23 junho 2026

Uma crônica de Rubem Braga

Véspera de S. João no Recife
Rubem Braga  

O que é da terra, é da terra, e fala da terra, João, eu falarei da terra. Ora, João, tu tinhas um vestido de peles de camelo, e uma cinta de couro em volta de teus rins; e a tua comida era gafanhotos e mel silvestre. E filha de Herodias bailou, e era linda. E quando disse o que queria neste mundo, o rei entristeceu. Eras a voz que clama no deserto, e clamavas na cadela. E tua cabeça veio num prato para as mãos da bailarina.

João, esta geração de homens continua a mesma da qual disse o senhor: “São semelhantes aos meninos que estão assentados no terreiro, que falam uns para os outros e dizem: nós temos cantado ao som da gaita; para vos divertir, e vós não bailastes; temos cantado em ar de lamentação, e vós não chorastes.”

João, ontem foi a noite de véspera de teu dia. O povo bailava ao som de gaitas. Não bailei nem chorei. Estive em Boa Vista, Afogados, Areias, Tigipió, na Estrada de Jaboatão. E estive em Campo Grande e Beberibe. E estive, por que não dizer?, na zona noturna da ilha do Recife. Em toda a parte o povo te festejava.

Às vezes chovia furiosamente, às vezes a lua brilhava. E às vezes o céu ficava parado e fechado, sem luz e sem chuva. Mas na terra humilde, a noite era sempre a mesma. As casinhas, à margem das ruas esburacadas, estavam alumiadas por lanternas. É um efeito triste, colorido, de uma luz pobre. Nas janelas e nas portas se penduravam as estrelas. Estrelas gordas de papel de cor, com uma luz fraca por dentro. Esses balões estrelados, cativos da parede, forneciam imagens nas ruas tão escuras. As estrelas do céu, por exemplo, haviam descido para a terra, para perto da lama, para as casinhas baixas. E teu retrato, segurando o menino Jesus, estava colado nelas. Pelos quintais enlameados, as fogueiras ardiam. Firmadas por quatro estacas, com folhas de cana, bananeiras-meninas enterradas em volta, as fogueiras enfeitadas, de espaço a espaço, ensanguentavam a noite preta. Elas haviam brotado nos oitões, nos mangues, nos pomares, junto das pontes, ao longo das ruas, pelos fundos dos matos, como flores de fogo na noite preta.

E os fogos pipocavam. O Recife, João, todos já sabem que é um prato raso. A água é quase irmã da terra, beijando a flor das ruas, e as pontes quase se apoiam na massa líquida, e, para ver a cidade, é preciso andar toda a cidade…

Os fogos pipocavam pela noite adentro. Uns tinham estalos secos, intermitentes, esparsos; outros rebentavam roucos; outros chiavam; outros, crepitavam; outros eram urros de pólvora. Eu não estava no meio da noite eu estava no centro de muitas noites. E muitas noites antigas avançavam, negras, sobre mim, e eu as reconhecia, penosamente. Estava deitado na trincheira, fazia três abaixo de zero. Os fuzis inimigos amorosamente derrubavam folhas sobre mim, as balas passavam com uns silvos finos e iam morrer no fundo do mato. Eu bebera cachaça, estava deitado na terra fria da trincheira e, pelas montanhas enormes, pelos buracos dos vales fundos, as metralhadoras crepitavam, crepitavam.

João, eu as conhecia pelo sotaque; eram todas estrangeiras. Aquela do oeste era Hotehkiss pesada, a que estava embaixo era Colt, uma cacarejando em nossa frente era Zebê, e centenas de máquinas cuspiam fogo. Agora, sobre o meu crânio, assobiavam apenas os fuzis Mauser dos caçadores de trincheiras, e longe, do outro lado da linha, do outro lado da noite, roncou um Schneider.

Nas primeiras noites, João, eu não podia dormir, e as granadas, quando rebentavam a cinquenta metros, rebentavam dentro de meu peito. Agora eu desistira de ter qualquer medo, e o metralhar imenso me dava sono. Eu apenas temia morrer não tendo nome nenhum de mulher para dizer as palavras do fim. Eu voava nos caminhões de munição, acossados pela metralha nas estradas, sobre o abismo, nas curvas onde as balas furavam as carrocerias, a toda a velocidade, de faróis apagados na noite escura, sacolejando e roncando terrivelmente. Mas para mim não era mais uma noite perigosa: era apenas uma grande noite triste. Eu não queria matar ninguém, não me importava se alguém me matasse, e dois sargentos me olhavam com ódio, murmurando que eu era um espião.

