21 setembro 2026

China na ONU

A mensagem da China sobre justiça na ONU é simples: paz, desenvolvimento e equidade
Global Times   

Como parte da 81ª sessão da Assembleia Geral da ONU, o Debate Geral de Alto Nível está agendado para ocorrer de 22 a 28 de setembro. O pódio está montado. O que o mundo deve esperar ouvir? Crianças de Gaza chorando, pequenos estados insulares clamando por ajuda, o Sul Global exigindo desenvolvimento e justiça.

O Irã está certo: a participação é um direito legal, não um favor. Por extensão, a paz é um direito, o desenvolvimento é um direito, assim como não ser deixado para trás na era da Inteligência Artificial. Esta é a mensagem justa que a China transmitirá: um mundo multipolar igualitário e ordenado, e uma globalização universalmente benéfica e inclusiva – não uma que controla os outros, mas uma onde todos sobrevivem e prosperam juntos.

Se os delegados só podem entrar no plenário da ONU a critério do anfitrião, limitados por restrições de viagem e com uma delegação reduzida, então o direito internacional e o Acordo sobre a Sede da ONU já estão esvaziados.

Mais grave ainda: entre os dois estados em guerra, Israel é admitido, enquanto os representantes palestinos são excluídos por levarem sua guerra com Israel a tribunais internacionais. No entanto, nas ruínas de Gaza, famílias ainda buscam por restos mortais, e o sangue de mulheres e crianças permanece fresco. A quem as vítimas podem recorrer em busca de justiça? O púlpito não deveria existir apenas para os fortes.

Por mais de 80 anos, a Assembleia Geral da ONU tem sido um fórum para mudanças globais, da Guerra Fria à reforma da ONU. Todos os 193 membros votam igualmente; até os mais fracos são ouvidos. A história provou repetidamente que as regras se aplicam igualmente; os direitos não dependem do tamanho. A hegemonia dita cuja voz deve ser ouvida e cuja voz não deve, e nunca compra a paz – apenas transforma o plenário na sala de estar dos poderosos.

O mundo deveria ouvir primeiro as crianças de Gaza. Aquele choro não é ruído de fundo, mas um interrogatório de consciência. Bombardeios, bloqueios e fome se alternam ali; a ajuda humanitária é cortada; hospitais e escolas não são seguros. A guerra no Sudão é igualmente brutal, milhões de deslocados, mas quase esquecidos pelas câmeras.

A China exige um cessar-fogo imediato, acesso humanitário, o fim da anexação e uma solução de dois Estados. Sem cessar-fogo, não há desenvolvimento. Sem justiça, não há cessar-fogo duradouro. 

As vozes do Sul Global em relação ao clima são necessárias; as nações desenvolvidas devem cumprir suas promessas de financiamento climático. A China está plantando árvores, instalando painéis de energia solar e promovendo veículos elétricos em larga escala, compartilhando tecnologia com seus parceiros do Sul porque, diante da crise climática, estamos todos no mesmo barco.

O mundo também precisa ouvir a demanda do Sul Global por desenvolvimento e justiça. O Sul concentra a maior parte da população mundial e a maior parte do seu crescimento, mas ainda não possui assentos no Conselho de Segurança, no FMI e na OMC. Ele quer oportunidades, não caridade: cadeias de suprimentos estáveis, mercados abertos, tecnologia acessível e financiamento que não seja instrumentalizado. Politizar o comércio, securitizar investimentos e bloquear a cooperação tecnológica prejudica a vida de todos.

Ao compartilhar mercados, construir infraestrutura e impulsionar a capacidade verde, a China quer provar que a modernização não é exclusividade de uma minoria de países. É exatamente por isso que a Assembleia Geral continua insubstituível hoje.

Não ficar para trás na era da IA ​​também é um direito. A IA avança mais rápido do que a humanidade consegue compreender seus riscos. Ela pode diagnosticar doenças, auxiliar no ensino e prever desastres, mas também pode intensificar a vigilância, o viés e o desemprego. Se as regras forem definidas apenas por algumas empresas e Estados, e se os dados forem monopolizados, o Sul ficará para trás mais uma vez.

A China defende a "IA para o bem e para todos", promovendo-a como um recurso compartilhado por meio de iniciativas de código aberto e capacitação, para que médicos africanos, professores do Sudeste Asiático e agricultores latino-americanos possam se beneficiar. A China não busca a hegemonia da IA; simplesmente espera que nenhuma criança perca oportunidades no futuro por causa de onde nasceu.

A posição da China na ONU é simples. Primeiro, paz: desescalada e diálogo, não sanções e bombardeios. Segundo, desenvolvimento: trazer a Agenda 2030 de volta ao centro, priorizando a redução da pobreza, a segurança alimentar, a saúde e a educação. Terceiro, justiça: reformar a governança global não se trata de construir um novo fogão, mas de ampliar a mesa, multiplicar as vozes e tornar as regras mais justas.

A China está pronta para apoiar todos os países que prezam a paz e buscam o desenvolvimento, transformando a "sobrevivência" em "prosperidade" e o "você perde, eu ganho" em "todos ganham".

Xi Jinping defende a causa do Sul Global https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/a-china-e-o-sul-global.html

20 setembro 2026

Postei nas redes

"A guerra pode se espalhar pela Europa. Você está psicologicamente preparado?", provoca a BBC News em artigo. Como dizem os cearenses, arre égua! 

