Como o capitalismo
sequestrou a Copa e o sonho de uma criança
O que vi nesses últimos 25 anos faz com que me
sinta profundamente traído pelas instituições do futebol
Jamil Chade/Liberta
O que acontece dentro do prédio da Fifa, em Zurique, sempre me surpreende. Primeiro, por sua arquitetura. O palácio de vidro de mais de US$ 250 milhões tem alguns andares acima da terra. Mais outros cinco no subterrâneo. Em algumas das salas, aparelhos foram colocados para bloquear os sinais de celular. Por qual motivo o destino do jogo é desenhado tão longe da transparência do escrutínio público?
Mas não é só a estrutura de 37 mil metros quadrados que me impressiona. Numa de minhas visitas ao local, certa vez, uma cena surreal desbancou todas as fronteiras da civilização. Cansados de serem multados pela Fifa por cantos homofóbicos de seus torcedores durante partidas das Eliminatórias para a Copa do Mundo, os cartolas da Conmebol pediram um encontro com o comitê de disciplina da entidade máxima do esporte.
Antes de a reunião começar, no saguão da Fifa, questionei um dos dirigentes – um uruguaio – sobre qual seria a agenda do encontro. A resposta era difícil de acreditar. Segundo ele, a Conmebol iria pleitear que a Fifa suspendesse a aplicação de multas. Sua postura era a de que aqueles cantos homofóbicos não deveriam ser interpretados como ofensas. “Eram apenas uma expressão cultural”, me disse.
Talvez por minha expressão de surpresa ou por meu absoluto silêncio, o cartola tentou se explicar. Segundo ele, torcedores que usam de linguagem homofóbica não são… homofóbicos. Era cultura.
A Fifa não cedeu e as multas continuaram a ser cobradas, ainda que os valores fossem pífios. Mas, no fundo, a absurda pressão por parte dos dirigentes sul-americanos deu resultado. A entidade nunca aumentou a pena, nem transformou suas leis para punir exemplarmente uma ação de uma torcida, jogador ou clube que opte por fazer do futebol um espaço de ataque à dignidade de um outro ser humano.
Assim como na luta contra o racismo, o combate à homofobia e tantas outras discriminações no futebol jamais foi prioridade. Nem quando o mundo inteiro clama por justiça, o amor em sua forma de política pública.
Mergulhando nos estatutos da Fifa e nas centenas de páginas de contratos comerciais de empresas do futebol, descobri que, se houver num estádio de uma Copa do Mundo uma violação comercial, a multa que será aplicada será muito superior a qualquer penalidade que um clube, federação, jogador ou torcedor sofrerá no caso de um ataque à humanidade de uma pessoa.
Se for identificada na arquibancada uma ação de marketing que ameace os donos dos direitos sobre aquele jogo, a punição será mais draconiana do que qualquer ato de racismo ou de homofobia. Vi isso ocorrer na Copa de 2010, quando supostos torcedores da Holanda foram às arquibancadas com fantasias que sugeriam um marketing de emboscada de uma cervejaria que fazia concorrência à patrocinadora oficial.
Descrédito ao esporte
Em 2007, a Fifa encerrou uma disputa comercial pelo patrocínio das Copas do Mundo, desembolsando US$ 90 milhões para arcar com danos sofridos pela MasterCard. Quase 20 anos depois, a mesma entidade decidiu multar as autoridades de futebol de Israel por apenas US$ 190 mil por não agirem contra o racismo e ataques de seus clubes contra palestinos.
O próprio comitê disciplinar da Fifa admitiu a existência de uma profunda violação por parte de clubes israelenses, em especial o Beitar Jerusalem, por comportamento racista e discriminatório. “Os torcedores têm se envolvido em comportamento racista persistente e bem documentado”, afirmou o relatório sobre os torcedores do Beitar.
“O uso de slogans como ‘puro para sempre’ e os repetidos cânticos de insultos étnicos, como ‘terrorista’, direcionados a jogadores árabes, não são incidentes isolados, mas sim parte de um padrão sistêmico de conduta que ofende as regras básicas de comportamento decente e traz descrédito ao esporte”, constatou. Apesar disso, a punição não passou de um tapa na mão dos autores das violações.
Num futebol transformado em uma multinacional capitalista, o maior pecado não é atacar os direitos humanos, nem exigir democracia. O crime hediondo é quando os interesses econômicos são prejudicados. Isso, sim, é intolerável.
A transformação do futebol num dos grandes negócios do planeta é um fato e todos os números revelam isso. Entre 2019 e 2022, a receita da Fifa bateu todos os recordes, com um total de US$ 7,6 bilhões. Para o ciclo entre 2022 e 2026, a projeção é de um aumento exponencial e uma receita de US$ 13 bilhões. O que mais surpreende é que, há 20 anos, a receita da entidade era de “apenas” US$ 3,2 bilhões.
Isso, porém, é só parte da história. A grande transformação foi a explosão de dinheiro nos clubes europeus, abalando o eixo do poder no esporte. Hoje, os 20 maiores clubes do mundo geram, por ano, US$ 12 bilhões, quase uma Copa do Mundo. Se eles fossem uma economia nacional, superariam o PIB de países inteiros como Libéria, Sudão do Sul, República Centro Africana, Cabo Verde e tantos outros.
Recentemente, o Real Madrid entrou para a história como o primeiro clube a gerar mais de US$ 1 bilhão em receita por ano.
