores condições de trabalho e qualidade de vida”, afirmou. Jandira Feghali (PCdoB-RJ) celebrou a aprovação como “um dia histórico”. “Fico muito feliz em fazer parte dessa história, colocando à disposição toda a minha luta, todo esse meu desejo de transformação.”

Mas ainda há uma pedra no meio do caminho. A batalha não terminou. Falta confirmar a vitória no Senado Federal. Não se pode distensionar, tampouco deixar de concentrar energias para assegurar a vitória final, que será histórica enquanto conquista dos trabalhadores, com impacto no resultado das eleições.

A tática vitoriosa na Câmara deve continuar na votação no Senado, onde são necessários pelo menos 49 votos favoráveis. O primeiro passo deve ser um forte e amplo apelo para que a votação não se mova a passos de tartaruga. É preciso considerar também que um terço dos senadores não disputam a eleição e continuam cumprindo a segunda metade de seus mandatos, anulando, em parte, nesse caso, a pressão do voto popular, um grau de dificuldade a mais.

Há também a pressão empresarial. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), reuniu-se com representantes do empresariado contrários à proposta. Outro obstáculo é a chamada PEC do horário flexível, ou melhor, a “PEC dos Patrões” encabeçada pelo coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro e líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), a falácia de que os trabalhadores podem optar por um regime de horas baseadas em livre pactuação, um suposto livre acordo individual à margem da CLT para impor o controle absoluto do capital sobre o trabalho. Essa PEC dos bolsonaristas é, na verdade, um tiro de bazuca contra os trabalhadores: não acaba com a escala 6X1 e não reduz a jornada.

Com a maioria social e política construída em torno do fim da escala 6X1 é, sim, possível confirmar a aprovação da PEC oriunda da Câmara. Mas os obstáculos não podem ser subestimados, cenário que exige intensificar a mobilização de amplo espectro, prosseguir com a luta de ideias, avivando a justeza da proposta, e pondo a nu o embuste da PEC dos bolsonaristas. Como são 81 senadores, é possível, inclusive, uma abordagem personalizada, mostrando a cada um a importância do voto favorável. Essa pressão ganhará força com a mobilização popular e com o indispensável papel do presidente Lula e do seu governo.

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Elias Jabbour: Como o dinheiro do Banco Master financiou o bolsonarismo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/relacoes-inconfessaveis.html

Testemunho

Butim de guerra ou roubo puro e simples?
Mário Miranda de Albuquerque* 

A propósito dos fatos referentes à apropriação por parte de militares e policiais, de bens pessoais de opositores aprisionados no período da ditadura, que têm sido levados a público pelo Instituto o Conhecimento Liberta (ICL), com base nos arquivos do coronel Cyro Etchegoyen, cada um deve ter casos pra contar. Conto os meus.

 1.⁠ ⁠Quando fui conduzido ao DOPS-PE, em 5/2/1971, dia em que fui preso na Praia de Maria Farinha (município de Paulista, região metropolitana de Recife), identifiquei vários dos meus torturadores usando calças e camisas a mim pertencentes, levados da primeira residência em que passei a morar com minha então companheira, Vera Maria Rocha Pereira, quando de nossa chegada à capital pernambucana. Essa residência (sediada à rua Barão de Bonito, bairro Caxangá), fora invadida por órgãos de repressão do regime, conhecidos como os mais brutais da ditadura, onde vários militantes políticos foram assassinados sob tortura. Obviamente, não fiz qualquer reclamação sobre a usurpação. Eles chamavam de “butim de guerra”.

 2.⁠ ⁠Por ocasião da minha transferência de prisão da Ilha de Itamaracá (PE) para o IPPS (Instituto Penal Paulo Sarasate), em 1975, ao abrir a mala constatei a falta de várias peças de roupa. Dessa vez a desculpa de ser “butim” não cabia, pois eu já estava há quase cinco anos preso. Afinal, eram roupas enviadas a mim por minha família. Farejei nesse episódio, então, rara oportunidade, naqueles tenebrosos tempos, de submeter a ditadura a um pequeno vexame e obter uma singela e simbólica vitória, em meio a tantas derrotas. Enviei ofício manuscrito à Auditoria Militar expondo o fato e solicitando providências no sentido de me ser devolvido o que me foi afanado. Um belo dia, pra surpresa minha e dos demais presos políticos recolhidos ao Pavilhão Sete (título do livro do historiador Airton de Farias), eis que adentra ao recinto uma comitiva de juízes militares, à frente o juiz auditor chefe, e me faz a entrega do vestuário surrupiado. Ao mesmo tempo, me comunicam que os responsáveis haviam sido identificados e punidos. Eu cheguei quase a cantar a Internacional. Logo a notícia correu o presídio todo, pois não era todo dia que se via cena como aquela, de humilhação e constrangimento público de autoridades daquele nível de superioridade. De imediato percebi que faltavam algumas peças, mas eu já amadurecera na arte do xadrez da luta política: gerar um constrangimento maior àquela altura poderia arriscar a importante batalha ganha (nem me recordo se já lera o antigo filósofo e estrategista chinês Sun Tzu). Eram outros tempos, de recuo da ditadura após a estupenda vitória da oposição nas eleições de 1974, tempos que passaram a permitir essas pequenas e ousadas manobras táticas.

*Ex-preso político 1971/79 (PE/CE). Conselheiro da Comissão Nacional de Anistia

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