30 junho 2026

Minha opinião

Nenhuma coisa, nem outra 
Luciano Siqueira 

Você está enriquecendo ou apenas vendendo seu tempo — pergunta colunista o caderno de economia da Folha de S. Paulo.

Há uma diferença importante entre ganhar bem, ou melhorar a renda, e construir riqueza — segue argumentando. 

O alvo do dito cujo são executivos e detentores de cargos altamente especializados de grandes empresas. A sugestão de que invistam o que ganham para formar patrimônio. 

A leitura apenas me diverte. Eu mesmo nunca quis enriquecer, nem jamais prostituí meu tempo. 

Condições materiais básicas de subsistência me bastam. 

E ao tempo — como ensina Caetano Veloso — peço o prazer legítimo e o movimento preciso.

Imagino o desgaste desses executivos consumidos pela concorrência — entre empresas do mesmo ramo e entre eles mesmos na busca de ascensão. Para quê?

Igualmente a angústia dos que dizem não terem tempo para nada porque altamente remunerados em sua jornada de trabalho consumida pela competição e por angústias várias. 

Daí o privilégio de ser pobre e dedicar o principal do meu tempo à militância do PCdoB movida por ideais libertários. 

Dinheiro? Basta o essencial para um cotidiano sem privações e, se possível, com algum conforto. 

Tempo? O desafio é seguir uma agenda racional e eficiente cuja essência está em combinar os deveres da militância com a vida familiar. 

Simples assim. 

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Leia também: Há vida a milhões de anos luz? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/09/vida-milhoes-de-anos-luz.html 

Humor de resistência

 

Avila

Como a China contornou o tarifaço https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/china-x-estados-unidos.html 

Palavra de poeta

FINALMENTE
Paulo Sérgio Rosseto    

Dá-me um gole da tua dor
Para que a tornemos discreta
E se possível mais amena
Como se um menor torpor
Daquilo que a alimenta
A ambos significasse

É assim que o amor se completa

Estúpido é quem acredita
Que solidão plena letra por letra 
Serve apenas a insanos
E se cura aos pedaços

Como se não bastasse
Vivemos daquilo que sentimos
E de tal forma nos complementamos
Que mesmo que um de nós
Vá ali fora morrer
Depois finalmente conversamos

[Ilustração: Alexej von Jawlensky]

Planos a longo prazo, sim https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_4.html 

Copa do Mundo pró-imperialista

Gianni Infantino e Donald Trump
O “FIFA Peace Prize” concedido a Donald Trump tornou-se o símbolo das contradições da Copa de 2026: entre guerras, fronteiras e apostas, a FIFA aproximou o futebol das disputas da geopolítica contemporânea
Marco Bettine*/A Terra é Redonda   

 

A promessa do United

Quando a FIFA anunciou que a Copa do Mundo de 2026 seria realizada conjuntamente por Estados Unidos, Canadá e México, apresentou a candidatura sob um nome carregado de significado político: United 2026. A escolha ultrapassava uma estratégia de marketing esportivo. Ela condensava um imaginário cosmopolita fundado na integração regional, na livre circulação de pessoas e na cooperação entre Estados.

Ao adotar posteriormente o lema United As One, a FIFA projetava a imagem de uma América do Norte capaz de relativizar fronteiras nacionais em favor de um espaço compartilhado de convivência e intercâmbio. O futebol deixava de representar apenas uma competição esportiva para tornar-se a linguagem simbólica de uma determinada visão da globalização.

Zygmunt Bauman sinalizava que a ideia de circulação global é profundamente desigual, a Copa de 2026 tornou visível essa assimetria: enquanto capitais, plataformas digitais e mercados atravessam fronteiras com facilidade crescente, pessoas continuam submetidas a filtros políticos, econômicos e geopolíticos.

A força simbólica dessa candidatura residia justamente na capacidade de converter uma decisão organizacional em uma narrativa política. A Copa era apresentada não apenas como um torneio disputado em três países, mas como um projeto de integração continental que atribuía ao futebol um papel de mediação entre sociedades, culturas e fronteiras. A promessa do United não consistia apenas em realizar a maior Copa da história, mas em oferecer uma representação otimista da globalização em um momento de crescente fragmentação da ordem internacional.

