09 janeiro 2026

Palavra de Nádia

8 de janeiro: defesa da soberania na AL deve integrar celebração da democracia, diz Nádia Campeão
Presidente interina do PCdoB participou da celebração no Palácio do Planalto, onde Lula anunciou veto ao PL da Dosimetria, que reduz penas de condenados pela tentativa de golpe
Portal Grabois www.grabois.org.br   

A presidente interina do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Nádia Campeão, esteve presente na cerimônia no Palácio do Planalto nesta quinta-feira (8) para celebrar a vitória da democracia brasileira na tentativa de golpe do 8 de janeiro de 2023.”Nós impedimos que esse golpe se efetivasse e hoje nós temos os principais responsáveis pelo golpe, entre eles o ex-presidente Jair Bolsonaro, julgados, condenados e presos, uma vitória da democracia brasileira, do respeito à Constituição e ao Estado de Direito no Brasil”, celebrou.

Nádia Campeão fez questão de lembrar que o mesmo não ocorreu nos Estados Unidos, quando os partidários de Donald Trump invadiram o Capitólio na tentativa de impedir a posse do democrata Joe Biden no dia 6 de janeiro de 2021.

“Tivessem eles feito o mesmo com o então presidente Donald Trump, quando da invasão do Capitólio, talvez nós não estivéssemos vivendo agora esses ataques trágicos e criminosos contra a Venezuela. Essa vitória, essa comemoração da democracia brasileira, ela não pode estar dissociada de elevar também a bandeira de defesa na soberania nacional, da soberania brasileira, mas também da soberania do nosso continente sul-americano”, defendeu. 

A Fundação Maurício Grabois e a Comissão Executiva Nacional do PCdoB se posicionaram contra os ataques dos EUA e o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que classificaram como atos de “terrorismo internacional” que atingem toda a América Latina. As manifestações defendem a urgência de defender a Venezuela, exigindo o pleno respeito à sua independência.

“É impensável que isso esteja acontecendo no século XXI, o retorno à política do neocolonialismo, do imperialismo norte-americano no continente sul-americano. Então, a certeza da nossa democracia se associa fortemente à democracia soberana nacional”, destacou a presidente interina do PCdoB.

Lula veta PL da Dosimetria

Durante a celebração no Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou o projeto de Lei 2.162/2023, conhecido como PL Dosimetria, que reduz as penas dos condenados pelo golpe de 8 de janeiro de 2023. O texto de autoria do deputado Marcelo Crivella (Republicanos-RS) foi aprovado em dezembro de 2025 na última sessão Legislativa do ano pelo Senado Federal, depois de passar pela Câmara dos Deputados por meio de uma manobra do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB).

Lula destacou que a data está marcada na história como o dia da vitória da democracia no país. “Vitória sobre os que tentaram tomar o poder pela força, desprezando a vontade popular expressa nas urnas; sobre os que sempre defenderam a ditadura, a tortura e o extermínio de adversários e pretendiam submeter o Brasil a um regime de exceção; sobre os que planejaram o assassinato do presidente, do vice e do então presidente do Superior Tribunal Eleitoral; sobre os que exigem cada vez mais privilégios para os super-ricos e menos direitos para quem constrói a riqueza do Brasil com o suor de seu trabalho”, discursou.

“Em nome do futuro, não temos o direito de esquecer o passado. Por isso, não aceitamos nem ditadura civil, nem ditadura militar. O que nós queremos é democracia emanada do povo e para ser exercida em nome do povo. Viva a democracia brasileira!”, comemorou o presidente ao final do discurso.

Luciana Santos: “PCdoB mais organizado para intervir nos próximos anos” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/palavra-de-luciana.html 

Minha opinião

Tapa buraco em pleno voo
Luciano Siqueira

instagram.com/lucianosiqueira65   

Improvisação é com a gente mesmo. Sempre ouvi falar que estudiosos de diversos saberes atestam que o brasileiro é o ser mais criativo da face da Terra. Daí o valor de nossa mão de obra qualificada em outros países. Também a capacidade dos nossos operários manusearem equipamentos importados, de ponta, dando solução eficaz, inclusive, em caso de pane.

