16 setembro 2026

Dica de leitura

Importa saber
Luciano Siqueira   

Não tenho, obviamente, condições de julgar o desempenho da ministra Cármen Lúcia, do STF. Apenas me causa espécie ver como a mídia a trata, conforme se comporte em favor de tal ou qual interesse.

Daí a oportunidade de ler artigo de Luís Nassif, onde faz uma análise crítica da trajetória da ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, destacando a contradição entre a sua imagem pública e sua atuação prática nos processos judiciais https://jornalggn.com.br/destaque-capa/jamais-existira-uma-ministra-como-carmen-lucia-por-luis-nassif/ .

Segundo Nassif, o desempenho da ministra envolve discursos moralistas seguidos de omissões, oscilações de posição e silêncios calculados. Daí a fama de “amiga da imprensa”, o que lhe garantiu uma blindagem midiática ao longo de sua carreira no STF.

Casos de grande repercussão são relembrados e a condutar da ministra em relação a cada um deles. Vale conferir.

[Ilustração: Jildelt]

A sociologia do golpe https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/natureza-do-golpe.html 

Tal pai, tal filho

“Se o pai fez isso, imagina o filho”: relembre alguns dos descalabros de Bolsonaro
Campanha de Lula lembra algumas das principais (e piores) marcas deixadas pelo ex-presidente, presentes também no DNA de Flávio Bolsonaro (PL)
Priscila Lobregatte/Vermelho 
   

Pessoas disputando ossos e carcaças para comer; covas simples abertas às pressas para dar conta dos milhares de mortos da pandemia; desmatamento avassalador; estímulo ao ódio e ao uso de armas; desemprego em alta, renda em baixa e um presidente omisso, irresponsável e cruel. Esses são apenas alguns dos muitos tormentos vividos pelos brasileiros durante o governo de Jair Bolsonaro (PL).

Com o objetivo de recordar esses fatos e mostrar à população que com Flávio Bolsonaro (PL) a situação pode ser ainda pior, a campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou uma peça impactante. Sem citar nomes, a propaganda usa como mote a frase “se o pai fez isso, imagina o filho”, acompanhada de imagens que ilustram essas situações.

A peça vai direto ao ponto. Sob Bolsonaro, o Brasil viveu um de seus piores momentos. E nada indica que seria diferente com Flávio — que não apenas defende as mesmas bandeiras como vai além, por exemplo, em sua sanha entreguista.

Crime contra a nação

Bolsonaro está preso por tentativa de golpe — e esta é mais uma das principais marcas de sua passagem tenebrosa pela presidência da República. Mas, o pior de seus crimes foi cometido contra milhares de brasileiros mortos durante a pandemia e seus familiares e órfãos.

É fato que o mundo todo sofreu com a pandemia, em maior ou menor grau. Mas, também é fato que, com a estrutura de saúde pública que o Brasil tem e com medidas efetivas por parte do governo, o Brasil poderia ter muito menos do que as 700 mil vítimas diretas registradas até o final de 2022. Isso sem contar pessoas que perderam a vida por outros problemas de saúde que não puderam ser devidamente tratados naquele momento.

Com cerca de 3% da população mundial, o Brasil respondeu por 11% das mortes registradas em todo o planeta, dado que explicita a desproporção no número de óbitos acumulados pelo País. Segundo estudo feito pelo epidemiologista e pesquisador da Universidade Federal de Pelotas, Pedro Hallal, e apresentado durante a CPI da Covid, quatro em cada cinco mortes pela doença no País poderiam ter sido evitadas caso o governo federal tivesse adotado outra postura — apoiando o uso de máscaras, estimulando medidas de distanciamento social, fazendo campanhas de orientação e ao mesmo tempo acelerando a aquisição de vacinas.

Bolsonaro não fez nada disso. Ao contrário: circulava sem máscara, desprezava a gravidade da doença, zombava de quem temia a doença e de quem tentava respirar e não conseguia devido ao vírus e estimulava as pessoas a trabalharem em nome da economia. As medidas tomadas então foram encabeçadas por governadores e prefeitos e pelos servidores públicos que resistiram aos desmandos de Bolsonaro.

Da parte do governo federal, além do descaso, a gestão foi marcada por total desorganização e desrespeito — como aconteceu na crise no Amazonas, em que pessoas morriam sem ar por falta de tratamento e de respiradores.

