Em campo,
heranças das lutas contra escravidão e ditaduras
Enio Lins
BRASIL X HAITI é o jogo de hoje. Comentários flutuam na mídia, cobrando do
escrete canarinho uma goleada humilhante (do tipo 7x1) como se fosse uma
espécie de obrigação pelo fato do outro time ser “fraco”. Tolice. O espírito
deve ser vencer jogando bonito, respeitando a equipe adversária antes, durante
e depois do jogo.
MARCOS DAVI, médico e intelectual, propôs uma pauta para esta coluna:
lembrar Papa Doc e seus Tonton-Macoute. Ótima ideia. Vamos bater uma bola entre
Doc pai, Doc filho, Mito pai e mitos júniores. Quando esse texto estava
praticamente concluído, caiu na rede uma postagem sobre ações dos Tonton
Macoute nas copas de 1950 e 1974 – gol de placa de @agendadopoder. Voltaremos
noutro dia a esse tema específico.
PAPA DOC era o apelido de François Duvalier, ditador corrupto que
oprimiu o Haiti por 14 terríveis anos, de 1957 até 1971, quando morreu. Antes
de bater as botas ungiu seu filho Jean Claude Duvalier, o Baby Doc, como
sucessor. Esse Zero-um oprimiu e roubou o Haiti por 15 terríveis anos, de 1971
até 1986, quando foi deposto e partiu para um exílio luxuoso tal qual o Zero-três
do Jair, só que em Paris. Em verdade, Baby Doc era o Zero-quatro por ordem de
nascimento, mas Papa Doc considerava as três primeiras crias como fraquejadas:
Marie‑Denise, Nicole e Simone Duvalier foram descartadas como herdeiras
políticas por serem mulheres. Como se vê, o passado haitiano de Papa Doc &
Baby Doc é o sonho de futuro brasileiro para Mito pai & mitos júniores.
TONTON MACOUTE significa, no dialeto criolo, “Homem do Saco” ou
“Bicho-Papão”. Era o apelido da Milícia de Voluntários da Segurança Nacional,
polícia política paramilitar comandada, sucessivamente, por Papa Doc e Baby
Doc. Aterrorizaram a população haitiana durante cerca de 30 anos, e se estima
que tenham assassinado aproximadamente 150 mil pessoas, “comunistas” e
opositoras da dinastia Duvalier. O craque haitiano Joe Gaetjens (que brilhou na
copa de 1950 defendendo os Estados Unidos) foi um dos desaparecidos pelos
Tonton Macoute – apenas por ser irmão de oposicionistas.
EM 6 DE JULHO DE 2005, com o Haiti sob intervenção da ONU, aconteceu o
Massacre de Cité Soleil, cometido pela tropa das Nações Unidas comandada pelo
general brasileiro Augusto Heleno. Os “capacetes azuis” invadiram a favela Cité
Soleil, com o objetivo de “neutralizar” Emmanuel Wilmer, conhecido como Dread
Wilme, apontado como “líder de gangue” ligado a Jean-Bertrand Aristide
(ex-padre e primeiro presidente democraticamente eleito do Haiti, deposto por
um golpe). O alvo foi morto, juntamente com cinco ou seis supostos parceiros –
mas os militares sob as ordens de Heleno assassinaram outras 70 pessoas
inocentes durante a ação, e dentre essas, pelo menos, 20 mulheres e crianças.
Pelos relatórios oficiais, foram disparadas 22.700 balas, 78 granadas e cinco
bombas de morteiro. Um escândalo que maculou a imagem dos “capacetes azuis”.
EM 12 DE JANEIRO DE 2010, Zilda Arns – médica brasileira, fundadora e
coordenadora internacional da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa
–, estava em Porto Príncipe numa missão humanitária para organizar o trabalho
da Pastoral da Criança haitiana. Fazia uma palestra numa igreja lotada, com a
participação de 15 religiosos cubanos, quando um violento terremoto sacudiu o
Haiti. Em todo país, morreram aproximadamente 300 mil pessoas e a missionária
Zilda Arns foi uma delas.
QUE A SELEÇÃO BRASILEIRA, hoje, vença a seleção haitiana. Que goleie, jogando
bonito, mas respeitando, além do time adversário, o país que ele representa. O
Haiti divide memórias dolorosas com o Brasil. É um povo irmão, forjado nas
dores da antiga escravidão e das recentes ditaduras, sem falar dos desastres
naturais. Que prevaleça a memória de Zilda Arns, heroína no Haiti e no Brasil.
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