24 janeiro 2026

Palavra de poeta

A Ovelha
Henriqueta Lisboa   

Encontrastes acaso
a ovelha desgarrada?
A mais tenra
do meu rebanho?
A que despertava ao primeiro
contato do sol?
A que buscava a água sem nuvens
para banhar-se?
A que andava solitária entre as flores
e delas retinha a fragrância
na lã doce e fina?
A que temerosa de espinhos
aos bosques silvestres
preferia o prado liso, a relva?
A que nos olhos trazia
uma luz diferente
quando à tarde voltávamos
ao aprisco?
A que nos meus joelhos brincava
tomada às vezes de alegria louca?
A que se dava em silêncio
ao refrigério da lua
após o longo dia estival?

A que dormindo estremecia
ao menor sussurro de aragem?
Encontrastes acaso
a mais estranha e dócil
das ovelhas?
Aquela a que no coração eu chamava
– a minha ovelha?

[Ilustração: Miguel Ángel Blinchón Bujes]

Leia também: "Talvez", poema de Pablo Neruda https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_10.html 

África: conflitos e possibilidades

Os recursos naturais, a disputa geopolítica e a luta pela soberania Africana
África é o segundo maior continente do mundo, com cerca de 1 bilhão e meio de habitantes, ou seja, 18,83% da população mundial. São nove territórios e 57 Estados independentes, divididos em cinco grandes regiões, e é comum separá-las em dois grandes blocos: a África do Norte, predominantemente arábica, e a África Negra ou Sub-Sahariana, ao sul do Sahel.
José Luís Fiori/Observatório Internacional Do Século XXI    

Apesar de suas dimensões geográficas e demográficas, a África produz apenas 5,4% do PIB mundial (em termos de paridade do poder de compra), 2% das transações comerciais globais e captou menos de 2% do investimento direto estrangeiro dos últimos anos.

A independência africana, depois da II Guerra Mundial, despertou grandes expectativas com relação aos seus novos governos de “libertação nacional” e projetos de desenvolvimento, que foram bem-sucedidos -em alguns casos- durante os primeiros tempos de vida independente. Esse desempenho inicial, entretanto, foi atropelado por sucessivos golpes militares (envolvendo, quase sempre, suas ex-metrópoles coloniais) e pela crise mundial dos anos 1970, que atingiu todas as sociedades periféricas, provocando um prolongado declínio da economia africana até o início do século XXI.

Na década de 90, depois do fim do mundo socialista e da Guerra Fria, e no auge da globalização financeira, o continente africano ficou praticamente à margem dos novos fluxos de comércio e investimentos globais. E só voltou a crescer nas primeiras décadas do século XXI, assim mesmo de forma extremamente desigual.

Nigéria, Egito e África do Sul são os três países mais ricos da África. A África conta com 25% das reservas mundiais de urânio, mais de 35% do potencial hidroelétrico do mundo e é responsável pelo fornecimento de 15% da produção mineral do planeta, dos quais 20% de diamantes e platina, 50% de cobalto, mais de 30% de ouro e de cromo, e cerca de 20% de manganês e fosfato.

Além disso, a África é hoje uma grande produtora e fornecedora de petróleo para a Europa e a Ásia. E foi graças a essa sua produção energética, e de alguns outros minerais estratégicos, que a economia africana começou a se recuperar a partir de 2001, alavancada pelo energética, e de alguns outros minerais estratégicos, que a economia africana começou a se recuperar a partir de 2001, alavancada pelo crescimento econômico da China e da Índia.

Hoje a China é o maior parceiro comercial da África e vem aumentando seus investimentos em infraestrutura, energia e mineração, assim como no caso da Índia, que compete com os chineses em muitos casos, rivalizando e superando em conjunto a Europa e os Estados Unidos, que foram os principais parceiros econômicos do continente africano logo após as independências nacionais.

