02 agosto 2026

Minha opinião

Gastando muito? Corra ao endocrinologista
Luciano Siqueira     

O amigo é consumidor compulsivo. Em viagem à China, comprou de tudo – pelo menos quase tudo do que lhe foi oferecido: gravatas, relógios “Rolex” de eficiência duvidosa, bolsas e apetrechos vincados como se de grifes famosas... e até prosaicos e muito úteis pares de meia.

Na viagem de volta, mil artifícios para acomodar utilidades e bugigangas na bagagem, de modo a não pagar excesso de peso – em dólares! Afinal, ao chegarmos ao Aeroporto dos Guararapes, juro que – exaurido e sonolento em razão das muitas horas de voo – o ouvi perguntar ao carregador, que se aproximava empurrando o carrinho de bagagens: “Quanto custa?” Mas testemunhas idôneas asseguram que tal não aconteceu, foi pura imaginação minha, talvez devido ao porre de consumismo que havia presenciado na longa viagem...

Pois bem. Essa coisa de consumir sem limites, uns dizem que é doença, outros acham que nem tanto, e muitos consideram reflexo da propaganda maciça na TV, que associa prazer e felicidade à aquisição dos mais variados bens – dos inalcançáveis barcos a vela e carros de última geração a perfumes, desodorantes, refrigerantes e uísques diversos.

Tem outra explicação, cientificamente embasada. Pelo menos é o que agora leio no Valor Econômico, em matéria assinada por Noemi Jaffe.  O cientista Dan Ariely, dedicado ao estudo do "comportamento econômico dos macacos" (sic), assegura que seres humanos também cometem "erros econômicos básicos", como "não agir em função do futuro e repetir nossos erros sempre da mesma maneira".

Está no livro "Eu Compro, sim! Mas a Culpa é dos Hormônios...", de Pedro de Camargo, onde se indica tratamento endocrinológico para a superação do irrefreável impulso de consumir.

Imagine. O cara chega ao consultório médico e, perguntado sobre o que o incomoda, sapeca de pronto: - Doutor, estamos muito doentes, eu e minha conta bancária. Não paro de comprar coisas e no final do mês não há renda que me impeça de operar no vermelho!

E o médico, por sua vez, após detalhada anaminese e rigoroso exame físico, solicita bateria de testes laboratoriais, com ênfase em dosagens hormonais. No retorno, o paciente sai com a prescrição do medicamento X, comprovadamente eficiente na cura da nova entidade clínica, conhecida como “síndrome da gastança”.

Tempo moderno!, diria minha avó Neném, que à sua época se espantava com tudo o que era novo, a partir mesmo do uso de calças compridas pelas mulheres, que ela nunca aceitou.

E a disputa no mercado? De um lado, varejistas apoiados em cada vez mais sofisticadas campanhas publicitárias destinadas a explorar, via estímulos visuais e sonoros, a secreção de hormônios que conduzem a vítima à primeira loja da esquina. Do outro, a indústria farmacêutica anunciando a última descoberta, um inibidor hormonal, capaz de curar o mais incontrolável comprador de quinquilharias. Uma guerra pra gente grande, sem dúvida.

É isso, minha avó: assim caminha a Humanidade!   

[Ilustração: imagem produzida por IA]

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Leia tambémO cigarro que não fumo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/o-cigarro-que-nao-fumo.html 

Palavra de poeta

SONHO DOMADO
Thiago de Mello       

Sei que é preciso sonhar.

Campo sem orvalho, seca
A frente de quem não sonha.

Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.

A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.

Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.

Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.

É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.

