22 julho 2026

Tragédia histórica

A cadeia do bolsonarismo – a propósito de Falso Cupom, de Liev Tolstói
As grandes tragédias históricas não costumam ser frutos de um plano único, nem da ação isolada de um indivíduo; resultam da convergência de muitas escolhas feitas por pessoas convencidas de que controlam as consequências de seus
Luciano Rezende Moreira/Portal Grablois    

Poucas obras literárias ajudam tanto a compreender a ascensão do bolsonarismo quanto Falso Cupom , de Liev Tolstói. Embora escrita há mais de um século, a pequena novela do escritor russo oferece uma metáfora poderosa para reflexão sobre a manipulação da democracia brasileira e sobre a responsabilidade histórica daqueles que, sem necessariamente desejarem esse resultado, ajudaram a construir as condições para que ele se tornasse possível.

A narrativa começa com um episódio banal. Um estudante utiliza um cupom falsificado para quitar uma pequena dívida. Uma fraude parece insignificante. No entanto, à medida que o cupom passa de mão em mão, cada personagem acrescenta um novo elo à corrente da manipulação moral. Uma mentira leva a outra, uma pequena desonestidade abre caminho para uma violência maior, até que uma sucessão de atos aparentemente desconexos desemboca em assassinato. O extraordinário na obra de Tolstói é que ninguém pretendia produzir aquele desfecho. Cada personagem acreditava apenas estar resolvendo um problema imediatamente. Em determinado momento, porém, a cadeia do mal já não pertence a ninguém. Ela ganha autonomia. Parece ganhar vida própria.

É importante esclarecer que esta leitura não reduz a história a um problema moral nem pretende explicar especificações políticas específicas por virtudes ou defeitos individuais. O fascismo, assim como o bolsonarismo , não nasce apenas de mentiras ou de escolhas equivocadas de determinados atores. Crises econômicas, conflitos sociais, interesses de classe, transformações culturais e disputas políticas continuam sendo elementos decisivos para compreender estes processos. A contribuição de Tolstói é outra. Sua novela ilumina um mecanismo frequentemente negligenciado, que é justamente a forma como pequenas decisões, tomadas por diferentes aspectos em situações concretas, podem desencadear processos históricos que acabam escapando ao controle de seus próprios autores. 

Como se formou a cadeia do bolsonarismo

Sob essa perspectiva, a ascensão do bolsonarismo pode ser compreendida não como um acidente da história brasileira, mas como o resultado de uma longa cadeia de acontecimentos. Durante anos, setores importantes das elites políticas, econômicas e institucionais passaram a tratar o Partido dos Trabalhadores não apenas como um adversário eleitoral, mas como um inimigo cuja derrota justificaria sucessivas excepcionaisidades. A crítica política, indispensável em qualquer democracia, foi cedendo espaço à demonização do adversário. O debate público tornou-se progressivamente mais intolerante, e a ideia de que certos princípios poderiam ser relativizados em nome de um objetivo considerado maior começou a ganhar legitimidade.

Nada disso ocorreu por meio de uma conspiração cuidadosamente planejada. Ao contrário, cada ator persegue objetivos próprios. Parte da imprensa queria acreditar que estava combatendo a corrupção e fiscalizando o poder. Setores do Judiciário e do Ministério Público buscaram responder à indignação da sociedade diante de esquemas ilícitos que primeiro foram, de fato, investigados. Lideranças políticas da oposição desejavam derrotar eleitoralmente o PT e retornar ao governo. Os empresários buscavam proteger seus interesses. Isoladamente, cada movimento possuía sua lógica. Coletivamente, porém, produziram um ambiente político muito diferente daquele imaginado por seus protagonistas.

A crise iniciada após as eleições de 2014 representou um ponto de inflexão nesse processo. A dificuldade de consideração relativa à legitimidade do resultado eleitoral, a radicalização crescente do discurso político e a transformação do oponente em inimigo permanente enfraqueceram uma das mais importantes conquistas da Nova República que era, pelo menos aparentemente, a acessibilidade das regras do jogo democrático. O PSDB, que durante décadas foi um dos pilares da estabilidade institucional brasileira, desempenhou um papel importante nessa mudança de ambiente. A liderança de Aécio Neves simbolizou a opção por uma estratégia de contestação permanente do governo recém-eleito, contribuindo para um clima de deslegitimação que extrapolou os limites da disputa política tradicional.

