17 julho 2026

Minha opinião

Calígula moderno
Luciano Siqueira   

Uma olhadela na mídia reacionária internacional nos mostra que o desgaste do presidente Donald Trump é crescente no seu próprio campo político.

Sinal de decadência da superpotência, tendem a reconhecer. Líder inconsequente, dizem vários.

O colunista Thomas L. Friedman, do New York Times, é contundente ao considerar aético o presidente norte-americano, a quem acusa de utilizar sua influência e visibilidade política para obter benefícios financeiros pessoais.

Exemplo deprimente é a promoção de criptomoedas e “memecoins” associadas à marca do próprio Trump, lesando financeiramente seus próprios apoiadores.

Sob Trump, nos Estados Unidos a busca pelo bem comum e o engajamento democrático tornam-se decadentes.

Carregando nas tintas, acrescento: um Calígula moderno.

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Como o ricaço falido virou presidente dos EUA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/trajetoria-suspeita.html

Arte é vida

 

Paul Gauguin 

Leia: "Duplo sentido" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-palavra_070600094.html 

Islândia: paz estranha

Entre dois mundos
Com a sombra dos EUA, mergulhar numa falha geológica entre duas placas tectônicas na Islândia revela uma paz enganosa
Jamil Chade/Liberta     

De Silfra, Islândia

Submergir o rosto numa água praticamente congelada gera impactos contraditórios. Nos primeiros minutos, a sensação é a de que você perde o controle sobre os movimentos faciais. A água queima e, depois, anestesia. É necessário manter uma certa concentração para continuar respirando. Mas, quando eu consegui superar o choque e abri os olhos, numa máscara sob forte pressão, o que eu vi foi um mundo encantado.

Tons de azul, verde e cinza se misturavam e pintavam paredes que pareciam imperturbadas em Silfra, na Islândia. A água, que havia chegado ali depois de viajar entre 30 e 100 anos percorrendo uma terra vulcânica, redefinia o conceito de transparência. A visão era absoluta.

Em parte por conta desse horizonte sem fim, em parte por conta do ar na roupa, que me protegia de choque térmico, eu sentia que flutuava. A corrente gentil que me levava parecia saber que alguém precisava fazer o trabalho de me conduzir, já que o encanto me paralisava.

Mas o silêncio daquelas paredes era uma ilusão. Ali, uma paz estranha e enganosa camuflava um terremoto.

Eu estava mergulhando, literalmente, no meio das placas tectônicas das Américas e da Eurásia, uma experiência considerada pela revista National Geographics como uma das sete aventuras mais excitantes do planeta. No fundo, ali, diante dos meus olhos, estava a fronteira entre o Hemisfério Ocidental e a Europa.

Imperceptível aos olhos de quem submerge, o movimento daquelas paredes é real. Essas placas se afastam cerca de dois centímetros por ano, e é ali, portanto, que a fronteira entre dois mundos se redefine a cada instante.

Nunca, porém, esse afastamento foi tão real e acelerado quanto agora. Temerosas de que possam ser as próximas na lista de desejos de Donald Trump, parcelas da sociedade islandesa conseguiram apoio suficiente para convocar um referendo nacional, que fará uma pergunta essencial: o país deve manter sua postura de neutralidade ou aderir à União Europeia? 

Referendo em agosto

A pergunta não ocorre por acaso. Os islandeses sabem que são estratégicos no mundo, assim ocorreu na Segunda Guerra Mundial, quando a ilha foi disputada por alemães e americanos. O mesmo papel seria assumido pela distante ilha no Atlântico Norte durante a Guerra Fria. O fim do embate entre americanos e soviéticos havia criado a sensação na ilha de que, fincada no Ocidente, seu destino como “ponte” entre dois continentes estava assegurado.

Mas as ambições territoriais de Donald Trump na vizinha Groenlândia obrigaram um país inteiro a rever suas estratégias e sua tranquilidade geopolítica.

Pressionadas e temendo serem os próximos alvos, as autoridades na Islândia resolveram convocar um referendo questionando a população se deveriam romper décadas de absoluta independência e aderir ao projeto de integração da UE.

A ideia de uma consulta já estava marcada para 2028. Mas as supostas confusões de Trump em chamar a Groenlândia de Islândia e os alertas diplomáticos levaram o governo local a antecipar o referendo para agosto deste ano.

