11 janeiro 2026

Bastiões da direita

Bolsonarismo e centrão: as duas cabeças do monstro que assombra o Brasil
Monstruosidade dupla atua como guardiã feroz do poder que lhe garante privilégios
Ana Prestes/Liberta  



A conveniente união entre o bolsonarismo e o Centrão, especialmente na Câmara dos Deputados, evoca a imagem do cão bicéfalo Ortros, guardião dos bois vermelhos do gigante Gerião na mitologia grega. O monstro canino de duas cabeças está presente na literatura brasileira na obra Os Doze Trabalhos de Hércules (1944), de Monteiro Lobato, que popularizou entre as crianças e a juventude a simbologia daquele monstro vigilante, que protege um poder injusto.

Tal metáfora ilustra bem a fusão entre esses dois campos políticos que, embora diferentes, atuam juntos como guardiões ferozes de um mesmo tipo de poder concentrado, que lhes garante privilégios.

Proteção de poder

No mito, Ortros representa a vigilância absoluta, a ferocidade que impede qualquer transformação. Sua função é latir e amedrontar todo aquele que se aproxima do rebanho de Gerião, cujo poder ilegítimo o transformou num anti-“bom Rei” por dominar sua ilha de modo contrário ao ideal da pólis grega, pela força e não pelo debate democrático.

Em Lobato, a boneca Emília engana o cão com sua astúcia e tagarelice para ajudar Hércules a chegar ao rebanho. Mas, antes disso, o monstro cumpre o seu papel: bloquear as mudanças, intimidar oponentes e proteger um senhor que teme perder o que acumulou. A analogia se impõe quando observamos as similaridades com o comportamento político da aliança entre bolsonarismo e Centrão.

Como no mito, essa aliança forma um bloco de proteção do poder, cujo propósito é resguardar privilégios, bloquear reformas e manter sistemas arraigados que contrariam o interesse público e, muitas vezes, a própria legalidade constitucional.

Trata-se de uma combinação entre a agressividade ideológica do bolsonarismo e o cálculo fisiológico do Centrão, duas cabeças que defendem o mesmo Gerião contemporâneo: o Estado capturado, submetido a interesses privados, milícias, corporações políticas e redes ilícitas, que sequestram o orçamento e a máquina pública.

Outra característica do cão Ortros é sua reatividade primária: vigia, ataca e protege, mas não cria nem transforma.

De forma similar, a atuação conjunta de bolsonarismo e Centrão no Congresso tem sido marcada pela obstrução do que ameaça seu campo de influência pela contenção de investigações, pela blindagem de aliados e pela manutenção de uma estrutura de trocas fisiológicas. É uma força dedicada a impedir perdas para seu campo, mas incapaz de construir horizontes programáticos para o país. Interdita o debate, pois não há projetos a serem comparados.

Lobato descreve o cão bicéfalo como pavoroso, símbolo de terror, que afasta qualquer tentativa de questionar o poder estabelecido. A aliança entre Centrão e bolsonaristas opera com a mesma lógica: intimida por meio de uma retórica agressiva da extrema direita e, ao mesmo tempo, morde com as chantagens institucionais típicas do fisiologismo: distribuição de emendas, controle de cargos e ameaça permanente de paralisia legislativa. Late na retórica e morde no mecanismo de poder.

Desgaste político

Essa fusão, contudo, não existiu desde o início do governo Bolsonaro.

Eleito em 2018 com discurso antipolítica, Bolsonaro dizia rejeitar o “toma-lá-dá-cá” e atacava o próprio Centrão. Algo que se demonstrou uma grande falácia. Pressionado por crises e investigações, mudou de posição no ano pandêmico de 2020. Entre maio e julho daquele ano, iniciou negociações com PP, PL e Republicanos, distribuiu cargos estratégicos e consolidou a aproximação com Arthur Lira.

Em fevereiro de 2021, a eleição de Lira à presidência da Câmara contou com o apoio explícito do governo e se institucionalizou de vez a aliança, fundada na proteção contra tentativas de impeachment, no controle da agenda legislativa e no acesso ao Orçamento Secreto.

Hoje, essa união segue assombrando e impedindo avanços democráticos no Brasil, mas já aparecem fissuras importantes. A prisão e a inelegibilidade de Bolsonaro, a queda de mobilização do bolsonarismo nas ruas e o desgaste político do núcleo mais radical enfraqueceram sua capacidade de liderança.

No Centrão, cresce a desconfiança de manter laços com um movimento que perdeu força e já não oferece garantias eleitorais como em outros tempos. Somam-se a isso disputas internas pela herança do capital político da extrema direita e divergências entre pragmatismo fisiológico e radicalização ideológica, fatores que fragmentam o bloco conservador.

