26 março 2026

Uma crônica de Sérgio Rodrigues

Era uma vez um gato escrito por uma IA
Pasta de linguagem feita por máquinas está em guerra aberta contra a alma. Tentando soar artístico, o robô expõe sua mão pesada e sua falta de noção
Sérgio Rodrigues/Folha de S. Paulo    

 

Quando entrei na sala, já era tarde demais. Sobre o sofá vi a ponta de um fio rubro. Acompanhando com os olhos sua trajetória, constatei que vinha do novelo parado no assoalho sob a mesinha de centro, impassível como o cadáver sangrento de um pequeno animal.

Não desafiador. Não enigmático. Apenas... lá.

Fora isso, o ambiente era calmo, pacífico –sinistro como o de uma cripta. Sinceramente? Não precisei procurar muito para localizar a causa da bagunça no material de tricô que eu havia deixado em ordem.

Uma causa felpuda. Ronronante. De rabo de fora.

Atrás da cortina, denunciado pela cauda que escapava entre as dobras do tecido suave e cintilante, Félix sorria satisfeito com a própria peraltice.

Não selvagem. Não domesticado. Algo no meio do caminho. Um gato –apenas isso. Um animal adorável com duas orelhas, dois olhos e muitos fios de bigode.

Não um gato levado.

Não um gato incorrigível.

Simplesmente, um gato. Como culpá-lo?

Naquele dia, aprendi uma lição que levarei comigo enquanto viver: cada pessoa é responsável por guardar bem os objetos que lhe são caros.

O textinho acima não foi escrito por IA , mas poderia ter sido. Nele um escritor humano –o titular desta coluna– satiriza algumas marcas estilísticas que os textos robóticos tornaram lugar-comum na paisagem.

A empreitada tem riscos. Como satirizar o que traz em si todos os elementos da sátira pronta, com exceção da consciência do ridículo?

É a mesma dificuldade encontrada por quem escreve distopias apocalípticas enquanto Trump ateia fogo no planeta. Contudo, se o robô nos imita o tempo todo, pode ser boa ideia imitá-lo com intenção crítica.

Embora exale um ar arrepiante de vazio e morte, o lero-lero da IA engana à primeira vista. Há até quem o considere exemplo de boa escrita.

Mais do que gramaticalmente correta, a historinha do gato Félix (o nome é sempre um clichê) parece culta e sensível, com palavras como "cripta" e "cintilante", além de exibir marcadores de ritmo, criar suspense etc.

Ocorre que, com mão pesada, a IA generativa que busca soar artística martela os truques aprendidos com a literatura humana até reduzi-los a uma pasta.

Quase tudo vem em trios, com frequência na base do "não isso, nem aquilo, mas aquilo outro". Símiles e metáforas erram o tom, tentando na marra injetar mistério, lirismo ou profundidade no que é trivial. E uma moral da história banalíssima, do tipo que dá vontade de pular no abismo, amarra tudo no fim.

Tudo indica que cada vez mais pessoas vão se contentar com essa pasta de linguagem ultraprocessada, como se contentaram os fãs do romance de terror britânico "Shy Girl", exposto esta semana como produto de IA. Acabarão imitando o robô, como fiz aqui, mas sem intenção crítica alguma.

Creio estar em curso uma guerra contra a alma, nada menos que isso. E parece que estamos perdendo.

A repórter que desnudou o ChatGPT https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/resistencia-social-e-codigo-aberto.html 

25 março 2026

Palavra de poeta

Autobiografia
Mia Couto   

Onde eu nasci
há mais terra que céu.

Tanto leito é uma bênção

para mortos e sonhadores.

E de tão pouco ser o céu

nasce o sol
em gretas nos nossos pés
e os corações se apertam
quando remoinhos de poeira
se elevam nos telhados.

As mães

espanam o teto
e poeiras de astros
cobrem o soalho.

De tão raso o firmamento,

a chuva tropeça nas copas
enquanto nuvens
se engravidam de rios.

Com tanta escassez de céu

não há encosto
nem para a mais minguante lua
e os meninos,
na ponta dos dedos,
ascendem estrelas.

Pois,

nessa terra
que é tanta para tão pouco céu,
calhou-me a mim ser ave.

Pequenas que são,

as minhas asas parecem-me enormes.

Envergando,

escondo-as dos olhares vizinhos.

Nas minhas costas

pesam 
versos e plumas.

Voarei,

um dia,
sem saber
se é de terra ou de céu
a pegada do voo que sonhei.

[Ilustração: Gustave Caillebotte]

O Agente Secreto tratou o Recife como se fosse Paris https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/o-filme-e-cidade.html 

Postei nas redes

“Quero muito que a gente possa ter a opção da candidatura de centro e não simplesmente uma candidatura na esquerda e três candidaturas do lado da direita mais radicalizada”, diz o governador gaúcho Eduardo Leite em entrevista à CNN. É o temor de uma vitória de Lula no primeiro turno. 

