27 abril 2026

PCdoB: ideias e rumos


Imagem & vida social

A sociedade do espetáculo 2.0
Deixamos de ser meros espectadores para nos tornarmos os operários de uma fábrica de imagens que exige que cada momento de nossa existência seja encenado e validado pelo algoritmo
Erick Kayser*/A Terra é Redonda     


Em nossos dias, vivemos sob uma avalanche incessante de estímulos digitais. Se, em décadas passadas, a crítica de Guy Debord (1931-1994) parecia restrita aos círculos da vanguarda artística e intelectual francesa herdeira do Maio de 1968, o triunfo de plataformas como TikTok, YouTube e Instagram transformou A Sociedade do Espetáculo (1967) em um instrumental crítico ainda capaz de nomear o presente. O que o livro diagnosticou no auge dos “trinta anos gloriosos” do capitalismo europeu não apenas sobreviveu à Queda do Muro de Berlim, como se intensificou e se reconfigurou: a vida social passou a se organizar, de maneira ainda mais profunda, como imagem, performance e circulação incessante de signos.

É nesse horizonte que se pode falar em uma Sociedade do espetáculo 2.0: não apenas a continuidade, mas a mutação do regime espetacular. Como apontou Debord, “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens”. No cenário contemporâneo, essa mediação atingiu o paroxismo. A imagem deixou de ser um adereço para se tornar a condição de existência da própria vida social. Não nos relacionamos mais com o outro, mas com o perfil do outro; não habitamos o espaço, mas a sua representação digital, transformando cada interação humana em um fluxo de dados visualmente codificado para o consumo alheio.

É fundamental notar, contudo, uma mutação morfológica. Debord escreveu na era da televisão, caracterizada por um espetáculo unidirecional, onde um emissor central transmitia para uma massa passiva. Com o advento das redes sociais, essa dinâmica foi dialeticamente atualizada para o espetáculo interativo. O pensador francês não previu totalmente que o próprio sujeito se tornaria o artesão voluntário da sua alienação.

Hoje, o corpo e a subjetividade são postos para trabalhar 24 horas por dia, 7 dias por semana, na performance incessante de uma “autenticidade” fabricada. Deixamos de ser meros espectadores para nos tornarmos os operários de uma fábrica de imagens que exige que cada momento de nossa existência seja encenado e validado pelo algoritmo.

O tempo livre deixou de ser apenas descanso: tornou-se também espaço de acumulação. Sem surpresa, o que outrora era “tempo livre” virou o novo tempo de trabalho. No fim das contas, somos obrigados a performar a própria imagem se quisermos nos inserir no mercado social. Nesse sentido, a tese deboriana de que “o espetáculo é o momento em que a mercadoria ocupou totalmente a vida social” ganha um sentido renovado. No mundo dos algoritmos, o tempo foi convertido em um espaço de acumulação agressiva, onde cada “scroll” gera valor para o capital.

No espetáculo interativo, o usuário não apenas consome imagens, mas produz continuamente dados comportamentais (cliques, pausas, padrões de interação) que alimentam modelos preditivos capazes de moldar desejos antes mesmo que o sujeito os reconheça como seus. O algoritmo ocupa, de forma opaca e estatística, o lugar que antes cabia ao editor ou ao programador, substituindo a autoridade visível por uma governança invisível. O que torna esse arranjo ideologicamente mais potente do que qualquer forma anterior de espetáculo, porém, é a ilusão de agência que ele produz: ao “criar conteúdo” e montar a narrativa visual de sua própria vida, o usuário experimenta uma sensação genuína de liberdade, que é, contudo, estruturalmente fabricada, pois a margem de criação é sempre já delimitada pelos formatos que o algoritmo recompensa. O sujeito se crê autor quando é, na verdade, o conteúdo, o que configura algo próximo do conceito marxista de falsa consciência, em que a dominação se torna invisível porque vivida como liberdade.

Talvez aqui seja interessante explorarmos um diálogo com os aportes do filósofo e ensaísta sul-coreano-alemão Byung-Chul Han e sua obra Sociedade do cansaço (2014), quando traz a noção de “autoexploração”. Han explica como o indivíduo contemporâneo se vê como um “projeto” e acaba se explorando voluntariamente em busca de performance, acreditando ser livre. Esse sujeito-projeto é, assim, o desenvolvimento mais acabado do que Debord apenas esboçou: não mais o espectador passivo diante da imagem, mas o produtor compulsivo dela, que confunde a encenação de si mesmo com a realização de si mesmo. A autoexploração, nesse sentido, é mais eficiente do que qualquer exploração externa, pois dispensa o feitor, o próprio desejo se encarrega do trabalho.

