01 julho 2026

Minha palavra

Leitura do não escrito
Luciano Siqueira 

Ali onde ninguém conversa sobre literatura e mesmo sobre livros de outra natureza, surpreendeu-me: 

— Um cara que lê muito, a gente sabe pelo que você escreve...

— Verdade. Leio muito, talvez menos do que necessito.

— Já experimentou ler um conto ou uma crônica ou mesmo um artigo que jamais foi escrito? 

— Como assim!?

— Imaginando...

— !?

— Sem ter nem pra quê me pego "lendo" textos não escritos.

— Se não foram escritos, como consegue?

— Na rede do meu quarto não tenho cama, nem mesa, nem cadeira, apenas a rede. Penso, imagino, arrumo na mente e depois "releio" tudo.  

[Ilustração: Emirhan Yazıcı]

Se comentar, identifique-se.

Leia também: "Telefone ontem e hoje https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/minha-opiniao_3.html 

Postei nas redes

Grande mídia neoliberal oscila diante da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro entre o enterro precoce e a sustentação por falta de alternativa. 

Cada campanha é uma campanha https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao.html 

Abraham Sicsu opina

Direita volver?
Abraham B. Sicsu  

Em recente debate pela internet, o professor Cristovam Buarque se posicionou da seguinte maneira, respondendo sobre as razões que têm levado os eleitores a preferir a posição de direita em eleições recentes:

Minha hipótese é que o eleitor não acredita mais na possibilidade do “distributivismo” para dar a todos uma parte substancial do PIB tradicional. Porque o Estado e os recursos naturais não permitem que o progresso tradicional seja distribuído a todos. Por falta de uma alternativa que satisfaça ao eleitor, ele não quer decrescimento, nem dificultar o consumo, nem abrir as portas para a imigração social ou geográfica, nem salvar o planeta para as próximas gerações, nem a ilusão abstrata de desenvolvimento sustentável, o eleitor confia na possibilidade de receber sua parte pela exclusão de outros, conseguida pela liberdade, o darwinismo social praticado democraticamente. Se erra quando se acusa a atual direita como antidemocrata, ela está sendo eleita e praticando desumanismo ecológico (anti migratório e prisional), mas com apoio dos eleitores. A Era da Escassez Plena (não a era da escassez parcial em que a esquerda podia prometer tirar dos ricos para os pobres), o poder do Tecnológico da Era Antropocena, os Limites ao Crescimento, a Planetarização da Civilização criaram uma contradição entre Humanismo e Democracia e as forcas progressistas não têm proposta capaz de
retomar o casamento entre estas duas ideias, e seduzir aos eleitores nacionais e imediatistas, em qualquer pais.”

Concordo com essa visão. O problema é procurar alternativas que venham a trazer o retorno da empatia e da busca de sociedades mais igualitárias, propostas em que o efeito distributivo seja aceito pela maioria e não visto como mecanismo de exclusão daqueles que algo já possuem.

Fui formado sob a lógica cepalina em que se acreditava que a industrialização periférica traria a solução para a diminuição das disparidades centro periferia, em que se via no crescimento a solução para a resolução dos males sociais e a inserção das populações no contexto de avanço do padrão de vida. Infelizmente, pouca atenção foi dada à questão distributiva, à lógica capitalista per si concentradora, à exclusão de uma grande parcela da sociedade dos frutos do progresso técnico. Avançou-se, sem dúvida, mas também se aumentou o fosso entre os incluídos na lógica do crescimento e os excluídos das benesses dele.

O desenvolvimento caracterizava-se pelo crescimento continuado do produto (PIB), a taxas mais elevadas do que as do crescimento populacional, ao longo do tempo.  Se o PIB crescesse mais do que a população, o PIB/capita (ou renda/capita) cresceria. Ou seja, bastava aumentar a produtividade da sociedade, que cada membro da sociedade poderia comprar cada vez mais bens e serviços e, portanto, viver melhor. Esqueceu-se da lógica capitalista de concentração de riqueza.

