19 abril 2026

Postei nas redes

Quem viu Santos 2 X 3 Fluminense, hoje, não pode desejar a convocação de Neymar para a seleção brasileira. 

Seleção brasileira: "Tempos vividos e perdidos" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/selecao-brasileira-para-onde.html 

Sistema bancário & tecnologia

Uberização bancária
A uberização dos serviços e a preservação da hierarquia: por que a modernização tecnológica altera a forma de acesso ao sistema, mas não a estrutura de poder do funding
FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*/A Terra é Redonda 

 

1.

A ideia de “uberização bancária” das fintechs refere-se a um arranjo institucional no qual muitas empresas financeiras digitais aparecem para o cliente como “o banco”, mas a infraestrutura financeira profunda – liquidação, funding, balanço e risco – continua concentrada nos grandes bancos. Algo parecido ocorreu no transporte urbano com plataformas digitais: a interface mudou, mas a infraestrutura subjacente permaneceu concentrada.

No sistema financeiro existem duas camadas diferentes. Uma visível (interface) por meio de aplicativo, experiência do usuário, pagamentos, transferências e serviços financeiros simples. Nesta atuam muitas fintechs, por exemplo, Nubank, Banco Inter e C6 Bank.

Na camada invisível (infraestrutura financeira) estão a liquidação interbancária, o acesso ao sistema de pagamentos, o funding de crédito, a gestão de risco e o capital regulatório. Essa camada continua altamente concentrada em grandes instituições como o BBICS (Banco do Brasil, Bradesco, Itaú, Caixa, Santander) conforme indicam os balanços bancários.

O papel da infraestrutura pública do Pix, criada pelo Banco Central do Brasil, foi reduzir muito as barreiras para entrar no mercado de pagamentos. Agora qualquer instituição pode oferecer transferências instantâneas, pagamentos digitais e contas eletrônicas. Isso facilitou a entrada de fintechs.

Mas o Pix não elimina duas necessidades fundamentais como a conta de liquidação no Banco Central e a gestão de liquidez e risco financeiro. Nem todas as fintechs possuem estrutura para isso. Muitas utilizam bancos liquidantes.

Mesmo oferecendo serviços ao cliente final, muitas fintechs dependem estruturalmente de bancos maiores para liquidação interbancária, custódia de recursos, funding de crédito e emissão de determinados instrumentos financeiros.

Uma fintech oferece uma interface digital, um grande banco oferta a infraestrutura financeira. A dependência daquela cria uma espécie de subcontratação bancária.

Quem controla o dinheiro captado e o crédito controla o sistema bancário. Pagamentos são importantes, mas o núcleo do sistema financeiro é o multiplicador empréstimos-depósitos-empréstimos. Para conceder crédito em larga escala é necessário capital regulatório elevado, captação estável de recursos e gestão de risco com base em grande banco de dados.

2.

Os grandes bancos ainda concentram essas capacidades. Assim, muitas fintechs acabam originando crédito ao distribuírem cartões de crédito, mas vendendo ou securitizando esse crédito para instituições maiores.

É possível fazer uma analogia com outras plataformas digitais porque a lógica lembra outros setores da economia digital. O setor transporte tem como interface apps e como infraestrutura motoristas e frota. O streaming tem como interface plataformas e como infraestrutura estúdios e conteúdo. O comércio eletrônico tem como interface o marketplace e como infraestrutura logística. No sistema financeiro, na camada de interface é ator a fintech, mas no balanço e liquidez o ator é o grande banco.

Esse arranjo gera um resultado paradoxal para a concorrência bancária. Mais competição na experiência do usuário, mas continuidade da concentração financeira estrutural. O cliente pode trocar facilmente de aplicativo, mas o funding do sistema, o crédito corporativo e a gestão de grandes patrimônios continuam concentrados.