[Ilustração: Andrey Remnev]

Leia também "Soletrando no escuro a tua voz", poema de Jaci Bezerra https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/palavra-de-poeta_010771146.html 

Fragilidades de Trump contra Irã

Guerra: Trump com poucas cartas na mão
Diante de um Irã fortalecido e desafiador, presidente alterna insultos e pedidos de trégua. Conflito alastra-se; faltam mísseis e combustíveis. A três meses das eleições, EUA parecem vítimas de sua aposta supremacista e apolínea
Alastair Crooke, no Strategic Culture | Tradução: Rôney Rodrigues/Outras Palavras 

Trump ordenou que as Forças Armadas dos EUA não realizassem novos ataques contra o Irã na noite de 24/7, apesar de ter aprovado anteriormente um “ataque massivo demoninado ‘Portões do Inferno’” contra Teerã.

Os EUA solicitaram agora um novo cessar-fogo temporário e buscam o retorno ao Memorando de Entendimento (MoU) que entrou em colapso e foi suspenso, com discussões que incluam o Iêmen, e com Trump buscando tornar o movimento houthi parte das negociações.

É evidente que o presidente está irritado e teme que a guerra esteja consumindo sua presidência (e seu legado). O Irã rejeitou categoricamente todas as negociações ao longo da última semana e confirmou que não iniciará negociações sob nenhuma circunstância. Em termos simples, por que Teerã consentiria em dar tempo aos EUA para se reorganizarem e se rearmarem antes de lançarem outra rodada de ataques contra o Irã, quando tem os EUA “na defensiva”? 

Um retorno ao Memorando de Entendimento cuja credibilidade Trump repetidamente destruiu? Improvável.

Will Schryver observa que circulam rumores de que o Pentágono está pressionando Trump a cancelar a guerra com o Irã porque os EUA quase esgotaram seus estoques de interceptores de defesa aérea e mísseis de ataque de longo alcance. Os principais assessores do presidente também estão preocupados com a perspectiva de uma guerra cada vez mais ampla no Oriente Médio, com o afastamento de aliados-chave do Golfo, vulneráveis a novos ataques iranianos, e com a iminente crise energética. “Poucos, se é que alguém, no círculo íntimo de Trump acreditavam que o plano de escalada fosse sensato, disseram as duas pessoas a par da situação”, relata o New York Times.

Parece também que as manobras em torno da situação exata do abastecimento de combustível nos EUA podem ter contribuído para a mudança de rumo de Trump. Larry Johnson relata que –

“[Um] relatório elaborado por Karl Miller investiga como as operações secretas de aquisição e exportação de combustível pelas Forças Armadas dos EUA estão esgotando as reservas nacionais de diesel e combustível de aviação, especialmente durante um período em que os estoques domésticos já estão criticamente baixos”.

Em resumo, Miller afirma que –

“grande parte dessa exportação (secreta) de combustível é encaminhada por canais opacos, como o centro de transbordo de Roterdã, onde a alocação final para fins militares ou para o exterior não é divulgada publicamente, deixando a economia norte-americana exposta a riscos de escassez – enquanto operações militares e no exterior – ‘notadamente em Israel’ – recebem acesso prioritário”.

Este relatório de Miller parece estar relacionado à manipulação aberta, por parte das autoridades estadunidenses, dos índices de referência do petróleo, com o objetivo de convencer os mercados de que não há perigo de escassez de combustível decorrente da liberação emergencial em andamento da SPR (Reservas Estratégicas de Petróleo) de 172 milhões de barris, iniciada para combater choques de oferta decorrentes do conflito com o Irã. 

Embora o limite mínimo de segurança previsto em lei seja de 250 milhões de barris (o nível atual é de cerca de 300), promove-se a narrativa de que a retirada pode ir ainda mais longe (até 70 mbpd). Será possível? Qual é o nível mínimo que as reservas estratégicas de petróleo podem atingir? A questão é mais complicada do que apenas um grande tanque de petróleo bruto com um nível específico. A SPR é composta por muitas cavernas e contém diferentes tipos de petróleo bruto, que estão sendo retirados em ritmos distintos, com algumas cavernas suscetíveis de desabar se forem esvaziadas em excesso. Em resumo, ninguém sabe até onde é demais. É tudo suposição.