Relatório da CPI da Covid, aprovado em outubro de 2021, apontou fortes indícios de corrupção e irregularidades nas negociações envolvendo a compra de vacinas oferecidas ao Brasil, o que também ajudou no atraso da aquisição.

A Comissão listou, ainda, outros absurdos que levaram a essa tragédia: a aposta numa suposta “imunidade coletiva”; o incentivo a falsos “tratamentos precoces” com cloroquina e ivermectina; a disseminação, via máquina pública, de desinformação e mentiras sobre a doença; a crise no Amazonas e a formação de um “gabinete paralelo” com pseudo-especialistas que orientavam o presidente à revelia do Ministério da Saúde.

Por fim, a Comissão pediu o indiciamento de Bolsonaro por nove crimes — entre os quais epidemia com resultado morte, infração de medida sanitária preventiva e charlatanismo, entre outros. Como não tem poder para processar, a CPI enviou o documento à Procuradoria-Geral da República (PGR), ao Supremo Tribunal Federal (STF), ao Tribunal de Contas da União (TCU) e a outras autoridades para dar seguimento legal, mas até o momento, não houve nenhuma responsabilização.

Fila de ossos

As chamadas “filas de ossos” foram um dos desdobramentos da dramática situação enfrentada pelos brasileiros mais pobres durante os anos de pandemia sob o governo de Bolsonaro.

A partir de 2021, pessoas passaram a esperar, em açougues e mercados, por carcaças e ossos descartados ou vendidos a preços módicos para usarem para fazer sopas e conseguirem se alimentar.

O caso, porém, não foi apenas resultado dos impactos da pandemia. Deveu-se, sobretudo, ao desmonte de políticas públicas e à falta de medidas por parte do governo Bolsonaro para mitigar as perdas e dificuldades daquele período, marcado por alto desemprego e inflação dos alimentos.

Entre 2019 e 2021, 61 milhões de brasileiros enfrentaram dificuldades para se alimentar, dos quais 15 milhões passaram fome, segundo a ONU. Como resultado, o Brasil voltou ao Mapa da Fome, do qual havia saído em 2014 durante o governo de Dilma Rousseff, que deu continuidade às políticas sociais e de transferência de renda iniciadas por Lula em seu primeiro mandato.

Somente em 2025, após Lula retomar as políticas de geração de emprego e renda e restabelecer uma série de medidas de âmbito social e econômico o Brasil pôde, novamente, abandonar o Mapa.

É preciso lembrar, ainda, que durante a pandemia, Bolsonaro não cogitava sequer conceder auxílio emergencial, mesmo sabendo da grave situação vivida por boa parte da população. Pressionado, passou a considerar a hipótese de pagar um valor ínfimo, de R$ 200. Somente após uma série de articulações, principalmente por parte de movimentos sociais e da esquerda, foi sancionado o valor aprovado pelo Congresso de R$ 600.

Desmatamento liberado

O governo Bolsonaro também ficou conhecido como o que queria “deixar passar a boiada” — como tão bem sintetizou seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Durante reunião em 2020, ele defendeu que o governo deveria aproveitar que a imprensa e a sociedade estavam focadas na pandemia para derrubar normas e alterar regras de proteção ambiental, beneficiando, assim, setores como os do agronegócio e de extração de madeira, bem como o de garimpo ilegal, entre outros.

Segundo o Observatório do Clima, somente na Amazônia houve um crescimento de 60% no índice de desmatamento durante o governo de Bolsonaro ante os quatro anos anteriores. Somados, o Cerrado e a Amazônia concentraram cerca de 90% de todo o desmatamento do país no último ano de sua gestão. E o Pantanal teve recordes sucessivos de queimada. O pior ano para o bioma foi 2020, quando ao menos 30% foi consumido pelas chamas.

Saiba mais: Flávio nega aquecimento global e Lula rebate ‘amadorismo irresponsável’

Soma-se a isso outros descalabros na gestão ambiental, como o desmonte e a paralisia nos órgãos de fiscalização; o fim de secretarias estratégicas, o esvaziamento do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente); o congelamento de fundos como o da Amazônia e do Meio Ambiente; a flexibilização de regras para o garimpo e para a exploração das florestas.

