08 novembro 2026

História viva

Antes que a memória se apague 
Luciano Siqueira    

Já me sugeriram algumas vezes e eu mesmo tenho pensado frequentemente em tomar a iniciativa: registrar em pequenas falas em vídeo causos da vida e da militância política de mais de cinco décadas. 

Aqui e acolá, em meio a uma conversa, me vem a lembrança do ocorrido.

Conto — e meus interlocutores se interessam: por que você não escreve sobre essas coisas? Devia gravar em vídeo, também sugerem.

A ideia me agrada e, confesso, estou a um passo de colocá-la em prática. 

Com algumas dúvidas. 

Apenas escrevo e publico em meu blog? Ou gravo em falas de não mais do que um minuto e posto no Instagram? 

Tendo à segunda alternativa. Talvez não exija o esmero da palavra escrita e possibilite mais espontaneidade na narrativa. 

Lembro-me de causos que dizem respeito a mim mesmo, à minha própria trajetória desde a adolescência. Outros envolvem personagens os mais diversos, sobretudo relacionados à militância política — dos primeiros passos na adolescência ao movimento estudantil e à atuação clandestina sob o regime militar.

Até causos de cadeia tenho para contar. 

Da militância na frente institucional também, incluindo dois mandatos de deputado estadual, vereador no Recife e 16 anos vice-prefeito da cidade.

Idem da vida partidária de mais de seis décadas. 

Trago a questão aqui movido pela vontade crescente de levá-la à prática. 

Se a vontade persistir, talvez eu comece ainda no fim deste ano de 2026.

Um causo registrado em crônica:  “Catabil sobre o Índico” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/04/minha-opiniao_13.html

Palavra de poeta

Poema dedicado a Maria Luíza

Joaquim Cardozo       

Eu te quero a ti sempre e somente.
Eu te quero a ti pura e tranquila
Preciosa entre todas as mulheres
Que como rosas, como lírios, sobre mim se debruçaram,
Entre aquelas que de mim se aperceberam
Ao doce esmaecer das tardes luminosas.
Eu te quero a ti pura e tranquila.
Nos espelhos da memória refletida
Pelas horas do meu tempo transpareces
E o Sol do meu deserto te ilumina
E a noite do meu sono te adormece.
Eu te pressinto no silêncio das verdades que ignoro,
No silêncio e no delírio dos desejos impossíveis:
através de um céu sem nuvens, do céu que é um prisma azul
Eu te revelarei a cor da tempestade
E a refração serena do meu mais íntimo segredo…

Em horizontes de ouro e de basalto
Indicarei o teu caminho
Entre flores de luar…
Farei uma lenda sobre teus cabelos…
Soneto Somente
Nasci na várzea do Capibaribe
De terra escura, de macio turvo,
De luz dourada no horizonte curvo
E onde a água doce, o massapê proíbe.


Sua presença para mim se exibe
No seu ar sereno que inda hoje absorvo,
E nas noites, com negridão de corvo.
Antes que ao porto do seu céu arribe


A lua. Assim só tenho essa planície…
Pois tudo quanto fiz foi superfície
De inúteis coisas vãs, humanamente.
​​​​​​​

De glórias e de alturas e universos
Não tenho o que dizer nestes meus versos:
– Nessa várzea nasci, nasci somente.


[Ilustração: Amedeo Modigliani]

Leia também: 'Identidade', poema de Mia Couto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/palavra-de-poeta_0263397704.html 

Boa notícia

Diplomacia brasileira ganha mais mulheres, indígenas e quilombolas
Mulheres representam 45% dos aprovados, enquanto indígenas e quilombolas conquistam espaço inédito na formação diplomática
Natália Padalkko/Vermelho     

A presença dos povos indígenas e quilombolas nos espaços de decisão do Estado brasileiro ganhou um marco histórico nesta semana. Pela primeira vez, representantes desses segmentos ingressaram na formação diplomática do Instituto Rio Branco, responsável pela preparação dos diplomatas do país. Dois indígenas e uma mulher quilombola tomaram posse na quarta-feira (4), em cerimônia no Palácio Itamaraty, em Brasília.

Marcelo Kariri Menezes, do povo Kariri, e Idjahure Terena, do povo Terena, são os primeiros indígenas a ingressar na carreira. Helen Jaine Gomes Borgens, integrante da comunidade quilombola do Retiro, em Simolândia (GO), tornou-se a primeira aprovada na vaga reservada a quilombolas.

