25 outubro 2026

Luta que segue

No Recife, casal vítima da ditadura alerta para riscos de eleição de Flávio Bolsonaro
Luciano e Luci Siqueira foram presos, torturados e são referências na luta democrática em Pernambuco
Brasil de Fato    

Um simpático casal residente no Recife tem visto com especial preocupação a eleição deste domingo (25). Luci Siqueira e Luciano Siqueira, referências no Partido Comunista do Brasil (PCdoB), foram vítimas do regime militar, presos e torturados em 1974, e hoje — aos seus 78 e 80 anos — veem um risco real para a democracia brasileira caso a extrema-direita volte ao poder. “Eles têm avançado sobre todo o mundo ocidental e o Brasil é um polo de resistência. Em caso de derrota, a ameaça [contra a democracia] é concreta”, alerta Luciano em entrevista ao Brasil de Fato.

Ex-vice prefeito do Recife por 16 anos — de 2001 a 2008, com João Paulo (PT); e de 2013 a 2021, com Geraldo Júlio (PSB) —, Siqueira indica que Flávio Bolsonaro, além da grande base parlamentar conquistada no Congresso Nacional, conta ainda com o amplo apoio das elites econômicas do capital financeiro, do varejo e agroexportador, além dos donos dos grandes conglomerados de mídia. “Eu leio os editoriais dos maiores jornais do Brasil todos os dias e as pautas são as mesmas: muda o estilo, mas o conteúdo é igual. De maneira mais ou menos envergonhada, eles apoiam Flávio Bolsonaro”, afirma Luciano ao BdF.

Ele considera que uma das formas da imprensa não expor as vulnerabilidades do candidato do PL foi não expor ou comparar os programas de governo. “Agora no fim do 2º turno vejo ‘O Globo’ reclamar que não houve discussão de propostas. Ué, a imprensa alternativa discutiu, sim, essas questões programáticas”, reclama o comunista, que aos 80 anos mantém um blog e redes sociais atualizadas com suas análises. Otimista, Siqueira considera que o movimento de extrema-direita tem os dias contados. “Essa onda neofascista vai morrer porque eles não têm o que oferecer ao povo”, prevê.

Tão engajada quanto discreta, sua esposa Luci Siqueira foi motivada pelo momento e “inaugurou” suas redes sociais aos 78 anos de idade. Mas a mensagem teve tom de alerta. “Tenho 60 anos de militância, passei pela ditadura, fui presa e torturada, vi amigos dentro da cela enlouquecerem, tive amigos que desapareceram e até hoje os familiares não receberam seus corpos. Estou pedindo pela memória deles, pela democracia, pela juventude e pelo povo brasileiro: vote 13”, pediu.

Filha de um casal de operários da indústria têxtil, Luci é uma pioneira dos movimentos feministas em Pernambuco e teve atuação destacada na luta pela memória, verdade e justiça, é fundadora do Memorial da Democracia de Pernambuco (no Sítio Trindade) e hoje atua como assessora parlamentar. Ela e o potiguar Luciano se conheceram na juventude, quando se aproximaram do Movimento de Cultura Popular (MCP), se somaram à luta estudantil e foram presos pela ditadura, ficando por três anos proibidos de estudar em qualquer faculdade brasileira pública ou particular.

Ruas tomadas pela esquerda indica um novo momento

Ainda que destaque a ameaça representada por uma possível eleição de Flávio Bolsonaro, o ex-vice prefeito do Recife faz questão de ressaltar uma mudança na qualidade da capacidade de luta das forças de esquerda pelo que foi demonstrado nas três semanas de 2º turno. “Esse momento não é uma coisa sem importância. Esse movimento que está nas ruas e nas redes veio para ficar. Tenho ficado muito emocionado. As pessoas estão indo às ruas em cidades pequenas, há uma onda de debates e foi espontâneo. Esse é um passo adiante no nível de consciência de classe e de organização”, diz Siqueira.

