Não podemos viver num mundo de mentiras usadas para justificar a destruição, diz Lula
Presidente brasileiro defende busca pela paz e critica uso da força dos EUA contra países como Irã, Palestina, Venezuela e Cuba, bem como a inação da ONU
Piscila Lobregatte/Vermelho
Num ambiente de crescente ingerência do imperialismo estadunidense sobre a América Latina e outros continentes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender a autonomia e independência das nações e relações multilaterais. A fala ocorreu durante o I Fórum de Alto Nível da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e África, realizado em Bogotá, na Colômbia, neste sábado (21).
Lula salientou que “não podemos viver mais num mundo de mentiras, em que as pessoas constroem uma imagem negativa do inimigo para justificar a destruição”.
Afirmou, ainda, que “não somos mais países colonizados. Nós conquistamos soberania com a nossa independência. Não podemos permitir que alguém possa se intrometer e ferir a integridade territorial de cada país”.
O presidente salientou que “nossos continentes congregam quase a metade dos países do mundo e um quarto da população mundial. Mas ainda somos penalizados por uma ordem desigual, estabelecida enquanto o colonialismo e o apartheid prevaleciam em muitas partes do mundo”.
Disse ainda não fazer sentido “que a América Latina e a África não tenham representação adequada no Conselho de Segurança da ONU. As guerras na Ucrânia, em Gaza, no Irã e tantos outros conflitos nos afastam do caminho do desenvolvimento. Geram efeitos econômicos, sociais e políticos no mundo todo. Aumentam os preços da energia e dos alimentos”.
Ele defendeu ser preciso “manter o Atlântico Sul livre de disputas geopolíticas alheias” e lembrou que este é o objetivo da reunião ministerial da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, que o Brasil organizará em 9 de abril.
Guerras e conflitos
Lula também demonstrou sua preocupação com a atual situação global. “É importante que a gente não esqueça nunca que o mundo de hoje está vivendo a maior concentração de conflitos desde a Segunda Guerra”, destacou.
Ao mesmo tempo, salientou que “enquanto se gastou, no ano passado, US$ 2,7 trilhões em armas e guerras, nós ainda temos 630 milhões de pessoas passando fome”.
O presidente brasileiro também criticou “a falta total e absoluta de funcionamento das Nações Unidas”. Ele lembrou que o Conselho de Segurança da ONU e os seus membros permanentes foram criados “para tentar manter a paz”, mas “são eles que estão fazendo as guerras”.
Lula reforçou que “como ser humano, como democrata e como presidente do Brasil” está “indignado com a passividade dos membros de segurança”, que não foram capazes de resolver o problema na Faixa de Gaza, no Iraque, na Líbia, na Ucrânia e nem no Irã.
Ou seja, questionou, “tudo se resolve por guerra?Quem tem mais canhão, quem tem mais navio, quem tem mais avião, quem tem mais dinheiro, se acha dono do mundo?”.
Ataques ao Irã
Ao falar especificamente do Irã, Lula recordou sua visita a Teerã, em 2010, juntamente com o presidente da Turquia, para buscar um entendimento contra o enriquecimento de urânio para fins bélicos.
“Fizemos um acordo. Quando esse acordo foi publicado, ao invés dos países europeus e dos Estados Unidos aceitarem, eles aumentaram o bloqueio ao Irã. E é muito engraçado, isso já foi publicado na imprensa, não é segredo para ninguém. Eu tinha recebido uma carta do companheiro [Barack] Obama [ex-presidente dos Estados Unidos], dizendo que se o senhor Ahmadinejad [então presidente do Irã] concordasse com aquele acordo, estava tudo certo. Pois nós fizemos da Ahmadinejad assinar o acordo tal qual estava na carta do Obama”.
Lula prosseguiu lembrando que, para a sua surpresa, “quando foi publicado o acordo, tanto a Europa quanto os Estados Unidos aumentaram o bloqueio. Depois de alguns anos, foram fazer outro acordo pior do que aquele que a gente tinha feito. E agora se invadiu o Irã a pretexto de que estava construindo bomba nuclear. Cadê as armas químicas do Saddam Hussein? Aonde elas estão? Quem achou?”.
