28 abril 2026

Editorial do 'Vermelho'

Riqueza de Serra Verde é do Brasil! Venda aos EUA é afronta à soberania nacional
Donald Trump age ardilosamente para se apossar de minerais estratégicos, com a ajuda de Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado
Editorial do portal 'Vermelho'   

A compra da empresa Serra Verde, que opera a mina de Pela Ema, em Minaçu, Goiás, pela mineradora estadunidense USA Rare Earth, negócio avaliado em aproximadamente US$ 2,8 bilhões, é uma operação afrontosa à soberania nacional. A transação, cuja legalidade está sendo questionada, ocorre em um momento de ofensiva dos Estados Unidos para garantir fontes de terras raras, mercado dominado pela China, que controla 70% da cadeia global desses minerais, usados ​​em ímãs de alta potência empregados em eletrônicos de consumo, automóveis e sistemas de defesa.

A Serra Verde, empresa privada controlada por grupos estadunidense e britânico, havia assinado um contrato de 15 anos de fornecimento a uma empresa financiada por diversas agências governamentais dos Estados Unidos. Em fevereiro, a empresa obteve um empréstimo de US$ 565 milhões da Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos para ajudar a financiar melhorias na mina, único produtor fora da Ásia capaz de fornecer os quatro elementos de terras raras magnéticos em grande escala.

O anúncio surge no momento em que o governo brasileiro e o Congresso Nacional buscam acelerar o debate e a definição de um marco legal para os minerais críticos. Tramita na Câmara dos Deputados um Projeto de Lei cujo conteúdo, tal como está, não atende aos interesses nacionais.

Diante da gravidade da venda de Serra Verde, o governo Lula, por meio do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, anunciou que se encontra em fase final uma proposta de regulação. Ela prevê a criação do Conselho Nacional de Política Mineral, que será composto por 16 ministros.

A principal função do órgão será analisar e autorizar qualquer operação envolvendo ativos considerados estratégicos para o país. Segundo o ministro, o objetivo central é a garantia da soberania nacional sobre minerais críticos e estimular o desenvolvimento industrial no Brasil, formulando diretrizes para o processamento de terras raras no próprio país.

Em recente visita à Alemanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou: “O que queremos é dizer ao mundo que as terras raras e minerais críticos são de propriedade do Brasil, da soberania brasileira.” Disse ainda que o governo brasileiro está aberto a parcerias internacionais, desde que elas contribuam para o desenvolvimento do país.

De fato, o Brasil, que abriga uma das maiores reservas de minerais estratégicos do mundo, precisa de parcerias para concretizar seu potencial e transformar as reservas em produtos processados para exportações. Pela Constituição, os minerais pertencem à União, e não ao dono do terreno. A exploração só é permitida mediante autorização ou concessão federal, mesmo com a emenda do governo Fernando Henrique Cardoso (FHC), aprovada em 1995, revogando o Artigo 171 da Constituição, que estabelecia a diferença entre empresas nacional e estrangeira.

Como diz a presidente em exercício do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Nádia Campeão, as terras raras “são um tesouro no subsolo brasileiro, patrimônio da nação”. “Os Estados Unidos de Trump procuram se apoderar destes recursos estratégicos por meio de negociações privadas ou diretamente com entes subnacionais. O governo brasileiro, de imediato, deve exercer plenamente a soberania para impedir que se concretize esse ato contrário aos interesses nacionais”, afirma.

O alerta se insere na conjuntura de grande pressão dos Estados Unidos pela posse das terras raras, uma tentativa de cunho neocolonial de moldar a política brasileira para esse setor. Em fevereiro, o governo de Donald Trump enviou uma proposta para um acordo bilateral, ignorada pelo Brasil.

A proposta chegou junto com um alto enviado, Darren Beattie, assessor de Trump, que deveria participar do Fórum Brasil-Estados Unidos em Minerais Críticos e teve seu visto revogado depois que o governo brasileiro descobriu que ele planejava visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão e se encontrar com seu filho, o pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro.