Com a ofensiva militar de Trump enfraquecida, o único caminho de volta às negociações seria oferecer concessões reais logo no início. Mas, mesmo que Trump fizesse isso, será que acreditaria nele? E será que o estado mental de Trump aguentaria tal humilhação implícita?

O principal obstáculo no caminho de volta às negociações com o Irã é que ele e seu círculo íntimo entendem o Irã de cabeça para baixo. Afirmam acreditar que estão lidando com uma liderança intransigente e linha-dura, enquanto os iranianos como um todo anseiam por uma saída. Esta concepção está errada; é exatamente o contrário. É a liderança que é pragmática, e é “a rua” que, em geral, é mais linha-dura e exige vingança. E exige saber por que deveria haver negociações, para começar.

Por outro lado, a equipe de Trump e seus defensores da Fox News abandonaram a antiga visão que os EUA mantinha sobre si mesmos — uma nação redentora… — e caíram em uma “autocaracterização” maniqueísta radical, escreve o professor Michael Vlahos, na qual –

“as ‘boas novas’ americanas foram substituídas pelo espectro sempre presente do Mal e pela ameaça do uso da força. As palavras sagradas, Liberdade e Democracia, embora ainda sejam entoadas, tornaram-se um mantra vazio. O ‘evangelho’ americano não prega mais sobre trazer redenção e expiação: agora se preocupa com imposição e punição. A reviravolta ocorreu em um instante, no 11 de setembro e com Guantánamo”.

O problema, então, está centrado na atitude: como é possível negociar ou dialogar com a personificação do mal (como Trump se refere aos iranianos)? Não é possível, é claro. Esse era o objetivo de retratar os inimigos em termos tão sombrios. Isso impede uma verdadeira mediação. Impede uma solução que possa ser vista como a ascensão ao poder de “um dos povos mais malignos da história”, liderando uma “gangue de bandidos sanguinários”. Isso reduz a política à busca pelo domínio sobre a “alteridade”.

O Ocidente pratica uma maneira específica de pensar que considera representar a essência do que é humano. Esse modo de pensar (frequentemente denominado apolíneo) está ligado ao patriarcado, à lei e a um pensamento vertical, de cima para baixo, secular, racional e mecanicista. Ele oferece pouco espaço para o “entre-dois”. As coisas são ou “A” ou “não-A”.

No entanto, outra esfera (frequentemente denominada dionisíaca) expressa a dualidade energética tanto na natureza quanto no ser humano – masculino e feminino; ordem e transgressão exuberante; e retidão e degeneração. Elas formam os pólos dentro da consciência que coexistem em nós e que se constituem mutuamente. (O logos dionisíaco pode ser visto, talvez, como a sombra, ou mesmo como a revolta contra Apolo).

E então há Perséfone (o reverso da “sombra” dionisíaca), que expressa a existência ctônica e feminina. Aqui não há polo masculino, mas apenas uma deusa que irradia a essência da terra e o princípio feminino da reprodução, o processo de crescimento e de cuidado, e o conhecimento do submundo (chamado de intuição) — simbolizando a Vida cíclica de Afrodite, a decadência, a morte e a renovação definitiva.

A arrogância imperial de Trump está começando a encarar o fato de que ele terá dificuldade — talvez lhe seja impossível — de encontrar uma solução para o Oriente Médio. Ver o mundo a partir da perspectiva puramente apolínea é masculino e exclusivista e não permite compreender a “alteridade”; ao contrário, baseia-se em privilégios excepcionais. Simplesmente não reconhece — e não pode reconhecer — a pluralidade de mentes.