Perguntado sobre a possibilidade de um possível governo Bolsonaro tentar criminalizar organizações de esquerda para desmobilizar as ruas, Luciano avalia que “essa ameaça é muito real e concreta, mas ele enfrentará uma resistência muito forte também. Eu sou otimista em relação à resistência popular e democrática. Estamos num momento de retomada”, vislumbra Luciano, que é médico e foi deputado estadual em Pernambuco, além de dirigente estadual do PCdoB. Ele vê o momento como “um equilíbrio saudável entre ruas e redes”.

Caso Lula seja reeleito, a mobilização também será necessária, avalia Siqueira. “O Congresso estará contra nós. Essa força das ruas será fundamental para conquistas imediatas, mas também precisamos mantê-la para colocar em pauta reformas estruturais”, diz ele, citando a necessidade de reformas agrária, urbana, tributária, no judiciário, na mídia, educacional e avanços no SUS. “Isso não é agenda socialista. Tudo se dá dentro do capitalismo. Mas são mudanças de tal magnitude que podem produzir uma melhora de condições materiais e espirituais do nosso povo. Isso eleva a consciência política”, considera.

As ruas, no entanto, dificilmente serão convocadas por Lula como presidente, como também não partiram da campanha, sendo realizadas de forma espontânea pela população. “Ele nunca mobilizou o povo para isso enquanto governante. Essa marca ele não teve. É um político extremamente competente, habilidade incrível, mas sempre tentou resolver as contradições e as ameaças dentro da política [institucional]”, pondera. “O movimento de massas nas ruas cria novas lideranças e renova partidos. É essa a esperança que eu tenho”, pontua Luciano Siqueira.

Editado por: Vinícius Sobreira

Lula: "O Brasil está pronto para mais" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/palavra-de-lula.html   

Arte é vida

 

Wassily Kandinsky 

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Palavra de Lula

O Brasil está pronto para mais
Brasileiras e brasileiros verdadeiramente patriotas foram para as ruas defender nossas conquistas. A mudança já começou e seguirá no rumo certo; por cada Silva do nosso imenso país, nós iremos vencer
Luis Inácio Lula da Silva/Folha de S. Paulo   

A cada eleição, o processo eleitoral brasileiro assiste à escalada das plataformas digitais. Aos poucos, as telas foram tomando o espaço que era das pessoas. Candidatos passaram a se eleger apertando o botão do celular, sem precisar apertar a mão do eleitor. Mas, em 2026, isso mudou, e o que vimos vai entrar para a história. O povo entendeu que esta eleição não é entre dois candidatos. Ele, o povo, é o próprio candidato.

Vivemos um raro momento de mobilização popular no Brasil. Milhares de movimentos de rua acontecem sem organização partidária, de maneira viva e espontânea. O povo se juntou e tomou para si a campanha.

De Silva em Silva, o Brasil se reencontrou na presença; no "tête-à-tête", amontoou-se e fez de muitas uma só voz.

Não abandonamos as redes. Ao contrário, ocupamos como nunca. Um exército heroico foi montado. Abrir o celular foi motivador e não desanimador. Mas foi nas ruas que, de maneira absoluta, nos quatro cantos do país, nós ocupamos os corações. Uma fórmula simples mobilizou nossa gente: a defesa do que conquistamos somada ao modelo de país que queremos no futuro.

O povo foi para a rua pela proteção de conquistas históricas: o Bolsa Família, o Farmácia Popular, o Pé-de-Meia, o Minha Casa, Minha Vida e tantas outras políticas públicas que criamos e consolidamos. A classe trabalhadora foi para a rua defender direitos trabalhistas conquistados: o reajuste salarial acima da inflação, o fim da escala 6x1 e um novo modelo tributário, que isenta impostos das famílias e coloca os milionários para pagar a conta. Brasileiras e brasileiros verdadeiramente patriotas também foram para a rua defender o que é nosso: nossa soberania, nossas terras raras, nosso petróleo e a nossa Amazônia.