Outro elo importante dessa cadeia foi a Operação Lava Jato . Apresentada publicamente como uma cruzada contra a corrupção, ela rapidamente respondeu a uma dimensão política que ultrapassou o campo da investigação criminal. Sua atuação contribuiu para a construção de uma narrativa de criminalização seletiva da política, atingindo quase que exclusivamente o Partido dos Trabalhadores e seus principais dirigentes, ao mesmo tempo em que produziu impactos profundos sobre setores estratégicos da economia brasileira, como a cadeia de petróleo e gás e a indústria de construção pesada. O resultado foi o enfraquecimento de atores políticos e econômicos nacionais e a ampliação de um sentimento antipolítico que seria potencialmente prejudicial pelo bolsonarismo. Assim como em Falso Cupom , decisões tomadas em determinado contexto produziram consequências que superaram os objetivos imediatos de muitos de seus protagonistas.

Seria um erro afirmar que esses acontecimentos explicam, sozinhos, o bolsonarismo. Também seria um erro imaginar que seus protagonistas desejariam produzir esse resultado. O ensinamento de Tolstói é precisamente outro. As grandes tragédias históricas não costumam ser frutos de um plano único, nem da ação isolada de um indivíduo. Elas resultaram da convergência de muitas escolhas feitas por pessoas convencidas de que controlam as consequências de seus atos. Em determinado momento, porém, o processo histórico deixa de obedecer à vontade de seus criadores.

Foi isso que ocorreu quando setores conservadores da Alemanha acreditaram poder utilizar Hitler para conter a esquerda. Foi isso que aconteceu quando parcelas das elites italianas imaginaram que Mussolini restauraria a ordem sem comprometer a democracia liberal. Evidentemente, o Brasil do século XXI não é a Alemanha de Weimar nem a Itália do entreguerras, e qualquer comparação direta seria historicamente relacionada. O paralelo reside em outro aspecto: uma ilusão recorrente de que forças autoritárias podem ser instrumentalizadas para atingir objetivos imediatos e, depois, facilmente reconduzidas aos seus limites.

A segurança democrática também se faz elo por elo

A segunda parte de Falso Cupom oferece uma esperança que a primeira parece negar. Depois de mostrar como o mal se propaga, Tolstói demonstra que o bem também possui sua própria cadeia de transmissão. Um gesto de honestidade desperta outro; um ato de generosidade transforma uma vida, que transforma outra. A lógica é a mesma, mas agora orientada para a continuidade, e não para a destruição.

Esta talvez seja a principal lição política da novela para o Brasil contemporâneo. Se o bolsonarismo se tornou possível porque diferentes atores normalizaram pequenas concessões à intolerância, à excepcionalidade e à destruição do adversário, sua superação dependerá de uma cadeia oposta. A democracia não será reconstruída por um único líder, um único partido ou uma única eleição. Ela dependerá da disposição de políticos, magistrados, jornalistas, empresários, intelectuais e cidadãos comuns para restabelecer, elo por elo, aquilo que foi sendo corroído ao longo dos últimos anos.

Tolstói nos lembra que toda tragédia começa com um gesto que parece pequeno demais para alterar o curso da história. Mas nos lembramos também que a continuidade da vida coletiva obedece à mesma lógica. Nenhuma democracia é destruída de uma só vez. E nenhuma democracia renasce sem que alguém decida, um dia, interrompa a circulação do primeiro falso cupom.

A interrupção dessa cadeia, entretanto, também exige uma reflexão profunda da própria esquerda. Se o bolsonarismo cresceu em um ambiente alimentado pela manipulação do debate público e pela política baseada no ressentimento, a esquerda não pode aceitar ser arrastada pela mesma lógica. A defesa da democracia exige mais que a derrota eleitoral de seus adversários. Exige recuperar valores que historicamente deveriam ser no centro da tradição do campo progressista, como solidariedade, compromisso com a justiça social, ética pública e capacidade de diálogo com a sociedade.

