28 junho 2026

Palavra de poeta

SUTILÍSSIMO ETERNO
César Leal  


Sutilíssimo eterno que habita
minhas saletas interiores
onde trago o tempo guardado
noturno e resignado

sutilíssimo eterno interior
que como um tálamo é
em minha alma limpa e sofrida
como água dormida em pedra

que eterna seiva alimenta
este tempo em mim retido
plumagem livre de flor
forma exata imperecível

sinto-te assim como um trunfo
branda coroa do eterno
além das nuvens, das águas
ouço o teu metal desperto

se existes no ser completo
na cinza móvel das sombras
por que retiras de mim
tudo o que em mim não é pântano?

[Ilustração: Edvard Munch]

Leia também "Em violino fado", poema de José Saramago https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/palavra-de-poeta_01034304464.html 

Boa notícia

Brasil tem 5,6% de desemprego, menor taxa da série histórica
Priscila Lobregatte/Vermelho     
População desempregada está em 6 milhões e a empregada supera os 102 milhões. Situação mostra mercado com tendência estrutural de aquecimento, segundo analista do IBGE

A taxa de desemprego no trimestre encerrado em maio de 2026 caiu para 5,6% e é mais baixa para o período desde 2012, quando começou a série histórica. O índice está 0,6 ponto percentual (pp) menor do que os três meses anteriores, quando foi de 6,2%. Os dados fazem parte da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua Mensal, divulgada nesta sexta-feira (26) pelo IBGE.

“A estabilidade na variação é sazonal, pois é o período em que os setores começam a olhar para o segundo semestre, mas atingir a mínima histórica para o período indica que o mercado mantém uma tendência estrutural de aquecimento e expansão na absorção de mão de obra”, explica o analista da pesquisa, William Kratochwill.

Com isso, a população desempregada ficou em 6,1 milhões — entre dezembro de 2025 e fevereiro deste ano, foi de 6,2 milhões. Na comparação com o mesmo trimestre de 2025, quando o número estava em 6,7 milhões, a queda foi ainda maior, de 9,3%, o que significa menos 624 mil pessoas nessa situação.

Quanto à população empregada, que soma 102,7 milhões, houve alta de 0,5% no trimestre — acréscimo de 558 mil pessoas trabalhando — e de 0,8% no ano — ou, mais 840 mil.

Considerando esses dados, o IBGE aponta que o nível de ocupação (percentual de pessoas ocupadas na população em idade de trabalhar) foi de 58,6%, com variação de 0,2 p.p. no trimestre (58,4%) e estabilidade no ano (58,6%).

Tipos de emprego e rendimento

A Pnad mostra, ainda, estabilidade frente ao trimestre anterior e ao mesmo período de 2025 no contingente de empregados no setor privado com carteira de trabalho assinada (excluindo os domésticos), estimado em 39,3 milhões de pessoas.

Ao mesmo tempo, o segmento de empregados no setor privado sem carteira assinada (13,4 milhões) também apresentou estabilidade nas duas comparações. O mesmo ocorreu com trabalhadores por conta própria, formados por 26 milhões de pessoas, e com os empregadores (4,2 milhões de pessoas).

O levantamento ressalta que no caso dos trabalhadores domésticos, o grupo teve estabilidade frente ao trimestre de dezembro de 2025 a fevereiro de 2026, mas na comparação com o mesmo trimestre do ano passado teve queda de 328 mil postos de trabalho.

“Em cenários de baixa desocupação, o custo de oportunidade dessa força de trabalho aumenta, gerando uma migração estrutural para postos formais em outras atividades, que oferecem melhores salários, condições de trabalho e garantias”, pondera Kratochwill.

No caso do setor público, houve crescimento de 3,6% no número de empregados (inclusive servidores estatutários e militares), estimado em 13,1 milhões de pessoas, frente ao trimestre anterior.

De acordo com o IBGE, também houve aumento de rendimento na comparação com o período de março a maio de 2025. Os trabalhadores CLT tiveram um acréscimo de 3%, ou mais R$ 99; os domésticos, 3,8%, ou mais R$ 52; e os por conta própria tiveram uma elevação de 4,4%, ou mais R$ 130.

Subutilização

No que diz respeito à taxa de subutilização, houve queda de 0,88 pp frente ao trimestre anterior, ficando em 13,3%. Em um ano, a redução foi de 1,6 pp.

“Esse é o patamar mais baixo desde o início da série histórica e vem acompanhada por quedas em outros indicadores similares como: população subutilizada (15,1 milhões), que caiu 5,7% no trimestre (menos 920 mil) e recuou 11,3% no ano (menos 1,9 milhão de pessoas subutilizadas), e a população subocupada por insuficiência de horas (4,1 milhões), que caiu 5,7% no trimestre (menos 251 mil pessoas) e recuou 10,6% no ano (4,6 milhões)”, aponta a pesquisa.

