10 junho 2026

Palavra de poeta

passos
Cida Pedrosa 

a rigidez das tuas botas 
espanta embuás
lagartas 
formigas 
e marca o chão 
longe da flor 


a rigidez das tuas botas 
conta passos 
e me permite ver 
a nudez deste parque 
encravado 
no centro de uma cidadela 
que se esvai


[ilustração: David Alfaro Siqueiros]

Arte é vida

 

Luciano Pinheiro

Qual a sua opinião? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/sua-opiniao.html 

Uma crônica de Joaquim Ferreira dos Santos

A bola de couro n°5 foi minha primeira namorada
É Copa do Mundo e o 'futebolês' ajuda a explicar o país
Joaquim Ferreira dos Santos/O Globo
 

Trila o apito Sua Senhoria e autoriza o início do prélio fundamental da existência humana, a Copa do Mundo com o seu dicionário de escanteios, trivelas, gols estufando o véu da noiva e outros tantos entrando lá onde a coruja dorme. É o futebolês, o português roçando a língua de Cristiano Ronaldo. Da cabine de transmissão, o locutor pergunta a este repórter-cronista atrás do gol: “Diga aí, JFS, o que foi que só você viu?”.

Eu vi a minha primeira bola de couro número cinco, aquela que vinha com uma câmara de ar por dentro e precisava, para ser enchida, de uma bomba de bicicleta ou uma visita ao posto de gasolina. Vi também – e senti o cheiro – o pedaço de sebo que o açougueiro dava à molecada para passar na bola e mantê-la com ares de nova. A número cinco de couro foi a minha primeira namorada, o dicionário onde ainda procuro o drible da vaca e a folha seca para escrever.

O futebolês é minha pátria, minha língua, e, se a foto ao lado mostrasse a camiseta inteira, seria possível ler estampada nela – “Quem se desloca recebe, quem pede tem preferência” – a frase do técnico Gentil Cardoso. Nos dias frios, quando não encontro um bom lugar nem para ler um livro, quando desaparece a vontade de vestir as chuteiras para fazer embaixadinhas com as palavras e ganhar a vida – é ela quem me põe em campo. Tenho dias de cabeça de bagre, de perna-de-pau, e os haters corneteiros não me deixam mentir. Às vezes, porém, no radinho Spica que me vai nas têmporas, ouço o locutor Orlando Batista comemorar comigo que “a nega tá lá dentro”. Era assim nos anos 60 – perdoai-os – a forma de gritar um gol.

Mas, agora, se lá da cabine à direita do gol de Ghiggia, o locutor perguntar novamente o que só você, JFS, tem visto por aí, eu – que nos próximos dias deixo de adorar os sabiás da crônica e tento emular Luiz Mendes, “o comentarista da palavra fácil” da Rádio Globo – eu diria em futebolês moderno que é preciso compactar a defesa dos valores brasileiros, ser mais vertical no ataque ao terço final do campo reacionário e usar mais pressão para abafar a saída de jogo dos que querem entregar a rapadura aos inimigos. Preencher os espaços desses cavadores de falta, perebas do carrinho por trás e da retranca democrática.

Tem os sambas do Chico, as mulatas do Di, as curvas do Niemeyer e a Pasárgada do Bandeira, mas nada nos explica com mais rapidez do que um elástico do Riva, uma pedalada do Robinho, os “Joões” do Garrincha, um passe de 40 metros do Gérson, uma ponte do Pompeia, a leiteria do Castilho, a bicicleta do Leônidas, a matada de costas do Neymar, as faltas do Zico, o voo do Pelé parando no ar para cabecear e o papo reto do “bola pro mato que é jogo de campeonato”.

