17 outubro 2026

Sylvio: falastrão

Em sua entrevista na televisão,  Flávio Bolsonaro, além de não  responder a várias perguntas, abusou da paciência e da inteligência dos brasileiros ao afirmar que em quatro anos dará ao SUS o padrão do Einstein e considerar o filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro, financiado por Vorcaro, uma obra prima.

Sylvio Belém   

Mergulhado em lama fétida https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/denuncia-grave.html  

Uma crônica de Urariano Mota

O amor nestes dias de luta
Mesmo diante de ataques fascistas, incêndios em universidades, ameaças armadas e prisões arbitrárias de estudantes, a população resiste e não recua.
Urariano Mota/Vermelho      

Nestas horas de movimentos pela reeleição de Lula, tenho notado um fenômeno que antes jazia adormecido. Nestes dias, nas bravas tomadas de ruas e praças do Brasil, em ocupações legítimas de afirmação política contra a barbárie, a primeira coisa a notar é a voz da indignação. A raiva santa, que faz manifestantes apontarem o dedo médio contra cartazes em janela de prédio onde se lê “Fora Lula”. Tem sido assim. Nas caminhadas de massa, os dedos se levantam para a janela: “Aqui pra você!”.  O dedo em riste é como uma prece, uma invocação das melhores forças de combate no front.

Ainda que os fascistas respondam com o terror, com a destruição pelo fogo de prédios universitários, pelas armas de fogo apontadas contra os democratas, e por prisões arbitrárias de jovens estudantes em passeata pacífica, ainda assim as pessoas não recuam. Isso quer dizer, se me permitem escrever mais claro: a indignação supera o medo do terror. Aliás, para a gente com mais força indignada, nem existe medo. Se soltarem uma bomba, os sobreviventes pularão para cima dos terroristas. Pois somos muitos, vastos e  fortes. Como na canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil, imortalizada por Gal Costa:

“Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso
Atenção para o refrão

É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte
É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte”

Nestas linhas, observo agora o que gera o fenômeno: se não houvesse a derrota de Lula no primeiro turno, e se não houvesse a ameaça da volta das trevas sobre o Brasil, não assistiríamos ao renascer da consciência. A nossa melhor alma, o que vale dizer, o nosso melhor ânimo estava preguiçoso e dormente. Era como se a conquista fosse permanente. Como se fossem pessoas ligadas, mas sem paixão.   

Então avanço para o que vejo e vi mais perto, fora das passeatas nas ruas. Olhem que flagrante belo, registrado por Francêsca Calado em Olinda: o carinho do dono do Bar do Peneira por Luciana Santos, ex-prefeita de Olinda, hoje Ministra da Ciência e Tecnologia do Brasil.  Entendam e percebam que este afeto não é pelo cargo da ministra. É legítimo, desinteressado como está no rosto e na memória de Peneira desde os primeiros tempos, quando um insuportável pudor não permitia a sua manifestação.

Então chego ao fenômeno mais eloquente do amor, que se expressa com uma declaração jamais ouvida por mim, antes destes dias.

– Ele foi o primeiro homem da minha vida.

Assim fala uma militante socialista. Na mesa, na Avenida Rio Branco, no Recife, a gente ouve, pisca os olhos e faz de conta que não ouviu. Devíamos estar com uma cara de idiota, porque a militante vai mais longe:

– Ele foi o meu primeiro amor.

Ah, será que ela fala de Primeiro Amor, a linda novela  de Turguêniev? Não, ela fala de outra beleza, um sentimento vivido por um camarada hoje falecido. Então, na tarde do domingo, enquanto as vozes e palavras de ordem crescem e cantam na avenida Rio Branco, nós fazemos a cara mais idiota deste mundo. Isto é, não queremos mostrar emoção, não queremos chorar diante da afirmação da senhora que renasce em seu generoso peito no movimento a favor de Lula.

– Ele foi o meu primeiro amor.

Por que é que a gente não possui a dignidade de levantar um brinde para a grandeza de tamanho sentimento? O autor destas linhas, que dava o dedo para os fascistas, não tem a dignidade de gritar:

– Viva o amor! Viva o renascimento do coração!

Ficamos quietos a pensar. À distância, consideramos que não importa que o camarada não tenha sido um homem que respeitasse a pessoa diante de nós no bar. Não importa. Acaso somos os juízes do coração? Acaso estamos imunes de cometer uma falta semelhante? Então, à distância, nos inclinamos pela reflexão sobre a digna mulher: ela não vê, ou não quer ver o que o seu companheiro lhe fez. Há um ditado popular no Brasil que fala “o amor é cego”. Mas esse ditado, em sua simplificação, é que é a sua acusação. A mulher, a amante, não quer revolver, escarafunchar o que se mistura ao sentimento. Acaso ela não sabe, acaso ela não viu que o companheiro partiu para outras? Viu, mas guardou com ela a  uma “boa amizade”? Ela sabe e percebe. Mas tem o coração mais sábio na sua memória. Ela guarda os bons momentos em que estiveram juntos, ela guarda um valor mais alto que o sexo na cama. Ela guarda um prazer maior dessa relação:

– Com ele aprendi a gostar da literatura.

