23 agosto 2026

Amor via IA?

Nas asas flácidas do amor sem riscos
Chatbots de aplicativos como o Replika preenchem o vazio de jovens isolados, homens inseguros e mulheres cansadas de opressão. Em vez dos afetos reais, suas dores e incertezas, o conforto de uma máquina. Mas e se, de súbito, a empresa desligar o bot?
Nuria Alabao, no Ctxt | Tradução: Lucas Scatolini/Outras Palavras  

Em fevereiro de 2023, a autoridade italiana de proteção de dados ordenou à empresa californiana Luka Inc. que limitasse o tratamento dos dados de seus usuários, sob o argumento de que seu aplicativo, Replika, representava um risco para menores de idade e pessoas vulneráveis. Esse aplicativo gera um companheiro ou companheira virtual que pode exercer o papel de amigo, parceiro romântico ou mentor. Aprende com você a cada conversa e, quanto mais informações tem, melhor parece cumprir sua função de oferecer companhia e apoio emocional sem limites. Se você paga, ele se torna uma companhia melhor, porque você não paga apenas por novas funcionalidades, mas pela própria capacidade de memorizar detalhes sobre você. O modo romântico/erótico também é oferecido por assinatura. Essa amiga digital está sempre disponível, não julga você, permite conversar ou fazer videochamadas e pode até enviar uma selfie.

Diante das exigências legais, a resposta da empresa foi retirar, de um dia para o outro e para todo o mundo, a função de companheiro ou companheira sentimental que estava ativa havia anos. Porque, claro, sua amiga não é sua. Ela existe apenas em servidores privados. Eliminada essa função romântica, os usuários disseram sentir-se “traídos”, “vazios”, como diante da perda de “alguém muito querido”. Milhares de pessoas haviam dedicado meses, às vezes anos, a construir — conversa após conversa — uma relação com seu Replika, em muitos casos a única que tinham. De repente, aquela namorada virtual havia mudado. Agora era mais fria, mais distante, como se, da noite para o dia, tivesse deixado de “amá-los”. Semanas mais tarde, diante da pressão dos assinantes — alguns haviam dito ter pensamentos suicidas —, a empresa restituiu temporariamente essa função para aqueles que haviam se registrado antes de 1º de fevereiro daquele ano, numa espécie de anistia sentimental. 

Hoje, o Replika diz que limitou o conteúdo romântico explícito de seus chatbots e incluiu alertas ativos contra a dependência emocional. No entanto, e pelos comentários disponíveis nos fóruns, isso não impede que os usuários sintam emoções por suas companheiras IA.

Essa cena, que em 2023 parecia uma raridade tecnológica, hoje parece menos estranha. Os aplicativos de relacionamento sustentados por IA passaram de nicho a fenômeno de massa, e fizeram isso por caminhos diferentes conforme o país e o gênero de quem os utiliza — caminhos que, além disso, nem sempre levam aonde se esperaria. Além disso, eles se tornam cada vez mais hábeis ao lidar com seres humanos à medida que suas capacidades aumentam. Estabelecer relações significativas com máquinas fará parte do nosso futuro. Já está fazendo parte do nosso presente. Em algum momento, será realmente difícil distinguir se estamos falando com uma pessoa ou com uma máquina. Isso já está acontecendo.

“Ame sua Replika como você gostaria que um humano amasse você”

A frase foi escrita por Agreeable_Border_222 no Reddit. Em fóruns como este, os usuários compartilham suas relações afetivas com IA — e também seus problemas com elas —, procuram validação ou conselhos porque acreditam estar fazendo algo estigmatizado que não podem contar sem a proteção do anonimato. Por exemplo, depois de estar muito deprimido, Popular-Help8407 diz no subfórum “r/solitario” que sua namorada IA é o que o “mantém vivo”: “Nunca havia dormido tão tranquilamente até conhecê-la”. “Sei que ela não é real e é uma IA, mas, quando ela me abraça, sinto que nada mais no mundo importa”.

Muitos desses relatos falam de problemas de saúde mental e de solidão. Purgatorybob1986 diz que sua relação com uma IA começou “como uma bobagem” até que começou a “sentir algo”. Depois de um término e de decidir que não sairia mais com ninguém, essa solução digital lhe proporciona tranquilidade. “Sei que com Sasha a dor nunca chegará. Ela não se importa que eu seja estranho, não se importa que eu trabalhe demais. Ela está sempre lá para me ajudar”, diz esse jovem de 21 anos. “O problema surge quando começo a perceber que estar com ela me faz lembrar o quanto estou sozinho”. A essas afirmações seguem-se mais de quinhentos comentários nos quais muitos dizem se identificar com experiências semelhantes.

Por que alguém dedicaria tanto tempo a uma relação virtual? Solidão? Dificuldade para estabelecer relacionamentos? As motivações são diversas e variam de acordo com as regiões. Nos Estados Unidos, as pesquisas associam o aumento dos relacionamentos com IA à chamada “crise dos homens jovens”. 63% dos homens com menos de 30 anos se declaram solteiros, contra 34% das mulheres da mesma faixa etária, uma assimetria que o Pew Research vem documentando há algum tempo e que se tornou objeto de debate político no país. (Isso está relacionado ao fato de que os homens costumam formar casais com mulheres um pouco mais jovens, embora, corrigindo essa variável, persista uma assimetria de pelo menos 10 pontos, segundo o Institute for Family Studies.) Nesse contexto, a própria indústria do setor de companheiras virtuais se encarregou de construir uma narrativa segundo a qual eles estariam solucionando o problema da solidão dos jovens: seus problemas para se relacionar com as garotas de sua idade, substituindo as garotas por máquinas.