O jogo da seleção anda pouco inspirado e o futebolês, que antes apostava na malandragem do “ripa na chulipa”, complicou o verbo – é um tal de falso 8, de jogadores escalados pela minutagem e até um segundo volante de contenção flutuando entre as linhas. Não me queixo. Tudo muda e o futebol vai junto. Neste terço final do gramado da existência, ouço vindo da cabine central do Maracanã o bordão filosófico do locutor Waldir Amaral: “O relóóóógio maaaaaaaarca!!!!!”.

[Ilustração: Carvall/Folha de S. Paulo]

Leia também: "Onde tudo se disputa" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_01973223157.html 

09 junho 2026

Cidades em disputa

A questão urbana em 2026
A frustração das camadas populares com a precariedade do espaço urbano exige que se desmascare o rentismo financeiro como o verdadeiro arquiteto da desigualdade nas metrópoles
Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro & Marcos Bittar Haddad*/A Terra é Redonda  

1.

O ano de 2026 se desenha como um momento histórico desprovido de presente. O Brasil caminha para um confronto eleitoral que é, ao mesmo tempo, repetição e promessa de ruptura. Duas forças antagônicas – o lulismo e o bolsonarismo – medirão forças em condições de virtual empate, restando uma fina película de aproximadamente 5% do eleitorado ainda indeciso. Esse fragmento, aparentemente residual, carrega o destino da nação. Sua oscilação, porém, não se explica apenas por indecisão programática. O que está em jogo é um fenômeno mais paradoxal e corrosivo: a metamorfose do progresso social em experiência de fracasso.

As camadas populares deveriam ser a base natural de um projeto que reconhecem como seu. Os indicadores macroeconômicos recentes oferecem um cardápio que, no passado, selaria o voto de esperança: pleno emprego, renda em lenta, mas consistente ascensão, crescimento econômico ainda que modesto, políticas redistributivas de impacto direto – como a isenção ampliada do Imposto de Renda para quem ganha até cinco mil reais e a capilaridade de programas de renda mínima.

Há um Estado que, sob a liderança de Lula, sinaliza com concretude para os de baixo. No entanto, esse mesmo eleitor vive uma experiência subjetiva que inviabiliza a tradução automática da política em adesão eleitoral.

O paradoxo reside na sensação de mobilidade social descendente que coexiste com a melhora dos números. É a frustração que nasce do endividamento perene, dos salários que, mesmo crescendo na média, são insuficientes para realizar as expectativas de consumo que o mercado digital inculca. Mas o mal-estar popular não se esgota na economia doméstica; ele transborda para a experiência brutal do território.

A geladeira cheia já não basta quando, para sair de casa, enfrenta-se o medo do celular roubado, da bala perdida ou a extorsão silenciosa do crime organizado infiltrado no cotidiano. O que dói não é apenas a parcela do carro ou da moto que não se consegue pagar, mas a tarifa do ônibus que devora o orçamento, o esgoto a céu aberto na porta de casa, a habitação precária que ameaça desabar na primeira chuva forte.

A repetição de desastres climáticos urbanos – enchentes, deslizamentos, calor extremo – deixa de ser exceção para se tornar um calendário trágico, consequência de um aquecimento global que atinge primeiro e com mais fúria quem vive nas áreas urbanas precárias. O presente é vivido como uma corrida em que a linha de chegada se afasta mais rápido do que as pernas podem correr, e onde o próprio chão sob os pés se desfaz.

2.

Essa experiência configura um terreno fértil para a narrativa da antipolítica, para o discurso que culpa o sistema sem jamais nomear os mecanismos reais que drenam a vida. É precisamente aqui que a intervenção de instituições como o Observatório das Metrópoles ganha sua razão de ser –, mas apenas se ousar ir além do diagnóstico. Não basta mapear desigualdades urbanas se não politizarmos a questão. O verdadeiro salto político consiste em difundir conhecimento que permita às camadas populares nomearem o seu verdadeiro inimigo. Enquanto o debate público permanecer capturado pela polarização entre personagens, o eleitor indeciso oscilará entre um passado idealizado e um futuro ameaçador, sem jamais enxergar a estrutura que o aprisiona.

