11 setembro 2026

Dica de leitura

Exercício pleno da soberania nacional
Luciano Siqueira    

No artigo "Aos 204 anos da Independência, Brasil ainda não exerce plena soberania", de Ronald Freitas, no portal da Fundação Maurício Grabois, uma abordagem do significado histórico e da atualidade do 7 de Setembro.

O autor afirma que embora a ruptura com o Império Colonial Português em 1822 tenha garantida a independência política formal, o Brasil não concluiu seu processo de emancipação plena.

Ronald Freitas sustenta que a independência de 1822 abriu um novo ciclo, mas não eliminou as amarras de dependência externa. Ao longo dos séculos XIX e XX, a formação do Estado Nacional brasileiro foi conduzida por elites econômicas e políticas que optaram por modelos de desenvolvimento alinhados à subordinação e aos interesses de grandes potências estrangeiras (como o Império Britânico e, posteriormente, o imperialismo norte-americano).

Em contraponto, defende que a soberania não é apenas um conceito jurídico-territorial ou simbólico, mas sim a capacidade concreta do país de tomar decisões autônomas sobre seu próprio destino. Sem autonomia econômica, científica e tecnológica, a soberania política torna-se incompleta.

Na atualidade, alguns vetores conformam a inserção do Brasil no cenário mundial: o declínio e as crises de hegemonia da ordem ocidental/imperialista lideradas pelos Estados Unidos; a ascensão da China e a consolidação do Sul Global e dos BRICS como polos alternativos ao controle do capital internacional.

Daí salientar-se a necessidade de o Brasil se posicionar de forma independente nesse novo cenário multipolar.

Para exercer plena soberania no século XXI, o Brasil precisa enfrentar novos gargalos de dependência, incluindo a soberania digital, tecnológica e de dados (frente ao domínio das big techs globais), além do controle de seus recursos naturais e matriz energética para um projeto de desenvolvimento nacional independente.

Não é simples, evidentemente. A soberania nacional continua sendo uma arena de disputa política central no país. O cumprimento pleno da "obra da Independência" exige um projeto soberano, sustentável e democraticamente orientado ao interesse público, capaz de superar o histórico de submissão externa e garantir a autonomia decisória do Estado brasileiro.

Confira: O Brasil ainda não exerce plena soberania https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/ronald-freitas-opina.html 

10 setembro 2026

Palavra de poeta

Este é o prólogo
Federico García Lorca    

Deixaria neste livro
toda a minha alma.
este livro que viu
as paisagens comigo
e viveu horas santas.


Que pena dos livros
que nos enchem as mãos
de rosas e de estrelas
e lentamente passam!


Que tristeza tão funda
é olhar os retábulos
de dores e de penas
que um coração levanta!


Ver passar os espectros
de vida que se apagam,
ver o homem desnudo
em Pégaso sem asas,


ver a vida e a morte,
a síntese do mundo,
que em espaços profundos
se olham e se abraçam.


Um livro de poesias
é o outono morto:
os versos são as folhas
negras em terras brancas,


e a voz que os lê
é o sopro do vento
que lhes incute nos peitos
– entranháveis distâncias.


O poeta é uma árvore
com frutos de tristeza
e com folhas murchas
de chorar o que ama.


O poeta é o médium
da Natureza
que explica sua grandeza
por meio de palavras.


O poeta compreende
todo o incompreensível
e as coisas que se odeiam,
ele, amigas as chama.


Sabe que as veredas
são todas impossíveis,
e por isso de noite
vai por elas com calma.


Nos livros de versos,
entre rosas de sangue,
vão passando as tristes
e eternas caravanas


que fizeram ao poeta
quando chora nas tardes,
rodeado e cingido
por seus próprios fantasmas.


Poesia é amargura,
mel celeste que mana
de um favo invisível
que as almas fabricam.


Poesia é o impossível
feito possível. Harpa
que tem em vez de cordas
corações e chamas.


Poesia é a vida
que cruzamos com ânsia,
esperando o que leva
sem rumo a nossa barca.


Livros doces de versos
sãos os astros que passam
pelo silêncio mudo
para o reino do Nada,
escrevendo no céu
suas estrofes de prata.


Oh! que penas tão fundas
e nunca remediadas,
as vozes dolorosas
que os poetas cantam!