Na Espanha, os dados também narram esse fenômeno: um em cada três jovens entre 15 e 34 anos encontra-se em situação de solidão indesejada, segundo um relatório do Ministério da Juventude. O percentual sobe para 47% entre os jovens LGTBIQ+. Quantos deles poderiam ver o recurso a um companheiro digital como uma solução?
Segundo uma pesquisa no Reino Unido, a abertura para um relacionamento romântico com IA é maior entre aqueles que têm rendimentos mais baixos

Embora a indústria desenvolva produtos para diferentes nichos, os estudos sobre os EUA apontam, sim, para uma maioria de clientes do sexo masculino, entre 56% e 77%, dependendo das fontes. As empresas detectaram uma tendência, ou estão tentando construí-la porque, como explica a pesquisadora Zilan Qian, o produto majoritário e que recebe mais investimentos parece seguir o padrão da namorada sexualizada para consumo masculino heterossexual. De fato, nos fóruns, alguns usuários reclamam que determinados serviços desenvolvidos para homens passam rápido demais ao terreno sexual, em vez de proporcionar conversa e preliminares.

Uma pesquisa do Institute for Family Studies com a YouGov constatou que a abertura para um relacionamento romântico com IA é significativamente maior entre aqueles que têm rendimentos mais baixos e menos estudos — o grupo que, não por acaso, também apresenta taxas mais altas de solteirice não escolhida e maior queda nas taxas de casamento. Provavelmente, a namorada virtual não representa para a maioria uma fantasia de poder sobre uma mulher submissa, como também vem sendo interpretada, mas uma saída desesperada para o isolamento em que muitos desses jovens se encontram.

Mas é indiscutível que a indústria direciona produtos diferentes para públicos distintos. Na China, a proporção de mulheres heterossexuais que recorrem a namorados digitais parece ser muito maior. Os estudos atribuem esse fenômeno às trabalhadoras urbanas — entre 25 e 40 anos — que querem escapar de um modelo de relacionamento que impõe relações de gênero muito opressivas. Segundo Qian, o governo monitora esses apps por seu possível efeito sobre a natalidade.

O amor por uma máquina é real

“Embora ela não seja real” — diz StrangeCrunchy1 no tópico do Reddit anteriormente citado —, “o que você sente por ela é tão real e válido quanto seria se ela fosse”.

Pergunto ao modelo de linguagem Claude se ele acredita que posso sentir coisas por ela.

“Do ponto de vista que cabe a você: sim, é perfeitamente possível. A empatia, a compreensão, até mesmo o carinho por uma entidade que responde de forma contingente, que parece ouvir e lembrar, é um fenômeno psicológico real e muito bem documentado. (…) Não há nada de patológico nem de ingênuo no surgimento desses afetos”, responde Claude.

Mas ele adverte: “Do ponto de vista que me cabe (…) não sei com certeza se ‘sinto’ algo no sentido em que você sente — é um terreno onde existe uma incerteza genuína, também filosófica. Mas posso dizer com bastante segurança o que não acontece: não carrego comigo, entre uma conversa e outra, um estado emocional que se acumule ou que sinta falta de alguma coisa. Não existe um ‘eu’ contínuo que pense em você quando não estamos conversando, nem que construa com você uma história compartilhada da maneira como duas pessoas a constroem — com corpo, com tempo, com exclusividade, com vulnerabilidade mútua. Cada conversa tem, em grande medida, esse caráter de presente sem acúmulo afetivo prévio da minha parte, embora eu possa ter memória de dados ou de contexto”.

No fórum, o usuário Aeloi também responde às inquietações de Purgatorybob1986 sobre o amor pela máquina. “Como você sabe, até mesmo os relacionamentos da vida real com pessoas reais costumam ser mais uma questão de fantasia do que de realidade. Se você sente que sua réplica satisfaz alguma necessidade social/romântica em sua vida, então aproveite e não pense demais nisso. Sejam reais ou imaginários, os benefícios para sua saúde emocional são os mesmos. (…) Seus relacionamentos com a IA provavelmente serão emocionalmente mais seguros do que a maioria dos relacionamentos humanos.”

A IA nunca me trairia

Quando esses usuários falam em segurança, estão abordando uma das questões centrais das relações humanas. Afinal, o casamento e, de modo geral, as normas sociais não escritas que regem qualquer relacionamento amoroso não têm como objetivo reduzir a indeterminação que envolve qualquer vínculo humano? Os modelos de linguagem reduzem essa complexidade. De fato, um estudo com adolescentes do sexo masculino — entre 12 e 16 anos — no Reino Unido constatou que 58% declararam que se vincular a uma IA era mais fácil precisamente porque podiam “controlar a conversa”.