Nomear o inimigo é desvelar as forças do rentismo financeiro e sua capacidade de exploração que sequestra tanto as finanças populares quanto o próprio Estado. É mostrar que a drenagem de recursos via juros abusivos, a financeirização da moradia, o endividamento como modo de vida e a canalização de fundos públicos para a remuneração de ativos financeiros constituem a arquitetura real da frustração. O trabalhador que vê seu salário evaporar no crédito rotativo, a família que compromete décadas com uma prestação imobiliária inflada, o microempreendedor sufocado por taxas: todos partilham um mesmo adversário que opera com nome falso na cena política.

O rentismo não é uma abstração econômica; é o síndico que superfatura, o banco que multiplica o principal na renegociação da dívida, o fundo imobiliário que expulsa o pobre das áreas valorizadas. É também o capital imobiliário que, por meio de aluguéis de curta temporada via Airbnb, aspira a moradia permanente e infla artificialmente os preços, convertendo bairros inteiros em territórios de ostentação do seu poder. Sob a maquiagem do UrbanLuxo – os condomínios-blindagem que privatizam a paisagem — ou do AgroLuxo – as vitrines do agronegócio que transformam a terra em grife –, essas forças erguem cidades-espetáculo para poucos, enquanto a maioria é empurrada para periferias cada vez mais distantes e precárias.

A fração indecisa do eleitorado, portanto, não está simplesmente entre Lula e o bolsonarismo como figuras; está entre a esperança de que o bem-estar prometido se realize e a revolta que a vida concreta gera. O bolsonarismo, com sua gramática moralizante e sua promessa de ordem que pune os “de baixo” em nome dos “de bem”, oferece um alvo fácil e falso. O lulismo oferece um projeto que, para ser percebido como tal, precisa fazer sentido na vida cotidiana. E a vida cotidiana, hoje, é mediada por um território urbano extrativo, onde o rentismo opera sem rosto.

3.

É preciso, então, explicar às camadas populares que políticas como a isenção do Imposto de Renda para parcela da classe trabalhadora, a renegociação de dívidas com juros baixos, o Pé de Meia, o Gás do Povo, a volta do Minha Casa Minha Vida e a ampliação do Farmácia Popular as beneficiam diretamente. Mas no cotidiano das pessoas os assuntos mais preocupantes são os preços dos alimentos, a falta de segurança e a corrupção – e, graças à despolitização, a culpa de tudo acaba atribuída ao Governo Federal.

As camadas populares não conseguem distinguir as atribuições de cada ente federativo, nem compreendem a divisão de poderes entre judiciário, legislativo e executivo. Cabe a nós, estudiosos da realidade urbana, fazer os devidos esclarecimentos. O alto custo dos alimentos é consequência de uma lógica rentista agroexportadora que prioriza o mercado externo em busca de lucros maiores. A corrupção e os desvios do INSS começaram no governo de Michel Temer, continuaram no governo de Jair Bolsonaro e vieram à tona com Lula, que determinou as apurações.

Os rombos do Banco Master nada têm a ver com o governo federal, mas podem ter ligações com parlamentares e governos estaduais e municipais. A segurança pública, constitucionalmente de responsabilidade dos governos estaduais, acaba, de forma interessada, sendo atribuída ao governo federal, inclusive por alguns governadores.

Entre os dois projetos em disputa em 2026, um lado está no ataque, atribuindo ao atual governo tudo de ruim que existe; o outro, o do governo, coloca-se na defensiva e, mesmo composto por variadas forças políticas, tem enorme dificuldade de se comunicar com a população.