Assim como o cão bicéfalo de Gerião, que protege um poder monstruoso mas não conduz o rebanho, a aliança entre bolsonaristas e Centrão tornou-se um instrumento de vigilância e contenção, não de projeto. Continua operante, mas fragilizada, reativa e sem um rumo aparentemente comum. Seu único consenso é impedir que os “trabalhos de Hércules” da vida real, como as reformas democráticas, o fim da escala 6×1, a garantia de uma legislação de proteção ambiental, o combate à corrupção e os grandes projetos de infraestrutura e logística que o país precisa avancem.

Trata-se, portanto, de uma monstruosidade dupla, que assombra o Brasil. Dois monstros que guardam privilégios e mordem qualquer ameaça que ouse aproximar-se do poder e dos privilégios que defendem juntos. 

Lula entre Estados Unidos e Venezuela a passos firmes https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_21.html 

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Humor de resistência

Laerte

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Maria Bethânia: 'Olhos nos olhos'


Minha opinião

Questão de perspectiva
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65

Era o grupo "de sempre", se é que o termo ainda se aplica ao grupo, pois já fazia meses que não sentavam à mesa do bar para jogar conversa fora.

Mas aquele reencontro era especial, uma espécie de saideira de 2019 e de bons agouros para 2020.

O Moreira havia levado uma boa cachaça de São José de Mipibu (RN) e depois
da terceira rodada, a turma já animada, começaram os intermináveis brindes com chope. Para lavar.

Aí o Gouveia, assessor de imprensa de uma empresa estatal do município, introduziu a pergunta:

— Respondam todos, qual o seu principal desejo para 2020?

Dois disseram de pronto que gostariam de ver o Bolsonaro transferido para o Inferno. Um pediu que o Santa Cruz ganhasse o campeonato pernambucano. E os demais (eram sete no grupo) se dispersaram em questões estritamente pessoais.

— Não nego — falou emocionado o Belarmino —, queria mesmo era a volta da Marineide, referindo-se a ex-esposa que um dia cansara de suas farras fenomenais e batera em retirada.

O Epaminondas, então, sempre ele, resolveu baixar o nível das pretensões e sapecou:

— Para mim basta que jamais uma mosca caia na minha tulipa de chope!

Meio que recolhido a posição de mero observador, neutro e atento, preferi não participar do certame e me pus a refletir sobre aquela manifestação de desejos movida a oxidrilas.

— Uma questão de perspectiva, pensei comigo mesmo. Dos rumos da nação a questiúnculas domésticas, em confidências de mesa do bar tudo vale a pena quando a sinceridade não é pequena.

É assim se dá entre os mais de duzentos milhões de brasileiras e brasileiros, submetidos a tremenda crise econômica, que lhes cria quase insuportáveis condições de sobrevivência — pelo menos para a maioria.

Quando um povo perde a perspectiva tudo fica mais difícil, sobretudo numa situação como a atual em que a dita correlação de forças no terreno da política segue desfavorável ao campo popular e democrático.

Estivesse entre aqueles sete amigos, a confraternizar com cachaça e chope, algum dirigente partidário da estirpe de um Lula ou de um Ciro Gomes, eu teria dito:

— Ouçam o governador maranhense Flavio Dino, do PCdoB, que defende uma ampla união das oposições para que o Brasil possa se livrar da praga bolsonarista!

Isto posto, segui mais uma rodada de chope apoiada numa excelente dobradinha.

E que venha um 2020 de muita luta e novas conquistas!
 

(Crônica de dezembro de 2019)

"Da rede tudo se ouve e se imagina" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_29.html 

Sylvio: 'Constituição'

Bolsonaro pede a Xandão que  autorize a diminuição da pena por conta da leitura de livros. Caso venha a ser autorizada, sugiro que comece pela Constituição, livro que ele tanto ignora como tenta violar.

Sylvio Belém 

Entre soluços e quedas, o cárcere é o lugar para golpistas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/enio-lins-opina_9.html 

Diplomacia brasileira

Altivez e ativismo da diplomacia brasileira sob ‘Lula 3’ são trunfo eleitoral
Conexão com escalões decisivos da sociedade restauraram credibilidade e maturidade do Itamarati
Luis Costa Pinto/Liberta  



A dupla Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores, e Celso Amorim, assessor especial da Presidência da República, tem sintonia mais fina e soa mais eficaz para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva do que o dueto Amorim & Garcia de seus dois primeiros mandatos.

Entre 2003 e 2010, Celso Amorim estava no lugar hoje ocupado por Vieira e o historiador Marco Aurélio Garcia (morto em 2017), , um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, assessorava o presidente diretamente no Palácio do Planalto com foco na diplomacia.

Dono de caráter espetacular, amigo fraternal da família Lula da Silva, mas de fora dos quadros profissionais do Itamarati, Garcia criou algumas tensões com Amorim e tentou imprimir velocidade além da prudência no estabelecimento de relações Sul-Sul na geopolítica brasileira. Aquilo provocou tensões contornáveis com Celso Amorim e serviu de argumento aos detratores de Lula em seus primeiros mandatos. O legado daqueles tempos foi imenso na abertura de novos mercados para empresas e produtos brasileiros. A nefasta cultura do lavajatismo, porém, tisnou todas as virtudes do dueto.