Há, contudo, limites conhecidos na crítica situacionista de Debord que o rigor analítico exige reconhecer. O situacionismo foi uma corrente artístico-política de vanguarda surgida na Europa do pós-guerra, empenhada em romper a passividade da vida cotidiana por meio de intervenções, experiências coletivas e uma crítica radical da sociedade de consumo. No plano prático, buscava superar as formas tradicionais de arte e política mediante a criação de “situações” vivas, capazes de interromper a lógica passiva do espetáculo. Em termos teóricos, o limite mais conhecido dessa crítica é o seu grau de abstração excessivo. Ao descrever o espetáculo como uma totalidade quase onipresente e metafísica, Debord por vezes enfraquece a análise concreta das diferenças entre setores do capital, Estados, classes e conjunturas históricas específicas. Sua crítica ganha em densidade filosófica, mas perde em precisão sociológica, correndo o risco de recair na paralisia da Negatividade Abstrata, onde tudo é espetáculo e, portanto, nenhuma resistência específica parece possível.

Todavia, a despeito de imprecisões e falhas, o “marxismo estético” de Debord traz insights valiosos para o atual capitalismo de plataforma. Enquanto Marx demonstrou a mercadoria como algo que oculta relações sociais de exploração, Debord argumentou que, no capitalismo avançado, a imagem tornou-se a forma última da mercadoria. Essa tese ajuda a entender a passagem do capitalismo industrial, baseado sobretudo na exploração do corpo na fábrica, para o capitalismo de plataforma e cultural, que extrai valor da atenção, do desejo e da subjetividade.

Explorando esta perspectiva, o capitalismo teria conseguido sobreviver às suas crises cíclicas, entre outros fatores, porque conseguiu colonizar o inconsciente e a vida cotidiana, ampliando suas zonas de acumulação. Ele, por exemplo, transformou a miséria psíquica (a ansiedade, solidão, frustração e vazio de viver) em algo tão lucrativo quanto a miséria material. Cada clique em busca de alívio para o vazio existencial alimenta a mesma máquina que produziu esse vazio em primeiro lugar.

É Mark Fisher quem oferece, em Realismo Capitalista (2009), o complemento mais preciso a essa tese: o capitalismo realizou um golpe ideológico ao transformar o sofrimento estrutural em patologia individual. O que era sintoma coletivo de um modo de produção adoecedor foi traduzido em déficit bioquímico pessoal, impedindo que o indivíduo exausto reconheça no seu colapso a marca de uma ordem social que extrai valor da subjetividade até o limite do esgotamento.

No capitalismo de plataforma, esse mecanismo se fecha em circuito perfeito: a mesma interface que produz a ansiedade oferece, nos anúncios seguintes, o aplicativo de meditação ou o influenciador de saúde mental, de modo que o capital lucra com a miséria psíquica que engendra e com a mercadoria terapêutica que promete, sem nunca poder, dissolvê-la.

Por isso, A Sociedade do Espetáculo continua sendo útil para pensar o atual momento do capitalismo tardio. Ela nos permite nomear a estrutura de dominação por trás da interface “amigável” de conexão permanente das Big Techs. Assim, possibilita apontar que, por exemplo, não existe “rede social”. Existe fábrica social. Não existe “compartilhamento”. Existe alienação do afeto. Não existe “viralização”. Existe reificação do desejo.

Sem a lente crítica de Debord, corremos o risco de reduzir o mal-estar contemporâneo a um simples “vício em tela” ou um problema de etiqueta digital. Com Debord e Marx, compreendemos que o problema é o modo de produção, que evoluiu para nos forçar a viver para a imagem espetaculizada, como forma do capital continuar a circular sobre os escombros da experiência vivida. A superexposição digital não é um acidente da modernidade, mas a forma tardia do trabalho alienado, onde o ser humano convertido em imagem se torna o conteúdo consumível de uma engrenagem que nunca para de girar.

