11 janeiro 2026

Palavra de poeta

Mãos dadas
Carlos Drummond de Andrade  

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
São taciturnos, mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, consideramos uma enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicidas,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Leia também: "Soneto da busca", um poema de Carlos Pena Filho  https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_40.html 

Fotografia

 

Luciano Siqueira

"Da rede tudo se ouve e se imagina"  https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_29.html 

Bastiões da direita

Bolsonarismo e centrão: as duas cabeças do monstro que assombra o Brasil
Monstruosidade dupla atua como guardiã feroz do poder que lhe garante privilégios
Ana Prestes/Liberta  



A conveniente união entre o bolsonarismo e o Centrão, especialmente na Câmara dos Deputados, evoca a imagem do cão bicéfalo Ortros, guardião dos bois vermelhos do gigante Gerião na mitologia grega. O monstro canino de duas cabeças está presente na literatura brasileira na obra Os Doze Trabalhos de Hércules (1944), de Monteiro Lobato, que popularizou entre as crianças e a juventude a simbologia daquele monstro vigilante, que protege um poder injusto.

Tal metáfora ilustra bem a fusão entre esses dois campos políticos que, embora diferentes, atuam juntos como guardiões ferozes de um mesmo tipo de poder concentrado, que lhes garante privilégios.

Proteção de poder

No mito, Ortros representa a vigilância absoluta, a ferocidade que impede qualquer transformação. Sua função é latir e amedrontar todo aquele que se aproxima do rebanho de Gerião, cujo poder ilegítimo o transformou num anti-“bom Rei” por dominar sua ilha de modo contrário ao ideal da pólis grega, pela força e não pelo debate democrático.

Em Lobato, a boneca Emília engana o cão com sua astúcia e tagarelice para ajudar Hércules a chegar ao rebanho. Mas, antes disso, o monstro cumpre o seu papel: bloquear as mudanças, intimidar oponentes e proteger um senhor que teme perder o que acumulou. A analogia se impõe quando observamos as similaridades com o comportamento político da aliança entre bolsonarismo e Centrão.

Como no mito, essa aliança forma um bloco de proteção do poder, cujo propósito é resguardar privilégios, bloquear reformas e manter sistemas arraigados que contrariam o interesse público e, muitas vezes, a própria legalidade constitucional.

Trata-se de uma combinação entre a agressividade ideológica do bolsonarismo e o cálculo fisiológico do Centrão, duas cabeças que defendem o mesmo Gerião contemporâneo: o Estado capturado, submetido a interesses privados, milícias, corporações políticas e redes ilícitas, que sequestram o orçamento e a máquina pública.

Outra característica do cão Ortros é sua reatividade primária: vigia, ataca e protege, mas não cria nem transforma.

De forma similar, a atuação conjunta de bolsonarismo e Centrão no Congresso tem sido marcada pela obstrução do que ameaça seu campo de influência pela contenção de investigações, pela blindagem de aliados e pela manutenção de uma estrutura de trocas fisiológicas. É uma força dedicada a impedir perdas para seu campo, mas incapaz de construir horizontes programáticos para o país. Interdita o debate, pois não há projetos a serem comparados.

Lobato descreve o cão bicéfalo como pavoroso, símbolo de terror, que afasta qualquer tentativa de questionar o poder estabelecido. A aliança entre Centrão e bolsonaristas opera com a mesma lógica: intimida por meio de uma retórica agressiva da extrema direita e, ao mesmo tempo, morde com as chantagens institucionais típicas do fisiologismo: distribuição de emendas, controle de cargos e ameaça permanente de paralisia legislativa. Late na retórica e morde no mecanismo de poder.

Desgaste político

Essa fusão, contudo, não existiu desde o início do governo Bolsonaro.

Eleito em 2018 com discurso antipolítica, Bolsonaro dizia rejeitar o “toma-lá-dá-cá” e atacava o próprio Centrão. Algo que se demonstrou uma grande falácia. Pressionado por crises e investigações, mudou de posição no ano pandêmico de 2020. Entre maio e julho daquele ano, iniciou negociações com PP, PL e Republicanos, distribuiu cargos estratégicos e consolidou a aproximação com Arthur Lira.