Trump e a diplomacia anárquica https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_01291229765.html 

Palavra de poeta

A palavra
Carlos Pena Filho      

Navegador de bruma e de incerteza,
Humilde me convoco e visto audácia
E te procuro em mares de silêncio
Onde, precisa e límpida, resides.

Frágil, sempre me perco, pois retenho
Em minhas mãos desconcertados rumos
E vagos instrumentos de procura
Que, de longínquos, pouco me auxiliam.

Por ver que és claridade e superfície,
Desprendo-me do ouro do meu sangue
E da ferrugem simples dos meus ossos,
E te aguardo com loucos estandartes
Coloridos por festas e batalhas.

Aí, reúno a argúcia dos meus dedos
E a precisão astuta dos meus olhos
E fabrico estas rosas de alumínio
Que, por serem metal, negam-se flores
Mas, por não serem rosas, são mais belas
Por conta do artifício que as inventa.

Às vezes permaneces insolúvel
Além da chuva que reveste o tempo
E que alimenta o musgo das paredes
Onde, serena e lúcida, te inscreves.

Inútil procurar-te neste instante,
Pois muito mais que um peixe és arredia
Em cardumes escapas pelos dedos
Deixando apenas uma promessa leve
De que a manhã não tarda e que na vida
Vale mais o sabor de reconquista.

Então, te vejo como sempre foste,
Além de peixe e mais que saltimbanco,
Forma imprecisa que ninguém distingue
Mas que a tudo resiste e se apresenta
Tanto mais pura quanto mais esquiva.

De longe, olho teu sonho inusitado
E dividido em faces, mais te cerco
E se não te domino então contemplo
Teus pés de visgo, tua vogal de espuma,
E sei que és mais que astúcia e movimento,
Aérea estátua de silêncio e bruma

[Ilustração: Artur Fabrycy]

Leia também "Ausência", poema de Carlos Drummond de Andrade https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/palavra-de-poeta_01239649318.html 

Antissistema de araque

A ultradireita contra os direitos: exame de uma estratégia
Na oposição, eles se dizem antissistema. No poder, investem contra as maiorias. Artifício para transitar entre os dois pontos: produzir divisão entre os de baixo, escolhendo alvos como as feministas, os indígenas, os dissidentes de gênero e os muito empobrecidos
Reinaldo Dias/Outras Palavras 
      

O relatório global de 2025 e 2026 da Anistia Internacional descreve um processo de desintegração dos direitos humanos em diferentes partes do mundo. Nos Estados Unidos, o segundo governo de Donald Trump converteu essa tendência em programa explícito ao intensificar a perseguição aos imigrantes, eliminar políticas federais de diversidade e restringir mecanismos de proteção de grupos historicamente discriminados. Na Europa, partidos de extrema-direita ampliam sua influência sobre as políticas migratórias e os direitos das mulheres e da população LGBTQIA+. No Brasil, o fim do governo de Jair Bolsonaro não encerrou o bolsonarismo, que preserva força parlamentar e capacidade para impor propostas contrárias aos direitos sociais, territoriais e civis.

Essas ofensivas não representam somente uma alternância entre políticas progressistas e conservadoras. Elas procuram alterar o sentido da cidadania, estabelecendo diferenças entre aqueles que seriam merecedores de direitos e os grupos que poderiam ser abandonados à insegurança, à discriminação e à violência. A destruição da agenda social constitui, por isso, um retrocesso civilizatório. O que está sendo contestado é o princípio de que o Estado deve proteger a dignidade humana, reduzir desigualdades e assegurar direitos independentemente da origem, da raça, do gênero, da orientação sexual, da religião ou da nacionalidade.

Os direitos sociais como conquista histórica

Os direitos sociais não foram concessões espontâneas dos governos nem resultados naturais do desenvolvimento econômico. Sua formação esteve associada às lutas dos trabalhadores e dos movimentos antirracistas, feministas e populares contra interesses que tratavam a desigualdade como parte inevitável da ordem social. Depois da ascensão do fascismo e da Segunda Guerra Mundial, a criação de sistemas públicos de proteção ganhou força. A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 reuniu direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais em uma mesma concepção de dignidade, reconhecendo que a liberdade permaneceria incompleta enquanto milhões de pessoas estivessem privadas de alimentação, moradia, educação, saúde e trabalho digno. 

No Brasil, esse processo alcançou sua expressão mais abrangente na Constituição Federal de 1988. A saúde foi reconhecida como direito de todos e dever do Estado, a assistência social deixou de depender exclusivamente da caridade e foram estabelecidas as bases para a ampliação da proteção trabalhista, dos direitos indígenas e das políticas de igualdade racial, defesa das mulheres e reconhecimento da diversidade. Destruir essa agenda não significa apenas reduzir despesas públicas, mas devolver parcelas da população à dependência, à insegurança e ao arbítrio dos grupos mais poderosos.

A reconstrução política das hierarquias

A extrema-direita contemporânea cresceu apresentando a igualdade como ameaça e a diversidade como causa de desagregação social. No centro de seu projeto encontra-se um povo idealizado, definido por referências nacionais, religiosas, raciais e familiares, em oposição aos grupos acusados de corromper valores, receber privilégios ou ameaçar a unidade do país. Essa concepção estabelece uma hierarquia entre os habitantes considerados legítimos e aqueles que podem ser privados de direitos e proteção.

