23 julho 2026

Minha opinião

Três "questões de ordem"*
Luciano Siqueira  

Em imaginária reunião com meus não muitos porém generosos leitores, solicito três "questões de ordem":

1. Em circunstâncias normais, fosse o candidato Flávio Bolsonaro uma espécie de bola da vez da extrema direita, a vaga de více em sua chapa seria muito disputada. 

Não é. 

E o PP, que tinha no seu presidente, senador Ciro Nogueira, o vice "ideal" (antes do escândalo do Banco Master), decidiu não se coligar no pleito presidencial e liberou os filiados para toda e qualquer composição nos Estados, dando prioridade à eleição de senadores e deputados federais.

Isso num quadro de dispersão da ampla coalizão reacionária vitoriosa em 2022. 

Ponto para a reeleição de Lula.

2. Frentes amplas possibilitam atrair todas as forças suscetíveis de composição conosco, ainda que momentaneamente; neutralizar as que se desgarram do campo adversário mas permaneçam arredias e isolar, enfraquecer e derrotar o adversário principal.

Conformam um arco-íris político.

O PCdoB historicamente contribui, muitas  vezes de modo decisivo, para a formação de frentes assim concebidas. Mas delas participa não como uma porção de açúcar que se dissolve na água, imperceptível; e sim como óleo, junto mas não diluído, visível e identificável a olho nu.

Ou seja, preserva sua identidade explicitando, pelas formas adequadas, suas proposições programáticas.

Como agora, em que não basta reeleger Lula e governadores progressistas. É preciso lutar por reformas estruturais indispensáveis a um projeto nacional efetivamente democrático e soberano.

3. Redes sociais e comunicação digital, pelos seus vários instrumentos, se constituem em canal eficiente de comunicação com o eleitorado,

mas não dispensam o diálogo olhos nos olhos entre candidatos e militantes e a população alvo de nossas campanhas.

Onde houver um militante envolvido na busca do voto, importa juntar gente motivada pela consciência e pelo afeto. Quem sabe até ampliando a OB preexistente ou fundando uma.

Como diz a nossa camarada ministra Luciana Santos, firme na luta!

*Texto da minha coluna semanal no portal 'Vermelho'

Se comentar, identifique-se. https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/06/participe.html

Leia também: "Toda sugestão vale a pena" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0217269134.html 

Fotografia

 

Beatriz Díez Lopez

"Dose dupla? Vade retro!" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/alem-do-possivel.html 

Camila Santiago opina

Futebol, fé e neoliberalismo: quem forma os atletas da Seleção?
Camila Santiago*/Brasil de Fato    

Em ano de Copa e eleição, há sempre uma cobrança da esquerda para que atletas de futebol tenham posicionamentos progressistas, mas quase nenhuma reflexão do porquê eles não o fazem. Seria somente uma questão individual de cada jogador, do seu caráter ou escolha pessoal?

Após a eliminação, houve nas redes sociais debates relacionando o avanço do neopentecostalismo no Brasil e seus reflexos na Seleção, tratando desde a forma como os jogadores falam da eliminação nas redes sociais até a forma de jogar dos brasileiros — como fez o jornal britânico The Times. De todo modo, é impossível falar sobre futebol moderno e futebol brasileiro sem considerar o avanço do neoliberalismo e do neopentecostalismo no país e no mundo.

Quero propor uma reflexão envolvendo dois fenômenos que se retroalimentam nas últimas décadas: o enfraquecimento de movimentos populares, como sindicatos e associações de moradores, e o crescimento de igrejas evangélicas em territórios de maior vulnerabilidade socioeconômica.

Maria da Glória Gohn, referência no campo dos movimentos populares, faz um apanhado que vai desde os movimentos de bairros na redemocratização até as jornadas de junho de 2013, em seu artigo “A trajetória das ações coletivas e dos movimentos sociais no Brasil nos últimos 40 anos (…)”, escrito em 2024. Ela destaca que houve mudanças significativas na forma como as pessoas se organizam na sociedade a partir da conquista de espaços dentro das instituições formais da política, como conselhos e fóruns, por exemplo. 

Houve mudanças também na percepção sobre organização coletiva, optando por espaços e pautas cada vez mais específicos e coletivos mais flexíveis e com inserções no campo digital. Como marco dessa transformação, a autora traz as manifestações de junho de 2013, que revelaram uma insatisfação com as formas de organização política tradicional, rejeição aos partidos políticos e sindicatos, ausência de lideranças e mobilizações cada vez maiores através das redes sociais.

Paralelamente a todo esse movimento de enfraquecimento de organizações coletivas, acontecia um crescimento de igrejas evangélicas neopentecostais no país, sobretudo nos territórios economicamente vulneráveis. Com uma roupagem diferente do catolicismo e do protestantismo tradicional, o neopentecostalismo chega também com elementos fortes do neoliberalismo econômico, que também avançava agressivamente no mundo, pregando novas concepções de demonstração da fé e recompensas divinas diretamente relacionadas ao êxito financeiro.

