11 julho 2026

Palavra de poeta

Perspectiva

Helena Kolody     

Olha pela janela azul do meu olhar
Sereno e transparente, onde se esconde alma
A misteriosa esfinge eslava que é minh’alma.
Mergulha os olhos teus no mundo em perspectiva
Que se adivinha atrás de uma pupila esquiva.

Verás, por certo, desdobrar-se alma adentro.
Na paisagem agreste, a estepe soberana.

E para que não pise a estepe imaculada
O duro sapatão de algum mugique alvar,
Eu ando sempre alerta e trago bem guardada

A paisagem de neve oculta em meu olhar.

[Iustração: Andrew Atroshenko]

Leia também: "A parede e a flor", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/palavra-de-poeta_01116453344.html 

Fotografia

 

Shavit Vos

Vozes da juventude

Documento das juventudes será “bússola para 2026”, diz Bruna Brelaz
Seminário reuniu em Brasília jovens de sete partidos do campo progressista para formular propostas de governo e construir uma plataforma voltada às eleições
Lucas Toth/Vermelho   

As juventudes de sete partidos do campo progressista deram nesta semana um passo na construção de uma plataforma comum para o debate político dos próximos anos. 

Reunidos em Brasília nos dias 7 e 8 de julho, durante o Seminário Nacional “O Brasil Pelas Juventudes”, dirigentes de PCdoB, PT, PSB, PDT, PSOL, Rede e PV iniciaram a elaboração de um documento que pretende influenciar a formulação de propostas para a juventude brasileira e dialogar com a disputa política de 2026.

Promovido pelo Fórum das Juventudes Progressistas, criado neste ano pelas organizações da juventude, o encontro reuniu dirigentes nacionais e estaduais, fundações partidárias e entidades parceiras. 

Vice-presidenta da União da Juventude Socialista (UJS) e diretora de Relações Internacionais da entidade, Bruna Brelaz afirmou ao Portal Vermelho que os debates buscam transformar reivindicações históricas da juventude em propostas concretas de políticas públicas.

“O trabalho dos grupos foi fundamental para transformar nossas demandas em políticas públicas estruturantes. Debatemos desde a necessidade de cidades sustentáveis até uma nova economia que garanta trabalho digno. O ponto central é que a juventude quer ser protagonista na construção de um projeto de país que supere a crise do capitalismo e ofereça horizontes reais para nossa geração”, declarou. 

Segundo Bruna, o documento produzido pelo fórum terá papel estratégico na organização das forças progressistas nos próximos meses.

“Este documento é a nossa bússola para 2026. Nosso próximo passo é levar essa plataforma para a base, nos territórios, garantindo que o programa de governo nasça e seja fortalecido pelas mãos de quem constrói o Brasil todos os dias, transformando o sonho em projeto concreto”, afirmou.

Na abertura do seminário, Bruna representou as juventudes do PCdoB e defendeu a necessidade de um novo ciclo de desenvolvimento soberano para o país. 

Em sua intervenção, ela destacou conquistas obtidas durante o governo Lula, como o programa Pé-de-Meia, a recomposição do orçamento das universidades, as políticas de permanência estudantil, a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e a aprovação do fim da escala 6×1 na Câmara dos Deputados.

A dirigente também avaliou que a construção de uma plataforma comum para a juventude é parte da disputa de projetos para o Brasil no próximo período.

“Queremos um programa que dialogue diretamente com as angústias e sonhos da juventude brasileira, criando uma alternativa real de futuro. É um compromisso para não permitir que a extrema direita sequestre a frustração da nossa geração, mostrando que a mudança real se faz com mobilização e um projeto nacional soberano”, disse.

Para ela, os avanços conquistados desde 2023 demonstram a importância da organização popular e apontam para desafios ainda maiores nos próximos anos.