O trumpismo, o bolsonarismo e diferentes movimentos europeus possuem histórias e bases sociais distintas, mas compartilham elementos fundamentais. Cultivam lideranças personalistas, idealizam um passado de ordem e grandeza, atacam o pluralismo, disseminam teorias conspiratórias e transformam adversários em inimigos. Também procuram desacreditar tribunais, universidades, imprensa, organismos científicos e entidades de defesa dos direitos humanos.

Essas características situam esses movimentos em um processo de fascistização marcado pelo nacionalismo excludente, pelo culto ao líder, pela fabricação de inimigos internos e pela legitimação da violência. O conceito não pressupõe a repetição integral dos regimes de Mussolini e Hitler nem ignora a singularidade do nazismo e de seu projeto de extermínio. Estudos sobre o segundo governo Trump identificam uma trajetória protofascista desenvolvida dentro da democracia eleitoral, com a submissão das instituições à fidelidade pessoal ao líder. As formas atuais do fascismo disputam eleições, mobilizam ressentimentos pelas redes digitais e combinam autoritarismo político com políticas econômicas neoliberais.

A igualdade transformada em privilégio

Os ataques às chamadas pautas identitárias ocupam posição estratégica nessa ofensiva. A expressão reúne, de maneira depreciativa, reivindicações diferentes e oculta seu conteúdo concreto. O que se pretende deslegitimar são políticas de combate ao racismo, proteção das mulheres, reconhecimento dos povos indígenas, inclusão das pessoas com deficiência, direitos da população LGBTQIA+ e medidas destinadas a corrigir desigualdades históricas.

Nos Estados Unidos, o governo Trump determinou o encerramento de programas federais de diversidade, equidade e inclusão e ampliou a pressão sobre instituições educacionais e empresas que mantêm iniciativas dessa natureza. O discurso oficial apresenta essas políticas como discriminação, invertendo o significado de medidas concebidas para enfrentar desigualdades raciais e sociais persistentes. A população historicamente favorecida aparece como vítima, enquanto os grupos discriminados são acusados de obter vantagens indevidas.

Em Santa Catarina, a ofensiva contra a igualdade adquiriu forma institucional em dezembro de 2025, quando a Assembleia Legislativa aprovou um conjunto de propostas regressivas apresentadas por deputados do Partido Liberal (PL). A principal delas proibiu cotas raciais e outras ações afirmativas nas instituições de ensino superior públicas ou financiadas pelo estado, sob ameaça de multas, corte de recursos e responsabilização de servidores. Ao defender a medida no Supremo Tribunal Federal, o governo catarinense invocou como argumento o fato de o estado possuir a “maior população branca do país”, afirmação que tornou explícito o conteúdo discriminatório da iniciativa. Na mesma sessão, foram aprovados um projeto que retomava a lógica do “Escola sem Partido”, restringindo conteúdos considerados ideológicos, e outro que determinava a instalação de câmeras nas salas do Ensino Médio. A articulação dessas medidas revela uma ofensiva política mais abrangente contra a reparação racial, a autonomia universitária e a liberdade de ensino. Sancionada em janeiro de 2026, a lei contra as cotas foi declarada integralmente inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal em abril.

Na Europa, as campanhas contra a chamada “ideologia de gênero” acompanham tentativas de restringir direitos reprodutivos, impedir políticas educacionais sobre diversidade e limitar o reconhecimento jurídico das pessoas LGBTQIA+. No Brasil, o bolsonarismo reuniu o combate às políticas de gênero, a hostilidade às ações afirmativas, o ataque aos direitos indígenas e a desqualificação dos movimentos sociais em uma mesma guerra cultural. Essa articulação permanece no Congresso Nacional, nos governos locais e nas redes digitais, influenciando partidos que evitam uma identificação direta com o bolsonarismo, mas incorporam partes de sua agenda.

A guerra cultural também protege interesses econômicos. No Brasil, setores bolsonaristas apresentam o Bolsa Família como um “privilégio” concedido aos pobres e difundem a ideia de que o programa estimularia a acomodação e afastaria seus beneficiários do trabalho formal. Essa interpretação responsabiliza as próprias famílias por sua condição de pobreza, ignora a precariedade dos empregos disponíveis e desqualifica uma política destinada a assegurar condições mínimas de sobrevivência. Ao convencer trabalhadores de que seus adversários são os beneficiários de programas sociais, as minorias ou os imigrantes, a extrema-direita desloca a insatisfação produzida pela concentração de renda e pela precarização do trabalho. O ressentimento é dirigido contra os que possuem menos poder, enquanto os benefícios fiscais, as isenções e os privilégios destinados aos grupos economicamente dominantes permanecem fora do centro do debate.

A violência incorporada à vida pública

A violência neofascista desenvolve-se pela alteração gradual dos limites do que pode ser dito, tolerado e praticado na vida pública. Quando autoridades tratam imigrantes como invasores, associam minorias à degeneração moral, apresentam indígenas como obstáculos ao desenvolvimento ou classificam defensores dos direitos humanos como inimigos, transformam grupos sociais em ameaças. Essa linguagem autoriza indivíduos e organizações a intimidar aqueles que foram previamente desvalorizados e cria condições para que instituições policiais e administrativas ajam com maior severidade ou deixem de oferecer a proteção devida. A violência social e a violência institucional passam, assim, a se alimentar do mesmo ambiente político.