Deixaria neste livro
toda a minha alma…

[Ilustração: Alexander John White]

O mundo gira. Saiba mais  https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Postei nas redes

"Dark Horse" é o nome do pesadelo que angustia Flávio Bolsonaro, enfurecido candidato da extrema direita, os dois pés atolados na lama. 

Crimes financeiros do clã Bolsonaro no caso “Dark Horse” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/poco-de-lama.html  

Minha opinião

A praça ainda é do povo?*
Luciano Siqueira     

Faz muita falta o calor das ruas, na campanha eleitoral sobretudo.

Nas pelejas dos anos mais recentes verifica-se redução dos grandes comícios na proporção em que crescem as campanhas digitais.

Tem a ver com o custo, o alcance e o modo como a maioria das pessoas se comunica hoje. E com uma espécie de perigosa superficialidade no embate de ideias.

Verdade que os comícios de rua exigem investimentos financeiros significativos em infraestrutura — palanques, sonorização, segurança e transporte.

Candidaturas aos governos estaduais, por exemplo, já não se realizam numa sequencia intensa de comícios.

Na campanha de 1986, cá em Pernambuco, em que Miguel Arraes pleiteou o governo estadual e venceu, num dado momento realizamos um volume absurdo de comícios de médio e grande porte. Começamos cedo da manhã em Pombos, cidade limítrofe da Zona da Mata e terminamos depois da meia noite em Garanhuns, no Agreste Meridional, tendo passado antes pelo Sertão Central.

No dia seguinte, Arraes e eu tomávamos o café da manhã no Hotel Tavares Correia quando o futuro governador abordou o coordenador da campanha no interior, o velho e aguerrido militante Ivan Rodrigues:

- Acabei de descobrir quem matou Tancredo Neves.

- Quem, Dr. Arraes? – perguntou Ivan em voz baixa, quase confidente.

- Foi o cara que organizou a agenda da campanha dele no interior!

A piada fazia sentido.

Agora, as redes sociais e o impulsionamento de conteúdo digital permitem atingir um número expressivamente maior de pessoas com um custo por eleitor significativamente menor.

É a realidade, sim, frustrante para os velhos militantes habituados à peleja nas ruas.

Enquanto num comício candidatos se dirigem a um público geograficamente limitado e heterogêneo, as plataformas digitais permitem a segmentação de mensagens com base em perfis, interesses e dados demográficos específicos.

É a mensagem direcionada, tecnicamente bem concebida.

Falar para milhares e até milhões é ótimo. Mas inquietante é o formato das mensagens em meios digitais: conteúdos curtos, diretos e "sob demanda" em redes como Instagram, TikTok e aplicativos de mensagens.

Dizem que o vídeo mais competente deve durar não mais do que vinte segundos!

Tudo em busca de um “engajamento” mediante replicação espontânea ou direcionada de conteúdos na internet, tornando o "comício digital" — na forma de lives ou postagens de alto alcance — uma ferramenta mais ágil eficiente de mobilização.

Costumo apelar à militância para que se envolva nas três instâncias da luta nos dias que correm: nas redes digitais, nos salões (reuniões e assembleias) e nas ruas. Indispensáveis à elevação da consciência política de centenas de milhares e milhões, como exige a luta para além das campanhas eleitorais.

*Texto da minha coluna semanal no portal 'Vermelho'

Defender a soberania nacional com Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/editorial-do-vermelho_0189987053.html 

Humor de resistência

 

Miguel Paiva

Na peleja em Pernambuco, o fator subjetivo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_0348287597.html  

Editorial do 'Vermelho'

É imperativo dar um basta à parcialidade golpista de André Mendonça
Ministro atua como ponta de lança de uma operação da extrema direita para agravar a crise político-institucional e assim encobrir corrupção dos Bolsonaro no caso Master
Editorial do 'Vermelho'  
 

A decisão de André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), de afastar por liminar o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada, tem graves consequências institucionais, políticas e eleitorais. O ministro tirou a toga de vez e atua, desbragadamente, com parcialidade para favorecer a campanha de Flávio Bolsonaro.

Extrapolou suas prerrogativas e detonou uma crise que tem claro sentido golpista. Atinge a Suprema Corte, a PF, a Procuradoria-Geral da República (PGR) e, agora, busca arrastar o Executivo, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Mendonça não age sozinho. A crise político-institucional resulta de um plano ardiloso da extrema direita com três objetivos básicos: blindar e proteger Flávio Bolsonaro do crime de corrupção de R$ 134 milhões do ex-banqueiro criminoso Daniel Vorcaro, do Banco Master; arrastar a disputa presidencial para o terreno predileto do neofascismo, o lamaçal e o clima de caos; e atingir a campanha do presidente Lula, impondo artificialmente o tema da “corrupção” como assunto central da disputa.