Mas não é apenas o medo de perder que mobiliza nossa gente. O Brasil segue indo para as ruas porque quer mais. Quer um futuro construído com desenvolvimento e humanismo, investindo e acreditando na ciência, na tecnologia e na força da indústria nacional. Nossa gente foi movida pelo sonho de dias melhores, com um país moderno, líder em transformação energética e capaz de proteger as nossas matas e as nossas águas.

Sim. O povo brasileiro foi para a rua dizer que está pronto para mais. Nessa batalha contra o atraso, surge um país que não abre mão de mais oportunidades e mais segurança para as mulheres, de mais futuro para as crianças e de mais qualidade de vida para os idosos. A esperança que moveu as ruas é o sentimento de um povo bonito por natureza, diverso, alegre, de fé. Um povo que acredita que a nossa cultura tem um poder transformador, que resiste a tudo, desde os nossos antepassados até a juventude que tomou as ruas de todo o país.

Esta é a minha última eleição. Não é uma disputa comum. As eleições do Brasil ganharam destaque na disputa geopolítica do mundo moderno. A desigualdade está crescendo no planeta, e há uma desordem mundial em curso: a extrema direita cresce, patrocinada por um punhado de bilionários transnacionais. O Brasil interessa muito a essa gente. Enfrentamos um sistema que, desde a colonização, usa sua força sempre que o povo avança. As antigas oligarquias se juntaram a poderosos emergentes de um novo mundo: plataformas digitais, empresas de apostas, bilionários, o narcotráfico, as milícias e uma classe política delinquente que se instalou no Parlamento brasileiro e aprofundou seus métodos no governo Jair Bolsonaro.

Mas nada é maior do que a união de um povo. Nós sabemos a força inabalável quando os Silvas se juntam. Com humildade e uma vontade enorme de construir o nosso futuro, digo ao povo brasileiro: estamos prontos como nunca estivemos. Prontos para mais. A mudança que o nosso país merece já começou e seguirá no rumo certo.

Por isso, por cada Silva do nosso imenso Brasil, nós iremos vencer.

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Minha opinião

O que a mídia não pode criticar 
Luciano Siqueira   

Os editoriais dos três principais jornais do país — Folha de S. Paulo, O Globo O Estado de São Paulo — funcionam como uma espécie de voz de comando para que determinados temas sejam abordados durante todo o dia por todas as mídias, as convencionais e as digitais. 

Hoje, o Globo reclama que a campanha presidencial teria deixado de lado temas essenciais ao país. 

Há que se perguntar: em que momento o próprio jornal da família Marinho e seus congêneres abordaram os postulantes à Presidência da República na busca de propostas programáticas? 

Nunca! 

Nas suas pautas diárias orientadas por editoriais e traduzidas nos registros feitos por colunistas (hoje em dia mais importante do que a abordagem dos fatos, a reportagem matérias de fundo) durante toda a campanha predominaram largamente "informações de bastidores", que na verdade em sua grande maioria são fofocas. 

A TV Globo realizou o sabatina com os candidatos É essencialmente pautadas por questões menores, tem prejuízo dos grandes temas nacionais. 

A proposta programática do presidente Lula está registrada nos sites dos partidos que eu apoio e em matérias da chamada mídia alternativa. 

Na verdade, o complexo midiático neoliberal dominante prefere tratar questões de fundo nos bastidores. Às claras, quase nunca. 

Um modo de circunscrever aos pequenos círculos da elite dominante seus reais propósitos fundamentalmente vinculados ao capital financeiro e também ao agroexportador, monopólios varejistas e setores da indústria mancomunados com interesses estrangeiros.

Ilustração do Le Monde Diplomatique

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Humor de resistência

 

Miguel Paiva


Palavra de poeta

Bandeiras
Marcelo Mário de Melo     

As nossas bandeiras
devem estar sempre
içadas
inteiras
e limpas.

Bandeiras
sujas e rasgadas
somente
pela força  dos ares
do suor
ou do  sangue
das campanhas.

É preciso  proteger
nossas bandeiras
contra os ratos
 e o  mofo
das gavetas.

