09 outubro 2026

Palavra de poeta

O monte e o rio
Pablo Neruda     

Na minha pátria tem um monte.
Na minha pátria tem um rio.
Vem comigo.
A noite sobe ao monte.
A fome desce ao rio.
Vem comigo.
E quem são os que sofrem?
Não sei, porém são meus.
Vem comigo.
Não sei, porém me chamam
e nem dizem: “Sofremos”
Vem comigo
E me dizem:
“Teu povo,
teu povo abandonado
entre o monte e o rio,
com dores e com fome,
não quer lutar sozinho,
te está esperando, amigo.”
Ó tu, a quem eu amo,
pequena, grão vermelho
de trigo,
a luta será dura,
a vida será dura,
mas tu virás comigo.

[Ilustração: Cícero Dias]

Leia também: As ruas, as redes e o almoço do domingo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_02010278885.html  

08 outubro 2026

Na esteira do bolsonarismo

Ódio ao Nordeste explode nas redes após primeiro turno das eleições
Em apenas 72 horas, pesquisa identificou 27 milhões de manifestações críticas ao voto nordestino, incluindo discursos de inferiorização, preconceito e segregação territorial.
Barbara Luz/Vermelho   

O Nordeste foi alvo de aproximadamente 27 milhões de manifestações críticas ou hostis nas redes sociais nas primeiras 72 horas após o primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, realizado no domingo (4). A onda de ataques, marcada por preconceito regional, discriminação e xenofobia, foi identificada no levantamento “O Nordeste no Banco dos Réus”, elaborado pela Ativaweb DataLab e divulgado nesta quinta-feira (8).

Ao todo, foram monitoradas 32,8 milhões de menções, links e compartilhamentos relacionados ao Nordeste e aos nordestinos. Desse universo, 82,2% foram classificados como críticos ou hostis ao comportamento eleitoral da região. Os 17,8% restantes, cerca de 5,8 milhões, apresentaram conteúdo neutro ou de defesa da população.

A dimensão da hostilidade chama atenção também pela velocidade de circulação. Em média, foram 456 mil menções por hora, mais de 7.600 por minuto, ao longo de três dias. A enxurrada de manifestações revela como a disputa eleitoral voltou a abrir espaço para ataques à população nordestina, transformando divergências políticas em discursos de inferiorização de uma região inteira do país.

Preconceito contra nordestinos reproduz estereótipos históricos

O levantamento identificou um padrão de hostilidade que ultrapassa a divergência política e procura apresentar o eleitor nordestino como alguém incapaz de decidir seu próprio voto.

Entre os termos ofensivos encontrados em uma amostra de 535 comentários de publicações de alto engajamento, 26,9% das ocorrências estavam ligados à vergonha e à autodepreciação regional. Outros 22,1%, relacionavam o voto nordestino à pobreza e à dependência econômica, enquanto 18,3% questionavam a capacidade intelectual da população.

Já as manifestações de desumanização e de segregação territorial representam 12,5% cada. Além disso, também apareceram expressões que comparavam nordestinos a animais ou doenças, além de propostas de separar a região do restante do Brasil.

O estudo identificou ainda que 68,2% dos comentários da amostra qualitativa correspondiam à adesão ou ao aplauso aos ataques. Muitas dessas manifestações não continham insultos diretos, mas reforçavam publicações agressivas e ampliavam sua circulação.

Para Alek Maracajá, CEO da Ativaweb DataLab, a gravidade do fenômeno está justamente na transformação do preconceito em comportamento coletivo. “O aplauso silencioso pesa mais que o insulto: é ele que transforma a ofensa de um em sentimento de muitos”, afirma o pesquisador.

Ataques se espalham por diferentes plataformas

O monitoramento reuniu dados públicos de Facebook, Instagram, TikTok, X, Kwai e comentários do YouTube. Segundo o levantamento, os ataques partiram de usuários de todas as regiões brasileiras, com forte presença de perfis do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, embora não tenham sido divulgados percentuais por região.