*Erick Kayser é doutorando em história na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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A repórter que desnudou o ChatGPT https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/resistencia-social-e-codigo-aberto.html

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O que se leva desta vida é a vida que a gente leva. (Barão de Itararé) 

Cotidianos sinais de vida https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Dica de leitura

Fio da história   

Recente editorial do Vermelho estabelece um paralelo histórico entre a figura de Tiradentes, símbolo da luta pela soberania, e os desafios da democracia brasileira contemporânea.

O exemplo do mártir da Inconfidência Mineira se inscreve no embate permanente contra o domínio de interesses externos e elites antinacionais.

Hoje, quando enfrentamos uma eleição presidencial acirrada, importa reafirmar o sentido patriótico da luta do povo brasileiro.

O presidente Lula, candidato à reeleição, enfrentará candidatos de uma direita que além de se tingir com tintas fascistas adota postura subserviente em relação aos Estados Unidos.

A frente ampla e patriótica que dá sustentação ao governo tem diante de si tarefa hercúlea: além da reeleição de Lula, a ampliação da bancada de senadores, deputados federais e estaduais de base popular e democrática e vitória na disputa pelos governos estaduais.

Leia o editorial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/editorial-do-vermelho_19.html?m=1

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LS 

Fim da escala 6 x 1

Jornada e escala: transição longa esvazia direito e expõe atraso político
Parecer reconhece urgência da redução da jornada, mas aposta em adiamento que protege custos e posterga ganhos sociais
Marcos Verlaine/Vermelho  

O parecer do relator, deputado Paulo Azi (União-BA), na CCJ da Câmara sobre a PEC 221/19 — tendo a PEC 8/25 agora anexada — começa com um problema que não é técnico, mas político: o tempo. A proposta original ou primeira levou 7 anos para “sensibilizar” a maioria da Câmara; a anexada, um ano. A diferença não está na qualidade do debate, mas na conveniência da maioria do Congresso.

Durante esse intervalo, o Parlamento esteve ocupado com outras “prioridades”. Muitas orientadas à autoproteção institucional após os desdobramentos dos atos golpistas recentes.

O resultado é um relatório que tenta recuperar o tempo perdido com excesso de palavras, mas evita enfrentar o ponto central: como transformar consenso social difuso em decisão legislativa efetiva.

A prolixidade, nesse caso, não é mero estilo. É sintoma. O relator reconstrói longamente a história da jornada de trabalho — da Revolução Industrial à Constituição de 1988 — para, ao fim, adiar o conflito real: quem paga a conta da redução e em que prazo?

Diagnóstico é conhecido, a hesitação é política

O relatório reconhece, com farta base empírica, algo já consolidado no debate público:

• A escala 6×1 está associada a adoecimento físico e mental;
• Afeta de forma desproporcional mulheres, jovens e trabalhadores de baixa renda; e
• Tem impacto indireto sobre produtividade, rotatividade e Previdência.

Também admite que a economia brasileira comporta redução inicial para 40 horas, com custo estimado em cerca de 4,7% da massa salarial, potencialmente compensável por ganhos de produtividade.

Ou seja, o parecer não nega o problema nem os benefícios da mudança — ao contrário —, os documenta extensivamente.

A contradição emerge quando, diante desse diagnóstico robusto, a solução proposta se ancora em “prudência excessiva” e “dilação temporal”.

Regra de transição: o coração (e o problema) do parecer

A proposta de reduzir a jornada para 36 horas ao longo de 10 anos é apresentada como solução equilibrada. Mas é justamente aí que reside o principal ponto crítico.

A regra de transição, como desenhada, cumpre mais função política do que econômica:

1. Reduz a resistência às propostas;

2. Dilui o impacto imediato para o empresariado, atendendo às pressões das confederações patronais;

3. Adia os benefícios concretos para os trabalhadores, especialmente os mais vulneráveis; e

4. Transfere o conflito para o futuro, quando e onde pode ser revisto, alterado ou abandonado.

Na prática, trata-se de transição longa o suficiente para reduzir a resistência presente, mas também para comprometer a efetividade futura.

Experiências internacionais citadas no próprio parecer — como Chile e Colômbia — adotam transições, mas em prazos significativamente menores. O prazo de 10 anos, portanto, não é exigência técnica inevitável, mas escolha política, a fim de mitigar as resistências empresariais.

Entre a Constituição e a negociação: ambiguidade calculada

Outro ponto central do parecer é a tentativa de equilibrar 2 posições:

• Fixar limite constitucional (36 ou 40 horas); e evitar “engessar” as escalas, remetendo-as à negociação coletiva.