Boa parte da minha vida profissional teve o dito Desenvolvimento Sustentável como norte de um mundo melhor. Os ensinamentos de Amartia Sen nos orientavam política e tecnicamente. A diferenciação entre crescimento e desenvolvimento ficava patente. Só haveria desenvolvimento se houvesse inclusão social e respeito ao semelhante. Nas palavras da economista Nayyar, que trabalhou com Sen, assim deveria ser definido:

“O desenvolvimento precisa expressar-se em aperfeiçoamento das condições de vida das pessoas (do povo). É necessário, portanto, que ele garanta a satisfação das necessidades humanas básicas para todos: não apenas alimentação e vestuário, mas também habitação, cuidados com a saúde e educação.”   

Em tese, essa visão ainda seria dominante hoje, mas não, na verdade o conceito de desenvolvimento que está por trás da visão recente é outro.

No subconsciente coletivo, o desejo é bem diferente. A maioria quer viver e ter condições de vida idênticas às dos países centrais, tendo os Estados Unidos da América como padrão referencial mais expressivo.

Deseja-se, então, uma vida em que se elimine as diferenças em relação aos países mais desenvolvidos, uma organização sócio-política que permita ter condições de saúde e educação e segurança, por exemplo, similar aos desenvolvidos. E, nesse processo de busca de melhores condições pessoais, vendo a impossibilidade de ser generalizado, se aterem a garantir seus privilégios sem haver nenhuma preocupação com os excluídos.

Um problema sério. Defendem-se políticas similares às dos países capitalistas avançados já dominados por esses desejos incorporados. Evitar a todo o custo a imigração entrante, políticas de segurança sem nenhuma preocupação com a reinserção futura na sociedade, apenas como despejo e amontoamento de indivíduos em condições subumanas, classes médias que têm “ódio” de gente pobre, etc..

Sempre me vem à mente um provérbio nordestino que reflete essa situação. “Farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Mostrar políticas que permitem melhorias profundas na situação econômica, se não mudam as condições da classe média pouco sensibiliza. Ações que levem à melhoria dos menos favorecidos são consideradas perigosas, na medida em que podem trazer contingentes significativos de pessoas a disputar espaços que consideram seus e não aceitam dividir. Mesmo as classes médias baixas têm essa percepção e procuram se precaver para não terem os poucos recursos que dispõe ameaçados.

Na América Latina, são claros os avanços da extrema direita. Governos conservadores têm ganho as eleições mais recentes. Começando pelos ultraliberais de El Salvador, passando pela Argentina e Equador, até os mais recentes como Chile, Colômbia e Peru.

A volta de Trump nos EUA fez com que houvesse uma aposta de que uma aliança com ele diminuiria as crises econômicas dos periféricos. Pelo menos, é isso o que é sentido e vendido pela direita desses países.

Os anos vinte de nosso século deixam claro que, mesmo havendo melhoras significativas nos indicadores econômicos dos governos de centro esquerda, não conseguem sensibilizar o povo, há uma crescente descrença de que eles possam resolver os problemas que afligem as populações desses países, a comparação jamais é com o passado recente, sempre desejam condições similares aos mais desenvolvidos, que nunca tiveram.

Nas pautas de preocupações recentes segurança ganha destaque. A aliança com o Gigante do Norte é vista como solução para melhoria da situação. Mesmo que a soberania e autonomia de decisões nacionais sejam fortemente ameaçadas.

A inflação, gerada por crises internacionais e guerras, muitas vezes provocada pelo trumpismo, é sempre atribuída ao governo que está no poder e leva a posições bastante contrárias daqueles que apenas se centram em garantir seus privilégios. A falácia do gasto público como causador de todos os males econômicos das famílias coloca os governos na defensiva e faz com que a mídia venda uma imagem de ineficiência.

Aliado a isso, uma onda de líderes populistas que prometem cortes de impostos e medidas fiscais altamente restritivas. Nitidamente vistos, pelas populações, como um mecanismo para tornar o custo de vida mais barato e permitir um aumento do consumo das famílias. Condicionando e quase desestruturando os necessários gastos sociais.

A economia é sempre cíclica, se estamos em um momento internacional de crise conjuntural, haverá a retomada de atividades e investimentos que permitirão uma melhoria do padrão de vida. Também, é assim com a política. Fundamental que se mantenham princípios que não acabem com a necessidade de compromisso entre gerações, em que o avanço econômico não leve a desastres sociais e ambientais pelo imediatismo desejado inconsequentemente.