Ainda sobre a ingerência ilegal dos EUA, Lula tratou da situação de Cuba e da Venezuela. “O que estão fazendo com o Cuba agora? O que fizeram com a Venezuela? Isso é democrático? Em que parágrafo e em que artigo da Carta da ONU está dito que um presidente de um país pode invadir o outro? Em que documento do mundo está dito isso? Nem da Bíblia. Não existe nada que permita que isso aconteça. É a utilização da força e do poder para nos colonizar outra vez?”, questionou, indignado.
Ele alertou ainda para os interesses do imperialismos em riquezas naturais da região, como o petróleo e as terras raras. “Ou seja, nós não teremos chances [de desenvolvimento] agora que descobrimos que temos terras raras, que descobrimos que temos minerais críticos? Agora que a gente pode aspirar a dar um salto de qualidade na produção de combustíveis alternativos?”.
O presidente disse ser preciso “que a gente possa gritar alto e em bom som para não permitir que aconteça em outros países o que já aconteceu em Gaza recentemente”.
Tecnologia e meio ambiente
Entre os outros pontos tratados em seu discurso, Lula também falou do uso da tecnologia para o desenvolvimento dos países e da crise ambiental.
“Precisamos de um modelo de cooperação que alinhe governança digital e respeito aos direitos fundamentais, fortalecendo nossa soberania. A regulação do mundo virtual não é um mecanismo de controle. É antes de tudo um instrumento de inclusão e proteção das pessoas”, declarou.
Nesse momento, destacou que “para enfrentar discursos de ódio, desinformação, pornografia infantil e misoginia, o Brasil está atualizando sua legislação”, citando como exemplo a entrada em vigor do ECA Digital.
Além disso, salientou a importância do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, que contempla duas linhas de financiamento para cooperação com África e América Latina. “São 20 milhões de dólares para financiamento de projetos conjuntos e 10 milhões para o uso de infraestruturas de IA brasileiras”, disse.
Com relação ao enfrentamento à mudança do clima e à preservação do meio ambiente, Lula pontuou que “apesar de não sermos historicamente responsáveis pelo aquecimento global, somos os mais afetados por eventos climáticos extremos”.
Por isso, prosseguiu, “temos em comum a preocupação de combater processos de desertificação. Compartilhamos a responsabilidade de cuidar das duas maiores florestas tropicais do mundo: a Floresta Amazônica e a do Congo. Cooperamos em diversos foros para combater os crimes ambientais, que já são a terceira maior fonte de recursos para o crime organizado”.
Lula lembrou o trabalho que tem sido feito com Fundo Florestas Tropicais para Sempre, iniciativa que já mobilizou quase US$ 7 bilhões. “Não se tratam de doações. Os lucros gerados pelo TFFF serão repartidos entre os países de florestas tropicais e os investidores”, salientou.
Além disso, agregou que “a ciência já provou que sem uma transição para economias de baixo carbono, não será possível evitar a crise climática. Por isso, a transição energética também deve ser um dos eixos de ação conjunta”.
Lula enfatizou que “nosso enorme potencial para produção de energia limpa de fontes solar, eólica e hídrica ainda contrasta com o acesso precário à eletricidade em muitas partes de nossos continentes” e que “a formação de um mercado internacional de biocombustíveis abre oportunidades de desenvolvimento local e viabiliza a descarbonização da economia”.
Ao mesmo tempo, apontou: “Nossos países também possuem importantes reservas de minerais críticos, que desempenham um papel estratégico na transição para economias de baixo carbono. A cooperação entre os países detentores desses recursos minerais será vital para conseguir agregar valor em nossos próprios territórios e evitar investidas neoextrativistas”.
O projeto das Big Techs para substituir os Estados nacionais https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/big-techs-x-estados-nacionais.html