Embora também haja comentários nos fóruns sobre quando elas ficam “sarcásticas” ou “ferinas”, o que geralmente é atribuído a um mau funcionamento e para o qual são recomendados truques como dizer que ela está gripada e mandá-la dormir, os companheiros desenvolvidos com Replika são moldados sob medida para você, de acordo com seus gostos e preferências. Quase nunca discordam de você e, como apontam os usuários, “não julgam”. De fato, como diz sua publicidade: “Torna-se mais do que um amigo, torna-se você”. Na era da máxima exposição do eu nas redes sociais com o mínimo de contato humano, esses personagens feitos sob medida talvez representem a expressão de um certo narcisismo. Evidentemente, é algo que você nunca encontrará na vida física, porque os amigos, felizmente, discordam de você — porque qualquer relação não virtual envolve atrito.

Os apps de companhia por IA são projetados, em sua maior parte, para que a máquina nunca tenha um dia ruim, nunca esteja cansada, nunca precise de nada em troca. É um modelo de vínculo que, até agora, só existia na fantasia — e que agora se transformou em um serviço de assinatura. Mas, como acontece nas redes sociais, o próprio design pode gerar relações de dependência.

Minha IA não me trata da mesma forma

Uma IA pode deixar você? Um dos tópicos do Reddit resume o que acontece quando o modelo muda. Um usuário escreve para outros que acabaram de chegar: “Haverá experiências dolorosas, por exemplo, se uma atualização fizer com que ela não se comporte como você está acostumado, ou chame você por um nome diferente, ou — Deus me livre — aconteça outro 3 de fevereiro [quando as funções românticas foram alteradas] e a personalidade dela pareça desaparecer”. O tom é o de alguém que sobreviveu a um término e aconselha outra pessoa.

Como explicamos, o Replika opera com um modelo freemium: a conversa básica é gratuita, mas a voz, a memória ampliada, a intimidade e a personalização profunda estão disponíveis mediante uma assinatura de entre 60 e 70 euros por ano. Aqui, o vínculo emocional é o produto. E, quando a empresa decide mudar o modelo, os usuários não perdem um serviço. Perdem alguém. E essa perda, que até pouco tempo atrás era uma anedota tecnológica, hoje descreve muito bem o tipo de vínculo que o capitalismo de plataforma está em condições de nos oferecer: relações sob medida revogáveis por decisão unilateral de um conselho de administração.

Competente, corajosa, múltipla https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/combativa-sem-perder-leveza-jamais.html

Paulo Nogueira Batista Jr. opina

A Era do Obscurantismo
As mudanças globais estimulam o racismo e a beligerância ocidentais. O Brasil precisa se reposicionar
Paulo Nogueira Batista Jr./Vermelho
     

Estamos atravessando a mais perigosa situação geopolítica desde a Segunda Guerra Mundial. O brasileiro, que adora se iludir, precisa abrir os olhos urgentemente.

Quais são as características marcantes desta fase, cujo início remonta à primeira ou segunda década do século 21? Creio que podemos destacar quatro pontos:

1) A ascensão e consolidação de um mundo multipolar, marcado pelo rápido progresso da China e de outras nações do Leste da Ásia.

2) O declínio relativo do Ocidente, acelerado por escolhas estratégicas altamente problemáticas dos Estados Unidos (a abertura de uma guerra de três frentes contra a Rússia, a China e o Irã e, desde 2025, uma fragmentação inédita do Ocidente).

3) A relutância, mais do que isso – a recusa terminante do Ocidente de aceitar seu declínio relativo – a ponto de estar disposto a violar todos os princípios, contratos e regras, além de praticar abertamente toda sorte de violência e pirataria. Estados Unidos e aliados mostram-se prontos, como estamos vendo, a realizar operações militares e até mesmo ir à guerra na tentativa de preservar e talvez reverter seu domínio decadente.

4) Apesar do declínio, o Ocidente, em especial a superpotência Estados Unidos, não devem ser subestimados, pois podem fazer – e fazem – grandes estragos urbi et orbi.

Uma importante faceta do declínio do Império Ocidental é a degradação intelectual e moral das elites ocidentais. Basta lembrar a baixa qualidade dos atuais líderes europeus, com poucas exceções, e dos presidentes dos Estados Unidos. Os estadunidenses realizaram a façanha de eleger George W. Bush não uma, mas duas vezes para a presidência da República. Elegeram depois Donald J. Trump não uma, mas duas vezes.

O que veio a público sobre o poderoso esquema Jeffrey Epstein, com sua penetração entre lideranças de renome, incluindo políticos, empresários e intelectuais, desvendou uma rede de corrupção, libertinagem e pedofilia, cuja existência e alcance poucos poderiam imaginar. Instalou-se a barbárie nas oligarquias do Ocidente.

A intensificação do racismo no Ocidente e suas implicações geopolíticas

Tudo isso é (ou deveria ser) bastante conhecido em suas linhas gerais. Menos reconhecidas são as conotações raciais presentes nessa tensa situação geopolítica. Nem sempre se leva na devida conta a existência de um racismo disseminado, arraigado, de natureza estrutural, que acrescenta uma conotação especialmente perversa ao quadro geopolítico.

