21 junho 2026

Postei nas redes

"Tive várias vidas. Gosto de todas. A vida pulsa." (Tostão, craque do Brasil na Copa do Mundo de 1970) 

A palavra e o gesto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/06/minha-opiniao_14.html 

Uma crônica de Ruy Castro

A humilhação diária
Pessoas de 90 anos têm de usar um smartphone para pagar uma conta ou marcar uma consulta. Os idosos se tornaram analfabetos dentro de casa, dependendo de um filho ou neto, se houver
Ruy Castro/Folha de S. Paulo   

 

Minha amiga Ana Luiza recebeu e me mandou. Num cartum, um idoso de capa, cachecol e bengala está diante de um balcão de informações. A atendente lhe mostra o celular e o instrui: "O senhor baixa o aplicativo e entra em ‘gerar código de acesso’. Aqui tem o certificado digital. Faz o login e clica em ‘escolher o arquivo’. Ele vai pedir um código de liberação do acesso nas extensões JPG, PNG ou PDF... Entendeu?". O cartum é assinado por Tom Cotrim. Mostra uma realidade que está acontecendo neste momento no seu bairro, com macróbios quase centenários como eu ou talvez você.

Sob o cartum, segue-se um texto não assinado: "Uma sociedade que obriga uma pessoa de 90 anos a usar um smartphone para acessar os seus próprios direitos não é moderna. É uma sociedade que decidiu se livrar de seus idosos. Em 2026, tudo virou um aplicativo, um código, um portal. Mas quem construiu este país com as próprias mãos vê-se hoje analfabeto dentro da própria casa. Para marcar uma consulta ou pagar uma conta, é preciso um filho ou neto, quando existe um".

O texto continua: "Isso é exclusão. A tecnologia deve ajudar, não selecionar quem tem direito à dignidade. Quando deixamos para trás aqueles que vieram antes de nós, não estamos evoluindo —apenas nos tornando mais cômodos e egoístas".

Há anos, no começo da ditadura do smartphone, observei as tentativas de gente da minha geração para se entender com o bicho, assim como se entendia com as novidades da antiga tecnologia. Não queriam parecer velhos ou superados. Mas eles se superestimaram. Não foram capazes de acompanhar a velocidade com que o smartphone evoluiu. Hoje, a tecnologia acha normal que a enorme parcela da população que se recusa a morrer antes da hora —a nossa— seja diariamente humilhada por aquela joça.

Levei a vida me aplicando para escrever direito, ficar atento à história, entender o que lia. Não tenho mais idade, capacidade ou vontade de me converter em engenheiro eletrônico. E acho burro o sistema binário, o do sim ou não. Prefiro o talvez.

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Leia também: “Vivos, lúcidos e ativos" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/04/minha-opiniao_18.html

Sylvio: no buraco

A situação  do senador Ciro Nogueira está cada vez mais complicada, à medida que o seu relacionamento com o banqueiro Vorcaro começa a ser esmiuçado. São pagamentos de grandes somas em dinheiro e vantagens, como mesada e mimos. A essa altura, tenho certeza que o eleitorado do Piauí está bem arrependido de ter lhe dado o mandato, cujo exercício envergonha todo o País. 

Sylvio Belém   

Duas faces da cena pré-eleitoral https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_01490491014.html 

Palavra de Luciana

Ciência, autonomia e emancipação: o caminho para derrotar a violência de gênero
Investimentos em ciência, educação e autonomia econômica fortalecem a emancipação feminina e ajudam a enfrentar a violência de gênero no Brasil
Luciana Santos/Vermelho   

A cada seis horas, uma mulher é vítima de feminicídio no Brasil. Esse dado alarmante não representa apenas uma estatística fria, ele se traduz em vidas brutalmente interrompidas, famílias dilaceradas e a persistência de uma chaga social que violenta a nossa dignidade e o nosso compromisso civilizatório. É uma realidade inaceitável, que exige do Estado brasileiro uma resposta contundente e de toda a sociedade uma mobilização permanente e inflexível.

No mês de maio, ao completarmos os 100 dias do Pacto Brasil entre os Três Poderes para o Enfrentamento ao Feminicídio, reafirmamos um compromisso que vai muito além do formalismo institucional. Este pacto conta com o apoio e atuação importante de Janja Lula da Silva e a articulação e empenho do próprio presidente Lula. É um pacto que simboliza a união inabalável de esforços para combater a expressão mais cruel e extrema do patriarcado. No entanto, para derrotar o feminicídio de forma definitiva, precisamos compreender que ele não brota no vazio. Ele é o desfecho trágico de uma escalada de opressões que se inicia no cotidiano, nas violências psicológica, moral, patrimonial e física.

