14 março 2026

O filme e o Oscar

Com ou sem Oscar, O Agente Secreto é o grande campeão!
Enio Lins      

NO DOMINGO, 15, a mais famosa premiação do cinema mundial será concedida, em sua 98ª edição, no Dolby Theatre, em Los Angeles, Estados Unidos. Preferindo dispensar as emoções do acompanhamento em tempo real, adianto minha torcida pelo Agente Secreto. Como no ano passado, com Ainda Estou Aqui, considero o filme de Kleber Mendonça Filho o grande vitorioso desde antes.

NÃO GANHANDO NADA 
da Academia de Hollywood, já ganhou. Independentemente do que possar vir de lá, lá chegou com quatro indicações: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator, Melhor Elenco. O Brasil conquistou, com O Agente Secreto, um extraordinário espaço internacional, exibindo a alta qualidade do cinema brasileiro – e, não menos importante, debatendo a memória de uma ditadura corrupta. Tema universal, contemporâneo, pois as velhas formas autoritárias seguem ameaçando o mundo.

AINDA ESTOU AQUI 
torcendo. Vibrando. Os dois filmes fazem profundas denúncias, sem panfletarismos (e tenho respeito pelos panfletos). N’O Agente Secreto, o papel central, fictício, é ainda menos engajado que Rubens Paiva, personagem real. A sentença de morte contra Armando/Marcelo (Wagner Moura) deve-se à sua recusa de participar de um esquema de corrupção. Contra ele foi montado uma ação “apolítica” unindo agentes da repressão política (militares e civis) com bandidos comuns, assassinos de aluguel.

ESSA DUPLA MILITÂNCIA, 
com agentes da ditadura participando simultaneamente da repressão política e de crimes comuns (assassinatos, assaltos, tráfico...), é traço característico da ditadura brasileira implantada em 1964. E esse laço se estende até hoje, como se pode conferir na simbiose entre as milícias e mitos da extrema-direita. A ficção n’O Agente Secreto, não por coincidência, lembra um crime covarde, cometido em Pernambuco, emblemático dessa simbiose: o Escândalo da Mandioca, que resultou no assassinato do procurador da República Pedro Jorge de Melo e Silva, aos 35 anos de idade, em 3 de março de 1982. Recebeu três tiros à queima-roupa, quando saía de uma padaria, em Olinda. O general João Batista Figueiredo era o ditador de plantão.

PEDRO JORGE DE MELO E SILVA, 
alagoano, era o responsável pelas investigações sobre um gigantesco esquema de corrupção que drenava fortunas de financiamentos do Banco do Brasil que deveriam ir para a produção rural (mandioca), no município de Floresta, Pernambuco. Calcula-se que foram roubados, em moeda da época, entre 1979 e 1981, cerca de CR$ 1 bilhão e 500 milhões. O procurador denunciou 31 pessoas, dentre elas, o temido Major Ferreira, o Capitão Audas Diniz, e o Deputado Vital Novaes. Jurado de morte, o Pedro Jorge foi abandonado ao relento pelo governo do General Figueiredo. O procurador-geral da República, Inocêncio Mártires Coelho, afastou-o do processo, em meio a uma enxurrada de ameaças, fragilizando sua posição.

MAJOR DA PM 
de Pernambuco, José Ferreira dos Anjos não só foi o assassino do procurador Pedro Jorge. Depondo em 2012, confirmou ter participado do atentado, em 29 de abril de 1969, contra o líder estudantil Cândido Pinto (alvejado na coluna, ficou paraplégico pelo resto da vida), e da tortura e assassinato, em 27 de maio de 1969, do Padre Henrique (assessor de Dom Hélder Câmara). Major Ferreira afirmou ter sido “recrutado pelo então comandante do 4º Exército, General Ednardo D'Ávila Melo para atuar no combate a opositores do regime militar” e descrevia-se como “um homem de direita a serviço da Revolução de 1964”. Condenado a 32 anos e seis meses de reclusão por homicídio e falsidade ideológica, ganhou a liberdade após cumprir 10 anos, sete meses e 13 dias de pena. Morreu, livre e solto, em 19 de novembro de 2018.