Para compreender a dimensão política do caso, basta olhar para a trajetória na PF que, sob a direção de Andrei, esteve no centro das investigações que resultaram na captura e prisão do criminoso Vorcaro. E, também, a operação Carbono Oculto, que atingiu organizações criminosas ligadas ao setor de combustíveis e a complexas estruturas financeiras, e do enfrentamento dos crimes bolsonaristas relacionados ao 8 de Janeiro.

Andrei também esteve à frente da PF na investigação que levou à prisão o chamado “Careca do INSS”, enquanto Mendonça autorizou a abertura de investigação envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, embora a própria PGR tenha questionado a relação desses fatos com a Operação Sem Desconto e pedido o envio do caso à primeira instância por ausência de foro no STF; relatório da própria PF ainda apontou “imputações sem lastro” contra ele. O objetivo era a exploração midiática do caso para prejudicar a candidatura de Lula.

E foi sob sua direção que a PF chegou aos mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista Anderson Gomes, no Rio de Janeiro. Leandro Almada, por sua vez, participou de diferentes etapas da investigação do caso Marielle e, como superintendente da PF no Rio, esteve à frente do caso na fase que resultou nas delações de Ronnie Lessa e Élcio Queiroz. Desde 2024, dirigia a área de Inteligência da PF.

Quando Almada era superintendente da PF na Bahia, em 2022, ele denunciou a atuação do então ministro da Justiça bolsonarista, Anderson Torres, e do então diretor-geral da PF, Márcio Nunes, de obter o apoio da PF às blitze da Polícia Rodoviária Federal (PRF) para tentar impedir que eleitores exercessem o seu direito de voto, numa região sabidamente favorável ao então candidato Luiz Inácio Lula da Silva.

Mendonça rompeu todas as fronteiras da legalidade ao atacar a PF, afastando de seu comando funcionários do Estado exemplares no combate aos golpistas que tentaram soterrar a democracia, às facções criminosas e bandidos de colarinho branco, como Vorcaro, e, ao mesmo tempo, travar por mais de 120 dias as investigações do caso Dark Horse, a corrupção de Flávio Bolsonaro.

A gravidade da decisão de Mendonça aumenta por sua conduta como relator do caso Banco Master. O ministro tornou públicas mensagens extraídas do celular de Vorcaro nas quais aparecem graves conteúdos que envolvem o ministro Alexandre de Moraes, ainda sem o escrutínio do contraditório. Todos são iguais perante a lei. Quem comentou delitos, quem quer seja, deve ser investigado.

Acontece que Mendonça pisoteou a Constituição, que assegura o devido processo legal, o direito ao contraditório e a ampla defesa. Afrontou o regimento do STF e o rito do devido processo legal. Direcionou investigações, atuou como juiz e investigador. Implacável com uns e dócil e protetor de outros. E mais: Mendonça encontrou-se sigilosamente com Vorcaro, fato reconhecido pelo próprio ministro.

A ingerência de Mendonça na PF, como se vê, não é um caso isolado. Faz parte de um plano amplo para favorecer Flávio Bolsonaro. Como sustenta a Advocacia-Geral da União (AGU) no recurso ao presidente do STF, Edson Fachin, sobre a atitude do ministro na PF, a medida invade a competência presidencial e pode desorganizar as atividades institucionais da PF. A AGU pediu a suspensão da liminar de Mendonça, invocando a competência presidencial prevista no artigo 84 da Constituição.

Há outro fato relevante. O Partido Novo, linha auxiliar do bolsonarismo, apresentou ao STF, sob relatoria de Mendonça, duas petições em rápida sucessão: primeiro, pelo afastamento cautelar de Andrei e, no dia seguinte, requereu sua prisão preventiva.

Outra comprovação do plano pró-Flávio Bolsonaro é o silêncio de Mendonça sobre a delação premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, que confessou o envio de recursos ao fundo Havengate Development Fund, administrado pelo advogado Paulo Calixto, ligado a Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio. São evidências de ligações com a solicitação de R$ 134 milhões por Flávio a Vorcaro para financiar a produção de Dark Horse, filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro – preso por crimes graves envolvendo tentativa de golpe de Estado –, dos quais recebeu mais de R$ 60 milhões.