Essa ambiguidade é deliberada. O relator ecoa o argumento de que a Constituição não deve detalhar escalas, ao mesmo tempo em que reconhece a fragilidade do movimento sindical, o que torna a negociação desigual.

O resultado é arranjo híbrido: constitucionaliza o princípio, mas desconstitucionaliza a aplicação concreta.

Na prática, isso pode gerar efeito paradoxal: redução formal da jornada coexistindo com arranjos que preservam a lógica da escala atual.

Fantasma recorrente do “colapso econômico”

O parecer reproduz, sem grande filtro crítico, o repertório clássico de resistência empresarial: aumento de preços; queda do PIB; demissões; e substituição por tecnologia. É a “tragédia anunciada”, que historicamente nunca se concretiza. É espantalho. 

São argumentos historicamente recorrentes — utilizados, como o próprio relator lembra —, contra a jornada de 44 horas, o 13º salário, as férias e o aumento real do salário mínimo no início dos anos 2000.

No entanto, o texto evita confrontar esses dados com a mesma profundidade dedicada aos benefícios sociais. Há assimetria: o medo é tratado como projeção plausível; o ganho, como hipótese condicionada.

Essa escolha reforça a lógica de cautela que sustenta a longa transição.

Parecer como peça de contenção

No conjunto, o parecer cumpre papel claro: organizar o debate sem resolvê-lo, pois, este:

• legitima a pauta da redução da jornada;
• reconhece seus fundamentos sociais e econômicos;
• incorpora contribuições de trabalhadores e empresários;
• mas propõe, no final, transição que minimiza rupturas no presente.

É, portanto, menos texto de decisão e mais instrumento de contenção política.

Risco de reforma que chega tarde e chega pouco

Ao optar por transição longa e por modelagem ambígua entre Constituição e negociação, o parecer corre o risco de produzir resultado conhecido na história trabalhista brasileira: conquista formal com impacto material reduzido.

Depois de 7 anos de espera, a resposta institucional pode vir na forma de cronograma que empurra o essencial para a próxima década.

No limite, a pergunta que o próprio parecer evita responder permanece: reduzir a jornada é prioridade civilizatória ou apenas promessa administrável?

Transição longa, conflito curto

O parecer aprofunda ponto já insinuado: há base empírica consistente para a redução da jornada. Os dados sobre saúde mental, afastamentos e desigualdades tornam o diagnóstico incontornável.

O crescimento de 79% nos afastamentos por transtornos mentais, a explosão dos casos de burnout e o peso desproporcional sobre mulheres (mais de 63% dos benefícios) evidenciam que o modelo atual não é apenas ineficiente. É socialmente insustentável. O próprio texto admite que:

• a jornada extenuante é fator de risco reconhecido;
• há impacto direto sobre gastos previdenciários; e
• a redução pode gerar economia sistêmica no longo prazo.

Mas, novamente, o parecer recua no momento decisivo. Introduz a ressalva recorrente — “não se pode atribuir relação de causa e efeito” — que, embora tecnicamente correta, funciona como válvula retórica. O excesso de cautela aqui não esclarece. Neutraliza.

Peso seletivo dos números: projeções viram argumento político

Ao entrar nos “efeitos econômicos negativos”, o parecer muda de tom. E de critério. Enquanto os benefícios sociais são tratados como potenciais condicionados, os custos empresariais aparecem como projeções robustas e quase inevitáveis:

• R$ 158 bilhões (40h) a R$ 610 bilhões (36h) em custos;
• até 631 mil empregos a menos;
• aumento de preços de até 13%; e
• perda de até 6,2% do PIB no longo prazo.

O problema não é apresentar esses números, mas como são mobilizados.

Tratam-se, em grande parte, de estimativas produzidas por entidades diretamente interessadas no debate, mas que são contrárias à redução da jornada e da escala, baseadas em premissas conservadoras:

• ausência de ganhos de produtividade; manutenção de estruturas de custo; e inexistência de adaptação organizacional.

Ou seja, o cenário mais pessimista vira base analítica, enquanto alternativas são marginalizadas. O resultado é o desequilíbrio narrativo: o risco vira certeza; o ganho vira hipótese.

