19 agosto 2026

Boa notícia

Mulheres ocupam 57,4% dos empregos formais no 3º governo Lula
Dos 10,1 milhões de novos vínculos desde 2023, 5,8 milhões foram ocupados por mulheres; participação feminina subiu de 44,2% para 46,4%
Natália Padalko/Vermelho 
 

As mulheres ainda não são maioria no mercado de trabalho formal brasileiro, mas estão ocupando uma parcela cada vez maior das novas vagas. Dos 10,1 milhões de vínculos formais criados entre janeiro de 2023 e junho de 2026, durante o terceiro governo Lula, 5,8 milhões foram ocupados por mulheres, enquanto 4,3 milhões foram preenchidos por homens. O movimento reduziu a distância entre os dois grupos e alterou a composição do emprego formal no país.

Leia também: Governo Lula cria mais de 10 milhões de empregos formais desde 2023

Os dados da Rais (Relação Anual de Informações Sociais), divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), mostram que as mulheres representam hoje 46,4% dos 62,8 milhões de vínculos formais ativos no Brasil, com 29,2 milhões de postos. Os homens ainda concentram a maior parcela, 53,6%, com 33,7 milhões de vínculos.

Mulheres ganham espaço, mas homens ainda são maioria

A diferença, porém, diminuiu desde o início de 2023. Naquele momento, os homens ocupavam 55,7% dos postos formais, enquanto as mulheres respondiam por 44,2%. Em pouco mais de três anos, a participação feminina avançou 2,2 pontos percentuais, enquanto a masculina recuou 2,1 pontos.

O dado ganha dimensão quando se observa de onde veio essa mudança. Dos 10,1 milhões de novos vínculos acumulados no período, 57,4% foram ocupados por mulheres. Elas ficaram, portanto, com a maior parcela dos empregos que entraram no mercado formal desde janeiro de 2023. Entre os homens, foram 4,3 milhões de novos vínculos.

É uma alteração importante na composição do mercado, mas que ainda está longe de significar igualdade. Mesmo tendo ocupado mais novas vagas, as mulheres continuam em desvantagem no estoque total de empregos formais. São cerca de 4,5 milhões de vínculos a menos que os homens.

Mercado formal amplia registro da diversidade racial

A Rais também revela mudanças na composição racial dos trabalhadores registrados. Dos vínculos formais contabilizados, 27,3 milhões são de pessoas que se autodeclaram pardas e 26,8 milhões de pessoas brancas. Trabalhadores autodeclarados pretos somam 4,6 milhões, enquanto amarelos representam 600 mil vínculos e indígenas, 239 mil.

A Rais também apresenta um retrato atualizado da composição racial dos trabalhadores formais. Dos vínculos contabilizados, 27,3 milhões são de pessoas que se autodeclaram pardas e 26,8 milhões de pessoas brancas. Trabalhadores autodeclarados pretos somam 4,6 milhões, enquanto amarelos representam 600 mil vínculos e indígenas, 239 mil.

O perfil do trabalhador formal também mudou em relação à escolaridade. Atualmente, 54% dos vínculos, equivalentes a 33,7 milhões de pessoas, são de trabalhadores com ensino médio. Outros 15,2 milhões têm ensino superior ou pós-graduação. O rendimento médio dos empregos formais ficou em R$ 4.389,49.

A maior parte dos empregos está concentrada no setor de serviços, que reúne 38,2 milhões de vínculos. O comércio aparece em seguida, com 10,5 milhões, seguido pela indústria, com 9,1 milhões; construção, com 3 milhões; e agropecuária, com 1,8 milhão.

Os números mostram, assim, duas realidades que convivem no mercado de trabalho brasileiro. As mulheres ainda ocupam menos postos formais que os homens, mas passaram a responder pela maior parcela das novas vagas criadas nos últimos três anos e meio. A distância permanece, mas diminuiu. A mudança na distribuição dos novos empregos aponta para uma presença feminina cada vez maior no mercado formal.

Diretrizes do Programa Lula e a agenda trabalhista https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/nivaldo-santana-opina.html

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Compreensível o interesse eleitoral de Raquel Lyra em associar sua imagem à de Lula em alguma medida, mas com isso desmoronaria seu palanque, quase a metade de extrema direita.  

"Dois trunfos em favor de João Campos" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao.html 

Palavra de poeta

Possibilidades
Wisława Szymborska    

Possibilidades
Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoiévski.
Prefiro-me gostando das pessoas
do que amando a humanidade.
Prefiro ter agulha e linha à mão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não achar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrevê-los.
Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,
para celebrá-los todos os dias.
Prefiro os moralistas
que nada me prometem.
Prefiro a bondade astuta à confiante demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos conquistadores.
Prefiro guardar certa reserva.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas outras também não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
do que postos em fila para formar cifras.
Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro ponderar a própria possibilidade
do ser ter sua razão.