Flávio Bolsonaro transformou os ataques do ministro ao Estado Democrático de Direito em eixo de sua campanha. No 7 de Setembro, atacou Alexandre de Moraes, associou o ministro a Lula e defendeu Mendonça. À exceção de São Paulo, onde a mobilização alcançou alguma relevância, embora abaixo da expectativa dos organizadores, as manifestações em outras cidades foram esvaziadas.

Óbvio que esse plano visa à contenção da tendência de vitória de Lula e a impulsionar Flávio Bolsonaro, que se liga às ações do governo de Donald Trump, dos Estados Unidos, de ingerência militar, econômica e política na América Latina e Caribe, região na qual o Brasil ocupa posição estratégica. O secretário de Estado, Marco Rubio, iniciou justamente nesta semana uma viagem por Colômbia, Equador e Peru destinada a fortalecer alianças com governos alinhados a Washington.

O papel de setores da mídia hegemônica também entra nesta trama de cunho golpista ao se converter em tribunal seletivo, deslocando o debate eleitoral de seus reais objetivos para uma amplificação estridente do falso combate à “corrupção”. Tira do eleitor a possibilidade de conhecimento das propostas reais sobre emprego, renda, industrialização, soberania nacional, segurança pública, política externa, infraestrutura. E assim interditam os grandes debates realmente relevantes.

Edson Fachin, na condição de presidente do STF, tem a responsabilidade de buscar solução para a crise criada por Mendonça, restaurando princípios como o amplo direito de defesa e o direito ao contraditório. O ministro Mendonça não pode continuar a agir como se sua toga lhe conferisse poderes excepcionais.

Em decisão liminar juridicamente fundamentada, o ministro Flávio Dino determinou a imediata reintegração de Andrei e Almada, submetendo a medida ao referendo do Plenário do STF. Entre os fundamentos, Dino advertiu que o afastamento “impede o andamento de – quiçá – centenas de investigações”, inclusive sob sua relatoria, e destacou que a interrupção dos trabalhos da direção da PF “interessa, sobretudo, aos investigados”.

Resta agora saber como Fachin conduzirá o caso. O plenário do STF precisa reverter os afastamentos na PF e restabelecer à Presidência da República suas prerrogativas constitucionais. A PF precisa recuperar sua estabilidade institucional. Mendonça, diante de parcialidades nítidas, deve ser imediatamente afastado das relatorias do caso Master e do INSS. É imperativo que a Suprema Corte restaure a estabilidade, sobretudo quando o país está sob ameaça externa e o golpismo volta a se exacerbar.

O objetivo do conluio da extrema-direita e do imperialismo estadunidense é empurrar a campanha de reeleição do presidente Lula para a defensiva. Acontece que a extrema direita, tendo Mendonça como aríete, foi com muita sede ao pote. A operação em marcha pela sua vertente golpista aciona um sinal vermelho entre todos e todas que prezam a democracia, as liberdades, a soberania do país e os direitos dos trabalhadores – vide, também, o papel de Flávio para sabotar a votação do fim da escala 6×1.

Instaurou-se uma situação de força contra força. De confronto. A disputa presidencial adentrou-se a uma nova etapa. Emergem novas exigências. Desmascarar Flávio Bolsonaro está entre as tarefas centrais.

A gravidade dos fatos dá oportunidade para que a campanha à reeleição do presidente Lula desencadeie a contraofensiva e retome a iniciativa política, realizando ampla mobilização em defesa da democracia e da soberania popular nas eleições.

É tarefa essencial das forças progressistas convocar personalidades democráticas, organizar manifestações populares e acionar os mecanismos institucionais para defender o Estado Democrático de Direito. A campanha do presidente Lula também precisa demarcar com clareza os campos, para desmascarar Flávio Bolsonaro e expor as manobras da extrema direita destinadas a sabotar a democracia e a privar o povo de seu sagrado direito de escolher, de forma livre e soberana, seus governantes e representantes.

Defender a soberania nacional com Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/editorial-do-vermelho_0189987053.html

Fotografia

 

Luciano Siqueira

"Somos todos Lula em torno de um cafezinho" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/convite-vamos-nessa.html