Os EUA perderam a guerra. Ao adotar uma linguagem maniqueísta e intransigente como essa, Trump efetivamente se afastou de qualquer solução diplomática em potencial. Ao ampliar a guerra (Líbano, Iêmen, Síria e Iraque), ele complicou gravemente qualquer via diplomática. Todos os elementos estão inter-relacionados, mas também têm agendas distintas. Assim, uma solução envolve uma matriz complexa de questões, em vez de uma disputa binária apenas entre os EUA e o Irã. Os EUA acabarão tendo que capitular, o que resultará na ascensão do Irã como potência regional (fortalecendo a Rússia e a China), enquanto a região, aos poucos, aceitará essa nova realidade do Oriente Médio.

Ilustração: Adrià Fruitós

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Hegemonia imperialista em crise https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/decadencia-imperialista.html 

Fotografia

 

Yavuz Arslan 

Leia: “Catabil sobre o Índico” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/04/minha-opiniao_13.html 

Palavra do PCdoB

PCdoB com Lula e Alckmin: rumo a um Brasil soberano e desenvolvido
O programa de governo do próximo mandato de Lula (2027-2030) contou em sua construção com a participação do PCdoB e da Fundação Maurício Grabois
Portal Grabois   

A Convenção Nacional do PCdoB aprovou nesta quinta-feira (30) um manifesto que oficializa o apoio à chapa de Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin para as eleições de 2026. Sob o lema “Avançar no rumo de um Brasil soberano, desenvolvido e de valorização do trabalho”, o documento apresenta as diretrizes políticas da legenda e sustenta que o próximo mandato deve inaugurar um novo ciclo de desenvolvimento, marcado pela superação da etapa de reconstrução iniciada no último mandato, após os quatro anos do governo de Jair Bolsonaro.

No manifesto “Avançar no rumo de um Brasil soberano, desenvolvido e de valorização do trabalho”, o PCdoB avalia que a eleição de 2026 representa uma disputa da frente democrática comprometida com soberania, desenvolvimento, inclusão social e uma ordem internacional multipolar contra a extrema-direita, aliada aos setores neoliberais.

O programa de governo do próximo mandato do presidente Lula (2027-2030) contou em sua construção com a participação de partidos, fundações, especialistas de diferentes áreas e contribuições da sociedade. A Fundação Maurício Grabois (PCdoB) integrou a coordenação do debate participativo e da formulação final do documento Plano Participativo pelo Brasil, pelos brasileiros. No dia 22 de junho, a Comissão Política Nacional do Partido Comunista do Brasil apresentou sua contribuição ao Programa de Campanha Lula Presidente 2026. Intitulado Rumos soberanos para uma nova arrancada do desenvolvimento, o documento apresentou diretrizes e propostas que o partido considera centrais para um novo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva entre 2027 e 2030. 

Leia a íntegra do manifesto:

PCdoB com Lula e Alckmin
Avançar no rumo de um Brasil soberano, desenvolvido e de valorização do trabalho

O Brasil sempre foi maior do que os obstáculos que tentaram impor ao nosso povo. Foi assim quando conquistamos a democracia, enfrentamos a fome, ampliamos direitos, valorizamos o trabalho e fizemos milhões de brasileiros acreditarem novamente no futuro.

Agora chegou o momento de dar um passo adiante, de romper com as amarras do atraso e ir além da reconstrução do que foi destruído, empreendida com sucesso pelo atual governo do Presidente Lula. É preciso abrir um novo ciclo de desenvolvimento soberano capaz de transformar profundamente o país e assim também transformar a vida do nosso povo. É para cumprir essa missão que o Partido Comunista do Brasil compõe a frente democrática e popular por um novo mandato para o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Lula é o líder necessário que detém a experiência e a liderança nacional, o respeito internacional e o compromisso social para conduzir essa transição.

O PCdoB conclama a sociedade brasileira para participar desse processo. O desafio é simples de compreender e grandioso de realizar: adotar um caminho próprio para um salto civilizacional que nos torne uma nação soberana, forte e influente, mais desenvolvida e, sobretudo, mais próspera e justa para nossa gente.

O caminho para isso está apontado no Plano de Governo Participativo da campanha de Lula, com a contribuição do PCdoB. Esse Plano expressa a confiança que temos de que a nova vitória em outubro pode realizar tais objetivos.