Eu era espião, João, João; eu era um espião da vida, no meio da morte. Eu ainda não tinha vinte anos, não tinha mais nenhum deus para me entender depois da morte, não tomava banho há um mês, estava sujo e magro, meu lápis de repórter quebrou a ponta. Havia esse mesmo crepitar de fogos pela vasta noite, e, junto dos acantonamentos, as fogueiras se acendiam para os soldados gelados. Meu papel de repórter estava sujo da terra das trincheiras, eu já não escrevia nada. A guerra era demasiado estúpida para não me fazer sorrir, eu não reconhecia aliados nem inimigos; apenas via homens pobres se matando para bem dos homens ricos; apenas via o Brasil se matando com armas estrangeiras.

No fim, João, eu berrei contra os comerciantes da paz que haviam sido os comerciantes da guerra, e, entretanto, eu não conhecia o mecanismo das carnificinas; e me chamaram de cínico, quando somei os contos de réis que custava a morte de um soldado e disse que tal morte era muitas vezes mais cara que um naufrágio de primeira classe no Principessa Malfalda, só contando munição gasta. Eu não era cínico, João, eu, pelo menos, jamais fui cínico do cinismo dos cães de luxo; eu sempre tive o direito de ter o cinismo puro dos vira-latas, sem casa nem dono.

João, eu não tenho mais dezenove anos, estou na rua e não na trincheira, mas esses estampidos na noite transformam a noite. João, alguém canta, moças cantam nos bailes dos palanques, entre canjiquinhas, milho verde, folhas, flores, fogueiras, abraços, olhares, amores, e outras noites me cercam. Eu tinha treze anos e naquela noite ela subitamente me amou. Me amou talvez apenas um minuto, sentiu uma ternura e me deu aquele lenço de seus cabelos. Era um lenço grande, de flores encarnadas e azuis, e aquela chita estava sempre em volta de sua garganta ou amarrada em seus cabelos. Eu dormi na praia e o lenço tinha um cheiro terno e quente de cabelos castanhos, e aquele cheiro me entontecia e nunca em noite nenhuma eu amei nem amarei mais amada com amor assim. João, naquela noite também havia cantos, e o vento do sudoeste no ar escuro tinha o mesmo cheiro.

João, são muitas noites antigas que me prendem no meio desta noite. Pobres as noites sob as lâmpadas da redação, mesquinhas as noites de trabalho insincero, tristes noites sem ternura noturna.

João, o povo, na noite imensa, festeja a ti. Há fogueiras e amores e bebedeiras, mas eu não irei a festa nenhuma. Amanhã, João, esse povo continuará na vida. Por que o distrais assim com teus fogos, João? Amanhã, os pobres estarão mais pobres e os ricos os esmagarão, e muitos homens irão clamar nas cadelas, como tu clamavas. João, amanhã outra vez a miséria dos donos da vida continuará deturpando a beleza da vida, as moças suburbanas irão perder a beleza no trabalho escravo; as crianças continuarão a crescer, magras e ignorantes; o suor dos homens será explorado. João, João, inútil João; o povo está gemendo, as metralhadoras se viram para os peitos populares. Ninguém dividiu as túnicas, nem os pães, como tu mandaste, João, inútil João.

[Ilustração: Alberto Guignard]

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Quando Buenos Aires viu “Buenos Aires”, de Tuca Siqueira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/buenos-aires-o-filme.html  


Minha palavra

A morte e a morte do amigo
Luciano Siqueira    

Soube da morte do companheiro, um que faz tempo não vejo, mas toda vez que eu o vi ao longo da vida fez-me bem. Militante simples, direto ao assunto e muito prático. Sem mistérios - e isso sempre me agradou.

Como morreu? De repente, assim do nada, a dor súbita e nada mais. Sem sofrimento nem adeuses. Como um sopro.

Deixa uma saudade leve, fundada em poucos encontros e feitos. Em poucas horas velado e depois cremado. Saiu da vida, fez-se saudade.

Leia também: Meu pardal amigo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2010/12/cronica-em-minha-coluna-semanal-no.html 

Humor de resistência

 

Orlando

Sem eira nem beira. Será? https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Minha opinião

No São João não sou ex*
Luciano Siqueira   

Encontro casualmente o amigo que não vejo há anos:
 
— E aí doutor Luciano, pronto para dançar muito forró?
 
— Nada...
 
— Então é um ex-forrozeiro?
 