O evento ocorreu em 18 de março, em São Paulo, organizado pela Embaixada e consulados dos Estados Unidos, com apoio do Instituto Brasileiro de Mineração, considerado o maior fórum público-privado sobre o tema na América Latina em 2026. Convidado, o governo brasileiro não compareceu.

No mesmo dia, o encarregado de Negócios dos Estados Unidos no Brasil, Gabriel Escobar, e o então governador de Goiás e atual pré-candidato a presidente, Ronaldo Caiado (PSD), assinaram um memorando no consulado estadunidense em São Paulo. No documento está em jogo a posição estadunidense de se opor a qualquer medida que torne obrigatório o processamento desses minerais no Brasil. E, em troca de seus investimentos, querem prioridade sobre a China na compra dos minerais.

Nesse jogo aparecem Caiado e Flávio Bolsonaro numa espécie de gincana sobre qual é o mais entreguista e traidor da pátria. A “solução” para que os Estados Unidos quebrem a dependência comercial da China em relação aos minerais críticos está no Brasil, disse o bolsonarista na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), realizada recentemente no Texas.

Terras raras e minerais críticos são elementos essenciais para o desenvolvimento industrial, tecnológico e para a transição energética, diz uma nota técnica da Fundação Maurício Grabois. É preciso lembrar, a partir desse conceito, que o capítulo dos atentados à soberania nacional no período em que o país foi governo pelo entreguismo – do qual o governo Bolsonaro foi emblemático – é copioso.

O momento remete à campanha O petróleo é nosso, que abriu caminho entre todas as barragens e emergiu como um grande movimento popular em defesa da soberania nacional com a criação da Petrobras na década de 1950, levando o país a dar um salto em seu desenvolvimento.

Assim como aconteceu diante do tarifaço de Trump, impõe-se uma união de caráter patriótico que contenha e rechace essa ofensiva do imperialismo para se apossar dessa grande riqueza nacional. Diante disto, o presidente Lula com sentido de urgência deve buscar que sejam adotadas políticas e leis que resguardem o patrimônio nacional, além de procurar construir parcerias estratégicas que possibilitem para além da extração, o processamento das terras raras, à luz do interesse nacional.

A riqueza de Serra Verde é do Brasil. Sua venda à uma potência estrangeira se confronta com a Constituição. A legalidade do ato, portanto, é incerta e duvidosa. É dever das instituições da República escrutinar este fato sob a régua da soberania nacional.

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O embate sobre as terras raras e o futuro do Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/valor-estrategico.html

Minerais estratégicos

Como impedir a venda de minas de terras raras
Estados Unidos e União Europeia criaram mecanismos para proteger a economia nacional e evitar a 'compra predatória' por razões de segurança
Luís Nassif/Jornal GGN   

Se Lula quiser bons precedentes para vetar a venda da mina de terras raras para uma empresa norte-americana, mire-se nos exemplos dos Estados Unidos, China e países europeus.

Os EUA têm o sistema mais desenvolvido do mundo. O CFIUS (Committee on Foreign Investment in the United States), presidido pelo Secretário do Tesouro, analisa transações que possam dar a entidades estrangeiras o controle de empresas americanas — incluindo fusões, aquisições e investimentos em tecnologias críticas, infraestrutura e dados sensíveis.

Não são poucos os casos de bloqueio, sabendo-se que na prática, o bloqueio formal é raro. Entre 2016 e 2020, apenas cinco casos foram enviados ao presidente da República para decisão, enquanto 62 foram retirados e abandonados diante das preocupações levantadas pelo CFIUS. A maioria das transações morre antes — as empresas desistem ao perceber que o bloqueio é certo. 

Lattice Semiconductor (2017): Em 2017, Trump bloqueou a aquisição da fabricante de microchips Lattice Semiconductor pela Canyon Bridge Capital Partners, firma chinesa de private equity, alegando que a transação representava risco à segurança nacional que não podia ser resolvido por medidas mitigadoras. 

Aixtron SE (2016): Obama bloqueou a aquisição pela unidade americana da fabricante alemã de chips Aixtron SE por uma empresa estatal chinesa.

