27 maio 2026

Palavra de poeta

Nada é impossível de mudar
Berthold Brecht   

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de
hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem
sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar
.

[Ilustração: Eugeniusz Zak]

Leia também: A palavra e o gesto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/06/minha-opiniao_14.html 

Fantasmas do Banco Master

Caso Master: a Lava Jato 2 que não foi - e os personagens que os vazamentos protegeram
À medida que os fatos se consolidam é possível ver o jogo de lobbies nítido. E o desfecho confirma a manipulação que identificamos.
Luís Nassif/Jornal GGN  

Desde o primeiro momento em que o escândalo do Banco Master ganhou dimensão pública, em março de 2025, alertamos aos nossos leitores: acompanhem não apenas o que as investigações revelam, mas para onde elas não estão sendo direcionadas. Em casos com tantas derivadas políticas, financeiras e institucionais, a matilha midiática não é conduzida pelo faro jornalístico — é conduzida pela fonte que controla o vazamento.

Hoje, à medida que os fatos se consolidam é possível fazer o balanço que antecipamos. O jogo de lobbies estava nítido desde o início. E o desfecho confirma, ponto a ponto, a manipulação que identificamos.

O que estava em jogo

O caso Master não é uma crise bancária ordinária. Os documentos do Banco Central ao TCU — a Nota Técnica 938/2025-BCB/SECRE e o Voto 177/2025, que embasaram a liquidação extrajudicial de 18 de novembro de 2025 — revelam um conglomerado que cresceu de R$3,7 bilhões em ativos em 2019 para R$88,3 bilhões em maio de 2025. Um crescimento de 2.270% em seis anos, financiado majoritariamente por captações de longo prazo via plataformas de investimento, com cobertura do Fundo Garantidor de Créditos.

Durante todo esse período, o Banco Central emitia ofícios de supervisão. Dezoito ofícios apenas nos anos de 2022 e 2023, com determinações de ajuste de provisões, reforço de capital e melhoria de práticas de gestão. Em setembro de 2024, a Supervisão determinou ajuste por insuficiência de provisão de R$7,4 bilhões — valor que comprometia estruturalmente o Patrimônio de Referência da instituição.

O banco crescia. O supervisor alertava. E a rede política que sustentava esse crescimento permanecia intocada — inclusive durante a fase mais aguda da crise, quando os vazamentos estratégicos começaram.

Os três movimentos da operação de desvio

Primeiro movimento: Alexandre de Moraes como alvo

O primeiro vazamento de impacto veio da perícia da Polícia Federal, dirigido à repórter Malu Gaspar. O foco: contratos envolvendo a esposa do Ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. O efeito imediato foi previsível — dias de cobertura intensiva sobre o STF, com a instituição colocada na berlinda antes mesmo que os fatos centrais do caso Master tivessem sido adequadamente investigados.

A lógica do desvio é simples: o STF e a Procuradoria-Geral da República são as únicas instituições com capacidade de conter uma investigação que, se conduzida com rigor, alcançaria personagens de peso no Congresso e nos governos estaduais. Desmoralizar o STF antes que ele precise agir é neutralizar preventivamente o freio institucional.

Segundo movimento: Dias Toffoli e o controle da perícia

Na sequência, novos vazamentos apontaram para o Ministro Dias Toffoli. A pressão resultou em algo de consequências práticas imediatas: a relatoria do caso foi retirada de Toffoli e quatro peritos por ele indicados para substituir os peritos originais ficaram sob suspeita.

Aqui a operação revela sua sofisticação. A suspeita sobre os novos peritos foi utilizada como alavanca para tentar colocar o controle da perícia nas mãos de peritos ligados à rede lavajatista, em parceria com os mesmos jornalistas que recebiam os vazamentos. Não se tratava de combater o vazamento. Tratava-se de controlar quem vaza e para quem.

Terceiro movimento: Fábio Luís Lula da Silva

O pedido de quebra de sigilo bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva — o Lulinha, filho mais velho do presidente da República — dominou o noticiário por dias. O pedido foi formulado por um delegado egresso do universo bolsonarista, sem que a conexão direta de Lulinha com o caso Master estivesse documentada com a solidez que justificaria a medida naquele momento.

O efeito narrativo foi preciso: colocar o nome do filho do presidente no centro de uma investigação de grande repercussão, associando o governo Lula ao escândalo financeiro, enquanto os personagens com conexões documentadas ao crescimento do banco permaneciam fora do noticiário principal.

