16 agosto 2026

Minha opinião

Caos no porta-aviões

Luciano Siqueira   

 

Emblemática é a situação das tropas a bordo dos porta-aviões norte-americanos USS Abraham Lincoln, destacado no Oriente Médio: tudo a ver com fanfarronice e a inconsequência de Donald Trump.

O navio acumula mais de 250 dias em missão contínua na região, implicando desgastes estruturais e operacionais.

A imprensa divulga relatos de graves problemas de saúde mental entre os militares, além de escassez e racionamento de alimentos e condições insalubres a bordo (como entupimentos recorrentes e falhas de infraestrutura).

Mais: incidentes operacionais e de segurança, a ponto de um marinheiro cair no mar, sendo resgatado.

Nos Estados Unidos, parlamentares a orientação do Pentágono e do comando militar quanto ao tempo excessivo de mobilização e a qualidade de vida da tripulação durante a operação.

Sinal de decadência da superpotência norte-americana.

Hegemonia imperialista em crise https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/decadencia-imperialista.html

Espelho da existência

A armadilha do Duplo digital
Por milênios, os humanos olharam muito raramente para seus rostos. A onipresença dos celulares rompeu uma barreira, escancarou as portas para Narciso e se converteu numa das grandes fontes de ensimesmamento e alienação contemporâneos
Catherine Shannon | Tradução: Antonio Martins/Outras palavras 


Tudo é estranho. Trabalhamos em casa. Socializamos online. Nossas vidas privadas estão cada vez mais públicas. As pessoas fingem ser marcas; as marcas fingem ser pessoas. Otimizamos nossos corpos até que eles se rompam. E quanto mais sabemos, menos seguros nos sentimos.

Neste mundo invertido, buscamos compreender o que é real e o que é verdadeiro. Para conhecer a verdade sobre nós mesmos, começamos por um lugar que nos parece natural: o espelho. Desejamos nos ver como os outros nos veem, e a vida moderna nos oferece inúmeras oportunidades para isso.

Constantemente nos deparamos com nossa própria imagem, quer queiramos ou não: em nossos celulares, vídeos com a câmera frontal, selfies, perfis nas redes sociais, chamadas de Meet, espaços públicos, sistemas de reconhecimento facial. Acabamos esquecendo que os espelhos tanto duplicam a realidade quanto a invertem. Nenhum deles mostra exatamente como somos. Tudo é estranho.

O historiador Christopher Lasch escreveu que “para o narcisista, o mundo é um espelho”. Quase 50 anos depois, esse diagnóstico continua preciso, mas não capta totalmente a extensão da crise espiritual que enfrentamos atualmente. Acredito que a sala de espelhos que nos cerca constantemente evoca algo perturbador, sombrio. É uma armadilha afetiva na qual o imaginado suplanta o real: escolhemos uma fantasia de nós mesmos em prejuízo da realidade dos outros. E essa armadilha é atraída e facilitada pela tecnologia.

Para entender o que quero dizer, basta imaginarmos nosso comportamento online na vida real, sem as plataformas que embaralham os limites do que é aceitável.

Imagine-se em uma festa de trabalho — daquelas que você detesta. Um colega se aproxima. Ao lado dele, há um grande espelho, e enquanto você conversa e responde às suas perguntas pessoais invasivas, você não olha para o rosto dele. Em vez disso, olha para si mesma, para o seu próprio reflexo. Você se observa falando e rindo, vê a careta que faz quando ele pergunta se você pretende ter outro filho em breve. Você monitora seu reflexo, corrige a postura, exagera na expressão de “estou ouvindo”. Pessoalmente, isso seria totalmente bizarro. As pessoas provavelmente perguntariam se você precisa se sentar. Mas é exatamente isso que fazemos, o dia todo, nas telas de aplicativos como o Meet.

Ou imagine uma certa influenciadora de beleza mostrando seus produtos favoritos para o verão — mas sem o celular. Por seis minutos seguidos, ela encara o próprio olhar ávido no espelho do banheiro, falando com o reflexo. Ela toca nos produtos, murmurando sobre — sei lá — os benefícios da mucina de caracol. Você chamaria a polícia. Ou pelo menos quem estiver montando o elenco do novo filme do Ari Aster.