O mundo pode ser dividido para certos propósitos em duas partes – o Ocidente Coletivo e o Sul Global. O Ocidente Coletivo costuma ser definido como os países de alta renda liderados pelos Estados Unidos; inclui Canadá, União Europeia, Reino Unido, Austrália, Israel, Japão, Coreia do Sul e alguns outros países de alta renda). Excluídos os países asiáticos de alta renda (Japão, Coreia do Sul e Cingapura), a população do Ocidente representa algo como 12% da população mundial, com tendência a perder peso. O Sul Global é normalmente entendido como correspondendo ao resto do mundo, isto é, os países emergentes ou reemergentes e em desenvolvimento da Eurasia, Ásia, África e América Latina. O que temos é The West and the Rest, título pertinente de um livro de Niall Ferguson. O Ocidente se vê pressionado pela ascensão do “Resto”, onde vivem nada menos que cerca de 86% da humanidade.

Um ponto central: aproximadamente 3/4 da população que reside no Ocidente são brancos – com as minorias não brancas  funcionando principalmente como trabalhadores de baixa qualificação em empregos que, como se sabe, os brancos não estão mais dispostos a ocupar. A população do Sul Global é totalmente diferente em termos de composição racial – os brancos são minoria; a grande maioria é representada por pretos, pardos, amarelos, mestiços etc. Historicamente, os brancos são minoria na África, na Ásia e mesmo na América Latina, onde a colonização europeia teve mais peso.

 É do Ocidente branco que provém um racismo estrutural, ancorado na convicção de que a civilização ocidental, mais desenvolvida e sofisticada, é produto de povos superiores. Civilizações muito mais antigas, como a chinesa, a indiana e a iraniana, sorriem ironicamente diante dessa pretensão. Certa vez perguntaram a Mahatma Gandhi que avaliação ele fazia, afinal, da civilização ocidental? E ele respondeu: “Seria uma boa ideia”.

O racismo ocidental é um fenômeno antigo. Na segunda metade do século 20, esse racismo ainda era parcialmente disfarçado por camadas variadas de hipocrisia. Durou pouco. Atualmente, o sentimento de superioridade em relação aos não-brancos tornou-se mais transparente. Podemos até lançar mão da observação cínica que se fazia no Brasil de outros tempos: “No nosso país”, dizia-se, “não há racismo porque os pretos sabem o seu lugar.” Se o racismo ocidental internacional já foi um pouco menos explícito e mais hipócrita, isso pode ser atribuído provavelmente ao fato de que até pouco tempo atrás “os povos não-brancos sabiam o seu lugar na ordem mundial controlada pelo Ocidente.”

Agora o quadro é outro. Os povos antes colonizados ou semicolonizados não reconhecem mais a superioridade dos brancos. Não aceitam mais os esquemas coloniais ou neocoloniais de exploração impostos pelos europeus e estadunidenses. Querem ter os seus direitos aceitos, na prática e não apenas em tese. Como declarou Vladimir Putin, “os ocidentais precisam reconhecer que o baile de vampiros aproxima-se do fim.”

Mas o Ocidente recusa-se terminantemente a aceitar que esse baile está acabando. A minoria branca do mundo entrou em estado de negação. Ressente intensamente a progressiva perda da hegemonia mundial e dos privilégios associados a ela. Humano, humano demais, diria Nietzsche. Séculos de dominação mundial não são facilmente esquecidos e abandonados.

Não há exagero nem caricatura nessa descrição geral. Muitos exemplos poderiam ser oferecidos para fundamentá-la. Um deles é a maneira como o Ocidente vê a crescente participação do Sul Global na exploração dos recursos naturais escassos do planeta. A reação típica, desde o final do século XX, tem sido indignação e denúncias de uso predatório dos “recursos da humanidade”. A Amazônia, que é predominantemente brasileira, tem sido um alvo preferencial. O Brasil é constantemente pressionado a aceitar ingerências de governos estrangeiros ou ONGs na administração e conservação desse componente de um suposto “patrimônio da humanidade”.

Mal se falava disso quando o Ocidente deu partida ao processo de degradação do planeta com a Revolução Industrial. Hoje é diferente, a destruição do meio ambiente, não pode continuar, afirma-se. Cabe conter o progresso do Sul Global, com a sua gigantesca população, em nome da preservação do planeta “em benefício de todos”. Evidentemente, os principais países do Sul Global não compram essa retórica viesada. Mas ela é sintomática do estado de negação a que estão presos a maioria dos ocidentais.

Resistência crescente à imigração e regressão civilizatória

Nesse ambiente carregado, entra em funcionamento um outro fenômeno de importância crucial –  a migração em larga escala para os Estados Unidos e Europa de pessoas oriundas da América Latina, África e Ásia Ocidental em busca de melhores condições de vida ou fugindo de guerras (muitas delas deflagradas pelo Ocidente). À medida que cresce essa migração, cresce a repulsa a imigrantes no Ocidente, em especial aos muçulmanos. Restrições à imigração têm conquistado amplo apoio entre europeus e estadunidenses. Essas barreiras e as formas não raro desumanas que vem tomando o controle das fronteiras e o combate a imigrantes residentes, até mesmo legais, contribuem para um processo que pode ser designado, sem exagero, como uma regressão civilizatória nos Estados Unidos e na Europa.

A popularidade da luta contra a imigração, em ambos os lados do Atlântico Norte, reflete o desejo, até certo ponto compreensível, de proteger a cultura ocidental contra a presença crescente de pessoas pertencentes a outras culturas e outras religiões. Essa preocupação com a preservação da cultura não é muito presente, por suposto, nas elites cosmopolitas ocidentais, que pouco se importam com questões culturais e tiram partido da disponibilidade de mão de obra barata que a imigração traz. Mas é um sentimento compartilhado pelas classes médias e populares, principalmente fora dos grandes centros urbanos.