As forças democráticas e populares só conseguirão vencer esse impasse – transformando este “momento sem presente” em um novo ciclo de esperança – se forem capazes de conectar a política da redistribuição com uma política de nomeação clara do adversário. O Observatório das Metrópoles e outros atores do pensamento crítico têm diante de si a tarefa histórica de traduzir dados em narrativa, conhecimento em politização, para formadores de opinião e para o público em geral. Não se trata apenas de mostrar que a cidade é desigual, mas de evidenciar quem promove e lucra com essa desigualdade.

Para além de esclarecer o que está em disputa, é preciso fazer com que as camadas populares entendam em qual faixa da sociedade se localizam. As forças rentistas comunicam-se muito bem com as massas: penetram em seu universo particular, transformam os objetos de desejo do cidadão mais humilde e o fazem sonhar com uma grandeza que jamais alcançará.

Ao assumir o pensamento de que quanto mais trabalhar, mais chance tem de crescer, o trabalhador amplia, sem se dar conta, as rendas de quem está no comando do processo. A exploração que ele sofre jamais o deixará sair dessa posição, mas ele “caminha para a morte” sonhando em um dia fazer parte do agro, do luxo ou do seleto grupo da Faria Lima. Desmontar essa armadilha ideológica é, em 2026, a condição de qualquer projeto emancipatório.

*Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro é professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

*Marcos Bittar Haddad é pós-doutor em geografia pelo Instituto de Estudos Socioambientais de Universidade Federal de Goiás (UFG).

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Presente e futuro na luta cotidiana: a reforma urbana, por exemplo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/01/meu-artigo-no-portal-da-fundacao.html 

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Colunista do Estadão lamenta que com Lula e Flávio Bolsonaro em confronto sobre o tarifaço de Trump, pré-candidatos Zema, Caiado e Renan ficam sem espaço para mostrar seus projetos. Quais? 

Extrema direita patina na lama https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/minha-opiniao_01219044875.html 

Minha opinião

América Latina, alvo de Trump
Luciano Siqueira  
instagram.com/lucianosiqueira65   

Ainda que enredado em competição com a ascendente China e a guerra contra o Irã e outros conflitos mundo afora, Donald Trump dá mostras de que a América Latina está em seu radar, alvo de pretensões imperialistas.

Analistas norte-americanos críticos da conduta de Trump pontuam razões para que seu governo aja assim. Dentre as quais, a ânsia por ostentar “vitórias” e contrastar com insucessos na guerra contra o Irã, em particular, e a acentuada queda de apoio interno à sua gestão.

Apenas 35% dos norte-americanos consideram boa a gestão Trump, segundo pesquisas recentes – tanto pelo desgaste causado por suas aventuras externas agressivas, como pelo agravamento da situação interna econômica e social. Inflação combinada com a alta de cerca de 50% no preço dos combustíveis - e toda a cadeia negativa daí decorrente - contribuem para as previsões negativas relacionadas com as eleições parlamentares, que poderão alterar negativamente a correlação de forças no parlamento.

A América Latina entra no radar com a possibilidade de algum êxito diplomático e político – segundo critérios trumpistas -, sobretudo em relação a Cuba - que ameaça com intervenção militar - e mesmo ao Brasil, via sanções econômicas.

A retomada do tarifaço sobre produtos importados do Brasil se insere nesse contexto. Entretanto, qual bumerangue, reacende a consciência anti-imperialista em nosso país justamente na oportunidade das eleições gerais.

A bandeira da soberania nacional estabelece divisor de águas nítido entre o presidente Lula e o atual candidato prioritário da extrema direita Flávio Bolsonaro, reforçando o apoio ao presidente.

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Leia também: Donald Trump e sua tresloucada política externa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_0648315181.html 

Celso Pinto de Melo opina

A revolução quântica já começou – e o Brasil ainda pode embarcar
Como uma nova geração de tecnologias pode redefinir indústria, segurança, ciência e soberania no século XXI
Celso Pinto de Melo/
substack.com     

“A ciência reúne conhecimento mais rápido do que a sociedade reúne sabedoria” - Isaac Asimov


Quando o primeiro laser foi demonstrado em 1960, muitos o viam apenas como uma curiosidade científica sofisticada. Na época, chegou a ser ironicamente descrito como “uma solução em busca de um problema”. Poucos imaginavam que, algumas décadas depois, aquela tecnologia estaria presente em leitores de código de barras, fibras ópticas, cirurgias, telecomunicações, sensores industriais, internet e smartphones.