Em fevereiro de 2021, a eleição de Lira à presidência da Câmara contou com o apoio explícito do governo e se institucionalizou de vez a aliança, fundada na proteção contra tentativas de impeachment, no controle da agenda legislativa e no acesso ao Orçamento Secreto.

Hoje, essa união segue assombrando e impedindo avanços democráticos no Brasil, mas já aparecem fissuras importantes. A prisão e a inelegibilidade de Bolsonaro, a queda de mobilização do bolsonarismo nas ruas e o desgaste político do núcleo mais radical enfraqueceram sua capacidade de liderança.

No Centrão, cresce a desconfiança de manter laços com um movimento que perdeu força e já não oferece garantias eleitorais como em outros tempos. Somam-se a isso disputas internas pela herança do capital político da extrema direita e divergências entre pragmatismo fisiológico e radicalização ideológica, fatores que fragmentam o bloco conservador.

Assim como o cão bicéfalo de Gerião, que protege um poder monstruoso mas não conduz o rebanho, a aliança entre bolsonaristas e Centrão tornou-se um instrumento de vigilância e contenção, não de projeto. Continua operante, mas fragilizada, reativa e sem um rumo aparentemente comum. Seu único consenso é impedir que os “trabalhos de Hércules” da vida real, como as reformas democráticas, o fim da escala 6×1, a garantia de uma legislação de proteção ambiental, o combate à corrupção e os grandes projetos de infraestrutura e logística que o país precisa avancem.

Trata-se, portanto, de uma monstruosidade dupla, que assombra o Brasil. Dois monstros que guardam privilégios e mordem qualquer ameaça que ouse aproximar-se do poder e dos privilégios que defendem juntos. 

Lula entre Estados Unidos e Venezuela a passos firmes https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_21.html 

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Humor de resistência

Laerte

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Maria Bethânia: 'Olhos nos olhos'


Minha opinião

Questão de perspectiva
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65

Era o grupo "de sempre", se é que o termo ainda se aplica ao grupo, pois já fazia meses que não sentavam à mesa do bar para jogar conversa fora.

Mas aquele reencontro era especial, uma espécie de saideira de 2019 e de bons agouros para 2020.

O Moreira havia levado uma boa cachaça de São José de Mipibu (RN) e depois
da terceira rodada, a turma já animada, começaram os intermináveis brindes com chope. Para lavar.

Aí o Gouveia, assessor de imprensa de uma empresa estatal do município, introduziu a pergunta:

— Respondam todos, qual o seu principal desejo para 2020?

Dois disseram de pronto que gostariam de ver o Bolsonaro transferido para o Inferno. Um pediu que o Santa Cruz ganhasse o campeonato pernambucano. E os demais (eram sete no grupo) se dispersaram em questões estritamente pessoais.

— Não nego — falou emocionado o Belarmino —, queria mesmo era a volta da Marineide, referindo-se a ex-esposa que um dia cansara de suas farras fenomenais e batera em retirada.

O Epaminondas, então, sempre ele, resolveu baixar o nível das pretensões e sapecou:

— Para mim basta que jamais uma mosca caia na minha tulipa de chope!

Meio que recolhido a posição de mero observador, neutro e atento, preferi não participar do certame e me pus a refletir sobre aquela manifestação de desejos movida a oxidrilas.

— Uma questão de perspectiva, pensei comigo mesmo. Dos rumos da nação a questiúnculas domésticas, em confidências de mesa do bar tudo vale a pena quando a sinceridade não é pequena.

É assim se dá entre os mais de duzentos milhões de brasileiras e brasileiros, submetidos a tremenda crise econômica, que lhes cria quase insuportáveis condições de sobrevivência — pelo menos para a maioria.

Quando um povo perde a perspectiva tudo fica mais difícil, sobretudo numa situação como a atual em que a dita correlação de forças no terreno da política segue desfavorável ao campo popular e democrático.

Estivesse entre aqueles sete amigos, a confraternizar com cachaça e chope, algum dirigente partidário da estirpe de um Lula ou de um Ciro Gomes, eu teria dito:

— Ouçam o governador maranhense Flavio Dino, do PCdoB, que defende uma ampla união das oposições para que o Brasil possa se livrar da praga bolsonarista!

Isto posto, segui mais uma rodada de chope apoiada numa excelente dobradinha.

E que venha um 2020 de muita luta e novas conquistas!
 

(Crônica de dezembro de 2019)

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