De acordo com um levantamento do Parlamento Europeu, em 2018, a participação do esporte no Produto Interno Bruto (PIB) da UE é de 2,12%, o que corresponde a €$ 279,7 bilhões. Além disso, o esporte emprega quase 3% dos trabalhadores da UE, o equivalente a 5,6 milhões de pessoas, diretamente e indiretamente.
Esse dinheiro, sem dúvida, mudou o futebol. Cada vez mais ricos, esses clubes passaram a exigir um lugar na mesa de definição do esporte, de seu calendário e de suas regras.
Num primeiro momento, esses clubes exigiram que a Fifa reconhecesse seu poder, chantageando com a recusa em liberar um jogador para sua seleção ou, simplesmente, promovendo um boicote contra eventos da entidade.
Naquele momento, há cerca de 20 anos, o então presidente da Fifa, Joseph Blatter, negociou um acordo para remunerar os clubes pelos ganhos que a entidade teria com uma Copa. Primeiro, ele passou a dar um seguro caso um atleta do Barcelona, por exemplo, fosse contundido em um jogo pela Seleção brasileira. Mas os clubes queriam mais.
Anos depois, ele instaurou o pagamento de um verdadeiro aluguel aos times por liberar os jogadores ao Mundial. Quanto mais aquele jogador entrasse em campo numa Copa, mais o clube dele seria recompensado financeiramente.
Para 2026, a Fifa reservou US$ 355 milhões para recompensar times por “emprestar” seus craques para o Mundial. A questão é que esse dinheiro vai alimentar justamente aqueles clubes mais ricos do planeta, e que já são donos dos melhores jogadores. Na Copa de 2022, a Fifa destinou US$ 150 milhões para os clubes europeus por liberarem seus jogadores ao torneio. Quase cem vezes mais do que os clubes brasileiros receberam. E, ainda assim, quase tudo para Flamengo e Palmeiras.
Poder do dinheiro
A realidade é que, junto com essa explosão financeira, o que também vimos foi a concentração inédita de recursos nas mãos de poucos atores do futebol. Os clubes mais ricos são os que mais acumulam receitas dos torneios. Como consequência, são os mais competitivos e, portanto, ficam ainda mais ricos. O dinheiro, de fato, mata o amor e a competição.
Vimos a distância entre os clubes europeus e do restante do mundo se aprofundar como jamais na história do esporte. Nos últimos 20 anos, o Mundial de Clubes foi vencido apenas por dois clubes de fora da Europa, ambos brasileiros.
Segundo um levantamento da Fifpro, a disparidade social é uma realidade. Quarenta e cinco por cento dos jogadores pelo mundo ganham menos de mil dólares por mês. Apenas 2% ganham mais de US$ 720 mil por ano.
A igualdade de gênero é ainda um sonho distante. Aitana Bonmati é hoje a jogadora profissional mais bem paga da história do futebol feminino, com renda anual de €$ 1 milhão. Já Cristiano Ronaldo somou no ano passado mais de €$ 202 milhões.
O que chama atenção ainda é a crescente disparidade até mesmo dentro da Europa. Hoje, no Velho Continente, 70% dos títulos nos últimos cinco anos foram vencidos pelos clubes com mais dinheiro naquela competição. Troféus são, no fundo, disputados por alguns poucos, enquanto a maioria não passa de coadjuvante para torcidas que jamais verão seus clubes campeões.
Hoje, equipes de Bucareste, Belgrado, Porto ou da Holanda deixaram de sonhar com conquistas continentais. O que no futebol a Cortina de Ferro não impediu, durante o auge da Guerra Fria, o capitalismo garantiu neste século 21: a vitória do dinheiro.
Uma prova do poder do dinheiro foi a decisão que determinou como seria realizada a Copa do Mundo de 2026. Lembro-me muito bem da reunião da Fifa que colocou, pela primeira vez, o tema na agenda. Foi em outubro de 2016 e eu estava lá.
Antes do encontro, cada um dos cartolas encontrou, em seu quarto de hotel, um dossiê com todos os detalhes da proposta de elevar o número de seleções de 32 para 48. Num dos trechos, o documento dizia que, caso optassem pela expansão sem precedentes, o nível da competição iria sofrer. Mas, em outra página, um argumento acabaria prevalecendo: com 16 times extras, a receita da Copa – e de cada um daqueles homens que votaria – seria elevada em US$ 1 bilhão.
Entre a grana e a qualidade do torneio, optaram pelos lucros.
Naquele dia, eu comprovei como o futebol havia sido usado como um veículo para o enriquecimento de alguns poucos, às custas do próprio esporte e, claro, da experiência do torcedor.
O que eu vi ao longo desses últimos 25 anos na Fifa foi um sequestro de nossas emoções. Eu, que passei minha infância entre o Morumbi e o Pacaembu, me senti profundamente traído pelas instituições do futebol.
Passei a escrever, em parte, para alertar o garoto que frequentava os estádios nos anos 1980 e 1990 que não renunciasse ao futebol. Que não deixasse de torcer.
Mas que o fizesse de forma consciente. Sabendo por qual motivo aquele jogo estava ocorrendo naquele horário, quem pagava e quem vencia, principalmente fora de campo. Foi essa indignação que me levou a denunciar a estrutura de poder. Não por odiar o futebol. Justamente por amá-lo.
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