“Teoria da pobreza produtiva”: argumento reciclado

Um dos trechos mais reveladores do parecer é a defesa indireta da tese de que países “mais pobres” precisam trabalhar mais para crescer. E que o Brasil estaria “descendo a serra cedo demais”.

Esse argumento naturaliza jornadas longas como condição de desenvolvimento e ignora 3 elementos fáticos e centrais:

1. A produtividade não cresce apenas com mais horas;

2. Jornadas extensas reduzem eficiência marginal e ampliam custos indiretos; e

3. A redução de jornada, em muitos países, foi parte do desenvolvimento, não sua consequência tardia.

Ao adotar essa lógica, o parecer flerta com conclusão implícita: trabalhar mais seria o preço por não ser rico. Trata-se de tese antiga. E amplamente contestada.

Compensações fiscais: solução técnica ou socialização de custos?

A seção internacional do parecer revela talvez o ponto mais concreto do arrazoado: alguém paga a conta da transição. Os exemplos são claros:

• França: forte subsídio estatal;
• Alemanha: custo dividido;
• Bélgica: renúncia fiscal ampla;
• Holanda: moderação salarial; e
• Portugal e Japão: ajuste via emprego.

O parecer sugere, ainda que indiretamente, desonerações da folha como caminho. Aqui emerge a questão central não enfrentada diretamente: quem deve financiar a redução? Estado, empresas ou trabalhadores.

Ao apontar a desoneração, abre-se espaço para padrão recorrente: socialização dos custos via renúncia fiscal, com impacto potencial sobre a Seguridade Social.

Contradição estrutural: negociação coletiva sem poder de barganha

Talvez o ponto mais honesto — e mais contraditório — do parecer está na admissão de que a negociação coletiva, sozinha, é insuficiente para promover a redução da jornada. O texto reconhece a:

• assimetria entre capital e trabalho; fragilidade sindical; e ausência de avanços espontâneos.

Ainda assim, insiste na negociação como eixo central. Eis a contradição: reconhece a insuficiência do instrumento, mas o mantém como solução.

Transição como estratégia de adiamento

Todos os elementos convergem para justificar a longa regra de transição: riscos econômicos amplificados; necessidade de compensações; heterogeneidade setorial; e incertezas sobre emprego e produtividade.

A transição deixa de ser mecanismo técnico e passa a cumprir função política: adiar o conflito distributivo entre capital, trabalho e Estado.

O prazo de 10 anos ganha outro significado: não é apenas gradualismo. É gestão do impasse.

Admissibilidade sem compromisso

A conclusão é previsível e óbvia: as propostas são admissíveis e constitucionais. Por que não seriam?

Mas o percurso revela algo mais relevante: o relatório constrói amplo inventário de dúvidas e condicionantes, transferindo a decisão real para a comissão especial. A que vai debater o mérito das propostas. Nessa sim deve haver audiências públicas; não excessivas.

É movimento típico de textos politicamente sensíveis: legitima o debate, mas posterga a decisão substantiva.

Muito diagnóstico, pouca decisão

Se a primeira parte do parecer era marcada pela reconstrução histórica, a segunda revela sua essência: esforço de equilíbrio que termina em paralisia controlada. O texto reconhece que: a jornada atual adoece; a redução é socialmente desejável; e há experiências internacionais viáveis.

Mas, ao mesmo tempo: amplifica riscos econômicos; sugere compensações custosas; aposta em transição longa; e desloca decisões para o futuro.

No fim, o parecer não nega a mudança. Apenas a torna suficientemente lenta para não incomodar no presente. Sobretudo os setores mais poderosos.

E é exatamente aí que reside seu principal limite: transforma pauta urgente em processo administrável. E potencialmente inofensivo. Isto é, não cumpre o papel para o qual foi designado.

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Brasil tem 103 milhões empregados, maior nível da série histórica https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/emprego-sobe.html

Palavra de poeta

VIZINHANÇA
Marcelo Mário de Melo      

Os grandes amigos
são eternos vizinhos
nas proximidades do coração.
 
Atravessam avenidas e becos
de saudade e lembrança
e chegam perto de nós.
 
Desenrolando
reprises
de risos
brindes
jornadas
cirandas.
 
Latejando 
o tique-taque
dos afetos permanentes.
 
[Ilustração: Ernest Ludwig Kirchner]
 
Leia também: "Vinil", um poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/palavra-de-poeta_19.html