20 junho 2026

Enio Lins opina

Em campo, heranças das lutas contra escravidão e ditaduras
Enio Lins   

BRASIL X HAITI é o jogo de hoje. Comentários flutuam na mídia, cobrando do escrete canarinho uma goleada humilhante (do tipo 7x1) como se fosse uma espécie de obrigação pelo fato do outro time ser “fraco”. Tolice. O espírito deve ser vencer jogando bonito, respeitando a equipe adversária antes, durante e depois do jogo.

MARCOS DAVI, 
médico e intelectual, propôs uma pauta para esta coluna: lembrar Papa Doc e seus Tonton-Macoute. Ótima ideia. Vamos bater uma bola entre Doc pai, Doc filho, Mito pai e mitos júniores. Quando esse texto estava praticamente concluído, caiu na rede uma postagem sobre ações dos Tonton Macoute nas copas de 1950 e 1974 – gol de placa de @agendadopoder. Voltaremos noutro dia a esse tema específico.

PAPA DOC 
era o apelido de François Duvalier, ditador corrupto que oprimiu o Haiti por 14 terríveis anos, de 1957 até 1971, quando morreu. Antes de bater as botas ungiu seu filho Jean Claude Duvalier, o Baby Doc, como sucessor. Esse Zero-um oprimiu e roubou o Haiti por 15 terríveis anos, de 1971 até 1986, quando foi deposto e partiu para um exílio luxuoso tal qual o Zero-três do Jair, só que em Paris. Em verdade, Baby Doc era o Zero-quatro por ordem de nascimento, mas Papa Doc considerava as três primeiras crias como fraquejadas: Marie‑Denise, Nicole e Simone Duvalier foram descartadas como herdeiras políticas por serem mulheres. Como se vê, o passado haitiano de Papa Doc & Baby Doc é o sonho de futuro brasileiro para Mito pai & mitos júniores.

TONTON MACOUTE 
significa, no dialeto criolo, “Homem do Saco” ou “Bicho-Papão”. Era o apelido da Milícia de Voluntários da Segurança Nacional, polícia política paramilitar comandada, sucessivamente, por Papa Doc e Baby Doc. Aterrorizaram a população haitiana durante cerca de 30 anos, e se estima que tenham assassinado aproximadamente 150 mil pessoas, “comunistas” e opositoras da dinastia Duvalier. O craque haitiano Joe Gaetjens (que brilhou na copa de 1950 defendendo os Estados Unidos) foi um dos desaparecidos pelos Tonton Macoute – apenas por ser irmão de oposicionistas.

EM 6 DE JULHO DE 2005,
 com o Haiti sob intervenção da ONU, aconteceu o Massacre de Cité Soleil, cometido pela tropa das Nações Unidas comandada pelo general brasileiro Augusto Heleno. Os “capacetes azuis” invadiram a favela Cité Soleil, com o objetivo de “neutralizar” Emmanuel Wilmer, conhecido como Dread Wilme, apontado como “líder de gangue” ligado a Jean-Bertrand Aristide (ex-padre e primeiro presidente democraticamente eleito do Haiti, deposto por um golpe). O alvo foi morto, juntamente com cinco ou seis supostos parceiros – mas os militares sob as ordens de Heleno assassinaram outras 70 pessoas inocentes durante a ação, e dentre essas, pelo menos, 20 mulheres e crianças. Pelos relatórios oficiais, foram disparadas 22.700 balas, 78 granadas e cinco bombas de morteiro. Um escândalo que maculou a imagem dos “capacetes azuis”.

EM 12 DE JANEIRO DE 2010,
 Zilda Arns – médica brasileira, fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa –, estava em Porto Príncipe numa missão humanitária para organizar o trabalho da Pastoral da Criança haitiana. Fazia uma palestra numa igreja lotada, com a participação de 15 religiosos cubanos, quando um violento terremoto sacudiu o Haiti. Em todo país, morreram aproximadamente 300 mil pessoas e a missionária Zilda Arns foi uma delas.

QUE A SELEÇÃO BRASILEIRA,
 hoje, vença a seleção haitiana. Que goleie, jogando bonito, mas respeitando, além do time adversário, o país que ele representa. O Haiti divide memórias dolorosas com o Brasil. É um povo irmão, forjado nas dores da antiga escravidão e das recentes ditaduras, sem falar dos desastres naturais. Que prevaleça a memória de Zilda Arns, heroína no Haiti e no Brasil.

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Leia também: "Benéfica globalização" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_0248476890.html

Sylvio: soberania

Ao alertar Trump dizendo "não se meta em nossas eleições", Lula sinaliza, com veemência, que somos um país livre e democrático cuja soberania não está em jogo. Em resumo: cuide de seu quintal, que do nosso cuidamos nós. 

Sylvio Belém   

Diplomacia altiva e propositiva https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/lula-no-g7.html 

19 junho 2026

Minha opinião

EUA no Irã: e agora?
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65   

Fortalece-se a cada dia a percepção dos norte-americanos – reverberada por analistas da grande mídia ianque – de que no conflito EUA versus Irã não haverá vencedores.

Uma forma amena de reconhecer que Donald Trump não obteve o que pretendeu ao desencadear a guerra.