Os protegidos pelos vazamentos

Enquanto a matilha midiática corria atrás de Moraes, Toffoli e Lulinha, cinco personagens com conexões documentadas ao caso Master permaneciam sistematicamente fora do foco investigativo:

Ibaneis Rocha — Governador do Distrito Federal e controlador político do Banco de Brasília. O BRB formalizou interesse na aquisição de participação no Master em março de 2025, como fato relevante. Os documentos do BCB ao TCU registram que durante as negociações o Master cedeu ao BRB créditos inexistentes, adquiridos de empresa terceira — a Tirreno Consultoria Promotoria de Crédito e Participações S.A. Esses fatos foram comunicados ao MPF em julho de 2025. A questão central — quem no governo do DF autorizou e conduziu a operação de aquisição de um banco em crise crônica documentada — permanece sem resposta pública adequada.

Ciro Nogueira — Senador pelo PP do Piauí e ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro. A conexão com o Master se dá pelo canal dos RPPS — Regimes Próprios de Previdência Social — de municípios e estados, particularmente do Nordeste. Recursos de previdência de servidores públicos foram alocados em CDBs do Master acima do limite de cobertura do FGC, o que significa que perdas acima de R$250 mil por titular não são cobertas pela garantia do Fundo e recaem diretamente sobre os beneficiários. A intermediação política nessa alocação de recursos previdenciários é a dimensão do caso que a cobertura dominante menos alcançou.

David Alcolumbre — Senador pelo União Brasil do Amapá e presidente do Senado no período crítico da crise. Sua presença na rede política do Master é reportada nas investigações jornalísticas. Sua posição como articulador central do Congresso é relevante para entender por que a CPI do Master nunca ganhou a tração que o escândalo exigiria institucionalmente.

Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro — Senador e deputado federal, filhos do ex-presidente. As conexões com o ecossistema Master — incluindo a rede de influenciadores e operadores políticos que sustentaram a distribuição de CDBs — compõem a dimensão do caso que a estratégia de desvio narrativo mais sistematicamente protegeu. Não por acaso: uma investigação conduzida pela lógica lavajatista, com foco no governo atual, é por definição uma investigação que olha para frente e não para o período 2019-2024 — exatamente quando o Master cresceu 2.270% sob supervisão crescentemente preocupada do BCB.

A anatomia do jornalista-sela

Há duas espécies de jornalistas, e o caso Master ilumina a distinção com clareza incomum.

O jornalista-sela — o que se deixa cavalgar pela fonte — não é necessariamente desonesto, no sentido de receber dinheiro. Muitas vezes é simplesmente seduzido. Ter acesso a vazamentos exclusivos em uma operação de alta visibilidade confere notoriedade, valoriza profissionalmente, constrói reputação de grande repórter. A supina ignorância jornalística trata vazamentos como furos de reportagem.

Reportagem não é isso. Reportagem é a arte de formular uma hipótese, ir atrás dos fatos, conferir a veracidade, analisar as consequências. O vazamento é dado bruto — e dado bruto, sem contexto, sem verificação, sem análise de quem o fornece e por quê, é instrumento de manipulação tanto quanto de informação.

No caso Master, o jornalista-sela cumpriu função estrutural na operação de desvio: manteve a matilha correndo atrás de Moraes, Toffoli e Lulinha enquanto os documentos que explicam o crescimento do banco — os dezoito ofícios do BCB, a insuficiência de provisão de R$7,4 bilhões, a deficiência crescente de recolhimento compulsório, a cessão de créditos inexistentes ao BRB — ficavam fora do noticiário principal.

Mas há um segundo tipo de jornalismo no caso Master que ainda falta ser plenamente revelado. E não se trata dos influenciadores especializados em fofoca de TV. Trata-se de jornalismo financeiro especializado — o tipo que produz cobertura sobre instituições, modelos de negócios, solidez de balanços.

Entre 2022 e 2025, enquanto o BCB emitia ofícios e a supervisão se intensificava, havia uma narrativa circulando nos mercados sobre o Master como banco inovador, com modelo de negócios diferenciado, crescimento sustentável. Essa narrativa não se produz sozinha. Ela tem autores, têm patrocinadores, tem canais de distribuição. E ela foi instrumental para que gestores de RPPS — muitos deles em municípios do interior nordestino, gerindo recursos de aposentados de classes C, D e E — continuassem comprando CDBs do Master acima do limite de cobertura do FGC com base em percepção de solidez não sustentada pelos fundamentos.