ATUAL, CORAJOSA, NECESSÁRIA,
 a denúncia d’O Agente Secreto afronta o mito de que “a ditadura militar torturou, matou, mas não roubou” - uma mentira patética repetida à exaustão pela extrema-direita. Essa alegoria essencial, expondo uma das marcas do golpe de 1964, é um dos muitos valores do filme de Kleber Mendonça Filho & equipe, mérito que, certamente, o eleitorado do Oscar não tem como perceber. E muita gente no Brasil também não nota, ou finge não entender.

"O agente secreto" segundo o seu diretor https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/o-agente-secretto-pelo-seu-diretor.html 

Humor de resistência

Miguel Paiva


 

Minha opinião

É sábado. Viva!
Luciano Siqueira     

Passarei este sábado trabalhando. Em casa, às voltas com textos que tenho que entregar, rascunhos de artigos e notas de leituras.

De certo modo, sinto-me contraventor: em nossa cultura o sábado não é apenas um dia da semana; é uma instituição cultural. Se a segunda-feira significa a retomada de tudo e o domingo uma espécie de interregno modorrento, o sábado permite as aventuras da alma. Sem restrições.

É possível comer melhor e sem limites? Ótimo! Temos assunto para o dia todo e talvez até o início da madrugada? Maravilha!

Brindemos, então à vida, ao amor, às conquistas e à superação de contratempos e ameaças

O melhor do sábado é fazer nada. Mas hoje tenho muito que fazer. Que assim seja, sem perder o prazer de estar vivo e às voltas com desafios que ressurgem e se renovam.

Leia também: Um milhão de amigos e a trena imaginária https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_10.html

Trump, o gosto amargo da guerra

A escolha de Donald Trump
Trump descobriu que decapitar um regime não é o mesmo que subjugar uma nação: o Irã resiste e o preço do petróleo cobra a fatura
MICHAEL ROBERTS*/A Terra é Redonda     

1.

Hoje, o petróleo bruto ultrapassou $100 por barril, apesar da Agência Internacional de Energia (AIE) ter aprovado a maior liberação já realizada de reservas emergenciais de petróleo. Os Estados-membros, em consequência, estão programando liberar 400 milhões de barris nos próximos dias. Isso terá pouco efeito no preço do petróleo porque o Iraque teve que suspender as operações em seus terminais de petróleo após dois petroleiros terem sido alvejados em águas iraquianas.

O Estreito de Ormuz também permanece efetivamente fechado; vários navios comerciais parecem ter isso atingidos na costa do Irã. Isso levou grandes produtores do Oriente Médio a reduzirem a produção, restringindo ainda mais a oferta global. O governo iraniano afirma que os EUA devem garantir que nem ele nem Israel atacarão o país no futuro para que um cessar-fogo seja considerado.

Portanto, a guerra no Irã não está indo bem para Donald Trump. A sua “escolha pela guerra” (ou seja, pela agressividade desenfreada) tornou-se uma “escolha de Hobson”.[i] O seu “plano” de decapitar a liderança iraniana com bombardeios rápidos e assim conseguir uma mudança de regime nos moldes da “solução venezuelana” não aconteceu.  O Irã não é a Venezuela. Trata-se de um país enorme com mais de 90 milhões de habitantes e um estado armado até os dentes que possui equipamentos militares necessários para se defender por um período longo. O regime controlado pelos mulás iranianos – é preciso ver – está diante de uma luta existencial.

A esperança que Donald Trump tinha de uma revolta do povo iraniano contra o regime não se concretizou. O regime é odiado pela maioria. Recentemente, como se sabe, matou mais de 30.000 pessoas que protestavam nas ruas contra as más condições vida. Mas quando bombas caem sobre as cabeças das pessoas, elas deixam de poder ir às ruas, passando a temer pela própria existência. Além disso, qualquer protesto desse tipo seria ferozmente reprimido pelo regime, que até agora não se dividiu; ao contrário, parece unido para continuar resistindo.

