É imperativo dar um basta à parcialidade golpista de André Mendonça
Ministro atua como ponta de lança de uma operação da extrema direita para agravar a crise político-institucional e assim encobrir corrupção dos Bolsonaro no caso Master
Editorial do 'Vermelho'
A decisão de André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), de afastar por liminar o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada, tem graves consequências institucionais, políticas e eleitorais. O ministro tirou a toga de vez e atua, desbragadamente, com parcialidade para favorecer a campanha de Flávio Bolsonaro.
Extrapolou suas prerrogativas e detonou uma crise que tem claro sentido golpista. Atinge a Suprema Corte, a PF, a Procuradoria-Geral da República (PGR) e, agora, busca arrastar o Executivo, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Mendonça não age sozinho. A crise político-institucional resulta de um plano ardiloso da extrema direita com três objetivos básicos: blindar e proteger Flávio Bolsonaro do crime de corrupção de R$ 134 milhões do ex-banqueiro criminoso Daniel Vorcaro, do Banco Master; arrastar a disputa presidencial para o terreno predileto do neofascismo, o lamaçal e o clima de caos; e atingir a campanha do presidente Lula, impondo artificialmente o tema da “corrupção” como assunto central da disputa.
Para compreender a dimensão política do caso, basta olhar para a trajetória na PF que, sob a direção de Andrei, esteve no centro das investigações que resultaram na captura e prisão do criminoso Vorcaro. E, também, a operação Carbono Oculto, que atingiu organizações criminosas ligadas ao setor de combustíveis e a complexas estruturas financeiras, e do enfrentamento dos crimes bolsonaristas relacionados ao 8 de Janeiro.
Andrei também esteve à frente da PF na investigação que levou à prisão o chamado “Careca do INSS”, enquanto Mendonça autorizou a abertura de investigação envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, embora a própria PGR tenha questionado a relação desses fatos com a Operação Sem Desconto e pedido o envio do caso à primeira instância por ausência de foro no STF; relatório da própria PF ainda apontou “imputações sem lastro” contra ele. O objetivo era a exploração midiática do caso para prejudicar a candidatura de Lula.
E foi sob sua direção que a PF chegou aos mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista Anderson Gomes, no Rio de Janeiro. Leandro Almada, por sua vez, participou de diferentes etapas da investigação do caso Marielle e, como superintendente da PF no Rio, esteve à frente do caso na fase que resultou nas delações de Ronnie Lessa e Élcio Queiroz. Desde 2024, dirigia a área de Inteligência da PF.
Quando Almada era superintendente da PF na Bahia, em 2022, ele denunciou a atuação do então ministro da Justiça bolsonarista, Anderson Torres, e do então diretor-geral da PF, Márcio Nunes, de obter o apoio da PF às blitze da Polícia Rodoviária Federal (PRF) para tentar impedir que eleitores exercessem o seu direito de voto, numa região sabidamente favorável ao então candidato Luiz Inácio Lula da Silva.
Mendonça rompeu todas as fronteiras da legalidade ao atacar a PF, afastando de seu comando funcionários do Estado exemplares no combate aos golpistas que tentaram soterrar a democracia, às facções criminosas e bandidos de colarinho branco, como Vorcaro, e, ao mesmo tempo, travar por mais de 120 dias as investigações do caso Dark Horse, a corrupção de Flávio Bolsonaro.
A gravidade da decisão de Mendonça aumenta por sua conduta como relator do caso Banco Master. O ministro tornou públicas mensagens extraídas do celular de Vorcaro nas quais aparecem graves conteúdos que envolvem o ministro Alexandre de Moraes, ainda sem o escrutínio do contraditório. Todos são iguais perante a lei. Quem comentou delitos, quem quer seja, deve ser investigado.
Acontece que Mendonça pisoteou a Constituição, que assegura o devido processo legal, o direito ao contraditório e a ampla defesa. Afrontou o regimento do STF e o rito do devido processo legal. Direcionou investigações, atuou como juiz e investigador. Implacável com uns e dócil e protetor de outros. E mais: Mendonça encontrou-se sigilosamente com Vorcaro, fato reconhecido pelo próprio ministro.
A ingerência de Mendonça na PF, como se vê, não é um caso isolado. Faz parte de um plano amplo para favorecer Flávio Bolsonaro. Como sustenta a Advocacia-Geral da União (AGU) no recurso ao presidente do STF, Edson Fachin, sobre a atitude do ministro na PF, a medida invade a competência presidencial e pode desorganizar as atividades institucionais da PF. A AGU pediu a suspensão da liminar de Mendonça, invocando a competência presidencial prevista no artigo 84 da Constituição.