Quem produziu ou viabilizou essa cobertura? Quem recebeu o patrocínio do Master? Essas perguntas ainda aguardam resposta.

O jogo de poder e o que estava em risco

Supondo que a Lava Jato 2 tivesse sido bem-sucedida — que os vazamentos tivessem controlado a narrativa, que o STF tivesse sido suficientemente desmoralizado, que a investigação tivesse convergido para o governo Lula e se afastado da rede que sustentou o crescimento do Master no período anterior.

A esta altura, o país estaria numa trajetória de impeachment de ministros do STF, pressão sobre a PGR, e o caso Master seria mais uma munição de guerra político-judicial sem que seus protagonistas centrais fossem alcançados. As organizações criminosas encasteladas no Congresso — aquelas que intermediaram a alocação de recursos previdenciários em um banco em colapso documentado — sairiam intactas. E os servidores públicos do interior nordestino que perderam economias de aposentadoria acima do limite do FGC continuariam sem responsável identificado.

Não se pense em ingenuidade nessa história. A operação de desvio narrativo é racional, tem lógica, tem custo-benefício. Para quem a orquestra, o risco de exposição é alto — e o investimento nos jornalistas-sela e na cobertura financeira patrocinada é simplesmente o custo de fazer negócios num sistema em que a impunidade tem preço de mercado.

Conclusão: a matilha e o rastro verdadeiro

O caso Master é, simultaneamente, uma crise financeira de proporções históricas para o sistema brasileiro — com custo estimado ao FGC da ordem de R$40 bilhões — e uma operação política sofisticada de proteção de redes de poder que usaram o banco como instrumento de captura de recursos previdenciários e de financiamento político.

A Lava Jato 2 não foi. O STF resistiu. A PGR não cedeu. E a investigação do TCU avança sobre terreno que os vazamentos tentaram interditar.

À medida que os fatos emergem, o rastro verdadeiro fica mais nítido. Não é o rastro que leva ao filho do presidente ou aos ministros do Supremo. É o rastro que leva aos RPPS do interior nordestino, ao BRB sob Ibaneis Rocha, às redes de Ciro Nogueira e Alcolumbre no Senado, e aos irmãos Bolsonaro no ecossistema que sustentou o crescimento do banco durante o período em que o BCB já alertava sistematicamente sobre seus problemas estruturais.

E é o rastro que leva ao jornalismo de vazamento que produziu ou silenciou durante esse período — o segundo tipo de cumplicidade midiática no caso Master, que ainda falta ser plenamente iluminado.

[Ilustração: imagem produzida em IA]

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Extrema direita patina na lama https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/minha-opiniao_01219044875.html

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Criminosamente, o Estadão se refere a Cuba como "regime decrépito" e não à nação heróica que resiste há 66 anos ao bloqueio criminoso movido pelos Estados Unidos. A História fará justiça. 

Da ‘volta do mar’ ao improviso: quando a diplomacia vira aposta https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/celso-pinto-de-melo-opina_01835677765.html 

Minha opinião

Menos alcance, porém fonte para a guerra cultural
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65    

Chamam atenção os números apontados na matéria "Canais de TV de notícias têm audiência máxima de 168 mil espectadores", assinado por Hanna Yahya e publicado pelo portal Poder360: o real alcance dos canais pagos dedicados exclusivamente ao jornalismo no Brasil é menor do que parece.

Os canais pagos dedicados a notícias - GloboNews, CNN Brasil, Jovem Pan News e BandNews - alcança um nicho próprio, menor do que a programação da TV aberta como um todo. Mesmo quando surgem fatos de grande repercussão.

Segundo a matéria, ecossistema de notícias na TV paga de forma unificada, a audiência combinada de todas as emissoras jornalísticas concorrentes em funcionamento atinge um teto conjunto próximo a 250 mil pessoas.

Daí porque esses canais reproduzem os seus através de transmissões ao vivo e cortes no YouTube; distribuição em redes sociais (TikTok, Instagram, BlueSky) e presença em plataformas de streaming gratuito via internet (como Samsung TV Plus, LG Channels e Pluto TV) e sinal aberto via antenas parabólicas digitais (Banda Ku).

Mas há um “detalhe” a considerar, acrescento. Justamente esses canais noticiosos pautam todas as demais formas de difusão de opinião e notícias – TV aberta, rádio e múltiplas formas de comunicação digital. Ou seja: fornecem o conteúdo essencial da chamada guerra cultural que se trava diuturnamente tendo como fio condutor a defesa das teses neoliberais e o combate cerrado ao governo Lula e aos movimentos sociais de caráter popular e progressista.