Na verdade, a essa altura do campeonato, a idade avançada, sou ex muita coisa — artesão, médico, deputado, vereador, vice-prefeito, presidente do PCdoB —, mas ex-forrozeiro, não.
 
Creio que por duas razões, digamos, viscerais. Não sou dado a dançar e sofro com incômoda alergia à fumaça das fogueiras. Durante toda a festa lacrimejo e espirro, continuamente.
 
O fato que estarei no animadíssimo forró familiar, disciplinadamente.
 
Só isso.
 
No máximo tomarei umas boas lapadas de cachaça ou uísque e farei fotos da festança.
 
E confesso que se me jogasse pra valer na festa deixaria de lado essas quadrilhas estilizadas, hoje lamentavelmente majoritárias em toda parte. 
 
A quadrilha típica, tradicional, cede espaço para essa que parece muito influenciada pelo country norte-americano — e que em nada combina com pamonha, canjica, bolo de milho, pé de moleque e quejandos.
 
Prefiro cantarolar (lembrando a voz de Silvio Caldas) "é noite de Sáo João/o meu balão vou soltar/balão que fiz com as cartas/daquela que não me quis amar..."

*Essa crônica é reprise aqui no blog

[Ilustração: Alfredo Volpi]

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Leia também: São João repleto de foguetes no ar e fogueiras na terra https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/06/enio-lins-opina_24.html 

Postei nas redes

O Digimais, o banco do pastor Edir Macedo, fez igual ao Master ao superavaliar ativos com rentabilidade desproporcional, segundo a Polícia Federal. No mundo da usura e sob a ilusão de acesso às altas finanças quem perde é o pequeno investidor. 

O Partido Digital Bolsonarista: síntese analítica, por Luís Nassif https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/por-fora-das-instituicoes.html


Editorial do 'Vermelho'

Irã: os povos e a paz podem, sim, vencer guerras imperialistas
Depois de quatro meses da guerra que visava a derrubada do regime para se apossar do petróleo, Trump foi obrigado a se curvar à resistência do Irã
Editorial do portal Vermelho  
 

Na primeira sessão de negociações de paz na Suíça após a assinatura do Memorando de Entendimento entre os Estados Unidos e o Irã, o presidente estadunidense, Donald Trump, voltou a protagonizar um ato de provocação. No domingo (21), a delegação iraniana chegou a abandonar o local das negociações após Trump ameaçar com novos ataques. Segundo a agência de notícia Irna, do Irã, as conversas, mediadas por Paquistão e Catar, “entraram em uma fase difícil após 80 minutos de discussões e uma interrupção, devido a uma mensagem ofensiva publicada pelo presidente dos Estados Unidos”.

Mas, de acordo com os mediadores, as conversas iniciais terminaram com “progressos encorajadores”. Foram anunciados resultados como a suspensão temporária das sanções petrolíferas contra o Irã, que pode auxiliar na retomada da economia do país, após anos de restrições, e o descongelamento de  US$ 6 bilhões iranianos. O governador do banco central do Irã, Abdolnasser Hemmati, afirmou que “os memorandos necessários foram assinados” para iniciar a liberação dos ativos, de acordo com uma entrevista publicada pela agência de notícias iraniana Tasnim.

O Memorando de Entendimento tem grande abrangência. Composto por 14 pontos, ele estabelece o fim imediato e permanente das operações militares em “todas as frentes”, incluindo o Líbano; que o Irã não terá arma nuclear (em acordos anteriores já havia esse compromisso); a criação de um fundo de US$ 300 bilhões para a “reconstrução e o desenvolvimento econômico” do país; a reabertura do Estreito de Ormuz pelo Irã e o fim do bloqueio naval dos Estados Unidos a portos iranianos; a liberação do dinheiro de fundos do Irã no exterior; e a permissão para a comercialização do petróleo iraniano. Durante os sessenta dias de vigência do Memorando, as partes irão discutir um elenco de pontos pendentes sob o compromisso de busca de um acordo de paz.

A promessa de Trump de que não haveria acordo com o “inimigo”, mas apenas “rendição incondicional” para “mudança de regime”, encontrou no Irã um país unido e que, por estar ameaçado há muito tempo, se preparou para enfrentar a agressão e se organizou para defender a sua integridade, a sua civilização milenar, a sua soberania e as suas riquezas. Fator decisivo foi ter acumulado capacidades de defesa e ataque, bem representada pela indústria de mísseis balísticos e de drones. A guerra foi um choque entre o neocolonialismo, o saque e a rapinagem e a força da causa nacional que amalgamou a coesão no Irã. O poderoso ataque bélico dos Estados Unidos e de Israel, tendo como alvo as cidades, o povo, as autoridades religiosas e a infraestrutura do país, os crimes de guerra uniram a nação em torno da resist&eci rc;ncia.