Na chamada Teologia da Prosperidade, “só não é próspero financeiramente, saudável e feliz nessa vida quem carece de fé, não cumpre o que diz a Bíblia a respeito das promessas divinas e está envolvido, direta ou indiretamente, com o Diabo. A posse, a aquisição e a exibição de bens, a saúde em boas condições e a vida sem grandes problemas ou aflições são apresentadas como provas da espiritualidade do fiel”, escreveu o sociólogo Ricardo Mariano, em artigo de 1996 sobre os neopentecostais e a teologia da prosperidade.

Uma forma de pensar que reforça valores como individualidade e meritocracia e desconstrói outros ideais pregados pelo cristianismo tradicional de abdicação da riqueza como demonstração de fé. Na nova lógica, sua relação com o divino pode e deve ser materializada em bens.

Na lógica neopentecostal, há também um reforço da dualidade entre as figura divina e diabólica que vivem em constante guerra no plano terreno. Ainda neste plano, podemos colher o bem ou o mal, sendo o bem representado pela riqueza e o mal pelas mazelas, que podem ser financeiras ou de saúde, por exemplo.

O quanto você será abençoado aqui na Terra depende quase que exclusivamente do tamanho da sua fé e, em alguns casos, do quanto você pode doar para as igrejas. Não se busca necessariamente a salvação na vida após a morte, mas uma vida com abundância aqui na Terra.

Os impactos dessa construção não se limitam ao plano espiritual: afetam a cultura e as formas de organização da sociedade. Essas igrejas ocuparam gradualmente um espaço deixado pela ineficiência do Estado nas periferias, onde muitas vezes a única forma de presença do Estado é através das forças policiais.

É comum que essas igrejas construam redes de trabalhos comunitários, ações de assistencialismo, mediação de conflitos e formação de lideranças comunitárias e religiosas, tornando a igreja e seus líderes referências de acolhimento, proteção, possibilidade de transformação da realidade e inspiração para a construção de valores morais.

Os valores neoliberais enraizados nas igrejas neopentecostais encontram no futebol um terreno fértil para prosperar. Para Lívia Reis, pesquisadora do Museu Nacional e do Instituto Superior de Estudos da Religião, em entrevista ao jornal O Globo, em 2021, “a cosmologia pentecostal tem afinidade muito grande com o neoliberalismo, valorizando meritocracia, esforço individual, obediência, foco e determinação. Os jogadores de futebol são a materialização desses valores e, em contrapartida, atribuem seu sucesso a Deus”.

Além disso, a maioria dos jogadores que chegam ao futebol profissional precisa deixar suas casas e famílias cada vez mais cedo para seguir a carreira. Vivem um distanciamento da sociedade, afastam-se do território conhecido, do convívio com amigos — algo até incentivado para evitar o uso de bebidas e drogas. Eles encontram na religião e na figura divina um ponto de apoio em meio ao isolamento.

Pelas entrevistas e recorte biográfico dos jogadores de futebol que chegam à Seleção Brasileira, é possível dizer que a maioria deles vem de territórios pobres, onde as igrejas têm papel fundamental na organização da comunidade, tanto no que diz respeito ao assistencialismo, quanto no afastamento dos jovens do mundo do crime, encontrando na fé e no esporte o único caminho fora da criminalidade para mudar radicalmente o contexto de pobreza.

Ao alcançar essa “graça” tão sonhada pela família, de ser um jogador de futebol profissional e mudar o status econômico, é compreensível que quem veio da invisibilidade, com muita fragilidade na execução de políticas públicas e que somente encontrou acolhimento e incentivo para a prática esportiva através da própria família e da igreja, acredite na meritocracia, na bênção divina e no esforço individual como o único caminho possível.

Ao enxergar-se como exceção entre os que cresceram junto consigo, esses jogadores creem ter sido escolhidos, seja por uma predestinação divina, pelo tamanho da sua fé ou da sua vontade de vencer.

É essa mesma sensação de ser abençoado e escolhido pelo divino que distorce o senso de coletividade do atleta. A competição, o esporte, não é sobre o grupo, mas sobre a missão que Deus lhe deu, sobre a prova divina à qual ele está submetido cotidianamente. Seja a derrota ou a vitória, tudo tem um propósito maior.

Se esses fatores afetam o desempenho técnico e tático dos jogadores, não podemos responder. Mas perceptivelmente mudam o senso de pertencimento, a identificação com a cultura do país e com o povo brasileiro em sua diversidade religiosa e política.

Não busco trazer respostas aqui, mas incentivar a reflexão que fiz no início: a ausência de jogadores que tenham posicionamentos políticos progressistas e o aumento de jogadores que se declaram conservadores seriam uma questão individual desses atletas ou consequência da desigualdade social que dificulta o acesso de jovens periféricos a políticas públicas eficientes de saúde, educação, esporte e lazer?