Para isso, será necessário enfrentar também os pequenos burgueses de setores da própria esquerda, quando os dirigentes passam a administrar seus partidos quase no piloto automático, presos às rotinas institucionais, às disputas eleitorais permanentes e às exigências da política imediata. Um pouco, deixa de construir um projeto de transformação da sociedade para adaptar-se aos limites de impostos pela própria ordem capitalista.

Referência

TOLSTÓI, Liev. O diabo e outras histórias . Tradução de Beatriz Morabito, Beatriz Ricci e Mayra Pinto. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.


Luciano Rezende Moreira é professor titular do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Doutor e mestre em Ciências Agrárias é graduado em Agronomia, Geografia, Administração Pública e Letras.

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Desmorona o castelo de crimes erguido pelo bolsonarismo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/editorial-do-vermelho_0412311635.html 

Humor de resistência

 

Quinho

Fim da escala 6×1 espelha a mais pura luta de classes https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/fim-da-jornada-61.html 

Brasil x EUA

EUA e o terrorismo de Estado no comércio internacional
As avaliações anunciadas por Donald Trump decorrem de razões políticas ou comerciais? O artigo confronta dados, normas multilaterais e argumentos jurídicos para defender a resposta brasileira fundada na reciprocidade e na soberania nacional
Durval de Noronha Goyos Jr./Portal Grabois   



Os EUA são notórios praticantes e mesmo os infames campeões mundiais do terrorismo de Estado, como tristemente demonstram sua tétrica história de 250 anos . Com o passar dos anos, esta prática tem aumentado de forma substancial, na proporção direta de seu declínio econômico, comercial, financeiro e moral, o que tem levado o país a atentar contra a própria ordem jurídica internacional, como, dentre muitos outros, nos casos dos tratados da ONU, dos pertinentes aos crimes humanitários e daqueles do âmbito da OMC. Tais atos atentatórios ao Direito atingiram um paroxismo sem precedente na administração tresloucada, irresponsável e inconsequente de Donald Trump , da maneira ainda demonstrada pelas renovadas ações atentatórias prejudiciais contra a Venezuela, Irã, Iêmen, Palestina, Líbano, Síria, Iraque, Líbia, Dinamarca, China, Colômbia e Cuba, entre outros.

Como é sabido, o terrorismo de Estado é o uso sistemático e institucional da violência, do terror e de instrumentos ilegais face ao Direito Internacional, de maneira a intimidar, constranger, controlar ou eliminar o governo de um outro país. Tais ações têm sido igualmente consistentes nas últimas décadas, adquirindo uma extensão dramática na área do comércio global, com um ostensivo repúdio aos tratados de regência sobre o tema. Eles também se intensificaram sob o atual governo estadunidense, que as defende com as abjetas armas da força militar ilegal, da mentira, do deboche, da propaganda, do populismo barato, da corrupção, da fraude, da xenofobia estúpida, das ameaças, da inconsequência e da insensibilidade humana. Para transferir os seus propósitos, os EUA mantêm cerca de 800 bases militares em mais de 80 países ou territórios. A sanha furiosa do país é tamanha que nem mesmo os seus notórios Estados clientes, como alguns na União Europeia, escapam das medidas coercitivas e das ameaças estadunidenses. O Brasil tem sido um dos principais alvos preferenciais de tais ações de desestabilização, talvez o maior após a República Popular da China.