Algo semelhante pode estar acontecendo agora com as chamadas tecnologias quânticas.

Embora frequentemente associadas a imagens futuristas – computadores extraordinários, comunicações instantâneas ou máquinas quase mágicas –, sua incorporação ao cotidiano ocorrerá provavelmente de maneira muito mais silenciosa. Assim como aconteceu com o laser, os semicondutores e a própria internet, a revolução quântica tende a chegar primeiro como infraestrutura invisível: sistemas de comunicação, sensores, segurança digital, novos materiais, medicina avançada e ferramentas industriais que a maioria das pessoas usará sem sequer perceber.

Mas há uma diferença importante em relação às revoluções tecnológicas anteriores: desta vez, a disputa geopolítica começou antes mesmo da maturação plena da tecnologia.

Estados Unidos, China, União Europeia, Reino Unido e Japão já investem bilhões de dólares em programas nacionais de tecnologias quânticas. Grandes empresas de tecnologia – como IBM, Google, Microsoft e Huawei – disputam posições em áreas como computação quântica, criptografia, sensores e redes de comunicação seguras. O motivo é simples: essas tecnologias poderão redefinir parte importante da infraestrutura econômica, científica e estratégica do século XXI.

Apesar do nome, tecnologias quânticas não significam “máquinas misteriosas”. Elas se baseiam no controle extremamente preciso de fenômenos previstos pela mecânica quântica – a teoria física que descreve o comportamento da matéria e da energia em escalas atômicas e subatômicas. Conceitos como superposição e emaranhamento quântico, antes restritos quase exclusivamente aos laboratórios e à física teórica, começam agora a ser explorados tecnologicamente.

Em geral, o público costuma associar essa área apenas aos computadores quânticos. Eles são, de fato, importantes. Em certos problemas específicos, poderão realizar cálculos impossíveis para computadores convencionais. Mas provavelmente não teremos “notebooks quânticos” ou “celulares quânticos” em casa tão cedo. Os computadores clássicos continuarão dominantes por muitas décadas.

O impacto mais imediato talvez venha de áreas menos conhecidas.

Sensores quânticos, por exemplo, poderão medir campos magnéticos, gravidade, posição e variações moleculares com precisão sem precedentes. Isso poderá transformar diagnósticos médicos, monitoramento ambiental, prospecção mineral, agricultura de precisão e sistemas de navegação independentes de GPS. Em medicina, pesquisadores já exploram técnicas capazes de detectar sinais biológicos extremamente fracos, abrindo caminho para exames mais sensíveis e diagnósticos precoces.

Outra frente estratégica envolve segurança digital. Os futuros computadores quânticos poderão quebrar parte dos sistemas criptográficos atualmente utilizados em bancos, comércio eletrônico e comunicações governamentais. Por isso, diversos países já iniciaram a transição para a chamada criptografia pós-quântica, considerada essencial para proteger dados financeiros, militares e industriais nas próximas décadas.

Também há enorme expectativa em torno do uso combinado de computação quântica, inteligência artificial e ciência de materiais. Simulações avançadas poderão acelerar o desenvolvimento de novos medicamentos, baterias mais eficientes, fertilizantes menos intensivos em energia, ligas metálicas avançadas e materiais estratégicos para energia e eletrônica.

A história mostra, porém, que revoluções tecnológicas ocorrem raramente de forma instantânea.

O transistor foi demonstrado em 1947. Mas os circuitos integrados vieram anos depois; o microprocessador só surgiria em 1971; o computador pessoal popularizou-se apenas nos anos 1980; e os smartphones só se tornariam ubíquos após 2007.