Fala-se em “ciclo autodestrutivo”, onde o sofrimento humano e a destruição material anulam qualquer ganho político ou estratégico a longo prazo.

Além disso, há uma espécie de subproduto geopolítico que se expressa no isolamento internacional e o desgaste moral dos EUA, carente de aliados “pra valer” na empreitada criminosa, salvo Israel.

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Leia também: "Confissão pública" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_0837578382.html 

Arte é vida

 

Ángel Zárraga

Futebol permite sonhar o sonho impossível https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/futebol-ciencia-arte.html 

Uma crônica de Abraham Sicsu

É de lamber os beiços: São João chegando
Abraham B. Sicsu 

Minha neta, três anos, logo vai dizendo para minha companheira: “Vovó, gosto de cuscuzinho e carninha!”

O flocão de milho entremeado com queijo coalho, daquele que derrete na cuscuzeira, uma delícia. Se colocar uma manteiga por cima então!!

O bodinho guisado, prato das tradições nordestinas, refogado com um molho grosso com alho, cebola, tomate e colorau. Não deixem de colocar o coentro e o cominho, lembrem-se que isso é do Nordeste.

São João é sinônimo de boa mesa, de comida de milho. É ela que dá o sentido, com ela se mantém a animação.

No entanto, não é só ele, há de se criar o clima, com música e tira-gostos.

A mesa tem que trazer uns antecedentes para animar. A caninha boa para uma lapada, o amendoim torrado e cozinhado, pode ter também o de casca japonês que é crocante, os queijinhos, onde se sobressaem o de manteiga e o coalho, umas azeitonas para lembrar as tradições portuguesas.

Não se esqueçam do cachorro quente. O nosso, não aquele insosso americanizado. Com carne moída e lingüiça esmiuçada, com vinagrete, sem aquela gororoba de ketchup e  mostarda.

Indispensáveis, as espigas de milho. Assado ou cozinhado. Apenas com manteiga e sal esparramados por riba. Se tiver uma fogueira, o assado fica mais gostoso. Mas, não coloque muito perto dela que queima.

Como já dito, o milho é a atração principal. É nele que se baseia a comida da festa.

A pamonha feita de milho verde ralado e embrulhada em palha da espiga. Pode ser salgada ou doce. A salgada, com recheio de queijo e sertaneja lingüiça, minha predileção. A doce, com leite e açúcar, a mais famosa. Às vezes colocam um pouco de coco ralado.

O mungunzá, que os sulistas com falta de boa linguagem, chamam de canjica, com milho branco e calda cremosa de leite de coco e açúcar, quentinho, aquece nosso estômago.

A canjica, chamada de curau nas plagas do sul, com suco de milho verde espremido, leite e açúcar, deve estar bem cremosa. Compro na feirinha de orgânicos, toda a semana, e faz parte do meu café da manhã.

A seção de bolos é verdadeira loucura. No mínimo cinco variedades. Dão gosto ao forró e arrasta pé que domina a musicalidade e dança. Com ingredientes bem regionais. O milho, a macaxeira, o coco, o amendoim.

Meu favorito é o de macaxeira. Bem úmido tipo pudim, com uma casquinha dourada de fora e raspas de coco. Como sempre alguns pedaços.

A tradição pernambucana incorporada no Souza Leão. Muito doce, açúcar era nossa riqueza, virou Patrimônio Cultural de Pernambuco. Massa de mandioca, muita manteiga e ovos, adicionados a um exagero do adoçante.

O Mané Pelado, o mais tradicional bolo de milho. Com queijo meia cura, coco fresco ralado e milho verde. Veio do Brasil Central e aqui se estabeleceu. Nos bolos de milho existem variações, podendo ser cremoso, de liquidificador ou tipo broa, a gosto do freguês. 

Pé de Moleque, para mim, é sinônimo de Dona Teresa, a quituteira. Não aquele duro que quebra o dente. Mas o nosso, feito de macaxeira, café forte, rapadura, cravo, canela e castanha de caju. Com gosto marcante, com crocância, com cremosidade.

Por fim, a unanimidade nacional. O Bolo de Rolo. Com camadas finas, com recheio de goiaba. Que dá sentido ao degustar, ao sentir suavidade. Lembro e sinto ainda o paladar do famoso que era feito por Luisa Cardoso, o primeiro que experimentei, faz mais de cinqüenta anos.

Não se esqueçam dos doces em calda, tradições vindas das épocas de engenhos, que, colocados sobre os bolos tornam as iguarias meladas e deliciosas. Adoro os de goiaba e jaca.

Para terminar, não esqueça o licor de jenipapo, podendo também ser  de graviola, mangaba, maracujá, tamarindo, umbu e jabuticaba, frutas nossas, bem nossas, sempre preparadas para as festas juninas.

Uma mesa de São João tem história, tem cultura, tem o Nordeste presente.

[Ilustração: Anita Malfatti]

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Leia também: "Onde tudo se disputa" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_01973223157.html

Palavra de poeta

Último poema
Manuel Bandeira    

Assim eu queria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um  soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

[Ilustração: Edward Hopper]

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Fotografia

 

Pedro Caldas

Na acirrada disputa presidencial, Lula passa à frente https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/editorial-do-vermelho_01182781367.html