Ao contrário do que ocorre quanto a este último país, a diferença com a relação ao Brasil não é explicável pela percepção de supostas ameaças econômicas ou comerciais aos interesses dos EUA naqueles setores, como é aparentemente o caso da China. Com o Brasil, existe o manifesto interesse na sua dominação política e econômica total, de tal maneira a transformá-lo numa república cliente, destinado a promover os interesses exclusivos e políticos dos EUA, ao custo da opressão, miséria e desesperança da Nação. De fato, a tirania mais cruel é aquela imposta por outro Estado: ela equivale à escravidão, ainda que vestida na patética, pesarosa e tragicômica caricatura consistente na Doutrina Donroe, o que nos leva à necessidade de indagação de como pode um país descer tanto em seu universo ético e moral. Para tanto, o governo estadunidense procura abalar a soberania brasileira , desestabilizando os poderes democráticos do país, com o auxílio de alguns setores políticos internos. Como é sabido, as técnicas de subversão política e social são mais baratas e expedientes do que uma intervenção armada.

Tarifas contra o Brasil e violação das regras internacionais

Dentro desse contexto, devem ser interpretadas as medidas tarifárias anunciadas pelo governo estadunidense, na noite funda do dia 15 de julho de 2026 , de tributar de maneira manifestamente abusiva e ilegal as exportações brasileiras objeto de uma ampla tarifa de produtos em 25%, patamar cerca de 10 vezes superior ao consolidado pelos EUA na OMC.

A medida adotada vem de acordo com a recomendação descabida do Escritório de Representação do Comércio (USTR), uma agência administrativa absolutamente desmoralizada pelo descompromisso com o Direito, a qual chafurda na promoção do arbitragem. A decisão foi tomada sob a égide da infame seção 301 da Lei de Comércio de 1974, ela mesma totalmente incompatível com o regime jurídico da OMC, que fornece as linhas de linhas de defesa legal do comércio internacional. Essa deve pautar-se com base nos chamados Tratados de Marraqueche, assinados em 1994, que consistem num amplo arsenal que inclui salvaguardas pela perda de competitividade, antidumping e medidas compensatórias contra subsídios, as quais são arbitrariamente julgadas insuficientes para resolver os pretensos problemas alegados pelos EUA.

Note-se que as medidas constrangedoras, tanto fraudulentas pela fundamentação, como ilegais face aos seus termos, anunciadas pelo governo estadunidense excluem alguns setores importantes para os seus interesses domésticos, como na área de mercadorias agrícolas (carne, café e suco de laranja etc.); em alguns setores industriais (equipamentos e maquinários diversos etc.) e também outras mercadorias (combustíveis e minerais etc.). Nestas áreas, há produtos igualmente importantes para os interesses econômicos dos produtores brasileiros, como até certo ponto nas mercadorias agrícolas, mas nenhuma delas é absolutamente necessária para a perda da soberania. Vale a pena ainda observar aqui que os EUA têm suspendido, ao longo dos últimos 10 anos, um superávit comercial com o Brasil de ordem de US$ 257 bilhões em bens e serviços, uma média de US$ 26 bilhões por ano (sic). Apenas na área de mercadorias, o superávit estadunidense foi em 2025 na ordem de US$ 14,4 bilhões, um avanço de 112% em relação ao ano anterior. Tais dados, dentre outros, evidenciam de maneira peremptória a natureza econômica política (e predatória) das medidas referidas.

Como o Brasil deve reagir

No contexto referido, trata-se no Brasil de debater uma eventual ocorrência oficial às medidas de agressão comercial ilegal e ao contexto de desestabilização política interna. Deve-se ou não utilizar contra os EUA o disposto na Lei de Reciprocidade Econômica de 2025, aprovada por unanimidade pelo Congresso, a qual dá ampla garantia a uma evidência legítima e legal por parte do Brasil? O governo do país agressor, em sua campanha de intimidação terrorista, já anunciou que, nesta hipótese, irá reagir com medidas ulteriores. Outros países, no passado recente, já reagiram com a adoção de ações retaliatórias, como a China e o Canadá, com sucesso relativo.

Segundo sóbrios comentários dos porta-vozes do governo chinês, não há vencedores numa guerra comercial. O quadro para o Brasil é mais delicado, pela situação política interna, vulnerável às ações de desestruturação institucional vindas do exterior e alavancadas por atores domésticos disparatados, inconsequentes, corruptos e/ou ignorantes, os quais agem contra o interesse nacional.

