Plano mostra que Flávio Bolsonaro quer entregar terras raras aos Estados
Unidos
Documento foi elaborado por André Marinho, cujo irmão é suplente de
Flávio Bolsonaro no Senado e oferece o Brasil como fornecedor de minerais
críticos aos EUA.
Barbara Luz/Vermelho
Um
documento de 22 páginas elaborado por André Marinho, aliado de Flávio Bolsonaro
(PL) e candidato ao governo do Rio de Janeiro pelo Novo, detalha como um
eventual governo do senador buscaria transformar o Brasil em fornecedor
estratégico de minerais críticos e terras raras dos Estados Unidos, dentro de
uma cadeia de abastecimento alinhada a Washington e em oposição à China.
A
existência do material foi revelada nesta sexta-feira (12) em reportagem
exclusiva de Guilherme Amado e João Pedroso de Campos, do Amado
Mundo/Metrópoles. Produzido em inglês em 19 de março, o documento tem
formato de apresentação de PowerPoint. A capa traz a inscrição “Flávio
Bolsonaro | 2026 Campaign” e as páginas seguintes exibem a marca “Flávio
Bolsonaro” acompanhada do slogan “Prosperity Partnership”. Os metadados
identificam Marinho como autor, informação confirmada por ele à reportagem.
Marinho é
filho de Paulo Marinho, suplente de Flávio no Senado. Embora negue qualquer
relação entre o estudo e a campanha presidencial do senador, a identidade
visual do material vincula diretamente a apresentação ao nome do candidato.
Segundo ele, o documento foi produzido por iniciativa própria e não chegou às
mãos de autoridades norte-americanas.
Alinhamento
aos Estados Unidos
O chamado
“Flávio Bolsonaro Way” apresenta três princípios. O Brasil deixaria de ser
apenas exportador de matérias-primas, evitaria uma dependência estrutural das
cadeias de processamento chinesas e “se alinhará com os Estados Unidos na
construção de um sistema de abastecimento paralelo”.
O plano contrapõe esse projeto ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva. Lula é classificado como “pró-China”, marcado por “ambiguidade
geopolítica deliberada” e por um “avanço regulatório lento”. Entre os supostos
riscos de sua continuidade, o documento lista a possibilidade de o Brasil virar
“mero fornecedor de matérias-primas para a China” e perder a oportunidade de
realinhar sua cadeia mineral aos Estados Unidos.
A
alternativa defendida para um governo Flávio Bolsonaro prevê “claro alinhamento
ocidental”, aceleração regulatória, integração entre mineração e política
industrial e atração de capital. O texto sintetiza a disputa em uma frase: “A
diferença é simples: Lula hesita, Bolsonaro executa.”
Entre os
pilares estão mudanças na legislação minerária e no licenciamento, capital
norte-americano associado a ativos brasileiros e a inserção do país em um
“clube de minerais críticos” alinhado aos Estados Unidos. A projeção
apresentada estima de US$ 50 bilhões a US$ 100 bilhões em investimentos ao
longo de dez anos, entre 500 mil e 1 milhão de empregos e expansão de 1,5 a 2,5
pontos percentuais do PIB.
A
mensagem destinada a “interlocutores americanos” explicita a lógica
geopolítica: “O Brasil não está pedindo por assistência. O Brasil oferece
escala. […] O OCIDENTE NÃO TEM UM PROBLEMA DE MINERAIS. TEM UM PROBLEMA DE
EXECUÇÃO. O BRASIL É A SOLUÇÃO.”
Do
documento aos encontros em Washington
Nove dias
depois da elaboração do material, Flávio Bolsonaro fez um discurso na CPAC,
conferência da direita trumpista realizada em Dallas, nos Estados Unidos, com
formulação semelhante à apresentada no documento.
“O Brasil
vai ser o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido, porque o
Brasil é a solução dos EUA para quebrar a dependência da China por minerais
críticos, especialmente elementos de terras raras”, afirmou em 28 de março.
Após
quase três semanas da produção da apresentação, André Marinho esteve nos EUA e
se encontrou com o vice-presidente J.D. Vance. O encontro foi articulado por
Robert Kennedy Jr., secretário de Saúde do governo Trump e pai do cunhado de
Marinho. Em 26 de maio, Flávio Bolsonaro reuniu-se com Donald Trump em
Washington e afirmou ter discutido tarifas e terras raras. No dia seguinte,
encontrou Vance e o secretário de Estado Marco Rubio.
Marinho
também aparece em outra frente de aproximação com o trumpismo. O empresário
Pedro Sang afirmou que foi ele quem o aproximou da Rockbridge Network, rede de
financiadores conservadores fundada por Vance. O presidenciável Renan Santos,
do Missão, acusa a campanha de Flávio de ter recebido recursos norte-americanos
por meio da rede, mas não apresentou provas. A legislação brasileira proíbe
doações eleitorais provenientes direta ou indiretamente de entidades ou
governos estrangeiros.
A
revelação expõe uma contradição no discurso da direita bolsonarista, que se
apresenta publicamente como defensora da soberania nacional. Enquanto o tema
foi usado politicamente inclusive nas manifestações do 7 de Setembro, o
documento preparado por um aliado de Flávio propõe inserir recursos minerais
estratégicos brasileiros numa cadeia de abastecimento orientada pelos
interesses geopolíticos dos Estados Unidos.
Marinho
nega qualquer participação da campanha. “Esse estudo foi uma iniciativa
exclusivamente minha e estava armazenado em meu dispositivo. […] Não enviei nem
apresentei esse conteúdo a nenhuma autoridade americana”, afirmou.
A
campanha de Flávio Bolsonaro, por sua vez, não respondeu à reportagem sobre a
origem do documento, sua relação com as propostas apresentadas nem sobre
eventual conhecimento do material. O silêncio mantém em aberto dúvidas sobre um
plano que, embora negado por seu autor como peça de campanha, leva o nome de
Flávio, adota identidade visual eleitoral e apresenta aos EUA uma proposta de
alinhamento estratégico em torno de recursos minerais brasileiros.
O
conteúdo também expõe a distância entre o discurso público de soberania
nacional adotado pela direita bolsonarista e uma proposta que coloca terras
raras e minerais críticos do Brasil dentro de uma estratégia geopolítica
voltada aos totalmente aos interesses de Washington.
Defender a soberania nacional com Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/editorial-do-vermelho_0189987053.html