Enquanto o presidente da FIFA Gianni Infantino projetava uma imagem de integração continental, os Estados Unidos, sob o trumpismo, levantava a bandeira do programa America First; do fortalecimento das fronteiras e da restrição aos fluxos migratórios.

United também respondia a uma necessidade interna da própria FIFA. A entidade atravessava uma das maiores crises de sua história desde que, em 2015, investigações internacionais revelaram um amplo esquema de corrupção envolvendo dirigentes, contratos comerciais e o processo de escolha das sedes da Copa do Mundo. O escândalo não abalou apenas a imagem de seus dirigentes; colocou em questão a legitimidade da organização responsável por governar o futebol mundial. Em termos weberianos, tratava-se de uma crise da autoridade institucional. Estava em jogo a erosão do capital simbólico que permitia à FIFA apresentar-se como única representante do futebol oficial.

Foi nesse contexto que, em junho de 2018, durante o 68º. Congresso da FIFA, em Moscou, a candidatura United 2026 derrotou Marrocos. A decisão possuía um significado que ultrapassava a definição do país anfitrião. Ao optar por uma candidatura conjunta, baseada na cooperação entre três Estados soberanos, a FIFA procurava demonstrar que também ela era capaz de inaugurar um novo ciclo de legitimidade, transparência e abertura internacional.

A escolha do United deve ser compreendida, portanto, como parte da estratégia de reconstrução da própria autoridade da FIFA. A candidatura não simbolizava apenas uma forma inovadora de organizar a Copa do Mundo; ela permitia à entidade associar sua renovação institucional a uma narrativa de integração regional, cooperação política e abertura cosmopolita. 

A convergência entre futebol e poder

A relação entre Gianni Infantino e Donald Trump tornou-se um dos aspectos mais marcantes da Copa do Mundo de 2026. Longe de representar apenas uma aproximação pessoal entre o presidente da FIFA e o presidente dos Estados Unidos, essa relação revela uma convergência de interesses entre a principal organização do futebol mundial e o poder político da maior potência econômica do planeta.

O primeiro passo dessa aproximação ocorreu após a escolha da candidatura conjunta de Estados Unidos, Canadá e México para sediar a Copa de 2026. A partir desse momento, Gianni Infantino passou a tratar a Casa Branca como parceira estratégica da organização do torneio. Segundo a New York Magazine, um dos encontros decisivos entre Gianni Infantino e Donald Trump ocorreu no Salão Oval e foi articulado por Jared Kushner, genro do presidente norte-americano, e por Carlos Cordeiro, então presidente da Federação de Futebol dos Estados Unidos. A partir daí a relação deixou de ser protocolar para assumir um caráter permanente.

Com o retorno de Donald Trump à presidência, essa proximidade tornou-se ainda mais explícita. Gianni Infantino passou a defender publicamente que a realização de uma Copa do Mundo em território norte-americano exigia cooperação direta com a Casa Branca. Em entrevista ao The Guardian, afirmou manter “uma ótima relação” com Donald Trump e declarou que, sem o apoio do governo norte-americano, seria praticamente impossível organizar um evento da dimensão da Copa do Mundo.

Ao longo de 2025 e 2026, a relação ganhou forte dimensão simbólica. Gianni Infantino participou da cerimônia de posse de Donald Trump, reuniu-se diversas vezes com o presidente na Flórida e na Casa Branca, apresentou-lhe os principais troféus da FIFA e, durante um desses encontros, declarou: “Faremos isso juntos, senhor presidente”, em referência à organização dos grandes torneios da entidade em solo norte-americano.

O gesto mais emblemático dessa aproximação ocorreu durante o sorteio final da Copa de 2026, quando Donald Trump recebeu de Gianni Infantino o primeiro FIFA Peace Prize, uma homenagem que provocou intenso debate internacional diante das controvérsias envolvendo a política bélica e migratória do governo norte-americano.

