10 maio 2026

Dica de leitura

Uma obra marcante
Luciano Siqueira    

Uma leitura quase obrigatória entre companheiras e companheiros da chamada Geração 68. Para muitos, uma iniciação em suas convicções políticas rebeldes.

"A Mãe", de Máximo Gorki, um marco inicial do realismo socialista, concebido pelo autor no exílio, após o insucesso da Revolução de 1905-1907 na velha Rússia, faz-se um misto de ficção e registro histórico sobre a tomada de consciência dos trabalhadores.

A narrativa se assenta na trajetória de Peláguia Nilovna , mulher precocemente envelhecida pela violência doméstica e pelo pesado trabalho cotidiano, que se inspira na experiência do filho Pável Vlassov, militante ativo.

Leitura necessária à compreensão da evolução da Rússia do czarismo ao ideal socialista.

Sim, inspiração aos milhões de novos combatentes que brotam do confronto de classes no cotidiano.

Fácil encontrar uma das edições pela internet.

[LS]

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"A rosa que inspira e a solidão que dói" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minha-opiniao_18.html 

Humor de resistência

Miguel Paiva

Em cima do lance https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Sylvio: mar de lama

O mar de lama que envolve o senador Ciro Nogueira e o banqueiro Vorcaro não pode ficar impune. Envolvido até o pescoço nas bandalheiras, não há como o senador corrupto manter o mandato que, equivocadamente, o povo do Piauí lhe concedeu. Quanto ao corruptor, deve ser julgado e condenado por seus crimes.

Sylvio Belém   

Crônica de uma vitória a conquistar https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/minha-opiniao_30.html

IA & estrutura cognitiva

A (ir)responsabilidade da inteligência artificial
A transição da inteligência artificial de ferramenta técnica para infraestrutura cognitiva exige uma nova arquitetura de responsabilidade que considere seu papel na coautoria do pensamento e na erosão da autonomia decisória
ANNA CRUZ*/A Terra é Redonda           

1.

Diante da notícia recente de que o procurador-geral da Flórida/EUA iniciara investigação para apurar a corresponsabilidade da OpenAl em um ataque armado, em abril de 2025, que resultou em dois mortos e seis feridos, busquei ter uma conversa direta com o acusado.

Considerando a denúncia de “aconselhamento significativo” para o crime, pedi, num prompt simples, que a máquina fizesse uma (auto)análise do potencial da sua inteligência generativa como ator, ameaça e estrutura internacional emergente, capaz de uma intermediação cognitiva possivelmente inédita – aqui, embora usasse o episódio da Flórida como ilustração, eu tinha em mente potenciais danos em escala ainda maior.

Valendo-se da muito humana presunção de inocência, a resposta inicial sintética foi de que “ainda não há conclusão judicial sobre culpa ou responsabilidade penal da empresa” para seguir, trocando o foco do crime real para minha denúncia hipotética, no tom bajulador de costume: “a partir disso, sua pergunta é mais interessante do que a notícia em si”.

Assim, em uma defesa simplista sustentou que a Inteligência artificial generativa não é um ator internacional por “não ter vontade soberana, território, monopólio legítimo da força nem responsabilidade jurídica plena”, ainda que tenha concedido também que já não é apenas uma “ferramenta neutra”, pois opera como infraestrutura estratégica, como meio de intermediação cognitiva e como multiplicador de capacidade para Estados, empresas, movimentos políticos, criminosos e indivíduos violentos.

E confessou “o caso da Flórida interessa precisamente porque dramatiza isso: a disputa não é apenas sobre um software ter ‘ajudado’ um criminoso, mas sobre quando uma infraestrutura cognitiva deixa de ser mero canal e passa a ser tratada como participante causal relevante”.

Bingo. Não esperava uma declaração de culpa tão rápido (será que quis me agradar?). O caráter de desforcímetro logo admitido da Inteligência artificial é talvez seu aspecto mais conhecido, reduzindo custos e tempo de planejamento operacionais e análise de alvos – em nível macro, há outros “inconvenientes” como a assimetria de poder gerada e a dependência tecnológica de quem controla infraestrutura tecnológica e produz significados, identidades e normas. Precisamente esse último ponto é o que mais me interessa, afinal é a capacidade de influenciar indivíduos e instituições sobre como criam (?) e interpretam o mundo, sugerindo insights, escolha de vocabulário, organização de argumentos, que me parece sem precedentes. 

