21 agosto 2026

Palavra de poeta

Integrações
Pablo Neruda   

Depois de tudo te amarei
como se fosse sempre antes
como se de tanto esperar
sem que te visse nem chegasses
estivesses eternamente
respirando perto de mim.

Perto de mim com teus hábitos,
teu colorido e tua guitarra
como estão juntos os países
nas lições escolares
e duas comarcas se confundem
e há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.

[Ilustração: William Turner Dannat]

Leia também: "Guarda-me em ti", poema de Raúl Zurita https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/palavra-de-poeta_02016478250.html 

20 agosto 2026

Minha opinião

A campanha de Cida, por exemplo*
Luciano Siqueira   

Em tempo de comunicação digital, as ruas— território da luta política ao longo da História — parecem subestimadas. 

Na presente campanha eleitoral, candidatos e candidatas aos diversos postos em disputa menosprezam o contato direto com as pessoas.  

Pelo menos aqui no Recife. 

Muito diferente do que sempre foi a tradição, nos primeiros dias de campanha são poucas as bandeiras e painéis e rara a militância abordando eleitores. 

A prioridade absoluta parece ser a difusão de vídeos curtos, que se disseminam nas telas dos celulares. 

Uns muito bem produzidos, ainda que superficiais no conteúdo.

Outros de mau gosto exemplar, como se mensagem e estética não tivessem a  obrigatoriamente de caminhar juntas — mesmo em peças assumidamente artesanais. 

Os nossos candidatos e candidatas do PCdoB em Pernambuco empenham-se no contato direto com o eleitorado, olhos nos olhos. 

Cida Pedrosa, por exemplo. 

Vereadora no Recife, poeta nacionalmente consagrada, tarimbada na luta popular em diversas frentes e na gestão pública, agora candidata a deputada estadual, cumpre agenda diuturna intensa, cuja marca é o contato com as pessoas. 

A campanha começa logo cedo, das 7 às 8 horas da manhã, quando em cruzamentos de ruas das mais movimentadas militantes abordam os que trafegam em seus veículos e transeuntes. 

(O velho militante octogenário, autor dessas breves linhas, comparece a todas). 

A receptividade é ótima e a repercussão, idem. 

E tome breves encontros e pequenas reuniões amplas ou em torno de um cafezinho, visita a residências e a locais de trabalho, quando possível registrados nas redes sociais. 

A marca é a indispensável ausculta da população e a busca da fusão entre sentimentos e expectativas e o conteúdo da campanha — a linha do PCdoB, que se expressa tanto nas proposições essenciais da candidatura de Lula à reeleição e aliados candidatos ao governo estadual e ao Senado, como na visão partidária própria, que ultrapassa os limites do horizonte visível e acrescenta a bandeira das reformas estruturais como meio de elevação do padrão de vida material e espiritual do povo e do vislumbre do sonho socialista, em perspectiva. 

A campanha de Cida, como dos candidatos e candidatas do PCdoB pelo Brasil afora, dispõe de parcos recursos materiais, porém compensados por amplo e crescente voluntariado — militantes, ativistas dos movimentos sociais, juventude, intelectualidade e amigos diversos. 

Limites financeiros parcialmente atenuados através da “vaquinha”, que a legislação eleitoral permite.

Serve de exemplo porque emblemática do desafio de candidatos e candidatas de raiz essencialmente popular.  

Luta desigual porque a concorrência de legendas aquinhoadas de milhões de reais  impõe dificuldades e limitações. Passível de êxito, entretanto, pelo esforço coletivo dos que caminham — como na velha canção — "com a certeza na frente e a História na mão".

*Texto da minha coluna semanal no "Vermelho"

Leia também: Competente, corajosa, múltipla https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/combativa-sem-perder-leveza-jamais.html

Postei nas redes

Heidi Overton, destacada negacionista antivacina, é indicada por Trump para dirigir a Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA), a Anvisa dos Estados Unidos. É a ciência na lata do lixo. 

Trump em seu poço de areia movediça https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_01344647485.html 

Quem é antissistema?

Os Bolsonaros são diferentes, você sabe   
Para Flávio Bolsonaro, o 'sistema é podre' e o Brasil 'olha com nojo para Brasília'. A família se proclama 'antissistema', mas faz parte dele há quase 40 anos
Ruy Castro/Folha de S. Paulo  


Flávio Bolsonaro
disse em Copacabana, no domingo (16), que o Brasil "olha com nojo para Brasília". O que Brasília terá achado disso? Ele estava se referindo aos políticos. Os Bolsonaros são diferentes, você sabe. Não são políticos. O sistema é "podre". Eles são "antissistema". Mas vejamos o que cada um fez ou faz na vida.

1 - Jair Bolsonaro. Sete mandatos como deputado federal (1990, 94, 98, 2002, 06, 10 e 14). Presidente eleito em 2018, derrotado em 2022. Atual presidiário condenado a 27 anos por tentativa de golpe de Estado. 2 - Flávio Bolsonaro. Filho 01 de Bolsonaro. Quatro mandatos como deputado estadual pelo Rio (2002, 06, 10 e 14). Atual senador e candidato à Presidência da República.

