31 março 2026

Máfia digital milionária

O gabinete das bets
Engrenagem mistura propaganda política, dinheiro de origem questionável e plataformas que lucram com tudo isso
Leandro Demori/Liberta      

Há algo de profundamente errado e perigosamente naturalizado no ecossistema digital brasileiro. Não se trata mais apenas de desinformação, nem de militância disfarçada de entretenimento. O que está em curso é mais sofisticado e vem turbinado por uma máfia bilionária, que não mede dinheiro para chegar aonde quer: uma engrenagem que mistura propaganda política, dinheiro de origem questionável e plataformas que lucram com tudo isso como se fossem meras espectadoras.

Perfis de fofoca com dezenas de milhões de seguidores abandonaram, sem qualquer constrangimento, o conteúdo que os tornou populares (o novo jet-ski da Ana Castela, o pet da Cláudia Leitte, o carrão do sertanejo do momento) para operar como canais de influência política. Não é uma guinada editorial espontânea, como mostrei no ICL Notícias esta semana. É um método financiado por uma bet de um conhecido “rei do tigrinho”, um esquema que atinge todos os dias dezenas de milhões de pessoas com propaganda anti-governo. Vem deste ecossistema, tenho certeza, parte relevante da corrosão da imagem do governo Lula.

A engrenagem funciona assim: páginas como a Alfinetei (25 milhões de seguidores, mais do que o padre Fábio de Melo) publicam ataques sistemáticos ao governo federal e promovem figuras da direita e da extrema direita, como Tarcísio de Freitas, Jair Bolsonaro e Nikolas Ferreira. Fazem isso enquanto exibem, sem pudor, a logomarca de casas de apostas. Entre elas, a 7games.bet, ligada a Fernando Oliveira de Lima, vulgo Fernandin OIG, “empresário” associado à expansão predatória do jogo do “Tigrinho” no Brasil e próximo de Ciro Nogueira. Foi Fernandinho que levou o senador para Mônaco. No jatinho do tigreiro, os amigos foram ver um GP de F1.

Esse mesmo perfil e outros como ele já haviam sido apontados por atuarem em campanhas coordenadas, envolvendo o Banco Master, de Daniel Vorcaro, em ataques ao Banco Central do Brasil. Estava, como se diz, “no bolso do Vorcaro”, detonando a imagem do BC a pagamento. Agora, repetem o padrão: conteúdo político disfarçado de entretenimento, impulsionado por dinheiro publicitário de origem opaca. Enquanto corroem a imagem do governo e do BC, essas mesmas contas aplaudem Tarcísio de Freitas. Entre um pet e um carrão de luxo, elas encontram espaços para posts sobre a inauguração do Rodoanel em São Paulo.

E aqui entra o ponto central e talvez mais grave de todos: nada disso existiria sem as plataformas. O Instagram sabe quem são esses perfis. Sabe quem paga pelos anúncios, pois são perfis “verificados”. Sabe quais conteúdos são impulsionados e consegue “ver” o logotipo da bet nos posts. Sabe, inclusive, quando se trata de propaganda política – tanto que bloqueia campanhas de veículos jornalísticos sob esse pretexto, inclusive os documentários do ICL, alegando (falsamente) que se tratam de campanha política.

Mas, quando o dinheiro vem travestido de publicidade de apostas, quando o conteúdo político é embalado como fofoca, quando o ataque é lucrativo para os tech bros, a plataforma não apenas permite, ela monetiza e se associa ao crime. Cada curtida, cada comentário indignado, cada compartilhamento amplifica não só a mensagem, mas o faturamento das empresas. As plataformas recebem sua parte. São intermediárias financeiras dessa engrenagem.

Quando uma rede social aceita dinheiro para impulsionar conteúdo político disfarçado, financiado por agentes com interesses diretos no debate público, ela deixa de ser uma infraestrutura neutra e passa a ser um agente econômico do processo. Sócia, ainda que indireta, do resultado.

E o resultado está aí: distorção do debate público, manipulação de percepção, artificialização de popularidade política e muito, muito dinheiro. No ICL N1, mostramos uma tabela de preços. Cada posts pode chegar a custar 40 ou 50 mil reais. São milhares de posts por ano que tornaram perfis de fofoca uma espécie de cabos eleitorais do submundo. É o gabinete das bets. Casas de aposta viram financiadoras de discurso e plataformas de redes sociais viram o caixa registrador de tudo isso.

Há uma pergunta que precisa ser feita com clareza, sem rodeios: por que o Instagram bloqueia a promoção de documentários jornalísticos, mas permite (e lucra com) campanhas políticas disfarçadas, pagas por empresas envolvidas em controvérsias ou até mesmo em crimes?

Alguma esperança poderia residir no TSE. O tribunal eleitoral poderia, por exemplo, derrubar as contas. Será? Acontece que no fundo do poço tem um alçapão, mais precisamente um episódio exposto na CPI das Bets que adiciona uma camada surreal ao debate público. Fernandin OIG admitiu ter dado carona em seu jatinho (o mesmo que levou Ciro Nogueira) ao ministro do STF Kassio Nunes Marques para uma viagem à Grécia, onde ambos participariam de uma festa do cantor Gusttavo Lima.

Segundo OIG, trata-se de uma “amizade antiga, nascida no Piauí”. O episódio – revelado sob indagação do senador Alessandro Vieira na CPI das Bets – levanta claros questionamentos óbvios sobre a proximidade entre figuras com interesses econômicos relevantes e membros da mais alta Corte do país, mas não acaba aí: Nunes Marques assume a presidência do TSE (que poderia acabar com o gabinete das bets) em junho deste ano.