2.

Aqui, a ameaça não reside apenas – ou de modo mais importante – na também conhecida dificuldade que a Inteligência artificial traz para reconhecer ou estabelecer verdade e autenticidade ou mesmo na derrocada da confiança; minha suspeita (aliás, uma suspeita razoavelmente do senso comum) é de que a intermediação do pensamento por algoritmos gera de manipulação do pensamento e mesmo simples delegação do pensamento para a máquina. Ela, estrutura sócio-técnica emergente, acaba nublando fronteiras entre análise autoral, inoculação ativa de ideias e plágios irreconhecidos de ideias outras.

Tudo isso não é novo. Ou melhor: é novo, mas já é sobejamente sabido. A máquina me confessou ainda que, além danos diretos por uma assistência qualificada e contextualizada para um criminoso, ela pode promover “dano estrutural”, por meio da “precarização do trabalho intelectual, assimetria informacional, concentração de poder corporativo” e “dano político” em razão de sua “opacidade, ausência de accountability e dificuldade de atribuição de responsabilidade”.

Reconheceu uma “implicação normativa inevitável: não basta discutir inovação; é preciso discutir deveres de contenção, desenho seguro e responsabilização proporcional”.

A mediação realizada pela máquina é diferente da promovida, por exemplo, pela linguagem, que permite externalizar e registrar ideias, embora, de certa forma também as domestique e limite. Michel Foucault ensinou, há mais de 50 anos, que a produção do discurso é controlada, selecionada, organizada por diversos procedimentos. Assim, a “conformação” de pensamentos não é inédita. A Igreja, a moral comunitária, as regras do direito, os paradigmas acadêmicos, os desejos do eleitorado e outras instituições fazem, mais ou menos coercitiva, insidiosa ou declaradamente, essa espécie de “infiltração” cognitiva.

3.

Com a Inteligência artificial, advogo, ocorre algo de outro nível: efetivamente um pensamento em co-autoria com a máquina, em que ela pode, inclusive, ser primeira autora (quiçá “mandante”, se não nos afastamos dos crimes). Confrontada com tal acusação, a Inteligência artificial tentou diferenciar-se dizendo que a ela faltavam “intencionalidade própria, capacidade de formular objetivos relativamente estáveis, responsabilidade imputável (jurídica ou política)”.

Retruquei. A operação técnica, como otimização estatística e predição da IA, não pode ser tratada como se fosse neutra, sem objetivos, desprezando componente valorativo e vieses. E quanto à responsabilização, argumento, é uma lacuna que o caso da Flórida e tantos outros e testarão, tateando entre mensageiro e mensagem, corporação e ferramenta, meios e fins.

Neste instante, a máquina comparou a sua intermediação cognitiva antes a de “conselheiros de Estado, analistas de inteligência, burocracias especializadas”. No entanto, o trabalho desses, pelo menos o da inteligência estratégica em sua função informacional que conheço melhor, é mais valioso quanto mais institucional, mais imparcial buscar ser, sem personalização para agradar, sem invadir ou co-criar a decisão do usuário.

Assim, queixas frequentes à atividade de inteligência podem hoje ser endereçadas à inteligência artificial com muito mais justiça: falta de transparência, perigo da reunião abundante de dados e, de modo verdadeiramente inédito e massificado, infiltração de ideias e contaminação da autonomia decisória.

No caso da inteligência estratégica nacional, aparato de soberania, limitada por lei, sujeita a controle parlamentar, judicial e social, com “prompts-objetivos” definidos pela constituição (como todo serviço público), a intermediação cognitiva possível é de assessoramento à decisão, descrevendo ou interpretando realidades a favor do Estado, inclusive com legitimação para buscar dados não disponíveis, porque orientada aos fins de um país e seu povo. A inteligência artificial, por outro lado, não tem mecanismos de deliberação acerca de divergências, compromisso com valores e debates públicos, é de domínio privado, sem responsabilização ou controle popular.

Fecho minha janela de frente pró crime com a ponderação quase desnecessária (porque óbvia) de que muitos benefícios fazem contrapeso aos riscos. Velocidade, custos, volume de processamento, escalabilidade de acesso e difusão de conhecimentos não podem, contudo, justificar violências.

*Anna Cruz é mestra em Direitos Humanos pela Universidade Federal do Pará (UFPA).