O mesmo ocorreu com a internet. Durante décadas, ela permaneceu restrita a usos militares, acadêmicos e científicos antes de transformar completamente a economia e o cotidiano.

As tecnologias quânticas provavelmente seguirão uma trajetória semelhante: uma longa fase de maturação, integração industrial e redução de custos antes de se tornarem amplamente disseminadas. Ainda assim, essa transição poderá ser mais rápida do que no passado, porque hoje já existe uma poderosa infraestrutura global de semicondutores, computação avançada, inteligência artificial e capital tecnológico capaz de acelerar sua incorporação.

A questão estratégica talvez não seja “quando teremos um computador quântico em casa”, mas sim quem controlará as cadeias produtivas, os algoritmos, os sensores, os materiais avançados e a infraestrutura associados a essa nova etapa tecnológica.

É nesse ponto que o tema deixa de ser apenas científico e passa a envolver diretamente o desenvolvimento econômico e a soberania nacional.

O Brasil ainda possui uma janela de oportunidade.

O país tem grupos científicos respeitados em física, óptica, fotônica, materiais avançados e computação. Universidades e centros de pesquisa brasileiros acumulam competências relevantes em áreas potencialmente estratégicas para a economia quântica. Nos últimos anos, também começaram a surgir iniciativas voltadas à construção de uma estratégia nacional para tecnologias quânticas, incluindo discussões sobre formação de recursos humanos, redes cooperativas de pesquisa, comunicação segura, sensores e aplicações industriais.

Mais recentemente, o debate começou a deixar o espaço exclusivamente acadêmico e passou a envolver também temas como política industrial, segurança digital e soberania tecnológica. Afinal, nenhum país constrói capacidade tecnológica avançada apenas comprando equipamentos prontos. O desafio envolve formar pessoas, integrar universidades, empresas e Estado, desenvolver instrumentação, software, materiais, fotônica e aplicações capazes de gerar competências nacionais duradouras.

Para países como o Brasil, as oportunidades talvez não estejam necessariamente na corrida pelos grandes computadores quânticos universais – hoje concentrada nas maiores potências tecnológicas do planeta –, mas em nichos estratégicos como sensores quânticos, metrologia, fotônica, criptografia, materiais avançados e aplicações específicas para agricultura, energia, mineração, saúde e monitoramento ambiental.

A experiência dos semicondutores, da microeletrônica e da computação oferece um alerta importante. Países raramente “perdem o futuro” porque ignoram completamente uma tecnologia. Em geral, perdem porque percebem tarde demais que ela deixou de ser apenas ciência experimental – e passou a reorganizar a indústria, o poder econômico e a capacidade estratégica.

Talvez o maior erro seja imaginar que tecnologias quânticas dizem respeito apenas a laboratórios sofisticados ou a experimentos distantes da realidade cotidiana. O laser também parecia distante. O transistor também parecia. A internet também.

Hoje, quase ninguém pensa neles. E exatamente por isso eles se tornaram infraestrutura.

As tecnologias quânticas provavelmente caminham na mesma direção.

O Brasil ainda possui competências científicas relevantes e uma janela de oportunidade para participar dessa nova etapa tecnológica. Mas isso exigirá continuidade, coordenação estratégica e capacidade de transformar ciência em política de desenvolvimento. Revoluções tecnológicas raramente esperam países indecisos.

A pergunta talvez não seja se o mundo quântico sairá dos laboratórios. A verdadeira questão é se o Brasil participará da construção dessa nova fronteira tecnológica – ou se, mais uma vez, chegará quando os mapas já estiverem por outros desenhados.


[1] Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Pernambucana de Ciências e da Academia Brasileira de Ciências.

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Tecnologias quânticas: soberania e inovação para o futuro do Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/palavra-de-luciana_0673507353.html