Poder & dinheiro na direita brasileira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/poder-dinheiro.html 

Minha opinião

Mídia neoliberal em campanha antecipada contra Lula*
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65



Não é novidade que a elite dominante utiliza os grandes conglomerados de comunicação como seu braço ideológico, que exerce papel político ativo na luta pelos destinos do país. 

Agora, tendo em vista as eleições gerais deste ano, a mídia neoliberal realiza intensa campanha antecipada, destinada a desgastar a imagem do presidente Lula como tentativa de viabilizar sua reeleição.  

Nisto, sobressai-se o terrorismo econômico como arma: a narrativa do "descontrole fiscal" e a subestimação dos indicadores de pleno emprego, a diminuição da desigualdade social e a evolução positiva do PIB.

O discurso midiático foca na manutenção de taxa de juros, que no Brasil é das mais altas do mundo, e que, entre outras consequências, drenam o orçamento público para o sistema financeiro. 

Absurdamente, ao combater o investimento estatal, tenta estabelecer um falso consenso de que o bem-estar social é incompatível com a estabilidade nas contas públicas

Enquanto busca chifre em cabeça de cavalo para atingir o governo, pinta com tintas amenas figuras carimbadas da extrema direita na busca da chamada terceira via ou mesmo, como segunda alternativa, admitir o pré-candidato do PL, senador Flávio Bolsonaro — de trajetória reconhecidamente enlameada. 

Ridiculamente, o filho do ex-presidente encarcerado é citado como simplesmente Flávio, numa tentativa evidente de amenizar a sua figura em razão do peso negativo do sobrenome.

Temas como o papel do Estado como indutor do desenvolvimento — fator decisivo para a reindustrialização do país — e a implementação de políticas públicas socialmente compensatórias são absurdamente demonizados.

Não se trata, obviamente, apenas de humores negativos e preconceituosos em relação ao presidente Lula, mas sobretudo o combate a qualquer traço, por mais incipiente que seja, de um projeto nacional de desenvolvimento socialmente progressista.

De quebra, verdadeira ojeriza a qualquer possibilidade de fortalecimento da liderança do Brasil no âmbito do chamado Sul Global, assim como a afirmação ascendente do BRICS.

E além da campanha própria pelos diversos meios, fornece a todo instante substrato ao sofisticado e agressivo exército direitista nas chamadas redes sociais. 

Como contraponto, ocorre sob vários aspectos heroica resistência da chamada mídia independente — na verdade, comprometida com as causas nacionais, populares e democráticas —, mas por muitas razões sem forças suficientes numa batalha desigual. 

É extremamente danoso que o voto livre e soberano dos brasileiros e brasileiras seja sequestrado pelos conglomerados que controlam as antenas e os algoritmos.

Resistir é preciso — nos salões, nas redes e nas ruas!

[Ilustração criada em IA]

*Texto da minha semanal no portal 'Vermelho'

Leia também: Poder & dinheiro na direita brasileira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/poder-dinheiro.html 

Humor de resistência

 

Fortuna

Leia também: “Como uma Babel organizada” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/minha-opiniao_27.html 

Rigor científico

CNPq chama o feito à ordem
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65     


 

Não sou pesquisador e nem tenho vida acadêmica, mas me interesso pelo que ocorre em nossas Universidades e instituições de pesquisa. Pelo papel estratégico que podem cumprir num projeto de desenvolvimento do país em bases soberanas e democráticas.

Daí anotar a Portaria CNPq nº 1.742/2024 (que institui a Política de Integridade na Atividade Científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e, portanto, estabelece diretrizes éticas e mecanismos de fiscalização para garantir a confiabilidade da ciência financiada com recursos públicos no Brasil.

Trata-se de fomentar uma cultura de integridade e transparência. Visa não apenas a proteção, mas a prevenção de desvios éticos em todas as etapas da pesquisa — desde a submissão de projetos até a publicação de resultados.

Cá com meus modestíssimos botões, suponho que se trata de algo efetivamente importante, sobretudo num tempo em que diversas ferramentas de IA dão aso a todo tipo de plágio.

Demais, a portaria coíbe o uso de dados ou resultados inventados e a manipulação de materiais, equipamentos ou processos de pesquisa, assim como alterar/omitir dados para que a pesquisa não seja representada com precisão.

Também tem em mira a apropriação de ideias, processos, resultados ou palavras de outro pesquisador ou pesquisadora sem mencionar o crédito.

Para tanto, algumas condutas são obrigatórias, como a manutenção de registros originais e rigorosos por períodos determinados (5 anos); fidedignidade na atribuição da autoria, circunscrita tão somente a quem efetivamente idealizou e fez a pesquisa.