Mas a tripulação de um Airbus da Emirates, empresa aérea dos Emirados Árabes Unidos – uma das dez maiores do mundo -, teria ido muito além  na improvisação.

A certo instante do voo de Bangkok, Tailândia, para Hong Kong, China, a 8 mil metros de altitude ouviu-se uma grande explosão, causada pela invasão súbita de ar gelado na cabine. Uma das portas se abriu abruptamente, formando uma fresta de aproximadamente 4 centímetros, e a pressão despencou.

O normal – se é que se pode usar essa expressão no caso – seria um pouso de emergência. No entanto, o comandante e sua tripulação optaram pelo jeitinho árabe (concorrente direto, pelo visto, do nosso velho jeitinho brasileiro): com cobertores e travesseiros colados com fitas adesivas taparam a abertura e o voo seguiu.

O episódio é contado pelo passageiro britânico David Reid e seu filho Lewis e difundido por agências de notícias internacionais. A notícia não registra depoimentos de outros viajantes.

Já a Emirates nega, segundo um porta-voz oficial: "Nós podemos confirmar que houve um ruído saindo de uma das portas do A380 no voo EK384 entre Bangkok e Hong Kong, nesta segunda-feira, 11 de fevereiro. Em nenhum momento, a segurança do voo foi posta em risco".

O mesmo faz a Airbus: "Não é possível que uma porta da cabine abra em um A380 ou em qualquer aeronave enquanto estiver em voo, já que as portas abrem para dentro e têm mecanismos de bloqueio".

Agências de notícias não costumam relatar fatos com a precisão necessária à boa informação. A cobertura de conflitos onde estão envolvidos os EUA e seus aliados é uma prova disso. Também não consta que tenham por hábito espalhar dúvida sobre comunicados oficiais de grandes empresas, como a Emirates e a Airbus. Por isso, dá para acreditar que o tal passageiro britânico tenha dito a verdade, ou próximo disso, para merecer tamanho crédito das ditas agências.

De toda sorte, como viajo de avião com certa frequência, e o faço na tranquilidade de quem imagina que jamais possa acontecer algo assim, prometo botar o olho nas portas da aeronave, dando meu crédito pessoal a Mr. David Reid e seu filho Lewis. Afinal, a uma altura de 8 mil metros tudo pode acontecer. Ou não?

Crônica publicada no Blog da Folha e no Jornal da Besta Fubana, fevereiro de 2013

[Se comentar, identifique-se]

Leia também: “Catabil sobre o Índico” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/04/minha-opiniao_13.html

Palavra de poeta

Irmão inventado
Donizete Galvão  


Na noite de olhos secos,

um outro repete meus gestos.
Num quarto igual a este,
interroga o branco das paredes.
Se durmo, sonhará ele meu sonho?
Beberemos os dois
a água do mesmo rio?
Meu irmão inventado,
o que eu faço não sei.
Quem me lê é quem me cria.
Espalho cacos de um espelho.
Minha face por inteiro não verei.
Veja você por mim qualquer dia.

[Ilustração: Max Beckmann]

A desumana partilha do tempo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_89.htm 

Eleições: IA ameaça

A democracia sob ameaça de ser hackeada
Estamos diante de uma encruzilhada para a história da experiência democrática no mundo
Jamil Chade/Liberta  

A democracia está ameaçada e, em 2026, viverá uma encruzilhada.

O perigo não vem de tanques que manobram para derrubar os portões de um palácio presidencial, ainda que esse cenário jamais deva ser descartado. O desafio vem de uma operação cada vez mais barata, mais invisível e mais poderosa: a da Inteligência Artificial.

Nas eleições no Brasil no final do ano de 2026, nas campanhas legislativas nos EUA ou em outras partes do mundo, a constatação é a de que nenhuma instituição está pronta para lidar com a transformação tecnológica inédita que atravessamos.