Então, põe-se agora uma “escolha de Hobson” para Donald Trump. Ou ele declara uma “vitória” e consegue um cessar-fogo com o regime ainda intacto, ou reforça a aposta no possível uso de tropas terrestres, aumentando os bombardeios para tentar derrubar o regime apenas com força militar. Mas isso pode significar a morte de muitos americanos.

Os israelenses não querem parar. Eles querem, se isso for possível, reduzir o Irã à condição de Gaza. Mas eles precisam do financiamento e dos armamentos providos pelos EUA; ademais, eles enfrentam ataques perigosos de mísseis do Irã e do Hezbollah no Líbano.

2.

De qualquer forma, tendo iniciado uma guerra que a maioria dos americanos se opõe (segundo pesquisas de opinião), Donald Trump e seus seguidores estão agora diante de uma possível derrota nas eleições legislativas de meio de mandato. O Congresso, controlado pelos republicanos de Donald Trump, não fez nada para impedir essa guerra, ilegal segundo a constituição dos EUA.

Um congresso democrata também não garantirá que Donald Trump venha a ser contido, mas ele poderá bloquear o financiamento da guerra e impedir outras políticas econômicas de Donald Trump.

E essa guerra está custando ao estado americano mais de 1 bilhão de dólares por dia. Claro, a administração Donald Trump aumentou dramaticamente o orçamento de “defesa” para mais de US$ 1 trilhão por ano! Contudo, após apenas duas semanas já está se vendo que a guerra está consumindo uma parte considerável do armamento e da logística imediatmente disponíveis.

Isso, como resultado, está reduzindo o material necessário para continuar a guerra na Ucrânia. O presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy já está reclamando da falta de financiamento e de armamentos que precisa para sustentar a linha de frente contra os russos.

Mas não se trata apenas do custo da guerra pressionando o orçamento dos Estados Unidos, muito mais preocupante é o impacto nos preços da energia e, eventualmente, na economia global. Como já argumentei antes, os preços do petróleo e gás só subiriam a níveis astronômicos se duas coisas acontecessem: primeiro, se o Estreito de Ormuz, um ponto chave de estrangulamento para o tráfego marítimo, fosse bloqueado; e segundo, se as instalações de produção e distribuição de petróleo nos estados do Golfo, Arábia Saudita e Irã fossem destruídas.

Até agora, a primeira condição está satisfeita. Só a ameaça de atacar petroleiros nesse estreito já parou o trânsito de petroleiros, ao mesmo tempo em que os prêmios de seguro de transporte marítimo dispararam, deixando muitos navios descobertos. E para evitar destruição, muitos estados do Golfo fecharam instalações de produção. Portanto, apesar das alegações de Donald Trump de que navios serão escoltados pelo Estreito de Ormuz pela marinha dos EUA e que o regime iraniano estaria “quase completamente” derrotado, as grandes oscilações nos preços do petróleo e gás continuam e permanecem muito acima dos níveis pré-guerra.

3.

O que tudo isso pode significar para a economia mundial? Isso depende do que vier a acontecer com os envios de petróleo e gás da região e da escala dos danos de longo prazo às instalações de petróleo e gás. Se um cessar-fogo for alcançado na próxima semana, ainda haverá uma queda nas exportações mundiais de petróleo e gás, mas isso talvez não seja suficiente para manter os preços da energia nos altos níveis atuais.

Mas se o conflito durar meses, as exportações de energia podem cair de 5 a 6%, o que manteria os preços cerca de 10 a 20% acima dos níveis pré-guerra.  E se as instalações de petróleo e gás fossem permanentemente danificadas ou ficarem fora de operação por muito tempo, então os preços do petróleo poderiam chegar a $150 por barril, ou quase três vezes os níveis pré-guerra, e os preços do gás natural disparariam para €120 MWH, ou quatro vezes a taxa pré-guerra.

Segundo a Capital economics, tal aumento seria comparável ao choque global de oferta do final dos anos 1970, que contribuiu para a alta inflação e recessão global. Mas pode não ser tão ruim, já que as principais economias dependem muito menos do petróleo e gás do que nos anos 1970, graças à transição para energia renovável e a uma melhora geral na eficiência energética.

