05 junho 2026

Palavra de poeta

Poema sujo
Ferreira Gullar 

Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís
do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos
e pais dentro de um enigma?
mas que importa um nome
debaixo deste teto de telhas encardidas vigas à mostra entre
cadeiras e mesa entre uma cristaleira e um armário diante de
garfos e facas e pratos de louças que se quebraram já

um prato de louça ordinária não dura tanto
e as facas se perdem e os garfos
se perdem pela vida caem pelas falhas do assoalho e vão conviver com ratos
e baratas ou enferrujam no quintal esquecidos entre os pés de erva-cidreira

[Ilustração: Pablo Picasso]

Leia também: "Amor e ódio ao smartphone" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/minha-opiniao_21.html

04 junho 2026

Felipe Sarinho opina

Orçamento público e desequilíbrio da competição democrática
Felipe Sarinho*     

Há processos de deterioração institucional que não se anunciam por rupturas dramáticas nem pela supressão explícita de direitos. Desenvolvem-se silenciosamente, por meio de alterações graduais na arquitetura do poder que, aos poucos, transformam o funcionamento da democracia sem modificar formalmente a Constituição. O Brasil parece atravessar precisamente um desses momentos.

A recente derrubada, pelo Congresso Nacional, dos vetos presidenciais que impediam a liberação de recursos federais a municípios em período vedado pela legislação eleitoral simboliza essa transformação. O episódio ultrapassa a discussão sobre transferências voluntárias ou execução orçamentária. Revela uma mudança mais profunda na distribuição do poder político.

O problema não está na legítima participação do Parlamento na elaboração e fiscalização do orçamento público, função inerente às democracias constitucionais. A questão é outra: observa-se a progressiva substituição da racionalidade governamental por uma lógica de fragmentação político-eleitoral do gasto público.

O orçamento, que deveria expressar prioridades nacionais e viabilizar a execução do programa legitimado pelas urnas, converteu-se no principal espaço de disputa entre Executivo e Legislativo. Já não se discutem apenas políticas públicas, mas a própria capacidade estatal de governar. O planejamento cede espaço à pulverização de interesses locais, frequentemente vinculados a incentivos eleitorais.

O presidencialismo brasileiro foi concebido sob a premissa de que compete ao Executivo formular políticas públicas nacionais, coordenar prioridades administrativas e conduzir estratégias de desenvolvimento. Governar pressupõe capacidade de definir prioridades e ordenar investimentos. Quando parcelas crescentes do orçamento passam a ser controladas por mecanismos de execução parlamentar impositiva, essa capacidade é reduzida.

Cria-se, assim, uma distorção institucional relevante: transfere-se poder político sem a correspondente transferência de responsabilidade. O Congresso amplia sua capacidade de distribuir recursos e acumular dividendos políticos locais, enquanto o Executivo permanece responsável perante a sociedade pelos resultados da gestão pública. O bônus político da despesa descentraliza-se; o ônus da governabilidade permanece concentrado na Presidência da República.

Em ano eleitoral, os efeitos dessa dinâmica tornam-se ainda mais sensíveis. Ao afastar restrições destinadas a preservar a igualdade da disputa política e evitar o uso promocional da máquina pública, deputados e senadores autorizaram a continuidade de repasses federais às vésperas das eleições de 2026.

O problema democrático talvez seja ainda mais grave. O orçamento passa a funcionar como instrumento de fortalecimento político dos próprios parlamentares. A capacidade de direcionar recursos para municípios estrategicamente relevantes transforma investimentos públicos em ativos eleitorais associados aos responsáveis por sua destinação. Forma-se uma espécie de capital político financiado pelo Estado.

A consequência é o aprofundamento da desigualdade entre candidatos com mandato e aqueles que buscam ingressar na vida pública. O incumbente atua simultaneamente como legislador, articulador regional, distribuidor de recursos e agente permanente de visibilidade institucional. O acesso privilegiado ao orçamento fortalece redes locais de apoio e dificulta a renovação política.