Política de inclusão muda perfil da diplomacia brasileira

A conquista foi possível com a inclusão de vagas específicas para indígenas e quilombolas no concurso de admissão à carreira diplomática de 2026. A medida integra o conjunto de ações afirmativas que buscam enfrentar as barreiras históricas de acesso ao serviço público. O Ministério das Relações Exteriores também ampliou o Programa de Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia, que passou a contemplar mulheres de baixa renda, indígenas e pessoas com deficiência, além de pessoas negras.

A mudança se reflete no perfil da nova turma. Dos 60 aprovados, 27 pertencem a grupos historicamente sub-representados na diplomacia: 17 pessoas negras, sete pessoas com deficiência, dois indígenas e uma quilombola. As mulheres correspondem a 45% dos ingressantes, maior participação feminina já registrada pelo Instituto Rio Branco e pelo Itamaraty.

Na cerimônia, a ministra interina das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, classificou a chegada dos primeiros diplomatas indígenas e quilombolas como um ato de resistência. Ela ressaltou que a instituição precisa refletir a diversidade brasileira e reconhecer o papel desses grupos na definição dos rumos do país no cenário internacional.

O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, associou a conquista ao conceito de “Aldear o Estado”, que defende a presença de lideranças originárias nas estruturas públicas e nos espaços técnicos de decisão. Para ele, a posse representa uma reivindicação histórica dos povos indígenas e um avanço que ultrapassa as conquistas individuais. “É um ganho de toda a nação e do Estado brasileiro”, afirmou.

Convidado de honra da solenidade, o escritor Ailton Krenak, integrante da Academia Brasileira de Letras, também celebrou a chegada dos novos diplomatas. Ao destacar a presença das famílias e das crianças indígenas na cerimônia, falou sobre a capacidade de construir novos horizontes mesmo diante das dificuldades: “Que mesmo diante das quase impossibilidades, eles sejam capazes de exercitar o verbo esperançar e produzir mundos ricos de sentido”.

A entrada de indígenas e quilombolas no Itamaraty leva para dentro de uma instituição bicentenária vozes que por muito tempo foram mantidas longe das decisões sobre o país. É também um passo para que a diversidade brasileira deixe de ser apenas parte da identidade nacional e passe a ocupar os lugares onde se definem seus caminhos. 

O mundo gira https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

O "x" do problema

Para a Unicef, o combate à violência juvenil exige fortalecimento das políticas públicas, da educação e das medidas socioeducativas, e não o sofrimento de penas ou o envio de jovens para o falido sistema prisional adulto. 

Mais 19 novas unidades de institutos federais em 12 estados https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/boa-noticia_01339597277.html 

Poder amainado

Trump e o Irã


Especula-se sobre as consequências da avassaladora derrota de Donald Trump nas chamadas eleições de meio de mandato sobre suas empreitadas belicistas.

A guerra contra o Irã, sobretudo.

A nova maioria democrata no Congresso possibilita o uso da Autorização de Poderes de Guerra, instrumento constitucional limitante dos superpoderes do presidente.

Trump pode até descumprir a norma constitucional, exorbitando do poder executivo, porém sem a força que ostentava ao desencadear o conflito.

(LS)

Derrotado além do previsto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/11/trump-na-lona.html 

07 novembro 2026

Urariano Mota opina

Bancos e Baques
Grande mídia defende a política de juros do Banco Central, enquanto denúncias contra instituições financeiras e a crise do Banco Ueno, no Paraguai, expõem contradições do setor.
Urariano Mota/Vermelho      

A Folha não Falha. Quero dizer, a Folha de São Paulo não falha nunca em seu reacionarismo. No  editorial desta sexta-feira 6 de outubro, “Isolado, BC fez o necessário ao interromper corte dos juros”, o jornal publica já no seu primeiro parágrafo:

“Com a incerteza provocada pelos sinais erráticos dados por governo e PT desde a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, e em meio à rápida piora das expectativas para a inflação, o Banco Central não tinha alternativa senão interromper o ciclo de cortes da taxa de juros”.

E mais adiante: 

“Declarações recentes de membros do governo e do próprio presidente da República dão a entender que não há ajuste orçamentário relevante a ser feito —o que se aventa, na prática, não passa de perfumaria que em nada mudará a escalada da dívida pública.

Do lado do partido, vê-se entusiasmo com soluções mágicas para a queda dos juros e, em consequência, dos encargos financeiros do Tesouro Nacional”.

