A revolução quântica já começou – e o Brasil ainda pode embarcar
Como uma
nova geração de tecnologias pode redefinir indústria, segurança, ciência e
soberania no século XXI
Celso
Pinto de Melo/
substack.com
“A ciência reúne conhecimento mais rápido do que a sociedade reúne sabedoria” - Isaac Asimov
Quando o primeiro laser foi demonstrado em 1960, muitos o viam apenas como uma curiosidade científica sofisticada. Na época, chegou a ser ironicamente descrito como “uma solução em busca de um problema”. Poucos imaginavam que, algumas décadas depois, aquela tecnologia estaria presente em leitores de código de barras, fibras ópticas, cirurgias, telecomunicações, sensores industriais, internet e smartphones.
Algo semelhante pode estar acontecendo agora com as
chamadas tecnologias quânticas.
Embora frequentemente associadas a imagens
futuristas – computadores extraordinários, comunicações instantâneas ou
máquinas quase mágicas –, sua incorporação ao cotidiano ocorrerá provavelmente
de maneira muito mais silenciosa. Assim como aconteceu com o laser, os
semicondutores e a própria internet, a revolução quântica tende a chegar
primeiro como infraestrutura invisível: sistemas de comunicação, sensores,
segurança digital, novos materiais, medicina avançada e ferramentas industriais
que a maioria das pessoas usará sem sequer perceber.
Mas há uma diferença importante em relação às
revoluções tecnológicas anteriores: desta vez, a disputa geopolítica começou
antes mesmo da maturação plena da tecnologia.
Estados Unidos, China, União Europeia, Reino Unido
e Japão já investem bilhões de dólares em programas nacionais de tecnologias
quânticas. Grandes empresas de tecnologia – como IBM, Google, Microsoft e
Huawei – disputam posições em áreas como computação quântica, criptografia,
sensores e redes de comunicação seguras. O motivo é simples: essas tecnologias
poderão redefinir parte importante da infraestrutura econômica, científica e
estratégica do século XXI.
Apesar do nome, tecnologias quânticas não
significam “máquinas misteriosas”. Elas se baseiam no controle extremamente
preciso de fenômenos previstos pela mecânica quântica – a teoria física que
descreve o comportamento da matéria e da energia em escalas atômicas e
subatômicas. Conceitos como superposição e emaranhamento quântico, antes
restritos quase exclusivamente aos laboratórios e à física teórica, começam
agora a ser explorados tecnologicamente.
Em geral, o público costuma associar essa área
apenas aos computadores quânticos. Eles são, de fato, importantes. Em certos
problemas específicos, poderão realizar cálculos impossíveis para computadores
convencionais. Mas provavelmente não teremos “notebooks quânticos” ou
“celulares quânticos” em casa tão cedo. Os computadores clássicos continuarão
dominantes por muitas décadas.
O impacto mais imediato talvez venha de áreas menos
conhecidas.
Sensores quânticos, por exemplo, poderão medir
campos magnéticos, gravidade, posição e variações moleculares com precisão sem
precedentes. Isso poderá transformar diagnósticos médicos, monitoramento
ambiental, prospecção mineral, agricultura de precisão e sistemas de navegação
independentes de GPS. Em medicina, pesquisadores já exploram técnicas capazes
de detectar sinais biológicos extremamente fracos, abrindo caminho para exames
mais sensíveis e diagnósticos precoces.
Outra frente estratégica envolve segurança digital.
Os futuros computadores quânticos poderão quebrar parte dos sistemas
criptográficos atualmente utilizados em bancos, comércio eletrônico e comunicações
governamentais. Por isso, diversos países já iniciaram a transição para a
chamada criptografia pós-quântica, considerada essencial para proteger dados
financeiros, militares e industriais nas próximas décadas.
Também há enorme expectativa em torno do uso
combinado de computação quântica, inteligência artificial e ciência de
materiais. Simulações avançadas poderão acelerar o desenvolvimento de novos
medicamentos, baterias mais eficientes, fertilizantes menos intensivos em
energia, ligas metálicas avançadas e materiais estratégicos para energia e
eletrônica.
A história mostra, porém, que revoluções
tecnológicas ocorrem raramente de forma instantânea.