Há algo de inquietante em ser ao mesmo tempo orador e espectador, em representar a própria identidade para si mesmo, em vez de simplesmente vivê-la. Quando assumimos os papéis de ator, público e crítico simultaneamente, isso inevitavelmente produa desgaste psicológico.

Historicamente, nós, humanos, tivemos muito pouco acesso à nossa própria imagem, por mais que sempre o desejássemos. Os espelhos de cobre e bronze do antigo Egito, Grécia e Roma — culturas obcecadas pela beleza — eram objetos de luxo produzidos para os ricos. Durante o Renascimento, os retratos a óleo encomendados eram destinados à aristocracia e eram notoriamente pouco confiáveis. Qualquer fã da história dos Tudor já ouviu a história de Ana de Cleves enganando o rei Henrique VIII com um retrato tão impreciso que ele alegou não conseguir consumar o casamento.

Os espelhos não eram objetos domésticos comuns até meados de 1800. Então, vieram as imagens estáticas de nós mesmos, as imagens em movimento de nós mesmos e a onipresente câmera do smartphone que combina as três, além de tornar essas imagens acessíveis em qualquer lugar, por qualquer pessoa. Em quase toda a história da humanidade, as pessoas não estavam olhando em seus próprios olhos, e certamente não estavam assistindo a si mesmas em loop nos stories do Instagram, tomando taças de espumante em um brunch de despedida de solteira.

Sejamos honestos: eu não deveria saber como fico quando levo o lixo para fora de casa. Mas sei, porque minha câmera de segurança Google Home me alertou recentemente sobre uma “Pessoa Vista – Câmera Traseira”. “Pessoa” é um termo generoso para o que eu vi: uma figura fantasmagórica e abatida, com o cabelo oleoso preso para trás, curvada sobre um saco de lixo como uma velha bruxa.

Somos constantemente filmados: em público, pelo Estado, por empresas privadas tentando nos vender coisas, até mesmo por estranhos. Eu me arrepio só de pensar em todas as fotos minhas que existem nos celulares de desconhecidos. No meu próprio filme de terror pessoal, lá estou eu, comendo um bagel, e algum turista de 17 anos dá um zoom no meu rosto pixelado, tira um print e manda para o grupo da família no WhatsApp — “a cara dessa mulher kkkk” — e eu me torno a piada interna que define aquele feriado em Nova York pelos próximos anos.

É curioso, especialmente considerando o quão pouco nos olhávamos no passado e o quão raros e imperfeitos eram os espelhos durante milhares de anos, que a sabedoria tradicional nos ensine a ter cautela com o ato de nos observarmos. As três religiões com mais seguidores no Ocidente — cristianismo, islamismo e judaísmo — alertam contra os perigos dos espelhos, da vaidade, do orgulho e da preocupação excessiva consigo mesmo.

Durante o shiva, o período de luto judaico de sete dias, os espelhos são cobertos para incentivar a reflexão sobre a relação entre Deus e o homem e para desencorajar a vaidade e o egocentrismo. O Livro de Provérbios ensina que o orgulho é espiritualmente prejudicial: “O orgulho precede a ruína, / A arrogância, o fracasso.”

Muitos cristãos acreditam que o orgulho não é apenas um pecado, mas o pecado original e o pior de todos. É demoníaco, “o estado de espírito completamente anti-Deus”, como escreveu C.S. Lewis em “Cristianismo Puro e Simples”. O orgulho é um afastamento de Deus e uma exaltação de si mesmo. O espelho é um símbolo de orgulho e vaidade, mas também simboliza nosso conhecimento terreno incompleto. Como escreveu o apóstolo Paulo sobre Deus em sua primeira carta aos Coríntios: “Agora vemos como em espelho, de modo obscuro; então veremos face a face”.

A tradição profética islâmica (hadith) desencoraja a representação de seres vivos em contextos religiosos. No entanto, no misticismo islâmico, um espelho embaçado é uma metáfora para a alma humana. Somente quando o ego é aniquilado e a superfície é polida e limpa, o divino se torna visível. O Alcorão também é explícito sobre o orgulho e a vaidade social: “Não desprezeis as pessoas, nem andeis sobre a terra com arrogância”.