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O selo do PCdoB na frente pró-Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/o-pcdob-e-lula.html 

27 junho 2026

Urariano Mota opina

Nelson Rodrigues, os maiores craques do mundo e a Copa
Crônicas de Nelson Rodrigues antecipam a genialidade de Pelé e eternizam Garrincha, reafirmando a memória do futebol brasileiro em tempos de comparações apressadas.
Urariano Mota/Vermelho  

Nesta Copa do Mundo, em que os sem memória e ignorantes põem Messi como o maior craque da história, vale a pena ler e guardar as crônicas esportivas de Nelson Rodrigues, o amante possesso, dionisíaco, do melhor futebol. Me acompanhem por favor e olhem se tenho razão. Em outra oportunidade, já escrevi que não conhecia na literatura mundial alguém que fosse tão magnífico quanto Nelson Rodrigues na crônica esportiva.

Se pensam que me enganei, curtam e amaciem na boca feito fruta rara o que Nelson Rodrigues escreveu sobre um jogo de Pelé, antes de começar a Copa do Mundo de 1958. Antes, leram bem. Para não dizê-lo um profeta, devo dizer: a sensibilidade, a genial arte de um escritor descobriu e revelou este fenômeno:

“Depois do jogo América x Santos seria um crime não fazer de Pelé o meu personagem da semana. Grande figura que o meu confrade Laurence chama de ‘o Domingos da Guia do ataque’. Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: – 17 anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de 40, custo a crer que alguém possa ter 17 anos, jamais. Pois bem: – verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se ‘Imperador Jones’, se etíope. Racialmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: – ponham-no em qualquer rancho e sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor.

O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: – a de se sentir rei, da cabeça aos pés.

Quando ele apanha a bola, e dribla um adversário é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônia. Já lhe perguntaram: – ‘Quem é o maior meia do mundo?’. Ele respondeu com a ênfase das certezas eternas: – ‘Eu’. Insistiram: – ‘Qual é o maior ponta do mundo?’ E Pelé: – ‘Eu’. Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção que ninguém reage e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posições. Nas pontas, nas meias e no centro, há de ser o mesmo, isto é, o incomparável Pelé.

Vejam o que ele fez, outro dia, no já referido América x Santos. Enfiou, e quase sempre pelo esforço pessoal, quatro gols em Pompéia. Sozinho, liquidou a partida, liquidou o América, monopolizou o placar.

Ao meu lado, um americano doente estrebuchava: – ‘Vá jogar bem assim no diabo que o carregue!’

De certa feita, foi, até, desmoralizante. Ainda no primeiro tempo, ele recebe o couro no meio do campo. Outro qualquer teria despachado. Pelé, não. Olha para frente e o caminho até o gol está entupido de adversários. Mas o homem resolve fazer tudo sozinho. Dribla o primeiro e o segundo. Vem-lhe, ao encalço, ferozmente, o terceiro, que Pelé corta, sensacionalmente. Numa palavra: – sem passar a ninguém e sem ajuda de ninguém ele promoveu a destruição minuciosa e sádica da defesa rubra. Até que chegou um momento em que não havia mais ninguém para brilhar. Não existia uma defesa. Ou por outra: – a defesa estava indefesa. E, então, livre na área inimiga, Pelé achou que era demais driblar Pompéia e encaçapou de maneira genial e inapelável.

Ora, para fazer um gol assim não basta apenas o simples e puro futebol. É preciso algo mais, ou seja, essa plenitude de confiança, de certeza, de otimismo que faz de Pelé o craque imbatível.

Quero crer que a sua maior virtude seja, justamente, a imodéstia absoluta. Põe-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés numa lambida docilidade de cadelinha.

Hoje, até um passarinho cambaxirra sabe que Pelé é imprescindível na formação de qualquer escrete.

Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e, mesmo, insolente de que precisamos. Sim, amigos: – aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas-de-pau.

Por que perdemos, na Suíça, para a Hungria? Examinem a fotografia de um e outro times entrando em campo. Enquanto os húngaros erguem o rosto, olham duro, empinam o peito, nós baixamos a cabeça e quase babamos de humildade. Esse flagrante, por si só, antecipa e elucida a derrota. Com Pelé no time, e outros como ele, ninguém irá para a Suécia com a alma dos vira-latas. Os outros é que tremerão diante de nós”.