Se comentar, identifique-se https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/06/participe.html

Leia também: A crise da verdade na era digital https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/atomatizacao-pos-verdade.html 

Humor de resistência

 

Miguel Paiva

Crônica de uma vitória a conquistar https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/minha-opiniao_30.html 

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Diz-se que empresariado do sistema financeiro mantém apoio à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro. Eles se merecem. 

De cavalo dado não se olha os dentes? https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Prenúncio de nova ordem mundial

Donald Trump e o declínio da democracia liberal
Como o desmonte do Estado de bem-estar social e a precarização da classe média pavimentaram o caminho para a ascensão global do autoritarismo antissistema
Sergio Gonzaga de Oliveira*   

Nas últimas décadas, principalmente a partir dos anos 70 do século passado, algumas transformações no sistema econômico atual vêm abalando os fundamentos da democracia liberal. Compreender essa passagem não é simples. Até porque a queda está associada a dois fenômenos fortemente interligados: o crescimento da extrema direita e um declínio acentuado das instituições democráticas em muitos países.

Vários autores, como Steven Levitsky e Daniel Ziblatt,[1] se dedicaram ao tema, especialmente em sua vertente política. Sem querer esgotar o assunto, este artigo pretende analisar os aspectos econômicos subjacentes a essas transformações.

Historicamente a democracia liberal se consolidou na passagem do século XIX para o XX, no período conhecido como Segunda Revolução Industrial, com a formação do mercado de consumo de massa e de uma extensa classe média nos países centrais.[2] Desde então, a classe média se tornou a principal base de sustentação política e social do capitalismo. Esse fenômeno atingiu seu apogeu nos trinta anos após o término da Segunda Guerra Mundial, quando recebeu a designação de “Golden Age” nos EUA e “Trente Glorieuses” na França (1945-1975). Foi o auge da democracia liberal e do Estado de bem-estar social.

Por conta desse período excepcional, moldou-se a convicção entre certos setores da intelectualidade de que a história tinha chegado ao fim. Um apressado Francis Fukuyama, em seu livro O fim da história e o último homem, escreveu: “Nós, que vivemos em democracias liberais estáveis e duradouras, encontramo-nos numa situação singular. No tempo dos nossos avós, muitas pessoas ponderadas podiam sonhar com um radiante futuro socialista, em que a propriedade privada e o capitalismo tivessem sido abolidos e, de certo modo, a própria política fosse ultrapassada. Hoje em dia, pelo contrário, é difícil imaginar um mundo que seja radicalmente melhor do que o nosso ou um futuro que não seja essencialmente democrata e capitalista. É claro que, neste contexto, muito haveria a aperfeiçoar: podíamos dar casa aos sem abrigo, garantir oportunidades às minorias e às mulheres, melhorar a competitividade e criar novos empregos” […] “Mas não é possível imaginar um mundo essencialmente diferente e simultaneamente melhor do que o atual”.[3]

Entretanto, a Era de Ouro não foi obra do acaso. Teve causas bem objetivas. A reconstrução das economias europeias e japonesa destruídas pela guerra, a expansão demográfica (baby boom) e a disponibilidade de energia barata, com os combustíveis fósseis, foram componentes importantes no crescimento observado. Além disso, a produção de bens de capital nos países desenvolvidos foi impulsionada pela ascensão dos emergentes, ávidos por máquinas e equipamentos industriais.

Ao mesmo tempo, baixas taxas de desemprego no período de expansão econômica, favoreceram as ações dos sindicatos, que se empenhavam em obter melhores salários e condições de trabalho. Paralelamente, nos parlamentos, partidos trabalhistas, socialistas, comunistas e social democratas, aprovaram leis e regulamentos que favoreciam a distribuição de renda e o bem-estar da população.

No entanto, nas décadas seguintes, as condições favoráveis, que deram origem à Era de Ouro, desapareceram ou começaram a perder força.

Crise e instabilidade

Em 1973 e 74, em consequência da formação da OPEP e da instabilidade política no Oriente Médio, o preço do barril de petróleo passou de 3 para 12 dólares. Em 1979 e 80, novamente saltaram de 13 para 40 dólares, gerando uma forte inflação em todo o mundo. Para conter a inflação o banco central americano (FED), elevou os juros básicos da economia de cerca de 3% em 1972 para 12% em 1974, atingindo um pico de quase 20% em meados de 1981. A recessão se instalou em boa parte do planeta. A recuperação das economias europeias e japonesa chegou ao fim. A expansão demográfica declinou.