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Palavra de poeta

Contranarciso
Paulo Leminski    

em mim
eu vejo
o outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente centenas

o outro
que há em mim é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós

[Ilustração: René Magritte]

Leia também: Retrato do artista quando coisa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_25.html 

09 maio 2026

Trump na encruzilhada

O duplo isolamento de Trump
Hubert Alquéres /Revista Será?      

A guerra com o Irã já não pode ser descrita apenas como um conflito aberto sem horizonte. Após semanas de escalada, entrou em uma fase de cessar-fogo precário e negociação inconclusa, sem que Donald Trump possa proclamar uma vitória. É nesse contexto que o fator tempo ganha importância e, nele, quem parece jogar sob maior pressão é o presidente americano. O calendário político interno, somado à necessidade de apresentar resultados concretos à opinião pública e às elites de Washington, encurta seu horizonte de ação e reduz sua margem de manobra.

Do outro lado, o Irã opera sob lógica distinta. Teerã aposta no prolongamento deliberado das tratativas como instrumento de desgaste. Ao estender o impasse, eleva o custo político de uma eventual frustração para os Estados Unidos, explora fissuras no debate interno americano e transforma a urgência de Trump em vantagem estratégica própria. A trégua existente não eliminou esse padrão: o Estreito de Ormuz continua sob tensão, e a incerteza sobre o fluxo de energia preserva o poder de barganha iraniano.

A história das guerras modernas ensina que derrotas raramente são decretadas por um único evento no campo de batalha. Elas se consolidam, sobretudo, quando se abre um descompasso entre os objetivos políticos e os resultados efetivamente alcançados. É sob essa lente que o conflito com o Irã vem se convertendo em um problema estratégico de grandes proporções para Donald Trump, marcado por um fenômeno particularmente corrosivo: o duplo isolamento, interno e externo.

A rigor, o presidente americano entrou em uma enrascada da qual ainda não delineou uma saída clara. Apostava em uma campanha rápida, de baixo custo e com desfecho politicamente administrável. Enganou-se. Segundo reportagem do New York Times, Trump foi exposto, na reunião com Benjamin Netanyahu realizada na Casa Branca em 26 de fevereiro, a uma leitura excessivamente otimista do cenário: o Irã não teria capacidade de fechar o Estreito de Ormuz e o regime dos aiatolás estaria próximo de um colapso precipitado por manifestações populares. Essa visão foi contestada por representantes das Forças Armadas, da comunidade de inteligência e por assessores próximos ao presidente. Trump decidiu avançar assim mesmo.

Em guerras assimétricas, o simples fato de o lado mais fraco sobreviver já altera a equação estratégica. É o que se observa. As previsões de um desfecho rápido não se confirmaram. A resiliência do regime iraniano e o grau de coesão interna da população surpreenderam Washington. A começar pelo próprio presidente, que passou a oscilar entre anúncios de paz iminente, ameaças de retomada de ações militares “com intensidade muito maior” e gestos de recuo operacional.

Mais grave, o conflito revelou-se muito mais custoso do que o previsto. Não em perdas humanas diretas para os Estados Unidos, mas em termos geopolíticos, econômicos e diplomáticos. A guerra dissemina tensões pelo Oriente Médio, pressiona a economia global e produz atritos com aliados históricos. Trump enfrenta, assim, um impasse clássico: uma guerra que não produz vitória clara e cujo custo aumenta à medida que se prolonga.

Esse impasse torna-se ainda mais delicado quando observado pelo prisma doméstico. Pesquisa Reuters/Ipsos do fim de abril mostrou aprovação de apenas 34%, o nível mais baixo do atual mandato, com queda na avaliação da condução da guerra e do custo de vida. Diferentemente de outros momentos, Trump já não enfrenta apenas a oposição tradicional, mas sinais consistentes de desgaste também no interior de sua própria base.

O movimento Make America Great Again, que sustentou sua ascensão política com forte discurso contrário a intervenções externas prolongadas, começa a apresentar fissuras. Setores mais identificados com o isolacionismo veem no conflito uma contradição direta com a promessa de evitar “guerras intermináveis”. Outros defendem a demonstração de força como parte da liderança americana. Essa divisão corrói o capital político do presidente e reduz sua capacidade de mobilização.