Essa aproximação expressa uma convergência de interesses mais ampla. A FIFA necessitava do apoio do Estado norte-americano para garantir segurança, infraestrutura, logística, concessão de vistos e estabilidade institucional para o evento esportivo. Donald Trump, por sua vez, identificou na Copa uma oportunidade singular de ampliar sua projeção internacional e converter o enorme capital simbólico do futebol em capital político.

Nesse sentido, a Copa de 2026 deixou de ser apenas um megaevento esportivo para tornar-se também um espaço de negociação entre esporte, Estado e poder, evidenciando como o futebol contemporâneo passou a integrar, de forma cada vez mais explícita, as estratégias de projeção geopolítica dos governos e das organizações esportivas globais. 

Da promessa cosmopolita ao endurecimento das fronteiras

A narrativa construída em torno do United 2026 começou a desfazer-se poucos anos após a escolha da sede. A candidatura que simbolizava integração regional, circulação e cooperação passou a conviver com um cenário internacional marcado pelo fortalecimento do nacionalismo, pelo endurecimento das políticas migratórias e pela crescente centralidade da segurança nacional. Em lugar da abertura prometida pela FIFA, a preparação da Copa passou a ser condicionada por disputas geopolíticas que extrapolavam o universo do esporte.

O retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos acelerou esse processo. Sua administração retomou políticas de nacionalismo econômico, ampliou tarifas comerciais, revisou acordos com Canadá e México, fortaleceu as operações do Immigration and Customs Enforcement (ICE) e endureceu as restrições de entrada para cidadãos de dezenas de países. Em junho de 2026, ao afirmar que os Estados Unidos não dependeriam economicamente de seus dois vizinhos, Trump reafirmava uma concepção de soberania incompatível com a ideia de integração continental celebrada pela candidatura United.

Nesse contexto, também se transformou a relação entre a FIFA e a Casa Branca. Sob a presidência de Gianni Infantino, a entidade abandonou a distância institucional que historicamente procurava manter em relação aos governos nacionais e passou a construir uma afinidade eletiva com o presidente norte-americano. O FIFA Peace Prize – Football Unites the World é somente uma demonstração da subjugação da FIFA aos desejos do presidente insano. A homenagem provocou críticas internacionais tanto pela ausência de critérios transparentes quanto pelo contraste entre a retórica da paz e a política bélica dos Estados Unidos, marcada pela escalada das tensões com o Irã e pelo endurecimento das políticas migratórias.

As consequências desse novo contexto rapidamente passaram a afetar a própria organização do torneio. Segundo a Amnesty International, mais de 500 mil pessoas foram deportadas em 2025, enquanto as prisões realizadas diretamente nas ruas aumentaram onze vezes, o número de crianças mantidas em centros de detenção do ICE multiplicou-se por seis e a capacidade do sistema de detenção aproximou-se de 90 mil pessoas. Ao mesmo tempo, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos solicitou investigações independentes após o registro de dezenas de mortes sob custódia migratória, enquanto relatórios da Human Rights Watch e da Physicians for Human Rights denunciaram violência física, confinamento prolongado e graves deficiências no atendimento médico aos detidos.

Os efeitos dessa reconfiguração tornaram-se imediatamente perceptíveis. Na véspera da abertura da Copa, ao ser questionado sobre as dificuldades para obtenção de vistos, Donald Trump afirmou que sua administração trabalhava para garantir a entrada das “pessoas certas” (the right people) nos Estados Unidos. A declaração rompeu simbolicamente com um dos pressupostos históricos da Copa do Mundo: a ideia de que o torneio constitui um espaço excepcional de circulação internacional.

A percepção de que a Copa havia se tornado parte desse cenário extrapolou rapidamente os meios acadêmicos e passou a ocupar o centro da cobertura da grande imprensa internacional. Na reportagem “How the World Cup Became a Front Line for the U.S. Immigration Debate” (“Como a Copa do Mundo se tornou a linha de frente do debate migratório nos Estados Unidos”), o The Washington Post mostrou que comunidades migrantes passaram a temer operações do ICE nas cidades-sede e organizaram redes de assistência jurídica para torcedores estrangeiros.