A democracia constitucional repousa sobre um delicado equilíbrio entre representação, competição e alternância de poder. Quando o orçamento deixa de funcionar prioritariamente como instrumento de planejamento nacional e passa a operar como mecanismo de consolidação dos detentores de mandato, instala-se um risco silencioso: a transformação da democracia em um sistema formalmente competitivo, mas materialmente desigual.

Democracias não se degradam apenas quando eleições deixam de existir. Também se deterioram quando passam a ocorrer em condições estruturalmente desequilibradas. As instituições permanecem em funcionamento e o calendário eleitoral é preservado. Mas as condições reais da competição política tornam-se progressivamente menos equitativas.

*Doutor em Direito pela Universidade de Lisboa (Portugal) e professor de Teoria do Estado e Direito Constitucional da UNICAP e UPE

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Leia também - Celso Pinto de Melo: A terceira onda brasileira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/celso-pinto-de-melo-opina_0166768148.html 

Postei nas redes

O secretário de Estado do governo Trump, Marco Rubio, tem tudo para passar à História como uma espécie de bobo da corte moderno. Deixa seus tenebrosos afazeres para cuidar das diatribes articuladas pelo bolsonarismo contra a soberania do Brasil.  

Lula desmascara extrema direita https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/palavra-de-lula.html 

Minha opinião

Adversário oportuno*
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65     

Campanhas eleitorais são uma espécie de arena onde gladiadores disputam o pódio com todas as armas disponíveis.

Em princípio, seria o confronto de atributos positivos, de diversas naturezas, que uma vez assimilados pela grande plateia - o eleitorado -, propiciaria a vitória ao melhor dos contendores.

Mas não é bem assim. Ou é, porém numa complexidade em boa parte determinada pelas circunstâncias da luta e pela “bagagem” exibida por cada gladiador.

O presidente Lula disputará o pleito contra mais de um oponente, mas dentre eles, pelos menos por enquanto, o senador Flávio Bolsonaro (PL), dito filho 01 do ex-presidente encarcerado Jair, se destaca.

Um adversário oportuno. Vulnerável, ainda que arrogante e predisposto a toda sorte de manobras distantes anos luz de qualquer consideração de ordem ética.

Um candidato em ascensão? Longe disso. Desde que reveladas suas relações comprometedores com o ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro, o senador dedica parte substancial do seu tempo a se explicar diante da opinião pública e mesmo dos próprios correligionários. O que se reforça agora com a retomada do “tarifaço” de Donald Trump contra a economia brasileira, onde estão nítidas as digitais do bolsonarismo.

Na correspondência enviada por Trump a Lula, são mencionadas supostas fragilidades no combate à corrupção e questionamentos ao sistema Pix para justificar as barreiras protecionistas. Tudo a ver com a retórica enviesada do clã Bolsonaro, tornando justa a alcunha de "Tariflávio" que agonia o senador nas redes sociais.

Num ambiente político minimamente sério e sujeito a normas jurídicas aplicáveis e diante de uma opinião pública atenta e crítica, o candidato bolsonarista raiz já teria desistido ou afastado pelo próprio partido.

Ao contrário, esperneia como pode e aciona o arsenal de comunicação digital pautado pelo conceito de “pós-verdade”, em que a fronteira entre o acontecido e o inventado é tão tênue quanto um fio dental.

Nessas circunstâncias, avulta um paradoxo: o principal candidato da extrema direita, herdeiro direto de minoritário, porém consistente naco do eleitorado de todo o país é também o melhor adversário a ser enfrentado pela ampla coalização democrática e popular liderada pelo presidente Lula.

Antes de tudo porque, em razão das diatribes do senador junto ao governo norte-americano, com o qual se relaciona de forma subserviente, a defesa da soberania nacional avulta como destaque na cena eleitoral, bandeira capaz, a um só tempo, de demarcar campos e elevar o nível de consciência da população.

Politiza a disputa, para além do confronto entre as chamadas “entregas”, quase sempre referidas a politicas e programas socialmente compensatórios que, embora importantes, não podem nem devem se sobrepor à questão nacional e à defesa da democracia.

O discurso das “entregas” gera gratidão, mas não a consciência política necessária.

Mas quando se relacionam as “entregas” com a soberania nacional e a defesa e o aprimoramento do regime democrático, à gratidão se acrescenta a consciência política que esclarece, organiza e mobiliza.