O transistor foi demonstrado em 1947. Mas os
circuitos integrados vieram anos depois; o microprocessador só surgiria em
1971; o computador pessoal popularizou-se apenas nos anos 1980; e os
smartphones só se tornariam ubíquos após 2007.
O mesmo ocorreu com a internet. Durante décadas,
ela permaneceu restrita a usos militares, acadêmicos e científicos antes de
transformar completamente a economia e o cotidiano.
As tecnologias quânticas provavelmente seguirão uma
trajetória semelhante: uma longa fase de maturação, integração industrial e
redução de custos antes de se tornarem amplamente disseminadas. Ainda assim,
essa transição poderá ser mais rápida do que no passado, porque hoje já existe
uma poderosa infraestrutura global de semicondutores, computação avançada,
inteligência artificial e capital tecnológico capaz de acelerar sua
incorporação.
A questão estratégica talvez não seja “quando
teremos um computador quântico em casa”, mas sim quem controlará as cadeias
produtivas, os algoritmos, os sensores, os materiais avançados e a
infraestrutura associados a essa nova etapa tecnológica.
É nesse ponto que o tema deixa de ser apenas
científico e passa a envolver diretamente o desenvolvimento econômico e a
soberania nacional.
O Brasil ainda possui uma janela de oportunidade.
O país tem grupos científicos respeitados em
física, óptica, fotônica, materiais avançados e computação. Universidades e
centros de pesquisa brasileiros acumulam competências relevantes em áreas
potencialmente estratégicas para a economia quântica. Nos últimos anos, também
começaram a surgir iniciativas voltadas à construção de uma estratégia nacional
para tecnologias quânticas, incluindo discussões sobre formação de recursos
humanos, redes cooperativas de pesquisa, comunicação segura, sensores e
aplicações industriais.
Mais recentemente, o debate começou a deixar o
espaço exclusivamente acadêmico e passou a envolver também temas como política
industrial, segurança digital e soberania tecnológica. Afinal, nenhum país
constrói capacidade tecnológica avançada apenas comprando equipamentos prontos.
O desafio envolve formar pessoas, integrar universidades, empresas e Estado,
desenvolver instrumentação, software, materiais, fotônica e aplicações capazes
de gerar competências nacionais duradouras.
Para países como o Brasil, as oportunidades talvez
não estejam necessariamente na corrida pelos grandes computadores quânticos
universais – hoje concentrada nas maiores potências tecnológicas do planeta –,
mas em nichos estratégicos como sensores quânticos, metrologia, fotônica,
criptografia, materiais avançados e aplicações específicas para agricultura,
energia, mineração, saúde e monitoramento ambiental.
A experiência dos semicondutores, da
microeletrônica e da computação oferece um alerta importante. Países raramente
“perdem o futuro” porque ignoram completamente uma tecnologia. Em geral, perdem
porque percebem tarde demais que ela deixou de ser apenas ciência experimental
– e passou a reorganizar a indústria, o poder econômico e a capacidade
estratégica.
Talvez o maior erro seja imaginar que tecnologias
quânticas dizem respeito apenas a laboratórios sofisticados ou a experimentos
distantes da realidade cotidiana. O laser também parecia distante. O transistor
também parecia. A internet também.
Hoje, quase ninguém pensa neles. E exatamente por
isso eles se tornaram infraestrutura.
As tecnologias quânticas provavelmente caminham na
mesma direção.
O Brasil ainda possui competências científicas
relevantes e uma janela de oportunidade para participar dessa nova etapa
tecnológica. Mas isso exigirá continuidade, coordenação estratégica e
capacidade de transformar ciência em política de desenvolvimento. Revoluções
tecnológicas raramente esperam países indecisos.
A pergunta talvez não seja se o mundo quântico
sairá dos laboratórios. A verdadeira questão é se o Brasil participará da
construção dessa nova fronteira tecnológica – ou se, mais uma vez, chegará
quando os mapas já estiverem por outros desenhados.
[1] Professor Titular Aposentado da
UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Pernambucana de Ciências e da
Academia Brasileira de Ciências.
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Tecnologias quânticas: soberania e inovação para o futuro do Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/palavra-de-luciana_0673507353.html