Bolsonaro também acabou com as demarcações de terras indígenas e enfraqueceu a atuação da Funai, resultando no avanço de invasões a territórios protegidos. Essa política levou ao aumento do desmatamento e da extração ilegal de minérios e, pior, à maior crise humanitária enfrentada recentemente por uma etnia indígena, a Yanomami.

Somente após a posse de Lula, essa população passou a ser atendida dignamente, superando a emergência daqueles anos. Também houve uma série de medidas de desintrusão dos invasores e de retomada da proteção e recuperação ambiental.

Estímulo ao ódio e ao uso de armas

Falar da extrema direita e do bolsonarismo é falar, principalmente, do estímulo ao ódio em todas as suas formas e ao uso de armas de fogo, o que os configuram como movimentos claramente neofascistas.

O estímulo ao uso de armas — traduzido na campanha pela famosa foto de Bolsonaro com uma menina no colo fazendo a arminha que passou a simbolizá-lo — é uma das maiores chagas que o bolsonarismo legou ao Brasil.

Na base da canetada, Bolsonaro destruiu uma série de medidas visando o maior controle na circulação de armas de fogo — cujo maior símbolo fora o Estatuto do Desarmamento — defendendo o suposto direito de os cidadãos se armarem “contra a bandidagem”.

Como consequência, houve aumento no número de armas inicialmente legais em poder de organizações criminosas, seja por meio do roubo, seja pelo aliciamento ou uso de Caçadores, Atiradores e Colecionadores (CACs) para o fornecimento de revólveres, pistolas e outros artefatos de maior calibre e potência.

O “libera-geral” foi combatido por Lula desde a sua posse. Entre seus primeiros decretos estão o que suspendeu novos registros de armas de uso restrito e o que reduziu o limite de aquisição de armas para civis, entre outras medidas e ações posteriores.

O uso de armas vai ao encontro de outra forte característica do bolsonarismo. Durante sua carreira política e por todo o seu governo, Bolsonaro sempre promoveu o preconceito e banalizou a violência contra mulheres, negros, LGBTs e a esquerda, fosse por meio de ações, falas públicas ou da disseminação de discursos de ódio e fake news pelas redes sociais.

Ladeado pela onda de misoginia alimentada pelas redes sociais, o bolsonarismo ajudou a mergulhar o Brasil numa verdadeira epidemia de feminicídios e violência — inclusive política — contra as mulheres. Ao mesmo tempo, tornaram-se cada vez mais comuns manifestações abertas de racismo e homofobia pelo país.

Mais uma vez, foi somente após o início do terceiro mandato de Lula que uma série de ações e políticas públicas foram desenvolvidas para enfrentar esses e outros problemas legados por Bolsonaro e que ainda estão entranhados em nossa sociedade.

Cesta básica fica mais barata em 25 capitais https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/boa-noticia.html

Postei nas redes

Colegiado de qualquer instituição comporta divergências e polêmicas. Por que o STF teria que ser uma exceção? 

Gol contra de André Mendonça https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_01494046490.html 

Minha opinião

Abordagem capciosa
Luciano Siqueira   

Vinte e quatros horas por dia a grande mídia neoliberal martela criticas ao governo Lula por não equacionar, segundo dizem, o equilíbrio das contas públicas.

Mas praticam uma omissão grave.

Escondem os juros da dívida pública por um truque focam no Resultado Primário (receitas menos despesas sem contar os juros) e não no Resultado Nominal (que inclui os juros pagos).

A tática tendenciosa se apoia no argumento (falso) de que não cabe incluir os juros da dívida, mas tão somente o que está sob controle direto do Poder Executivo.

Ora, o governo age corretamente quanto gasta com saúde, educação, obras e funcionalismo (despesas primárias). Bons governos, como o de Lula, exercem aí a disciplina fiscal possível.

Entretanto, os juros (Selic) são definidos pelo Banco Central para controlar a inflação (política monetária). A taxa de juros é influenciada por fatores globais e expectativas de mercado, e não apenas de uma decisão orçamentária do governo.  

Nesse jogo pesado de interesses da elite financeira, se o governo gera um superávit primário, lê-se que terá capacidade de pagar ao menos parte dos juros no futuro, o que ajuda a baixar a própria taxa de juros de longo prazo.

Importa destacar que a maior fatia do crescimento do endividamento público vem do pagamento de juros altos aos detentores de títulos da dívida, e não do gasto social ou de investimentos em infraestrutura.  

