29 abril 2026

Palavra de poeta

Canção de alta noite
Cecília Meireles       

Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.

Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.

Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.

Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.

Andar... Perder o seu passo
na noite, também perdida.

Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.

Andar... — enquanto consente
Deus que a noite seja andada.

Porque o poeta, indiferente,
anda por andar — somente.
Não necessita de nada.

[Ilustração: João Câmara]

Leia também: "Solidão", poema de Mia Couto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/palavra-de-poeta_22.html 

Humor de resistência

Aroeira

Araruta tem seu dia de mingau https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Enio Lins opina

Odores de autoatentado pairam no ar nos Estados Unidos
Enio Lins     

TRUMP ESTÁ ABUSANDO dos atentados a favor? O fato é que ele já vai no terceiro episódio da série “tentativas de assassinato”. A mais recente aconteceu sábado, 25, quando participava de um jantar de gala oferecido aos jornalistas em Washington. Bangue-Bangue! Espocaram tiros noutro salão. Autoridades foram retiradas às pressas. Um suspeito foi detido, identificado como Cole Allen, de 31 anos, morador da Califórnia. Segundo a polícia, estaria armado com uma espingarda, uma pistola e diversas facas – seria o Adélio Bispo disfarçado? O acontecimento, que está se tornando corriqueiro, beneficiou Donald com um providencial alívio no intenso bombardeio político que tem sofrido por sua desastrosa condução na guerra – uma agressão provocada, sob o comando de Israel – contra o Irã.


NO PRIMEIRO EPISÓDIO 
da série, uma tragédia. Aconteceu em 13 de julho de 2024, durante comício de campanha em Butler, na Pensilvânia. Morreram dois: o atirador, identificado como Thomas Matthew Crooks e um espectador, o bombeiro voluntário Corey Comperatore. Outras pessoas foram gravemente feridas, de duas a oito vítimas, a depender da fonte. Segundo a Wikipédia, Crooks, apesar de supostamente ter feito uma doação para a campanha adversária, “estava registrado como filiado ao Partido Republicano no condado de Allegheny, Pensilvânia, a partir de setembro de 2021”, e é descrito como “ligeiramente inclinado à direita”. Thomas foi morto no local pela mesma equipe policial que não o viu subir num telhado e lá se postar com um potente fuzil AR-15.

NO SEGUNDO EPISÓDIO 
da série, o teatro de operações foi um campo de golfe do próprio Trump, em Palm Beach, na Flórida, também durante a campanha de 2024, num domingo de folga, 15 de setembro, apenas dois meses depois da primeira agressão. Ryan Routh, de 59 anos, foi preso no local, acusado de tentar atirar contra Donald, sendo condenado à prisão perpétua em fevereiro deste ano. Durante o julgamento, o acusado se comportou de forma errática, com declarações desconexas. Na suposta tentativa, Routh não disparou. O processo transcorreu tendo como base os relatos feitos pela equipe de segurança de Trump, que desta vez teria visto o cano de uma arma saindo de um matagal. Durante essas primeiras duas ocorrências, Donald estava em meio aos riscos de uma campanha eleitoral muito disputada, apesar de seu favoritismo. Oito dias depois do primeiro atentado, em 21 de julho de 2024, Joe Biden desistiu de tentar a reeleição, indicando Kamala Harris para a disputa. A votação presidencial, no confuso sistema americano, se deu em 5 de novembro de 2024, com o candidato Republicano chegando lá muito mais fortalecido, posando como vítima por conta de dois atentados sofridos em apenas três meses.

PARA O TERCEIRO EPISÓDIO
 da série, o local escolhido foi o Hotel Washington Hilton, endereço de outro ataque a um presidente americano, Ronald Reagan, em 30 de março de 1981. Narra o jornal O Globo: “[Reagan] estava saindo do Hilton Hotel depois de realizar um discurso para membros da AFL-CIO. O atirador, John Hinckley Jr., disparou várias vezes contra o presidente e feriu também outras pessoas, entre elas o porta-voz da Casa Branca James Brady e o agente do Serviço Secreto Tim McCarthy”. O então presidente “estava há apenas 69 dias no cargo quando o ataque ocorreu, e o episódio foi registrado por equipes de TV que cobriam o evento. Ele foi atingido por um tiro que perfurou um pulmão, mas sobreviveu após atendimento médico”. O ex-ator, além de ter sido ferido de verdade, não estava em campanha eleitoral, nem passando por situação política delicada, o que – há 45 anos – afastou suspeitas de armação. Já nos casos de Trump... até o badalado ferimento à bala (de fuzil AR-15!) na orelha, em 2024, é suspeitíssimo.