Se, há uma década, a preocupação vinha de redes sociais, que disseminavam desinformação ou operações por milhões de disparos de mensagens aos celulares dos eleitores, observadores passaram a temer, nos últimos anos, que a ameaça viria de imagens ou vozes que imitariam candidatos ou cenas que jamais ocorreram.

Produção fictícia

De fato, em janeiro de 2024, um telefonema supostamente de Joe Biden pedia que o eleitor não fosse às urnas. A ligação era falsa, gerada por IA. Desde então, ferramentas estão sendo desenvolvidas para dificultar cada vez mais a distinção entre uma imagem ou voz real e uma produção fictícia.

Mas a realidade, hoje, é que a ameaça da produção de deepfakes é apenas parte de uma ofensiva muito mais poderosa e que só agora começa a ser identificada como um risco real para a democracia: a capacidade da IA de persuadir as pessoas ativamente a tomar um determinado caminho, uma escolha política ou uma opção de consumo.

Um estudo publicado na revista Nature, por exemplo, descobriu que as preferências dos eleitores oscilaram em até 15 pontos percentuais após conversarem com um chatbot, uma tecnologia usada hoje por cerca de 100 milhões de pessoas por dia.

David Rand, autor do estudo e cientista da Universidade Cornell, em Ithaca, Nova York, concluiu que os chatbots influenciam as opiniões dos eleitores não por meio de apelos emocionais ou narrativas, mas sim inundando o usuário com informações. 

Os resultados da pesquisa foram tão profundos que deixaram perplexos até os cientistas que conduziam os estudos.

Ou seja, a IA pode ganhar uma eleição.

Mas de onde saem essas informações e dados que vão ser usados? Quem alimenta o sistema capaz de mudar de forma tão profunda o que sabemos sobre nossos candidatos? E quem controla de que forma essa informação é produzida e distribuída?

Soma-se a isso duas constatações óbvias: a primeira é a de que nenhuma das empresas de tecnologia de IA nas democracias ocidentais é pública. A segunda é a de que todas elas contam com donos, com suas próprias preferências políticas e alianças com movimentos ideológicos.

Máquina de persuasão

Um dos riscos reais é o de que as respostas dadas pelo chatbots são construídas a partir de dados que o sistema é capaz de coletar na internet. Para movimentos políticos que usam a desinformação como arma política, portanto, a ameaça é a de que a resposta não consiga fazer uma distinção entre fatos e a deliberada mentira de movimentos de extrema direita.

Outro alerta se refere à capacidade da IA ​​de personalizar mensagens de acordo com os dados demográficos precisos dos usuários. O efeito pode ser ainda mais profundo, com chatbots sacrificando a integridade factual.

O risco é o de que aconteça um verdadeiro hackeamento da democracia, com a IA sendo capaz de personalizar argumentos e promover uma reengenharia silenciosa das visões políticas em grande escala. Orientar qual música te oferecer, qual estilo de parceira ou parceiro aparecerá nos aplicativos de namoro ou, claro, argumentos sociais e políticos.

Com uma indústria integrada começando a surgir entre a cópia de imagens e vozes, tendo a capacidade de ler tua emoção e teu sentimento, a tecnologia será profundamente convincente e criará uma máquina de persuasão coordenada – e imparável.

Alguns estudos estimam que uma campanha eleitoral pode ter de gastar apenas US$ 1 milhão para gerar mensagens personalizadas e conversacionais para cada eleitor registrado nos Estados Unidos.

O valor fica ainda mais surpreendente quando se calcula que os 80 mil eleitores indecisos que decidiram a eleição de 2016 nos EUA poderiam ser assediados por menos de US$ 3 mil. Nada.

Aquelas imagens de fazendas de bots ou de celulares disparando mensagens poderão fazer parte ainda de cenas ridículas dos primórdios da nova revolução tecnológica. Tudo isso agora pode ser criado de forma automática, barata e sem sequer identificação dos autores dos disparos.

Banir a tecnologia não é uma opção. Nunca funcionou na história da humanidade. Mas deixar a democracia nas mãos das big techs pode ser uma decisão fatal.