Enfrentar essa barbárie exige, sem dúvida, o fortalecimento dos mecanismos de acolhimento, proteção e a aplicação rigorosa da justiça. Mas, fundamentalmente, exige que tenhamos a coragem de transformar as estruturas históricas que alimentam a desigualdade e perpetuam relações de subordinação. E, no cerne dessas estruturas, está a exclusão secular das mulheres dos espaços de poder, de decisão e da produção do conhecimento científico e tecnológico.

A história nos mostra que a autonomia econômica das mulheres é uma das ferramentas mais poderosas de emancipação. Quando garantimos a uma mulher o acesso à educação de qualidade, à qualificação profissional, à ciência e à inovação, estamos ampliando suas fronteiras de liberdade. Estamos oferecendo as condições reais para que ela rompa com o ciclo da violência e seja dona do seu próprio destino. Muitas mulheres permanecem presas a contextos abusivos não por escolha, mas por falta de alternativas financeiras e profissionais. Por isso, a inclusão produtiva, a geração de renda e a democratização das oportunidades não são agendas acessórias, são pilares centrais da estratégia nacional de segurança pública e de direitos humanos das mulheres.

No Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), transformamos essa convicção em ação governamental desde o primeiro dia da nossa gestão na reconstrução do país. Já mobilizamos mais de R$ 1,7 bilhão em investimentos estruturantes voltados ao empoderamento de meninas e mulheres nos setores científicos e tecnológicos. São recursos direcionados para reparar distorções históricas e impulsionar a presença feminina em áreas estratégicas para o desenvolvimento e a soberania nacional.

Neste ano, demos um passo histórico com o lançamento da Política de Empoderamento das Meninas e Mulheres na Ciência, Tecnologia e Inovação. Trata-se de uma política pública robusta, transversal e intencional, desenhada para garantir não apenas o acesso, mas a permanência, a valorização e a ascensão das brasileiras nessas áreas tão estratégicas. Implementamos medidas afirmativas concretas, com recorte de gênero e raça, reserva de vagas, bolsas de incentivo, apoio ao empreendedorismo tecnológico feminino e fomento à qualificação em fronteiras do conhecimento, como a Inteligência Artificial.

Iniciativas consolidadas e novos programas — como o Meninas nas Ciências Exatas, Engenharias e Computação, o Futuras Cientistas, o Mulheres Inovadoras e o Programa Beatriz Nascimento, além do fortalecimento do Programa Centelha e do Conecta Startup Brasil — provam que o Estado pode e deve ser o motor da transformação social. Essas ações mudam trajetórias de vida e, simultaneamente, oxigenam o ecossistema nacional de inovação com novos olhares e talentos imprescindíveis.

O avanço dessa agenda enriquece toda a nação. Uma ciência plural, que conta com a inteligência, a sensibilidade e a liderança das mulheres, é uma ciência mais justa e capaz de apresentar soluções reais para os grandes desafios do nosso povo. Mas abrir as portas do laboratório e da universidade é apenas metade da tarefa. Temos trabalhado incansavelmente para assegurar que esses ambientes institucionais sejam seguros, respeitosos e absolutamente livres de assédio e discriminação. Lugar de mulher é onde ela quiser, exercendo sua liderança com dignidade e paz.

Como primeira mulher a ocupar o cargo de ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação em mais de quatro décadas de existência da pasta, carrego comigo o peso e o orgulho dessa responsabilidade. Sei que a representatividade importa. Ver uma mulher liderando a política científica do país serve de espelho para que milhões de meninas em nossas escolas públicas compreendam que nenhum espaço lhes é interditado. Elas podem ser cientistas, astronautas, engenheiras, enfim, o que decidirem ser.

Combater o feminicídio e a violência de gênero é salvar vidas hoje, mas é também plantar as sementes de democracia e dignidade para o amanhã. Onde houver uma mulher em situação de vulnerabilidade, o Estado deve chegar com o braço firme da proteção e da justiça, mas deve chegar também com a mão acolhedora da educação, da tecnologia, do emprego e da emancipação.

Uma sociedade que empodera suas mulheres é uma sociedade que rompe as correntes do silêncio e caminha altiva para o futuro. A ciência brasileira é, definitivamente, delas e de quem mais lutar por um país justo, soberano e desenvolvido.

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Soberania Digital é possível https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/brasil-na-era-digital.html 

Minha opinião

Sem IA, por favor
Luciano Siqueira 

Não sou saudosista, na acepção precisa do termo; apenas preservo a boa memória de fatos e gentes que de alguma forma me emocionaram e contribuíram para minha trajetória de vida. 

Pegar a estrada dirigindo o próprio veículo apenas com o destino final em mente, aberto a paradas várias conforme o interesse despertado por ambientes, pessoas, coisas e animais sempre foi meu programa de férias predileto. 

Álbuns de fotografia acumulados numa das estantes em nossa biblioteca aqui em casa preservam a memória de momentos assim. Também arquivos digitais conservados na nuvem.