Sim, o senador bolsonarista raiz é o melhor adversário a enfrentar nas atuais circunstâncias.

*Texto da minha coluna semanal no portal ‘Vermelho’

[Ilustração: imagem produzida por IA]

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Lula desmascara extrema direita https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/palavra-de-lula.html 

03 junho 2026

Surpreendente, emocionante

A Buenos Aires nordestina que admira e torce pela Argentina
Documentário que estreia neste mês traz cotidiano da cidade pernambucana que tem o nome da capital do país vizinho. Dirigida por Tuca Siqueira, obra exibe torcida na Copa e decisão com Boca quase homônimo do clube argentino
Luís Curro/Folha de S. Paulo    
 

"Como o filme fala de universos que de alguma maneira tentam se aproximar —ou, ao menos, como a Buenos Aires pernambucana tenta se assemelhar a uma outra Buenos Aires, a argentina—, existe um espírito da Copa que atravessa o filme" - Tuca Siqueira produtora, roteirista e diretora do documentário 'BuenosAires’ 


No dia em que a Copa do Mundo deste ano dá seu pontapé inicial, 11 de junho, com México x África do Sul, estreia nos cinemas um documentário que mostra uma Buenos Aires diferente da conhecida mundialmente.

Não com um outro olhar em relação à capital da Argentina. É uma outra Buenos Aires mesmo. A cidade de Buenos Aires que fica no interior de Pernambuco, a cerca de 80 km do Recife, na Zona da Mata do estado nordestino.

"BuenosAires", produzido e dirigido por Tuca Siqueira, que se tornou uma frequentadora do município a fim de conhecê-lo e compreendê-lo para roteirizá-lo, não tem como foco único o futebol, porém ele está presente de forma significativa no dia a dia da população de 13 mil habitantes.

Nesse "filme-paisagem", assim definido pela diretora, que tem narração em espanhol (com legendas em português) de uma professora que ensina na Buenos Aires pernambucana a língua falada na Argentina, a população, ao menos parte dela, identifica-se com a Argentina.

No comércio, as camisas da seleção liderada por Lionel Messi aparecem em número similar ao da seleção brasileira. Cidade afora, pessoas andam costumeiramente com a vestimenta com listras verticais azuis e brancas. Houve, tamanha veneração, quem desse ao filho o nome Lionel.

Um visitante desavisado que chegue à cidade pode, com razão, não entender nada, e o filme peca por não explicar –talvez por meio de um historiador– por que a localidade, que um dia chamou-se Jacu (uma ave), desde 1928 é Buenos Aires. Falta esse contexto.

O fato é que as pessoas de lá convivem bem com o gentílico buenos-airense, e muitas gostam bastante desse elo com a xará famosa.

Um exemplo da conexão: a empanada, um salgado muito consumido na Argentina, está presente na alimentação cotidiana da Buenos Aires de Pernambuco.

Nos dias de jogos da seleção alviceleste na Copa, muitos dos habitantes estarão reunidos suas casas, em bares ou espaços comunitários para torcer fervorosamente pela atual campeã mundial, como aconteceu, conforme mostra "BuenosAires", no Mundial no Qatar, no final de 2022.

[Ilustração: Cartaz do documentário "BuenosAires", de Tuca Siqueira]

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Veja trailer no YouTube https://www.youtube.com/watch?v=7370QIONXFE&t=5s 

"Sem essa de que o sonho acabou"

BUENOSAIRES
Os sonhos dos moradores da cidade homônima argentina em Pernambuco
Edjuardo Escorel/piauí    

Duas citações, feitas no início da narração de BuenosAires, deixam claro o propósito da diretora e roteirista Tuca Siqueira. A intenção dela é tratar dos sonhos, ou expectativas, de moradores de Buenos Aires, município situado na Zona da Mata de Pernambuco, com cerca de 13 mil habitantes, homônimo da capital da Argentina, metrópole com população aproximada de 3,1 milhões.