O jornal The Guardian foi ainda mais contundente ao publicar o artigo “Welcome to Trump’s World Cup, a depressingly angry version of football uniting the planet” (“Bem-vindos à Copa de Trump, uma versão deprimente e raivosa do futebol que une o planeta”). O próprio título sintetiza a inversão simbólica do torneio: o evento que a FIFA apresentou como um projeto de integração continental passou a ser interpretado como um dos principais palcos de projeção política do trumpismo.

Dias depois, o mesmo The Guardian voltou ao tema na reportagem “We Want Fans to Know the Risks: US Immigrant Rights Groups Mobilize Across World Cup Host Cities Amid ICE Fears” (“Queremos que os torcedores conheçam os riscos: grupos de defesa dos direitos dos imigrantes se mobilizam nas cidades-sede da Copa diante do temor de ações do ICE”), revelando que organizações comunitárias estruturavam redes de acolhimento e resposta rápida para visitantes sujeitos a detenções e abordagens migratórias.

Paralelamente, mais de 120 organizações da sociedade civil divulgaram um inédito Travel Advisory (“Alerta de Viagem”), advertindo turistas e torcedores sobre riscos de perfilamento racial, inspeções de aparelhos eletrônicos, detenções arbitrárias e deportações. O contraste dificilmente poderia ser maior: enquanto a FIFA promovia a Copa como uma celebração da livre circulação e do encontro entre povos, parte significativa da imprensa internacional descrevia um torneio em que atravessar a fronteira podia se tornar tão decisivo quanto atravessar a linha do meio-campo.

Nenhum episódio simbolizou melhor essa mudança do que a participação do Irã. Embora a FIFA tenha assegurado o ingresso dos atletas e das delegações oficiais, familiares, jornalistas e torcedores permaneceram submetidos às restrições impostas pelo governo norte-americano, enquanto a equipe iraniana passou a operar sob protocolos especiais de deslocamento entre México e Estados Unidos.

A situação tornou-se ainda mais dramática porque o torneio coincidiu com a ampliação do envolvimento militar norte-americano no conflito contra o Irã. Estimativas internacionais apontavam para milhares de mortos, mais de dois mil civis entre as vítimas e milhões de deslocados. Pela primeira vez, uma seleção chegava à Copa cercada não apenas por expectativas esportivas, mas pelas consequências imediatas de uma guerra conduzida pelo principal país anfitrião.

O contexto regional tornava essa situação ainda mais dramática. Desde o início de 2026, os Estados Unidos ampliaram seu envolvimento direto na ofensiva militar contra o Irã, ao lado de Israel, autorizando ataques a instalações estratégicas e aprofundando sua participação no conflito. Estimativas divulgadas por organismos internacionais e centros independentes de pesquisa apontavam para mais de 3.600 iranianos mortos, dos quais mais de 2.100 civis, além de aproximadamente 3,2 milhões de pessoas deslocadas em consequência dos bombardeios e das operações militares. A guerra projetava sua sombra sobre um torneio concebido precisamente para celebrar a integração entre povos.

Ao final, o contraste era inevitável. A Copa concebida para simbolizar uma América do Norte integrada realizava-se sob a sombra de fronteiras militarizadas, deportações em massa, guerras, restrições à mobilidade e crescente polarização política. O lema United As One permanecia como linguagem oficial da FIFA; a experiência concreta do torneio, entretanto, apontava em outra direção. 

A esfera pública do futebol em disputa

Os acontecimentos que cercaram a Copa de 2026 revelam uma transformação que ultrapassa a politização de um megaevento esportivo. O que se modifica é a própria posição da FIFA na ordem internacional contemporânea. Durante décadas, a entidade apresentou o futebol como patrimônio da humanidade, mobilizando uma linguagem fundada na paz, na integração, na diversidade e na cooperação entre os povos. Esses valores não desapareceram. Permaneceram como discurso oficial da instituição.

O que mudou foi sua função política. Em vez de operarem apenas como princípios normativos, passaram a integrar uma estratégia de produção de legitimidade em um cenário marcado pela crescente convergência entre Estado, mercado e comunicação global.