Então nos levantamos da mesa mais fortes. Aquilo que não te disse ali, te envio aqui, amiga: o teu amor te fez grande. O que você conquistou, conquistado está: o gosto despertado pela grande literatura. Quanta generosidade: a tua presença nos momentos mais aflitos do camarada, até o fim. Em vez da mágoa, um doce e querido afeto.  

E saímos caminhando pelo Recife Antigo a sorrir no íntimo, felizes. Como é que pudemos passar antes, sem ter a consciência do amor que volta na luta?

[Ilustração: imagem produzida por IA]

Duas coisas da campanha de agora https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0613695841.html 

Mãos sujas

Flávio Bolsonaro pagou R$ 600 mil a empresa que ofereceu sistema de IA para manipulação eleitoral
Elytron apresentou ferramentas para disseminar desinformação e desacreditar adversários; campanha nega contratação ilegal
Jornal GGN     

O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, pagou R$ 600 mil à Elytron, empresa de cibersegurança que ofereceu nos Estados Unidos um sistema de inteligência artificial (IA) voltado a operações clandestinas de influência política e manipulação eleitoral.

A informação foi publicada nesta sexta-feira (16) pelo Intercept Brasil, com base em documentos obtidos pela reportagem.

Segundo a investigação, a tecnologia apresentada pela empresa permitiria mapear eleitores, segmentar públicos e executar ações como disseminação de rumores e desinformação, criação de perfis falsos nas redes sociais e campanhas para desacreditar adversários políticos.

A apresentação comercial também descrevia o uso de imagens, vídeos e conteúdos produzidos com inteligência artificial, incluindo deepfakes.

O Intercept teve acesso aos documentos por meio de Vincent Edward Reed, empresário e tecnologista norte-americano que atuou como consultor da Elytron entre 2024 e 2025. Ele afirmou ter rompido com a empresa após conhecer o funcionamento do sistema e considerar que a ferramenta poderia ser usada para manipular eleitores.

A reportagem não encontrou evidências de que o sistema descrito tenha sido utilizado pela campanha de Flávio Bolsonaro ou pelo PL nas eleições de 2026. Os pagamentos documentados comprovam a relação financeira com a empresa, mas não demonstram, por si só, a contratação ou execução de operações clandestinas de manipulação eleitoral.

De acordo com os registros do DivulgaCand, sistema da Justiça Eleitoral, a campanha de Flávio declarou R$ 600 mil em pagamentos à Elytron. O partido também registrou uma despesa de R$ 131,9 mil com a companhia.

Documentos descrevem operações de influência

A apresentação comercial da Elytron, segundo o Intercept, descreve uma estrutura de operações que vai além do monitoramento de redes sociais e da análise de dados, atividades comuns em campanhas políticas e estratégias de comunicação.

O material menciona a coleta e o cruzamento de informações sociais, políticas e econômicas para identificar grupos de eleitores e direcionar mensagens. Entre as possibilidades descritas estão a criação de contas falsas, a disseminação coordenada de rumores, a infiltração em redes de opositores e o uso de técnicas de guerra psicológica para afetar a percepção pública sobre adversários.

O sistema também permitiria distribuir conteúdos segmentados por características demográficas, localização geográfica e engajamento político. A proposta seria influenciar opiniões em grupos específicos e ampliar a circulação de determinadas narrativas.

Em entrevista ao Intercept, Reed afirmou que a ferramenta foi apresentada como uma solução de análise de dados, mas que, ao examinar o sistema e seus recursos, identificou possibilidades de manipulação de eleitores. Ele disse ter denunciado a operação ao FBI e ao Comitê de Supervisão da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, sem que as apurações avançassem.

A pesquisadora Beatriz Farrugia, especialista em desinformação ouvida pela reportagem, avaliou que os documentos descrevem uma operação de influência, com planejamento e execução coordenada para alterar percepções e comportamentos políticos.

O uso de contas falsas, desinformação e outras práticas de comportamento inautêntico pode violar regras eleitorais e políticas das plataformas digitais. A existência de uma apresentação comercial com essas propostas, porém, não comprova que todas as funcionalidades tenham sido efetivamente implementadas ou utilizadas em uma campanha específica.