Mesmo assim, se ocorrer uma guerra prolongada, isso intensificará a tendência preexistente nas principais economias para caírem em estagflação, ou seja, no aumento da inflação dos preços e do desemprego, algo que vem junto com a queda do crescimento econômico. Segundo economistas do Royal Bank of Canada, a inflação dos preços ao consumidor nos EUA dispararia para 3,7%, ante os atuais 2,4% ano anterior, se os preços do petróleo se mantiverem em $100 por barril.

A economia dos EUA perdeu 92.000 empregos em fevereiro e a taxa de desemprego subiu para 4,4%. E isso após um 2025 marcado por um aumento médio mensal de empregos considerado bem fraco; fora dos períodos em que ocorreu uma recessão em mais de duas décadas, ele se mostrou como o mais fraco. A guerra contra o Irã, que eleva a incerteza, tende a aumentar ainda mais o desemprego.

A inflação europeia também dispararia se os preços do gás natural permanecerem nos níveis atuais. E a inflação aumentaria significativamente nas economias do Leste Asiático e na Índia. O crescimento econômico mundial, segundo o Fundo Monetário Internacional, resistiria a um aumento de 10% nos preços da energia, mas desaceleraria de cerca de 3,2% projetado para este ano para 3%. O Reino Unido e a zona do euro cresceriam cada um apenas 1% ou menos.

Mas se os preços do petróleo permanecerem acima de $100 por barril, o dano seria muito maior. Por exemplo, a Société Générale estimou que cada aumento sustentado de 10 dólares nos preços do petróleo ampliaria o déficit em conta corrente da Índia, atualmente em torno de 1% do PIB, em meio ponto percentual e reduziria o crescimento econômico em 0,3%. 

Se continuar a $100 por barril, isso significaria um déficit atual de 3% do PIB e uma redução no crescimento econômico de uma previsão de 6,4% para 5% para 2026. E nesse nível de preço do petróleo, isso poderia reduzir o crescimento do PIB real dos EUA em 0,8% (ou seja, de 2% ao ano para perto de 1%) e a inflação americana poderia chegar a 4% ao ano.

Isso representaria um sério dilema para os Bancos centrais. Eles deveriam aumentar as taxas de juros para tentar conter a inflação ou deixar a inflação disparar para não prejudicar o crescimento econômico? O aumento das taxas pode desencadear o estouro da bolha de Inteligência artificial que ainda está a caminho.

De qualquer forma, famílias ao redor do mundo, nas economias do Norte Global e do Sul Global, enfrentariam preços crescentes e custos de empréstimos e/ou queda no emprego e na renda. A escolha de Hobson se apresentaria tanto para eles como para Donald Trump.

*Michael Roberts é economista. Autor, entre outros livros, de Capitalism in the 21st Century: Through the Prism of Value (Pluto Press). [https://amzn.to/4kVvi9z]

Tradução: Eleutério F. S. Prado.

Publicado originalmente em The next recession blog.

Nota do tradutor


[i] Hobson’s choice é um filme britânico de comédia romântica de 1954, dirigido por David Lean, baseado na peça de mesmo nome de Harold Brighouse. Nele, há uma situação em que uma escolha livre é oferecida, mas na verdade, existe apenas uma opção disponível. É a ilusão de ter opções, quando aceitar aquela que se apresenta vem a ser a única alternativa disponível.

Leia também: O desastre de Trump no Oriente Médio https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/oriente-medio-trump-atira-no-proprio-pe.html

O ponto de vista chinês

China e a transição global: o sentido estratégico da coletiva de Wang Yi
Aos jornalistas, o chanceler chinês expõe a leitura de Pequim sobre a reorganização internacional diante da persistência da lógica hegemonista e da emergência de uma ordem multipolar
Diego Pautasso/Portal Grabois      

Entre a hegemonia e a multipolaridade: o que revela a coletiva de Wang Yi 

A coletiva concedida pelo ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, à margem da Assembleia Popular Nacional de 2026, não foi apenas um balanço diplomático. Foi, sobretudo, uma declaração política sobre a natureza da atual transição sistêmica e os princípios que Pequim reivindica para a reorganização da ordem internacional.