Governos de direita valem-se do corte de gastos sociais para fechar a conta primária e preservar a remuneração do capital financeiro (juros) enquanto reduz a capacidade do Estado de ofertar serviços públicos básicos.

Há, portanto, um conflito claro entre os interesses dos que vivem da usura e os interesses do povo e da nação, onde ignorar os juros esconde a principal causa do endividamento e beneficia a elite financeira.

A reprimarização do Brasil e a possível virada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/brasil-desafios-do-desenvolvimento.html

Humor e resistência

 

Quinho

Basta à parcialidade golpista de André Mendonça! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/editorial-do-vermelho_02048106521.html 

Ecossistema sociotécnico

Para além da sociedade do desempenho
O avanço da inteligência artificial transforma a autocobrança humana em um ecossistema sociotécnico regulado por métricas implacáveis de eficiência
Helio Miranda Costa Junior*/A Terra é Redonda 

 

1.

Ao longo de sua obra, Byung-Chul Han descreveu diferentes dimensões da transformação contemporânea. Em A sociedade do cansaço mostrou como a lógica do desempenho substituiu a disciplina como princípio organizador da subjetividade. O desaparecimento dos rituais  voltou-se à erosão das formas simbólicas que estabilizavam a vida coletiva. Já em Não coisas o tema passou a ser a crescente substituição do mundo dos objetos por um ambiente constituído por fluxos de informação. Embora cada obra possua um problema específico, elas podem ser lidas como momentos de um mesmo diagnóstico sobre a reorganização da experiência contemporânea.

A hipótese desenvolvida neste ensaio parte desse percurso, mas propõe que uma transformação recente deslocou novamente o objeto da crítica. Se Byung-Chul Han investigou principalmente as mudanças na subjetividade, nos vínculos e na materialidade do mundo, a expansão da inteligência artificial e das arquiteturas algorítmicas parece exigir atenção para outro nível de análise: o próprio sistema que coordena essas transformações.

A sociedade do cansaço foi publicada em 2010, quando sistemas de pontuação de crédito automatizados já operavam havia décadas, plataformas como Uber e Airbnb apenas começavam a se consolidar, e algoritmos de recomendação já organizavam parte relevante do consumo de conteúdo. A mediação algorítmica é, portanto, um fenômeno anterior ao livro. A diferença relevante está em outro ponto: quando a automação passou a ocupar, ela mesma, o lugar de agente avaliado e avaliador dentro do mesmo circuito de desempenho.

Esse deslocamento se intensifica sobretudo com a difusão de modelos generativos e agentes autônomos, distinto do momento anterior, em que sistemas técnicos calculavam e pontuavam ações humanas sem participar diretamente da execução do trabalho cognitivo ou criativo. O pressuposto de que essa produção permanece ancorada, em última instância, no sujeito humano já não parece suficiente.

Hoje, parte significativa das atividades cognitivas é realizada em cooperação com sistemas artificiais: escrevemos com auxílio de modelos de linguagem, decidimos apoiados por algoritmos, e delegamos a agentes computacionais tarefas que antes exigiam julgamento humano direto. Ao mesmo tempo, indicadores e protocolos automatizados como sistemas de pontuação passaram a coordenar o funcionamento de organizações inteiras. O desempenho continua sendo o princípio organizador, ainda que não dependa mais exclusivamente da ação humana.

2.

Um exemplo próximo torna esse deslocamento palpável. O sistema de avaliação por impacto acadêmico (fator de impacto de periódicos, índices de citação, o Qualis brasileiro) nasceu como heurística de relevância: um modo indireto de estimar se uma pesquisa alcançava e influenciava seus pares. Em poucas décadas, essa heurística deixou de acompanhar a pesquisa para passar a orientá-la.

Pesquisadores ajustam temas, métodos e a própria fragmentação de resultados em múltiplos artigos para atender às exigências do índice, e revistas reorientam políticas editoriais para subir no ranking, um ajuste que se propaga até as universidades, que redistribuem recursos e cargos conforme o desempenho agregado desses números. Nenhum agente isolado desenhou esse arranjo ou o controla inteiramente: ele resulta da articulação entre bases de citação, algoritmos de ranqueamento e comitês de avaliação, calibrados por uma mesma lógica.