Assim como a falha de Silfra parece mostrar, a Islândia está dividida sobre qual deve ser seu destino. Uma pesquisa recente da Gallup revelou que o referendo pode ser apertado. O apoio à adesão à UE conta com 52% dos votos.

O que muitos rejeitam é a mentalidade de apresentar a Islândia como um país pequeno e insignificante. Para a classe política local, em 2026 essa seria uma visão ingênua, beirando a imprudência.

Parte da oposição ao projeto, porém, não significa necessariamente a uma simpatia ao governo Trump. Um dos problemas é que aderir ao bloco europeu representa se submeter a cotas de pesca e subsídios agrícolas menores, algo que os setores islandeses rejeitam.

O governo da Islândia, numa tentativa de acalmar os grupos afetados, afirmou que o país não aceitará a adesão sem uma negociação. De fato, as autoridades locais já realizaram conversas com a UE para uma adesão. Mas o processo foi suspenso, há mais de dez anos.

Contudo, também existe uma oposição ideológica. Uma das vozes contrárias é a de Sigmundur Davíð Gunnlaugsson, que foi primeiro-ministro de 2013 a 2016. No começo do ano, ele foi alvo de um escrutínio no parlamento da Islândia sobre os vínculos de seu partido com o movimento MAGA.

Por mais incoerente que pareça, é o sentimento nacionalista que transforma a pergunta do referendo em uma questão existencial. A Islândia conseguiu sua independência da Dinamarca apenas em 1944 e, desde sempre, a luta por sua autonomia foi um dos aspectos centrais da política doméstica.

Mas é esse argumento que a campanha da adesão à UE usa para dizer que, de fato, entrar para o bloco europeu irá proteger a soberania da ilha, e não o contrário. Uma das mensagens é a de que, sem a aliança europeia, a Islândia estaria sozinha no oceano.

Para os europeus, a ideia de ganhar um terreno no Atlântico Norte, nas fronteiras do Hemisfério Ocidental, seria simbólico, principalmente diante da ofensiva de Trump na Groenlândia.

Num momento em que abalos sísmicos dominam a política internacional, até o silêncio que ecoa ao mergulhar numa falha geológica parece suspeitar  que os mapas estão sendo redesenhados e que, uma vez mais na história, não existem limites naturais. Toda fronteira é um ato político.

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Avanço do comércio internacional chinês desafia barreiras dos EUA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/china-x-eua.html  

Humor de resistência

Aroeira

Futebol brasileiro: para onde vamos? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/futebol-brasileiro.html 

16 julho 2026

Uma crônica de Paulo Nogueira Batista Jr.

Ninguém fala comigo no clube
Mas quem mandou morar em Santa Catarina?
Paulo Nogueira Batista Jr./Vermelho   



O Brasil já foi em outras épocas, não tão remotas, um país basicamente tolerante e pacífico. A política não costumava ser motivo de controvérsias apaixonadas, pelo menos não em comparação com o que geralmente se vê nos outros países. Reinava em relação aos partidos e aos políticos um ceticismo bem-merecido.

Mudamos. Com a ascensão da extrema direita, ficamos divididos e polarizados. A polarização é claramente assimétrica. De um lado, temos a centro-esquerda, bem centrista, bem moderada – os eleitores de Lula e do PT. O próprio Lula não se assume como de esquerda e chega a negar essa condição publicamente. De outro lado, temos uma nova direita extremada, vociferante e agressiva. Vota em Bolsonaro, ou em quem quer que ele indique, de olhos fechados. De um lado, um comedimento envergonhado; do outro, um dogmatismo desenfreado.

O Brasil é um país continental e a tendência à intolerância da nova direita não acontece na mesma medida em todas as regiões. A história que quero contar se passa na região Sul, em Florianópolis, onde resido.

Sou um tenista bem cabeça de bagre, apesar de jogar há vários anos num clube de tênis aqui no norte da Ilha. Tomo aulas regulares, uma ou duas vezes por semana. Natural que ficasse conhecido e fizesse algumas amizades no clube. Sentia, entretanto, dificuldade em me enturmar. Uma certa frieza, uma certa distância pareciam prevalecer. Paciência. Dei de ombros e segui com as minhas aulinhas.