O bolsonarismo conferiu visibilidade a essa lógica pela exaltação das armas, pelo elogio à ditadura, pela defesa da brutalidade policial e pelo desprezo às vítimas de violações. A tentativa de ruptura institucional que culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023 demonstrou que essa linguagem podia converter-se em ação coletiva contra o resultado eleitoral. Dois anos antes, em 6 de janeiro de 2021, apoiadores de Donald Trump haviam invadido o Capitólio dos Estados Unidos para impedir a confirmação da vitória de Joe Biden, depois de serem mobilizados por acusações infundadas de fraude eleitoral. A proximidade entre os dois acontecimentos revela um repertório político comum ao trumpismo e ao bolsonarismo, baseado na recusa da derrota, na deslegitimação das instituições e na aceitação da violência como instrumento de disputa pelo poder.

A extrema-direita procura apresentar a compaixão como fraqueza e a violência como demonstração de coragem. Direitos humanos são desqualificados como obstáculos à ordem, garantias jurídicas são tratadas como proteção indevida a criminosos e políticas de prevenção são substituídas pela promessa de punição. Essa transformação moral prepara a sociedade para aceitar níveis crescentes de violência desde que suas vítimas pertençam aos grupos previamente desvalorizados.

Os imigrantes convertidos em inimigos sociais

A imigração tornou-se um dos principais instrumentos de mobilização da extrema-direita nos Estados Unidos e na Europa. Guerras, mudanças climáticas, perseguições e desigualdades econômicas são substituídas pela imagem de uma invasão, e os imigrantes passam a ser responsabilizados pelo desemprego, pela criminalidade e pela sobrecarga dos serviços públicos. Em março de 2026, especialistas das Nações Unidas advertiram que a retórica racista de dirigentes norte-americanos, associada ao endurecimento da política migratória, ampliava a discriminação, o medo e o risco de violações.

O segundo governo Trump intensificou detenções, deportações e restrições ao asilo. Em fevereiro de 2025, duzentas pessoas de diferentes nacionalidades, entre elas 81 crianças, foram expulsas para a Costa Rica, embora muitas buscassem proteção nos Estados Unidos. Em setembro de 2026, o Departamento de Justiça ameaçou retirar recursos federais de estados que se recusassem a fornecer informações sobre imigrantes sem documentação mantidas por universidades e outros órgãos públicos. A medida utilizava recursos destinados a serviços sociais como instrumento de pressão para ampliar a perseguição migratória.

A desumanização alcançou um novo patamar em setembro de 2026, quando a Casa Branca lançou em seu site oficial jogos eletrônicos inspirados em títulos populares. Em Rio Run, semelhante ao jogo da cobrinha, o participante acumula pontos ao capturar e deportar imigrantes. Em Build the Wall, inspirado em Tetris, blocos são empilhados para impedir a aproximação de pessoas descritas como uma “horda”. Ao converter perseguição, detenção e deportação em entretenimento livremente acessível, inclusive às crianças, o governo Trump banaliza o sofrimento humano e ensina o público a enxergar imigrantes como alvos desprovidos de identidade e direitos.

Na Europa, o crescimento da extrema-direita levou partidos tradicionais a incorporar propostas mais repressivas. A transformação do discurso xenófobo em política institucional tornou-se explícita em junho de 2026, quando o Parlamento Europeu aprovou o Regulamento de Retorno, que amplia detenções e deportações e permite a criação de centros de retorno fora da União Europeia. Após a votação, parlamentares da extrema-direita comemoraram no plenário aos gritos de “mandem-nos de volta”. A cena eliminou qualquer aparência humanitária da nova política e mostrou como o racismo e a xenofobia passaram a influenciar decisões centrais das instituições europeias.

A perseguição também amplia a exploração de trabalhadores empregados na agricultura, na construção, na alimentação e nos serviços de cuidado. A vulnerabilidade jurídica facilita salários menores, condições precárias e o silêncio diante de abusos. As políticas atuais não podem ser equiparadas ao extermínio promovido pelo nazismo, mas reproduzem um de seus fundamentos políticos: a redução de grupos inteiros a uma identidade negativa, a atribuição coletiva de culpa por problemas sociais e a perda progressiva da condição de sujeitos portadores de direitos.

Um Estado menor para os direitos e maior para a repressão

No Brasil, o governo Bolsonaro demonstrou que a defesa de um Estado menor não significava a redução uniforme do poder público. Enquanto políticas trabalhistas, ambientais, indigenistas e de participação social eram enfraquecidas, ampliavam-se a presença de militares na administração federal, o acesso a armas e munições e a legitimidade concedida às soluções policiais. O Estado recuava em sua responsabilidade de proteger direitos, mas fortalecia sua capacidade de vigiar, intimidar e reprimir. Essa seletividade também apareceu durante a pandemia, quando a proteção da população foi subordinada a interesses econômicos e as consequências mais graves recaíram sobre trabalhadores, pessoas pobres, indígenas e moradores das periferias.

Um estudo de 2025 caracteriza o bolsonarismo como uma coalizão de extrema-direita formada por neofascismo, ultraliberalismo, conservadorismo cristão e autoritarismo militar. Esses componentes desempenham funções diferentes, mas convergem na reconstrução de uma sociedade mais desigual e autoritária. O ultraliberalismo oferece justificativa para reduzir direitos e responsabilidades sociais do Estado; o conservadorismo cristão transforma gênero, sexualidade e organização familiar em objetos de controle político; o autoritarismo militar valoriza a hierarquia, as armas e a repressão; e o neofascismo articula esses elementos por meio do culto ao líder, da fabricação de inimigos e da hostilidade ao pluralismo.

