A Copa do Mundo agora e no passado https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_0995517251.html
Blog de Luciano Siqueira
A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
24 junho 2026
Ascensão e declínio
O auge e o início da
decadência do futebol brasileiro
A crise estrutural do futebol
brasileiro não começou recentemente, mas teve suas origens ainda nos anos 1970,
justamente no período em que o Brasil alcançava o auge de seu prestígio
esportivo com a conquista do tricampeonato mundial na Copa do México
Alexandre
Machado Rosa/Portal Grabois
A crise estrutural do
futebol brasileiro começou a se manifestar ainda na década de 1970. E isso
constitui um dos maiores paradoxos da história esportiva nacional, pois foi
justamente no auge simbólico da conquista da Copa do Mundo de 1970 que o
futebol brasileiro iniciou um lento processo de decadência técnica,
institucional e cultural.
Um dos impulsionadores do
início da decadência foi a ditadura militar apropriar-se politicamente daquela
conquista como instrumento de propaganda nacionalista. O regime utilizou a
euforia popular para fortalecer a ideia de um “Brasil grande”, moderno e
vitorioso, ocultando a repressão política, a censura e a violência de Estado. O
futebol passou a ser tratado como questão estratégica de governo. A derrubada
de João Saldanha do
comando da seleção em 1970 era o indício de que algo não estava indo bem.
Contudo, a seleção
tricampeã no México representou o ápice do chamado “futebol-arte”. O Brasil
construiu sua identidade futebolística a partir da genialidade individual,
consagrada na figura de Pelé, o Rei do Futebol. O país se consagrou
mundialmente pela capacidade de produzir jogadores habilidosos, criativos e
imprevisíveis, capazes de decidir partidas em jogadas de improviso, dribles
rápidos e soluções intuitivas.
Após 1970, a interferência
política na Confederação Brasileira de Desportos (CBD) intensificou-se. A
preparação para a Copa do Mundo de 1974 foi marcada por excessiva rigidez
disciplinar, militarização da comissão técnica e obsessão por métodos físicos
inspirados em modelos europeus. O resultado foi uma seleção excessivamente
rígida taticamente, menos criativa e distante da liberdade técnica que havia
encantado o mundo quatro anos antes. O Brasil terminou apenas em quarto lugar,
enquanto o planeta assistia ao surgimento do “Carrossel Holandês” liderado por
Johan Cruyff.
A Copa de 1974 representou
uma ruptura simbólica importante. O futebol brasileiro passou a ser visto como
tecnicamente ultrapassado diante da evolução tática europeia. O chamado
“futebol total” holandês revolucionou conceitos de ocupação de espaço,
intensidade física e movimentação coletiva. A partir daquele momento,
dirigentes, técnicos e parte da imprensa esportiva passaram a defender uma
espécie de “europeização” do futebol nacional.
Iniciou-se então uma
tentativa contraditória de abrasileirar esquemas europeus sem compreender
plenamente suas bases culturais e organizacionais. O problema não residia
propriamente na assimilação de inovações táticas internacionais, mas na
incorporação acrítica de modelos que frequentemente ignoravam as
características históricas e culturais do futebol brasileiro. O resultado foi
um conflito permanente entre identidade e pragmatismo. O Brasil começou a
abandonar progressivamente elementos centrais de sua tradição futebolística. A
improvisação, o drible, a criatividade e a liberdade técnica foram trocadas em
nome de um futebol mais físico, defensivo e mecanizado.
A crise aprofundou-se com o encerramento da chamada “Era Pelé”. Quando o maior
jogador da história despediu-se da Seleção Brasileira em 1971, encerrava-se
também um ciclo simbólico de confiança nacional no futebol como expressão
máxima da genialidade brasileira. Sem Pelé, o país perdeu não apenas um craque,
mas um eixo organizador de sua identidade esportiva.
Ao mesmo tempo, os
problemas estruturais do futebol brasileiro tornavam-se mais evidentes. Os
campeonatos nacionais eram desorganizados, inchados e frequentemente
subordinados a interesses políticos regionais. A ausência de planejamento
financeiro consolidava administrações amadoras e patrimonialistas nos clubes.
Presidentes agiam como donos das instituições, reproduzindo práticas
clientelistas profundamente arraigadas na cultura política brasileira.