Magnachip / Wise Road Capital (2021): A firma chinesa Wise Road Capital acordou comprar a fabricante sul-coreana Magnachip por US$ 1,4 bilhão. O CFIUS identificou riscos à segurança nacional e concluiu que nenhuma medida mitigadora proposta pelas partes era suficiente para eliminá-los. 

Nippon Steel / US Steel (2025): O caso mais recente e politicamente revelador. Em janeiro de 2025, Biden bloqueou a proposta de fusão de US$ 14,9 bilhões entre a US Steel e a japonesa Nippon Steel após o CFIUS não conseguir chegar a consenso sobre o negócio. O detalhe é que o Japão é aliado da OTAN. O caso ilustra o impacto que a política e a percepção pública — e não apenas considerações de segurança nacional propriamente ditas — podem ter sobre transações sujeitas a revisão do CFIUS. 

Dubai Ports / P&O (2006): Outro caso clássico. Uma empresa dos Emirados Árabes compraria a operadora britânica P&O, assumindo controle de portos americanos. O Departamento de Segurança Interna chegou a negociar uma “carta de garantias” com a DP World, mas a hostilidade do Congresso americano levou a empresa a retirar a proposta de aquisição.

TikTok – Congresso aprova lei bipartidária. A ByteDance (dona do TikTok) teve que vender o TikTok ou sofrer banimento total nos EUA até 19 de janeiro de 2025. Solução final: TikTok não foi banido, mas foi forçado a se reestruturar nos EUA, com  a operação americana separada e controle parcial por investidores dos EUA 

Europa: golden shares, triagem e o caso alemão

Na Europa, o mecanismo histórico foi a golden share — ação especial retida pelo Estado durante privatizações que concede poder de veto sobre decisões estratégicas. As golden shares emergiram com destaque nos anos 1980 e 1990 durante a onda de privatizações, especialmente no Reino Unido sob Thatcher, mas também na França, Alemanha e outros países da UE.

O Tribunal de Justiça da União Europeia, porém, foi sistematicamente hostil ao mecanismo. Foram declaradas ilegais as golden shares espanholas na Telefónica, Repsol, Endesa, Argentaria e Tabacalera. A da BAA (operadora britânica de aeroportos) também foi considerada ilegal por restringir a livre circulação de capitais na UE. 

A resposta europeia foi migrar para sistemas de triagem de investimentos estrangeiros diretos (IED). O caso alemão é ilustrativo: em julho de 2018, o governo federal alemão impediu que um investidor chinês adquirisse 20% da operadora de rede elétrica 50Hertz, articulando para que o banco estatal KfW fizesse o investimento no lugar — porque o governo não tinha jurisdição para bloquear diretamente o negócio sob as regras então vigentes.

Além disso, o governo alemão proibiu a venda de uma fábrica de chips e do negócio de turbinas a gás da MAN Energy Solutions a investidores chineses, com base em triagem de investimentos estrangeiros.

A pandemia de COVID-19 acelerou o endurecimento europeu. A Comissão Europeia emitiu orientações declarando que os Estados-membros têm o direito de usar mecanismos de triagem, golden shares ou mesmo nacionalização para bloquear ou limitar a “compra predatória” de ativos estratégicos por investidores estrangeiros por razões de segurança ou política pública.

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IA: Como a China está vencendo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ia-china-vence-eua.html 

Minha opinião

É o que é
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65  

Meio que de soslaio, vejo na Folha de S. Paulo artigo de Ian Bremmer, colunista da Time, que considera que a China tem se posicionado estrategicamente frente à guerra na Ucrânia, colhendo benefícios geopolíticos e econômicos.

Poderia dizer o mesmo em relação à guerra de Israel e Estados Unidos contra o Irã.

Também do tarifaço de Trump.

É como “jogar parado” e sabiamente explorar as inconsequências do seu maior adversário na arena mundial.

O autor como que lamenta que a “neutralidade ambígua” chinesa permita que o país se apresente como um potencial mediador global, desafiando a hegemonia norte-americana.

Ingenuamente imagina que no longo prazo a OTAN possa se fortalecer e neutralizar a ascensão da China.

Esperneia.

