21 março 2026

Editorial do 'Vermelho'

Disputa presidencial acirrada
O confronto pela presidência segue disputadíssimo, mas vão se construindo as condições da reeleição de Lula
Editorial do Vermelho 

Faltando sete meses para as eleições, com a janela de mudança partidária prestes a se fechar, entra na reta final a composição dos campos políticos em confronto, a montagem dos palanques estaduais e vai se confirmando o prognóstico de uma eleição presidencial marcada por uma disputa acirrada, polarizada pela reeleição do presidente Lula e pela pré candidatura de Flávio Bolsonaro, da extrema-direita, do neofascismo.

Ação conjunta da grande mídia e a oligarquia financeira, mais a máquina de guerra digital da extrema-direita catapultada pelos algoritmos das big techs, tenta fazer valer a narrativa de subida contínua da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, ao mesmo tempo em que direciona ataque pesado contra o governo e o presidente Lula, ofuscando a força e a competitividade de sua reeleição. Se valem, também, de leituras enviesadas de uma enxurrada de pesquisas eleitorais, para lançar fermento nas possibilidades da extrema-direita.

Recorrem a mentira, direcionando ao governo federal a responsabilidade de escândalos, como é caso da maior fraude bancária da história do país, do Banco Master cuja a paternidade é nitidamente da direita e da extrema-direita. Apenas um exemplo. Fabiano Campos Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, foi quem mais doou às campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, a bagatela total de 5 milhões de reais. Foi na gestão de Campos Neto no Banco Central que o Master nasceu e se agigantou.

Com a delação de Vorcaro, o primeiro passo já foi dado com a assinatura do contrato de confidencialidade, é à direita, a extrema-direita, sobretudo, é quem têm motivos para padecer de insônia nas próximas semanas e meses.

A partir da unção de Flávio Bolsonaro pelo pai, Jair Bolsonaro, em curto espaço de tempo ele uniu a extrema direita, atraiu parcela do eleitorado não bolsonarista. Setores da mídia, passaram a chamá-lo, de simplesmente, Flávio na vã tentativa de apartá-lo do sobrenome que para milhões e milhões de brasileiras e brasileiras é sinônimo de  destruição e regressão em toda linha.

Bolsonaro, filho, rapidamente, também foi ungido pelo Departamento de Estado, dos Estados Unidos da América, no âmbito da ingerência do governo de Donald Trump nas eleições brasileiras, para ter um governo fantoche. Um exemplo é o anúncio do governo estadunidense de que pretende classificar as facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, precedido do tarifaço e da aplicação da Lei Magnitsky contra autoridades brasileiras e seus familiares.

Ao trabalhar para erguer palanques nos Estados, a candidatura bolsonarista está provocando contradições e fissuras no campo da direita, a exemplo do Paraná, que tende a se dividir com Sérgio Moro anunciando que será candidato a governador com o apoio do Partido Liberal (PL), contra o candidato a ser indicado pelo governador Ratinho Júnior, do Partido Social Democrático (PSD). É um contencioso relevante num estado importante no âmbito da direita, que se repete em outros estados, como Goiás.

Apesar do exposto, até agora a pré-candidatura de Flavio Bolsonaro movimenta-se, relativamente, em céu de brigadeiro por não ter recebido o combate que terá de vir na intensidade devida. Aliás, é um erro tático protelar esse combate, que comece já, de modo planejado, pela pré campanha de Lula.

O presidente Lula, nos marcos da legislação eleitoral, se desdobra em governar e realizar a preparação da campanha à reeleição. Até a virada do mês de março cumpre uma agenda de entrega de realizações, na dinâmica da saída de um grande número de ministros que deixam suas funções para atuarem direto do front eleitoral.

Nesta semana, foi sancionado o ECA Digital com avanços importantes à proteção de crianças e adolescentes. O Congresso Nacional promulgou o decreto legislativo que ratifica o acordo Mercosul e União Europeia. O governo articula, trabalha pela redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1.