[Ilustração: Henri Daras]

Leia também "Amar", poema de Carlos Drummond de Andrade https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/palavra-de-poeta_04338501.html  

18 agosto 2026

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Não é empáfia, é consciência do seu papel na cena brasileira e da enorme diferenciação com candidatos da direita. Na campanha, Lula mantém nível elevado e postura de governante. 

Soberania nacional é o pilar do Programa de governo de Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/editorial-do-vermelho_01066033204.html 

Fotografia

 

Dusan Milosic  

Brasil: desafios do desenvolvimento

A reprimarização do Brasil e a possível virada
Nos anos 1980, um episódio da financeirização global abriu as portas para nosso retrocesso – mas o falta de um projeto de país a prolonga há quatro décadas. Surgem novas condições para revertê-la. Quais são elas e como aproveitá-las?
Marcio Pochmann/Outras Palavras 
 

A história econômica do Brasil no século XX pode ser lida como a tentativa de transformar o agrarismo primário-exportador em sociedade urbana, industrial e tecnologicamente autônoma. Entre os anos de 1930 e 1980, o país construiu uma das estruturas produtivas mais complexas do mundo periférico, apesar de desigualdades persistentes.

A indústria de transformação, a expansão das cidades, o emprego formal, a engenharia nacional, as empresas estatais estratégicas e a organização sindical formaram a base material de uma sociedade salarial em consolidação. O Brasil não era apenas exportador de café, minério ou produtos agrícolas, participando da divisão internacional do trabalho também como exportador de manufaturas ao mundo.

A inflexão histórica começou no final dos anos 1970. A elevação abrupta das taxas de juros nos Estados Unidos, sob a política de Paul Volcker, presidente do Banco Central, transformou a dívida externa brasileira em uma armadilha financeira. O país passou da lógica da transformação estrutural para a lógica da gestão de emergências para a sobrevivência macroeconômica. A prioridade deixou de ser o investimento na ampliação da complexidade produtiva, para assumir cada vez mais a geração de superávits comerciais externos para pagar juros e amortizações do endividamento. Os anos de 1980 não foram apenas uma década perdida em termos de crescimento econômico, mas o período histórico em que o Brasil perdeu a continuidade de seu projeto de complexificação produtiva. 

Naquele contexto, a política nacional de informática havia adquirido significado estratégico, pois expressava a tentativa de construir capacidade tecnológica própria em um setor que se tornaria central na economia do conhecimento. As pressões internacionais contra essa estratégia nacional revelaram que a disputa tecnológica não seria neutra. Países centrais defenderam a abertura quando já haviam consolidados suas vantagens competitivas ao passo que países periféricos como o Brasil enfrentavam enormes dificuldades quando tentam construir as suas, ademais dos obstáculos como os colocados pelos EUA nos anos de 1980.

A partir dos anos de 1990, a abertura comercial e financeira ocorreu sem uma política industrial de mesma intensidade. A valorização cambial recorrente, os juros elevados, a financeirização e a redução do investimento público enfraqueceram segmentos industriais intensivos em tecnologia e engenharia. O resultado terminou sendo uma desarticulação progressiva das cadeias produtivas nacionais com o aumento do conteúdo importado da produção e a perda de densidade da indústria de transformação.

O Brasil deixou de ampliar a sua presença como exportador de manufaturas e passou a depender crescentemente de produtos da natureza como a soja, milho, carne, minério de ferro, petróleo, celulose e outras commodities. O dinamismo externo passou a ser puxado por atividades baseadas em recursos naturais, muitas delas altamente eficientes, mas com menor capacidade de irradiar inovação tecnológica para o conjunto da economia. Consolidou-se, assim, uma estrutura produtiva mais especializada e menos complexa, com baixa produtividade agregada e empregos de menor remuneração.

Essa transformação alterou profundamente a posição do país na divisão internacional do trabalho. Enquanto economias asiáticas combinaram integração internacional com elevação do conteúdo tecnológico, o Brasil experimentou uma inserção externa mais subordinada, marcada pela exportação de bens primários e pela importação crescente de máquinas, equipamentos, componentes eletrônicos, semicondutores, softwares e tecnologias estratégicas. A dependência deixou de ser apenas comercial, tornando-se tecnológica, financeira e informacional.

A regressão não significa retorno ao passado agrário. O Brasil continua sendo uma economia urbana, com importante setor de serviços e ilhas de excelência industrial e científica. O ponto central é outro, pois relacionado à parte da capacidade de coordenar uma estrutura produtiva complexa, integrada e articulada. A indústria deixou de exercer o papel de eixo organizador do desenvolvimento nacional.