A autoridade da FIFA nunca dependeu exclusivamente de sua capacidade de organizar competições, mas da crença socialmente compartilhada de que representa um bem cultural universal. É precisamente esse reconhecimento que confere à entidade uma influência que ultrapassa o campo esportivo. Quando a FIFA, por meio de Gianni Infantino, aproxima sua imagem institucional da administração de Donald Trump, concede ao presidente norte-americano o prêmio da paz e evita confrontar publicamente políticas migratórias e ações militares que contradizem sua retórica de integração, ela coloca esse patrimônio simbólico a serviço da construção de legitimidade de um projeto necropolítico.

É nesse ponto que a leitura habermasiana se torna interessante. A Copa do Mundo constitui uma das maiores esferas públicas transnacionais da contemporaneidade, reunindo bilhões de pessoas em torno de símbolos compartilhados e de uma experiência comunicativa de alcance global. Sua legitimidade decorre justamente da pretensão de universalidade. Entretanto, como argumenta Jürgen Habermas, nenhuma esfera pública permanece imune à colonização pelos sistemas (poder e dinheiro).

A Copa de 2026 evidencia esse processo. A aproximação entre FIFA e governo norte-americano, somada à crescente centralidade do mercado global das apostas esportivas, mostra que a comunicação orientada pelo entendimento passa a ceder espaço às racionalidades estratégicas do Estado e do mercado.

Essa reconfiguração também pode ser compreendida à luz de Antonio Gramsci. A hegemonia não se estabelece apenas pela coerção, mas pela capacidade de construir consenso e naturalizar determinadas representações da realidade. Ao preservar a retórica da integração enquanto silenciava diante das fronteiras militarizadas, das guerras, das deportações e das restrições à mobilidade internacional, a FIFA contribuiu para produzir uma imagem conciliadora de uma ordem profundamente desigual.

Essa lógica aproxima-se da crítica formulada por Guy Debord à sociedade do espetáculo. O espetáculo não elimina as contradições; reorganiza-as em imagens capazes de produzir adesão. O lema United As One, as cerimônias oficiais, os discursos sobre paz e diversidade e a celebração da integração continental permaneceram como imagens centrais da Copa de 2026. Ao mesmo tempo, fronteiras militarizadas, deportações, guerras, restrições migratórias e financeirização do torneio deixavam de ocupar o centro da narrativa oficial.

A FIFA deixa de ser exclusivamente a organizadora do maior espetáculo esportivo do planeta para afirmar-se como um ator capaz de distribuir reconhecimento, produzir legitimidade e intervir na disputa contemporânea pela hegemonia.

O paradoxo da Copa de 2026 reside exatamente aí. O torneio concebido para celebrar uma América do Norte unida acabou expondo, com rara intensidade, as fraturas da ordem internacional contemporânea. Entre fronteiras militarizadas e promessas de integração, entre guerras e discursos de paz, entre a comunicação global do esporte e sua crescente financeirização, a Copa mostrou que o universalismo do futebol não desapareceu, mas tornou-se um terreno permanente de disputa.

Talvez seja essa a principal novidade histórica desta edição: o futebol deixou de ser apenas um espelho da geopolítica para converter-se em um dos espaços onde a própria geopolítica passa a ser produzida, legitimada e contestada.

*Marco Bettine é professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP).

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Como o capitalismo sequestrou a Copa e o sonho de uma criança https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/futebol-argentario.html

29 junho 2026

Postei nas redes


Pesquisa LBTG/Nexus: Lula lidera no primeiro turno e vence em todos os cenários de segundo turno. Bom sinal, mas ainda temos muita luta pela frente. 

Copa do Mundo: símbolos emergem

Vozinha, “Lumumba” e outros heróis involuntários da Copa de Trump
Mundial-2026 vê emergirem figuras que explicam as tensões do mundo contemporâneo com muito mais precisão do que os eventuais campeões.
André Cintra/Vermelho  
 

A Copa do Mundo de 2026 caiu nas graças do povo à revelia das decisões da Fifa e da administração de Donald Trump. Encerrada a primeira fase no último sábado (27), o gigantismo inflado de um Mundial com 48 seleções e três países-sede não conseguiu sufocar o futebol. O que se viu em campo foi a fartura de partidas intensas, classificações dramáticas e uma média de quase três gols por jogo, patamar que o torneio não alcançava desde a mítica edição de 1958.