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A irrelevância da Europa diante de uma guerra que afeta sua segurança e ameaça sua economia https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/europa-decadente.html 

Palavra de poeta

A estrela da manhã
Manuel Bandeira    

Eu queria a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda à parte

Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noites
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos

Pecai com malandros
Pecai com sargentos
Pecai com fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras
Com os gregos e com os troianos
Com o padre e o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto

Depois comigo

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás

Procurem por toda à parte
Pura ou degradada até a última baixeza
Eu quero a estrela da manhã.

[Ilustração:Marc Chagall]

Leia também: "Prelúdio", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/palavra-de-poeta_22.html 

27 abril 2026

A variável tecnologia

Irã entendeu algo que os EUA, com todo o seu orçamento de defesa, ainda não processaram
O que o conflito no Oriente Médio ensina para qualquer líder é que tecnologia não flutua; ela pousa em algum lugar, consome algo, depende de alguém. E narrativa não espera: ela acontece com você ou sem você
Camila Farani/O Estado de São Paulo    

Existe uma guerra dentro da guerra. E essa segunda guerra não tem míssil, não tem drone, não tem general dando entrevista coletiva. Ela tem Lego. Tem bebezinho animado. Tem vídeo gerado por inteligência artificial que faz você rir antes de perceber que está consumindo propaganda de Estado. O Irã entendeu algo que os Estados Unidos, com todo o seu orçamento de defesa, ainda não processaram: na era da atenção distribuída, quem faz rir, vence.

Quando o conflito entre EUA e Israel contra o Irã escalou, o debate público foi todo sobre tecnologia militar. Drones autônomos, sistemas de mira com IA, precisão cirúrgica. Fascinante do ponto de vista técnico. Irrelevante do ponto de vista de quem estava assistindo no celular. Enquanto o Pentágono apresentava relatórios, o Irã lançava vídeos com estética de desenho animado ridicularizando o poderio americano. Viralizaram para mais de 145 milhões de visualizações no primeiro mês. Os EUA responderam com referências a videogames de violência explícita e batizaram a operação de “Epic Fury”. Ninguém compartilhou. Todo mundo compartilhou o Lego. 

Eu vi esse padrão antes. Não em guerra, mas em mercado. Vejo fundadores com produto extraordinário perderem para concorrentes medíocres porque não souberam contar sua história. Vi marcas investirem fortunas em produto e centavos em comunicação, e depois se perguntarem por que o cliente escolheu outra. A batalha da narrativa não começa quando você está perdendo. Começa antes. E quando você acorda para ela, o terreno já foi ocupado.

Mas o conflito revelou um segundo problema, esse mais fundo. A IA que celebramos tem um segredo que ninguém gosta de discutir: ela depende de coisas muito físicas para funcionar. Energia. Chips. Rotas de logística. O Estreito de Ormuz, que o Irã controla estrategicamente, é por onde passa boa parte do gás natural que alimenta os data centers americanos. Quando aquela passagem fecha, não é só o preço do combustível que sobe. É a conta de luz dos supercomputadores que sustentam o ChatGPT, o Google, os sistemas que sua empresa usa todo dia.

Isso me incomodou de um jeito específico. Porque eu passo os últimos anos dizendo para o mercado que IA é infraestrutura, não moda. E aí a guerra no Irã chegou para lembrar que infraestrutura tem endereço físico. Que chip de semicondutor precisa de gás hélio produzido no Catar. Que wafer viaja de avião por rotas que passam pela região mais instável do planeta agora. A promessa digital encontrou o limite do mundo analógico. E ninguém tinha mapeado isso no planejamento estratégico.

Tem mais. Enquanto o conflito trava a cadeia da IA americana, a China avançou. Modelos de código aberto “made in Pequim” estão sendo adotados por empresas e governos no mundo inteiro. O Congresso americano acendeu um sinal de alerta formal. O Brasil, nesse cenário, está planejando expandir sua capacidade de data centers em cinco vezes, segundo dados da Associação Brasileira de Data Centers. Cinco vezes. Isso não apareceu no noticiário. Apareceu nos números de quem estava prestando atenção. 