Nesse novo contexto, adquire enorme importância a incorporação de Nigéria, Egito e Etiópia como países-membros do BRICS, na 15ª Cúpula do BRICS, realizada em Johanesburgo. Estes vieram se somar à África do Sul como “membros plenos”, e a Nigéria e Uganda, que foram convidados como “membros associados” na 16ª. Cúpula do BRICS, realizada na cidade de Kazan, Rússia.

Do lado norte-americano, depois da frustrada “intervenção humanitária” na Somália, em 1993, o presidente Bill Clinton visitou o continente e definiu uma estratégia de “baixo teor” para a África: democracia e crescimento econômico, através da globalização de seus mercados nacionais. Mas após 2001, os Estados Unidos mudaram sua política africana, em nome do combate ao terrorismo e da proteção de seus interesses estratégicos e energéticos, culminando com a criação, em outubro de 2007, do Comando dos Estados Unidos para a África, o AFRICOM, estabelecido em Camp Lamonier, a maior base militar dos EUA na África, na cidade de Djibouti, onde França e China também possuem bases ultramarinas.

Esse aumento da presença militar americana, entretanto, não foi um fenômeno isolado nas duas primeiras décadas do século XXI; pelo contrário, foi acompanhado de perto pela União Europeia e Grã-Bretanha, que mantém uma importante base militar conjunta com os EUA nas Ilhas Chagos, especificamente em Diego Garcia.

Por outro lado, a Rússia vem expandindo sua presença africana, com a assinatura de vários acordos de colaboração militar com países da África Negra -em particular da região do Sahel, que se estende da Costa Atlântica até o Mar Vermelho-, envolvendo o projeto de instalação de uma base naval na costa do Mar Vermelho, no território do Sudão.

Mais recentemente, depois da reeleição de Donald Trump, os EUA recolocaram a economia e recursos minerais no topo da sua agenda africana. E Trump promoveu um primeiro acordo de paz entre Ruanda e a República Democrático do Congo, depois de décadas de conflito, que rendeu para os EUA um acesso privilegiado aos recursos minerais do Congo, como no caso dos seus acordos recentes econômico e militar tende a se complicar complicou-se com o avanço da competição e do enfrentamento entre as “potencias ocidentais” e os países do BRICS, liderados exatamente, pela China, Rússia e Índia. Uma disputa que relembra a todo momento a mesa a ameaça de uma volta à história trágica da dominação colonial da África.

Cabe relembrar que tudo começou exatamente com a conquista portuguesa da cidade de Ceuta, no norte da África, em 1415, seguindo depois pela costa africana, transformando a população negra na principal commodity da economia mundial a partir do século XVI. Depois, de novo, na “era dos impérios”, no final do século XIX, as potências europeias conquistaram e submeteram -em poucos anos- todo o continente africano, com exceção da Etiópia.

E agora, já na terceira década do século XXI, há sinais de que a África possa se transformar -uma vez mais- no palco de um novo grande enfrentamento entre as velhas e novas grandes potências do sistema internacional.

É nesse contexto que se deve ler e interpretar a chamada “primavera árabe”, uma revolta social que se alastrou de 2010 a 2015, no chamado “Grande Médio Oriente” (expressão cunhada pela política externa dos EUA), começando pela Tunísia, seguida por Líbia, Egito, Marrocos e Argélia.

Foi um movimento que combinou, em todos os casos, a efervescência e a revolta social interna de cada um destes países com o patrocínio e a intervenção externa, direta ou indireta, dos Estados Unidos, visando a derrubada de governos ou a mudança de regimes que haviam sido apoiados ou financiados até então pelas próprias potências ocidentais.

A revolta foi reprimida no Marrocos e na Argélia, e foi revertida no Egito, mas se transformou numa guerra aberta no caso da Líbia, com participação direta das forças da OTAN.

Após 2020, um novo “tufão político” sacudiu a África, com uma sucessão de golpes e revoltas militares concentrados na região do Sahel, incluindo países como Mali, Guiné, Chade, Burkina Faso, Níger e Gabão. Foram sete golpes de Estado em apenas dois anos, quase todos com uma linguagem e proposta de ruptura definitiva dos laços neocoloniais que mantiveram esses países ligados e dependentes de seus colonizadores europeus, mesmo após suas independências.