Enquanto Messi, Mbappé e Vinicius Junior cumprem o script e empurram suas seleções rumo ao título, o charme do torneio se consolida nas margens. A expansão do calendário para 72 partidas na fase inicial permitiu o acolhimento de seleções que carregam a identidade do Sul Global, gerando uma solidariedade continental nas arquibancadas.

Mas o Mundial-2026 já entrou para a história como um megaevento marcado pela exclusão. A Copa refletiu a promiscuidade entre os interesses da Fifa, presidida por Gianni Infantino, e a política migratória do governo Donald Trump. Em nenhum Mundial recente houve tantos relatos de barreiras impostas a atletas, membros de delegações, profissionais de imprensa e torcedores.

O pequeno arquipélago contra os gigantes

É nessa atmosfera que emergem os heróis involuntários, figuras que explicam as tensões do mundo contemporâneo com muito mais precisão do que os eventuais campeões. É o caso de Josimar José Évora Dias, o Vozinha, goleiro de Cabo Verde que alcançou a celebridade numa idade em que a maioria dos jogadores já se aposentou. Aos 40 anos e sem contrato fixo, o atleta iniciou a Copa carregando o orgulho de um arquipélago de apenas 530 mil habitantes.

Vozinha rodou por Angola, Chipre, Moldávia e Eslováquia, construindo a carreira no anonimato das ligas periféricas, longe do centro do futebol global. Sua certidão de nascimento o identifica como Josimar, nome herdado do lateral brasileiro que fez história no Mundial de 1986. O pai queria Valdano, em homenagem ao argentino do Real Madrid, mas o registro civil de Cabo Verde não aceitou. O apelido Vozinha, que se converteu em nome público, nasceu na infância e o acompanhou por toda a vida.

Sem nenhuma participação em Copas, Cabo Verde chegou à disputa como quem entra de penetra numa festa de milionários. Mas, logo no primeiro jogo, recuou para sobreviver, suportou a pressão da favorita Espanha e arrancou um surpreendente empate. A primeira zebra dessa edição foi comemorada como uma vitória nas ruas cabo-verdianas.

Após brilhar com defesas espetaculares, Vozinha virou um fenômeno de massas e angariou mais de 17 milhões de novos seguidores nas redes sociais. A consagração esportiva, contudo, revelou o drama humanitário dos bastidores. Quando o goleiro chorou na entrevista pós-jogo e contou que a mãe, Ana Cândida, estava proibida de entrar nos EUA devido às severas restrições impostas pela Casa Branca, o mundo prestou atenção.

A comoção pública e a mobilização política forçaram o Departamento de Estado a abrir uma exceção diplomática, permitindo que a mãe do atleta finalmente testemunhasse, da arquibancada, a classificação inédita de Cabo Verde. A imagem da família unida pelo futebol foi um dos momentos mais bonitos do torneio – e a exceção iluminou a regra.

Lumumba na Copa

O segundo símbolo desta Copa não precisou tocar na bola para fazer história. Michel Kuka Mboladinga, o “Lumumba Vea”, da República Democrática do Congo, apareceu ao planeta como uma estátua viva nos estádios da América do Norte. Vestido com terno nas cores do país, ele é um cosplayer de Patrice Lumumba, líder da independência congolesa e ex-primeiro-ministro. Lumumba foi executado em 1961, com ajuda da CIA, e seu corpo sumiu – o que, para Mboladinga, é um passivo que ainda rege a espoliação do Congo.

Pode parecer exótico ir a um estádio vestido como o principal líder político de seu país e permanecer como uma estátua viva, quase indiferente ao jogo, enquanto a torcida não para de se manifestar. Mas, desde a Copa Africana de Nações de 2025, Mboladinga recorre ao personagem para apoiar sua seleção e protestar durante as partidas. Agora, ele viajou ao Mundial a convite da própria delegação congolesa.

Enquanto a multidão gritava e consumia o espetáculo, ele lembrava que há sangue sob a história do futebol global. O impacto da performance cresce ainda mais porque o megaevento acontece nos próprios EUA, país que passou décadas interferindo politicamente na África e se envolveu no complô para eliminar Lumumba.