A mensagem é clara: a auto-obsessão é espiritualmente perigosa e precisamos manter-nos vigilantes. Nas três religiões, o espelho é uma forma pobre e incompleta de ver. É coberto, escuro e embaçado. Não revela a verdade ou mesmo a nós mesmos como somos. É somente através da contemplação privada, de encontros face a face e de uma transformação espiritual interior que chegamos a conhecer a verdade.

Se ao menos fosse tão fácil. Como Narciso, somos facilmente seduzidos por nossos próprios reflexos, por nossos eus imaginados e idealizados. Diariamente, somos incentivados a essa auto-sedução. Mas seduzir a si mesmo… Francamente, não é assim que a sedução deveria funcionar.

A psicologia convencional, e praticamente todos os aspectos da vida moderna, enfatizam bastante a importância de um ego saudável. É uma ideia reconfortante e harmoniosa, essencial para qualquer personalidade equilibrada. Todos sabemos que precisamos de amor-próprio e autocuidado.

Sim, priorize-se, estabeleça limites, use uma máscara facial hidratante… A mensagem oposta, de que existe amor-próprio ou preocupação excessiva consigo mesmo, não é muito difundida no TikTok. Mas obviamente, tudo tem seus limites.


O que acontece quando os limites são ultrapassados? Coisas ruins, infelizmente. Coisas terríveis. O reflexo de si mesmo raramente é reconfortante por muito tempo. Em diversas culturas, espelhos têm sido usados por adivinhos, feiticeiros e bruxas para adivinhação, vidência e tentativas de vislumbrar além do mundo visível. No folclore e nas práticas ocultistas, o espelho não é meramente reflexivo, mas permeável — um portal onde algo pode aparecer ou alguém pode retornar.

Até mesmo os pós-modernistas têm seus próprios alertas. Em 1967, Michel Foucault descreveu o espelho de forma sombria como uma espécie de limiar, uma mistura entre um mundo de fantasia, uma utopia e algum outro lugar estranho à margem — que ele chamou de “heterotopia”. O espelho é um desses lugares estranhos porque descobrimos nossa presença e nossa ausência ao mesmo tempo. “Eu me vejo ali onde não estou”, escreveu ele, “em um espaço irreal e virtual que se abre por trás da superfície”.

Outras heterotopias, segundo Foucault, incluem a lua de mel, hospitais psiquiátricos, resorts, prisões, o teatro, o cinema, museus, bibliotecas, bordéis e o cemitério. Nesses ambientes, a ordem normal das coisas se desfaz e certas verdades são expostas. Cada um desses lugares poderia servir como uma metáfora apropriada para as telas, monitores e aplicativos de redes sociais que nos refletem incessantemente. Essa tecnologia é um espelho, mas também é um museu, um teatro, uma prisão.

Habitar esse reino espelhado e dual, essa existência duplicada, não parece natural. Nem mesmo parece neutro. Algo está errado, e quando algo está errado, Freud provavelmente já tentou explicá-lo. Ele chamou isso de “o estranho”, um conceito que, por sua própria natureza, resiste a uma definição precisa, embora, se você já viu um filme de David Lynch, você o tenha experimentado em primeira mão.

Complexos de castração e fantasias uterinas à parte, Freud faz um trabalho bastante preciso: o estranho, segundo seu ensaio de 1919 com o mesmo título, “é aquela classe do terrível que remete a algo que nos é conhecido há muito tempo, algo que outrora nos era muito familiar”. É fácil que algo novo ou desconhecido nos assuste, mas a sensação de estranheza depende de já o conhecermos de alguma forma.

O estranho é uma versão sombria do familiar. Ele surge quando a fronteira entre imaginação e realidade começa a se confundir, quando mecanismos ocultos parecem estar em ação sob a superfície e quando algo ganha vida quando não deveria. (Ou vice-versa, no caso de influenciadores, que podem ter aquele olhar morto e penetrante.) É marcado pela repetição, por uma sensação de algo predestinado e inescapável. Freud observou que o estranho é frequentemente e facilmente produzido quando um símbolo começa a assumir toda a força daquilo que representa. É difícil imaginar uma descrição mais precisa da vida online.