Se volta, de modo emergencial, para proteger a economia nacional do impacto da guerra imperialista dos Estados Unidos e de Israel contra Irã, com repercussão mundial pela disparada do preço do petróleo. O governo Lula adota medidas que combinam instrumentos de proteção ao mercado interno, desoneração tributária emergencial e mecanismos regulatórios. Trata-se de não permitir a elevação descontrolada do preço diesel, posto que o país importa 30% do que consome. O governo publicou uma Medida Provisória, em proteção aos caminhoneiros, que endurece a fiscalização do piso mínimo do frete, com multas de até R$ 10 milhões para quem descumprir a tabela de preços mínimos.

Diante desse contexto no qual o país precisa crescer mais, produzir mais riqueza e propiciar mais direitos, soou como uma bomba a decisão do Banco Central de manter os juros nas alturas, a segunda maior taxa real do planeta, reduzindo a Selic, tão somente 0,25%. Com absoluta razão, o presidente Lula, publicamente, protestou, posto que era esperado uma queda 0,50%. O senhor Gabriel Galípolo e demais integrantes do Copom insistem em impor uma política monetária nociva ao desenvolvimento nacional.

Na esfera da pré campanha, entre outros êxitos, conseguiu viabilizar um palanque forte e competitivo no maior colégio eleitoral do país. Fernando Hadad será candidato a governador e Simone Tebet, por sua vez, disputará uma cadeira do Senado Federal, ocupando uma das duas vagas. A chapa pode se fortalecer ainda mais, por exemplo, com lideranças do porte de Marina Silva e Márcio França. Além do que o vice-presidente Geraldo Alckmin, em qualquer circunstância, desempenhará papel relevante. No segundo colégio eleitoral do país, Minas Gerais, Lula empenha-se para consolidar a candidatura do ex-presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco.

De conjunto, o desenrolar da sucessão presidencial, indica que é necessário repelir qualquer viés triunfalista, ou, dito de outra forma, que se tire da cabeça qualquer visão de salto alto, posto que, a vitória segue ao alcance das mãos do povo brasileiro, mas irá se travar um dos confrontos mais exigentes desde a redemocratização do país. Impõe-se construir a mais ampla aliança possível, munir campanha de um programa avançado pautado na defesa da soberania nacional, da democracia, do desenvolvimento e da valorização do trabalho. Mobilizar e engajar o povo e que o governo proporcione mais conquistas e direitos à população.

Leia também: Terceira via carece de chão https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_19.html 

Um conto de Marco Albertim

Uma noite com Valquíria
Marco Albertim, no Vermelho     

Nas primeiras chuvas do inverno, o canto da praça, sob o oitizeiro, ficou vazio. Na véspera, um mudo grupo de moços, sem saber o que falar, sorvera um tubo plástico de cola; cada um com o seu.

Com a chuva, abrigaram-se sob a marquise do Suíça Hotel; sem correria, posto que a rotina enfadonha nunca lhes reservara surpresas, a não ser a certeza de que uma brisa noturna insinuar-se-ia nos narizes, trazendo um feliz embrulho para os estômagos vazios. O porteiro olhou-os, pôs nos olhos a tolerância de um cão de guarda. Conhecia-os, tinha-os como cinco cheira-cola vadios; recontou-os para reafirmar o instinto canino. A menina de quinze anos, cabelos soltos, peitos crescidos, coagidos na blusa apertada; muda, pedindo para não ser expulsa dali. Pusera o tubo de cola entre um peito e outro, cruzando os braços. Nos olhos o efeito da droga, inda que os braços, as p ernas mostrassem pelos eriçados sob o frio. Era a única com um colchão de espuma, sem tecido, o mais confortável entre as esteiras de papelão trazidas pelos outros.