O cenário econômico
nacional também contribuiu para o processo de decadência. O chamado “Milagre
Econômico” chegou ao fim em meio à crise internacional do
petróleo e ao aumento da inflação. A recessão da segunda metade da década de
1970 afetou diretamente o consumo popular, inclusive a frequência aos estádios.
O futebol deixava gradualmente de ser espaço central de convivência das classes
trabalhadoras urbanas.
Paralelamente, o aumento da
violência nos estádios afastava famílias e ampliava a sensação de insegurança.
A precariedade da infraestrutura, a ausência de políticas de segurança pública
e o crescimento das torcidas organizadas sob lógica de confronto contribuíram
para deteriorar o ambiente do futebol brasileiro.
Enquanto isso, a Europa iniciava um amplo processo de modernização esportiva. Clubes europeus passaram a investir em ciência do esporte, categorias de base, gestão profissional e infraestrutura. O Brasil, ao contrário, permaneceu preso ao improviso administrativo e à dependência da genialidade individual de seus jogadores.
[Ilustração: Gustavo Rosa]
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Anarquia
criativa e racional no futebol https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/futebol.html
Nosso futebol já foi o melhor
Como o povo brasileiro transformou o futebol em
símbolo nacional
Apropriado
pelas massas, criou um estilo próprio de jogo e ajudou a transformar o Brasil
em potência mundial. Após três Copas conquistadas entre 1958 e 1970, deixou de
ser um mero participante periférico para se tornar referência civilizatória no
esporte mais popular do planeta
Alexandre
Machado Rosa/Fundação Grabois
O Brasil
não nasceu potência do futebol. Tornou-se. E essa transformação exigiu que o
esporte fosse arrancado das mãos das elites e apropriado pelas massas
populares. Para que o país se transformasse em uma potência respeitável do
futebol mundial, foi necessária a popularização radical do esporte em
território nacional.
Inicialmente,
o futebol foi confinado atrás das cercas dos clubes privados, reproduzindo
hábitos sociais elitizados presentes em parte da sociedade inglesa da época.
Contudo, diferentemente de modalidades como tênis, hipismo ou golfe, o futebol,
na própria Inglaterra, rapidamente se tornou um esporte de massas, apropriado
pelos trabalhadores urbanos das cidades industriais. Sua enorme simplicidade
material, bastando uma bola e algum espaço livre, sendo organizado por poucas
regras, favoreceu sua disseminação entre operários, jovens pobres e setores
populares. No Brasil, porém, as elites tentaram inicialmente controlar e
restringir o acesso ao novo esporte, retardando sua plena popularização entre
as massas proletárias.
Assim
como ocorreu na Inglaterra e na Argentina, trabalhadores urbanos, jovens pobres
e populações periféricas rapidamente transformaram o esporte em patrimônio
coletivo. No Brasil, pipocaram campos improvisados em várzeas, terrenos
baldios, praias e ruas de terra. A ideia sustentada pelas elites de um esporte
elitizado começou a ruir diante da força da apropriação do novo jogo pelas
massas trabalhadoras.
Mesmo com
os clubes oficiais ligados às elites proibindo explicitamente a participação de
negros e pobres, o primeiro grande craque do futebol brasileiro foi justamente
Arthur Friedenreich (1892-1969), considerado o primeiro grande ídolo nacional
do esporte. Filho de pai alemão e mãe negra brasileira, Friedenreich tornou-se
símbolo da contradição brasileira: um país profundamente racista que, ao mesmo
tempo, via emergir no futebol uma linguagem popular impossível de ser contida
pelas elites.
Cronistas e jornais na construção do futebol
brasileiro
Em meio à
invenção das tradições ligadas ao futebol brasileiro, surgiram também os
cronistas esportivos. Intelectuais e jornalistas entraram em campo tentando
compreender e decifrar a linguagem do novo passatempo popular.