E quase todos se propuseram a aumentar seus graus de soberania interna através de um realinhamento internacional, com uma aproximação militar e econômica da Rússia e da China.

Não há dúvida, entretanto, de que o grande momento de ruptura e afirmação da autonomia africana, em particular a África Negra frente aos seus colonizadores brancos e europeus, aconteceu quando o governo da África do Sul, à frente de vários outros países africanos, entrou com ação judicial junto à Corte Internacional de Justiça sediada em Haia, acusando Israel de genocídio da população palestina da Faixa de Gaza. Uma petição judicial de 84 páginas que acusa Israel de haver violado a Convenção de Genebra de 1948, apoiada posteriormente pelos 57 países da Organização dos Países Islâmicos, e pelos 22 membros da Liga Árabe, além dos governos de Turquia, Colômbia, Brasil e Bolívia.

Pela primeira vez na História, um país africano e negro, ex-colônia europeia, se levanta sobre seus próprios pés e toma a iniciativa soberana de acusar Israel, um “país branco e escolhido por Deus”, por crimes contra a humanidade, frente a um tribunal criado e controlado pelas grandes potências colonialistas europeias, as mesmas que criaram e mantêm o Estado de Israel.

Um verdadeiro momento revolucionário nas relações entre a África e seus ex-colonizadores, e mais do que isto, uma momento revolucionário na história moral do Sistema Internacional e da Humanidade.

Sudão e Gaza: ecos do terror eurocêntrico https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/crimes-contra-humanidade.html

Humor de resistência

 

Leandro Franco

As duas cabeças do monstro que assombra o Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/bastioes-da-direita.html 

Arte é vida

 

Inos Corradim

Perspectivas econômicas para 2026 https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/economia-o-que-pode-acontecer.html 

Desenvolvimento: estatísticas em disputa

Os dados do Brasil em mãos privadas
Estado administra, por meio de órgãos como IBGE, os dados consolidados da população. Mas oligopólios privados capturam e manipulam, a cada segundo, um volume muito maior de informações. Como planejar o futuro, em meio a esta deformação?
Marcio Pochmann/A Terra é Redonda/Outras Palavras  


A Era Digital inaugurou um novo regime informacional. Diferentemente das sociedades agrárias e da sociedade urbano-industrial, onde o Estado media a realidade principalmente por censos, registros administrativos e pesquisas amostrais, hoje grande parte dos sinais sobre comportamento, consumo, mobilidade e operação econômica é produzida continuamente, em alta granularidade, e capturada por empresas privadas.

Isso reorganiza a forma de governar populações e territórios, pois quem mede melhor, decide melhor. O ponto central é a diferença entre dados desenhados para medir (estatística oficial) e dados extraídos por plataformas e infraestruturas pertencentes a oligopólios de grandes empresas estrangeiras.

A estatística oficial é construída com conceitos estáveis, documentação metodológica, desenho amostral, deveres de sigilo e padrões profissionais que garantem comparabilidade e confiança pública. Já os dados digitais nascem como subproduto de serviços: cliques, transações, geolocalização, logística, reputação, cadastro e metadados que são altamente escaláveis e interoperáveis, porém, orientados por incentivos de interesses estritamente privados.

De onde vêm os sinais do novo ecossistema de dados

Hoje, uma fração relevante dos registros sobre pessoas, governo, estabelecimentos e negócios passa a existir como rastros digitais. As fontes são diversas como as plataformas e redes sociais que indicam preferências, relações e padrões de engajamento (curtidas, interações, conteúdo geolocalizado), bem com da telefon ia móvel e GPS de aplicativos que permitem inferir mobilidade, densidade populacional e fluxos internos quase em tempo real.

Também os sistemas de pagamentos e consumo, como cartões, carteiras digitais, programas de fidelidade e bancos digitais passam a descrever o perfil do consumo e comportamento da atividade econômica em nível micro. Assim, a internet das coisas (IoT) e dispositivos inteligentes registram rotinas, hábitos e, em alguns casos, dados sensíveis (wearables, TVs, sensores), ao passo que a navegação e publicidade por meio de cookies, histórico de busca e perfis de anúncios capturam interesses e padrões de atenção.