A empresa brasileira que conseguir entender o que está acontecendo aqui tem uma janela. Não porque o Brasil vai virar potência de IA da noite para o dia. Mas porque dependência de infraestrutura concentrada é um risco que os grandes players estão começando a querer diversificar. E diversificar tem endereço. Pode ser o nosso.

O que a guerra no Irã ensina para qualquer líder, no fundo, é simples. Tecnologia não flutua. Ela pousa em algum lugar, consome algo, depende de alguém. E narrativa não espera. Ela acontece com você ou sem você. A pergunta que eu faço para cada executivo que me consulta hoje é a mesma: onde está o seu Estreito de Ormuz? Qual é o ponto da sua operação que, se travar, trava tudo? Quem está cuidando da sua história enquanto você cuida do seu produto?

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Irã usa satélite chinês e desafia hegemonia dos EUA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/poderio-belico-digital.html

Humor de resistência

Miguel Paiva

O delírio de Trump

O cenário insano que pode tornar a guerra global

Israel não aceita a trégua transitória. EUA concentram mais soldados diante do Irã, e surgem sinais de que Trump está alheio à realidade. Seu gabinete delira com um “cerco à China”. As turbulências da economia global podem virar terremoto
Alastair Crooke/Outras Palavras  

Os Estados Unidos estão entrando em uma nova fase da guerra contra o Irã. Pode não ser o que muitos esperam (especialmente nos mercados financeiros). No sábado, 19/4, Trump disse, entre outras coisas, que o Estreito de Ormuz estava aberto e que o Irã concordou em nunca mais fechá-lo; que Teerã, com a ajuda dos EUA, removeu ou está removendo todas as minas marítimas; e que EUA e Irã trabalhariam juntos para extrair do Irã o urânio altamente enriquecido (UAE) que o país produziu. Trump escreveu:

“Vamos resolver isso. Vamos trabalhar com o Irã, em um ritmo tranquilo, e começar a escavar com máquinas pesadas… Traremos os resultados para os Estados Unidos muito em breve.”

O presidente afirmara um dia antes que o Irã concordou em entregar seu estoque de urânio altamente enriquecido. Nenhuma dessas afirmações era verdadeira . Ou Trump estava imaginando (apegando-se a fantasias, embora acreditando que fossem verdadeiras); ou estava manipulando os mercados. 

Se foi o último caso, houve sucesso. O preço do petróleo caiu e os mercados dispararam. Segundo relatos, 20 minutos antes da afirmação do presidente, de que o Estreito de Ormuz estava aberto e jamais fecharia novamente, uma posição vendida de US$ 760 milhões em petróleo foi aberta… Alguém ganhou uma fortuna.

Toda essa turbulência gerou muita confusão. Trump também afirmou que uma nova rodada de negociações e um provável acordo com o Irã aconteceriam muito em breve — inclusive neste fim de semana. A probabilidade de negociações é falsa. A agência de notícias iraniana Tasnim informou que “o lado norte-americano foi informado, por meio do mediador paquistanês, de que nós [Irã] não concordamos com uma segunda rodada [de negociações]”.
Desde o início do cessar-fogo mediado pelo Paquistão, o Irã deveria permitir a passagem diária de um número limitado de navios. No entanto, isso sempre esteve sujeito às condições iranianas para a passagem em trânsito. O resultado final das manipulações de Trump foi fazer com que o Irã reafirmasse suas condições sobre Ormuz, sobre seus estoques de urânio altamente enriquecido e sobre seu “direito de enriquecer”, em uma definição mais restrita e menos flexível.

As negociações em Islamabad já haviam demonstrado ao Irã que sua proposta estruturada em  10 pontos — inicialmente vista por Trump como uma “base viável” para o início de negociações diretas — não poderia prosperar. O lance iraniano foi descartado no final do dia, à medida em que os EUA voltaram-se para seus principais pontos para uma planejada vitória: abandono, para sempre, do enriquecimento de urânio pelo Irã; entrega aos EUA de seu estoque de 430 kg de urânio enriquecido a 60%; e a abertura do Estreito de Ormuz — sem pedágios.