Em meio a um cenário de guerras regionais, crise da globalização e recrudescimento das disputas geopolíticas, a fala de Wang Yi evidencia um contraste cada vez mais nítido entre duas visões de ordem internacional. De um lado, a persistência de uma lógica hegemonista, centrada no uso da força, no unilateralismo e na preservação de hierarquias herdadas da ordem liberal do pós-Guerra Fria. De outro, a tentativa, ainda em construção, de uma arquitetura internacional mais multipolar, com maior peso político do Sul Global.

A crítica ao unilateralismo e à política de poder dos Estados Unidos

Um dos aspectos mais significativos da coletiva foi o modo como Wang Yi enquadrou os conflitos internacionais recentes, especialmente no Oriente Médio. Ao comentar os ataques militares conduzidos por Estados Unidos e Israel contra o Irã, o ministro afirmou que “a força não oferece soluções” e reiterou princípios clássicos do direito internacional, tais como respeito à soberania, não intervenção e resolução política de disputas.

Esse posicionamento contrasta com a prática histórica das potências ocidentais. A liderança euro-estadunidense no sistema internacional foi construída assentada no colonialismo, no imperialismo e na imposição de hierarquias globais de poder. O que assistimos, porém, é uma fragilização do sistema multilateral institucionalizado no pós-Segunda Guerra Mundial, que sustentaria a narrativa da “ordem internacional baseada em regras” apesar da persistência dos mecanismos assimétricos de intervenção e coerção. Sob Trump, efetivamente, assistimos a um inédito desprezo pelas organizações internacionais, combinado a intervenções (Venezuela e Irã), recrudescimento de embargos (Cuba), imposição generalizada de tarifaços unilaterais, entre outros.

Ao enfatizar que “a lei da selva não deve governar o mundo”, Wang Yi não apenas critica ações específicas, mas questiona a legitimidade de uma ordem internacional que, embora fundada formalmente no direito internacional, continua marcada pela assimetria de poder. Nesse sentido, a diplomacia chinesa procura se apresentar como defensora de uma ordem baseada em regras multilaterais e no protagonismo das Nações Unidas, uma posição que dialoga diretamente com as demandas de grande parte dos países em desenvolvimento.

Multipolaridade, Sul Global e reforma da governança global

Outro eixo central da coletiva foi a defesa explícita de um mundo multipolar. Wang Yi rejeitou a ideia de um sistema internacional organizado por um diretório de grandes potências, como sugerem algumas interpretações sobre um eventual “G2” entre China e Estados Unidos. Segundo ele, a história mundial “sempre foi escrita por muitos países” e o futuro da humanidade dependerá da participação de todos.

Essa formulação reflete um deslocamento mais amplo em curso na economia política internacional. Nas últimas décadas, a participação dos países do Sul Global na economia mundial cresceu de forma significativa, alterando gradualmente o equilíbrio de poder global. Nesse contexto, iniciativas como os BRICS, a Organização de Cooperação de Xangai e propostas como a Iniciativa de Governança Global buscam ampliar a representação e a voz dos países em desenvolvimento nos mecanismos de governança internacional.

Talvez o elemento mais significativo da coletiva tenha sido a ênfase reiterada no papel do Sul Global. Wang Yi destacou que a participação desses países na economia mundial saltou de cerca de 24% para mais de 40% nas últimas quatro décadas, transformando-os em atores centrais da multipolaridade emergente.

Mais do que um diagnóstico econômico, trata-se de uma formulação estratégica. Ao afirmar que “o coração da China está no Sul Global”, Pequim busca consolidar sua posição como parceiro privilegiado dos países em desenvolvimento, oferecendo alternativas de cooperação em infraestrutura, comércio e financiamento. A expansão das relações com a África, a América Latina e o Sudeste Asiático, frequentemente mediadas por iniciativas como a Belt and Road Initiative, o Fórum China-CELAC, ASEAN ou FOCAC, insere-se justamente nessa lógica.