Há sinais positivos. Frustrações vêm surgindo fazendo com que o populismo de direita e os resultados alcançados comecem a levar a questionamentos. Em curto espaço de tempo. Como já acontece na América do Norte onde a popularidade do presidente cai vertiginosamente. 

Democracia é alternância de poder. Importante manter a chama acesa na latino América e ter lógicas de balizamento consistentes.

Mais do que nunca o Brasil aparece como farol que poderá permitir recuperar princípios fundamentais: humanismo, empatia, solidariedade.

A luta por manter o País nesse direcionamento é fundamental. E tem-se todas as condições de continuar sendo assim, mesmo com pressões e ingerências no processo eleitoral que surgiram e surgirão.

Os ideais de centro esquerda em que o humanismo e a busca de uma redistribuição de riqueza para melhoria das condições de vida  dos menos favorecidos têm permitido também saltos significativos no padrão de vida, inclusive das classes médias e alta.

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Leia também Território brasileiro como projeto nacional de desenvolvimento https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/espaco-desenvolvimento.html 

Palavra de poeta

VIA LÁCTEA
Maurílio Rodrigues   

É distante. É muito distante
O lugar onde as estrelas
Da Via Láctea habitam.
Lá a distância se perde 
E a imensidão se encontra.
 
Isso é o sentimento!
 
O imenso nesse lugar,
Parece muito pequeno
Para um conjunto
De bilhões de estrelas
Com um buraco negro
Bem no seu centro.
 
Isso é a alma humana!
 
Nos seus Braços Espirais,
A maioria de seus planetas 
Se encontram e se concentram,
Formando uma profusão brilhante.
 
Isso é o amor!
 
As estrelas antigas,
Se agrupam 
Num lugar comum
Chamado Bojo Central.
 
Isso é a amizade!
 
E o vasto anel esférico
Que envolve 
Toda a Via Láctea
Chama- se Halo Galáctico,
 
Isso é a esperança!
 
Este caminho
Projetado no céu,
De aspecto esbranquiçado,
Que nós podemos ver,
De nossa mínima terra,
 
Isso é a presença de Deus!
 
Leia também: “Vivos, lúcidos e ativos" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/04/minha-opiniao_18.html 

Sem perder a leveza jamais

Cida: competente, corajosa, múltipla

Luciano Siqueira 

 

Cida Pedrosa tem sido atacada sistematicamente por vereadores da extrema direita na Câmara Municipal do Recife. Ameaçada, para sermos mais precisos. E tem reagido com coragem, altivez e competência. Sem arredar um milímetro dos compromissos que assume perante o povo e o seu Partido.

Em nota pública –Violência política de gênero no Recife” - subscrita pelas direções nacional, estadual e municipal, o PCdoB se pronunciou com veemência https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/em-defesa-de-cida.html

Na mesma linha, lideranças políticas destacadas também a defenderam publicamente.

Contra seus detratores, Cida protocolou denúncia perante a Comissão de Ética da Câmara Municipal, em que solicita que se apure e reprima condutas manifestamente incompatíveis com o decoro parlamentar.

Misoginia, concepções neofascistas? Sim.

E também move a ojeriza dos vereadores bolsonaristas a qualidade do mandato exercido por Cida Pedrosa: colado nos problemas e nas aspirações do povo, competente na abordagem dos desafios da cidade - que enfrenta correlacionando-os com a luta nacional pela reforma urbana e demais reformas democráticas estruturantes que dão conteúdo ao Projeto Nacional de Desenvolvimento, referência indispensável na construção da plataforma da reeleição do presidente Lula.

Já no primeiro mandato de vereadora, apresentou 93 projetos, dos quais 47 se tornaram leis – destacadamente a criação do Protocolo Violeta, que cria rede de combate à importunação sexual e ao assédio contra mulheres em bares, restaurantes, academias e ambientes públicos.

Agora, em pré-campanha por um mandato de deputada estadual, repete uma vez mais a construção coletiva da plataforma do futuro mandato na Assembleia Legislativa.