Essa orientação não desapareceu com o fim do governo Bolsonaro. Sua influência permanece no Congresso Nacional, nos governos estaduais e nas administrações municipais por meio de propostas que restringem direitos trabalhistas, enfraquecem a legislação ambiental, dificultam as demarcações indígenas e atacam políticas de diversidade. O relatório sobre a violência contra os povos indígenas em 2025, divulgado pelo Conselho Indigenista Missionário em agosto de 2026, relacionou o crescimento dos conflitos territoriais à pressão política e econômica contrária às demarcações. A continuidade dessas agressões demonstra que a extrema-direita conserva poder legislativo, econômico e territorial mesmo quando não controla o governo federal.

A agenda social como compromisso civilizatório

O retrocesso civilizatório avança quando a sociedade se acostuma a distinguir entre vidas merecedoras de proteção e vidas que podem ser expostas à fome, à discriminação, à expulsão ou à violência. A preservação das instituições formais não compensa o esvaziamento cotidiano da igualdade e da dignidade.

Combater o neofascismo exige enfrentar o projeto social que lhe confere conteúdo, marcado pela reconstrução das hierarquias, pela redução dos direitos e pela transformação de grupos vulneráveis em inimigos. A democracia perde substância quando parcelas da população conservam o direito de votar, mas permanecem desprotegidas diante da miséria, do racismo, da exploração e da perseguição estatal.

A agenda social não constitui um conjunto de favores concedidos a grupos particulares, mas expressa a responsabilidade coletiva diante das desigualdades que impedem milhões de pessoas de exercer plenamente sua liberdade. Direitos trabalhistas, proteção social, políticas antidiscriminatórias, acolhimento humanitário e reconhecimento da diversidade pertencem ao mesmo processo histórico de ampliação da cidadania. Ao apresentar a perda de direitos como recuperação da ordem e a exclusão como defesa da maioria, a extrema-direita procura inverter esse processo. Uma sociedade não se torna mais segura quando abandona os vulneráveis, nem mais livre quando transforma diferenças em ameaças.


Fontes consultadas

AMNESTY INTERNATIONAL. EU: ‘Send them back’ chants a moment of reckoning to confront racism in Europe. 6 de julho de 2026.

ANISTIA INTERNACIONAL. Informe 2025/26 da Anistia Internacional sobre a situação dos direitos humanos no mundo. 2026.

BIANCHI, Alvaro. Neofascismos e pós-fascismos contemporâneos: Fratelli d’Italia e Rassemblement NationalMediações – Revista de Ciências Sociais, v. 30, e51942, 2025.

CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO. Relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil – dados de 2025. 2026.

EUROPEAN UNION AGENCY FOR FUNDAMENTAL RIGHTS. Fundamental Rights Report 2026: Challenges and Achievements in 2025. 2026.

G1. “Tetris” e “cobrinha”: Casa Branca lança jogos em que imigrantes são caçados para deportação. 3 de setembro de 2026.

HUMAN RIGHTS WATCH. The Strategy Is to Break Us: The US Expulsion of Third-Country Nationals to Costa Rica. 22 de maio de 2025.

KAUL, Nitasha; BUZAN, Barry. Trump’s New America and the Question of FascismThe British Journal of Politics and International Relations, v. 28, n. 2, p. 405–433, 2026.

KAYSEL, André; BIANCHI, Alvaro. O bolsonarismo como coalizão discursiva de extrema-direitaCaderno CRH, v. 38, e025066, 2025.

THE WHITE HOUSE. Ending Illegal Discrimination and Restoring Merit-Based Opportunity. 21 de janeiro de 2025.

UNITED NATIONS. USA: Racial profiling and racist hate speech by political leaders heightened amid immigration crackdown. 11 de março de 2026.

Donald Trump diante de Xi Jinping 
https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/minha-opiniao_0704474379.html

Humor de resistência

 

Geuvar

Na reta final detalhes importam https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_01182604884.html 

Evangélicos nas eleições

O rosto disforme dos evangélicos no Brasil
Pelo acúmulo da última década entendemos que há um padrão no comportamento eleitoral evangélico de sufragar majoritariamente candidatos da direita em geral e do bolsonarismo em particular. Mas quem é esse evangélico? É importante destacar, outra vez, que esse grupo religioso não é uma massa única
Nilza Valeria Zacarias e Josué Medeiros*/Le Monde Diplomatique   

Os evangélicos crescem, ocupam novos espaços e ajudam a mudar o rosto religioso do Brasil. No entanto, ainda são vistos de longe, quase sempre comprimidos em pesquisas eleitorais, manchetes apressadas e rótulos que os apresentam como um bloco conservador, uniforme e previsível.

Dez anos de caminhada da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito e quarenta grupos focais realizados desde 2023 contam outra história. Por trás da expressão “voto evangélico” existe um povo diverso, formado majoritariamente por mulheres, pessoas negras e pobres, que pede saúde, segurança, educação, renda e presença do Estado. Um povo desconfiado da política, mas não distante da democracia; marcado pela desinformação, mas não inteiramente capturado por ela; aberto a um diálogo que o Brasil já não pode adiar.