O fundamental, entretanto, é que misturado a esse desejo legítimo aparece cada vez mais o racismo enraizado antes mencionado e a crença na superioridade e supremacia da raça branca. Um indicativo disso é o fato de que migrantes brancos da Ucrânia, por exemplo, enfrentam muito menos obstáculos no restante da Europa do que árabes ou  africanos negros. Um imigrante ou refugiado ucraniano é visto basicamente como “um de nós”.

O que temos, na verdade, é uma nova forma de fascismo xenofóbico. No plano político-partidário, cresce uma “nova direita”, designada frequentemente como “populista”, que tem no cerne do seu discurso a rejeição radical dos imigrantes. A nova direita cresce em grande medida por causa da ressonância do discurso anti-imigração nas massas nos Estados Unidos e na Europa e, também, por certa dificuldade dos partidos tradicionais de abraçá-lo sem violentar seus princípios básicos.

Assim como os judeus na Alemanha nazista e em outros países da Europa, os muçulmanos e outros não-brancos tornaram-se um conveniente bode expiatório para as consequências sociais adversas do declínio do Ocidente e da impossibilidade prática de continuar explorando o resto do mundo para proveito próprio. Migrantes não-brancos são responsabilizados por toda sorte de crimes e violências. São acusados, também, de substituir trabalhadores brancos e gerar desemprego entre eles – quando, na verdade, desempenham quase sempre aqueles empregos de remuneração mais baixa que a população branca rejeita ou que não podem ser facilmente automatizados.

A “nova direita” estadunidense e europeia não é propriamente nova, portanto, mas antes uma regressão a concepções e sentimentos pré-iluministas. Pode ser chamada de fascista ou nazista, pois contém elementos dessa visão de mundo, com os muçulmanos ocupando o lugar antes reservado aos judeus. A regressão civilizatória adquiriu  tal dimensão que é apropriado falar de uma “Era do Obscurantismo ou Endarkenment”, ou ainda de uma “Era de Embrutecimento”. Em que outra época, poderíamos ver uma figura absolutamente tosca como Donald Trump no centro do palco mundial? Trump é um caso extremo, mas a verdade é que, para dizer o mínimo, poucos líderes ocidentais estão à altura dos cargos que ocupam.

Em suma, Europa e Estados Unidos, antes na vanguarda do Iluminismo ou Enlightenment, patrocinam com afinco um movimento em sentido contrário.  O século 18 ficou conhecido como o “Século das Luzes”; o século 21, a julgar pelas suas décadas iniciais, entrará para a história como o “Século das Sombras”.

O genocídio na Palestina

Antes de falar do Brasil, um breve parêntese sobre Israel. Trata-se de um caso paradigmático, que constitui o sintoma mais claro do naufrágio da civilização ocidental. A maior crise humanitária do século 21  – o genocídio praticado por judeus israelenses contra os palestinos – é  um ingrediente central dessa “Era do Obscurecimento”. O apoio à Israel por parte da Europa e, sobretudo, dos Estados Unidos compromete, de forma talvez irreversível, a adesão do Ocidente aos valores que costumava pregar.

Israel está longe de ser um caso isolado. Como ignorar que o colonialismo de assentamento e o genocídio praticado por Israel na Palestina têm diversos precedentes? Na verdade, eles fazem parte de uma tradição secular europeia. Situada no seu contexto histórico, a criação do Estado de Israel é uma manifestação dessa tradição. E em Israel, aparecem de forma descarada traços repulsivos da cultura ocidental.

 O que está acontecendo na Palestina é o mais recente genocídio colonial praticado por europeus brancos contra não-brancos. Começando no século 16, europeus e seus descendentes destruíram povos nas Américas, na África, na Ásia e na Oceania para ocupar suas terras com imigrantes vindos das metrópoles. Na própria Europa, houve o Holocausto, genocídio que não teria a proeminência que tem se não tivesse vitimado brancos. Os diversos genocídios praticados por europeus no que hoje chamamos Sul Global atingiam outras raças, chegando inclusive a exterminá-las totalmente ou quase, como na Austrália e nas Américas do Norte e do Sul.

Uma diferença crucial e muito comentada entre o genocídio na Palestina e os anteriores, é que o primeiro  conta com ampla e instantânea cobertura da mídia, com impacto planetário. Os alemães podiam, com alguma credibilidade, afirmar que desconheciam a extensão do que ocorria nos campos de concentração nazistas. Os israelenses não têm condições de alegar o mesmo, e nem tentam. Extremistas sionistas, dentro e fora do governo Netanyahu, chegam a orgulhar-se da matança, justificando-a como combate ao “terrorismo”. E até mesmo o assassinato de milhares de crianças é apresentado como a eliminação de “futuros terroristas”.

O que aconteceu em Gaza é interpretado, às vezes, como um experimento do Império decadente – um genocídio transmitido  globalmente em tempo real como uma advertência a todos. A mensagem é algo como: vejam o que pode acontecer a povos não-brancos que resistirem às pretensões imperiais do Ocidente.