Confiaremos, simplesmente, que os grandes fornecedores de IA vão optar por ser isentos? Vamos, de forma cega, entregar as nossas liberdades mais fundamentais e os nossos direitos a uma nova era do capitalismo?

Democracias precisam desenvolver estratégias, estruturas, agências, políticas e leis para garantir que essa tecnologia revolucionária promova a cidadania e espaços de construção de novos direitos.

A ameaça não se refere a um futuro distante. Ela acontecerá em 2026, um ano de encruzilhada para a história da experiência democrática no mundo.

Leia também: Inteligência Artificial, Data centers e o fim do mundo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/ia-operacao-consequencias.html

Fotografia

 

Walter Firmo

Leia: Operação insidiosa das big tech https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/operacao-insidiosa-das-big-tech.html 

Enio Lins opina

Entre soluços e quedas do catre, o cárcere é o lugar para golpistas
Enio Lins   

HÁ TRÊS ANOS, Jair B tentou finalizar o golpe de Estado que almejou, armou e anunciou durante sua infeliz temporada na presidência. Entre 2019 e 2022, o mito fez várias experimentações, deixando acima da linha d’água visíveis pontas de icebergs.

13 DE JUNHO DE 2019: Santos Cruz, general de Divisão, foi exonerado do estratégico posto de ministro-chefe da Secretaria de Governo. É o primeiro militar de alta patente a romper com Jair B por conta da golpista meta do mito. Oficial experiente, tendo ocupado postos relevantes, como o comando das forças da ONU no Congo, não se intimidou com a virulência do núcleo íntimo do ex-capitão, nem se dobrou às exigências do presidente. Peitou publicamente o filho Zero-dois (Carlucho) e Olavo de Carvalho, tresloucado guru da extrema-direita, e que disparava impropérios contra militares que não tivessem compromisso com um golpe antidemocrático. O general saiu atirando e denunciou, inclusive, que o “combate à corrupção” prometido por Jair era mera demagogia.

30 DE MARÇO DE 2021:
 numa atitude inédita, os três comandantes das Forças Armadas entregaram seus cargos em protesto à demissão do ministro da Defesa, general Fernando de Azevedo e Silva, exonerado por Jair B por não se dobrar à pressão presidencial para “sensibilizar a cúpula militar para uma agenda de ruptura que incluía o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal”, conforme noticiado pelo site Congresso em Foco. Opondo-se às articulações de golpe, renunciaram a seus postos os comandantes do Exército, general Edson Pujol; da Marinha, almirante Ilques Barbosa Júnior; da Aeronáutica, brigadeiro Antônio Bermudez. Estava ali consolidada a ruptura entre militares profissionais, defensores da Constituição, e a banda podre fardada (minoria golpista, alinhada com Jair).

EM 18 DE JULHO DE 2022:
 em nova ação inédita, Jair B, presidente da República, convocou os embaixadores das nações com representação em Brasília. Na infausta reunião, a fala presidencial chocou toda a diplomacia: o chefe de Estado brasileiro atacou o sistema eleitoral que o havia elegido (desde 1996), mentiu descaradamente sobre a falta de segurança das urnas eletrônicas, e defendeu o vulnerabilíssimo voto impresso (com larga história de fraudes em todo lugar do mundo) como “o melhor”. Era o aviso prévio de que não respeitaria o resultado das eleições de outubro, caso perdesse o pleito.

ENTRE 26 E 28 DE JULHO, 
em seguida a escandalosa reunião de Jair B com os embaixadores, duas das principais autoridades militares americanas visitaram o Brasil e exprimiram publicamente o desacordo dos Estados Unidos com as movimentações golpistas dos bolsonaristas. Lloyd Austin III, secretário de Defesa norte-americano, e a general Laura Richardson, chefa do Comando Sul do Exército dos EUA, se encontraram reservadamente com o general Paulo Sérgio de Oliveira, então ministro da Defesa e, em entrevistas, posicionaram-se contra atentados à democracia e destacaram a confiança do governo americano no processo eleitoral brasileiro. Foi mais um banho de água fria na banda podre golpista.