Uma das consequências mais funestas da política monetária americana desse período foi a elevação brutal das dívidas dos países periféricos, que eram denominadas em dólares e gravadas por juros flutuantes. Uma sucessão de moratórias se espalhou pelo mundo, especialmente na América Latina. Entre 1982 e 1987, México, Brasil, Argentina, Peru, Equador, Chile e Venezuela tiveram que recorrer à moratória ou se envolver em duras renegociações de suas dívidas externas.

Em paralelo, vários países emergentes, principalmente os asiáticos, atingiram um grau elevado de industrialização que lhes permitiu passar de consumidores para fornecedores de bens industriais. Muitos desenvolveram sistemas nacionais de educação e tecnologia que os tornaram capazes de competir com produtos industriais mais elaborados. A presença dos orientais nos mercados mundiais, especialmente do Japão e dos Tigres Asiáticos aumentou muito as dificuldades comerciais dos EUA e da Europa. Na década de 2000, a entrada da China agravou ainda mais esse quadro.

Mas não foi só isso. Desde os anos 70 do século passado, os ativos financeiros cresceram muito mais rápido que o PIB mundial. A financeirização aumentou a instabilidade do sistema e a concentração de renda e riqueza.

Diante desse cenário obviamente degradado e longe da Era de Ouro, políticos e economistas da Europa e EUA, articularam uma reação que se mostraria muito ineficiente.

O neoliberalismo no Ocidente

 Liderados por Ronald Reagan e Margareth Tatcher, que governaram os EUA e a Inglaterra entre 1979 e 1990, muitos entenderam que a única solução possível para retomar o controle da economia e sustentar uma concorrência aberta com os asiáticos seria aumentando, a todo custo, a competitividade das empresas em seus países. Para tal implantaram uma radical privatização e um gigantesco corte em direitos trabalhistas e serviços públicos, essenciais para o bem-estar da população.

Estavam convictos de que somente a liberação total e a redução de custos seriam capazes de criar as condições para o enfrentamento da nova realidade. No mercado financeiro cortaram as regulações usuais nessa área. Em consequência, mais adiante, em 2007/2008, explodiu nos EUA uma das maiores crises que o capitalismo já conheceu.

Em decorrência dessas políticas, a classe média dos países centrais viu suas condições de vida se deteriorarem. Estagnação da renda real, precarização do trabalho, condições mais difíceis para a aposentadoria, e endividamento levaram a classe média ao desespero. Certamente em cada região ou país a insatisfação desse segmento social assumiu características próprias. Entretanto, as condições econômicas quase sempre estão presentes. Na maioria dos países periféricos, especialmente na América Latina, não foi diferente. As condições de vida dos setores mais vulneráveis da população se deterioraram. Mesmo a reduzida classe média desses países sentiu a queda.

Uma resposta eleitoral nada surpreendente

Com o agravamento das condições de vida, a população começou a votar em candidatos de extrema direita que se declaravam antissistema. Não por acaso, escolheram Donald Trump nos EUA, Jair Bolsonaro no Brasil, Javier Milei na Argentina, José Antonio Kast no Chile, Nayib Bukele em El Salvador e Nasry Asfura em Honduras. Na Europa votaram em Viktor Orbán na Hungria, Giulia Meloni na Itália, Geert Wilders nos Países Baixos, Herbert Kickl na Áustria e Karol Nawrocki na Polônia. Mesmo em países onde esses grupos não chegaram ao poder, seus partidos têm demonstrado um crescimento constante.

Observadores atentos têm constatado que a ascensão da extrema direita tem sido acompanhada por um declínio das instituições democráticas em todo o mundo. O Instituto V-Dem, do Departamento de Ciência Política da Universidade de Gothenburg na Suécia, é o principal organismo acadêmico que acompanha essa evolução. Segundo seu último relatório, publicado em março de 2026, em 2005, 50% da população mundial vivia em uma democracia, enquanto que em 2025 somente 26% está nessa condição; uma queda de quase à metade em duas décadas.[4]

Essa correlação não deveria nos surpreender, já que existem precedentes históricos para tal comportamento coletivo. Nas décadas seguintes ao término da Primeira Guerra Mundial, a população alemã, diante de condições de vida degradantes, colocou no poder um partido nazista de triste memória que, entre outras barbaridades, sepultou de vez os últimos resquícios de democracia, herdados da República de Weimar.[5]

Deve-se observar que, os líderes da extrema direita, uma vez eleitos, não se propõem a restaurar o estado de bem-estar social, nem promover o desenvolvimento dos países ainda atrasados. Na verdade, misturam atitudes caóticas e antidemocráticas com aprofundamento do ultraliberalismo, agravando ainda mais as precárias condições dos mais vulneráveis e dificultando a vida da classe média.