Como se não bastassem os ataques vindos de outras regiões, a pesquisa também identificou nordestinos reproduzindo ataques contra eles próprios, em publicações nas quais declaravam vergonha de pertencer à região ou pediam desculpas pelo comportamento eleitoral de seus conterrâneos.

Em contrapartida, houve manifestações de resistência à xenofobia, inclusive entre eleitores contrários ao candidato mais votado no Nordeste. As respostas em defesa da região recorreram à memória histórica, às políticas públicas e ao enfrentamento das desigualdades regionais.

Ataques podem ultrapassar os limites da liberdade de expressão

Além da dimensão política, a propagação de discursos discriminatórios levanta questões jurídicas. O estudo lembra que a legislação brasileira prevê punições para a prática, indução ou incitação ao preconceito de procedência nacional, inclusive com agravamento de pena em determinadas situações envolvendo redes sociais.

A avaliação sobre a eventual prática de crimes, contudo, depende da análise individual dos conteúdos pelas autoridades competentes.

Às vésperas do 2º turno entre o presidente Lula e o candidato de extrema-direita, Flávio Bolsonaro, a onda de hostilidade evidencia como o preconceito regional pode ser mobilizado em meio à disputa política, atingindo não apenas preferências eleitorais, mas a dignidade de toda uma população.

A democracia pressupõe que o voto de um nordestino tenha o mesmo valor que o de qualquer outro brasileiro. Transformar a origem regional em motivo de humilhação significa atacar esse princípio fundamental.

Os 27 milhões de registros classificados como críticos incluem menções, links e compartilhamentos, não equivalendo necessariamente a ataques xenofóbicos individuais, publicações originais ou usuários únicos. Já os percentuais relativos aos tipos de ofensa foram extraídos de uma amostra qualitativa, e não da totalidade das interações monitoradas.

O fascismo não nos intimida https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/palavra-do-pcdob.html   

Postei nas redes

Na Folha de S. Paulo: “Flávio gera suspeita ao se propor a redemocratizar o país. As palavras 'democracia' e 'Constituição' soam duvidosas ante o histórico golpista da família Bolsonaro.” Nunca é tarde para reconhecer... 

Segundo turno é uma nova campanha https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/segundo-turno.html 

Arte é vida

 

Sergio Oliveira

O fascismo não nos intimida https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/palavra-do-pcdob.html 

Ameaças à Constituição

Programa de Flávio Bolsonaro rasga por completo a Constituição de 1988
Leitura do programa, somada às suas declarações recentes, permite identificar o ambicioso projeto de Flávio: alterar o equilíbrio entre os Poderes, reduzir mecanismos de controle institucional e avançar sobre direitos sociais e trabalhistas
André Cintra/Vermelho       

Se for eleito presidente no próximo dia 25 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL) pretende iniciar uma força-tarefa para “mudar a Constituição” logo no início de seu mandato. A intenção ficou explícita na terça-feira (6), durante uma atividade de sua campanha em Goiânia (GO). Sem detalhar quais dispositivos pretende alterar, Flávio disse que contará “com a maioria no Senado, com a maioria na Câmara para fazer o presidente da Câmara, para a gente mudar a Constituição e redemocratizar esse país”.

A declaração não veio acompanhada de uma explicação sobre qual seria o déficit democrático a ser corrigido. No dia seguinte, diante da repercussão negativa, o candidato procurou delimitar a proposta. Segundo ele, iniciativas já abraçadas pelo bolsonarismo – como a reforma do Judiciário, a redução da maioridade penal, mudanças na reforma tributária e o fim da reeleição – deverão ser transformadas em PECs.

Mas, na mesma quarta-feira (7), Flávio afirmou que, para “desespero” da esquerda, seu grupo ficaria “por décadas” no poder. O presidenciável do PL deve explicações básicas: o que ele entende por “redemocratizar esse país”? Quais direitos, poderes e garantias pretende modificar?

A Constituição que temos

A ideia de uma redemocratização por meio de mudanças constitucionais contém um paradoxo. A Carta Magna aprovada em 1988 e batizada de “Constituição Cidadã” é o principal marco jurídico da redemocratização brasileira. Seu texto representou um salto civilizatório ao instituir o SUS, reduzir a jornada semanal de trabalho de 48 para 44 horas, ampliar direitos trabalhistas, reconhecer a liberdade sindical e assegurar o voto aos analfabetos, entre outros avanços.