Em resumo, a posição dos EUA foi apenas uma continuação das exigências de longa data de Israel. A experiência adicional do Irã, com a falsificação promovida dos EUA na sexta-feira, só serviu para confirmar a convicção de permanecer sempre alerta, e de encarar a confusão fabricada como uma possíve l manobra dos EUA para acobertar os preparativos para uma escalada militar planejada .

Ao recusar essas exigências cruciais, o Irã desencadeou a repentina decisão dos EUA, de desistir de Islamabad, evidenciando o contexto fundamental por trás dessa retirada norte-americana: Netanyahu estava frustrado. Muito frustrado. “Co mo [Netanyahu] afirma, ‘a mídia’, esse conveniente ‘vilão’, conseguiu consolidar a narrativa de que Israel perdeu a guerra [com o Irã]”, escreveu Ravit Hecht no Haaretz. Ele prosseguiu:

“Poucas pessoas entendem melhor que Netanyahu o poder de mensagens curtas, diretas e inequívocas… Com o tempo se esgotando e sua reputação internacional em declínio, ele está desesperado para apresentar pelo menos uma história de sucesso inequívoca, dentre as metas ambiciosas que proclamou na primeira semana da guerra – quando a arrogância e a adrenalina ainda permeavam todas as coletivas de imprensa do governo.

“Mudança de regime em Teerã? Já não está em discussão. O vago objetivo de ‘criar condições’ para tal mudança evaporou-se. Acabar com o programa de mísseis balísticos do Irã parece agora extremamente irrealista – os ministros de Netan yahu também reconhecem isso. Quanto à rede de aliados regionais do Irã, sua influência pode se tornar mais sutil, mas poucos acreditam que possa ser completamente desmantelada.

“Isso deixa apenas uma carta em jogo: o urânio.

“O círculo de Netanyahu espera que, como em crises passadas, a crescente pressão possa obrigar o Irã a abrir mão de seu estoque de urânio enriquecido. Netanyahu está apostando tudo nesse resultado – ou na possibilidade de que uma nova guerra ainda possa desestabilizar o regime.

“Foi por isso que o vice-presidente dos EUA, J.D.Vance — que recebia instruções da Casa Branca ou de Tel Aviv quase a cada hora — encerrou as prematuramente negociações em Islamabad, no início do mês. Não era possível esperar do diálogo uma mensagem de vitória concisa e incisiva, da qual depende o futuro de Netanyahu”.

O advogado constitucionalista norte-americano Robert Barnes (amigo de Vance) relatou em entrevista que:

“Trump começou a apresentar sinais de demência precoce em setembro de 2025… Ele frequentemente confabula – inventa histórias –, perde a paciência rotineiramente e profere discursos raivosos e descontrolados, sendo incapaz de pensamento crítico. E nesse estado, segundo Barnes, Trump realmente acredita que os EUA derrotaram o Irã e não compreende o enorme prejuízo econômico que o fechamento do Estreito de Ormuz está causando à economia global”.

Resumindo, Barnes afirma que o delírio de Trump, de que o Irã está prestes a se render, reflete seu estado mental comprometido — uma dificuldade em compreender a realidade (uma interpretação panglossiana que o secretário de Defesa, Pete Hegseth faz o possível para reforçar).

Assim como Netanyahu, Trump provavelmente também acredita que pressionar de forma crescente o Irã poderia render o troféu da vitória de exibir 430 kg de urânio enriquecido — seja por meio de pressão econômica, seja por meio de uma apreensão dramática em solo iraniano pelas forças norte-americanas.

Diante dessa crise no coração da Casa Branca, o vice-presidente Vance, novamente segundo Barnes, tem trabalhado intensamente nos bastidores para organizar um novo encontro com o Irã em Islamabad. Age assim apesar de o processo político estar sendo deliberadamente prejudicado por ataques aéreos e terrestres israelenses em larga escala no Líbano, que mataram e feriram até mil pessoas (quase todas civis) durante as negociações de cessar-fogo, bem como pelos ataques contínuos, desde que Trump supostamente “proibiu” Israel de atacar o Líbano no início do cessar-fogo.

