07 abril 2026

Palavra de poeta

Faz anos navego o incerto
Caio Fernando Abreu     

Faz anos navego o incerto.
Não há roteiros nem portos.
Os mares são de enganos
e o prévio medo dos rochedos
nos prende em falsas calmarias.
As ilhas no horizonte, miragens verdes.
Eu não queria nada além
de olhar estrelas
como quem nada sabe
para trocar palavras, quem sabe um toque
com o surdo camarote ao lado
mas tenho medo do navio fantasma
perdido em pontas sobre o tombadilho
dou a face e forma a vultos embaçados.
A lua cheia diminui a cada dia.
Não há respostas.
Queria só um amigo onde pudesse jogar o coração
como uma âncora.

[Ilustração: Pablo Picasso]

Leia também "O bolero e o mar", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/palavra-de-poeta_30.html 

06 abril 2026

EUA: direita dividida

A disputa entre tradições rivais da direita americana
Ao trocar a operação de “polícia global” na Venezuela por uma guerra aberta no Irã, Donald Trump abandonou o “America First” que unificava a direita e reabriu a velha disputa entre neoconservadores intervencionistas e paleoconservadores isolacionistas
Marina Basso Lacerda/A Terra é Redonda   


Repercute no Brasil o pedido de explicações, feito por Alexandre de Moraes, sobre a fala de Eduardo Bolsonaro na Cpac (Conferência de Ação Política Conservadora). Na definição do ex-deputado, o evento é a “Copa do Mundo” da direita, que foi realizado no Texas em 28 de março.

Donald Trump, atual presidente dos EUA, pela primeira vez em 10 anos se ausentou do encontro, o que foi atribuído a uma cisão ocorrida no MAGA (Movimento Faça a América Grande Novamente) por conta da guerra no Irã.

Ruptura com os princípios de 2016

Tucker Carlson, um dos principais defensores das ideias de Donald Trump na grande mídia, classificou a ofensiva ao Irã como abandono dos princípios de 2016 e manifestou forte indignação com o custo humano das guerras na região, incluindo a morte de civis.

Joe Kent, veterano e voz influente entre setores da base, então diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos, apresentou sua renúncia por não poder continuar, “em boa consciência”, associado a uma guerra que, segundo ele, não atendia a um “interesse nacional vital”. Joe Kent argumentou que havia prometido a si mesmo, depois de suas experiências no Iraque, que não voltaria a apoiar decisões que enviassem jovens norte americanos para morrer em campos de batalha estrangeiros.

Stewart Rhodes, fundador da organização de extrema direita Oath Keepers, anunciou seu abandono do Maga, atribuindo a mudança de atitude de Donald Trump à influência do que chamou de “sionismo” e afirmando que a decisão havia provocado uma divisão interna no movimento.

No Congresso, Thomas Massie apresentou uma Resolução de Poderes de Guerra e criticou abertamente a administração por não oferecer uma justificativa clara para a intervenção. No plenário, questionou: “Não aprendemos nada?”, referindo-se aos fracassados “experimentos de mudança de regime” do passado.

Parte da direita midiática também se voltou contra a incursão no Irã, incluindo comentaristas como Megyn Kelly, durante uma divisão crescente no ecossistema Maga.

A insurreição tem como núcleo o rompimento de Donald Trump com os princípios que estruturaram sua campanha em 2016 – o fim das “guerras eternas”, o nacionalismo econômico e a prioridade ao “norte-americano esquecido”. Esses compromissos, condensados na fórmula America First.

Para compreender a natureza dessa ruptura, é necessário recuar às raízes da fragmentação da direita norte-americana no pós-Ronald Reagan, marcada pela emergência de duas correntes rivais: o neoconservadorismo e o paleoconservadorismo – tradição da qual o trumpismo recupera elementos centrais.

Neoconservadores vs. paleoconservadores

O neoconservadorismo emergiu como uma coalizão de intelectuais, empresários, direita cristã e setores da classe média, que elegeu Ronald Reagan em 1980. Sua plataforma fundia valores morais tradicionais ao neoliberalismo econômico, defendendo uma projeção externa dos EUA como potência dominante no combate à União Soviética.

Com o fim da era Ronald Reagan e a queda do Muro de Berlim, essa coalizão perdeu seu líder agregador e seu inimigo externo primordial. Com isso, ocorreu uma cisão, que marcou o início de uma disputa pela alma da direita norte-americana.