“O governo Lula 3 nos provou que a luta muda o rumo das coisas. Conquistamos direitos vitais que estavam sob ataque, mas agora queremos ir além. Para um próximo ciclo, nossa ambição é um projeto de desenvolvimento soberano e justo, que garanta não apenas emprego, mas a dignidade de uma juventude que possa estudar, morar e viver com liberdade, sem medo da violência”, afirma.

O Fórum das Juventudes Progressistas pretende agora consolidar o documento produzido em Brasília e ampliar o debate nos estados e municípios. 

A expectativa das organizações é que as propostas construídas coletivamente sirvam de referência para a formulação de políticas públicas voltadas à juventude e para o debate sobre os rumos do país nos próximos anos.

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Pesquisa mostra Lula à frente em todos os cenários para 2026 https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/bons-sinais.html  

Humor de resistência

 

Enio

"Somos todos Lula em torno de um cafezinho" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/convite-vamos-nessa.html  

Algoritmos alienantes

Da máquina do mundo à máquina de tudo
A conversão do intelecto humano em algoritmo transforma o patrimônio criativo da espécie em insumo para uma engrenagem extrativista global
Jaldes Meneses*/A Terra é Redonda    

1.

Não há dúvida sobre o potencial disruptivo da inteligência artificial na substituição do trabalho, com o consequente desaparecimento de uma imensa quantidade de empregos (afinal, estamos no capitalismo), bem como na sucção das habilidades criativas – fenômeno que se assemelha à categoria marxiana do “intelecto geral”, prevista no célebre “Fragmento sobre as Máquinas” dos Grundrisse (Marx, p. 589).

Porém, o escopo da inteligência artificial é exponencialmente mais largo que o previsto por Karl Marx. É quase cosmológico, quando se trata de fazer a mímesis do trabalho. É poiesis e labor, recordando a distinção do trabalho no mundo antigo, segundo a distinção discernida por Hannah Arendt em A condição humana: a “máquina de tudo” da inteligência artificial succiona tanto o rotineiro quanto o criativo, as objetivações ontológicas do trabalho e de todas as demais atividades criativas – que György Lukács, em sua Ontologia do ser social, chamava de “complexos sociais” e que não devem ser tratados como meras derivações do trabalho, pois possuem legalidade própria e irredutível.

Assim, a mímesis da inteligência artificial ultrapassa a velha fábrica, converte em (nano)décimos de segundos o tempo das atividades que antes exigiam lento processamento humano e, principalmente, captura todo rastro deixado pela nossa espécie – na arte pictórica, no desenho industrial, nos estilos da poesia e da música, em tudo o que houver registro ou vestígio.

Gilberto Gil, em canção profética, já versava sobre a atividade dos samples dos DJs e o futuro da música como “máquina de ritmo” – “máquina de ritmo/tão prática, tão fácil de ligar”. Vou além: a inteligência artificial, com seu imenso poder extrativista de dados, é a nossa “máquina de tudo”, aproximando-se, no plano algorítmico, daquilo que Marx designava, no âmbito do trabalho do ser social, como a atividade de sucção do saber-fazer operário das manufaturas simples.

Mas essa “máquina de tudo” já havia sido antevista pela poesia. Carlos Drummond de Andrade, no poema A máquina do mundo (1951), descreve um viajante que, perdido e cansado, encontra subitamente uma máquina perfeita, que contém todos os ciclos da natureza, todas as formas, todas as respostas – uma totalidade pronta, deslumbrante, autossuficiente. O viajante, porém, recusa-a. Não porque a máquina fosse enganosa ou falsa, mas porque era completa demais: nela, escreve Carlos Drummond, as coisas tornavam-se “apenas coisas”, despidas do tempo, do acaso, do espanto que só o caminho inacabado pode oferecer. 

2.

Hoje, a inteligência artificial generativa seria, na ideologia celebratória dos donos desses meios de produção, essa máquina realizada: contém todo rastro humano, todo estilo, toda frase já dita. Como a máquina drummondiana, ela se oferece como totalidade pronta – e, ao fazê-lo, torna desnecessário o gesto, a demora, o erro, a descoberta tardia.