Alicerçados no apoio e na mobilização popular e com direção estratégica do novo governo construiremos um país com uma verdadeira mobilidade social ascendente, em que o crescimento econômico valorize o trabalho com empregos de qualidade em larga escala e salários melhores, a educação pública de excelência seja prioridade permanente, onde a defesa da vida tenha no SUS fortalecido um fator decisivo, garantindo o direito à saúde acessível e sem filas de espera, com cidades mais humanas e segurança para viver, com oportunidades para a juventude e dignidade para quem envelhece, onde a cultura ocupe seu lugar na consolidação de nossa nacionalidade e a ciência seja reconhecida como patrimônio estratégico do nosso povo.

Neste país a riqueza produzida precisa estar a serviço de elevar o bem-estar do nosso povo, assegurar amplos direitos sociais e civis a mulheres e homens, independentes de cor da pele, de gênero, de orientação sexual e opção religiosa.

Para isso, é preciso realizar uma grande e intensiva etapa de industrialização em novas bases tecnológicas. Nenhuma nação alcançou alto nível de desenvolvimento e de qualidade de vida abrindo mão das suas indústrias, capacidade científica e soberania. Uma indústria moderna, inovadora, digital, ambientalmente sustentável, integrada à revolução científica e tecnológica do nosso tempo e voltada à superação dos grandes desafios nacionais é imprescindível para garantir nossa soberania e superar a elevada desigualdade social que marca nossa história.

Tal desafio nos exige dominar tecnologias estratégicas, ampliar os investimentos em pesquisa, inovação, educação e saúde, agregar valor às nossas riquezas naturais e criar milhões de empregos qualificados com melhores salários para as próximas gerações, elaborar marcos regulatórios soberanos para a transição digital, energética, exploração da cadeia das terras raras e enfrentamento das mudanças climáticas. Esse é o caminho para romper os limites do atual modelo de décadas de baixo crescimento e desigualdade.

O povo brasileiro quer e merece mais! O Brasil tem pressa. Isso requer mudanças para superar o desalento e o rebaixamento cultural imposto pelas forças dominantes. E temos todas as condições para isso, proporcionando cidadania plena a milhões de pessoas excluídas.

Somos uma potência agrícola, energética, mineral, científica, ambiental e cultural. Possuímos um dos maiores mercados internos do planeta. Dispomos de universidades, institutos de pesquisa, trabalhadores qualificados e uma juventude criativa. Precisamos de decisão política e de um plano nacional de desenvolvimento para colocar nossas capacidades em movimento.

Esse projeto exige um Estado forte, democrático e eficiente. Capaz de planejar o futuro, induzir e coordenar investimentos públicos e privados, fortalecer a infraestrutura, impulsionar a inovação, apoiar quem produz, garantir serviços públicos de excelência e reduzir as carências regionais e sociais que ainda dividem nosso país. A política econômica deve servir às pessoas, e não submeter a sociedade aos interesses do capital financeiro e dos rentistas. O Estado e seu orçamento devem contemplar quem trabalha e produz.

São objetivos que exigem colocar em marcha um plano de desenvolvimento com metas nítidas e coordenação de todo o governo. Nossa soberania começa pela capacidade de defesa nacional, de produzir conhecimento, energia, alimentos, tecnologia, medicamentos e soluções para nossos próprios desafios. Soberania também se conquista quando o Brasil atua no mundo com independência, cooperação, parcerias e alianças condizentes aos seus interesses, defesa da paz e compromisso com um desenvolvimento sustentável, solidário e multipolar.

Mas nenhuma dessas transformações acontecerá espontaneamente. Aqueles que lucram com o atraso continuarão defendendo um país dependente, desindustrializado, desigual e subordinado aos privilégios de poucos e das grandes potências estrangeiras. Suas armas são a imposição de juros altos e austeridade fiscal para assegurar extraordinários rendimentos financeiros, próprias do sacrossanto receituário neoliberal.