Em 1931,
o jornalista Argemiro Bulcão fundou o primeiro diário especializado em futebol,
o Jornal dos Sports. Com sua primeira página cor-de-rosa, inaugurou
uma nova etapa da crônica e do jornalismo esportivo no país. Em 1936, o diário
foi comprado por Mário Filho, que posteriormente emprestaria seu nome ao
estádio do Maracanã. Sob seu comando, o periódico tornou-se referência nacional
na cobertura esportiva, especialmente do futebol. Ainda na década de 1930, em
São Paulo, Thomaz Mazzoni impulsionou A Gazeta Esportiva,
consolidando no eixo Rio-São Paulo dois dos principais jornais dedicados ao
esporte no Brasil. Cronistas como Nelson Rodrigues e José Lins do Rego
assumiram papel crucial durante a campanha pela Copa do Mundo de 1950,
realizada no Brasil. Lins do Rego foi um árduo defensor da construção do
estádio do Maracan&a tilde;.
Os
cronistas perceberam gradualmente que os brasileiros estavam criando uma forma
própria de jogar o association football — o futebol de
associação, nome oficial dado pelos ingleses. A rigidez tática inglesa deu
lugar à improvisação; a força física passou a conviver com a ginga; o jogo
coletivo incorporou criatividade, drible e espontaneidade. O futebol brasileiro
nasceu da mistura entre culturas populares urbanas, heranças africanas e
experiências das classes trabalhadoras.
Intelectuais
como Gilberto Freyre perceberam precocemente que o futebol brasileiro não
reproduzia mecanicamente o modelo europeu. Em textos clássicos publicados nos
anos 1930, Freyre associou o estilo brasileiro de jogar à mestiçagem cultural
do país, destacando a ginga, a improvisação e a malícia corporal como
expressões legítimas da formação social brasileira, embora essa interpretação
muitas vezes tenha sido marcada por idealizações sobre a democracia racial no
país. Décadas depois, Mário Filho aprofundaria essa interpretação ao narrar a
popularização do futebol entre negros, trabalhadores e setores populares
urbanos no célebre livro O Negro no Futebol Brasileiro (1947), obra que se tornaria um dos
maiores cl ássicos da historiografia esportiva nacional.
Como
diria Eric Hobsbawm, o futebol brasileiro também produziu suas próprias
“tradições inventadas”: símbolos, narrativas, heróis e estilos de jogo que
ajudaram a consolidar um sentimento coletivo de identidade nacional ao longo do
século XX. Não por acaso, o futebol transformou-se em um dos maiores símbolos
da identidade brasileira na modernidade.
Do estilo brasileiro ao reconhecimento mundial
Entre
1958 e 1970, o Brasil conquistou três Copas do Mundo em apenas doze anos.
Garrincha, Pelé, Didi, Nilton Santos, Tostão, Jairzinho e Rivellino não eram
apenas jogadores extraordinários; representavam uma escola de futebol admirada
globalmente. O Brasil deixou de ser um mero participante periférico para se
tornar referência civilizatória no esporte mais popular do planeta.
Mas,
depois de 1970, o país que reinventou o futebol começaria lentamente a perder o
controle sobre sua própria criação.
Alexandre Machado Rosa é doutor em
Saúde Coletiva. Graduado e mestre em Educação Física, é professor do Instituto
Federal de São Paulo (IFSP).
[Ilustração: Vicente do Rego Monteiro]
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Futebol: entre a tática e o talento https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/futebol-taticamente-avancado.html
23 junho 2026
Palavra de poeta
Onde pertencemos, um dueto
Maya Angelou
Onde pertencemos, um dueto
Em toda cidade e povoado,
Em toda praça,
Em lugares lotados
Eu vasculhei os rostos
Esperando encontrar
Alguém com quem me importar.
Eu encontrei significados misteriosos
Nas estrelas distantes,
Então, fui para salas de aula
E salões de jogos
E bares mal iluminados.
Desafiando o perigo,
Saindo com estranhos,
De quem não lembro nem os nomes.
Eu era rápida e animada
E sempre fácil
Jogando os jogos românticos.
Eu levei para jantar mil exóticas Joans e Janes
Em salões de dança empoeirados, em bailes de debutantes,
Em solitárias estradas do campo.
Eu me apaixonava para sempre,
Duas vezes por ano, mais ou menos.
Eu os atraía suavemente, era completamente deles,
Mas eles sempre me deixavam ir.
Dizendo tchau por agora, não precisamos tentar agora,
Você não tem um certo charme.
Muito sentimental e muito gentil
Eu não tremo nos seus braços.
Então, você apareceu na minha vida
Como um amanhecer prometido.
Iluminando meus dias com o brilho dos seus olhos.
Eu nunca fui tão forte,
Agora que estou onde pertenço.