Há outro fato relevante. O Partido Novo, linha auxiliar do bolsonarismo, apresentou ao STF, sob relatoria de Mendonça, duas petições em rápida sucessão: primeiro, pelo afastamento cautelar de Andrei e, no dia seguinte, requereu sua prisão preventiva.
Outra comprovação do plano pró-Flávio Bolsonaro é o silêncio de Mendonça sobre a delação premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, que confessou o envio de recursos ao fundo Havengate Development Fund, administrado pelo advogado Paulo Calixto, ligado a Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio. São evidências de ligações com a solicitação de R$ 134 milhões por Flávio a Vorcaro para financiar a produção de Dark Horse, filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro – preso por crimes graves envolvendo tentativa de golpe de Estado –, dos quais recebeu mais de R$ 60 milhões.
Flávio Bolsonaro transformou os ataques do ministro ao Estado Democrático de Direito em eixo de sua campanha. No 7 de Setembro, atacou Alexandre de Moraes, associou o ministro a Lula e defendeu Mendonça. À exceção de São Paulo, onde a mobilização alcançou alguma relevância, embora abaixo da expectativa dos organizadores, as manifestações em outras cidades foram esvaziadas.
Óbvio que esse plano visa à contenção da tendência de vitória de Lula e a impulsionar Flávio Bolsonaro, que se liga às ações do governo de Donald Trump, dos Estados Unidos, de ingerência militar, econômica e política na América Latina e Caribe, região na qual o Brasil ocupa posição estratégica. O secretário de Estado, Marco Rubio, iniciou justamente nesta semana uma viagem por Colômbia, Equador e Peru destinada a fortalecer alianças com governos alinhados a Washington.
O papel de setores da mídia hegemônica também entra nesta trama de cunho golpista ao se converter em tribunal seletivo, deslocando o debate eleitoral de seus reais objetivos para uma amplificação estridente do falso combate à “corrupção”. Tira do eleitor a possibilidade de conhecimento das propostas reais sobre emprego, renda, industrialização, soberania nacional, segurança pública, política externa, infraestrutura. E assim interditam os grandes debates realmente relevantes.
Edson Fachin, na condição de presidente do STF, tem a responsabilidade de buscar solução para a crise criada por Mendonça, restaurando princípios como o amplo direito de defesa e o direito ao contraditório. O ministro Mendonça não pode continuar a agir como se sua toga lhe conferisse poderes excepcionais.
Em decisão liminar juridicamente fundamentada, o ministro Flávio Dino determinou a imediata reintegração de Andrei e Almada, submetendo a medida ao referendo do Plenário do STF. Entre os fundamentos, Dino advertiu que o afastamento “impede o andamento de – quiçá – centenas de investigações”, inclusive sob sua relatoria, e destacou que a interrupção dos trabalhos da direção da PF “interessa, sobretudo, aos investigados”.
Resta agora saber como Fachin conduzirá o caso. O plenário do STF precisa reverter os afastamentos na PF e restabelecer à Presidência da República suas prerrogativas constitucionais. A PF precisa recuperar sua estabilidade institucional. Mendonça, diante de parcialidades nítidas, deve ser imediatamente afastado das relatorias do caso Master e do INSS. É imperativo que a Suprema Corte restaure a estabilidade, sobretudo quando o país está sob ameaça externa e o golpismo volta a se exacerbar.
O objetivo do conluio da extrema-direita e do imperialismo estadunidense é empurrar a campanha de reeleição do presidente Lula para a defensiva. Acontece que a extrema direita, tendo Mendonça como aríete, foi com muita sede ao pote. A operação em marcha pela sua vertente golpista aciona um sinal vermelho entre todos e todas que prezam a democracia, as liberdades, a soberania do país e os direitos dos trabalhadores – vide, também, o papel de Flávio para sabotar a votação do fim da escala 6×1.
Instaurou-se uma situação de força contra força. De confronto. A disputa presidencial adentrou-se a uma nova etapa. Emergem novas exigências. Desmascarar Flávio Bolsonaro está entre as tarefas centrais.
A gravidade dos fatos dá oportunidade para que a campanha à reeleição do presidente Lula desencadeie a contraofensiva e retome a iniciativa política, realizando ampla mobilização em defesa da democracia e da soberania popular nas eleições.
É tarefa essencial das forças progressistas convocar personalidades democráticas, organizar manifestações populares e acionar os mecanismos institucionais para defender o Estado Democrático de Direito. A campanha do presidente Lula também precisa demarcar com clareza os campos, para desmascarar Flávio Bolsonaro e expor as manobras da extrema direita destinadas a sabotar a democracia e a privar o povo de seu sagrado direito de escolher, de forma livre e soberana, seus governantes e representantes.
Defender a soberania nacional com Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/editorial-do-vermelho_0189987053.html