Por isso, o desafio de nosso tempo é construir uma nova mobilização política, social e cultural para abrir caminho para a transformação!

É preciso uma nova maioria na sociedade e no parlamento formada por trabalhadores e trabalhadoras, pela juventude, pela comunidade científica, pelos setores produtivos, pelos sindicatos e movimentos sociais, pela cultura, pelos empresários comprometidos com o desenvolvimento nacional e por todos aqueles que acreditam na democracia e na soberania.

Uma maioria capaz de colocar os interesses nacionais e populares acima dos lucros do rentismo, da atual composição do Congresso Nacional, do atraso e da intolerância. Maioria para produzir mudanças com reformas estruturais no país, no campo político e institucional, da política econômica, macroeconômica e tributária.

Nesse sentido, as eleições de 2026 serão uma escolha entre dois projetos de país.

De um lado, a extrema direita e os setores que apostam na divisão do povo, no negacionismo, na violência política, na destruição de direitos e na submissão do país aos interesses estrangeiros. Aqueles que querem destruir a democracia e atar o Brasil a reboque dos interesses dos países imperialistas.

De outro, estamos com Lula para inaugurar um novo ciclo histórico de desenvolvimento soberano, democrático e inclusivo por uma vida melhor para os brasileiros e brasileiras. Aqueles que situam o nosso país em alianças internacionais em prol do seu Projeto Nacional e por uma ordem mundial mais justa e democrática.

É essa escolha que está diante de nós. É esse o chamado que o PCdoB faz à sociedade brasileira. Avançar na elaboração de um novo Projeto Nacional de Desenvolvimento para fazer do Brasil uma nação que transforme as riquezas em prosperidade compartilhada, crescimento econômico em oportunidades e desenvolvimento em qualidade de vida.

O futuro não será obra do acaso. Será resultado da vontade organizada de um povo que decide acreditar novamente em si mesmo. Envolve estimular uma consciência nacional vocacionada a um país plenamente desenvolvido e senhor do seu destino. Para os comunistas, essas conquistas que as forças progressistas são chamadas a realizar nesse futuro imediato desbravam caminho e acumulam forças para a jornada de lutas pelo socialismo em nossa pátria.

É tempo de dar um passo adiante e fazer do próximo governo Lula o vetor de referência e mobilizador do país, com rumos soberanos para uma arrancada do desenvolvimento, na busca da construção de uma grande nação, para uma vida melhor a todos os brasileiros e brasileiras.

Nós brasileiros e brasileiras, temos, nesta hora, o privilégio e a responsabilidade de sermos decisivos para assegurarmos a reeleição do presidente Lula, condição imperativa para o futuro promissor que almejamos. Igualmente, nosso voto e nossa mobilização são imprescindíveis para que tenhamos uma forte bancada de parlamentares no Congresso Nacional sem a qual é impossível a realização das mudanças. Venham e juntem-se à campanha eleitoral alegre, criativa e combativa do PCdoB, pela vitória de Lula, pela eleição de deputados/as de nossa legenda e também de deputados/as estaduais, além de nossos aliados.

Brasília, 30 de julho de 2026

Documento aprovado pela Convenção Eleitoral Nacional
do Partido Comunista do Brasil-PCdoB

O mundo gira. Saiba mais  https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Humor de resistência

 

Claudius

O pensamento crítico na era dos algoritmos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/bolha-algoritmica.html 

Uma crônica de Urariano Mota

O poeta negro Miró da Muribeca, voz antirracista do Recife
Os jornais não registram a data, os portais na internet não percebem a sua falta, então é preciso que um escritor conterrâneo e de origem fraterna o lembre
Urariano Mota/Vermelho
 

Quando às vezes nos encontramos cansados, ou com a mais incômoda esterilidade, eis que cai sobre nós um assunto ou pessoa que exige merecidas linhas. Este é o caso do poeta Miró da Muribeca, que faleceu em 31 de julho de 2022. 