O texto que acabam de ler é de março de 1958. Tenho diante de mim o livro O Berro Impresso das Manchetes, que reúne as crônicas completas de Nelson Rodrigues na Manchete Esportiva, de 1955 a 1959. A tendência, de um leitor atento, se a gente não se cuida, é de sair grifando frases, crônicas inteiras. Se a epifania com relação a Pelé, antes do reconhecimento universal, não causar espanto, olhem, mastiguem lento e com calma o que Nelson escreveu sobre Garrincha:

“Nos acrobatas chineses o que existe é o esforço, é a técnica, é o virtuosismo, ao passo que Garrincha é puro instinto. Possui uma riqueza instintiva que lhe dá absoluto destaque sobre os demais. Até Deus, lá do alto, há de admirar-se e há de concluir: – ‘Esse Garrincha é o maior!’. O ‘seu’ Mané não trata a bola a pontapés como fazem os outros. Não. Ele cultiva a bola, como se fosse uma orquídea rara”.

“Cultiva a bola como se fosse uma orquídea rara” – isso já deixou de ser futebol e penetrou na delicadeza da arte, no mesmo passo em que vemos a fina e macia pétala que se toca com a percepção da vida fugaz. Mas é uma bola. É uma crônica. Nesta altura eu me sinto um escritor absolutamente desnecessário. O que disser parecerá acento circunflexo sobre o céu azul. Pode? Ser leitor dessas crônicas de Nelson Rodrigues é tão agradável, que nossa única transmissão possível é copiá-lo em trechos, porque o tempo urgente não permite a cópia inteira, o que seria um serviço de utilidade pública e de educação estética. É irresistível.

Nelson Rodrigues arranca a maior graça e humor em frases que guardam sempre os mesmos recursos, imagens, mas que ainda assim surpreendem. Ele na crônica escrevia à semelhança de Garrincha, que driblava para um só lado, e todos sabiam qual, mas ainda assim todos eram surpreendidos. Nelson usa sempre o exagero, as expressões mais despudoradas, melodramáticas, truques de circo na hipérbole, com o maior despudor e cinismo, mas ainda assim o leitor é driblado, assim como os marcadores de Garrincha. Que encanto! Com a diferença que a gente é driblado, mas não se frustra, porque enche o peito de felicidade. Como aqui:

“Olhem Pelé, examinem suas fotografias e caiam das nuvens. É, de fato, um menino, um garoto. Se quisesse entrar num filme da Brigitte Bardot, seria barrado, seria enxotado. Mas reparem: é um gênio indubitável. Digo e repito: gênio. Pelé podia virar-se para Miguel Ângelo, Homero ou Dante e cumprimentá-los, com íntima efusão: ‘Como vai, colega?’ ”.

Que frase genial. Afoito, concluo enfim: quem vê somente o presente é cego,  desmemoriado ou ruim da cabeça.

Foto: O lance mágico de Pelé: a “pedalada” perfeita congelada no ar pelo olhar talentoso de Alberto Ferreira

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Como o povo brasileiro transformou o futebol em símbolo nacional https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/nosso-futebol-ja-foi-o-melhor.html

Arte é vida

 

Yiannis Tsaroychis

"Subir no vaso para quê?" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-palavra_0806947145.html 

Soberania nacional

Lula diz que defesa do Brasil é prioridade para garantir soberania 
Em SC, presidente afirma que o Brasil não quer guerra, mas precisa estar preparado, e critica Trump por interferir em assuntos de outros países
Priscila Lobregatte/Vermelho  

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou, nesta sexta-feira (26), em Itajaí (SC), do lançamento da fragata Cunha Moreira, terceira embarcação do Programa Fragatas Classe Tamandaré (PFCT). Na cerimônia, voltou a defender a soberania nacional e o fortalecimento das Forças Armadas, além de mandar recados aos bolsonaristas. 

O discurso ocorre em meio às novas investidas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o Brasil (como a imposição de nova tarifa aos produtos brasileiros, sanções ao Pix) e à possibilidade de interferência nas eleições deste ano, inclusive por meio da classificação de organizações criminosas como terroristas. 

“Eu não quero guerra, mas eu também não quero ser pego de surpresa […]. Está cheio de maluco no mundo. Agora mesmo, o presidente norte-americano, ele quer tomar a Groenlândia, o Canadá, que vai virar estadunidense. Vai tomar o Canal do Panamá, sabe, onde que nós estamos?”, salientou Lula.

O presidente também falou que os investimentos em navios e em defesa são “o começo de um país que vai ser soberano e tomar conta do seu nariz”, disse o presidente. 

Ao mesmo tempo, ressaltou que “além da educação, saúde, transição energética, inteligência artificial, a defesa faz parte das minhas prioridades para transformar esse país”.

De acordo com o governo, o Programa Fragatas Classe Tamandaré tem investimentos estimados em R$ 13,9 bilhões entre 2019 e 2030, dos quais R$ 10,5 bilhões integram o Novo PAC. A iniciativa deverá gerar cerca de 23 mil empregos — sendo 2 mil diretos, 6 mil indiretos e 15 mil induzidos — ao longo de sua execução. 