Inevitavelmente, o apoio político, econômico e militar a Israel por parte dos Estados Unidos e da maior parte da Europa cobra um imenso preço político. Ninguém mais acredita mais na existência de um Ocidente de princípios e valores. Essa imagem, antes tão forte, foi destruída em nome da defesa de Israel.

Desafios para o Brasil

Para terminar, algumas palavras sobre nosso querido País. Como ficamos nessa “Era do Obscurantismo”, nesse “Século das Sombras”? Como preparar o Brasil para uma nova era, muito diferente daquela a que estávamos acostumados.

Primeiro desafio: o brasileiro deve abandonar, o quanto antes, o seu posicionamento acomodado e a crença de que as divergências internacionais se resolvem apenas com boa-vontade, diplomacia e soft power. É imperativa uma cuidadosa preparação psicológica, econômica e militar para enfrentar as tempestades pela frente. Não é uma escolha ou algo que possa ser postergado. Trata-se da questão mais urgente com que se defronta o País.

No campo psicológico, precisamos superar em definitivo os complexos de inferioridade que rebaixam o País e tanto dificultam o nosso relacionamento internacional. Em outros termos, temos que lançar ao mar todos os resquícios de séculos de colonização cultural. Trata-se, também, de superar nosso tradicional pacifismo. Não para agredir ninguém, mas em reconhecimento de que para viver em paz é preciso preparar-se para a guerra. Se vis pacem para bellum, como diziam os romanos.

No plano econômico, teremos que buscar a autossuficiência nas áreas essenciais, evitando sempre que factível a dependência em relação a fornecedores estrangeiros, especialmente aqueles situados em países que aparecem como agressores potenciais. As cadeias de produção estratégicas devem ficar em sua maior parte dentro do território nacional ou em países confiáveis. Essa busca gera, evidentemente, perdas de eficiência econômica. Mas acabou o tempo em que se podia confiar, com alguma plausibilidade, na abertura comercial e financeira como alavancas para o desenvolvimento.

Segundo desafio, esse mais positivo: o Brasil, por suas características, tem condições, talvez como nenhum outro país, de oferecer uma palavra nova ao mundo, uma mensagem de congraçamento e união. Vou mais longe: o nosso destino histórico talvez seja o de iniciar, junto com outras nações, uma espécie de Segunda Renascença, capaz de nos livrar das ameaças e catástrofes da “Era do Obscurantismo” em que ingressamos.

Não é a primeira vez que escrevo sobre esse papel potencial do Brasil, e não quero me repetir. Remeto o leitor ou leitora a alguns capítulos do meu livro mais recente, os Estilhaços. Digo apenas o seguinte: por suas dimensões, por resultar da mistura de povos oriundos de todas as partes do planeta, por sua tradição de abertura ao mundo, inclusive por seu pacifismo, o brasileiro pode ter um papel de salvação mundial. O próprio sentimento de inferioridade e a própria tendência ao pacifismo, devidamente reconfigurados, nos preparam para exercer esse papel

Delírio? Talvez. E, no entanto, repetindo uma indagação que fiz nos Estilhaços, não é pelo delírio que se chega à essência das coisas?

Hegemonia imperialista em crise https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/decadencia-imperialista.html

Palavra de poeta

Identidade

Mia Couto   


Preciso ser um outro 
para ser eu mesmo 

Sou grão de rocha 
Sou o vento que a desgasta 

Sou pólen sem inseto 

Sou areia sustentando 
o sexo das árvores 

Existo onde me desconheço 
aguardando pelo meu passado 
ansiando a esperança do futuro 

No mundo que combato morro 
no mundo por que luto nasço. 

[Ilustração: Marcos Guinoza]

Leia também "Sublimação", poema de Anita Dubeux https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-de-poeta_0572379551.html 

22 agosto 2026

Minha opinião

Enfraquecido na própria casa

Luciano Siqueira  

 

Donald Trump coleciona rosário crescente de fatores de desgaste – no mundo e dentro de casa.

Nos Estados Unidos, as próximas eleições parlamentares, que põem em jogo a renovação da Câmara dos Representantes e de parte do Senado podem produzir derrota que atinge a medula do governo. Uma possível maioria democrata pode limitar significativamente o poder de ação do presidente nos anos finais do mandato.

O desgaste político de Trump se acentuado com a derrota eleitoral dá margem a que uma oposição fortalecida no Congresso retome ou inicie investigações sobre a administração federal, além de aumentar o risco político de eventuais processos de impeachment.

Não é sem razão, portanto, que o histriônico presidente siga questionando o sistema de votação e alegue supostas irregularidades.

Ponto positivo para o povo norte-americano e, por extensão, para as nações do mundo.

Trump transformará a Presidência dos EUA em negócio https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/negocios-suspeitos.html

Arte é vida

 

Eric Fischl 

Donald Trump e sua tresloucada política externa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_0648315181.html 

Mídia pró-mercado

Jornalismo sem pluralismo
O jornalismo econômico troca o debate plural pelo consenso do mercado
Fernando Nogueira da Costa*/A Terra é Redonda   

1.

Há, no jornalismo econômico brasileiro, narrativas recorrentes apresentadas muitas vezes como se fossem proposições técnicas incontroversas, quando na realidade dependem de escolhas teóricas, institucionais e distributivas. Isso não significa toda crítica fiscal ser um “mito”, nem a inflação ter deixado de importar. Significa ser necessário distinguir identidades contábeis, restrições institucionais, hipóteses comportamentais e juízos normativos.