As consequências sociais foram profundas. A sociedade salarial, no sentido referido por Robert Castel em As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário, depende de empregos relativamente estáveis, proteção social e negociação coletiva. A grande fábrica urbana, que organizava identidades coletivas, carreiras e formas de representação política, perdeu centralidade. A substituição de empregos industriais por ocupações mais precárias, terceirizadas, informais ou de baixa produtividade enfraqueceu a base material da organização sindical e da representação laboral.

O trabalhador da era industrial concentrava-se em espaços comuns e compartilhava ritmos de produção. O trabalhador da era digital e da fragmentação produtiva frequentemente atua de forma dispersa, intermitente ou plataformizada. A passagem da máquina ao algoritmo não significou automaticamente emancipação tecnológica, em muitos casos, significou individualização do risco e dificuldade de organização coletiva. 

A verdadeira questão do século XXI supera a escolha entre a indústria e a natureza para se situar em torno da reconstrução da economia capaz de combinar recursos naturais abundantes com conhecimento, tecnologia e serviços avançados. Países líderes da transição energética, da bioeconomia e da economia digital não abandonaram suas vantagens naturais, pois as transformaram em plataformas de inovação.

O Brasil possui condições excepcionais para isso. Poucos países reúnem simultaneamente grande mercado interno, base científica diversificada, matriz energética relativamente limpa, biodiversidade, capacidade agroindustrial, sistema financeiro sofisticado e experiência industrial acumulada. A emergência climática, longe de representar apenas um risco, abre oportunidades em energias renováveis, hidrogênio verde, biocombustíveis avançados, química de base biológica, economia circular, monitoramento ambiental e infraestrutura resiliente.

Nesse contexto, a antiga ideia de complexidade produtiva precisa ser atualizada. No século XX, ela estava associada principalmente à grande indústria integrada, enquanto no século XXI, a complexidade avançou para a capacidade de articular manufatura avançada, serviços intensivos em conhecimento, inteligência artificial, dados, biotecnologia e sustentabilidade. A nova fronteira tecnológica tem sido menos vertical e mais conectada em redes.

Essa transformação também exige repensar a sociedade do trabalho. O enfraquecimento relativo do emprego industrial tradicional não significa necessariamente o fim da proteção social ou da representação coletiva. Significa que novas formas de trabalho como as digitais, criativas, científicas, tecnológicas, de cuidado e ambientais precisam ser incorporadas a um novo pacto de cidadania econômica. O desafio está em ampliar a qualificação, a proteção e a capacidade de organização em um mercado de trabalho mais heterogêneo.

O Brasil já demonstra sinais do curso dessa transição. O crescimento de setores ligados à tecnologia da informação, serviços empresariais, pesquisa aplicada, economia criativa, fintechs, saúde, educação e soluções ambientais revela que a economia brasileira não está apenas se simplificando, pois está se reorganizando. O risco existe sempre quando esses setores permanecem desconectados de uma estratégia nacional de desenvolvimento.

Por isso, o debate sobre desindustrialização deve avançar mais para o salto inteligente da industrialização. Não se trata de reproduzir o modelo dos anos 1970, mas o de ampliar a construção de capacidades em semicondutores, equipamentos para energia renovável, fármacos, defesa, agricultura de precisão, infraestrutura digital, computação em nuvem, inteligência artificial e bioindústria. O objetivo não está em fechar a economia, e sim aumentar sua capacidade de gerar tecnologia, produtividade e empregos qualificados.

A experiência histórica brasileira mostra que períodos de maior dinamismo ocorreram quando o país conseguiu articular Estado, empresas, ciência e sociedade em torno de um projeto de transformação produtiva. Essa lição continua atual. Em um mundo marcado pela disputa tecnológica, pela reorganização das cadeias globais e pela transição ecológica, o Brasil pode ocupar posição mais relevante do que ocupou nas últimas décadas.

O futuro brasileiro não precisa ser o de uma economia baseada apenas em produtos da natureza e mão de obra barata. A abundância de recursos naturais pode se tornar a base de uma nova economia do conhecimento tropical, capaz de combinar sustentabilidade, inovação e inclusão social. O país já demonstrou, em diferentes momentos de sua história, capacidade de construir instituições, ampliar mercados, formar competências e realizar transformações estruturais.

A grande oportunidade do nosso tempo é transformar a herança da industrialização do século XX e as vantagens naturais do século XXI em uma nova etapa de desenvolvimento. Não se trata de retornar ao passado e sim avançar para uma economia mais complexa, mais verde, mais digital e mais integrada ao conhecimento. O Brasil está diante da oportunidade inédita de reinventar o seu projeto nacional.

José Bertotti: Transformação ecológica conecta estratégias de desenvolvimento de Brasil e China https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/jose-bertotti-opina.html 

Humor de resistência

 

Aroeira

"Somos todos Lula em torno de um cafezinho" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/convite-vamos-nessa.html