O país atravessa uma intensa transformação religiosa, um movimento que parece não ter volta. Os crentes estão cada vez mais presentes nas cidades, nas periferias, nas famílias e na vida pública. Os números ajudam a contar essa história. Em 1991, ano em que foi realizado o Censo previsto para 1990, os evangélicos eram cerca de 13,2 milhões de pessoas, ou 9% da população. Em 2000, já somavam 26,2 milhões, o equivalente a 15,4%. Dez anos depois, chegaram a 42,3 milhões, ou 22,2%.

No Censo de 2022, que divulgou os dados sobre religião considerando a população com 10 anos ou mais, 47,4 milhões de brasileiros se declararam evangélicos, o equivalente a 26,9% da população. Estimativas atualizadas do demógrafo José Eustáquio Diniz Alves indicam que os evangélicos podem representar aproximadamente 30,4% da população em 2030, 34,7% em 2040 e 38,6% em 2049, aproximando-se dos católicos.[1]

Um crescimento inevitável, diálogos marcados por um conjunto de preconceitos contra as pessoas evangélicas, caracterizadas como conservadoras, fundamentalistas, “massa de manobra”, entre outros adjetivos pejorativos e que indicariam uma dificuldade inata de pertencimento ao regime democrático. O fato é que o termo “evangélico” virou, nos últimos anos, mais do que um pertencimento religioso. Ele tem sido usado como um carimbo que, na maioria das vezes, determina que aquela pessoa deve ser tratada com suspeição, que não tem autonomia para fazer as próprias escolhas, sendo capturada por projetos políticos antidemocráticos. Esse destaque é fundamental para explorar nossos achados e a leitura deste texto.

A Frente surgiu em 2016 justamente para provar que o segmento evangélico não é um bloco único, uma única massa. Assim, quando nos posicionamos denunciando o golpe contra a presidenta Dilma, causamos impacto na esquerda e fomos atacados pela extrema direita. Desde então, a Frente integra mobilizações das Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo e participa de conselhos ligados à Presidência da República e a ministérios, além de realizar pesquisas para compreender a diversidade, as experiências e as demandas da população evangélica. Entre suas iniciativas está o Papo de Crente, programa de rádio, TV e internet que aborda direitos e políticas públicas pelo viés da fé evangélica. Há também revistas de estudos bíblicos, abordando os mesmos temas, distribuídas gratuitamente pelo Brasil afora.

Debate público, trabalho e preconceito

Apesar dessa década de trabalho pesado e avanços da Frente e de outros grupos do segmento, o debate público segue com os mesmos marcadores. Por exemplo, no dia 21 de agosto, o Datafolha lançou uma pesquisa sobre as eleições presidenciais de 2026. As manchetes primeiro giraram em torno das intenções de voto em cada um dos candidatos, com destaque obviamente para a polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).

Em um segundo momento, as reportagens se voltaram para as segmentações demográficas e geográficas. As manchetes sintetizaram o resultado do levantamento de intenções de voto da seguinte maneira: “Lula lidera entre mulheres e mais pobres; Flávio, entre os evangélicos”. E, abaixo da chamada no site da Folha, a reportagem complementa que “Lula lidera entre os pretos”, enquanto o “senador lidera entre eleitores com renda acima de dois salários mínimos”.

Entre os evangélicos, os números do Datafolha são os seguintes: Flávio com 62% e Lula com 29% em um eventual segundo turno. Aqui, apresentamos dois problemas. Não há nenhuma ressalva na análise de dados que a Folha e o conjunto da imprensa fazem sobre o que é projetar um cenário de segundo turno. Trata-se de uma etapa que ainda não está ocorrendo, e temos, tradicionalmente, exemplos de mudança do cenário eleitoral entre um turno e outro, a depender de quem passa para essa segunda volta.

Quando o jornal analisa o primeiro turno, os números sobre os evangélicos desaparecem. A matéria diz o seguinte: “No mais, os padrões seguem inalterados em macrogrupos. O petista vai melhor entre dois grupos que representam metade da população: mulheres (41% a 29%) e os mais pobres (46% a 27%). Registra desempenho superior também entre mais velhos (45% a 32%), nordestinos (53% a 25%) e católicos (46% a 29%). O senador, por sua vez, derrota o petista entre quem fez ensino médio (38% a 33%), quem tem diploma superior (37% a 33%), sulistas (38% a 33%) e entre evangélicos” (Folha de S.Paulo, 21 ago. 2026).

Os números finalmente aparecem em uma matéria da GloboNews: no primeiro turno, Flávio teria 48% contra 23% de Lula entre os evangélicos. Mesmo com os dados, há ainda outra ponderação que precisa ser feita: a margem de erro desse tipo de segmentação é maior que a margem de erro do conjunto do levantamento. Isso ocorre por causa do tamanho da amostra, que no geral é de 2 mil entrevistas e vai sendo reduzida por segmento. E a própria Folha assume, ao falar do segundo turno, que a margem de erro do segmento católico é de 3% para mais ou para menos, enquanto no segmento evangélico a margem é de 4% para mais ou para menos. Parece pouco, mas é aquele detalhe que faz toda a diferença.

O que explica essa diferença é o tamanho da amostra, menor entre os crentes. Mas não é só isso: os dados demográficos já consolidados mostram que os evangélicos são em sua maioria mulheres, pobres e negros. Justamente os segmentos em que Lula lidera!