Obscurantismo emplumado

No período em que Michel Temer ocupou a Presidência da República, depois da deposição de Dilma Rousseff, o Itamarati viveu uma fase de obscurantismo emplumado: o Ministério das Relações Exteriores foi entregue ao PSDB e os ministros José Serra e Aloysio Nunes Ferreira imprimiram agenda própria e personalista à diplomacia, afastando-a do centro nevrálgico do poder em Brasília.

Com a assunção de Jair Bolsonaro ao gabinete presidencial, em 1º de janeiro de 2019, instalaram-se os inacreditáveis tempos da peste – e eles precederam até mesmo a pandemia por coronavírus Covid-19. O obtuso, pérfido e desastroso embaixador Ernesto Araújo, criatura deformada pela idolatria às ideias toscas de Olavo de Carvalho, iniciou um processo de desmonte da diplomacia profissional dentro do Itamarati.

Fazendo às vezes de voz demoníaca a soprar asneiras nos ouvidos transtornados de Bolsonaro, Felipe Martins – que, por duas vezes, havia levado bomba no concurso público para acesso ao Instituto Rio Branco (onde são formados os diplomatas brasileiros) –, outro olavista desmiolado, era o alter-ego do trágico “chanceler”. A parceria nefasta de Araújo e Martins refletia em tudo a parvoíce patética e sem rumo daquela quadra perversa da história do Brasil.

Carlos França, embaixador de carreira chamado às pressas para tocar o Ministério das Relações Exteriores na metade derradeira do mandato bolsonarista, não teve energia nem credibilidade para reerguer as ruínas do Itamarati.

Não à toa, uma das pantomimas bizarras armadas pelo ex-presidente na tentativa de golpear a democracia brasileira foi a tal reunião com embaixadores convocada para o Palácio da Alvorada, em plena campanha eleitoral de 2022, com o propósito de mentir sobre vulnerabilidades de nosso processo eleitoral e criar nuvem de suspeição em torno de sua iminente derrota (consumada no dia 30 de outubro daquele ano).

Puxados pela liderança e o prestígio incontestes de Lula, Mauro Vieira e Celso Amorim, rapidamente, recompuseram o interesse do mundo em ouvir o Brasil depois da troca de poder em Brasília. A reconexão do Palácio do Planalto com os centros de poder nos países centrais dos cinco continentes, o estreitamento das relações com a China, a França, a Rússia e a Espanha, a volta do protagonismo brasileiro na agenda ambiental internacional, as reconexões com os governos da África e da América Latina e, sobretudo, a maneira hábil como o Brasil lidou com a chantagem tarifária ilegal dos Estados Unidos restauraram a credibilidade e a maturidade do Itamarati, aqui dentro e lá fora.

O mundo vive tempos de pré-Guerra Mundial, ainda que um conflito generalizado em larga escala não se concretize. Há 60 guerras regionais ou nacionais em andamento. Nunca houve tamanha quantidade de conflitos simultâneos desde o fim da Segunda Grande Guerra, em 1945.

Traição à pátria

O prestígio reconquistado no Exterior pela diplomacia profissional altiva e ativa de nosso país começa a ecoar aqui dentro. Parte do empresariado do agronegócio, o sistema financeiro e mesmo empresários e executivos que (por recalque, preconceito ou deformações ideológicas) antes viam o Partido dos Trabalhadores e o presidente Lula, em especial, como “despreparados” mudaram de opinião. Isso será crucial para a conquista dos essenciais votos nem-nem (os cerca de 10% de eleitores brasileiros que dizem não ser nem bolsonarista e extremista de direita, nem lulista ou petista), que decidirão a eleição.

Na semana que passou, o candidato cada vez mais consolidado da extrema direita, Flávio Bolsonaro, ensaiou o anúncio de que seu chanceler (em caso de improvável e desastrosa vitória) seria o irmão, Eduardo Bolsonaro.

Enfrentando processo por alta traição à pátria, autoexilado nos Estados Unidos por motivos torpes – viajou para lá a fim de detratar a imagem brasileira junto ao núcleo de poder de Donald Trump – e cassado da Câmara dos Deputados por abandono do mandato, a mera cogitação de “Eduardo Bananinha” como ministro das Relações Exteriores da natimorta candidatura do clã Bolsonaro deve ser encarada como motivo de júbilo por quem encara o futuro do país com seriedade e frieza.

Tendo afundado o Brasil em crises profundas nos quatro anos em que pilharam o Palácio do Planalto e a República, os filhos do demônio demonstram que não aprenderam uma lição sequer das tragédias que protagonizaram.

Sobre presidentes e narcotraficantes https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/enio-lins-opina_7.html