A transformação digital no setor público informatizou rotinas, passando a gerar dados de processo e de interação (logs, trilhas de serviço, registros transacionais e documentos nativamente digitais) em escala antes impraticável. No Executivo, avançam sistemas e serviços digitais com grande capacidade transacional e interfaces (A PI’ s), como os ecossistemas fiscais/contábeis e obrigações trabalhistas/previdenciárias, além de portais de transparência e dados abertos.

Nos serviços digitais, o rastro da jornada do cidadão (etapas, tempos, taxas de resolução, requisições) cria uma base valiosa para gestão e avaliação de políticas públicas, mas também eleva os riscos de uso indevido, reidentificação e vigilância.

O processo de digitalização também se estendeu aos demais Poderes. No caso do Judiciário, por exemplo, os processos eletrônicos e bases estatísticas ampliaram a produção e a abertura de dados, com painéis e serviços de consulta, enquanto no Legislativo, os dados abertos sobre deliberação, fiscalizaç&at ilde;o, orçamento e processo legislativo fortalecem o acompanhamento em tempo real.

O descompasso que redefine a desigualdade informacional

Nos dias de hoje prevalece um profundo desequilíbrio estrutural no interior do padrão de governança de população e território. De um lado, os sinais granulares e contínuos, concentrados em plataformas e infraestruturas privadas e, de outro, a estatística oficial que preserva o rigor, a representatividade e comparabilidade operada em ci clos mais lentos e com instrumentos concebidos por outro regime tecnológico.

O risco não é falta de dados, mas a perda de capacidade estatal legítima de medir e explicar, quando a informação mais detalhada passa a estar fora do Estado e, muitas vezes, fora de arranjos robustos de transparência e auditabilidade. A distinção entre dados para medir e dados para operar ajuda a entender porque a abundância informacional pode piorar, e não melhorar, o debate público.

A estatística oficial se apoia em princípios reconhecidos internacionalmente: profissionalismo, métodos científicos, transparência sobre fontes e limitações, e proteção de confidencialidade. Isso não é detalhe técnico, mas o contrato que sustenta a legitimidade da mensuração dos dados oficiais.

Quando dados extraídos do setor privado são importados diretamente para inferir emprego, preços, mobilidade, consumo ou dinâmica de estabelecimentos, surgem duas crises, a de comparabilidade e a de legitimidade.

Nos dados extraídos em plena Era Digital, prevalece a mudança inerente às aletrações de produtos e os processos, pois respondem a interfaces, regras de negócio, algoritmos, políticas de privacidade e incentivos comerciais. O que entra e sai do dado pode variar sem aviso, quebrando séries históricas e confundindo fenômenos no mundo da intransparência e fake news.

Além disso, a cobertura raramente coincide com a população-alvo da estatística. Ao se observar o universo de usuários de uma plataforma, clientes de um meio de pagamento ou participantes de um m arketplace não se encontra necessariamente residentes, trabalhadores ou firmas, conforme definições oficiais. Sem o tratamento explícito de vieses, estabilidade e harmonização conceitual, o risco é substituir estatística por telemetria operacional que pode ser útil para gestão privada, porém frágil como evidência pública de longo prazo e orientadora de políticas públicas.

A pergunta deixa de ser apenas o que o dado mostra para quem mede, com qual finalidade, sob quais salvaguardas e com que possibilidade de escrutínio público? No Brasil, esse debate é moldado por duas exigências simultâneas.

De uma parte, a finalidade, necessidade (minimização), transparência e responsabilização no tratamento de dados pessoais contempladas pela Lei Geral de proteção de Dados (LGPD). De outra pelo direito de acesso, transparência ativa e passiva, e dever de prestação de contas definida pela Lei de Acesso à Informaç ão (LAI).