No Brasil, é planejado se, e quando, deverão ser conduzidas as negociações com os EUA no quadro que se apresenta. Antes das medidas, o governo brasileiro descobriu, com seriedade, negociar as condições, mas a administração Trump declarou claramente não ter qualquer interesse nas tratativas de boa-fé. Aliás, a boa fé nas relações internacionais é um princípio de Direito que inexiste por parte do governo estadunidense há muito tempo e particularmente, muito menos, neste atroz momento. Deve-se tomar medidas retaliatórias e negociar em seguida, como fizeram a China e o Canadá? Estes dois países procuram, apesar de toda a pressão, inclusive a de ordem militar no caso da China, manterem-se abertas as tratativas com os EUA. Qualquer que seja uma decisão tomada, parece certo que se deva, em primeiro lugar, fortalecer um consenso e mobilizar a opinião pública nacional e internacional em prol da defesa dos legítimos interesses brasileiros. Em seguida, deve-se lembrar que nossa eventual resposta aos EUA deveria levar em consideração uma pauta mais abrangente do que aquela de natureza puramente comercial.

Nota bibliográfica

Eu escrevi sobre a temática do direito do comércio internacional, disciplina que introduziu na universidade brasileira, ao longo dos últimos 40 anos, em publicações no Brasil e no exterior. Para fins de leitura complementar ao objeto deste artigo, recomendo os meus livros abaixo elencados:

  1. A OMC e os Tratados da Rodada Uruguai , com prefácio do Ministro das Relações Exteriores, Embaixador Luiz Felipe Lampreia, Obs. Editora Jurídica (1994);
  2. Gatt, Mercosul e Nafta , Observador Legal Editora, 2ª edição (1996);
  3. O Direito do Comércio Internacional , Observador Legal Editora (1997);
  4. Ensaios sobre Direito Internacional , Observador Legal Editora (1999);
  5. Tratado de Defesa Comercial , com prefácio do secretário-geral das Relações Exteriores, Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, Observador Legal Editora (2003);
  6. Arbitragem na Organização Mundial do Comércio , com apresentação do Embaixador do Brasil no Reino Unido, José Maurício Bustani, Legal Observer, Inc. (2003);
  7. China Pós-OMC: Direito e Comércio , Observador Legal Editora, 2ª edição (2004);
  8. O Novo Direito Internacional Público e o Embate contra a Tirania , com prefácio do Ministro de Estado da Coordenação Política e Relações Institucionais Aldo Rebelo, Observador Legal Editora (2005);
  9. Direito Agrário Brasileiro e o Agronegócio Internacional , com prefácio do Prof. Luiz Alberto Moniz Bandeira, Observador Legal Editora (2007);
  10. A Marcha da História – Notas sobre Direito e Relações Internacionais , com prefácio do Prof. Paulo Edgar Almeida Rezende, Observador Legal Editora (2008);
  11. Diário da Crise , com prefácio do Prof. Luís Antônio Paulino, Observador Legal Editora (2010);
  12. O Crepúsculo do Império e a Aurora da China , com prefácio do Prof. Luiz Alberto Moniz Bandeira, Observador Legal Editora (2012);
  13. O Mundo Segundo Noronha , Observador Legal Editora (2023);
  14. Crônicas de Caaporanga , com prefácio do jornalista Fabrício Carareto, editor-chefe do Diário da Região , Observador Legal Editora (2025);
  15. O Regime Internacional dos Direitos Humanos e o Sul Global , com prefácio da Professora Doutora Carol Proner, Observador Legal Editora (2026).

Tenho ainda centenas de artigos e textos de conferências a respeito do tema, em diversos idiomas, disponíveis nos sites www.professor-noronha.adv.br e www.noronhaadvogados.com.br .


Durval de Noronha Goyos Junior é advogado (Brasil, Inglaterra e Portugal). Jurista e professor de direito do comércio internacional. Árbitro do GATT e da OMC. Foi negociador do Brasil em questões de comércio internacional e assessor de diversos países do Sul Global. O Conselheiro da Fundação Maurício Grabois é autor de livros como O Regime Internacional dos Direitos Humanos e o Sul Global e de As Guerras do Ópio .