Uma máquina de inteligência artificial pode tornar-se filósofa existencialista, desde que dados os comandos certos. Mas não passará pela dor e pela delícia de ter chegado aleatoriamente ao existencialismo – porque lhe falta o corpo, a finitude, a jornada. O viajante de Carlos Drummond, ao recusar a máquina, escolhe exatamente isso: o mundo por fazer em vez do mundo já feito. Perder o cosmos, no contexto da inteligência artificial extrativista, talvez signifique exatamente isto: aceitar a totalidade pronta em vez de seguir a pé, no mundo imperfeito e inacabado – ainda que feio, ainda que por fazer –, em busca do que ainda não tem nome.

Existe, pois, o umbral da “condição humana”, lembrando o título do romance de André Malraux (1998), isto é, sua natureza social, forjada na inteligência orgânica, na consciência e na autonomia desses atributos no próprio processo de socialização. Parafraseando Miguel Nicolelis (2020), a inteligência artificial não é inteligência porque é “artificial” – e, poderíamos aduzir, toda inteligência, sendo humana, não se reduz a uma “máquina de tudo”.

Como Noam Chomsky (2015) nos ensina, a nossa “gramática gerativa”, oriunda da extrema particularidade da natureza humana, é uma espécie de “dádiva” da evolução, irredutível a qualquer circuito ou algoritmo. A metáfora que compara o homem à ideia de um animal-máquina vem do nosso ínclito René Descartes, na Quinta Parte do Discurso do Método, e foi estendida como Homem-máquina por Julien Offray de La Mettrie, na aurora da modernidade.

Contudo, a comparação inversa, que antevê a morte do Homo sapiens e reduz o tempo histórico humano à teleologia de mero processador de dados para a nova anti-humanidade do Homo Deus (2016) – título do best-seller propagandista de Yuval Noah Harari) – uma eternidade que será eterna apenas até quando durar – parece ser um dos mais altissonantes marcadores do fim – desta feita, cibernético – da história.

*Jaldes Meneses é professor titular do Departamento de História da UFPB.

Referências

ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1991.

CHOMSKY, Noam. Estruturas sintáticas. São Paulo: Vozes, 2015.

DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Abril Cultural, 1973. DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. A máquina do mundo. In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002, p. 301. [Originalmente publicado em Claro Enigma, 1951]

GIL, Gilberto. Máquina de ritmo. In: Quanta. [Canção]. 1997.

HARARI, Yuval Noah. Homo Deus – uma breve história do amanhã. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

HUI, Yuk. Tecnodiversidade. São Paulo: Ubu, 2020.

LA METTRIE, Julien Offray de. L’Homme-Machine. Paris: Editora Garnier, 2023.

LUKÁCS, György. Para uma ontologia do ser social. São Paulo: Boitempo, 2018.

MALRAUX, André. A condição humana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.

MARX, Karl. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858. São Paulo: Boitempo, 2011.

NICOLELIS, Miguel“IA não é nem inteligente nem artificial, afirma Miguel Nicolelis”. IHU Unisinos, 2020. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/663488-ia-nao-e-nem-inteligente-nem-artificial-afirma-miguel-nicolelis.

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Leia também: O pensamento crítico na era dos algoritmos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/bolha-algoritmica.html

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Palavra minha

Qual pecado?
Luciano Siqueira  

Viveu 93 anos sem jamais ter feito mal a ninguém. 

Se alguma vez pisou numa formiga foi absolutamente inconsciente. Não viu. 

Assim mesmo costumava se confessar católica praticante que era. 

— Mamãe, vai dizer o quê ao padre se a senhora não faz mal a ninguém? 

— Eu tive uma raiva, meu filho. Acho que é pecado. 

Assim era Dona Oneide, viúva, nos criou aos quatro filhos com muita determinação, paciência e bom senso. 

Uma santa.

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