Na segunda-feira, pouco ou nenhum registro na portaria do hotel. O porteiro entrou, deixou a porta da frente entreaberta, sentou na cadeira de costume, fechou os olhos para dormir... Ou para fingir familiaridade com a noite. Até o começo da madrugada, nenhum casal alugara os lençóis rotativos do hotel. Menos mal, ele urdiu. Logo o sol cobriria as árvores da Praça 13 de Maio, os moleques voltariam para o oitizeiro junto com o mascote, o vira-lata pulguento.

Às cinco horas, o moleque mais velho se deu conta do mundo. Pálpebras inchadas, cílios remelosos, coçou os olhos e viu o colchonete de Valquíria vazio. Quis acordar os outros. Não foi preciso, a narina suja e o fedor da rua acordaram o resto. Não tinham hora para comer, vez que queriam comer a toda hora. Mas os quiosques com guaranás, coxinhas, o cheiro, deram-lhes sustento nas pernas. Ficaram mais uma hora, o tempo imaginado para o chão de grama e areia, sob o oitizeiro, enxugar. Valquíria deixara a própria cama, por certo dormira numa melhor, longe da friagem.

De volta à sombra do oitizeiro, repuseram os minguados trapos. A cama da loura Valquíria, enrolada num cordão de barbante. Cada um seguiu para um lado, catando sobras nos quiosques, nas lanchonetes. Os tubos de cola, escondidos entre os panos. O vira-lata submisso, intimidado com os motores dos ônibus, aquietara-se entre as raízes da árvore.

O Parque 13 de Maio enchera-se de estudantes. Havia faixas alusivas ao aniversário da cidade.

O moleque mais velho, de volta ao quiosque vizinho à marquise do hotel, não se surpreendeu quando viu Valquíria saindo da portaria. Atrás dela, o porteiro; tomara um banho, o zeloso porteiro. Valquíria também se banhara, mas os cabelos estavam revoltos e o tubo de cola ainda entre um peito e outro.

[Ilustração: Pedro Dias]

"Definitivamente, um plebeu provinciano" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_12.html 

Guerra mais complexa do que Trump diz

O que é a Armadilha de Escalada, que explica por que guerra no Irã pode sair de controle
Luiz Antônio Araújo/BBC     


Uma potência decide atacar outra com força limitada para atingir um objetivo determinado. A agredida reage por meio da expansão do campo de batalha. A agressora escala o conflito a fim de recuperar a iniciativa.

Essa sequência, descrita em um modelo chamado Armadilha de Escalada, do norte-americano Robert Pape, tem sido invocada para explicar o que ocorre na Guerra do Irã.

Depois de realizar cerca de oito mil voos sobre o território iraniano e atingir cerca de 7 mil a 7,8 mil alvos no país, matando o líder supremo da república islâmicaAli Khamenei, e parcela considerável da cúpula do regime, os Estados Unidos ainda parecem longe de atingir os objetivos anunciados no início das hostilidades.

Pressionado, o presidente Donald Trump emite sinais contraditórios: afirma que os EUA "já venceram", pede ajuda internacional para desobstruir o estreito de Ormuz, tenta se dissociar do bombardeio israelense da maior planta de gás natural do Irã e ameaça explodir as mesmas instalações se houver novos ataques iranianos ao Catar.

Adicionalmente, a guerra provoca a maior disrupção de oferta de petróleo da história, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), com a cotação do barril atingindo quase US$ 120 esta semana, além de causar pressão inflacionária global e abalo de cadeias produtivas.

Desde que se iniciou o conflito no Oriente Médio, em 28 de fevereiro, a Armadilha de Escalada passou a ser citada em reportagens e análises no mundo inteiro e registrou aumento de 20% em buscas no Google.

Pape, que é professor de Ciência Política na Universidade de Chicago, tornou-se presença constante em programas de TV, lives e podcasts.

Conselheiro de assuntos estratégicos de todos os presidentes dos EUA desde 2001, ele simulou por 20 anos o bombardeio da planta nuclear iraniana de Fordow, atingida por caças norte-americanos em junho de 2025, e a mudança de regime no Irã.