Recados e rechaços

Em outro momento da agenda na cidade catarinense, com trabalhadores da área naval, Lula mandou recados aos bolsonaristas, rechaçou discursos racistas e chamou atenção dos homens para a violência contra à mulher. 

“Estamos chegando a um momento histórico em que vocês têm que avaliar quem fez e o que fez; quem trouxe benefícios para o povo e quem não trouxe; quem só falou bobagem e quem fez a coisa acontecer”, disse o presidente. 

Lula criticou o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), por nunca ter comparecido a agendas  com o presidente, mesmo tendo sido convidado. “Ele precisaria mostrar para vocês porque o presidente dele não fez 1/3 do que fizemos por este estado”, alfinetou Lula. 

O presidente também alertou que o povo “não pode permitir que em SC prevaleça o racismo”. O estado tem sido palco de diversas manifestações desse tipo e, inclusive, do aumento de grupos neonazistas. “A gente não pode permitir essa ideia da hegemonia branca sobre o restante do país; isso, na verdade, não é hegemonia branca, é hegemonia da ignorância”, destacou. 

Por fim, pediu a colaboração dos homens na luta contra os feminicídios e a violência contra as mulheres. “É importante que nós, homens, tomemos consciência de que quem é violento somos nós. A maioria dos casos de violência contra a mulher é cometida por marido, namorado ou ex. Historicamente, o homem foi educado como se fosse dono da parceira dele. Mulher não é objeto para ter dono”, enfatizou.

Programa Fragatas Classe Tamandaré

O Programa Fragatas Classe Tamandaré prevê a construção e a incorporação de quatro navios militares de alta complexidade tecnológica para modernizar e expandir a capacidade operacional da Marinha do Brasil. 

Além da ampliação da capacidade operacional da Marinha, o programa estabelece a transferência de tecnologia e o fortalecimento da Base Industrial de Defesa brasileira.

As embarcações possuem capacidade de deslocamento de 3,5 mil toneladas, 107 metros de comprimento, convés de voo e hangar para helicópteros, além de radares, sistemas de armas avançados e sensores integrados. 

Segundo o governo, o PFCT permitirá ao País ampliar sua capacidade de proteger a Amazônia Azul — área marítima brasileira com mais de 5,7 milhões de quilômetros quadrados —, realizar operações de busca e salvamento e cumprir compromissos internacionais.

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O selo do PCdoB na frente pró-Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/o-pcdob-e-lula.html  

Sylvio: subserviência

Numa manifestação do mais desavergonhado entreguismo e desrespeito por nossa soberania, Flávio Bolsonaro diz, em carta, que caso eleito presidente colocará seu governo à disposição dos Estados Unidos, pois não estamos em condições de exigir nada de Trump.

Sylvio Belém   
Ilustração: imagem produzida por IA

O selo de classe na frente pró-Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/o-pcdob-e-lula.html 

Minha palavra

Subir no vaso para quê?
Luciano Siqueira 

Um hábito desde a adolescência: prestar atenção aos avisos afixados nas paredes dos sanitários públicos. Prédios administrativos, restaurantes, supermercados e quejandos.

Não aquelas inscrições feitas à mão com pincel atômico ou giz, em geral pornográficas. Essas não têm graça, pois se repetem ao longo de décadas!

Olho as, digamos, oficiais: devidamente postas pela administração. Incrível, contêm respingos de cultura.

Em Portugal, por exemplo: "favor colocar o papel higiênico usado no vaso sanitário".

No Brasil, como bem sabemos, é o contrário: "favor NÃO colocar papel higiênico usado no vaso sanitário, use o cesto".

Lá o sistema de esgotos funciona, aqui não.

Há apelos tão veementes quanto contraditórios: "mantenha o sanitário limpo, pois você poderá utilizá-lo novamente", mas invariavelmente o tal sanitário, naquela rede de supermercados, está sempre imundo. Clientes sujam e a manutenção é falha.

Há os prolixos: "em prol da higiene do ambiente, solicitamos aos caros usuários jogarem o papel no cesto e darem descarga ao saírem". A gente gasta tanto tempo na leitura que até dá vontade de fazer o contrário!

Numa grande loja de utilidades, o apelo: "favor não subir no vaso sanitário".

Subir pra quê?

Para evitar que usuário, quem sabe, que o abelhudo espione o que anda fazendo o usuário do vaso ao lado?

E do alto das minhas sete décadas de vida constato que sei muito pouco dos hábitos humanos quando resolvem suas necessidades mais íntimas...

O melhor aviso? Sem dúvida o de uma rede de hortifrútis no Recife: ‘É proibido ter maus pensamentos”.

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Intolerável vício de linguagem https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/minha-opiniao_29.html