No entanto, após muita negociação por parte do Paquistão, com mensagens circulando em várias direções, “na noite passada [19/4], um oficial militar iraniano afirmou que Teerã havia emitido um ultimato final aos EUA, informando que estava a uma hora de iniciar uma operação militar e ataques com mísseis contra as forças israelenses que atacavam o Líbano, o que [finalmente] forçou Trump a declarar um cessar-fogo no país”, causando grande indignação em Israel. Autoridades israelenses ficaram furiosas, reclamando que só foram informadas depois do ocorrido.

Não está nada claro se Israel irá respeitar o acordo (Telaviv já violou o cessar-fogo). Netanyahu, todos os líderes da oposição israelense e uma grande maioria da população estão unidos no desejo de que a guerra continue.

As negociações de Islamabad fracassaram, em primeiro lugar, porque as divergências entre as duas partes eram intransponíveis; e, segundo, porque as partes tinham visões diferentes e contraditórias da realidade no território. Os EUA, aparentemente, entraram nas negociações partindo da “hipótese” de que a outra p arte já estava militarmente destruída e em situação desesperadora.

O Irã, por outro lado, entrou convicto de que havia saído mais forte do que após a Guerra dos Doze Dias. Em sua interpretação, isso significava que o controle de Ormuz e do Mar Vermelho ainda não havia atingido o estágio em que o equilíbrio de sofrimento pudesse pesar decisivamente favorável ao Irã — e certamente n& atilde;o havia chegado ao ponto em que concessões significativas por parte de Teerão fossem apropriadas.

Qual será, provavelmente, a próxima etapa? Mais guerra! Uma guerra cinética de maior escala, com foco provavelmente em outra série m aciça de ataques com mísseis, principalmente contra a infraestrutura civil do Irã.

Em 14 de abril, o Conselho de Segurança da Rússia alertou que “as negociações de cessar-fogo podem ser uma cortina de fumaça usada por Washington para se preparar para uma guerra terrestre… Os Estados Unidos e Israel podem usar as negociações de paz para se preparar para uma operação por terra contra o Irã, enquanto o Pentágono continua aumentando o número de soldados norte-americanos na região”.

Trump acrescentou agora uma nova frente , com o objetivo de maximizar ainda mais o impacto econ& ocirc;mico de sanções e bloqueios sobre o Irã. A China é o principal alvo porque, como afirma o Secretário do Tesouro Scott Bessent, Beijing tem sido a maior compradora de petróleo iraniano vendido com desconto. Bessent alega que essa nova dimensão é o equivalente financeiro aos ataques militares conjuntos EUA/Israel anteriores contra o Irã. Ele a chamou de parte da “Operação Fúria Econômica” — destinada a cortar as fontes de receita do Irã, especialmente as provenientes da venda de petróleo e das supostas redes de contrabando.

Bessent também afirmou que os EUA imporiam sanções secundárias a quaisquer países, empresas ou instituições financeiras que continuassem comprando petróleo iraniano ou que permitissem a circulação de dinheiro iraniano em suas contas. Descreveu isso como uma “medida muito severa”. Bessent advertiu explicitament e que, se fosse comprovado que fundos iranianos estavam circulando por meio de contas bancárias, os EUA aplicariam sanções secundárias.

Se este anúncio tem como objetivo coagir a China a pressionar o Irã para que este se renda a Israel e aos EUA, isso constitui uma leitura flagrantemente equivocada da situação tanto no Irã quanto na China. É provável que se volte contra Trump. Isso provocará o surgimento de mais uma frente econômica na guerra — e estender&a acute; a guerra econômica a um nível global.

É provável que a China e a Rússia interpretem essa declaração apenas como mais uma tentativa dos EUA (após o bloqueio à Venezuela) de restringir o fornecimento de energia à China. O Estreito de Ormuz continua aberto para navios chineses. A tentativa de bloqueio de Trump foi a pressão inicial — agora ele ameaça sanci onar bancos e empresas chinesas.

A guerra tarifária de Trump será vista em retrospectiva como insignificante, comparada ao ataque iminente às cadeias de abastecimento da China. Os mercados podem comemorar prematuramente, mas a próxima fase será, tudo indica, uma guerra ainda maior e mais intensa.

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Irã usa satélite chinês e desafia hegemonia dos EUA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/poderio-belico-digital.html