Primeiro é mencionado, em voz off, o título da famosa obra de Calderón de La Barca, A vida é sonho, do século XVII. Em seguida, é reproduzido o que Waly Salomão teria dito no século XX: “Sem essa de que o sonho acabou: A Vida é Sonho. A Vida é Sonho. A Vida é Sonho” (versão gravada, disponível no YouTube, mostra ligeira diferença no que Salomão diz: “Chega de papo furado de que o sonho acabou. A vida é sonho, a vida é sonho.”

A breve narração no prólogo acompanha imagens que variam entre um tom onírico e outro mais documental – em contraluz, um homem, com um detector de metais e uma picareta, faz prospecção em meio à plantação e próximo ao canavial. Surgem dois personagens do Maracatu, vestindo trajes típicos, e como que ensaiam sua coreografia perto dele sem que tomem conhecimento um do outro. Siqueira reafirma, por sua vez, a premissa do filme – a preservação dos sonhos – ao declarar no press release que, após ter passado a frequentar a cidade em 2016, a cada ida a Buenos Aires, enxergava um pouco mais daquela pequena cidade simples que me mostrava uma realidade vestida de sonho e graça. Pessoalmente, acredito que, desde 2016, sofremos politicamente de uma tentativa constante de roubar nossos sonhos. Roteirizar, dirigir, produzir e, sobretudo, estar em contato com esses personagens me proporcionou o exercício da manutenção do sonho. E é disso que esse filme fala.

O detector de metais que permite encontrar moedas antigas enterradas talvez possa ser tomado como metáfora do próprio filme que não deixa de também estar à procura de tesouros escondidos. Sem se preocupar em esclarecer a origem do nome da cidade – uma curiosidade legítima e inevitável –, mas que pode ser satisfeita consultando matéria publicada em 2007 –, Siqueira se concentra em apresentar os sonhos de um rol de moradores da Buenos Aires pernambucana, além dos sinais da presença da metrópole argentina na cidade de Pernambuco. Uma certa melancolia perpassa os desejos e as fantasias relatados. Alguns guardam vínculo com o nome da cidade – visitar a capital portenha, ter um time de futebol chamado Boca J uniors, viver na Argentina. Outros independem dessa relação – o próximo desfile de carnaval do Maracatu Estrela Dourada, continuar provendo casa e comida para a mulher e o filho, ser roqueiro, ser enterrado no cemitério onde trabalha, jogar futebol em grandes equipes, criar o Museu dos Engenhos.

No final, antes da despedida na aula de espanhol e do carro com placa de PE BUENOS AIRES ir se afastando com os créditos de encerramento superpostos, o plano geral da Buenos Aires pernambucana é acompanhado por um trecho da narração eivado de didatismo, em princípio dispensável:

Em qualquer canto do mundo haverá distâncias entre o que quer ser e o que pode ser. Habitando exatamente os mesmos espaços onde vivem sonhos novos, sonhos velhos, sonhos ignorados e sonhos ainda não conhecidos.

Embora, além da curiosidade de seu tema, tenha também o mérito de ser curto – exatos 70 minutos –, BuenosAires repete e prolonga em demasia algumas sequências, em especial às relacionadas ao futebol. O que talvez se explique pela necessidade de atender a duração mínima exigida pela Ancine para ser considerado um longa-metragem. Há, por outro lado, algumas demonstrações valiosas de sabedoria popular, como a do coveiro Souza que pergunta: “Já viu morte boa? Não tem. Ter tem. A morte boa é aquela que a gente morre em casa, né? Sem acontecer nada, igual aqui esse [referência a um falecido enterrado em um túmulo ao seu lado]. Estava em casa dormindo. Massa de homem, olha! E pá, pá.”

Após ser exibido na Mostra de Cinema de Gostoso, em 2025, e participar, este ano, do Cine/PE Festival do Audiovisual, de 1 a 7 de junho, a estreia em cinemas de BuenosAires está marcada para o próximo dia 11 no Rio de Janeiro e São Paulo, além de Recife, João Pessoa e Niterói.

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A Buenos Aires nordestina que admira e torce pela Argentina https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/surpreendente-emocionante.html 

Palavra de poeta

No meio do caminho
Carlos Drummond de Andrade   

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

[Ilustração: Di Cavalcanti]

Leia também: “O fascinio da lata de sardinhas” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/minha-opiniao_2.html