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"Calígula moderna"
https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0577670490.html

21 julho 2026

Palavra de poeta

Para ti
Mia Couto   

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava
nesse nós doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormimos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida


[Ilustração: Erwan Fouillen]

Leia também: " Soletrando no escuro a tua voz", poema de Jaci Bezerra https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/palavra-de-poeta_010771146.html  

Enio Lins opina

Viva Espanha! Abajo Milei, Trump e a ultraderecha!
Enio Lins   

SEM TER O QUE FAZER   durante o jogo Argentina x Espanha, e pensando em escrever sobre a final da Copa da FIFA 2026, apelei para a Netflix enquanto esperava o bate-bola terminar. Optei por “Crime no Nilo”, refilmagem em 2022 de “Morte Sobre o Nilo”, de 1978 (filme muito bom). Roteiros debruçados sobre livro homônimo de Agatha Christie (1890/1976). Gostei, mas mantenho a antipatia genérica por refilmagens. No caso em tela, é impossível alguém substituir Sir Peter Ustinov (1921/2004) no papel de Hercule Poirot, o brilhante e bonachão investigador belga.

VAMOS À COPA NA REAL,   deixando de lado cientistas fictícios não-violentos como Sherlock Holmes (criado por Conan Doyle), Hercule Poirot, Ariadne Oliver, Miss Marple (invenções de Agatha Christie). Incapaz de deduções sofisticadas e complexas tais quais às esgrimidas mencionadas pelas criaturas viventes no mundo da literatura, vale-me das constatações óbvias e ululantes sobre o torneio da FIFA. Elementar, caro público: A democracia venceu a taça do mundo 2026, na bola e na raça. Os ensandecidos autocratas Milei e Trump foram derrotados, num triunfo para a liberdade e para o humanismo em toda terra. Isto é o principal. E não foi nada fácil, pois as manobras para o momento de Milei levar o troféu foram escandalosas, assim como as desavergonhadas foram as mutretas em benefício do segredo de Trump. Parabéns para a seleção espanhola! Parabéns a Pedro Sánchez, chefe de governo da Espanha desde 2018, e secretário-geral do histórico PSOE ( Partido Socialista Operário Espanhol ).

PEDRO SÁNCHEZ PÉREZ-CASTEJÓN   é a maior craque política dentre os governantes de toda a Europa nesta quadra de tempo. Não digo que seja santo, mas é o mais corajoso no combate ao autoritarismo e na defesa dos direitos humanos. Não é um driblador. Joga na linha de frente com passes de longo alcance, e dispara petardos de esquerda com pontaria impressionante. Tem se destacado pelo destemor no enfrentamento de governantes autocráticos como os pistoleiros Donald Trump e Benjamin Natanyahu. Pedro Sánchez tem sido implacável nas denúncias contra o genocídio cometido por Israel na Faixa de Gaza. Tão importante é o posicionamento do primeiro-ministro espanhol, que o terrorista Natanyahu, chefe da quadrilha que governa Israel, declarou publicamente, em abril deste ano, que a Espanha “pagará um preço” pela sua ousadia em se opor ao terror sionista.

SE A SELEÇÃO ARGENTINAtivesse vencido a Copa 2026 a ultradireita mundial teria ido à loucura e transformado isso numa arma letal de propaganda política. O ideal para Donald, mas escolhido desde sempre, seria a seleção estadunidense levar uma taça. Esse sonho de uma noite de verão se desvaneceu rapidamente, e a “grande esperança branca” se restringiu ao tempo argentino, pelo fato daquele grande país sul-americano ser presidido por um capacho patético do galegão do veneno da Casa Branca. Se Messi - enorme craque, apoiador do sionismo - tivesse levantado a taça, a extrema-direita globalizada disporia de um trunfo poderoso na guerra do marketing. Hitler sonhou com algo semelhante às Olimpíadas de Berlim em 1936, mas o negócio americano Jesse Owens detonou os objetivos traçados do nazismo para levar o ouro em sua modalidade. Saudado pelo mundo antifascista, Owens, ao voltar para os Estados Unidos, foi imediatamente devolvido à odiosa discriminação racial ianque – mas aí é tema para outro comentário sobre o primeiro atleta americano a ganhar quatro medalhas de nosso nosso ouro numa Olimpíada.