Pois é.
Dá pra rir ou chorar.
Escolha aí.
Talvez nem faça diferença.

Powerpoint da Globonews reabre as feridas de manipulação da mídia https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/globo-na-lama-2.html 

Postei nas redes

Minas gerais concentra 11% dos votos de todo o país. É o segundo colégio eleitoral após São Paulo. Toda habilidade é necessária para construir uma alternativa eleitoral que beneficie a reeleição do presidente Lula. 

Alianças de quem com quem? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/fator-de-instabilidade.html 

Solidariedade a Cuba

Rússia fura bloqueio e leva petróleo a Cuba
Solidariedade internacional ignora Trump e alivia crise energética na ilha por 10 dias
Davi Molinari/Vermelho   

A chegada do petroleiro russo Anatoly Kolodkin ao porto de Matanzas, neste domingo (29), marca um ponto de inflexão na pressão econômica exercida pelos Estados Unidos contra a ilha caribenha. Carregada com aproximadamente 730 mil barris de petróleo bruto, a embarcação russa atracou em porto cubano após recuo do governo de Donald Trump, que declarou publicamente “não ver problemas” no envio de combustível para fins humanitários. 

O movimento ocorre em um cenário de severa crise energética em Cuba, agravada pela interrupção dos suprimentos venezuelanos e pelo endurecimento das sanções de Washington desde janeiro de 2026. A carga russa é estimada como suficiente para suprir a demanda de diesel por cerca de dez dias, garantindo o funcionamento de hospitais e do transporte público. 

O recuo de Washington e a Ordem Executiva 

Em 29 de janeiro, a Casa Branca estabeleceu uma Ordem Executiva de emergência nacional, autorizando tarifas retaliatórias contra países que fornecessem petróleo a Cuba. No entanto, diante do agravamento das condições de vida na ilha e de uma conjuntura internacional de crescente contestação às políticas de sanções unilaterais, Trump foi obrigado a recuar também nesta frente. 

Embora a Ordem Executiva permaneça vigente no que tange a barreiras comerciais de longo prazo, o presidente estadunidense modificou verbalmente a diretriz para permitir este envio específico, priorizando necessidades básicas e serviços essenciais. A Guarda Costeira dos EUA, que monitora a região com navios patrulha (cutters), não interferiu na trajetória do Anatoly Kolodkin.

Uma Rede Global de Solidariedade 

O aporte russo não é uma ação isolada, mas parte de uma união internacional que busca mitigar o impacto do bloqueio sobre a população cubana. O governo chinês de Xi Jinping oficializou a doação de 60 mil toneladas de arroz, das quais 15.600 toneladas já desembarcaram em Havana em março. O pacote inclui ainda uma assistência financeira de US$ 80 milhões destinada à recuperação econômica. 

O coordenador residente da ONU em Cuba, Francisco Pichón, apresentou um plano de emergência de US$ 94,1 milhões. O projeto foca na importação de combustível com rastreabilidade total para manter serviços de saúde e saneamento em oito províncias, beneficiando cerca de 2 milhões de pessoas. 

A caravana Nuestra América — uma iniciativa de ONGs, centrais sindicais, entidades de direitos humanos e partidos políticos —, com apoio de ativistas de mais de 30 países, entregou em março 20 toneladas de ajuda humanitária. 

O destaque do carregamento foi a doação de 73 painéis solares e geradores, avaliados em US$ 500 mil, voltados para a autonomia energética de centros médicos. A secretária de Relações Internacionais do PCdoB, Ana Prestes, que também participou da missão, descreveu a situação da ilha provocada pelo bloqueio norte-americano como “guerra sem bombas”.

Solidariedade Internacional 

O Kremlin, por meio do seu Ministério dos Transportes, reiterou que os suprimentos enviados a Cuba possuem caráter humanitário e condenou as tentativas de “sufocamento” econômico da ilha. Em Cuba, o presidente Miguel Díaz-Canel tem enfatizado a resiliência do país diante de um hiato de três meses sem importações regulares de combustível. 

A convergência de esforços entre potências como Rússia e China, aliada a mecanismos multilaterais da ONU e a movimentos de solidariedade da sociedade organizada, demonstra que o isolamento pretendido pela política externa de Washington enfrenta limites práticos e éticos diante da iminência de um colapso humanitário na região.

"O erro de cálculo do século: aventura de Trump no Irã" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/inconsequencia-norte-americana.html

Dica de leitura


O livro "Arraes", de Tereza Rozowykwiat, publicado em 2006 pela Editora Iluminuras, é a das sensível e circunstanciada do ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes.

O texto aborda a trajetória de Arraes desde suas origens no Ceará até sua ascensão em Pernambuco. Relata os acontecimentos de 1º de abril de 1964, destacando a postura altiva do então governador ao se recusar a renunciar ao cargo com o Palácio das Princesas sob cerco militar; o retorno ao Brasil com a Lei da Anistia em 1979, o movimento que o reelegeu governador por duas oportunidades 1986 e 1994.

Uma leitura sempre necessária e oportuna.

O mundo gira. Saiba mais https://lucianosiqueira.blogspot.com/

Palavra de poeta

Assim vejo a vida
Cora Coralina   

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado

Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.

Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

[Ilustração Chris Cisneiros]

Leia também: "Bolas de vidro", poema de Cida Pedrosa  "https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_63.html 

30 março 2026

Arte é vida

 

Sophia Heeres

Graça Graúna: "Geografia do poema" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_69.html 

Postei nas redes

Ronaldo Caiado é confirmado pré-candidato pelo PSD e diz que primeiro ato na Presidência será anistia a Bolsonaro. Desde quando isso é "terceira via"? 

Terceira via carece de chão https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_19.html