EM 8 DE JULHO DE 2023, 
depois de dois meses com a vagabundagem bolsonarista cercando os quartéis em “clamor” por um golpe militar, é dada a ordem à turba para invadir e depredar as sedes dos três poderes, em Brasília. Sete dias depois da posse do presidente Lula, a expectativa dos golpistas era que as tropas acudissem em apoio ao estouro do gado do Jair - que monitorava os acontecimentos de seu esconderijo nos Estados Unidos - e depusessem o presidente eleito "por incapacidade de manter a ordem", instalando uma ditadura conforme planejado na minuta Punhal Verde-Amarelo. Mas as tropas não aderiram, o golpe foi derrotado no mesmo dia. Três anos depois, os líderes estão presos, condenados depois de rigoroso processo e impecável julgamento – noutro acontecimento inédito na História do Brasil. Uma novidade merecedora de aplausos, e lição importante para o resto do mundo democrático. Viva a Democracia brasileira!

Leia também: Sempre na superfície maledicente https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_22.html

08 janeiro 2026

Devastação criminosa

O Congresso pós-COP: o Brasil que promete e o Brasil que devasta
Celso Pinto de Melo*/Blog de Celso P. de Melo 

A derrubada, pelo Congresso Nacional, dos vetos presidenciais à Lei Geral do Licenciamento Ambiental tornou-se um dos contrastes políticos mais estridentes de nossa história recente. Belém prometera um país; Brasília entregou outro. Menos de uma semana após o Brasil encerrar, em Belém, uma COP30 marcada por elogios ao protagonismo climático do país, Brasília assistiu ao ressurgimento do chamado “PL da devastação”, descrito por redes de pesquisadores e organizações socioambientais como o maior retrocesso ambiental desde os anos 1980 1. O país que discursava na Amazônia não era – e nunca foi – o mesmo que legislava no Planalto Central.

A reintrodução de dispositivos que, a uma só vez, flexibilizam licenças, reduzem proteções para biomas sensíveis e excluem terras indígenas não homologadas e territórios quilombolas sem titulação do processo de licenciamento agrava não apenas o risco ambiental. Agrava, sobretudo, a insegurança regulatória – e o faz com uma contundência que dispensa explicações adicionais. Há, nisso, um eco histórico inquietante. Ao recriar brechas e dispensas, o Congresso redesenha um ambiente que remete nitidamente às décadas de 1970 e 1980 – quando se avançava primeiro para “produzir”, relegando o impacto a um futuro sempre adiado.

Na Conferência de Estocolmo de 1972, primeira cúpula global do meio ambiente, a delegação brasileira sustentou que restrições ambientais impostas no plano internacional poderiam limitar o desenvolvimento econômico de países pobres, defendendo que “as prioridades nacionais de crescimento” deveriam prevalecer sobre acordos ambientais multilaterais 2. Era a doutrina segundo a qual o país tinha o direito de “contaminar para depois limpar”, expressão célebre do período. Meio século depois, a lógica renasce reciclada: o mesmo impulso de sacrificar o futuro em nome de um progresso imediato que já não encontra lugar em mercados que punem severamente quem insiste nesse anacronismo.

O agronegócio aponta a arma para o próprio pé – e aperta o gatilho. Quando até os principais compradores globais adotam padrões ambientais rígidos, a contradição se torna inescapável. As cadeias globais de commodities funcionam com base em exigências estritas de rastreabilidade, comprovação de desmatamento zero e regularidade fundiária. A Regulamentação Europeia de Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) 3, que condiciona a entrada de soja, carne, café e madeira à prova verificável de ausência de desmate após 2020, não depende de interpretações elásticas da legislação doméstica. Ao contrário: os importadores analisam desmatamento real, e não “legalidades locais” fabricadas ao sabor do interesse político.