Os neoconservadores, de um lado, passaram a advogar pela liderança global; os paleoconservadores, por sua vez, defendiam uma visão de país voltada para dentro, centrada na suposta homogeneidade étnico-cultural e no cristianismo –uma reação ao que viam como um globalismo desenraizante.

Os atentados de 11 de Setembro deram impulso definitivo à “política externa com fins morais”, justificada com base em uma suposta missão civilizatória. Do outro lado da fratura, os paleoconservadores se reivindicam herdeiros do “conservadorismo tradicionalista” ou “velha direita” pré-Segunda Guerra Mundial.

Pat Buchanan, pilar do movimento, direcionou sua crítica à elite transnacional e ao livre-comércio, que teriam sacrificado a soberania nacional e deixado para trás os “americanos esquecidos” –a classe trabalhadora cujos empregos e comunidades foram erodidos pela globalização. É precisamente dessa tradição que brota a genealogia intelectual do trumpismo e seu slogan America First.

Comparação Venezuela/Irã

Donald Trump, quando da captura de Niol´s Maduro na Venezuela, em 3 de janeiro, criou um modelo paleoconservador de intervenção, ancorada inteiramente na política interna dos Estados Unidos: combate às gangues de drogas que assolam os norte-americanos, retornos financeiros e nenhuma baixa estadunidense. Ou seja, ele equilibrou os princípios de movimento de raízes antiintervencionistas com uma ação militar ousada. Conduzida pelo Departamento de Justiça, foi uma verdadeira operação de “polícia global”.

Mas a invasão do Irã, ocorrida menos de 3 meses depois, teve uma narrativa totalmente oposta, resgatando o neoconservadorismo.

Se na Venezuela a ação foi blindada sob o rótulo de uma “operação de captura de narcoterrorista”, no Irã o governo de Donald Trump ressuscitou o espectro das intervenções de larga escala. A promessa do “risco zero” evaporou-se diante das primeiras baixas norte-americanas em solo persa, quebrando o contrato emocional de proteção aos “nossos rapazes” que fundamentava o America First.

Em vez do cálculo pragmático de recompensas, o discurso migrou para o messianismo neoconservador: a retórica de “libertar o povo iraniano” e a imposição de uma mudança de regime. Onde antes havia um espetáculo punitivo de baixo custo e alta lucratividade para consumo interno, surgiu uma guerra aberta de desgaste, drenando recursos e expondo a face de um imperialismo clássico que o eleitorado de Donald Trump acreditava ter enterrado com a “velha direita”.

Essa inflexão, embora não seja inédita, é de outra ordem: diferentemente de episódios como a Síria em 2017, trata-se agora de uma mudança sustentada, com custos humanos e políticos que tornam inviável a antiga ambiguidade do trumpismo.

Nomes como JD Vance emergem como vetores dessa inflexão ao tentarem converter a ofensiva em um exercício de pragmatismo militar e saída estratégica. Ao defender que os “objetivos foram atingidos” e focar na destruição da capacidade iraniana como passo para a negociação, JD Vance acaba por esvaziar o isolacionismo visceral do America First conferindo uma face de eficiência técnica a uma guerra que a base original do movimento preferia nunca ter iniciado.

O trumpismo, portanto, deixa de ser síntese e volta a ser campo de disputa entre tradições rivais da direita americana. A oscilação recente entre ameaça de escalada e acenos de negociação – prontamente negados por Teerã – não constitui mera ambiguidade tática, mas sinaliza a desarticulação de um projeto que já não consegue alinhar discurso, base social e ação de governo. E isso se expressou no grande encontro da direita mundial.

É verdade que o Cpac teve temas unificadores: apoio às deportações e políticas duras de segurança. Contudo, a fratura sobre o Irã foi incontornável. De um lado, o príncipe iraniano exilado Reza Pahlavi elogiou ações dos Estados Unidos contra o regime iraniano e defendeu sua derrubada como caminho para a libertação do país. Do outro, o deputado Matt Gaetz alertou que a guerra afetaria diretamente a população e deixaria os EUA mais pobres e menos seguros.

Não por acaso, Donald Trump ausentou-se do encontro pela primeira vez em 10 anos: o líder que organizava a coalizão já não consegue falar a uma base que deixou de ser una.