Procurada pelo Intercept, a campanha de Flávio Bolsonaro negou contratar serviços que violem a legislação eleitoral. A assessoria afirmou que a contratação teve como objetivo a segurança da informação e a proteção dos sistemas de comunicação contra ataques cibernéticos, e classificou como politicamente motivada a associação entre o contrato e práticas de manipulação eleitoral.

Os registros financeiros citados pela reportagem mostram que os pagamentos foram declarados como serviços de tecnologia da informação. As notas fiscais mencionam atividades como apoio forense, investigação de phishing, testes de segurança e monitoramento de infraestrutura.

A prestação de contas parcial entregue à Justiça Eleitoral no fim de setembro indicava uma despesa de R$ 1 milhão com a Elytron, enquanto os registros consultados pela reportagem totalizavam R$ 600 mil em pagamentos, com uma das notas fiscais de R$ 500 mil cancelada. O partido PL também declarou o pagamento de R$ 131,9 mil à empresa.

A Elytron não respondeu aos questionamentos até a publicação da reportagem. O Intercept informou que procurou também João Brasio, executivo da companhia no Brasil, e manteve aberto o espaço para manifestação.

Duas coisas da campanha de agora https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0613695841.html 

Arte é vida

 

Philip Guston

Ganhos do povo sob bombardeio midiático https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_01555616586.html 

Bom sinal

Mais oportunidades de trabalho

Levantamento do FGV Ibre (divulgado pelo Valor Econômico), revela que o contingente de pessoas sem emprego por dois anos e mais caiu de 3,8 milhões em 2021 para cerca de 1 milhão no segundo trimestre de 2026.

Tudo a ver com maior dinamismo da economia e fatores agregados, como a expansão do trabalho por conta própria e o crescimento de ocupações intermediadas por plataformas digitais.

O desafio agora é consolidar a recuperação com postos de trabalho de maior qualidade e estabilidade, elemento devidamente considerado no programa do governo Lula 4. (LS)

Como Lula virou o jogo e garantiu a redução da jornada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/conquista-historica_0282677663.htm 

Deplorável

Dissimulação e mentira
da newsletter 'Primeiro café'      


No livro “O Vendedor de Passados” José Eduardo Agualusa utiliza um recurso narrativo muito interessante para contar a história do homem que falsifica passados a troco de dinheiro. O enredo é contado por uma lagartixa que, oculta na casa da personagem principal, testemunha tudo em primeira pessoa. Eu queria ser amigo da osga que presenciou o nebuloso encontro entre Flávio Bolsonaro e o dono da Globo horas antes da entrevista do candidato no Jornal Nacional.

Só este animal poderia revelar se algo foi dito neste almoço que fez a entrevista ter sido um espaço tão aberto para que o candidato da extrema direita pudesse mentir com tanta segurança. Na ausência da desejosa testemunha, só podemos fazer suposições baseadas no passado que a Globo não reescreveu contratando Félix Ventura, o vendedor de passados do Agualusa.

Antes de prosseguir, preciso dizer que temos de separar claramente forma do conteúdo.

Na forma, Flávio foi muito superior a Lula. Aproveitou o tempo para atacar o adversário em todas as respostas, mesmo que o ataque nada tivesse a ver com o assunto da pergunta. Reforçou com sucesso que o seu principal ativo eleitoral é não ser Lula e, assim, conversa com o antipetismo ignorante que pode definir esta eleição.

No conteúdo, Flávio entregou exatamente o que se espera dele: fake news e respostas vagas. Infelizmente, não será o conteúdo da fala dos candidatos que irá definir o voto dos indecisos. Nesta altura do campeonato, o eleitor não está mais interessado em saber onde foi parar o dinheiro do Vorcaro para o filme do pai dele, os motivos que o levaram a mudar de ideia sobre o fim da escala 6x1 etc.

Com tantas mentiras flagrantes, só um néscio voluntário acreditará nas promessas de Flávio de não cortar programas sociais, não privatizar empresas públicas, não indicar o pai e o irmão condenados para cargos no governo e, principalmente, se ganhar, não concorrer à reeleição e, caso perca, respeitar o resultado da eleição.

O corte mais relevante foi quando Flávio argumentou, e aí com razão, que Lula esqueceu dos beneficiários do Bolsa Família. Este foi o maior erro de Lula na entrevista do dia anterior e um presente para o adversário, que agradeceu e aproveitou.

Lula: tudo na ponta da língua https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0599807603.html 

Generosidade suspeita

Colunistas do Globo, numa escala de 1 a 5, em média dão nota 3 ao desempenho de Flávio Bolsonaro na lamentável entrevista de ontem na TV. Quanta condescendência! 

As ruas, as redes e o almoço do domingo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_02010278885.html