E o risco não se limita à União Europeia. A China – destino de cerca de 72% das exportações brasileiras de soja, 59% da carne bovina e responsável por mais de US$ 50 bilhões anuais em compras do agronegócio – já opera sob padrões ambientais mais exigentes do que sugere a retórica da bancada ruralista. Empresas estatais como a COFCO International, maior compradora de grãos brasileiros no mercado chinês, assumiram o compromisso formal de eliminar o desmatamento de suas cadeias globais até 2030 4, exigindo de tradings e produtores rastreabilidade completa da origem da produção e conformidade fundiária. Além disso, a “Green Supply Chain Initiative”, promovida pelo Ministério da Ecologia e Meio Ambiente da China, estabelece diretrizes que pressionam importadores a privilegiar fornecedores com comprovação ambiental e regularidade territorial, em consonância com as metas chinesas de pico de emissões até 2030 e neutralidade de carbono até 2060 5. Quando até o nosso maior parceiro comercial exige sustentabilidade, o problema deixa de ser ideológico: torna-se econômico. Nesse cenário, a derrubada dos vetos nos empurra exatamente na direção contrária àquela exigida pelos dois maiores compradores do agronegócio brasileiro: a União Europeia e a própria China. Ignorar essa transformação estrutural não ameaça apenas Bruxelas – ameaça sobretudo o nosso principal parceiro comercial. A nova lei, ao ampliar zonas cinzentas e fragilizar a fiscalização, não abre mercados: fecha-os.

E o estrago atinge também – e especialmente – quem vinha fazendo a lição de casa. Produtores e tradings que investiram em rastreabilidade e certificações visando capturar prêmios de preço e prioridade de compra voltam a ser nivelados por baixo. A insegurança regulatória, resultado direto do retrocesso legislativo, corrói o esforço dos setores mais avançados do agro e reforça a percepção de que o Brasil é incapaz de oferecer estabilidade mínima em matéria ambiental. Em um mercado global onde contratos são julgados por métricas objetivas, a insegurança jurídica se converte rapidamente em perda de competitividade. Não surpreende que estudos independentes apontem para o risco de exclusão de cadeias brasileiras inteiras do mercado internacional, caso o desmatamento – legal ou ilegal – não seja controlado.

O impacto climático, porém, é ainda mais profundo que o comercial. Pesquisas recentes mostram que o desmatamento amazônico tem atrasado a estação de chuvas, alterado as precipitações e reduzido a produtividade de cultivos essenciais como soja e milho em regiões inteiras do Centro-Oeste e do Matopiba 6. A floresta, longe de ser obstáculo ao agronegócio, é parte de sua infraestrutura climática. Destruir essa infraestrutura não é apenas crime ambiental: é comprometer a própria base física da produção agrícola – o que deveria alarmar até os defensores mais radicais da “desburocratização”.

E o sistema financeiro – muito mais atento que o Congresso a riscos de longo prazo – já incorporou essa realidade. Bancos e seguradoras, guiados por normas reforçadas desde 2024, intensificaram a exigência de comprovação socioambiental para crédito rural e apólices. Não se trata de “ambientalismo ideológico”, mas de cálculo econômico: desastres ambientais aumentam inadimplência e ampliam risco sistêmico. A derrubada dos vetos, ao contrário do que anunciam seus defensores no Congresso – sobretudo a Frente Parlamentar da Agropecuária, que insiste em apresentar o retrocesso como “desburocratização” – desorganiza o ambiente regulatório, aumenta o custo do crédito, dificulta a contratação de seguros e, ironicamente, estrangula os produtores que operam dentro da lei, enquanto favorece aventureiros e grileiros 7, 8.

Essa contradição torna-se ainda mais aguda quando lembramos que o Brasil saiu da COP30 com capital político e diplomático acumulado. O país parecia, enfim, pronto para assumir o papel de liderança responsável que o mundo esperava. A criação de fundos internacionais para conservação, as negociações para apoiar os países tropicais e o reconhecimento externo de que o país poderia liderar uma transição ecológica justa compunham uma narrativa promissora. Tudo isso se fragiliza quando o Congresso demonstra que as regras ambientais brasileiras podem ser reescritas ao sabor da madrugada, da bancada e da barganha.