Outro dia encontrei inclusive um exemplar do Guia Quatro Rodas, que nem sei se ainda existe. 

Daí a minha resistência a assimilar o que leio agora nos jornais: a possibilidade de escolher mediante a IA, dentre tantas praias paradisíacas do litoral brasileiro, qual a mais bonita e menos poluída.

Uma espécie de ruído que fere o prazer alimentado ao longo da vida de me aventurar por praias diversas predisposto ao encanto ou à frustração — tudo no melhor "espírito de férias", como costuma dizer velho amigo sergipano. 

Pelo visto, a ferramenta de IA nos entrega a escolha feita e nos tira o prazer da dúvida. 

Com todo respeito ao progresso científico e à fabulosa e incessante evolução da tecnologia digital, dispenso os préstimos da IA nesse tipo de escolha. 

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Leia também: "Amor e ódio ao smartphone" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/minha-opiniao_21.html 

Fotografia

 

Luciano Siqueira

"Estarei errado em minhas escolhas?" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_23.html 

Seleção brasileira: variação tática

Fácil vitória contra o Haiti
Brasil usou novo esquema tático na segunda partida na Copa. Ancelotti já disse que a seleção não tem uma só identidade
Tostão/Folha de S. Paulo  
   


A seleção iniciou o jogo contra o Haiti com uma nova formação tática, com um trio no meio-campo (Casemiro pelo centro, Bruno Guimarães pela direita e Paquetá pela esquerda), dois atacantes (Raphinha e Vini Jr), além de Matheus Cunha centralizado, entre o meio-campo e os dois atacantes.

Vini pela esquerda e Raphinha pela direita entravam em diagonal e recebiam a bola entre o zagueiro e o lateral ou nas costas dos defensores bastantes adiantados. Assim saíram os três gols. E a seleção poderia ter feito outros, facilitada pela fragilidade do adversário.

Vini, mais uma vez, foi brilhante. No segundo tempo, com a vitória garantida, a equipe relaxou, mas mesmo assim criou mais umas três chances claras de gol. Entraram vários jogadores e com isso mudou a maneira de jogar do time brasileiro.

A formação tática foi a ideal para esse jogo. Provavelmente, Ancelotti viu as partidas do Haiti e organizou a equipe de acordo com o momento. Em outras situações, ele deverá mudar a escalação e a estratégia.

Essa flexibilidade é um dos pontos positivos da carreira do técnico. Ele já disse que a seleção não tem uma só identidade. Baseado nisso, contra os mais fortes adversários penso que a melhor estrutura tática seria recuar um pouco a marcação para contra-atacar e aproveitar a velocidade dos atacantes brasileiros e os espaços aumentados na defesa do outro time.

O craque minimalista

Após a primeira rodada, a Argentina foi o time mais regular durante toda a partida, repetindo a estrutura tática e quase a mesma escalação do time campeão em 2022.

Messi atua livre, sem precisar marcar, entre o trio de meio-campistas e o centroavante. Ele continua preciso, conciso, minimalista. Bastam poucos movimentos para clarear e definir as jogadas com belas e eficientes finalizações.

A Inglaterra, como a Argentina, foi um time organizado e eficiente. Não tem um Messi, mas possui um craque plural, Kane, ótimo no ataque, no meio-campo e até na marcação. Thomas Tuchel é um treinador que define a estratégia para depois escolher os jogadores. Prefiro o contrário, organizar a formação tática de acordo com a qualidade e características dos jogadores.

A França contra Senegal jogou muito mal o primeiro tempo e brilhantemente o segundo, com belíssimos lances dos atacantes. Mbappé une muita velocidade, habilidade e técnica, um craque explosivo.

Espanha e Portugal decepcionaram pelo mesmo motivo. Faltaram qualidade individual e coletiva aos dois ataques para ultrapassar as retrancas adversárias.

Muitas coisas vão mudar durante a Copa. O futebol é muito complexo, nós é que tentamos simplificá-lo com nossas racionalizações e pretensiosas sabedorias.

Brasil 70

Nas minhas caminhadas diárias, para fortalecer o corpo e a alma, um leitor perguntou se é verdade que, durante a Copa de 1970, eu lia Machado de Assis e me preparava para o vestibular, como mostrou o filme da Netflix "A Saga do Tri".

Eu lia Machado de Assis, o Shakespeare brasileiro, mas não é verdade que estudava para o vestibular, pois queria jogar futebol por muito tempo.

Alguns anos depois, tive que parar de jogar por orientação médica, fiz vestibular e me tornei médico e professor de medicina. Após uns 20 anos, voltei ao futebol, como comentarista e colunista, onde estou nos últimos 20 anos.

Tive várias vidas. Gosto de todas. A vida pulsa.

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Leia também: “Vivos, lúcidos e ativos" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/04/minha-opiniao_18.html