O efeito é cumulativo: quem já ocupa posição central tende a ser mais citado e mais visível, o que reforça essa centralidade independentemente da qualidade intrínseca de cada contribuição isolada. A arquitetura que sustenta o sistema de impacto acadêmico, distribuída entre agentes humanos e técnicos sem que ninguém a tenha desenhado sozinho, ilustra em escala menor o que este ensaio chama de sistema do desempenho.

A racionalidade descrita por Byung-Chul Han permanece válida, porém seu objeto se ampliou. Se a sociedade do desempenho explicava um momento em que o sujeito ocupava o centro da produção, o presente parece exigir outra categoria analítica: a de sistema do desempenho. A mudança desloca o foco da análise para além do vocabulário. Byung-Chul Han descreve a forma como o sujeito internaliza a exigência de desempenho e passa a explorar a si mesmo.

A hipótese aqui proposta dirige a atenção para a arquitetura que organiza essa exigência: uma propriedade que emerge da articulação entre pessoas, algoritmos, plataformas e protocolos de avaliação, integrados por uma mesma racionalidade operacional, e que ultrapassa qualquer experiência subjetiva isolada.

3.

Essa hipótese encontra uma antecipação parcial em Infocracia, obra em que Byung-Chul Han desloca a análise da psicopolítica do sujeito-empresário-de-si para os regimes de governança algorítmica que organizam a esfera pública em enxame de dados. Sua crítica, contudo, mantém o sujeito como ponto de referência normativo, ainda que dissolvido. O enxame de dados aparece, nesse relato, como aquilo que se perde para o sujeito; a arquitetura que coordena dados, protocolos e agentes de naturezas distintas segundo uma métrica comum permanece em segundo plano.

É esse segundo movimento, o da erosão do sujeito para a descrição da arquitetura que a produz, que a hipótese do sistema do desempenho procura tornar explícito.

O conceito de sistema do desempenho também precisa ser distinguido de descrições vizinhas. O “capitalismo de plataforma” (Platform capitalism), tal como Nick Srnicek o descreve, permanece fundamentalmente uma teoria de acumulação: a plataforma intermedeia e processa dados como nova forma de capital, e sua lógica central permanece econômica. A hipótese do sistema do desempenho desloca o eixo da análise da acumulação para a normatividade: para o critério que passa a avaliar a atuação de qualquer agente, humano ou técnico, dentro do mesmo circuito.

Antoinette Rouvroy descreve, por sua vez, a governamentalidade algorítmica como um poder que antecipa condutas a partir de correlações estatísticas, dispensando o sujeito como instância de referência. Otávio Morato de Andrade retoma essa hipótese no contexto brasileiro, associando-a aos riscos que a governamentalidade algorítmica representa para a democracia (Governamentalidade algorítmica: democracia em risco?). O sistema do desempenho aqui proposto não abandona o sujeito: redistribui-o como um entre vários agentes avaliados pela mesma métrica de eficiência. Continua havendo algo a exigir de alguém, mesmo quando esse alguém deixa de ocupar sozinho o centro da exigência.

Essa diferença altera a própria pergunta filosófica. A pergunta sobre como o indivíduo se torna empresário de si mesmo não abrange mais a questão inteira. Importa também compreender como um sistema passa a coordenar agentes de naturezas distintas segundo critérios comuns de eficiência, previsibilidade e otimização. Nesse contexto, a distinção entre humano e artificial segue existindo, deslocada do centro que antes ocupava como eixo organizador da análise. O que passa a importar é a capacidade de cada elemento contribuir para a produção de desempenho.

Essa perspectiva parte do diagnóstico de Byung-Chul Han, sem pretensão de corrigi-lo ou substituí-lo. A sociedade do desempenho descreveu com precisão uma etapa decisiva da modernidade tardia. A hipótese do sistema do desempenho procura compreender o passo seguinte dessa trajetória: o desempenho segue como lógica dominante, agora estendida a uma organização que ultrapassa os sujeitos, uma ecologia sociotécnica mais ampla, em que pessoas, máquinas e plataformas participam de um mesmo circuito de produção e avaliação.

*Helio Miranda Costa Junior é doutor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com pós-doutorado pelo InCor-USP.

O pensamento crítico na era dos algoritmos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/bolha-algoritmica.html

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"Saiba por que aparelho usado por tenista para monitorar a glicose ainda é luxo por aqui", convida o Estadão. Nem quero saber. Estou totalmente envolvido na campanha para reeleger Lula. 

A praça ainda é do povo? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_02118984853.html