O possível futuro do sistema financeiro, se essa dinâmica continuar, será evoluir para um modelo com três camadas: (i) infraestrutura pública com Pix, open finance, sistemas de liquidação; (ii) plataformas financeiras com fintechs e aplicativos capazes de interagirem com o usuário; (iii) bancos sistêmicos continuam sendo instituições com grandes balanços concentradoras do crédito e do funding.

A “uberização bancária” significa fintechs dominarem a interface digital com o cliente e grandes bancos continuam dominando o balanço financeiro e o crédito. Assim, a inovação tecnológica transforma a forma de acesso ao sistema, mas não necessariamente a estrutura de poder dentro dele.

No entanto, o Pix está transformando os bancos em “plataformas financeiras universais”, algo parecido com o modelo das big techs. Isso pode alterar profundamente a lógica de concorrência bancária nos próximos 15 anos.

Há uma mudança estrutural. Os bancos deixam de ser apenas intermediários de crédito e depósito e passam a funcionar como ecossistemas digitais integrados, semelhantes às plataformas das grandes empresas tecnológicas. Isso ocorre por três transformações interligadas.

Na primeira, a conta bancária vira uma “plataforma de serviços”. Antes do Pix, a conta corrente era usada basicamente para receber salário, pagar contas e transferir dinheiro. Com o Pix, essa conta se tornou o centro de praticamente todas as transações cotidianas, porque permite transferências instantâneas, pagamentos no comércio, pagamentos entre pessoas, cobranças automatizadas e integração com aplicativos.

3.

O fluxo de pagamentos da economia passa continuamente pela conta bancária. Quanto mais o cliente usa essa conta para tudo, mais o banco consegue integrar serviços adicionais.

Há integração crescente de serviços financeiros. Os grandes bancos brasileiros estão transformando seus aplicativos em super-apps financeiros. Nos apps do BBICS, o usuário já pode acessar, no mesmo ambiente digital, pagamentos Pix, crédito pessoal, financiamento, investimentos, seguros, previdência, câmbio e marketplace financeiro. Assim, o aplicativo no mobile banking (celular) deixa de ser apenas interface bancária e passa a ser plataforma de múltiplos serviços financeiros.

Dados financeiros são registrados em tempo real. Cada transação Pix gera informações sobre renda, consumo, fluxo de caixa e regularidade de pagamentos. Esses dados permitem aos bancos oferecer crédito personalizado, avaliar risco de forma mais precisa e criar ofertas automáticas.

Essa lógica é semelhante à utilizada por plataformas digitais como Amazon e Alibaba Group. Elas usam dados de comportamento para ampliar continuamente sua oferta de serviços.

O efeito de rede leva ao “aprisionamento” do usuário. Quando um cliente passa a usar um único aplicativo para pagar, receber, investir, tomar crédito e contratar seguros, o custo de mudar para outro banco aumenta. Esse fenômeno é conhecido como “efeito de plataforma”. Quanto mais serviços concentrados no mesmo ambiente, maior o incentivo para o usuário permanecer ali.

O papel institucional da autoridade monetária é chave. Essa transformação foi possibilitada por iniciativas regulatórias do Banco Central do Brasil, como Pix, open finance e novos tipos de instituições de pagamento.

Essas iniciativas aumentaram a competição na entrada do sistema. Porém, também permitiram os bancos reorganizarem seus serviços como plataformas digitais integradas.

Isso poderá mudar a concorrência bancária nos próximos 15 anos porque podem emergir três tipos de atores no sistema financeiro: (a) bancos-plataforma: instituições com grande base de clientes e múltiplos serviços integrados; (b) fintechs especializadas: empresas focadas em nichos específicos (pagamentos, crédito ou investimentos); (c) infraestrutura pública: sistemas como Pix e open finance capazes de conectarem todos os participantes.

Nesse cenário, a competição ocorre dentro das plataformas e não apenas entre bancos isolados.

