02 abril 2026

Minha opinião

Arriscada aposta economicista* 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65     

Fala-se em inquietações no âmbito do governo Lula — externadas pelo próprio presidente — quanto à discrepância entre o volume de ações destinadas a suprir necessidades e reivindicações imediatas do povo e o insuficiente desempenho do futuro candidato à reeleição nas pesquisas eleitorais.

A julgar pelo que se houve e se lê, a questão está mal posta. 

Outro dia escrevi sobre isso no Portal Grabois https://grabois.org.br/2025/07/24/guerra-tarifas-oportunidade-esquerda-alem-economicismo-governo/, apontando a necessidade de se dar um passo além do "economicismo governamental". Tanto na narrativa do próprio Lula, como das correntes políticas que integram a frente ampla governista. 

Verificou-se certo progresso nessa matéria justamente com o advento do tarifaço desferido por Donald Trump, que colocou em primeiro plano (momentaneamente) a defesa da soberania nacional — elemento essencial e indissociável de qualquer programa progressista no Brasil. 

Na ocasião e durante algum tempo, o próprio presidente Lula liderou um discurso ofensivo e esclarecedor nessa matéria, indispensável à elevação do nível de consciência do povo e, por conseguinte, da possibilidade do cidadão comum discernir o joio e o trigo na percepção da dimensão e do êxito de políticas públicas sociais compensatórias. 

A narrativa meramente repetitiva acerca de programas como Bolsa Família, Pé de Meia, Minha casa, Minha vida" e outros já não sensibiliza tanto como nos dois primeiros governos Lula e no primeiro governo Dilma. 

Então, o imbróglio da comunicação não se resume à tecnologia publicitária nem aos esforços de superar quantitativamente insuficiências nas redes sociais e demais mídias digitais.

A corrente comunista tem um papel irrecusável nisso, tanto pela fala dos seus militantes presentes nas instituições governamentais, como nos movimentos sociais, na academia e na veiculação de notícias e opiniões nas diversas mídias. 

A seu tempo, quando Lenin criticava duramente (em "O que fazer", por exemplo) o economicismo predominante no movimento sindical na velha Rússia se referia também à atuação dos organismos partidários e da militância comunista e de esquerda. 

Ouso acrescentar o meu testemunho de quando ainda adolescente, mas dando os primeiros passos na militância no início dos anos sessenta, acompanhava a luta por reformas de base e a rejeição à dominação imperialista norte-americana que marcaram o governo João Goulart. O debate esclarecia, politizava.

Em outras palavras, o desafio está posto tanto ao governo, como aos partidos que o apoiam e a cada um de nós: a explicitação de quem são os verdadeiros adversários da nação e do povo e da indissociável relação entre as ações governamentais com a luta por um autêntico e atualizado projeto nacional de desenvolvimento, para além plataforma atual.

*Texto da minha semanal no portal 'Vermelho'

O mundo gira. Saiba mais  https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Humor de resistência

 

Nando Motta

Subserviência explícita

Sim, vira-latas 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65     

Na política, muitas vezes o gesto vale mais do que mil palavras. Sobretudo quando acontece sobre os holofotes da mídia e com peso político relevante. 

O senador Flávio Bolsonaro (PL), e é o seguidor do receituário neofascista do pai ex-presidente presidiário, prática gesto supostamente relevante em sua pré-campanha como possível candidato à presidência da República, justamente indo aos Estados Unidos em busca de apoio de Donald Trump e seus seguidores.

Prenúncio de que se o Brasil viesse a sofrer a desgraça da eleição do senador, retornaria de malas e cuia a posição de subserviência aos Estados Unidos. 

Exercício explícito do complexo de vira-latas! 

Em reunião da Conservative Political Action Conferente (CEPAC), em Dallas no Texas, explícito com todas as letras seu alinhamento a corrente reacionária que vê a essência da situação internacional traduzida na batalha entre conservadorismo e "globalismo".