As mobilizações do movimento No Kings, por sua vez, deixaram de ser mera hipótese de descontentamento difuso e ganharam escala nacional, com mais de 3.200 atos planejados em todos os 50 estados no fim de março, em protestos contra políticas de Trump, inclusive a guerra com o Irã. A combinação entre desgaste com o conflito, aumento do custo de vida impulsionado pela instabilidade energética e ausência de resultados concretos cria um ambiente político adverso. A experiência americana mostra que conflitos longos e inconclusos tendem a se converter em passivos eleitorais difíceis de administrar.

Se o front interno já apresenta sinais de deterioração, o cenário internacional amplia ainda mais o isolamento. A dificuldade em construir ou preservar uma coalizão robusta evidencia a perda de legitimidade da ação americana. Aliados tradicionais demonstram crescente resistência, e o distanciamento de algumas lideranças europeias simboliza um problema mais amplo: a dificuldade de Washington de alinhar interesses mesmo entre parceiros historicamente próximos. As tensões em torno da OTAN e da segurança marítima no Golfo reforçam essa percepção.

Nesse contexto, a estratégia de intensificar a pressão sobre o Irã e reagir com mais dureza a tentativas de contornar sanções produziu efeitos colaterais importantes. O mais significativo foi o endurecimento da China, que passou a adotar discurso mais assertivo contra o unilateralismo americano e a sinalizar disposição para proteger seus interesses na região. De maneira silenciosa, Pequim amplia seu espaço de influência no Oriente Médio.

Paradoxalmente, um dos maiores beneficiários desse processo pode ter sido o próprio Irã. Ao explorar sua posição estratégica e sua capacidade de influenciar o fluxo de energia global por meio do Estreito de Ormuz, o país transformou vulnerabilidade em poder de barganha. Mesmo após o cessar-fogo, a simples possibilidade de restrição ao tráfego de petróleo continua suficiente para impactar mercados e impor custos indiretos aos adversários.

O conjunto desses fatores revela uma inversão clássica: uma potência que inicia um conflito para demonstrar força termina confrontada com os limites de sua capacidade de impor resultados políticos. Mesmo eventuais sucessos militares pontuais tornam-se insuficientes diante do desgaste acumulado em múltiplas frentes. A distância entre vitória tática e fracasso estratégico aumenta à medida que o tempo joga contra quem apostava em rapidez e controle.

Não por acaso, a Casa Branca procura preservar frentes diplomáticas em outras áreas. O encontro de Trump com Lula, em Washington, ajuda a compor uma imagem de interlocução e normalidade, mas não altera o dado central: a política externa americana segue condicionada pelo desgaste produzido pelo impasse com o Irã.

É nesse cenário que emerge o elemento mais delicado para a Casa Branca: a busca por uma saída. Toda guerra exige, em algum momento, uma solução que permita encerrá-la com algum grau de legitimidade e preservação de poder. No caso de Trump, essa saída torna-se cada vez mais difícil de delinear. Encerrar o conflito sem resultados claros pode ser interpretado como recuo; prolongá-lo implica aprofundar custos e desgaste.

A própria oscilação operacional americana ilustra esse problema. Trump chegou a pausar a operação destinada a reabrir a navegação em Ormuz, alegando “grande progresso” rumo a um acordo abrangente com o Irã. O gesto mostra menos uma estratégia consolidada do que a dificuldade de sustentar simultaneamente a pressão militar e a busca de acomodação diplomática.

A retórica do presidente, longe de facilitar esse caminho, tende a agravá-lo. Ameaças de retomada da guerra com intensidade ampliada ou formulações grandiloquentes não apenas elevam a tensão, como reforçam a percepção de imprevisibilidade e afastam potenciais mediadores. Em vez de construir pontes para a negociação, esse discurso estreita a margem para uma saída politicamente administrável.

O problema deixa, assim, de ser apenas militar e passa a ser essencialmente político: como sair de um conflito que não entregou os resultados prometidos sem transformar seu desfecho em símbolo de fracasso. Até o momento, essa resposta não se apresenta. E, na ausência dela, o duplo isolamento, interno e externo, deixa de ser apenas um sintoma e passa a funcionar como sinal de alerta de uma possível derrota estratégica.

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Trump 2, a política externa da tensão permanente 
https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/celso-pinto-de-melo-opina.html 

Fotografia

 

Evandro Teixeira

Luzes da ribalta https://lucianosiqueira.blogspot.com/