[Ilustração: Camille Corot]
Uma crônica de Rubem Braga
Véspera de S. João no Recife
Rubem Braga
O que é da terra, é da terra, e fala da terra, João, eu falarei da terra. Ora, João, tu tinhas um vestido de peles de camelo, e uma cinta de couro em volta de teus rins; e a tua comida era gafanhotos e mel silvestre. E filha de Herodias bailou, e era linda. E quando disse o que queria neste mundo, o rei entristeceu. Eras a voz que clama no deserto, e clamavas na cadela. E tua cabeça veio num prato para as mãos da bailarina.
João, esta geração de homens continua a mesma da qual disse o senhor: “São semelhantes aos meninos que estão assentados no terreiro, que falam uns para os outros e dizem: nós temos cantado ao som da gaita; para vos divertir, e vós não bailastes; temos cantado em ar de lamentação, e vós não chorastes.”
João, ontem foi a noite de véspera de teu dia. O povo bailava ao som de gaitas. Não bailei nem chorei. Estive em Boa Vista, Afogados, Areias, Tigipió, na Estrada de Jaboatão. E estive em Campo Grande e Beberibe. E estive, por que não dizer?, na zona noturna da ilha do Recife. Em toda a parte o povo te festejava.
Às vezes chovia furiosamente, às vezes a lua brilhava. E às vezes o céu ficava parado e fechado, sem luz e sem chuva. Mas na terra humilde, a noite era sempre a mesma. As casinhas, à margem das ruas esburacadas, estavam alumiadas por lanternas. É um efeito triste, colorido, de uma luz pobre. Nas janelas e nas portas se penduravam as estrelas. Estrelas gordas de papel de cor, com uma luz fraca por dentro. Esses balões estrelados, cativos da parede, forneciam imagens nas ruas tão escuras. As estrelas do céu, por exemplo, haviam descido para a terra, para perto da lama, para as casinhas baixas. E teu retrato, segurando o menino Jesus, estava colado nelas. Pelos quintais enlameados, as fogueiras ardiam. Firmadas por quatro estacas, com folhas de cana, bananeiras-meninas enterradas em volta, as fogueiras enfeitadas, de espaço a espaço, ensanguentavam a noite preta. Elas haviam brotado nos oitões, nos mangues, nos pomares, junto das pontes, ao longo das ruas, pelos fundos dos matos, como flores de fogo na noite preta.
E os fogos pipocavam. O Recife, João, todos já sabem que é um prato raso. A água é quase irmã da terra, beijando a flor das ruas, e as pontes quase se apoiam na massa líquida, e, para ver a cidade, é preciso andar toda a cidade…
Os fogos pipocavam pela noite adentro. Uns tinham estalos secos, intermitentes, esparsos; outros rebentavam roucos; outros chiavam; outros, crepitavam; outros eram urros de pólvora. Eu não estava no meio da noite eu estava no centro de muitas noites. E muitas noites antigas avançavam, negras, sobre mim, e eu as reconhecia, penosamente. Estava deitado na trincheira, fazia três abaixo de zero. Os fuzis inimigos amorosamente derrubavam folhas sobre mim, as balas passavam com uns silvos finos e iam morrer no fundo do mato. Eu bebera cachaça, estava deitado na terra fria da trincheira e, pelas montanhas enormes, pelos buracos dos vales fundos, as metralhadoras crepitavam, crepitavam.
João, eu as conhecia pelo sotaque; eram todas estrangeiras. Aquela do oeste era Hotehkiss pesada, a que estava embaixo era Colt, uma cacarejando em nossa frente era Zebê, e centenas de máquinas cuspiam fogo. Agora, sobre o meu crânio, assobiavam apenas os fuzis Mauser dos caçadores de trincheiras, e longe, do outro lado da linha, do outro lado da noite, roncou um Schneider.
Nas primeiras noites, João, eu não podia dormir, e as granadas, quando rebentavam a cinquenta metros, rebentavam dentro de meu peito. Agora eu desistira de ter qualquer medo, e o metralhar imenso me dava sono. Eu apenas temia morrer não tendo nome nenhum de mulher para dizer as palavras do fim. Eu voava nos caminhões de munição, acossados pela metralha nas estradas, sobre o abismo, nas curvas onde as balas furavam as carrocerias, a toda a velocidade, de faróis apagados na noite escura, sacolejando e roncando terrivelmente. Mas para mim não era mais uma noite perigosa: era apenas uma grande noite triste. Eu não queria matar ninguém, não me importava se alguém me matasse, e dois sargentos me olhavam com ódio, murmurando que eu era um espião.