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Reagan, Trump e a “destruição inovadora” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eua-roteiro-de-conflitos.html

28 abril 2026

Palavra de Luciana

Mais mulheres na ciência, mais futuro para o Brasil
Artigo defende políticas públicas para ampliar a participação feminina na ciência, reduzir desigualdades de gênero e fortalecer a inovação e o desenvolvimento do Brasil.
Luciana Santos/Vermelho 
    

A ciência brasileira só estará à altura dos desafios do nosso tempo se for, de fato, diversa, inclusiva e representativa da nossa sociedade. É com essa convicção que temos trabalhado, no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, para ampliar a presença de meninas e mulheres nas carreiras científicas e tecnológicas.

Garantir igualdade de oportunidades não é apenas uma questão de justiça social, é uma estratégia para melhorar a qualidade da ciência e fortalecer o desenvolvimento do país. Mais mulheres na ciência significa mais perspectivas, mais diversidade de ideias, mais criatividade, mais capacidade de compreender problemas complexos e propor soluções inovadoras.

Ao longo da história, mulheres estiveram por trás de descobertas que transformaram o mundo e, ainda assim, sabemos que – em um país marcado pelo machismo e por desigualdades de gênero –  as estruturas sociais e institucionais nem sempre garantiram a elas o reconhecimento e as oportunidades necessárias para avançar.

No Brasil, as mulheres são maioria no ensino superior, no mestrado e no doutorado, mas ainda enfrentam obstáculos para permanecer e progredir na carreira científica, especialmente nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, chamadas STEM. A desigualdade se acentua nas posições de liderança e nos níveis mais altos de reconhecimento acadêmico.

É para enfrentar esse cenário que temos estruturado um conjunto consistente de políticas públicas.

Um dos marcos mais importantes dessa agenda é a Política de Empoderamento de Meninas e Mulheres na Ciência, Tecnologia e Inovação, construída ao longo de três anos de escuta e diálogo com a sociedade. 

Com esta política, o nosso esforço é materializar, em ações permanentes, o cuidado com as questões gênero e as iniciativas voltadas à inclusão, à permanência, à valorização e à ascensão de meninas e mulheres nas carreiras de ciência, tecnologia e inovação. Reunimos, assim, um conjunto articulado de instrumentos financeiros, normativos, de cultura institucional e de reconhecimento que assegurem a transversalidade e a sustentabilidade das iniciativas. 

Entre as medidas, estão a ampliação de editais, premiações e bolsas voltados para mulheres, o fortalecimento de programas de incentivo e valorização da participação feminina nas áreas científicas e tecnológicas e a implementação de ações afirmativas que garantam condições concretas para que meninas e mulheres avancem em suas trajetórias.

Iniciativas como o Prêmio Mulheres e Ciência, promovido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, por exemplo, cumprem um papel estratégico ao reconhecer trajetórias, dar visibilidade a pesquisadoras e inspirar novas gerações. Quando valorizamos essas histórias, mostramos às meninas brasileiras que a ciência também é um lugar para elas.

Sabemos, no entanto, que os desafios vão além do acesso. A permanência das mulheres na ciência está diretamente relacionada a questões estruturais, como a divisão desigual do trabalho de cuidado e a necessidade de políticas institucionais que considerem essas realidades. Por isso, medidas como a prorrogação de bolsas em casos de maternidade e a adaptação dos critérios de avaliação acadêmica são fundamentais para reduzir desigualdades históricas.

Também instituímos o Comitê Permanente de Gênero, Raça e Diversidade no âmbito do MCTI e de suas vinculadas. Esse espaço tem um papel fundamental: assegurar que a preocupação com a equidade esteja presente na formulação, implementação e acompanhamento das políticas públicas e nas práticas institucionais de governança, de forma transversal e contínua. Trata-se de uma estrutura essencial para consolidar conquistas e garantir que elas se tornem permanentes.