Há ainda a engrenagem subterrânea do processo: interesses que orbitam a bancada ruralista, mas que não se confundem com o agronegócio produtivo. A facilitação do licenciamento interessa a mineradoras em áreas sensíveis, operadores de infraestrutura com histórico de impacto severo, especuladores fundiários e redes de grilagem que lucram com “esquentamento” de terras públicas – especialmente as indígenas não homologadas e os quilombos não titulados 9. É nessa zona de sombra – onde política, economia ilegal e desmonte regulatório se tocam – que o retrocesso legislativo revela seu rosto mais perigoso. Nesse submundo se produz aquilo que mais assusta o capital internacional: opacidade, violência, irregularidade territorial e instabilidade regulatória.

Nada disso é irreversível. A sociedade civil prepara ações no Supremo Tribunal Federal; governos estaduais podem adotar normas mais rígidas; mercados internacionais podem impor suas próprias salvaguardas. Mas cada resposta implica custos, atrasos e perda de credibilidade. O Brasil desperdiça, mais uma vez, a chance de se posicionar como potência ambiental do século XXI, com vantagens incomparáveis em biodiversidade, matriz energética e agricultura de baixo carbono.

Ao reconstruir o “PL da devastação”, o Congresso abdica de qualquer horizonte de longo prazo para atender a ganhos imediatos, repetindo a velha pulsão brasileira de sacrificar o futuro em nome do presente. Berry, ao recordar nossa condição transitória de meros custodiantes do planeta que deixaremos de herança, aponta a dimensão ética que falta à política ambiental do país. Ignorar esse chamado nunca saiu barato – e não será agora que sairá. O Parlamento, ao que tudo indica, preferiu ignorar esse chamado – e o Brasil, mais uma vez, paga o preço de fechar os olhos ao óbvio.

[*]   Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Pernambucana de Ciências e da Academia Brasileira de Ciências.

Referências

(1) Observatório do Congresso. Congresso recria PL da devastação e mata licenciamento ambiental no Brasil. 2025. https://www.oc.eco.br/.

(2) A delegação brasileira nessa Primeira Conferência Ambiental da ONU foi presidida pelo General Costa Cavalcanti, Ministro do Interior do Governo Garrastazu Médici. BRASIL. Brasil. Ministério das Relações, E.; Brasil. Ministério do, I. Relatório da Delegação do Brasil à Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano – Estocolmo 1972; CETESB, São Paulo, 1973. https://cetesb.sp.gov.br/proclima/wp-content/uploads/sites/36/2013/12/estocolmo_72_Volume_I.pdf.

(3) European, C. Regulation on deforestation-free products (EUDR). Brussels, 2023.

(4) International, C. COFCO International signs commitment to eliminate deforestation from its supply chains. 2022. https://www.cofcointernational.com/newsroom/cofco-international-publishes-its-2022-sustainability-report/.

(5) China. Ministry of, E.; Environment. Working Guidance for Green and Low-Carbon Transition of Foreign Trade Supply Chains. Beijing, 2021.

(6) Leite Filho, A. T.; et al. Agricultural economic losses due to Amazon deforestation and how forest restoration can reverse the impact; ARA Project, 2024. https://csr.ufmg.br/ara_project/.

(7) Federação Brasileira de, B. Gestão do risco de desmatamento e oportunidades; São Paulo, 2024. https://cmsarquivos.febraban.org.br/Arquivos/documentos/PDF/Gest%C3%A3oRiscoDesmat_2025-SUMARIO_vf.pdf.

(8) Notícias do Seguro. A participação do setor de seguros na COP30. 2025. https://noticiasdoseguro.org.br/noticias/a-participacao-do-setor-de-seguros-na-cop-30-protagonismo-desafios-e-estrategias-para-a-agenda-climatica-global.

(9) Fundação Nacional dos Povos Indígenas. Licenciamento ambiental: derrubada dos vetos ameaça 297 territórios. 2025. https://www.gov.br/funai/pt-br/assuntos/noticias/2025/licenciamento-ambiental-derrubada-dos-vetos-ameaca-297-territorios-e-aumenta-vulnerabilidade-das-comunidades-indigenas.

Leia também: Vulnerabilidade estrutural https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/pauta-de-exportacoes-em-xeque.html