Eu era espião, João, João; eu era um espião da vida, no meio da morte. Eu ainda não tinha vinte anos, não tinha mais nenhum deus para me entender depois da morte, não tomava banho há um mês, estava sujo e magro, meu lápis de repórter quebrou a ponta. Havia esse mesmo crepitar de fogos pela vasta noite, e, junto dos acantonamentos, as fogueiras se acendiam para os soldados gelados. Meu papel de repórter estava sujo da terra das trincheiras, eu já não escrevia nada. A guerra era demasiado estúpida para não me fazer sorrir, eu não reconhecia aliados nem inimigos; apenas via homens pobres se matando para bem dos homens ricos; apenas via o Brasil se matando com armas estrangeiras.
No fim, João, eu berrei contra os comerciantes da paz que haviam sido os comerciantes da guerra, e, entretanto, eu não conhecia o mecanismo das carnificinas; e me chamaram de cínico, quando somei os contos de réis que custava a morte de um soldado e disse que tal morte era muitas vezes mais cara que um naufrágio de primeira classe no Principessa Malfalda, só contando munição gasta. Eu não era cínico, João, eu, pelo menos, jamais fui cínico do cinismo dos cães de luxo; eu sempre tive o direito de ter o cinismo puro dos vira-latas, sem casa nem dono.
João, eu não tenho mais dezenove anos, estou na rua e não na trincheira, mas esses estampidos na noite transformam a noite. João, alguém canta, moças cantam nos bailes dos palanques, entre canjiquinhas, milho verde, folhas, flores, fogueiras, abraços, olhares, amores, e outras noites me cercam. Eu tinha treze anos e naquela noite ela subitamente me amou. Me amou talvez apenas um minuto, sentiu uma ternura e me deu aquele lenço de seus cabelos. Era um lenço grande, de flores encarnadas e azuis, e aquela chita estava sempre em volta de sua garganta ou amarrada em seus cabelos. Eu dormi na praia e o lenço tinha um cheiro terno e quente de cabelos castanhos, e aquele cheiro me entontecia e nunca em noite nenhuma eu amei nem amarei mais amada com amor assim. João, naquela noite também havia cantos, e o vento do sudoeste no ar escuro tinha o mesmo cheiro.
João, são muitas noites antigas que me prendem no meio desta noite. Pobres as noites sob as lâmpadas da redação, mesquinhas as noites de trabalho insincero, tristes noites sem ternura noturna.
João, o povo, na noite imensa, festeja a ti. Há fogueiras e amores e bebedeiras, mas eu não irei a festa nenhuma. Amanhã, João, esse povo continuará na vida. Por que o distrais assim com teus fogos, João? Amanhã, os pobres estarão mais pobres e os ricos os esmagarão, e muitos homens irão clamar nas cadelas, como tu clamavas. João, amanhã outra vez a miséria dos donos da vida continuará deturpando a beleza da vida, as moças suburbanas irão perder a beleza no trabalho escravo; as crianças continuarão a crescer, magras e ignorantes; o suor dos homens será explorado. João, João, inútil João; o povo está gemendo, as metralhadoras se viram para os peitos populares. Ninguém dividiu as túnicas, nem os pães, como tu mandaste, João, inútil João.
[Ilustração: Alberto Guignard]
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Minha palavra
A morte e a morte do amigo
Luciano Siqueira
Soube da morte do companheiro, um que faz tempo não vejo, mas toda vez que eu o vi ao longo da vida fez-me bem. Militante simples, direto ao assunto e muito prático. Sem mistérios - e isso sempre me agradou.
Como morreu? De repente, assim do nada, a dor súbita e nada mais. Sem
sofrimento nem adeuses. Como um sopro.
Deixa uma saudade leve, fundada em poucos encontros e feitos. Em poucas
horas velado e depois cremado. Saiu da vida, fez-se saudade.
Leia também: Meu pardal amigo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2010/12/cronica-em-minha-coluna-semanal-no.html