Ouso ir além: não seria também uma consequência da incapacidade dos movimentos sociais de se reinventarem dentro de suas bases diante das mudanças da sociedade e do mundo do trabalho?

O alinhamento político dos esportistas não é também resultado da nossa — eu me incluo enquanto militante — falta de compreensão do papel que as igrejas ocupam no acesso a direitos básicos de muitas pessoas? Não é consequência da nossa falta de debate sobre políticas públicas eficientes na área de esportes, que deem aos tantos talentos que se perdem por falta de apoio uma forma de seguir sonhando com o futebol?

É muito importante que nossos jogadores de futebol da Seleção tenham consciência de classe, posicionamentos em defesa da classe trabalhadora e dos mais pobres, mas essa consciência não se constrói de cima para baixo. Como escreveu Paulo Freire: “A educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”. Somente com investimento econômico, cultural e político na educação e na formação de atletas ainda na base, durante a infância, podemos construir uma nova geração de atletas.

*Professora, feminista e torcedora do Náutico

[Ilustração: imagem produzida em IA]

Se comentar, identifique-se. https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/06/participe.html

Futebol brasileiro: para onde vamos? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/futebol-brasileiro.html 

Minha opinião

Pelé no pódio
Luciano Siqueira 

Justificadas são as loas que se tecem em homenagem a Lionel Messi, provavelmente o melhor jogador de futebol deste século.

Mas não o melhor de todos os tempos.

Nem emparelhado com Pelé. 

Quantos gols de bicicleta terá feito Messi? E de cabeça? Quantas vezes o argentino terá jogado emergencialmente como goleiro?

Pelé fez tudo isso e muito mais. Um jogador completo na acepção precisa do termo.

Todos os que vieram depois sequer chegam perto.

Se comentar, identifique-se.

Lições da Espanha, campeã do mundo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/copa-do-mundo-espanha-no-podio.html 

Postei nas redes

No governo Trump, é chute para todos os lados. O secretário de Estado Marco Rubio agora ataca o Tribunal Penal Internacional, que pretende "desmantelar tijolo por tijolo". Diplomacia inconsequente em toda linha. 

Trump transformará a Presidência dos EUA em negócio https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/negocios-suspeitos.html 

22 julho 2026

Palavra de poeta

Poeta sem voz
Thelma Miguel    

por que fui nascer poeta?
as palavras me engasgam
prendem na garganta
falta o ar
não embelezam meu dia
não hoje
não neste dia
a vida de poeta
me embaralha nas letras
fico perdida nas emoções
nas curvas da vida
porque o poeta
sente forte o que vê
às vezes enlouquece
quando as palavras perdidas
pelo corpo
engessam a alma
o poeta se desespera
quando o silêncio
vence o grito
e ele não consegue
pôr no papel
aquilo que em sua alma
sangra
o poeta enlouquece
quando uma página branca
atravessa o seu dia
os rabiscos ficam vazios
sem nexo
ele risca
rabisca em vão
e não consegue
que sua alma se esparrame
tempos sombrios
para o poeta que se delicia com a beleza
com a suavidade da alma
hoje um martelo crava
em seu peito uma estaca
e ele não consegue respirar
de dor
as palavras perderam o caminho da boca
ficam embrulhadas no meio do estômago
não sai uma só palavra
só restou um vazio
oco
no meio dos lábios 

[Ilustração: Alexej von Jawlensky]

Leia também: "a parede e a flor", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/palavra-de-poeta_01116453344.html 

Minha opinião

Palpites a granel
Luciano Siqueira   

A grande mídia corporativa neoliberal chuta para todos os lados em matéria de eleições presidenciais.

Chora pela fragilidade e incompetência do pré-candidato Flávio Bolsonaro, ungido pelo pai ex-presidente presidiário; e busca a todo instante razões para atacar o presidente Lula.

Quanto ao pré-candidato da extrema direita, lamentos de toda ordem – sobretudo pela dificuldade de unir em espectro único a extrema direita e o centro conservador.

Quanto à campanha de Lula, que se in ciará em breve, haja especulação sobre a linha política, os alvos supostamente prioritários, propostas que a juiz do mercado financeiro ameaçariam o equilíbrio fiscal e que tais.

Na verdade, o complexo midiático dominante ao atuar de modo uníssono e convergente cumpre papel de partido politico, cuja essência está justamente na linha política adotada. Um “partido”, entretanto, momentaneamente carente da obediência das legendas inscritas no TSE e representadas no parlamento.

Casa em que falta projeto consistente, todos brigam e nenhum tem razão.

Por que não noticia o debate em curso entre os partidos integrantes da frente ampla pró-Lula visando a formulação da plataforma eleitoral?

Se comentar, identifique-se.

Entreguismo desavergonhado https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0871197417.html