Em síntese, o Pix não é apenas um sistema de pagamentos. Ele está transformando a conta bancária em uma plataforma digital central para organizar a vida financeira das pessoas. Assim como ocorreu com as plataformas tecnológicas na economia digital, a instituição controladora dessa interface tende a concentrar dados, relacionamento com o cliente e distribuição de serviços financeiros.

Por isso, o sistema bancário pode evoluir para um modelo de “plataformas financeiras universais”. Nele, poucos grandes aplicativos organizam grande parte das transações e serviços financeiros da economia.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]

Se comentar, assine.

As big techs e a teoria do Valor-Atenção https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/mais-valia-transmutada.html 

Postei nas redes

A guerra com o Irã esgotou os estoques norte-americanos de mísseis de cruzeiro de longo alcance e interceptadores e leva tempo para reconstruí-los. De quebra, aumenta a já significativa dependência de Washington das exportações chinesas de minerais críticos necessários para a produção de novas armas e munições. (Iam Bremmer, na Folha de S. Paulo) 

Vitória do Irã sobre a guerra neocolonialista de Trump tem alcance mundial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/editorial-do-vermelho_12.html


Estranha época, a nossa

Curar o quê?
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65      


“O ChatGPT quebra um galho danado, mas não serve de remédio”, leio em voz alta, de olho na tela do celular.

- Quem disse?, pergunta o amigo Epaminondas.

- Christian Dunker, respondo com ar de quem sabe das coisas. 

- Quem!?,  insiste o amigo meio que descrente.  

- É um especialista no assunto, respondo com um misto de convicção e dúvida.

Segue o diálogo aqui no café do shopping. 

Retorno ao texto e ficamos sabendo — o Epaminondas e eu — que se trata de renomado psicanalista, critico sobre o uso de ferramentas de inteligência artificial como conselheiros e terapeutas.

Obviamente, coisa desse tempo atribulado, curioso, cibernético e surpreendente em que vivemos. 

Robôs das mais diversas qualificações são chamados a cumprir funções outrora reservadas exclusivamente aos humanos.

(Feito Akihiko Kondo, um japonês de 41 anos que ficou conhecido no mundo inteiro ao se casar, em 2018, com um holograma 3D da cantora virtual Hatsune Miku.

Ele tocava numa tecla e de pronto a imagem aparecia diante dos seus olhos — provavelmente uma bela figura feminina — com quem conversava sem nenhum risco de atrito ou mal entendido.

Com quase cinco anos de relacionamento, Kondo caiu em depressão” e se viu “viúvo” quando a empresa Gatebox, responsável pela tecnologia, desativou o serviço de suporte ao holograma, impedindo-o de interagir com sua esposa virtual.

Não me interessei pelo desdobramento do caso, mas creio que o dito cujo terá recorrido à psicanálise, provavelmente via IA.) 

- Pois bem, doutor Christian Dunker, sobre quem estávamos conversando, será um dos palestrantes do São Paulo Innovation Week — comento como que mostrando uma falsa intimidade com o assunto. 

Mas o Epaminondas, sábio como sempre, me corta com a pergunta:

- Sabe quantos craques provavelmente convocados para a seleção brasileira que disputará a Copa do Mundo jogarão nesse fim de semana em partidas decisivas na Europa?

E passou a discorrer sobre reta final da Premier League, assumindo as rédeas de nossa conversa fútil e despretensiosa em torno de um bom capuccino.

Com a minha concordância, claro!

Se comentar, identifique-se.

Dose dupla? Vade retro! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/alem-do-possivel.html

Humor de resistência

 

Jota Camelo

"Arriscada aposta economicista" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/minha-opiniao_2.html


Futebol ofensivo

Bom senso, uma rara virtude
No futebol atual, um dos grandes prazeres é ver as melhores equipes jogando no ataque. Nenhum jogo é decidido por um único motivo, nem por um único acerto ou erro
Tostão/Folha de S. Paulo   
 

Barcelona, em Madri, ganhou por 2 a 1, mas foi o Atlético que se classificou para as semifinais da Liga dos Campeões porque venceu o primeiro jogo por 2 a 0. As duas partidas foram decididas nos detalhes. O Barcelona, como sempre, dominou os dois jogos e criou mais chances de gols, porém, como é habitual, sofreu gols por jogar com a defesa muito adiantada e não ter zagueiros de grande qualidade. Faltou o tal do equilíbrio, que reprime, mas com frequência é necessário.