Os efeitos psicológicos da observação prolongada de si mesmo são realmente perturbadores. Um estudo de 2010 da Universidade de Urbino, na Itália, descobriu que, quando jovens adultos saudáveis olhavam para seus próprios rostos em um espelho sob baixa luminosidade, os resultados eram imediatos e inquietantes. Os participantes relataram ver grandes deformações em seus próprios rostos, uma pessoa desconhecida e até mesmo seres fantásticos e monstruosos. Alguns viram o rosto de um animal, como um gato, um porco ou um leão. Alguns viram seus pais. Todos experimentaram alguma forma de dissociação. Alguns participantes sentiram que o outro rosto no espelho era o que os observava.

Intimamente ligada aos espelhos e ao estranho está a ideia do duplo, ou doppelgänger, um tema há muito explorado na literatura e no cinema, desde a novela “O Duplo”, de Dostoiévski, até o filme de terror “Nós”, de Jordan Peele. No folclore alemão e do leste europeu, o doppelgänger é um presságio, um usurpador, a sombra do eu e um sinal de que a identidade é instável. O eu é dividido, assombrado, imitado e perseguido por sua própria imagem.

Hoje em dia, tratamos nossa própria imagem — tanto no espelho quanto online — como algo psicologicamente protetor: uma forma de estabilizar nossa identidade, gerenciar nossa reputação e garantir um senso de identidade coerente.

Mas tudo isso sugere a possibilidade oposta: quanto mais tentamos nos estabilizar por meio da repetição, da duplicação, da auto-observação e — vou dizer — da publicação na rede social, mais estranhos e frágeis nos tornamos. Uma preocupação com o eu estável produz instabilidade. Hoje em dia, não abordamos nossos duplos com cautela; nós os convidamos e chegamos ao ponto de os selecionar.

É como uma versão invertida de “O Retrato de Dorian Gray”. No romance de Oscar Wilde, Dorian mantém sua bela imagem pública, enquanto seu retrato revela sua corrupção e feiura interior. Sob a cultura da imagem moderna, tentamos a operação inversa: apresentamos um duplo digital perfeito à custa de nosso eu real, que fica a cargo do desconforto e da tensão entre os dois. Se você posta a foto perfeita, pouco importa que se sinta triste por dentro.

A situação é pior que a vaidade, mais sombria que o narcisismo. Os espelhos ao nosso redor, especialmente os tecnológicos, nos dividem uns contra os outros — e isso é desestabilizador e perigoso. À medida em que novos aspectos de nossas vidas se apresentam em um reino virtual, e nos identificamos cada vez mais com as fantasias de nossos sósias digitais, começamos a nos desumanizar. Quando fazemos isso, torna-se sem dúvida mais fácil desumanizar os outros.

Uma pequena forma de como isso acontece todos os dias: o desaparecimento generalizado das boas maneiras. Frequentemente encontro alguém caminhando na calçada em minha direção, absorto no celular, até que percebe a presença de outra coisa vindo em sua direção, que neste caso sou eu, um ser humano. Esse jogo de “quem pisca primeiro” insuportável pode ter algo a ver com a forma como fomos condicionados a enxergar uns aos outros: como coisas, não como pessoas. Vemos as outras pessoas como obstáculos para o que queremos, nas calçadas e em outros lugares. Ou como coisas que podemos usar para conseguir o que queremos. Grande parte da tecnologia nos trata como coisas a serem manipuladas, “usuários” a serem usados. Nos acostumamos com isso, internalizamos essa mentalidade e retribuímos o tratamento às pessoas ao nosso redor.

Quando nos olhamos no espelho, buscamos algo. Queremos ser conhecidos, vistos e compreendidos. Mas estamos olhando para o lugar errado. O espelho nos mostra nosso próprio olhar autoexaltante — o olhar do orgulho, do prazer e do ego. Essa fantasia é poderosa, até mesmo hipnotizante, mas pouco confiável. Quando olhamos apenas para nós mesmos, não encontramos nada que nos resista; não há contradições, nem interrupções. Precisamos do olhar honesto: o olhar dos outros e o olhar voltado para os outros. Para nos enxergarmos com clareza, não usamos espelhos. Usamos relacionamentos.