Essa inédita dimensão social e democrática não impediu que a Constituição fosse marcada por freios de viés liberal-conservador. A Carta de 1988 preservou estruturas econômicas e sociais típicas da ordem capitalista brasileira, como a concentração fundiária e a estrutura regressiva da tributação. Nada disso, porém, transforma a Constituição em um obstáculo à democracia. Ao contrário: significa que ela continua a ser um terreno de disputa pela ampliação de direitos. Voltemos, então, à pergunta original: redemocratizar exatamente o quê?

Uma leitura do programa de governo de Flávio, somada às suas declarações recentes, permite identificar seu ambicioso projeto: alterar o equilíbrio entre os Poderes, reduzir mecanismos de controle institucional e avançar sobre direitos sociais e trabalhistas. Flávio, acima de tudo, deseja concentrar mais poderes no Executivo em geral e na Presidência da República em particular, sem um contraponto à altura do Judiciário.

Enfraquecer o STF

Uma das diretrizes do programa foi denominada “Brasil que Cumpre a Constituição”. O título pomposo contrasta com o conteúdo das propostas apresentadas nas páginas seguintes. Ali se propõe uma ampla reforma do Judiciário que reduziria poderes e mecanismos de controle exercidos pelo STF (Supremo Tribunal Federal). Entre as medidas previstas estão o fim das competências criminais originárias do Supremo, a limitação das decisões monocráticas dos ministros, a revisão das ações de inconstitucionalidade, mudanças nas regras de indicação de ministros e uma redefinição das atribuições do CNJ (Conselho Nacional de Justiça).

Há um evidente acerto de contas nessa agenda. Foi o STF que julgou e condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio, a 27 anos e três meses de prisão pela trama golpista. Não é preciso atribuir uma motivação oculta a cada proposta para perceber a dimensão do problema. O próprio bolsonarismo transformou o Supremo em um dos principais alvos de sua ofensiva política. Enfraquecer seus mecanismos de controle, nesse contexto, não é uma alteração institucional neutra.

Hipertrofia

O programa dedica apenas dois parágrafos à chamada “reforma política”. A proposta explicitamente apresentada é o fim da reeleição para presidente da República. O plano não esclarece se o mandato presidencial seria mantido ou ampliado, tampouco explica como o fim da reeleição se articula com a promessa feita pelo próprio Flávio de que seu grupo ficará “por décadas” no poder.

Flávio promete a “revisão do pacto federativo”, com redefinição de regras e processos orçamentários e revisão da divisão de competências entre União, estados e municípios. É uma agenda que pode envolver mudanças constitucionais importantes, mas o texto novamente oferece mais direção política do que desenho institucional. O risco de hipertrofia do Executivo federal é real.

A promessa de cortar pelo menos dez ministérios, isoladamente, não exige uma PEC. Já uma reforma administrativa mais ampla pode atingir dispositivos constitucionais. O ponto comum é que o programa embaralha a fronteira entre política pública e mudança constitucional – e Flávio não faz questão de esclarecê-la.

Direitos sociais sob pressão

As PECs de um eventual governo Flávio Bolsonaro, a crer no programa e nas declarações do candidato, seriam numerosas. Na segurança pública, o plano defende a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, o endurecimento das regras para progressão de regime em crimes hediondos, a castração química compulsória e medidas extremas contra pessoas armadas com fuzis. Sob a fachada do combate à criminalidade, está em jogo uma concepção de segurança pública que privilegia o endurecimento penal e a ampliação do Estado repressivo, naturalizando a redução de direitos como resposta principal à violência.

No campo trabalhista, o programa promete “reduzir gradualmente o custo do trabalho” e instituir contratos especiais (ou seja, desonerados, precários) para jovens e trabalhadores com mais de 50 anos. Defende também o “negociado sobre o legislado”. O texto se compromete a avançar “sem retirar direitos”, mas não detalha quais direitos seriam preservados nem quais limites seriam impostos à flexibilização. Quando a negociação coletiva ocorre em condições de forte assimetria entre empresas e trabalhadores, enfraquecer a proteção legal reduz o poder de barganha de quem vive do trabalho.

