Irã resiste à brutal agressão dos EUA e de Israel
Guerra une governo e grande parte da população iraniana, numa ação de resiliência e defesa dos interesses do país
Editorial do 'Vermelho'
A guerra de Donald Trump e Benjamin Netanyahu contra o Irã chega à terceira semana com saldo negativo para os agressores. O triunfalismo evaporou-se. O uso dos brutais bombardeios indiscriminados causou crimes de guerra e esbanjamento de atrocidades, causando a morte de mais de 1.300 no Irã, das quais 168 são de meninas, crianças vítimas de um ataque a uma escola. Israel e os aliados dos Estados Unidos na região também sofreram as consequências do ataque, com a resposta do Irã às agressões.
Trump, influenciado por Netanyahu, que mantém sua sobrevida no poder à base de guerras e mais guerras, não contava com a resiliência do Irã. O assassinato do aiatolá Ali Khamenei, em 28 de fevereiro, foi um erro crasso de Trump. O crime uniu o governo e grande parte da população, inclusive setores divergentes, uma demonstração de indignação e de defesa da nação diante da destruição da economia e da infraestrutura do país.
Trump subestimou o Irã, com a premissa falsa de que bastava o bombardeio indiscriminado para mudar o “regime”, promessa para justificar a guerra. O Irã se preparou para se defender. Sabia, pela escalada de ameaças, que seria atacado, apesar do recurso sistemático à diplomacia, pactuando acordo, mesmo com a guerra como possibilidade efetiva. O decorrer da agressão mostrou que o Irã tem fôlego para empreender resistência ativa por tempo indeterminado.
O povo iraniano, embora severamente punido com escassez de alimento e de outros produtos, além da destruição generalizada do país, sabe que a responsabilidade recai sobre Trump. Da mesma forma, é dele a responsabilidade pelos efeitos da guerra na economia mundial, com a disparada do preço petróleo, com o barril já superando a barreira dos US$ 100, em grande parte decorrente do fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% do petróleo mundial, trunfo e recurso legítimo do Irã para a busca de um cessar fogo. Os preços dos fertilizantes também podem ser impactados, colocando em risco a segurança alimentar global. Cerca de 33% dos fertilizantes do mundo passam pelo Estreito de Ormuz.
Em desespero, Trump recorreu a aliados e à China para uma operação conjunta de desbloqueio do Estreito de Ormuz e já recebeu várias negativas. E reagiu com ameaças. “Se não houver resposta ou se for uma resposta negativa, acho que será muito ruim para o futuro da Otan”, disse ele em entrevista ao jornal Financial Times. “Esta não é uma guerra da Europa”, comunicou a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, uma enfática rejeição à proposta de Trump pelos 27 países membros da organização, numa demonstração de que a posição passiva do grupo em relação à guerra começa a ganhar novos contornos.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, disse seu país reitera o apelo para que as partes cessem imediatamente as operações militares, evitem uma escalada da tensão e impeçam que a turbulência regional impacte ainda mais a economia global.
A proposta de Trump de escolta de navios é avaliada por especialistas como inviável. O Irã possui lanchas de ataque rápido, embarcações de superfície não tripuladas, minissubmarinos, minas e até mesmo jet-skis carregados de explosivos, de acordo o comandante aposentado da Marinha Real Britânica, Tom Sharpe, em declarações à CNN. Ou seja: o tempo favorece o Irã.
Outro aspecto desfavorável aos Estados Unidos e a Israel é a vulnerabilidade de pontos de apoio à agressão ao Irã. São países sem a mesma defesa de Israel, como o Domo de Ferro, o sistema de defesa antiaérea móvel. A guerra de Trump e Netanyahu também já fez ataques a usinas de dessalinização de água, numa ação que a ONU classificou como risco do uso da água como arma de guerra, que compromete o abastecimento civil. Além do petróleo, o imperialismo usa a água como fator de guerra.
São questões que levam Trump a um impasse, sem saber como terminar guerra, ao contrário do Irã, que se preparou para agressão, numa ação de resiliência. Não estava no cálculo dos agressores que o ataque ao Irã afetaria a guerra da Otan na Ucrânia contra a Rússia, momentaneamente favorecida pela decisão dos Estados Unidos de autorizar a venda de petróleo russo parado em navios no mar, que se soma aos mais de 400 milhões de barris das reservas de emergência da Agência Internacional de Energia, em uma tentativa de aumentar a oferta global e aliviar a alta dos preços. Todo aparato de guerra dos Estados Unidos se volta para Oriente Médio.
Em outra frente, Israel promove uma escalada de agressões ao Líbano, com operações terrestres e intensificação de bombardeios aéreos, com o pretexto de combater o grupo Hezbollah, que já resultou em centenas de mortes, incluindo crianças e profissionais de saúde, além de forçar o deslocamento de cerca de um milhão de pessoas, o que corresponde a 17% da população libanesa. Trump também abriu outra frente de agressões ao anunciar, na cúpula Escudo das Américas, em 7 de março, um acordo com seus aliados para uso da força militar no Hemisfério Ocidental a pretexto de combater cartéis de drogas e “redes terroristas”.
Internamente, Trump enfrenta o desafia das eleições parlamentares de novembro, que tendem a serem impactadas pelo andamento da guerra. Emparedado, ele não encontra meios e caminhos de proclamar vitória. A guerra provoca mais uma camada de desgaste para ele nos Estados Unidos e soma-se a outras medidas com resultados negativos, como o uso contínuo da força, da ameaça e das chantagens econômicas, sobretudo o recurso indiscriminado ao tarifaço. Há, inclusive, divisão no Make America Great Again (Maga), movimento liderado por Trump que polariza o eleitorado estadunidense.
O planeta está, enfim, caminhando para um intrincado entrelaçamento de contradições. A atual correlação mundial de forças impõe táticas unitárias de combate de todos os países e correntes políticas que lutam pela soberania e autodeterminação dos povos à pretensão de uma potência de impor seu domínio global, que usa, para isso, além do aparato militar, seus monopólios ideológicos, numa guerra cultural de largo espectro.
O desastre de Trump no Oriente Médio https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/oriente-medio-trump-atira-no-proprio-pe.html