Diz-se da futura deputada estadual uma "mulher múltipla", porque ela consegue transitar com profundidade e relevância entre o fazer literário, a militância política e a gestão pública.

É o que incomoda a extrema direita.

E inspira a nossa solidariedade e a nossa determinação em seguir junto com Cida, passo a passo, em sua caminhada.


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Leia também: “Cida: luta, consciência e afeto” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_0343482442.html 

Fotografia

 

Vito Metodio

Competente, corajosa, múltipla https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/combativa-sem-perder-leveza-jamais.html

Thiago Modenesi opina

O silenciamento de Mafalda em tempos de Milei
Crise editorial argentina expõe os impactos do ultraliberalismo sobre a cultura, a memória crítica e símbolos históricos como Mafalda
Thiago Modenesi/Vermelho   

O anúncio do encerramento das atividades da tradicional editora argentina Ediciones de la Flor representa muito mais do que o fechamento de uma empresa do mercado editorial. Trata-se de um acontecimento profundamente simbólico para a cultura argentina e latino-americana. Ao desaparecer, a editora leva consigo um pedaço importante da memória intelectual do país e atinge diretamente um dos maiores ícones culturais argentinos: a Mafalda.

Durante décadas, a editora foi a casa de publicação das obras de Quino, cuja a principal criação transcendeu o universo dos quadrinhos para se transformar em uma consciência crítica da sociedade latino-americana. Mafalda questionava a guerra, o autoritarismo, as desigualdades sociais e as contradições do capitalismo periférico com uma lucidez infantil que atravessou gerações. Não por acaso, tornou-se um patrimônio afetivo e político da Argentina.

O fechamento da editora ocorre em meio à grave crise econômica e social que se aprofunda no governo de Javier Milei. Embora a economia argentina já enfrentasse dificuldades estruturais há anos, inflação crônica, endividamento e instabilidade monetária, as políticas ultraliberais implementadas pelo atual governo intensificaram dramaticamente os impactos sobre o consumo cultural, o mercado editorial e os setores médios da sociedade.

A combinação entre desvalorização do peso, retração do mercado interno, cortes estatais e aumento brutal do custo de vida produziu um ambiente devastador para livrarias, editoras independentes e iniciativas culturais. O livro voltou a se tornar um artigo de luxo para grande parte da população argentina. Em um cenário em que famílias precisam priorizar sobrevivência básica, cultura passa a ocupar um espaço secundário, ainda que seja precisamente em momentos de crise que ela se torne mais necessária.

Nesse contexto, o fechamento da Ediciones de la Flor adquire uma dimensão quase metafórica. A editora que publicou Mafalda, personagem que ironizava o autoritarismo econômico e denunciava as injustiças do mundo, sucumbe justamente em um momento em que a Argentina vive uma radicalização do discurso de mercado e do desmonte das mediações culturais. É como se a própria Mafalda estivesse sendo empurrada para o silêncio.

Há algo de profundamente contraditório nisso. A Argentina sempre construiu parte significativa de sua identidade nacional em torno da valorização da educação, do pensamento crítico e da produção cultural. Buenos Aires tornou-se referência continental pelas livrarias, editoras e intensa vida intelectual. O país que exportou escritores, cartunistas e artistas para o mundo agora vê um de seus principais símbolos culturais ameaçado pela lógica brutal da financeirização e do ajuste permanente.

Mais do que nostalgia, o caso evidencia uma questão política central: sociedades que abandonam seus espaços culturais enfraquecem também sua capacidade de reflexão coletiva. O desaparecimento de editoras históricas não é apenas consequência da crise econômica; é também resultado de um novo modelo de país ultraliberal que reduz cultura à condição de mercadoria descartável.

Mafalda sempre perguntava coisas incômodas. Talvez hoje ela perguntasse como uma nação capaz de produzir tamanha riqueza cultural aceita assistir passivamente ao colapso de seus próprios símbolos. E talvez perguntasse, com a ironia amarga que a tornou universal, se o problema da Argentina continua sendo o mesmo de sempre: um país que sacrifica seu futuro em nome das supostas urgências que desmontam a Argentina do presente.

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Competente, corajosa, múltipla https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/combativa-sem-perder-leveza-jamais.html