Estamos construindo uma agenda que olha para toda a trajetória das mulheres na ciência, da educação básica à liderança em pesquisa, com ações integradas e compromisso de longo prazo. Esta política é, também, a contribuição do MCTI para um compromisso mais amplo do Governo Federal com as mulheres brasileiras, no enfrentamento ao desemprego, à violência, à invisibilidade e à falta de reconhecimento. 

Acreditamos que não há desenvolvimento científico pleno sem diversidade. A ciência se fortalece quando incorpora diferentes experiências, diferentes olhares e diferentes formas de compreender o mundo. É assim que produzimos conhecimento mais robusto, mais inovador e mais conectado com as necessidades da sociedade.

O Brasil tem talento, tem vocação científica e tem milhões de meninas que podem transformar o futuro do país. O que precisamos é garantir que todas tenham as mesmas oportunidades de chegar lá.

Mais mulheres na ciência é mais do que uma pauta de inclusão. É um projeto de país.

E é esse futuro que estamos construindo: com igualdade, com oportunidade e com a certeza de que uma ciência mais diversa é também uma ciência melhor para todos.

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Leia também: Inteligência Artificial, Data centers e o fim do mundo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/ia-operacao-consequencias.html

Fotografia

 

Henri Cartier-Bresson

As voltas que o mundo dá https://lucianosiqueira.blogspot.com/


Editorial do 'Vermelho'

Riqueza de Serra Verde é do Brasil! Venda aos EUA é afronta à soberania nacional
Donald Trump age ardilosamente para se apossar de minerais estratégicos, com a ajuda de Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado
Editorial do portal 'Vermelho'   

A compra da empresa Serra Verde, que opera a mina de Pela Ema, em Minaçu, Goiás, pela mineradora estadunidense USA Rare Earth, negócio avaliado em aproximadamente US$ 2,8 bilhões, é uma operação afrontosa à soberania nacional. A transação, cuja legalidade está sendo questionada, ocorre em um momento de ofensiva dos Estados Unidos para garantir fontes de terras raras, mercado dominado pela China, que controla 70% da cadeia global desses minerais, usados ​​em ímãs de alta potência empregados em eletrônicos de consumo, automóveis e sistemas de defesa.

A Serra Verde, empresa privada controlada por grupos estadunidense e britânico, havia assinado um contrato de 15 anos de fornecimento a uma empresa financiada por diversas agências governamentais dos Estados Unidos. Em fevereiro, a empresa obteve um empréstimo de US$ 565 milhões da Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos para ajudar a financiar melhorias na mina, único produtor fora da Ásia capaz de fornecer os quatro elementos de terras raras magnéticos em grande escala.

O anúncio surge no momento em que o governo brasileiro e o Congresso Nacional buscam acelerar o debate e a definição de um marco legal para os minerais críticos. Tramita na Câmara dos Deputados um Projeto de Lei cujo conteúdo, tal como está, não atende aos interesses nacionais.

Diante da gravidade da venda de Serra Verde, o governo Lula, por meio do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, anunciou que se encontra em fase final uma proposta de regulação. Ela prevê a criação do Conselho Nacional de Política Mineral, que será composto por 16 ministros.

A principal função do órgão será analisar e autorizar qualquer operação envolvendo ativos considerados estratégicos para o país. Segundo o ministro, o objetivo central é a garantia da soberania nacional sobre minerais críticos e estimular o desenvolvimento industrial no Brasil, formulando diretrizes para o processamento de terras raras no próprio país.

Em recente visita à Alemanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou: “O que queremos é dizer ao mundo que as terras raras e minerais críticos são de propriedade do Brasil, da soberania brasileira.” Disse ainda que o governo brasileiro está aberto a parcerias internacionais, desde que elas contribuam para o desenvolvimento do país.

De fato, o Brasil, que abriga uma das maiores reservas de minerais estratégicos do mundo, precisa de parcerias para concretizar seu potencial e transformar as reservas em produtos processados para exportações. Pela Constituição, os minerais pertencem à União, e não ao dono do terreno. A exploração só é permitida mediante autorização ou concessão federal, mesmo com a emenda do governo Fernando Henrique Cardoso (FHC), aprovada em 1995, revogando o Artigo 171 da Constituição, que estabelecia a diferença entre empresas nacional e estrangeira.