Não é cheque em branco

O problema central da proposta de Flávio Bolsonaro é transformar a mudança constitucional em promessa genérica de campanha e pedir ao eleitor uma espécie de cheque em branco. Constituição não é programa de governo. A Carta Magna estabelece as regras fundamentais do Estado, protege direitos, organiza os Poderes e impõe limites a quem governa.

O “redemocratizar” de Flávio Bolsonaro é uma expressão deliberadamente vaga. Mas seu programa já permite enxergar o objetivo maior: o desmonte da “Constituição Cidadã” de 1988, em nome de um projeto autoritário de poder. O bolsonarismo precisa rasgar por completo a Carta Magna – assim como já tentou violar o Estado Democrático de Direito – para governar sem limites.

O eleitor tem o direito de perguntar – e o candidato tem o dever de responder – qual Constituição Flávio Bolsonaro quer mudar. A Constituição Cidadã de 1988 não precisa ser “redemocratizada” por quem anuncia permanência no poder por décadas. Precisa, sim, ser cumprida, protegida e aprofundada em seus princípios de democracia, justiça social, soberania e dignidade para todo o povo brasileiro.

[Ilustração: imagem produzida por IA]

As ruas, as redes e o almoço do domingo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_02010278885.html

Minha opinião

As ruas, as redes e o almoço do domingo*
Luciano Siqueira     

1.
Vencer é possível, desde que se articulem de modo eficiente sagacidade tática e mobilização social. 
 
O comando nacional da campanha, pela voz do próprio Lula, considera erros e insuficiências do primeiro turno e os corrige para a nova fase da luta. 
 
O discurso do presidente tem sido correto, especialmente desde o momento em que bem articulou a defesa da soberania nacional com as políticas de governo e seus benefícios sociais. 
 
Superou o discurso meramente economicista — o das chamadas "entregas" — e o politizou com clareza acessível ao povo. 
 
2.
Mas não foi o suficiente. Muitos fatores de ordem política e social imediatos possibilitaram que o candidato da extrema-direita conquistasse mais votos.
 
Difícil examinar a questão sob todos os aspectos ainda no curso da batalha, mas é razoável supor que levamos desvantagem na frente digital. 
 
É possível reverter a correlação de forças nessa frente de luta? Completamente, não; mas podemos melhorar muito — sobretudo fazendo convergir as centenas de milhares de iniciativas militantes e espontâneas para um mesmo conteúdo e nas formas mais adequadas. 
 
Mas não cabe a ilusão de que as Big Techs, que controlam as redes e as manipulam via algoritmos, deixem a coisa correr solta. Por todos os meios agem para possibilitar a vantagem do adversário. 
 
3.
As manifestações de massas — a exemplo das que ocorrem nos ambientes das Universidades — podem e devem crescer muito. 
 
Alimentam as redes digitais e por elas são impulsionadas. 
 
Ou seja, a luta nas redes e nas ruas! 
 
Mais: fazer com que a luta pelo voto chegue ao
almoço do domingo — esse momento em que familiares e amigos mais próximos se encontram.

Um quase-ritual de convivência e afetividade, quando se conversa sobre tudo e sempre há uma liderança natural: o pai ou a mãe, avô ou a avó, um jovem mais letrado e assim por diante.
 
Aí também flui a campanha, de modo natural e espontâneo, envolvendo milhões de eleitores. Quem sabe uma trincheira onde se possa motivar os que se abstiveram e ganhar os indecisos.

*Texto da minha coluna semanal no portal 'Vermelho"

Leia também: Segundo turno é uma nova campanha https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/segundo-turno.html 

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Flávio Bolsonaro promete cortar R$ 190 bilhões nos gastos públicos e tira do plano de governo o Farmácia Popular. 27 milhões de brasileiros podem ficar sem remédios. 

Esclarecer é preciso https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/esclarecer-e-preciso.html