Faz só quatro anos, e parece que ninguém mais o lembra! Os jornais não registram a data, os portais na internet não percebem a sua falta, então é preciso que um escritor conterrâneo e de origem fraterna o lembre. 


Em um Recife de tantas vozes negras, entre as quais poucas se veem como afrodescendentes, ponho Miró da Muribeca ao lado de Solano Trindade, o grande poeta comunista, que legou poemas inesquecíveis como “Tem gente com fome”. Miró está ao lado de Solano não bem pela consciência socialista, de marxismo, mas pela consciência de classe vivida, negra, expressa em poesia que é um soco no estômago de toda a gente.

Tantas coisas a falar sobre Miró. Tantas, que nem consulto anotações e textos anteriores, como os que escrevi sobre a sua biografia publicada pela Cepe, e no Dicionário Amoroso do Recife. Seria fácil, copiar e colar. Mas não, à sua maneira, vou improvisando no livre fluxo da memória. De repente, estou com ele no Recife, próximo ao Bar Mamulengo, tiramos fotos. Ou na Rua do Bom Jesus, onde lhe digo, “Miró, escrevi sobre você”, e ele, grande, se curva num cumprimento que é uma graça. Ou diante da sua estátua, e recito versos em que o poeta fala que nas farmácias não existe remédio para a dor da saudade. Ou seria algo contra a dor da falta de amor?

De outra oportunidade, me contam que Miró estava numa roda de jovens na Rua da Moeda, no Recife Antigo, e os policiais o escolhem para sofrer um “baculejo” (gíria para a vistoria policial no corpo de uma pessoa). Ele foi O escolhido. Então, de volta à mesa, os jovens se revoltam contra a discriminação da polícia. E Miró os consola:

— Nada, véi, tudo bem. Fazia tempo que ninguém pegava no meu saco.

E todos riem. Pois Miró era assim, ele arrancava do trágico, ou do dramático, a maior comicidade. Como numa declamação de poema, na Bienal do Livro, onde foi sucesso absoluto entre os jovens recifenses de todas as cores e classes. No palco, ele declamou, pelo que cito de memória:

“— Mãe, pai fumava maconha?

E a mãe:

— Já tá querendo saber demais!”.

Ou quando, em surtos ou contestação, andava de saia, de vestido, pelas ruas do Recife. A qualquer estranheza, ele respondia: “É a roupa da minha mãe que morreu. É assim que me lembro dela”. Ou quando o encontrei, no Pátio de Santa Cruz, no dia em que me dirigia pra falar sobre o grande músico de frevo Maestro Nunes, numa missa de sétimo dia, e no bar às 9 da manhã Miró já estava bebendo a sua cerveja. E lhe disse:

— Miró, vamos homenagear o Maestro Nunes, aqui perto, na Igreja de Santa Cruz. Você vem?

E ele, com um sorriso:

— Depois, eu vou.

E fiquei com a esperança de que ele fosse mesmo, pelo menos como um intervalo na cerveja. Esperança frustrada. Depois, em outra oportunidade, num dos bares do Mercado da Boa Vista, quando ele ficou aos beijos cada vez mais insistentes em cima da minha filha Luanda. Tive que aguentar a mistura de admiração por Miró e o desgosto por aquela manifestação teimosa. Mas assim era a alma do poeta, na alegria e na tristeza. Ele amava, amava e amava demais, mas com maior frequência tinha de volta o desamor, desamor e desamor. O seu coração era um disparador de bumerangues.

Então, por fim, em um último recurso, divulgo aqui vídeo do que falei sobre ele, no dia em que o poeta foi homenageado pela Bienal do Livro de Pernambuco.

Para Miró, em 31 de julho de 2026.

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Leia também: Urariano Mota "Para um encontro de amigos" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/uma-cronica-de-urariano-mota.html