Como diz a presidente em exercício do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Nádia Campeão, as terras raras “são um tesouro no subsolo brasileiro, patrimônio da nação”. “Os Estados Unidos de Trump procuram se apoderar destes recursos estratégicos por meio de negociações privadas ou diretamente com entes subnacionais. O governo brasileiro, de imediato, deve exercer plenamente a soberania para impedir que se concretize esse ato contrário aos interesses nacionais”, afirma.

O alerta se insere na conjuntura de grande pressão dos Estados Unidos pela posse das terras raras, uma tentativa de cunho neocolonial de moldar a política brasileira para esse setor. Em fevereiro, o governo de Donald Trump enviou uma proposta para um acordo bilateral, ignorada pelo Brasil.

A proposta chegou junto com um alto enviado, Darren Beattie, assessor de Trump, que deveria participar do Fórum Brasil-Estados Unidos em Minerais Críticos e teve seu visto revogado depois que o governo brasileiro descobriu que ele planejava visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão e se encontrar com seu filho, o pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro.

O evento ocorreu em 18 de março, em São Paulo, organizado pela Embaixada e consulados dos Estados Unidos, com apoio do Instituto Brasileiro de Mineração, considerado o maior fórum público-privado sobre o tema na América Latina em 2026. Convidado, o governo brasileiro não compareceu.

No mesmo dia, o encarregado de Negócios dos Estados Unidos no Brasil, Gabriel Escobar, e o então governador de Goiás e atual pré-candidato a presidente, Ronaldo Caiado (PSD), assinaram um memorando no consulado estadunidense em São Paulo. No documento está em jogo a posição estadunidense de se opor a qualquer medida que torne obrigatório o processamento desses minerais no Brasil. E, em troca de seus investimentos, querem prioridade sobre a China na compra dos minerais.

Nesse jogo aparecem Caiado e Flávio Bolsonaro numa espécie de gincana sobre qual é o mais entreguista e traidor da pátria. A “solução” para que os Estados Unidos quebrem a dependência comercial da China em relação aos minerais críticos está no Brasil, disse o bolsonarista na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), realizada recentemente no Texas.

Terras raras e minerais críticos são elementos essenciais para o desenvolvimento industrial, tecnológico e para a transição energética, diz uma nota técnica da Fundação Maurício Grabois. É preciso lembrar, a partir desse conceito, que o capítulo dos atentados à soberania nacional no período em que o país foi governo pelo entreguismo – do qual o governo Bolsonaro foi emblemático – é copioso.

O momento remete à campanha O petróleo é nosso, que abriu caminho entre todas as barragens e emergiu como um grande movimento popular em defesa da soberania nacional com a criação da Petrobras na década de 1950, levando o país a dar um salto em seu desenvolvimento.

Assim como aconteceu diante do tarifaço de Trump, impõe-se uma união de caráter patriótico que contenha e rechace essa ofensiva do imperialismo para se apossar dessa grande riqueza nacional. Diante disto, o presidente Lula com sentido de urgência deve buscar que sejam adotadas políticas e leis que resguardem o patrimônio nacional, além de procurar construir parcerias estratégicas que possibilitem para além da extração, o processamento das terras raras, à luz do interesse nacional.

A riqueza de Serra Verde é do Brasil. Sua venda à uma potência estrangeira se confronta com a Constituição. A legalidade do ato, portanto, é incerta e duvidosa. É dever das instituições da República escrutinar este fato sob a régua da soberania nacional.

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O embate sobre as terras raras e o futuro do Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/valor-estrategico.html

Minerais estratégicos

Como impedir a venda de minas de terras raras
Estados Unidos e União Europeia criaram mecanismos para proteger a economia nacional e evitar a 'compra predatória' por razões de segurança
Luís Nassif/Jornal GGN   

Se Lula quiser bons precedentes para vetar a venda da mina de terras raras para uma empresa norte-americana, mire-se nos exemplos dos Estados Unidos, China e países europeus.

Os EUA têm o sistema mais desenvolvido do mundo. O CFIUS (Committee on Foreign Investment in the United States), presidido pelo Secretário do Tesouro, analisa transações que possam dar a entidades estrangeiras o controle de empresas americanas — incluindo fusões, aquisições e investimentos em tecnologias críticas, infraestrutura e dados sensíveis.