Diante dessa sobreposição de características sociodemográficas – a maioria da população evangélica é composta de mulheres, pobres e pessoas negras –, o mínimo que esperamos é um olhar crítico para a manchete “Flávio lidera entre os evangélicos”. Sim, pelo acúmulo da última década entendemos que há um padrão no comportamento eleitoral evangélico de sufragar majoritariamente candidatos da direita em geral e do bolsonarismo em particular. Mas quem é esse evangélico? Importante destacar, outra vez, que esse grupo religioso não é uma massa única.

Comportamento eleitoral, voto evangélico e grupos focais

Ao mesmo tempo, é evidente que, desde o governo Bolsonaro, há uma mudança nesse comportamento eleitoral, com aumento de rejeição ao bolsonarismo e abertura para um diálogo e uma atuação com outros campos políticos. A posição de uma liderança como o deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ) não é um raio luminoso em céu azul.

As pesquisas qualitativas com pessoas evangélicas que conduzimos desde 2023 nos dão ainda mais segurança em afirmar que há, sim, essa possibilidade de construção entre a democracia e o povo evangélico.

Desde o primeiro ano do atual governo Lula, realizamos 40 grupos focais, sendo 26 entre abril e junho de 2026. Trata-se, portanto, de uma amostra significativa, com mais de 250 crentes de doze capitais brasileiras em 2026, que nos permitiu analisar consistentemente o comportamento político dos evangélicos.

É importante destacar a nota metodológica: os grupos focais presenciais são uma metodologia qualitativa, sem pretensão de precisão estatística. Eles são feitos por meio de um recrutamento aleatório (assim como ocorre com as pesquisas quantitativas) e levam em conta os dados do IBGE e do TSE sobre a composição do eleitorado, com paridade de gênero e proporcionalidade de raça e religião. A principal contribuição dessa metodologia é desenvolver percepções, valores e questões, diferentemente das pesquisas Quaest e Datafolha, que aparecem de modo estático, sem nuances e reflexões.

Com base nesses destaques, o primeiro ponto a considerar é que não há nenhum tipo de voto evangélico unificado. As pessoas declaradas crentes são também homens e mulheres, brancos, pardos e pretos, trabalham formal e informalmente em inúmeras ocupações distintas, moram nos mais variados bairros de suas cidades, são de idade e escolaridade diversas. Vivenciam, portanto, os prazeres e problemas do dia a dia de múltiplas formas e formam suas opiniões com base em um sem-número de combinações. O maior ou menor impacto de seu pertencimento de fé no comportamento político depende de todas essas variáveis e não pode nem deve ser cristalizado e estigmatizado – assim como com qualquer outra pessoa, de qualquer outra religião.

Isso se expressa em como as pessoas evangélicas respondem de modo espontâneo nos grupos focais sobre sua vida. A maioria das e dos crentes relata os problemas que afligem toda a população, como mobilidade urbana, segurança pública, renda e poder de compra e saúde. Não há um problema unificado, e a religião não aparece centralmente nessas respostas. Assim como ocorre com todos os demais grupos de nosso povo – e isso é ainda mais forte em ano eleitoral –, as pessoas evangélicas responsabilizam os políticos por essas dificuldades, apresentando uma visão bem negativa sobre a política.

A soma do conjunto dos problemas vividos pelas pessoas com a crítica à política gerou, a partir de 2014, um forte sentimento antissistema, que foi capturado pela extrema direita e pelo bolsonarismo. Os evangélicos foram, de modo particular, tragados por essa onda reacionária nas eleições de 2016 e 2018. A boa-nova é que isso começou a mudar na pandemia de Covid-19, tanto no conjunto da população como para os crentes.

Nos grupos focais e em diversas plenárias de mobilização que a Frente organizou em 2025, com a presença da primeira-dama, Janja da Silva – foram sete reuniões com mulheres evangélicas no Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza, Caruaru, Manaus, Belém e Distrito Federal –, capturamos diversas falas das pessoas, sobretudo entre as mulheres, que se colocam em uma posição que classificamos como desconfiadas com as instituições e, ao mesmo tempo, demandam políticas públicas diversas e mais presença do Estado em sua vida.

Temas como violência contra a mulher, ampliação do acesso à educação, com destaque para o programa Pé de Meia, geração de renda e de crédito – nesse tópico, o programa Desenrola foi bastante citado –, acesso à saúde e mais segurança pública são os que predominam entre as pessoas que entrevistamos e mobilizamos. De cada dez participantes dos grupos focais, apenas um se enquadra no perfil típico da extrema direita, que difunde as fake news mais conhecidas e prioriza temas que reforçam a visão conservadora sobre direitos reprodutivos e a visão meritocrática sobre economia e Estado.

Esquerda e direita: o pêndulo da fé

As pesquisas nos deram a certeza de que 90% dos evangélicos são pessoas que convergem para as diferentes formas de ver o mundo que marcam a democracia. Não significa que sejam de esquerda e progressistas, assim como não o são a maioria dos católicos, por exemplo. Mas estão dentro do escopo do debate democrático e podem ser convencidos por um projeto de combate às desigualdades e de promoção da cidadania.