Num ambiente em que utilidade cresce com granularidade e com a capacidade de ligar bases, o reúso de dados extraídos sem governança pode ser percebido como vigilância, captura privada de evidência pública ou estatística opaca que corrói confiança.

O problema também é interno ao Estado

Como o próprio Estado passou a produzir dados operacionais em grande escala, o desafio não se limita ao setor privado. Em todos os Poderes e níveis federativos, cresce a necessidade de coordenação, padrões, proteção de privacidade e arquitetura de dados para transformar rastros digitais em capacidade estatal legítima, e nã ;o em acúmulo desordenado de bases.

Integrar fontes digitais ao regime de evidência pública não se resume em juntar bases. É necessário construir governança que preserve comparabilidade e confiança, respeite direitos, e permita uso público responsável. Um modelo consistente é a arquitetura em camadas.
Inicialmente a camada aberta e agregada dos dados públicos e indicadores com transparência e reúso. Na sequência a camada de acesso controlado pela estatística e a ciência garantindo ambientes seguros, auditoria, minimização e regras claras de finalidade.

Por fim, a camada operacional restrita a dados identificáveis limitados à prestação do serviço, com controles fortes. Essa arquitetura traduz, no plano operacional, a combinação de finalidade/necessidade (LGPD) com transparência (LAI) e com as garantias de confiança associadas à estatística oficial.

No eixo técnico-institucional, é crucial institucionalizar padrões específicos para dados extraídos, incluindo a avaliação de cobertura e vieses, a estabilidade temporal e o controle de versões com a rastreabilidade de transformações (linhagem do dado), a documentação metodológica e mapeamento conceit ual para classificações oficiais e a auditoria e métricas de qualidades apropriadas à big data e à nuvem soberana.

No eixo político-jurídico, o ponto decisivo é que a governança seja interinstitucional e federativa, respeitando a separação de Poderes, mas convergindo em padrões mínimos de operabilidade. A finalidade estatística definida com salvaguardas contra reidentificação e inclusão de trilhas de auditoria, transpar& ecirc;ncia metodológica de indicadores e mecanismos de acesso seguro que evitem circulação ampla de microdados.

Em síntese, a desigualdade informacional cresce quando a granularidade, velocidade e capilaridade dos dados se concentram fora do Estado e fora de regimes auditáveis. As estatísticas oficiais seguem sendo a referência pública de legitimidade e comparabilidade, mas precisam urgentemente de uma nova governança para dialogar com o inédito ecossis tema digital.

Por isso, integrar tudo não apenas juntar bases. Mas construir um regime público de evidência em que o digital amplie a capacidade estatal e a qualidade do conhecimento sem substituir a legitimidade estatística por rastros sem transparência e direitos por opacidade e vigilância.

Marcio Pochmannprofessor titular de economia na Unicamp , é o atual presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Autor, entre outros livros, de Novos horizontes do Brasil na quarta transformação estrutural (Editora da Unicamp)


Leia também: A disputa mar e terra pela geopolítica dos dados https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/uma-nova-dimensao-da-geopolitica.html 

Vonselho "de araque"

Trump cria Conselho da Paz fora da ONU e acende alerta na diplomacia global
Iniciativa anunciada no Fórum Econômico Mundial reúne adesão limitada, concentra poder nos EUA e provoca reações de governos que veem risco ao sistema multilateral
Lucas Toth/Vermelho   

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou nesta quinta-feira (22), no Fórum Econômico Mundial em Davos, o chamado “Conselho da Paz”. A iniciativa é criticada por tentar esvaziar o papel da ONU ao criar uma instância paralela de governança internacional e por concentrar poderes inéditos nas mãos do próprio presidente norte-americano.

Apresentado pelo governo dos Estados Unidos durante o fórum, o conselho foi anunciado como uma estrutura destinada a supervisionar a manutenção do cessar-fogo, a administração transitória e a reconstrução da Faixa de Gaza.

No entanto, documentos do estatuto indicam que o órgão não se limita ao território palestino e sequer fazem menção explícita a Gaza, abrindo margem para a atuação do conselho em qualquer conflito internacional.