Também evitar o eventual conflito de interesse, tal como a obrigatoriedade de assinalar previamente qualquer intento financeiro ou pessoal que possa influenciar a imparcialidade do trabalho.

O progresso científico é indispensável a um competente e viável projeto nacional de desenvolvimento.

Leia também: Lula defende governança global da IA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/lula-na-india-posicao-avancada.html

Enio Lins opina

Uma longa e heroica história contra toda forma de injustiça
Enio Lins    

NESTE 25 DE MARÇO, o Partido Comunista do Brasil completa 104 anos, consolidando o posto de ser a agremiação política brasileira com mais tempo de existência ininterrupta. Ao longo desse período coleciona, e disponibiliza ao público, a mais valiosa história de vivências políticas em nosso país. Acertos e erros, na mais diversificada evolução teórica, prática, tática e ideológica que possa ser encontrada em território brasileiro. Travou batalhas internas, dividiu-se várias vezes, cambiou siglas em algo muito além de um jogo de letrinhas. Segue vencendo obstáculos gigantes. Merece parabéns, inclusive das forças adversárias.

DITADURAS, ENFRENTOU DUAS FEROZES: O Estado Novo, entre 1937 e 1945; e o Regime Militar, entre 1964 e 1985. Sobreviveu a mais de 60 anos sem o direito à existência legal, enfrentando todos os tipos de perseguições desde sua fundação. Nos períodos ditatoriais, sua militância sofreu prisões, torturas e assassinatos em larga escala – e naqueles períodos soube se insurgir de todas as formas, inclusive utilizando o direito à autodefesa armada, como na tentativa de revolta em 1935 (a “Intentona Comunista”), e na Guerrilha do Araguaia, entre 1972 e 1974. No processo de derrubada do Estado Novo e Redemocratização de 1945, soube se aliar ao próprio algoz de uma década, Getúlio Vargas, na luta contra o nazifascismo, contribuindo para a entrada do Brasil ao lado dos Aliados contra Hitler na II Grande Guerra. Fez intenso enfrentamento à ditadura militar de 1964, integrando a amplíssima composição que reconstruiu o Estado Democrático de Direito no Brasil, sendo força destacada na luta pela Anistia, pelas Diretas Já, pela convocação da Assembleia Nacional Constituinte etc.

JOÃO AMAZONAS
 é, dentre seus dirigentes históricos, o nome mais emblemático, mais representativo, como uma liderança capaz de entender as alterações conjunturais e estruturais e, frente à essas mudanças, formular alternativas estratégicas e operar flexões táticas decisivas. Num partido centralizado pela gigantesca figura de Luiz Carlos Prestes, personagem dos mais expressivos e carismáticos em toda história brasileira, teve a ousadia de se rebelar e apontar outro caminho, em oposição aos rumos propostos pelo Cavaleiro da Esperança e pela maioria do movimento comunista internacional. Em 1962, João reorganizou o Partido Comunista do Brasil, adotando a sigla PCdoB, recusando a concepção que extinguiria o partido originalmente fundado em 1922 e desaguaria no PCB (Partido Comunista Brasileiro). A rebeldia de Amazonas e mais uma centena de militantes garantiu uma continuidade histórica fundamental para as esquerdas, que só décadas depois pode ser entendida em sua importância organizativa, política e ideológica.

COMUNISTAS DE ALAGOAS 
sempre se destacaram no cenário brasileiro, como Graciliano Ramos e Nise da Silveira; Octavio Brandão, autor da primeira tradução no Brasil do Manifesto Comunista e primeiro parlamentar comunista eleito em nosso País; Arthur Ramos, mesmo sem ser militante orgânico, foi classificado como “comunista” pelos Estados Unidos e teve sua carreira prejudicada na ONU por isso. Como presidente da UNE, presidente da Câmara dos Deputados, ministro do Esporte, da Ciência e Tecnologia, da Articulação Política, e da Defesa, Aldo Rebelo honrou e projetou a sigla PCdoB como poucos; Eduardo Bomfim, como deputado federal e como secretário-executivo do ministério da Articulação Política deixou importante contribuição nacional; e muito mais nomes podem ser lembrados nesse item, como os irmãos Motta Lima e tantas outras personalidades notáveis. Em resumo: Alagoas deve se orgulhar de sua participação nessa longa história de 104 anos, e que está apenas em seu começo.

AOS 104 ANOS,
 o PC do Brasil segue seu caminho, buscando uma sociedade mais justa, mais igualitária, mais livre, aprendendo e ensinando com a própria experiência, através de seus acertos e de seus erros. Sem medo de ser feliz, muito menos sem temer lutar para coletivizar a felicidade para toda a sociedade.

O lugar do PCdoB na cena política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/partido-renovado-e-influente.html