Abordar o tema das vacinas foi exemplar. As pessoas evangélicas estão mais expostas à terrível politização da imunização que o bolsonarismo promoveu, mais do que em outros grupos segmentados pesquisados. Todavia, mesmo com as opiniões afetadas pela desinformação, o apoio às vacinas foi de 80% no universo pesquisado. E os 20% restantes não são necessariamente contrários à imunização, mas têm uma postura desconfiada em relação às vacinas novas, com as da Covid, gripe e dengue. O argumento dos céticos é que essas vacinas teriam sido produzidas com pouco tempo de estudo e acabariam por piorar o quadro de saúde de quem as toma. Detalhe: mais de 90% dos participantes tomaram pelo menos uma dose da vacina contra Covid, contrariados ou não.

Desconfiança, mas não rejeição. Insatisfação com a política, mas sem adesão ao antissistema radical. O espaço para diálogo com as pessoas evangélicas está aberto e é fundamental para derrotar o bolsonarismo em 2026 e consolidar um novo ciclo da democracia brasileira nos próximos anos. E, sendo o diálogo uma via de mão dupla, é importante para quem acredita que o país pode vencer seus problemas entender como é a nova religiosidade do Brasil.

*Nilza Valeria Zacarias, jornalista, é coordenadora executiva da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, escritora e autora do livro de contos A casa da Rita (Malê, 2025); e Josué Medeiros, cientista político e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é coordenador do Observatório Político e Eleitoral (Opel).

[1]José Eustáquio Diniz Alves, “A transição religiosa no Brasil: 1872-2049”, EcoDebate, 9 jun. 2025.

Militantes digitais https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_0905367849.html 

Bolsonarismo

A continuidade do golpismo em ação na Suprema Corte
A essência do bolsonarismo é a tentativa de golpe permanente contra a República
João Cear de Castro Rocha/Liberta     

Clausewitz dos trópicos?

O general prussiano Carl von Clausewitz (1780-1831) desenvolveu uma reflexão muito importante sobre o conceito de guerra, em seu livro Vom Kriege (Da Guerra), publicado postumamente em 1832. Autêntico tratado, tão completo quanto ambicioso, em sua obra, Clausewitz cunhou a célebre fórmula: a guerra é a continuidade da política por outros meios.

O sentido precisa ser esclarecido. Muitos veem a guerra como um evento excepcional, uma ilha de ânimo bélico cercada por um dia a dia definido por períodos pacíficos. Clausewitz desmontou essa ilusão com precisão germânica: na verdade, a guerra é antes o espírito dominante; afinal, a política não seria a sublimação do conflito por meio da mediação das instituições? Quando deixam de funcionar a contento, a guerra se impõe, como recordou Paulo Lins numa das epígrafes do romance Cidade de Deus.

Falha a fala

Fala a bala.

O bolsonarismo é uma ilustração involuntária do princípio; involuntária porque, certamente, os bolsonaristas nunca leram o livro de Carl von Clausewitz. No caso brasileiro, a fórmula conheceria uma metamorfose sintomática: o golpismo é a continuidade da política por outros meios. Em outras palavras, a verdadeira essência da política para o capitão e seus cúmplices é o peculato desavergonhado, o conluio miliciano, o arranjo entre amigos, o saqueio do erário público.

(Golpe permanente contra a própria ideia de República.)

Há de tudo um pouco nas vinhas do capitão: de golpes vulgares, como colocar no bolso o dinheiro de combustível com recursos do mandato de deputado federal, a golpes mais articulados, as célebres rachadinhas, assumidas pelo faz-tudo Fabrício de Queiroz; de franquia de chocolate a uma miríade de imóveis comprados com dinheiro vivo; de campanhas de Pix a calendários com fotos das cirurgias do ex-presidente. Para tudo acabar na sexta-feira da rede internacional de lavagem de dinheiro propiciada pelo filme Dark Horse.

(O operador financeiro da franquia Bolsonaro à frente do esquema – Flávio, o Breve.)

DNA golpista

De 1º de janeiro de 2019 a 31 de dezembro de 2022, o DNA golpista do bolsonarismo exercitou sua musculatura retórica sem trégua, a fim de fomentar a explosão do 8 de janeiro de 2023. O golpe falhou, mas somente porque o Poder Judiciário manteve as rédeas do processo eleitoral, apesar da pressão assustadora do Poder Executivo. Se não fosse a firme conduta do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Eleitoral (STF), você não estaria agora lendo este artigo, pois o golpe planejava instaurar uma ditadura bolsonarista e muitos de nós não estaria vivo ou, no mínimo, estaria preso ou exilado.

Nesse caso, o que fazer? Ora, se o golpe fracassou porque o TSE impediu ações como o bloqueio das estradas no Nordeste e o STF assumiu a guarda não apenas da Constituição Federal, como também da jovem democracia brasileira, por que não inverter os termos da equação? Isto é, por que não manietar o Judiciário e só então dar o golpe?

Eis o móvel da ação excêntrica do ministro André Mendonça. Sua missão, nada secreta, é fomentar o caos, a fim de desmoralizar o Poder Judiciário.  Desse modo, busca acertar dois alvos com um gesto.

De um lado, se o STF perder toda a sua credibilidade, como sustentar a correção dos julgamentos relativos à tentativa de golpe de Estado no dia 8 de janeiro de 2023? Ou seja, o objetivo nunca mudou: contestar a condenação do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro para reintegrar o capitão ao processo político.

De outro lado, se o STF tiver sua legitimidade comprometida, o ministro André Mendonça vestiria os trajes do (anti)ministro da Defesa, José Múcio, pois tal atitude equivale a “abrir o portão” para uma intervenção dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro.

Gol contra de André Mendonça https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_01494046490.html