3 - Carlos Bolsonaro. Filho 02. Sete mandatos como vereador pelo Rio (2000, 04, 08, 12, 16, 20 e 24). No primeiro, concorreu contra a própria mãe e a derrotou. Chamado de "vereador federal" por passar mais tempo em Brasília do que no Rio. Candidato a senador por Santa Catarina, para onde se mudou em 2025 a fim de conseguir domicílio eleitoral. 4 - Eduardo Bolsonaro. Filho 03. Três mandatos como deputado federal por São Paulo (2016, 20 e 24). Cassado por abandono do cargo e condenado a quatro anos de prisão por coação judicial. Foragido nos EUA, dedica-se a pregar medidas econômicas contra o Brasil.

5 - Jair Renan Bolsonaro. Filho 04. Vereador desde 2024 por Balneário Camboriú (SC). 6 - Michelle Bolsonaro. Terceira mulher de Bolsonaro. Líder partidária e candidata a senadora pelo Distrito Federal. 7 - Rogéria Bolsonaro. Primeira mulher de Bolsonaro, mãe de Flávio, Carlos e Eduardo. Vereadora pelo Rio em 1992 e 96. Candidata a deputada federal. 8 - Renato Bolsonaro. Irmão de Bolsonaro. Foi candidato a vereador e a prefeito de Registro (SP) e Miracatu (SP) em 1996, 98, 2000, 04, 08, 12, 16 e 24. Perdeu todas. 9 - Percy Bolsonaro. Pai de Bolsonaro. Filiado nos anos 1960 ao MDB de Eldorado (SP), partido contra a ditadura militar, e monitorado pelo extinto SNI (Serviço Nacional de Informações) por exercício ilegal da medicina.

Não falei que os Bolsonaros eram diferentes?

Fadado ao fracasso https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_0123064612.html 

Nivaldo Santana opina

Valorização do trabalho precisa de luta e da reeleição de Lula
Dados do emprego formal mostram avanços, mas baixos salários e precarização mantêm no centro do debate as reivindicações do movimento sindical.
Nivaldo Santana/Vermelho   

O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) divulgou no fim de julho os dados do Novo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) com base nos indicadores do primeiro semestre deste ano de 2026.

Os dados são positivos. No mês de junho, o saldo positivo dos empregos criados foi de exatos 145.161. Com isso, o mercado de trabalho formal no Brasil, no primeiro semestre, gerou 921.645 novos postos de trabalho.

Esses números apontam, sempre segundo o MTE, que o total de empregos com vínculos trabalhistas no país alcançou 48.032.308 no fim do semestre encerrado em junho.

Com exceção dos estados do Espírito Santo e Tocantins, por fatores sazonais, todas as outras 25 unidades da Federação apresentaram saldo positivo.

Esse incremento dos vínculos trabalhistas faz com que a taxa nacional de desemprego atinja os menores níveis históricos, um indicador importante para medir a mobilidade social e a desigualdade no país.

A esse respeito, vale citar análise do professor aposentado de Economia da Unicamp Waldir Quadros. Segundo ele, “todas as camadas foram beneficiadas pela mobilidade social no triênio 2023-2025”.

O professor Quadros mostra que a mobilidade social não é maior devido “à falta de um sistema de produção industrial moderno”. Segundo ele, a desindustrialização “resulta, entre outros malefícios, em atraso tecnológico, baixo crescimento, limitada geração de empregos qualificados e precárias oportunidades ao pequeno negócio”.

Corroborando a tese do professor, o Caged aponta que o recorde de empregos criados e o baixo desemprego, dados positivos, são atenuados pelo salário médio real de admissão em junho, de apenas R$ 2.404,34.

O Brasil, no entanto, melhorou – e muito – com o terceiro governo de Lula, depois da tragédia bolsonarista que havia jogado para baixo todos os indicadores econômicos e sociais.

Por isso, o movimento sindical brasileiro, após a realização da Conferência Nacional da Classe Trabalhadora, em abril deste ano, aprovou uma importante agenda para avançar nas conquistas.

A agenda unitária do Fórum das Centrais Sindicais defende um projeto nacional de desenvolvimento com soberania, democracia e valorização do trabalho. Para tanto, é essencial ter uma indústria forte, geradora de empregos de qualidade e com melhores salários.

Tudo isso precisa vir acompanhado da luta contra a precarização do trabalho, pela redução da jornada sem diminuição de salários, pela preservação da política de valorização do salário-mínimo.

Essa pauta, para se tornar vitoriosa, precisa, antes de tudo, da reeleição do presidente Lula em outubro. Por isso, a batalha para derrotar uma vez mais a extrema-direita deve estar no topo da agenda do sindicalismo classista.

Campo de batalha preferencial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_0705469525.html

Postei nas redes

Por que grandes legendas do Centrão não apoiam Flávio Bolsonaro? Por pragmatismo político: com o andar da campanha o candidato do PL pesará uma tonelada para ser carregado. 

Pequenas grandes contribuições https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/pequenas-grandes-contribuicoes.html 

Palavra de poeta

passeio pelas ruas do espinheiro 
Cida Pedrosa 

quero 
pelos olhos da cidade 
apreciar papoulas 
abertas de par em par 
para deleite dos cãezinhos 
e colares de pérola de maiorca
 
(a pressão atropela a solidão do homem 
que vende pipoca na esquina 
 
o vento do carro 
levanta a saia da moça lilás 
para felicidade dos operários 
já libertos do andaime 
e da rigidez das horas)
 
quero
pelos olhos da cidade 
sentir cheiro de pão e de fuligem 
de brisa e de cimento 
e testemunhar o preciso instante 
em que o beija-flor afaga 
a papoula aberta de para em par
 
[Foto: LS]
 
Leia também: "Nossa marcha", poema de Vladímir Maiakóvski https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-de-poeta_01236454352.html