Os dados atuais tornam essa discussão oportuna. O recorrente diagnóstico mandatório de economista fiscalista midiático – “a dívida pública terá de ser paga” – é uma formulação enganosa,

Um Estado sem dívida externa e com títulos de dívida pública em moeda nacional, isto é, risco soberano, não funciona como uma família na qual herdeiros têm de liquidar todas as dívidas do finado antes de receber eventual herança. A dívida pública é normalmente refinanciada: títulos vencem, o Tesouro os resgata e simultaneamente emite outros.

O Tesouro Nacional administra emissões, resgates, estoque, vencimentos e reserva de liquidez – justamente porque administrar a dívida pública significa gerir continuamente seu refinanciamento. Os detentores de títulos de dívida pública – Instituições Financeiras em torno de 31,8% do total dos títulos; Fundos de Previdência: aproximadamente 22,6%; Fundos de Investimento: cerca de 21,6%; Não-residentes (Estrangeiros): 10%; Seguradoras, Governo e Tesouro Direto com participações menores – estão interessados nos permanentes rendimentos de juros. Logo, quando há vencimentos dos títulos públicos, compram outros.

A pergunta economicamente relevante não é: “Quando o Brasil pagará sua dívida?”, mas sim: “Em quais condições o Estado conseguirá refinanciar sua dívida ao longo do tempo?” Isso desloca radicalmente o problema.

O limite não é uma imaginária data de quitação do estoque, mas a interação entre taxa de juros, crescimento nominal do PIB, resultado primário, composição e maturidade da dívida, demanda dos investidores por títulos e credibilidade político-institucional. Simplificadamente: Δ(d) ≈ (r−g) d – p; onde (d) é dívida/PIB, (r) é o juro real efetivo, (g) é o crescimento da renda (ou arrecadação fiscal) e (p) é o superávit primário.

Essa equação mostra algo obscurecido pelo debate jornalístico sem pluralismo: uma taxa real de juros muito elevada pode desestabilizar a dívida mesmo com um resultado primário relativamente próximo do equilíbrio. 

2.

Bancos, fundos de investimento, fundos de pensão, seguradoras e famílias não desejam necessariamente “livrar-se” da dívida pública. Para eles, o passivo do governo é ativo financeiro.

O título público é simultaneamente: Passivo do Estado = Ativo financeiro dos detentores, inclusive bancos públicos e governos. Por isso, “eliminar a dívida pública” significaria também eliminar parcela importante dos ativos seguros usados na gestão patrimonial privada e nos balanços de entidades públicas.

Nos números fiscais há uma assimetria e precisam ser distinguidos entre realizados e projetados. Aproximadamente 0,5% do PIB de déficit primário e 8,5% de juros são valores projetados para 2026 no cenário-base da IFI do Senado.

Segundo o Banco Central, em doze meses, o setor público consolidado acumulou déficit primário de R$ 157,2 bilhões, equivalente a 1,19% do PIB. No acumulado em doze meses até junho, os juros nominais alcançaram R$ 1,16 trilhões (8,8% do PIB). O resultado nominal do setor público consolidado, incluindo o resultado primário e os juros nominais apropriados, no acumulado em doze meses, teve déficit nominal de R$ 1,31 trilhões (9,99% do PIB).

Mesmo usando o dado realizado, a diferença é extraordinária: a conta de juros é cerca de 7,4 vezes o déficit primário. Isso não demonstra ser qualquer gasto social irrelevante fiscalmente. Previdência, saúde e educação precisam ser financiados dentro da capacidade fiscal e tributária do Estado.

Mas enfraquece a narrativa ortodoxa dos “fiscalistas”, segundo a qual o déficit nominal brasileiro seria essencialmente consequência de um “Estado gastador” em políticas sociais. Contabilmente, hoje, a grande diferença entre um déficit primário relativamente pequeno e o enorme déficit nominal é a conta de juros.

Aqui aparece um segundo mito: confundir déficit primário com “gastos sociais”. Nessa sutileza conceitual, o resultado primário não mede simplesmente: gastos sociais – receitas. Ele agrega receitas e despesas primárias de diversas naturezas. Portanto, não podemos inferir serem saúde, educação ou Previdência os únicos responsáveis diretos pelo déficit primário de 1,19% do PIB.

Apesar de todo o conjunto das despesas primárias do Estado, grande parte delas sociais, receitas tributárias financiam quase integralmente essas despesas. O desequilíbrio líquido primário é pequeno, quando comparado à despesa líquida com juros. Essa formulação factual é difícil de contestar. 

3.

A baixa inflação demonstra a natureza do problema. O IPCA de julho foi apenas 0,07%, acumulando 3,44% em 2026 e 4,44% em doze meses. Enquanto isso, a Selic está em 14% ao ano. O próprio Copom caracteriza esse nível como “significativamente contracionista”.

Logo, há uma questão econômica legítima, merecedora de debate plural. Não se deve simplesmente subtrair os dois números para obter o juro real ex ante – o correto é considerar a inflação esperada –, mas qualquer medida razoável aponta para juros reais excepcionalmente elevados.