Em seu pronunciamento, prometeu o alinhamento incondicional ao governo dos Estados Unidos na competição com a República Popular da China.

Assim, o Brasil voltaria a condição de pária na cena internacional, precisamente o oposto da presença relevante que hoje ostenta em razão da política externa altiva e propositiva encetada pelo governo Lula. 

Vade retro, vira-latas!

Leia também: Jamil Chhade: "Quando não confiamos mais em nossos olhos" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/deformacao-midiatica.html

Boa notícia

Brasil tira 700 mil crianças da fome grave em um ano
Dados do MDS mostram que queda histórica da insegurança alimentar grave reflete a retomada de políticas públicas como Bolsa Família, Pnae e Plano Brasil Sem Fome
Barbara Luz/Vermelho    

O Brasil registrou em 2024 o menor nível de insegurança alimentar grave entre crianças e adolescentes desde o início da série histórica do IBGE, em 2004. Segundo dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), a fome infantil recuou quase 30% em apenas um ano, passando de 4,8% para 3,6% entre crianças e adolescentes de 0 a 17 anos.

Na prática, cerca de 700 mil crianças e adolescentes saíram da fome grave: o número caiu de 2,5 milhões, em 2023, para 1,8 milhão, em 2024. O resultado acompanha uma melhora mais ampla nos indicadores de saúde alimentar e nutricional da infância. Entre 2022 e 2025, o acompanhamento nutricional na Atenção Primária à Saúde saltou de 6,2 milhões para 7,9 milhões de crianças menores de cinco anos, enquanto a magreza acentuada caiu de 2,8% para 1,8% e a obesidade infantil recuou de 6,4% para 5,7%.

De acordo com o MDS, o resultado está ligado à retomada e ampliação de políticas públicas voltadas à renda, à alimentação e ao cuidado com a infância, como o Bolsa Família — onde o Benefício Primeira Infância garante R$ 150 por mês a famílias com cerca de 9 milhões de crianças de zero a seis anos. Há ainda o adicional de R$ 50 mensais para crianças e adolescentes de 7 a 18 anos, alcançando cerca de 15 milhões de beneficiários nessa faixa etária. O conjunto dessas ações integra o Plano Brasil Sem Fome.

Secretária extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do MDS, Valéria Burity resume o impacto da combinação dessas políticas: “Os dados mostram que garantir renda, alimentação e acompanhamento de saúde faz diferença concreta na vida das crianças”. Segundo ela, quando a família consegue colocar comida na mesa e a criança é acompanhada pelos serviços de saúde e pela escola, “melhora o estado nutricional, diminui a fome e contribui para o desenvolvimento”.

O avanço, porém, não elimina as desigualdades. Dados do módulo de Segurança Alimentar da PNAD Contínua, do IBGE, mostram que a insegurança alimentar segue mais presente no Norte (37,7%) e no Nordeste (34,8%), e pesa mais sobre lares chefiados por mulheres e por pessoas pardas e pretas. A pesquisa também indica maior vulnerabilidade entre famílias de baixa renda e em domicílios com crianças e adolescentes.

Outro dado que reforça o papel do Estado é a alimentação escolar: em 2026, o Pnae teve reajuste médio de 14% e hoje atende 38 milhões de estudantes, reafirmando que alimentação adequada é direito — e política pública.

Desigualdades regionais no tempo presente https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/meu-artigo-no-portal-grabois-3.html

Palavra de poeta

Falar, falar
Alberto da Cunha Melo     

Se conviver é conversar,
esse falatório sem pausa,
onde o silêncio é mais temido
que palavrão dentro de casa,

faz da vida inteira um entulho
de vozes de bar, de barulho;

neste metralhado lugar
tão atulhado de palavras
que não se pode caminhar,

onde do corpo só a paz
do amor calado satisfaz.

[Ilustração: F. Abderrahim]

Leia também "Talvez", poema de Pablo Neruda https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_10.html 

Seleção brasileira: e agora?