*Marina Basso Lacerdadoutora em ciência política pelo Iesp/Uerj, é atualmente Chefe de Gabinete do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Autora do livro O Novo Conservadorismo Brasileiro: de Reagan a Bolsonaro (Zouk). [https://amzn.to/41l3IcH]

Publicado originalmente no portal Poder360.

Financeirização, fraude & especulação https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/financeirizacao-fraude-especulacao.html 

Humor de resistência

Aroeira 

Qual reforma?

Reforma política em horizonte futuro
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65     

Reforma política ampla e consistente tem sido defendida pelo PCdoB desde a promulgação da atual Constituição. Na dimensão pretendida tem status programático.

O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) defende historicamente uma reforma que busca ampliar a participação popular, fortalecer os partidos programáticos e reduzir a influência do poder econômico nas eleições.

No Programa Socialista para o Brasil, aprovado em 2009 e agora em vias de atualização, consta em ementa sobre o tema: uma reforma política, que assegure o pluralismo partidário, resguarde o sistema proporcional, propicie o fortalecimento dos partidos e amplie a liberdade política; novo sistema de representação político-eleitoral com financiamento público de campanhas e voto em listas partidárias.

Desde então, na imprensa partidária e em outros meios, quadros partidários têm defendido a essência dessa reforma.

Nas circunstâncias atuais, tal reforma demanda uma nova Assembleia Nacional Constituinte, inviável imediatamente devido à correlação de forças desfavorável.

Enquanto isso, o PCdoB segue propugnando que a democracia deve ser baseada em partidos com identidade programática clara, em oposição ao "personalismo" ou às chamadas legendas de aluguel. Defende as Federações Partidárias, como a denominada Brasil da Esperança (PT-PCdoB-PV).

Demais, o PCdoB persiste na defesa de instrumentos de democracia direta, Plebiscitos e Referendos: projetos de lei de inciativa popular; representatividade de gênero e raça.

Alguns dizem, com certa razão, que reformas políticas e do sistema eleitoral, especificamente, têm acontecido no Brasil, em geral em ano eleitoral. Mas essas reformas miram apenas a sobrevivência de grandes legendas.

Este é o pano de fundo de nossa crítica ao troca-troca partidário às vésperas de eleições. Sigamos em frente.

Alianças híbridas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_30.html

Humor de resistência

Laerte

O caso Master e a crise regulatória do mercado de capitais https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/a-cvm-e-o-caso-master.html 

Abraham Sicsu opina

Era de passagem: uma especulação futurista
Abraham B. Sicsu   

Páscoa, Pessach, passagem. Comemorações de tempos de mudanças, de transformações, de um mundo que virá, nem sempre decifrável. Tempos de guerra, de violência, de opressão, em que a força supera qualquer razão humanitária. Se conseguirmos ultrapassar, o que nos espera?

Faz tempo li, não lembro bem onde, provavelmente num texto de algum almanaque popular, que a civilização humana passará por três Eras distintas. A dos Mitos, a da Razão e a de Domínio das Máquinas. Ficou na minha cabeça.

A dos Mitos, das lendas e dos inúmeros Deuses, em que tudo era sobrenatural, em que tudo se explicava no Além. Oráculos e profetas orientavam a vida humana, sabiam o que causava e o que viria consultando os Deuses e Entidades.

Deuses específicos seriam nossos sustentáculos para qualquer decisão, sua luz daria orientações seguras para o que viria. As oferendas e penitências, necessárias, seriam o caminho para uma vida mais harmônica e prazerosa. Mesmo sacrificando entes queridos. Nisso havia uma pia confiança.

É substituída pela Era da razão. Na qual ainda estamos, dizem que saindo. Com os sábios gregos dando um ponto de partida. A busca da razão e lógica estruturada, com os princípios da Ciência dando orientações.

O método dedutivo toma corpo, a escrita divulga os ensinamentos, as viagens aproximam povos e costumes, a cidade passa a ser o centro da produção de saber e do conhecimento.

A mitologia é substituída pelo pensamento crítico, a busca de causas observáveis e explicáveis define o rumo que o mundo tomou ou tomará. A dúvida é propulsora de avanços, a abstração dá base para a busca de compreensão dos fenômenos tendo o concreto estudado como seu alicerce. Argumentar, tendo a realidade como parâmetro, o caminho adotado.

