Era uma vez um gato escrito por uma IA
Pasta de linguagem feita por máquinas está em
guerra aberta contra a alma. Tentando soar artístico, o robô expõe sua mão
pesada e sua falta de noção
Sérgio Rodrigues/Folha
de S. Paulo
Quando
entrei na sala, já era tarde demais. Sobre o sofá vi a ponta de um fio rubro.
Acompanhando com os olhos sua trajetória, constatei que vinha do novelo parado
no assoalho sob a mesinha de centro, impassível como o cadáver sangrento de um
pequeno animal.
Não
desafiador. Não enigmático. Apenas... lá.
Fora
isso, o ambiente era calmo, pacífico –sinistro como o de uma cripta. Sinceramente?
Não precisei procurar muito para localizar a causa da bagunça no material de
tricô que eu havia deixado em ordem.
Uma
causa felpuda. Ronronante. De rabo de fora.
Atrás
da cortina, denunciado pela cauda que escapava entre as dobras do tecido suave
e cintilante, Félix sorria satisfeito com a própria peraltice.
Não
selvagem. Não domesticado. Algo no meio do caminho. Um gato –apenas isso. Um
animal adorável com duas orelhas, dois olhos e muitos fios de bigode.
Não
um gato levado.
Não
um gato incorrigível.
Simplesmente,
um gato. Como culpá-lo?
Naquele
dia, aprendi uma lição que levarei comigo enquanto viver: cada pessoa é
responsável por guardar bem os objetos que lhe são caros.
O
textinho acima não foi escrito por IA ,
mas poderia ter sido. Nele um escritor humano –o titular desta coluna– satiriza
algumas marcas estilísticas que os textos robóticos tornaram lugar-comum na
paisagem.
A
empreitada tem riscos. Como satirizar o que traz em si todos os elementos da
sátira pronta, com exceção da consciência do ridículo?
É
a mesma dificuldade encontrada por quem escreve distopias apocalípticas
enquanto Trump ateia fogo no planeta. Contudo, se o robô nos imita o tempo
todo, pode ser boa ideia imitá-lo com intenção crítica.
Embora
exale um ar arrepiante de vazio e morte, o lero-lero da IA engana à primeira
vista. Há até quem o considere exemplo de boa escrita.
Mais
do que gramaticalmente correta, a historinha do gato Félix (o nome é sempre um
clichê) parece culta e sensível, com palavras como "cripta" e
"cintilante", além de exibir marcadores de ritmo, criar suspense etc.
Ocorre
que, com mão pesada, a IA generativa que busca soar artística martela os
truques aprendidos com a literatura humana até reduzi-los a uma pasta.
Quase
tudo vem em trios, com frequência na base do "não isso, nem aquilo, mas
aquilo outro". Símiles e metáforas erram o tom, tentando na marra injetar
mistério, lirismo ou profundidade no que é trivial. E uma moral da história
banalíssima, do tipo que dá vontade de pular no abismo, amarra tudo no fim.
Tudo
indica que cada vez mais pessoas vão se contentar com essa pasta de linguagem
ultraprocessada, como se contentaram os fãs do romance de terror
britânico "Shy Girl", exposto esta semana como produto de
IA. Acabarão imitando o robô, como fiz aqui, mas sem intenção crítica alguma.
Creio
estar em curso uma guerra contra a alma, nada menos que isso. E parece que
estamos perdendo.
A repórter que desnudou o ChatGPT https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/resistencia-social-e-codigo-aberto.html