Torna-se desnecessário ir mais adiante na transcrição do editorial, porque em resumo é: qualquer possibilidade do governo Lula será um fracasso, porque o combate em obediência ao capitalismo que sustenta o jornal. Mas neste caso brasileiro, o jornal, como toda grande mídia no Brasil, é mais realista que o rei, o que vale dizer, é mais reacionária que a imprensa capitalista em todo o mundo. Esqueçam toda mídia conservadora de nome Times, por exemplo, Financial Times, The Economic Times, The New York Times, até a revista Time, que publica artigo com o título: “Lula’s Victory in Brazil Is a Defeat for Trumpism” (A vitória de Lula no Brasil é uma derrota para o Trumpismo).  

Esqueçam, mas lembrem: o jornal brasileiro, quanto trata de bancos, trata-os muito bem, obrigado.  Para esses, a defesa do grande capital é tranquila,  porque, afinal, tem que defender a excelência dos anunciantes. Vemos que nada consta nos registros dos jornais brasileiros, ou nos programas jornalísticos da Rede Globo, contra o Bradesco ou Itaú, por exemplo. E no entanto, há muitas dnúncias na vida real: 

Mesmo com lucro de R$ 13,861 bi no semestre, Bradesco segue demitindo e fechando agências | Sindicato dos Bancários 

Ou aqui: 

Bancários do Itaú denunciam aumento abusivo de metas e dificuldades para atingir resultados | Sindicato dos Bancários 

Ou denúncias de roubos sem uso de revólveres ou facas: 

Itaú agiu com “extrema má-fé” ao esconder cobranças indevidas a clientes por 14 anos, diz MP – BSB REVISTA 

Bradesco está sendo cobrado na Justiça por cobranças abusivas e ainda está sendo obrigado a pagar indenização, alerta advogada – Portal 6 

Sim, as notícias aparecem, mas somente fora da grande mídia. Até quando essa proteção aos bancos? Esperam uma grande crise econômica, uma revolta coletiva do povo, quando noticiarão, na melhor das hipóteses, os fatos excluindo as causas? Ainda nesta semana, tivemos a queda estrondosa do Banco Ueno no Paraguai. Uma crise política e social sem tamanho., O grande jornalista e escritor Andrés Colmán Gutiérrez publicou no jornal El País:

“Às 03h24 da madrugada de terça-feira, 3 de novembro, o aplicativo dos quase três milhões de clientes do Ueno Bank ficou subitamente em branco. Esse banco paraguaio, que cresceu rápido em seus três anos de existência e gerenciava fundos milionários de órgãos estatais, substituiu a visualização por uma única mensagem: ‘Não podemos mostrar o saldo’.

Na mesma hora, a diretoria do Banco Central do Paraguai divulgava em suas redes sociais um grave comunicado, avisando que havia decidido iniciar o ‘procedimento de resolução’ do Banco Ueno, o que significava sua intervenção e liquidação, após ter detectado ‘uma insuficiência severa em seu índice de solvência abaixo de 50%’.

A notícia causou desespero e escalou rapidamente até se tornar a maior crise política do governo do presidente Santiago Peña. Dezenas de pessoas se aglomeram desde terça-feira na sede central do banco em Assunção e nas suas 75 filiais do país para tentar sacar suas poupanças. Quando chegam, se depararam com os locais fechados e protegidos por seguranças. Houve cenas de gritos e prantos de poupadores que não recebiam respostas. ‘Preciso sacar dinheiro para comprar remédio para o meu filho, que está muito doente’, soluçava a cabeleireira Susana Morínigo em San Lorenzo. ‘Eu preciso conseguir dinheiro para comprar comida, caso contrário meus filhos não vão poder comer, reclamava o pedreiro Jorge Mendieta na cidade de Itauguá” 

Há muitos anos, o seu João do Caldíssimo, que vendia cachaça com caldo de feijão  no bairro de Água Fria, no Recife, criou uma máxima que julgávamos estranha, risível. Quando perguntado por que não depositava o dinheiro das vendas em sua barraca nos bancos, ele respondia: “Os bancos quebram”. Além de genial, o seu João era um profeta.     

Vencemos. E agora? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/11/minha-opiniao.html 

Insegurança monetária

Nubank e Mercado Pago suspendem saques e depósitos de criptomoedas. A insegurança e a crise de credibilidade não tem limites.  

Em Manifesto, economistas rejeitam “terceiro turno do mercado” após vitória de Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/11/soberania-popula-x-mercado.html