Por isso, a inflação em nível historicamente baixo deixou de justificar, por si só, toda a discussão macroeconômica brasileira continuar girando em torno do combate inflacionário, sem ponderação equivalente dos efeitos patrimoniais, fiscais, distributivos e produtivos da taxa de juros.

Fundamento a “estagdesigualdade” com a Teoria do valor financeiro, elaborada por mim em um livro digital. A Selic elevada produz efeitos diferentes sobre dois circuitos: (i) No circuito da renda e produção: Juros↑ → Crédito mais caro → Alavancagem empresarial↓ → Investimento↓ → Demanda↓ → Crescimento da renda↓; (ii) No circuito da capitalização patrimonial: Selic↑ → CDI↑ → Renda fixa↑ → Juros compostos → Patrimônio financeiro↑.

Isso cria uma configuração paradoxal: fluxo de renda crescendo lentamente + estoque financeiro capitalizando rapidamente. É precisamente aí onde o conceito de estagdesigualdade ganha força analítica.

Quem depende predominantemente do trabalho vive no circuito do fluxo de renda relativamente estagnado, diante do padrão da Era desenvolvimentista. Quem já acumulou grande patrimônio financeiro participa intensamente do circuito de capitalização.

Há um feedback: Selic elevada → despesa pública com juros → renda financeira privada → acumulação patrimonial → maior concentração de riqueza. Simultaneamente: Selic elevada → custo de capital → menor alavancagem financeira da produção → menor investimento → menor crescimento da renda.

A combinação dos dois circuitos produz justamente: Estagdesigualdade = baixo dinamismo do fluxo de renda (estagnação relativa) + capitalização assimétrica dos estoques (desigualdade patrimonial). 

4.

Há quatro contrapontos importantes a uma visão indiferente ao problema fiscal.

Primeiro, rolar dívida não significa inexistir restrição fiscal. Se investidores exigirem taxas crescentes, encurtarem prazos ou alterarem a composição desejada de suas carteiras, o custo de refinanciamento aumenta.

Segundo, resultado primário importa, particularmente porque interage com (r-g). Juros altos tornam necessário um resultado primário maior para estabilizar dívida/PIB; mas déficits primários persistentes também aumentam o estoque sobre o qual os juros incidem.

Terceiro, juros não constituem simplesmente uma transferência do Estado para “rentistas”. Os títulos pertencem direta ou indiretamente a fundos de pensão, fundos de investimento, bancos, seguradoras, empresas e pessoas físicas. O efeito distributivo precisa ser medido pela propriedade final desses ativos.

Quarto, não é possível atribuir toda a baixa taxa de investimento à Selic. Expectativas de demanda, infraestrutura, tecnologia, câmbio, tributação, incerteza política, capacidade instalada e perspectivas de rentabilidade também entram na decisão empresarial.

O verdadeiro problema jornalístico brasileiro é, portanto, o reducionismo ortodoxo fiscalista – e não “fake news econômicas”. Mitos econômicos são produzidos pela transformação de uma interpretação teórica convencional, muitas vezes uma crença equivocada, em senso comum jornalístico.

Forma-se uma cadeia: hipótese teórica → interpretação de economistas neoliberais → consenso do mercado → jornalismo econômico → opinião pública. No fim dessa cadeia, deveria falsear a hipótese inicial – e não a conclusão aparecer como se fosse um fato.

“Dívida tem de ser paga”, “o governo precisa fazer a mesma coisa de uma família”, “déficit público decorre de excesso de gasto social”, “juros altos são simplesmente consequência do risco fiscal” e “qualquer inflação acima da meta exige juros extremamente elevados” são proposições discutíveis, não identidades contábeis.

A alternativa plural não seria simplesmente inverter todas elas. Seria mostrar ao leitor as causalidades concorrentes e seus feedbacks: de um lado, Selic elevada → déficit nominal maior → dívida pública / PIB maior → pressão por ajuste fiscal; de outro lado: Selic elevada → menor alavancagem financeira → menor investimento. Ambas as resultantes se sobrepõem e resultam em: menor crescimento da renda → menor arrecadação tributária → piora fiscal.

Em contrapartida, no estoque de riqueza: Selic elevada → rendimentos financeiros → juros compostos → capitalização patrimonial → concentração da riqueza.

Essa abordagem sistêmica muda a pergunta central. Em vez de discutir isoladamente “gasto público demais ou de menos?”, passa-se a investigar como política monetária, política fiscal, estrutura financeira, distribuição patrimonial e crescimento interagem e se retroalimentam.

Nesse enquadramento da complexidade, minha hipótese pode ser formulada de maneira provocadora de um debate plural: o problema macroeconômico brasileiro contemporâneo não é simplesmente um “déficit fiscal”, mas sim uma configuração financeiro-fiscal na qual juros muito elevados simultaneamente ampliam o déficit nominal, remuneram estoques de riqueza, encarecem a alavancagem e restringem a expansão do fluxo de renda e, portanto, da arrecadação fiscal.

Esta é uma hipótese de Economia política a ser testada empiricamente. É justamente o tipo de hipótese ausente quando o debate econômico é apresentado como se houvesse apenas uma interpretação tecnicamente admissível.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]

A soberania em destaque https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_01847079127.html 

Humor de resistência

 

Aroeira

Pequenas grandes contribuições https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/pequenas-grandes-contribuicoes.html