Esse movimento, no entanto, também provoca reações dos Estados Unidos e de seus aliados, que passaram a intensificar esforços para conter ou limitar a influência chinesa em regiões tradicionalmente consideradas parte de sua esfera de influência. A política estadunidense de contenção da China, iniciada com Obama, tem se tornado mais aguda.

Uma disputa sobre a forma da ordem internacional

A coletiva de Wang Yi evidencia que o debate atual não se restringe a rivalidades geopolíticas tradicionais. O que está em jogo é a própria forma da ordem internacional. Enquanto parte do Ocidente busca preservar uma arquitetura institucional que consolidou sua primazia após a Segunda Guerra Mundial e, sobretudo, após o fim da Guerra Fria, a China, acompanhada por diversos países do Sul Global, reivindica uma redistribuição de poder e uma reforma das estruturas de governança global.

Essa disputa não implica ruptura. A China reafirma seu compromisso com o multilateralismo e com as instituições internacionais, particularmente a ONU. A diferença reside menos na rejeição das regras existentes e mais na tentativa de redefinir quem participa da elaboração dessas regras.

Nesse sentido, a coletiva de Wang Yi pode ser interpretada como expressão de um processo mais amplo de transição sistêmica. A ascensão econômica e tecnológica da China, combinada com o crescimento relativo do Sul Global, está alterando gradualmente a correlação de forças no sistema internacional.

A fala do chanceler chinês sugere que Pequim pretende disputar essa transição não apenas por meio de capacidades econômicas ou tecnológicas, mas também através de uma narrativa alternativa sobre governança global, desenvolvimento e cooperação internacional. Se não está claro qual forma irá assumir o sistema internacional, o que parece cada vez mais evidente, contudo, é que vivenciamos uma inflexão histórica. As demonstrações de força dos Estados Unidos expressam os riscos e a urgência da construção de alternativas sistêmicas.


Diego Pautasso é doutor e mestre em Ciência Política e graduado em Geografia pela UFRGS. É professor do Colégio Militar de Porto Alegre, co-criador do projeto de difusão científica @fiosdechina (Instagram) e diretor do Centro de Estudos Avançados Brasil-China (Cebrach). Autor dos livros Imperialismo  ainda faz sentido na Era da Globalização?; A China Atual No Legado De Mao Tsé-tung; e China e Rússia no Pós-Guerra Fria, bem como co-autor de A China e a Nova Rota da Seda; Teoria das Relações Internacionais: contribuições marxistas; e de Domenico Losurdo: crítico do nosso tempo. E-mail: dgpautasso@gmail.com

Foto: O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, também membro do Bureau Político do Comitê Central do Partido Comunista da China, participa de coletiva de imprensa sobre a política externa e as relações internacionais do país à margem da quarta sessão da 14ª Assembleia Popular Nacional (APN), em Pequim, capital da China, em 8 de março de 2026. (Xinhua/Li Xin)

Pela paz mundial, contra as guerras imperialistas de Trump! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/editorial-do-vermelho.html 

Arte é vida

Alice, 12 anos

 Falava muito pouco, mas fazia o Brasil inteiro rir https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/um-estilo-unico.html 

Dica de leitura


Um mergulho profundo e bem humorado no universo da cantoria de improviso: "A vida cheia de graça do cantador de viola", de Ésio Rafael, Marcos Passos e Zelito Nunes

O cantador de viola – autêntico cronista da vida sertaneja, que em versos metrificados dá cores ao cotidiano, às dores e as alegrias do povo.

No prefácio, o escritor e poeta Maviael Melo afirma que “os poetas cantadores são nosso maior patrimônio, nossa riqueza e nosso orgulho de sermos nordestinos.”

Mais, citando o poeta François Silvestre, “só é cantador quem traz no peito o cheiro e a cor de sua terra, a marca de sangue dos seus mortos e a certeza de luta dos seus vivos.” (LS)

A vida segue www.lucianosiqueira.blogspot.com