Antes de ter um filho, eu tinha a impressão de ser uma pessoa muito paciente. Achava que conseguiria limpar ovo mexido do chão sem nenhuma frustração, ler “Filhotes de Coruja” pela enésima vez sem me cansar de Sarah, Percy, Bill e sua mãe coruja sem nome. Mas meu lindo filho expôs minhas inadequações com uma clareza alarmante. (Estou trabalhando nisso.) Em nossos relacionamentos amorosos com os outros, somos levados para fora de nós mesmos e para o mundo.

Os espelhos nos incentivam a escolher nossas fantasias em detrimento da realidade alheia. É melhor desviarmos o olhar.

"Somos todos Lula em torno de um cafezinho" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/convite-vamos-nessa.html 

Humor de resistência

 

Quinho

A soberania em destaque https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_01847079127.html 

15 agosto 2026

Ciência & saúde

Negacionismo: crime contra a saúde pública
Precisamos discutir os limites que a sociedade está disposta a estabelecer para proteger a vida de todos
José Gomes Temporão/Liberta   
 

No dia 29/7, em Washington, o Dr. Anthony Fauci, figura central na gestão da pandemia de covid-19 nos Estados Unidos, ao depor diante do Comitê de Segurança Interna do Senado, em vários momentos invocou a Quinta Emenda da Constituição americana, exercendo seu direito de permanecer em silêncio.

Em poucas horas, o silêncio estratégico de um cientista foi transformado por influenciadores e parlamentares brasileiros em prova de que as vacinas seriam inseguras ou ineficazes.

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou um vídeo em suas redes sociais afirmando que “nunca foi pela ciência”, usando o silêncio de Fauci como argumento de que as vacinas contra a covid-19 seriam ineficazes ou inseguras, que a hidroxicloroquina e a ivermectina teriam sido injustamente demonizadas e que toda a resposta à pandemia teria sido uma fraude.

O vídeo foi endossado por Eduardo Bolsonaro, pelo senador Magno Malta (PL-ES) e por Flávio Bolsonaro. Em seguida, a base bolsonarista reviveu alegações já refutadas por inúmeros estudos científicos sobre a eficácia e a segurança das vacinas e também sobre o uso de medicamentos sem evidência comprovada.

Agências de checagem, especialistas e instituições de saúde contestaram prontamente o conteúdo dessas publicações, apontando a ausência de sustentação científica.

A base material para essa discussão é dolorosa e irrefutável. O Brasil encerrou o ciclo mais crítico da pandemia com a marca oficial de 711 mil mortes por covid-19, número sabidamente subnotificado. No auge da pandemia, o país viveu um colapso humanitário sem precedentes, chegando a registrar mais de 30% das mortes em todo o mundo, apesar de possuir menos de 3% da população global, uma cifra que não se explica por variáveis epidemiológicas, mas por decisões políticas deliberadas de um governo que promoveu tratamentos ineficazes e usou a máquina estatal para disseminar desinformação.

Notícias falsas aumentam as mortes

A história das epidemias nos ensina que o medo é um componente frequente das crises sanitárias. Da Peste Negra à gripe espanhola, a humanidade sempre buscou culpados e curas milagrosas. No entanto, o que mudou o curso da história foi a ciência. A varíola, que vitimou centenas de milhões de pessoas, foi erradicada em 1980 graças a um esforço global de vacinação. A poliomielite, que afetava milhares de crianças, tornou-se uma lembrança distante no Brasil após a criação do Programa Nacional de Imunizações (PNI) em 1973.

Dados recentes da OMS e do Unicef são contundentes ao mostrar que a imunização salvou pelo menos 154 milhões de vidas nos últimos 50 anos. Desse total, cerca de 94 milhões de mortes foram evitadas apenas pela vacina contra o sarampo. Estima-se que o PNI tenha evitado milhões de mortes e casos de incapacidade ao longo de suas cinco décadas de existência. Apenas a erradicação da poliomielite poupou o Brasil de uma carga anual de milhares de casos de paralisia infantil.