Donald Trump nos EUA, adota uma mistura de delírios autoritários com medidas que favorecem o grande capital, deixando de fora qualquer expectativa de retorno ao “sonho americano”. Perseguição implacável aos imigrantes, tarifas protecionistas indiscriminadas, intervenção ideológica nas maiores Universidades, desregulamentação das Big Techs e cortes de impostos para os mais ricos são alguns dos pontos mais característicos de sua agenda.

Além disso, numa clara subordinação ao complexo militar industrial, aumenta as verbas para projetos armamentistas e intervém militarmente em outros países. “A proposta orçamentária de Trump para o ano fiscal de 2027 prevê um gasto de US$ 1,5 trilhão em defesa, de longe o maior valor em dólares da história moderna” (Wall Street Journal em 04 04 26). No Irã, diretamente ou através de Israel, despeja grande quantidade de armas de todo tipo, certamente aumentando as encomendas e contratos para os seus fabricantes e fornecedores. O complexo militar industrial, do qual nos alertava Dwight Eisenhower no seu discurso de despedida,[6] agradece e retribui; com vultuosas contribuições para as próximas campanhas eleitorais.

No Brasil, Jair Bolsonaro tem uma administração igualmente caótica; não poucas vezes tentou golpear as instituições democráticas; promoveu uma campanha antivacinação em plena epidemia da Covid 19; desmontou sistematicamente o combate à degradação ambiental e incentivou o desprezo e agressão às mulheres.

Na economia, entregou o controle ao ultraliberal Paulo Guedes que privatizou setores estratégicos para o desenvolvimento, como a Eletrobrás, a BR Distribuidora e a Refinaria Landulpho Alves. Além disso, buscou, a qualquer custo e sem critério, redução do orçamento público, não distinguindo gastos com investimentos de despesas correntes; comprometendo ainda mais o já combalido crescimento da economia.

Diante desse quadro, seria de se esperar uma reação coordenada dos partidos mais à esquerda do espectro ideológico. Trabalhistas, socialistas e social democratas, ao invés de se submeter à onda neoliberal, poderiam apresentar para suas bases políticas e eleitorais um projeto alternativo, de longo prazo e convincente. Deveriam propor a retomada do desenvolvimento para os emergentes, tendo como objetivo o Estado de bem-estar social para todos.

Uma atitude desse tipo seria capaz de despertar a esperança por um futuro melhor, colocando o campo progressista de volta à liderança do jogo político. Nada disso é impossível, já que uma parte dos asiáticos conseguiu e outros estão a caminho. Naturalmente, esses países vêm adotando modelos econômicos distantes do neoliberalismo. No geral, constroem modelos híbridos onde o Estado tem forte presença.

*Sergio Gonzaga de Oliveira é engenheiro pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e economista pela Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL).

Notas


(1) Levitsky, Steven e Ziblatt, Daniel, Como as Democracias Morrem. Editora Zahar, Rio de Janeiro, 2018.

(2) O conceito de classe média utilizado neste artigo não está vinculado à renda monetária. É a camada da sociedade capaz de manter ao longo do tempo uma vida digna do ponto de vista econômico. A metodologia da Eurostat, destinada a medir a vulnerabilidade da população, fornece os melhores parâmetros para esse propósito. São utilizados indicadores objetivos das condições de vida que não estão necessariamente vinculados à renda monetária (ver “Persons at risk of poverty or social exclusion” no site da Eurostat)

(3) Fukuyama, Francis, O fim da história e o último homem. Gradiva Publicações, Portugal, Lisboa, 2007.

(4) Nord, Marina at al., Democracy Report 2026: Unraveling The Democratic Era?, V-Dem Institute, University of Gothenburg, Suécia, 2026.

(5) Oliveira, Sérgio Gonzaga, Os Ovos e o Ninho da Serpente, A Terra é Redonda, julho de 2022.https://aterraeredonda.com.br/os-ovos-e-o-ninho-da-serpente/

(6) Eisenhower, Dwight, Discurso de Despedida, proferido em 17 de janeiro de 1961, Biblioteca Presidencial Eisenhower, Abilene, Kansas, EUA.

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O crepúsculo do império norte-americano https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/eua-em-decadencia.html