A nova Era que vem sendo anunciada é a do Domínio das Máquinas. O futuro, como construção mental, ainda incerto, tem sua lógica orientada pela autonomia que, de maneira crescente, vem se dando às máquinas.

Os primeiros passos calcados no que chamam Internet das Coisas e no que surge com a Inteligência Artificial. Máquinas que interagem e que pensam.

Os avanços que foram dados causam medo, acredita-se que é para um momento muito próximo o que fará que as máquinas ganhem autonomia, poderão, por si, tomar decisões e prescindir do humano como orientador.

Neste período, pensar o futuro seria acoplar a automação e a conectividade absurdamente crescentes com a Inteligência Artificial. Tarefas rotinizadas e operacionais dispensariam o ser humano, mesmo a criatividade teria um papel reduzido do ser humano.

O Mundo teria que se reinventar, políticas seriam necessárias para dar sentido ao tempo livre, ao ócio, desta vez, pouco criativo. Com o tempo, o ser humano poderia ser dispensável, sem sentido para a vida terrena. Fundamental o repensar da sociedade e das atividades humanas.

O domínio da máquina sobre o humano tornou-se uma discussão técnica que atinge o futuro do trabalho. A inteligência em seus requintes mais sofisticados passaria a ser da máquina que pode, em muito, ultrapassar a capacidade humana.

O volume de informações existentes só pode ser manipulado por algoritmos potentíssimos que caracterizariam as máquinas. A complexidade dos modelos e dos problemas exigiria uma dimensão de tempo que só é dominada pelas máquinas.

Habilidades superiores e autonomia de decisão permitiriam que as máquinas superassem em muito o indivíduo humano. Narrativas sofisticadas podem ser imaginadas que levem, inclusive, à submissão do humano aos potentes aparelhos agora pensantes.

Um problema ético surge como questionamentos. Existiriam princípios morais que contivessem as máquinas? Se forem autoconscientes como se orientarão? Lembro, anos atrás, de ter participado de Comitês de Ética em Pesquisa Universitária, e ter lido inúmeros casos de que individualmente se ultrapassava qualquer limite em prol do sucesso pessoal. Pode isso ocorrer com as máquinas? A qual princípio de conduta estariam sujeitas?

Do lado dos sentimentos, uma análise que preocupa. Qual a empatia que teriam para com os humanos? A compaixão, fundamental para manter e melhorar condições de vida de populações desamparadas e relegadas ao esquecimento poderia ser induzida ou a racionalidade da “eficiência produtiva e de resultados de curto prazo” fariam com que fossem eliminadas aquelas populações?

Não há dúvida de que o domínio das máquinas irá crescer. Mas, num mundo de ganância e opressão explícita como o que vivemos, um perigo se vê próximo. Ignorá-lo é ingenuidade.

Se tantas guerras são motivadas por interesses meramente econômicos, sem nenhum respeito à vida humana, um mundo dominado pelas máquinas não exacerbaria isso?

Espero que a Passagem de nossas festas que ora comemoramos seja outra, com o fim da sandice das destruições atuais.

Que o Domínio das Máquinas seja controlado e tenha normas rígidas para não fugir de uma sociedade mais equânime e justa para o ser humano. E que se retarde ao máximo a chegada da nova Era a qual vejo difícil de ser monitorada com princípios de empatia.

[Ilustração: Marcos Guinoza]

Programas controlam o funcionário no home office https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/superexploracao-digital.html

Palavra de poeta

A íris selvagem
Louise Glück    

No final do meu sofrimento
havia uma saída.

Me ouça bem: aquilo que você chama de morte
eu me recordo.

Mais acima, ruídos, ramos de um pinheiro se movendo.
Então, nada. O sol fraco
cintilando sobre a superfície seca.

É terrível sobreviver
como consciência,
enterrada na terra escura.

Então tudo acabou: aquilo que você teme,
se tornando
uma alma e incapaz
de falar, encerrando abruptamente, a terra dura
se inclinando um pouco. E o que pensei serem
pássaros lançando-se em arbustos baixos.

Você que não se lembra
da passagem de outro mundo
eu te digo poderia repetir: aquilo que
retorna do esquecimento retorna
para encontrar uma voz:

do centro de minha vida veio
uma vasta fonte, azul profundo
sombras na água do mar azul.

[Ilustração: Di Cavalcanti]

Leia também: A estrela, um poema de Manuel Bandeira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_22.html