O perigo de líderes políticos adotarem o negacionismo como política de Estado possui precedentes históricos dramáticos. Na África do Sul, o ex-presidente Thabo Mbeki negou sistematicamente a relação causal entre o vírus HIV e a Aids, classificando a doença como uma consequência da pobreza e da má nutrição. Um estudo da Universidade de Harvard estimou que essa postura foi responsável por mais de 330 mil mortes evitáveis e pelo nascimento de 35 mil crianças com HIV, que poderiam ter sido protegidas.

Nos últimos anos a desinformação em saúde tornou-se uma ameaça direta à manutenção de altas taxas de cobertura vacinal e à segurança sanitária do Brasil. Uma revisão sistemática, publicada em julho de 2026, na Frontiers in Public Health demonstrou que a hesitação vacinal, alimentada por mitos como a falsa associação entre vacinas e autismo, é diretamente impulsionada pela desinformação nas redes sociais. Estudo da revista Vaccine (2025) já havia identificado que a propagação de notícias falsas é a principal razão citada pelos pais para a não vacinação de seus filhos.

Diante desse cenário, o negacionismo e seus impactos na saúde devem ser tratados como uma questão política de alta prioridade. Quando influenciadores, profissionais de saúde e políticos com grande alcance midiático, deliberadamente, distorcem evidências consolidadas, desacreditam vacinas, promovem tratamentos sem eficácia e estimulam comportamentos que colocam a segurança pessoal e coletiva em risco, a sociedade deve debater se estamos diante de uma forma de ataque à saúde pública, que deva ser enquadrada como crime.

É fundamental distinguir a dúvida legítima do negacionismo. O ceticismo e a pergunta crítica são o motor da ciência e da própria democracia. O negacionismo, por outro lado, é a rejeição sistemática de evidências consolidadas, a escolha deliberada de estudos isolados para sustentar teses refutadas e o uso de falsos especialistas para explorar o medo e a desconfiança. Aqui, a dúvida não é um caminho para o conhecimento, mas um método de erosão da confiança institucional para atingir objetivos políticos ou econômicos. 

Responsabilidade das plataformas digitais

A regulação das plataformas digitais, embora urgente, é evitada sob o pretexto da defesa da liberdade de expressão, ignorando que a infodemia produz morbimortalidade real e mensurável. A ausência de propostas objetivas para a responsabilização das plataformas por conteúdos que atentem contra a saúde pública cria um vácuo perigoso.

O negacionismo científico continua a operar sem um contraponto estatal estruturado e sem base legal que proteja a sociedade, o que deixa o SUS vulnerável a crises de confiança, que comprometem a eficácia de campanhas de prevenção e o enfrentamento de futuras emergências em saúde pública.

Defendemos a criação de um marco legal específico ou o aperfeiçoamento da legislação atual, que alcance as práticas organizadas de negacionismo que produzam risco concreto ou dano coletivo à saúde. Esta tese não defende a punição automática de toda e qualquer opinião divergente ou a dúvida do cidadão comum. O objeto aqui deve ser a postura de quem, em posição de influência ou poder, transforma a dúvida num instrumento de sabotagem sanitária deliberada.

Atualmente, as autoridades tentam enquadrar tais condutas em tipos penais genéricos, que nem sempre captam a gravidade da desinformação em massa na era digital. Esta lacuna deve ser debatida pelo Congresso Nacional e pela sociedade, especialmente diante do poder de alcance das plataformas digitais e da capacidade de agentes políticos influenciarem o comportamento de milhões de pessoas simultaneamente.

A liberdade de expressão é indispensável, mas não é um direito absoluto, que autoriza a colocação da segurança da população em perigo. Quando a comunicação se torna fraude, publicidade enganosa ou incitação a condutas perigosas, ela ultrapassa a fronteira da liberdade de opinião e ingressa no campo da ação lesiva à sociedade.