O Irã rompeu o isolamento ao fechar o estreito de Ormuz: atacar o país passou a ser, também, afetar severamente a economia mundial. Teerã jogou por terra o mito de proteção infalível dos Estados Unidos aos seus aliados, as monarquias árabes da região. Atacou bases estadunidenses, resultando no fechamento de portos e aeroportos por longos períodos, abalando a economia desses países que, por sua vez, passaram pressionar Trump pelo fim da guerra. O Irã também usufruiu das parcerias estratégicas construídas ao longo do tempo com a China, a Rússia e outros países.

As consequências deste confronto se juntaram aos efeitos da guerra entre Ucrânia e Rússia, que se arrasta por quatro anos. Mesmo com a assinatura do Memorando, deverá acontecer a desaceleração do crescimento global para a taxa mais baixa desde o início da pandemia de Covid-19, em meio a preços de energia mais altos, inflação mais acentuada e aumento dos juros, segundo a edição mais recente do relatório Perspectivas Econômicas Globais do Grupo Banco Mundial. O documento prevê que o crescimento global caia para 2.5% em 2026, o que representa uma desaceleração em relação aos 2,9% registrados em 2025.

Essa retração atingiu grande parte do mundo, inclusive, os Estados Unidos, o que fez piorar a queda de popularidade de Trump. Esses fatores, de conjunto, esmagaram a arrogância do presidente estadunidense ao afirmar que apenas um acordo amplamente vantajoso ao seu país seria aceito, usando como comparação o acordo de 2015 fechado pelo então presidente Barack Obama, abandonado por ele unilateralmente em 2019. Diante do custo político e econômico da guerra, se curvou à realidade.

O líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, afirmou que Trump fechou o acordo “por desespero” e reafirmou que o Irã não cederia às “exigências excessivas” dos Estados Unidos. Seyed Abbas Mousavi, diplomata de carreira iraniano conhecido principalmente por sua atuação no Ministério das Relações Exteriores iraniano, disse que havia apenas um “pequeno número” de críticos em seu país e chamou o Irã de “claro vencedor” tanto da guerra quanto das negociações. Esmail Baghaei, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, comparou o trabalho dos diplomatas iranianos ao das tropas “atrás dos lançadores e nas trincheiras”.

A China também manifestou otimismo. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lin Jian, afirmou que o acordo tem um significado positivo, por aliviar as tensões e consolidar o cessar-fogo. “A China saúda essa iniciativa e espera que todas as partes envolvidas, incluindo os Estados Unidos e o Irã, respeitem o espírito do acordo e cumpram seus compromissos com seriedade”, afirmou, destacando que “a força não resolve problemas” e que “a negociação em pé de igualdade é o caminho certo”. “A China espera que tanto os Estados Unidos quanto o Irã abordem as negociações da segunda fase com uma atitude racional e pragmática, encontrem um meio-termo e trabalhem juntos para alcançar resultados positivos na próxima etapa das conversas”, enfatizou.

O governo de Benjamin Netanyahu, que somente sobrevive pela política de guerra permanente, em razão do forte desgaste interno, se opõe ao cessar-fogo, instaurando uma contradição momentânea com o governo Trump. A essência colonialista e neofacista do Estado de Israel sob o comando de Netanyahu, a oposição que faz a qualquer possibilidade de paz, a ocupação da Palestina e do Líbano, o genocídio em Gaza e a matança contínua na região o isolam cada vez mais no plano internacional e aumentam a fervura das contradições no próprio país.

Circunstância que favorece a pressão mundial pela paz na região, que passa pela solução dos dois Estados, assegurando o território e os demais direitos ao povo palestino e a desocupação imediata do Líbano.

Não há certezas do que acontecerá nestes sessenta dias de vigência do cessar-fogo, pela natureza do governo Trump de agressões e guerras e por maquinações que o Estado de Israel possa empreender. Mas há que se destacar que as causas indispensáveis aos povos, a defesa da paz e da soberania nacional obtiveram, pela resistência iraniana, uma vitória de grande relevância.

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Quem ganha o quê? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_0912473985.html 

Sylvio: quinta-coluna

Se a final da Copa do Mundo for entre Brasil e Estados Unidos, por quem torcerá a família Bolsonaro?

Sylvio Belém 

Lula avança e candidato de Donald Trump recua https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/editorial-do-vermelho_01899426184.html