Na cerimônia de lançamento em Davos, representantes de 19 países subiram ao palco para assinar o documento que formaliza a criação do conselho. 

Entre os signatários estiveram os presidentes da Argentina, Javier Milei, do Paraguai, Santiago Peña, do Azerbaijão, Ilham Aliyev, o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, o presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, e a presidente do Kosovo, Vjosa Osmani.

Durante o discurso de lançamento, Trump afirmou que o conselho terá autorização para “fazer praticamente tudo o que quisermos” e voltou a criticar a ONU.

O desenho institucional e o lançamento do Conselho da Paz, no entanto, provocaram reações críticas de governos, diplomatas e analistas, que apontam riscos à governança multilateral, à transparência e à legitimidade internacional da iniciativa. 

Além disso, chama a atenção a concentração de poderes atribuída ao presidente dos Estados Unidos. 

De acordo com a minuta da carta constitutiva do conselho, Donald Trump exercerá a presidência do órgão por tempo indefinido, com amplas prerrogativas executivas, incluindo poder de veto sobre decisões, autoridade para destituir integrantes e controle centralizado sobre o funcionamento da nova estrutura.

Diplomatas e governos europeus ouvidos pela imprensa internacional avaliam que a iniciativa representa uma tentativa de criar uma instância paralela de governança global, à margem da ONU e de seus mecanismos formais de deliberação. 

Um diplomata europeu citado pela agência Reuters afirmou que o conselho se assemelha a uma “ONU de Trump”, por ignorar princípios centrais da Carta das Nações Unidas e concentrar decisões fora de fóruns multilaterais reconhecidos.

As declarações do próprio presidente norte-americano reforçaram essa percepção. Ao lançar o conselho, Trump afirmou que “nunca nem falou com a ONU” e que o novo órgão poderá “fazer praticamente tudo o que quisermos”.

Para analistas, a combinação entre críticas diretas à ONU e a criação de uma nova estrutura sob liderança exclusiva dos Estados Unidos sinaliza um movimento de esvaziamento deliberado do multilateralismo.

Essa leitura ajuda a explicar a resistência manifestada por governos, que veem o conselho como um precedente perigoso para a fragmentação da governança global. 

A preocupação central é que decisões sobre conflitos internacionais passem a ser tomadas em fóruns ad hoc, liderados por grandes potências, sem os freios institucionais e os consensos exigidos no âmbito das Nações Unidas.

Adesão limitada e recusa de países-chave

Apesar de Trump afirmar que “todos os países querem fazer parte” do Conselho da Paz, a adesão concreta ao lançamento é, até agora, limitada.

Apenas representantes de 19 países participaram da assinatura do documento em Davos, em um evento marcado pela ausência de grandes aliados ocidentais dos Estados Unidos, como França, Alemanha, Reino Unido, Canadá e Japão.

Alguns governos europeus anunciaram recusa explícita à iniciativa. A França, potência central da União Europeia e membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, também não aderiu ao Conselho da Paz.

Os franceses declararam reservas quanto à criação de um novo órgão internacional fora do sistema das Nações Unidas.

A Noruega e a Suécia também informaram que não irão integrar o conselho, enquanto a Itália afirmou que ainda avalia os termos do estatuto antes de tomar uma decisão. 

No Reino Unido, autoridades indicaram preocupações jurídicas e políticas, além de questionarem a possibilidade de participação da Rússia em um órgão apresentado como voltado à promoção da paz.

Para diplomatas ouvidos por agências internacionais, o número reduzido de signatários no lançamento e a cautela de países centrais do sistema internacional fragilizam a legitimidade do conselho e reforçam a avaliação de que se trata de uma iniciativa politicamente alinhada a um grupo específico de governos, e não de um mecanismo com respaldo amplo da comunidade internacional.

Trump joga WAR tendo o mundo como tabuleiro https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/thiago-modenesi-opina_15.html

Arte é vida

 

Vilmos Aba-Novak

Lula entre Estados Unidos e Venezuela a passos firmes https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_21.html