Discutir o negacionismo como crime contra a saúde pública é discutir quais limites uma sociedade está disposta a estabelecer para proteger a saúde de todos e é uma agenda democrática necessária para proteger a integridade do tecido social. Nesse contexto, a criminalização, apresenta-se como um limite civilizatório, onde haja o reconhecimento de que a produção e disseminação deliberadas de fake news, quando resulta em doença e morte evitáveis, é uma agressão intolerável à vida em sociedade.

Ganhadores do Prêmio Nobel alertam para impactos da IA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/ia-em-questao.html

Palavra de poeta

Sustância
João Batista de Carvalho    

dá para aliviar
a sede da pele
com a seiva
das lembranças
que invento
e sei que é o sonho
uma cabaça
de cuja água
um gole basta
para sustentar
a matéria do poema

[Ilustração: Marcos Guinoza]

"Tudo muda" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_01160263233.html 

Tempo presente

O novo espírito do capitalismo na era digital
A cooptação das lutas feministas e antirracistas pelo mercado revela a astúcia do sistema: a diversidade no topo não pode servir de máscara para a manutenção das desigualdades materiais na base
Marcio Pochmann
*/A Terra é Redonda

1.

O capitalismo possui uma característica histórica singular que está na sua capacidade de transformar crises e críticas em oportunidades de sua própria renovação. Diferentemente de sistemas econômicos que sucumbem diante das contestações sociais e crises, o capitalismo frequentemente sobrevive porque consegue incorporar parte das críticas e demandas que colocam em questão os seus próprios fundamentos.

Essa é a tese central de Luc Boltanski e Ève Chiapello em O Novo Espírito do Capitalismo. Ao analisar o período posterior às revoltas de Maio de 1968, os autores demonstraram como o capitalismo não apenas absorveu críticas dirigidas contra a hierarquia, a burocracia, a alienação do trabalho e a falta de autonomia individual inseridas no padrão de emprego fordista difundido no segundo após guerra mundial, convertendo-as em princípios de uma nova organização econômica neoliberal.

A firma rígida e vertical do passado deu lugar à empresa flexível, inovadora e organizada em redes. Da mesma forma, os valores associados às críticas culturais dos anos 1960, como a criatividade, a autonomia e a capacidade de adaptação, passaram a assumir centralidade na competitividade empresarial.

O neoliberalismo não eliminou as hierarquias, mas as reconfigurou ao substituir a supervisão direta pelo autogerenciamento, transferindo para o próprio trabalhador a responsabilidade do seu desempenho. Sob a lógica do “empresário de si mesmo”, o indivíduo passou a gozar de uma falsa autonomia em que a pressão por metas é internalizada e, com isso, o sucesso ou o fracasso corporativo passaram a ser vistos como mérito ou culpa exclusivamente individuais, gerando um aumento significativo no esgotamento psicológico e no burnout, conforme destacam Pierre Dardot e Christian Laval em A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal e Byung-Chul Han em Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder.

A grande capacidade de reconfiguração do capitalismo não tem sido a de somente resistir aos seus críticos. É de aprender com eles, para se adaptar e continuar a dominar. Neste sentido que emergem as duas das maiores transformações sociais em curso neste primeiro terço do século XXI, apropriada ao possível fenômeno semelhante que se encontra em marcha pela importante atualidade das lutas pela emancipação feminina e contra as desigualdades raciais.

2.

A ascensão da chamada SHEeconomy parece expressar uma mudança histórica profunda. A ampliação da escolaridade feminina, a maior participação das mulheres no mundo do trabalho, o crescimento da autonomia financeira e a presença crescente em posições de decisão representam conquistas sociais construídas por décadas de mobilização.

O estudo, por exemplo, do Morgan Stanley, um grande banco de investimento e serviços financeiros multinacionais dos Estados Unido, identificou esse movimento como uma das grandes tendências econômicas do século XXI, destacando que, até 2030, cerca de 45% das mulheres estadunidenses entre 25 e 44 anos poderão estar solteiras. O dado se refere especificamente à condição de mulheres solteiras, embora esteja inserido em um processo demográfico mais amplo, marcado pela postergação da maternidade, redução da fecundidade e transformação dos arranjos familiares.

Mais do que uma mudança de comportamento, trata-se de uma transformação na própria organização da sociedade. O capitalismo contemporâneo rapidamente percebeu essa mudança. 