Sem cartazes nem discursos, sua presença foi um poderoso ato de memória e soberania, que remeteu à resistência anticolonial na África e à independência congolesa traída. No jogo entre Congo e Colômbia, Mboladinga cutucou a comunidade internacional, pondo simultaneamente dois dedos da mão direita na têmpora e a mão esquerda sobre a boca. Com o gesto, ele acusou o silêncio sobre as guerras e a espoliação no Congo.

Ao Wall Street Journal, Mboladinga explicou que sua imobilidade é uma forma de dar resistência emocional à equipe. “Assim como Lumumba sacrificou a própria vida pelo nosso país, minha imobilidade é um pequeno preço a pagar pela profunda preocupação que tenho com esta equipe”, afirmou.

Enquanto Vozinha teve sua história recompensada, a de Mboladinga acabou marcada por uma barreira. Os EUA negaram seu visto de entrada para o jogo decisivo do Congo contra o Uzbequistão, sob alegações sanitárias (o surto de ebola no país africano) que a Fifa preferiu ignorar. Se o torcedor mais famoso dessa Copa imobiliza o corpo para denunciar o silêncio, a Fifa imobiliza a própria voz diante do visto negado.

O Congo superou a ausência de seu mais célebre torcedor e se classificou pela primeira vez à segunda fase de uma Copa. Dentro ou fora do estádio, Mboladinga virou celebridade. Na África, foi tratado como herdeiro simbólico de Lumumba. Nas redes sociais, milhões de pessoas compartilharam sua mensagem de resistência.

A geopolítica em campo

A lista de heróis improváveis desta Copa é maior. Vale citar o árbitro Omar Abdulkadir Artan, primeiro representante da Somália numa Copa e eleito melhor juiz africano de 2025. Quando ele foi impedido de entrar nos EUA mesmo com visto válido, a Fifa, resignada, limitou-se a declarar que “não se envolve nos processos de imigração dos países-sede”.

O caso de Artan não foi isolado. Ao longo da Copa, relatos de restrições e constrangimentos envolvendo países hostilizados por Trump se multiplicaram, enquanto Infantino e os dirigentes da Fifa preferiam tratar cada episódio como mera questão burocrática.

A postura invariavelmente omissa da entidade enterra definitivamente o mito de sua independência. O histórico já incluía convivência com regimes autoritários, da Itália fascista em 1934 à ditadura argentina em 1978. Ainda assim, a Fifa preservava a imagem de instituição capaz de circular acima das fronteiras tradicionais da geopolítica.

Com 211 associações afiliadas, a Fifa se orgulhava de reunir mais membros do que a ONU (Organização das Nações Unidas). Dentro dessa engrenagem, até países periféricos, como o Brasil, conseguiam eventualmente exercer influência concreta. Tudo isso parece ter ficado para trás. A proximidade institucional e financeira com Washington expôs um grau de alinhamento inédito ao poder da nação anfitriã.

Na Copa da diáspora, da exclusão e das fronteiras vigiadas, a resistência se fez nas traves com Vozinha e no cimento das arquibancadas com Mboladinga. Diante de tentativas políticas de reduzir nações inteiras a meras estatísticas ou mão de obra, os heróis improváveis do Mundial-2026 demonstraram que o colonialismo nunca saiu completamente de campo. Mas o futebol ainda preserva a força de expor as fraturas do planeta.

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Como o capitalismo sequestrou a Copa e o sonho de uma criança https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/futebol-argentario.html 

Minha palavra

Anotações 
Luciano Siqueira 

Faz muito tempo que não anoto minhas ideias em papel. Afastei-me do manuscrito e do datilografado paulatinamente, substituindo-os pelo digitado. 

Depois, as anotações pronunciadas de viva voz e "escritas" no bloco de notas do celular. Não por preguiça, é que o raciocínio flui mais rápido. 

Já não posso dizer "anotei numa folha de papel". Digo: "uma ideia digitada". 

O raciocínio se torna mais rápido? Não. Apenas escrevo mais rápido, o raciocínio é depois. 

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"A pulga, a ciência e a paz mundial" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/a-pulga-quem-diria.html