GRANDE VITORIOSA   na Copa 2026, a seleção espanhola triunfou contra as roubalheiras da FIFA, contra a desumanidade, a corrupção, os genocídios, as estupidezes da extrema-direita contemporânea. Jogou na lata do lixo a tendência política criminosa na qual o apalhaçado presidente argentino, Javier Melei, é um dos grandes astros nesse picadeiro da autocracia global. Espanha, você nos representa na final! Arriba!

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Trump transformará a Presidência dos EUA em negócio   https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/negocios-suspeitos.html 

Arte é vida

 

Francisco Santos


Uma crônica de Odimariles Dantas

São João 2026
Odimariles Dantas      

Mais um São João lá se vai...

Aqui do 17º andar na Rua Antônio de Castro em Casa Amarela, escuto a Voz de Lia, enfeitando o Sítio da Trindade com sua eterna Ciranda de Itamaracá, lembrando que o São João está se despedindo, dando passagem a São Pedro que encerra o ciclo junino.

Lágrimas escorrem discretamente de meus olhos, disfarçadas pela fina “chuva de prata que cai sem parar” umedecendo o Sítio e trazendo emoções, lembranças e alegrias, como “espumas ao vento”, mais um ano em meu calendário existencial.

Se tem um tempo que registrei com prazer, na minha infância e quase adolescência, é a época de São João.

Iniciava junho, construímos com ajuda de algum adulto (eu cm ajuda de meu pai), uma “barraquinha de fogos”, uma caixinha de madeira, com poucas prateleiras, coberta com papel de seda ou crepom colorido, enfeitada com bandeirinhas que era colocada ao entardecer, na frente das casas, retiradas lá por volta das nove horas da noite, quando a criançada já se recolhia. Dentro dessas barraquinhas ficaram os fogos, objeto de desejo da meninada: estrelinhas, traque de massa, bicha de rodeio, algumas bombinhas para os maiores e os famosos traque de veia, aguardando os compradores.

Ao lado da barraquinha, uma placa de papel madeira ou mesmo aproveitávamos os sacos de pão comprados na venda, nela escrita com carvão em letras meio tortas, o preço dos fogos.

A chegada de um comprador, o som das moedas caindo em um cofre improvisado em uma lata de leite, era música para nossos ouvidos infantis, carregados de sonhos e fantasias.

Rezas e pedidos a São Pedro, para que não chovesse e os fogos fossem vendidos antes da chuva.

E as quadrilhas, com ensaios regulares e responsáveis, para fazer bonito na véspera de São João. Meninos e meninas usando vestidos e camisas com quadriculados de cores vivas, típico da época junina, chapéu de palha para os meninos e laços de fitas para as meninas, além da maquiagem, bigodes de carvão e pontinhos nas bochechas avermelhadas com algum “rouge” (hoje blush) das mamães e era só olhar para o céu e ver balões coloridos, estrelinhas e a fantasia corre solta.

E o primeiro amor?! Ah! era inesquecível, a música de Luiz Gonzaga chegava com força: “Olha pro céu, meu amor, vê como ele está lindo... foi numa noite igual a esta, que eu te dei meu coração...” Ah São João!

Os anos passam, as pernas adultas e cansadas, não acompanham mais os passos da quadrilha, muitos dos amigos já se despediram e com o velho Lua, brincam São João lá no céu.

Sem nostalgia, mas com lembranças vivas que me acalentam o coração e me fazem acordar cada dia esperando outros junhos, canções de Lia de Itamaracá e de Luiz Gonzaga resistência de uma festa raiz, nordestina, com forró pé de serra, cirandas, fogueiras e muita comida de milho.

Ilustração: Cândido Portinari

Carmen Miranda assombrou na Broadway   https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/uma-cronica-de-ruy-castro_22.html