3.

A autonomia feminina passou a movimentar novos mercados de investimento, habitação, saúde, educação, previdência, tecnologia e serviços personalizados. A longevidade feminina tornou-se um setor econômico estratégico. Novas formas familiares produzem demandas adicionais de consumo.

A emancipação passou também a ser interpretada como oportunidade econômica. E é essa a contradição central do capitalismo contemporâneo que pode reconhecer e incorporar avanços sociais sem necessariamente alterar todas as estruturas que produzem desigualdade.

Sobre essa tensão que se destaca a análise de Nancy Fraser, Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya encontrada em Feminismo para os 99%. As autoras alertam para o chamado neoliberalismo progressista, no qual pautas legítimas de reconhecimento, diversidade e igualdade podem conviver com políticas econômicas marcadas ortodoxia da financeirização, precarização do trabalho e concentração de riqueza.

O problema não está, evidentemente, na conquista da igualdade feminina. O desafio está na garantia de que essa igualdade não seja limitada a uma parcela privilegiada, mas permita alcançar a maioria das mulheres, especialmente aquelas submetidas às maiores vulnerabilidades econômicas e sociais. 

4.

O mesmo debate aparece no campo racial. A ampliação da presença negra nas universidades, empresas, instituições públicas e espaços de liderança representa um inquestionável avanço democrático fundamental. A representatividade importa muito porque permite romper barreiras históricas e modifica padrões de exclusão.

Entretanto, a experiência histórica mostra que a diversidade nos espaços de poder precisa caminhar junto com a transformação das condições materiais que estruturam desigualdades. Isso porque uma sociedade pode ser mais diversa no topo e continuar desigual em sua base.

Por conseguinte, a questão central não estaria em escolher entre representação e transformação estrutural. Uma sociedade democrática necessita simultaneamente das duas dimensões. De um lado, a ampliação da presença dos grupos historicamente excluídos e, de outro, a modificação das estruturas econômicas e sociais que limitam a difusão das oportunidades.

O capitalismo do início do século XXI parece caminhar para uma nova etapa em que a própria vida se transforma em espaço de valorização econômica. Dados pessoais tornam-se ativos estratégicos, enquanto a inteligência artificial reorganiza o trabalho, a transição ecológica redefine investimentos e a economia dos cuidados ganha centralidade. 

5.

A diversidade passa a integrar estratégias empresariais e institucionais. A SHEconomy, portanto, não seria apenas um fenômeno relacionado às mulheres. Ela estaria por revelar uma mudança mais ampla com o deslocamento do centro da acumulação econômica da fábrica para a própria vida social.

No passado do capitalismo industrial, o principal recurso era a força de trabalho. No presente do capitalismo digital, a informação, o conhecimento, o tempo, os comportamentos, os vínculos sociais e os modos de viver tornam-se centrais.

A grande disputa no segundo quarto do século XXI tenderá a ser definida a partir dessa nova fase de produzir uma sociedade mais democrática ou apenas um capitalismo mais sofisticado em sua capacidade de incorporar críticas e novas demandas da era digital. A história mostra que o capitalismo frequentemente transforma contestação em inovação. Foi assim depois de 1968. Poderia ser novamente com as pautas feministas e antirracistas da atualidade?

O desafio das sociedades contemporâneas parece estar nas lutas pela incorporação dessas conquistas sem reduzir direitos sociais a estratégias de mercado. A verdadeira emancipação não será medida apenas pela presença de mulheres e pessoas negras em posições de liderança, embora isso seja indispensável.

Será medida pela capacidade de construir uma sociedade em que igualdade, diversidade e dignidade sejam características estruturais e não apenas novas oportunidades seletivas de valorização econômica. Essa parece ser uma grande questão trazida pelo novo espírito do capitalismo digital em transformação por sua capacidade de adaptação dos mercados em mutação da própria sociedade.

*Marcio Pochmann, professor titular de economia na Unicamp, é o atual presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Autor entre outros livros de Novo sujeito coletivo: a governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil (Editora da Unicamp). [https://amzn.to/40lMNWU]

Leia também: "O Leviatã digital" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/poder-algoritmico.html