As nossas bandeiras
não são para ficar
o ano todo guardadas 
 expostas apenas
em dias de festa.

Elas devem tremular
sempre
no alto dos mastros
e nas nossas andanças
de todo dia.

Assim
passando de mão a mão
de geração  a geração
as nossas bandeiras
 irão ficando gastas.

E de tempos em tempos
nós  as substituiremos
por outras iguais
de panos novos.

E elas se olharão
como fazem 
os avós e os netos.

E ficaremos todos satisfeitos
vendo as nossas bandeiras
renovadas
desfraldadas
inteiras
e limpas.

As voltas que o mundo dá https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

24 outubro 2026

O Brasil numa encruzilhada

Disputa é sobre modelo de país que a gente deseja, diz Lula ao encerrar campanha
Último ato eleitoral de Lula lotou a avenida Paulista, com um público estimado em 2 milhões de pessoas, e é considerado um dos maiores já realizados no local
Priscila Lobregatte/Vermelho   

Um verdadeiro mar de gente varreu a avenida Paulista, em São Paulo, de ponta a ponta neste sábado (24) para o último ato de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A caminhada marcou também sua provável despedida das disputas eleitorais, já que Lula completará 81 anos na próxima terça-feira (27).

Estimativas da imprensa indicam um público de dois milhões de pessoas, um dos maiores já verificados no local. A avenida ficou lotada nos dois sentidos e por vários quarteirões desde o Paraíso até a Consolação. Conforme as imagens aéreas, praticamente não havia espaços vazios e travessa da Paulista também estavam ocupadas. Homens e mulheres, adultos, jovens, idosos e crianças participaram pacificamente do ato, marcado pela alegria e a emoção.

Antes de se dirigir à manifestação, Lula fez breve coletiva de imprensa, na qual salientou: “a sociedade brasileira quer mudança, mas quer mudança estrutural, que faça o País continuar caminhando para a frente, no rumo certo”.

Ao falar sobre as centenas de mobilizações que reuniram milhares de pessoas por todo o País e nas redes socais, especialmente a partir do segundo turno, Lula salientou: “Há muitos anos, mesmo os mais velhos que fazem campanha política, não viam uma movimentação da sociedade como temos visto neste segundo turno”.

“Trabalhamos muito para convencer as pessoas que não foram votar, que anularam ou estão indecisas porque o que está em disputa não é um homem contra outro homem. É o modelo de país que a gente deseja. É o futuro da nossa nação que estamos construindo”, acrescentou.

Ele agradeceu pela “generosidade do povo brasileiro” e pela “compreensão em relação ao momento político que estamos passando” e concluiu: “Todos que estão aqui amam a democracia e amam o Brasil”.

Sem condições

Em outro momento, Lula afirmou que a sociedade brasileira “não quer retrocesso” e “não vai aceitar uma pessoa que não tem sensibilidade com a morte de uma menina de 5 anos e que ajudou quem a matou a não ser preso. Uma pessoa dessas não tem condições políticas, morais e éticas para chegar à presidência da República”.

Lula disse ainda jamais imaginar que, um dia, teria de disputar as eleições “com um mentiroso, miliciano, um desqualificado”, que “não tem nenhum compromisso com a verdade. Ele mente com a maior desfaçatez, não tem nenhuma responsabilidade ou sentimento; ele diz uma coisa hoje, e amanha diz outra. Só no caso do Vorcaro, ele já mentiu umas 50 vezes”.

O número não é uma “força de expressão”. A agência de checagem Aos Fatos listou ao menos 43 declarações enganosas do senador sobre o caso Dark Horse/Master somente entre maio e setembro, e identificou ao menos cinco estratégias desinformativas usadas por ele para tentar se desvencilhar do escândalo.

O presidente também afirmou que “esta eleição é um ato de pessoas que se preocupam com o País, que se preocupam com o dia a dia de outras pessoas e que não querem permitir que um miliciano vá para o Palácio do Planalto”.

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