O Atlético de Madrid, do jeito do técnico Simeone, de correr pouco risco, vai enfrentar o Arsenal, que eliminou o Sporting de Portugal. O time inglês passa por uma queda técnica. Diminuíram até os gols de bola parada, 30% de todos os gols marcados, um dos pontos fortes do time. PVC, que conhece todas as estatísticas e entende profundamente de futebol, disse que 32% dos gols do Palmeiras são feitos também desta maneira. É uma tendência moderna, bastante treinada por todas as equipes.

O Arsenal enfrenta neste domingo (19) o Manchester City pelo Campeonato Inglês. O Arsenal tem seis pontos de vantagem sobre o City, porém com um jogo a mais. Guardiola, após uma queda prolongada da equipe, reconstruiu o time, que está jogando muito bem.

Nenhum jogo é decidido por um único motivo, nem por um único acerto ou erro, embora muitos insistam em achar uma única explicação para as vitórias e derrotas. As opiniões mudam rapidamente.

PSG e Bayern, dois timaços, fazem a outra semifinal. Não há favorito. O PSG, atual campeão europeu, voltou a jogar muito bem após uma queda técnica. A defesa do time francês é mais protegida do que a do Bayern.

O time alemão, em um jogo de sete gols (4 a 3), como era esperado pela qualidade dos ataques, eliminou o Real Madrid. No futebol atual, um dos grandes prazeres é ver as melhores equipes jogando no ataque. Vinicius Junior atuou muito bem. Seu posicionamento pela esquerda, sem precisar voltar para marcar, ajuda Ancelotti na escalação da seleção.

O técnico possui duas alternativas. Uma, que usou contra a França e nas partidas anteriores, com Vini no centro do ataque, Martinelli pela esquerda (Raphinha ocuparia este lugar), Luís Henrique ou Estevão pela direita e Matheus Cunha de meia avançado pelo centro, próximo de Vinicius Junior.

Na outra formação, na boa atuação contra a Croácia, Vini atuou pela esquerda, mas sem recompor para marcar, João Pedro de centroavante, Luís Henrique pela direita e Matheus Cunha mais recuado, protegendo o lado esquerdo defensivo e formando um trio no meio-campo com Casemiro e Danilo. Matheus Cunha não é um craque, mas possui muita força física, velocidade e postura coletiva, capaz de marcar e chegar ao ataque.

Nos últimos anos, o Brasil começou a formar bons meio-campistas, capazes de atuar bem de uma intermediária a outra, como Bruno Guimarães, Paquetá, Danilo, Andreas Pereira. Matheus Cunha tem características de atacante, mas no Manchester United e na seleção se adaptou muito bem a um novo posicionamento. No futebol moderno, não há mais sentido dividir o meio-campo entre camisa 5, camisa 8 e camisa 10.

Uma das qualidades de Ancelotti é ter bom senso, uma rara virtude, para mudar detalhes antes e durante as partidas.

Se comentar, assine.

Leia também: A arte, a técnica e a objetividade no futebol https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/futebol-aparencia-e-essencia.html

Palavra de poeta

O Nosso Mundo

Florbela Espanca  

Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Poisando em ti o meu amor eterno
Como poisam as folhas sobre os lagos...

O teu olhar em mim, hoje, é mais terno...
E a Vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!

Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas hemos de bebê-la!

Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?...
O mundo, Amor?... As nossas bocas juntas!...

[Ilustração: Wellington Virgolino]

Escolhas e conflitos https://lucianosiqueira.blogspot.com/