As dúvidas de Ancelotti
Uma das suas virtudes é a capacidade de tornar simples o que é complexo. Há várias formações táticas para ganhar um Mundial
Tostão/Folha de S. Paulo    

A seleção alternou bons e maus momentos na vitória contra a Croácia por 3 x 1. O segundo gol, de pênalti, teve a colaboração do árbitro. A novidade tática foi a presença de Vinicius Junior pela esquerda, mas sem voltar para marcar. Quem teve essa função foi Matheus Cunha, que costuma jogar dessa maneira no Manchester United. 

O primeiro gol saiu de um passe longo e preciso de Matheus Cunha para Vini, que driblou o marcador e tocou para Danilo Santos marcar. Endrick, que entrou no meio do segundo tempo, participou de dois gols. Luiz Henrique e Matheus Cunha atuaram com regularidade e foram os destaques do time brasileiro.

Quero ver a seleção novamente campeã do mundo. Em 1958, com 11 anos, escutei pelo rádio em um bar do bairro onde morava, junto com meus irmãos, a conquista do Brasil. Em 1962, vibrei com o título, escutando em casa pelo rádio. Em 1970, estava emocionado dentro do gramado. Depois que o Brasil fez 4 x 1 contra a Itália, joguei todo o restante da partida com lágrimas nos olhos.

Em 1994, vi pela televisão a final no centro de imprensa da Copa, em Dallas, nos EUA. Era médico e fui convidado para ir ao Mundial pela TV Bandeirantes. Em 2002, dentro do estádio, no Japão, trabalhando como colunista pela Folha, vi de perto o Brasil conquistar o penta. Tive vontade de entrar no campo para comemorar, mas precisava, rapidamente, escrever a minha coluna sobre o jogo e enviá-la para a redação no Brasil.

Depois dos dois amistosos, Ancelotti, os torcedores e nós, analistas, continuamos com algumas dúvidas sobre a seleção brasileira. O ideal, repito, seria o time, em uma mesma partida, de acordo com o momento, alternar o domínio da bola no meio-campo e a troca de passes antes de chegar ao gol, com a transição rápida da bola da defesa para o ataque para aproveitar a velocidade, a habilidade e os talentos dos pontas e atacantes. Seria querer demais? Não temos um meio-campo com tanta qualidade.

Será que, contra as mais fortes seleções, a melhor solução seria o Brasil reconhecer suas limitações, marcar mais atrás, formar um time compacto e contra-atacar para aproveitar a velocidade dos atacantes e a marcação mais alta dos adversários? Assim jogava a seleção campeã do mundo em 1994, com dois atacantes velozes e talentosos (Romário e Bebeto). Na época, o jovem Ancelotti era auxiliar do treinador da equipe italiana.

Há várias formações táticas para ganhar um Mundial.

Em 2002, o Brasil atuou com três zagueiros, dois alas, um volante (Gilberto Silva), um meio-campista que atuava de uma intermediaria a outra (Kleberson) e um trio de atacantes (Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo).

Em 1970, o time jogou com quatro defensores, um trio no meio-campo (Clodoaldo, Gerson e Rivellino) e um trio no ataque (Pelé, Jairzinho e Tostão).

A mesma estrutura tática teve o Brasil nas Copas de 1958 e 1962, com Zagallo formando um trio no meio-campo ao lado de Zito e Didi.

Outras dúvidas poderão surgir até o Mundial ou durante ele. As dúvidas enriquecem o trabalho de uma equipe. Uma das virtudes de Ancelotti na sua carreira vitoriosa tem sido saber conviver com as dúvidas e ter a capacidade de tornar simples o que é complexo.

Seleção brasileira: "Tempos vividos e perdidos" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/selecao-brasileira-para-onde.html 

Postei nas redes

E se Carlo Ancelotti não for essa Brastemp que se supõe à frente da seleção brasileira? 

Terceira via carece de chão https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_19.html