Não são poucos os casos de bloqueio, sabendo-se que na prática, o bloqueio formal é raro. Entre 2016 e 2020, apenas cinco casos foram enviados ao presidente da República para decisão, enquanto 62 foram retirados e abandonados diante das preocupações levantadas pelo CFIUS. A maioria das transações morre antes — as empresas desistem ao perceber que o bloqueio é certo. 

Lattice Semiconductor (2017): Em 2017, Trump bloqueou a aquisição da fabricante de microchips Lattice Semiconductor pela Canyon Bridge Capital Partners, firma chinesa de private equity, alegando que a transação representava risco à segurança nacional que não podia ser resolvido por medidas mitigadoras. 

Aixtron SE (2016): Obama bloqueou a aquisição pela unidade americana da fabricante alemã de chips Aixtron SE por uma empresa estatal chinesa.

Magnachip / Wise Road Capital (2021): A firma chinesa Wise Road Capital acordou comprar a fabricante sul-coreana Magnachip por US$ 1,4 bilhão. O CFIUS identificou riscos à segurança nacional e concluiu que nenhuma medida mitigadora proposta pelas partes era suficiente para eliminá-los. 

Nippon Steel / US Steel (2025): O caso mais recente e politicamente revelador. Em janeiro de 2025, Biden bloqueou a proposta de fusão de US$ 14,9 bilhões entre a US Steel e a japonesa Nippon Steel após o CFIUS não conseguir chegar a consenso sobre o negócio. O detalhe é que o Japão é aliado da OTAN. O caso ilustra o impacto que a política e a percepção pública — e não apenas considerações de segurança nacional propriamente ditas — podem ter sobre transações sujeitas a revisão do CFIUS. 

Dubai Ports / P&O (2006): Outro caso clássico. Uma empresa dos Emirados Árabes compraria a operadora britânica P&O, assumindo controle de portos americanos. O Departamento de Segurança Interna chegou a negociar uma “carta de garantias” com a DP World, mas a hostilidade do Congresso americano levou a empresa a retirar a proposta de aquisição.

TikTok – Congresso aprova lei bipartidária. A ByteDance (dona do TikTok) teve que vender o TikTok ou sofrer banimento total nos EUA até 19 de janeiro de 2025. Solução final: TikTok não foi banido, mas foi forçado a se reestruturar nos EUA, com  a operação americana separada e controle parcial por investidores dos EUA 

Europa: golden shares, triagem e o caso alemão

Na Europa, o mecanismo histórico foi a golden share — ação especial retida pelo Estado durante privatizações que concede poder de veto sobre decisões estratégicas. As golden shares emergiram com destaque nos anos 1980 e 1990 durante a onda de privatizações, especialmente no Reino Unido sob Thatcher, mas também na França, Alemanha e outros países da UE.

O Tribunal de Justiça da União Europeia, porém, foi sistematicamente hostil ao mecanismo. Foram declaradas ilegais as golden shares espanholas na Telefónica, Repsol, Endesa, Argentaria e Tabacalera. A da BAA (operadora britânica de aeroportos) também foi considerada ilegal por restringir a livre circulação de capitais na UE. 

A resposta europeia foi migrar para sistemas de triagem de investimentos estrangeiros diretos (IED). O caso alemão é ilustrativo: em julho de 2018, o governo federal alemão impediu que um investidor chinês adquirisse 20% da operadora de rede elétrica 50Hertz, articulando para que o banco estatal KfW fizesse o investimento no lugar — porque o governo não tinha jurisdição para bloquear diretamente o negócio sob as regras então vigentes.

Além disso, o governo alemão proibiu a venda de uma fábrica de chips e do negócio de turbinas a gás da MAN Energy Solutions a investidores chineses, com base em triagem de investimentos estrangeiros.

A pandemia de COVID-19 acelerou o endurecimento europeu. A Comissão Europeia emitiu orientações declarando que os Estados-membros têm o direito de usar mecanismos de triagem, golden shares ou mesmo nacionalização para bloquear ou limitar a “compra predatória” de ativos estratégicos por investidores estrangeiros por razões de segurança ou política pública.

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IA: Como a China está vencendo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ia-china-vence-eua.html