Um dia, por vias tortas, compreendi tudo. A minha companheira, Lavínia, que mora em Brasília, veio me visitar. Fomos juntos ao supermercado mais próximo e eis que ocorre um fato singular, meio cômico, meio lamentável, típico dos novos tempos. Ao chegar no supermercado, dividimos as tarefas; Lavínia foi para um lado, eu para o outro. Ela esbarra então com um antigo conhecido, que há muito tempo não via, e foi explicando que estava em Florianópolis por causa do namorado que morava no bairro. “Eu sei”, respondeu o sujeito friamente. “Ele joga tênis no mesmo clube que eu. É um petista roxo. Ninguém fala com ele no clube.”

Bem que eu desconfiava. Estava explicado o meu isolamento, a minha dificuldade de fazer amigos e encontrar parceiros de tênis. Era puramente político o problema. Ninguém queria confraternizar ou bater bola com “um petista roxo”.

Ora, não sou petista, nunca fui. E muito menos roxo. Tenho minhas reservas em relação ao partido e ao próprio Lula há décadas, desde quando participei da campanha eleitoral de 1994, aquela  que terminaria com a vitória de Fernando Henrique Cardoso já no primeiro turno. Isso foi graças ao Plano Real, como o leitor talvez lembre. O que me impressionou na época foi o despreparo dos economistas e dirigentes do PT para fazer face à ameaça eleitoral que o programa de estabilização representava.

Conto o episódio em rápidas pinceladas. A experiência brasileira e de outros países que experimentavam inflação alta era muito clara. Por diferentes métodos, era perfeitamente possível estabilizar a moeda em pouco tempo. E essa estabilização sempre se mostrava muito popular. Nada melhor, portanto, que lançar um plano de estabilização às vésperas de uma eleição, identificando o plano com determinado candidato, no caso Fernando Henrique Cardoso. A identificação era fácil, pois ele havia sido Ministro da Fazenda do governo Itamar Franco e ostentava o mérito de ter reunido uma equipe de economistas experientes, capaz de preparar o plano.

Isso tudo estava claro para mim e um grupo minoritário de economistas do PT. Fizemos o possível para alertar Lula e o comando do partido sobre o risco mortal que o Plano Real, na época conhecido como Plano FHC, representava para a candidatura petista. Defendemos a necessidade de apresentar uma avaliação sóbria do plano e oferecer alternativas bem-elaboradas. Colocamos nossas advertências em notas que circularam dentro do partido.[1] Conversei diversas vezes com o próprio Lula, explicando que aí residia o grande risco para a sua candidatura. Economistas e outras figuras influentes do PT rejeitaram nosso alerta. Lula ficou em cima do muro. A orientação negativa, não raro extremadamente negativa, acabou prevalecendo. Resultado: a candidatura de Lula foi vista pela população como adversária de um plano que se mostrava capaz de debelar a inflação com rapidez. Caixão.

Depois disso, resolvi tomar distância de Lula e do  PT. Nunca me filiei ao PT ou a qualquer outro partido. Não me identificava com nenhuma das correntes políticas relevantes no país. Talvez por individualismo excessivo, preferi até hoje me manter independente de partidos políticos e governantes. Um certo paradoxo: eu, homem de esquerda, sempre fui visceralmente individualista. Mas, enfim, temos todos nossas contradições. 

Volto ao clube de tênis. Como explicar tudo isso a um bolsonarista? Nada se modificou. Continuo incompreendido e rejeitado por tenistas da nova direita.  meu isolamento continua total. Sem parceiros, sem amigos, sigo tranquilo a minha trajetória individual.

Quem mandou morar em Santa Catarina?

[Ilustração: Candido Portinari]

[1] Depois da eleição, publicamos um retrospecto dos debates da campanha. Eduardo Matarazzo Suplicy, João Machado, Luiz Carlos Merege, Odilon Guedes e Paulo Nogueira Batista Jr. Combate à inflação, “Plano Real” e Campanha Eleitoral, São Paulo, dezembro de 1994.

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Pesquisa mostra Lula à frente em todos os cenários para 2026 https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/bons-sinais.html 

Palavra de poeta

Corações em série
Micheliny Verunschk 

meu pé esquerdo lateja
um coração que bate
descompassado
dentro do meu calcanhar
um coração de ossos
com um pequeno pássaro
sangrante e dolorido
no seu centro
um coração deslocado
ataviado por uma rede de nervos
que reverbera um nome.
meu pé esquerdo lateja
poderia ser um reino ou uma estrela.

[Ilustração: Paul Klee]

Fotografia

 

Araquém Alcântara

Sábado para quê? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/que-dia-e-hoje.html