Com base nessa experiência, está convencido de que o regime dos aiatolás está, paradoxalmente, mais forte hoje do que antes do início da Operação Fúria Épica.

"O Irã no 17º dia [da guerra] é mais perigoso e mais poderoso do que antes de a primeira bomba cair", afirmou na terça-feira (17/3) ao canal de TV indiano India Today.

Quatro dias antes do começo da guerra, Pape lançou na plataforma Substack uma newsletter com o nome de seu modelo. "O termo 'armadilha da escalada' está agora se espalhando. Não é um acidente", afirmou.

Em vez de prestar atenção em alvos, armamento e supremacia aérea — elementos vitais em qualquer conflito contemporâneo —, o modelo volta-se para aspectos mais difusos da guerra: transição progressiva de menor para maior engajamento, ilusão de controle, escalada e desescalada.

"Análises geralmente explicam eventos. Poucas explicam em que fase um conflito está entrando — e o que isso significa antes que se converta em engajamento. A Armadilha da Escalada fornece a você as molduras para reconhecer quando a pressão passa de crise episódica a envolvimento estrutural", sustentou o autor.

Os elementos enfatizados pela Armadilha de Escalada têm uma característica comum: encontram-se na encruzilhada entre guerra e política, terreno no qual predomina a incerteza, de acordo com o cientista político.

"A Armadilha de Escalada não quer dizer simplesmente que as guerras ficam maiores. Quer dizer que os esforços para controlar um conflito podem torná-lo mais difícil de controlar", afirmou.

Modelo serve especialmente para a realidade dos EUA

Professor do Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Érico Duarte afirma que o modelo da Armadilha de Escalada é uma síntese da tese desenvolvida por seu autor na obra Bombing to Win: Air Power and Coercion in War — ("Bombardeando para vencer: poder aéreo e coerção na guerra", em tradução livre), livro publicado em 1996, sem edição brasileira.

"É um modelo que serve especialmente para informar o público americano sobre os custos que o Estado terá ao investir ou abandonar uma guerra", descreve.

Entre os limites do modelo, Duarte cita o papel irrelevante atribuído à situação política que antecedeu o conflito e a dificuldade de ser aplicado a outros países além dos EUA. "A Armadilha de Escalada não contempla, por exemplo, a situação de Israel diante do Irã", assinala o professor.

A guerra no Golfo Pérsico, segundo Duarte, tem várias camadas. Uma delas é o envolvimento norte-americano. Outra é a participação de Israel. Deve-se considerar também, ele diz, o papel de países como as monarquias do Golfo Pérsico, a Turquia e até mesmo nações mais distantes como o Brasil.

"Como os EUA são a principal potência envolvida na guerra, são obrigados a absorver todos os custos e pressões de outros países — aliados, nem tão aliados ou rivais — sobre os custos imediatos ou de longo prazo dessa guerra", afirma.

Segundo Duarte, os Estados Unidos já entraram em modo de controle e redução de danos no Golfo Pérsico e dificilmente evoluirão para um envolvimento em larga escala como ocorreu no Afeganistão e no Iraque.

"Os EUA estão partindo para uma política de acomodação. Até podem aumentar as ameaças midiáticas e discursivas, mas não acho que queiram escalar a guerra do ponto de vista material."

Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba e pesquisador do Observatório de Capacidades Militares e Políticas de Defesa, Augusto Teixeira aponta dois pontos fortes do modelo de Pape: a ênfase os limites do poder aéreo na produção de vitória e a definição das operações terrestres como estágio seguinte de escalada por parte da potência agressora.

No caso da Guerra do Irã, diz Teixeira, evitar a escalada implicaria reduzir o alcance dos objetivos políticos, oferecendo a Trump o que vem sendo chamado de "off-ramp", ou saída estratégica, algo que permita ao presidente americano declarar vitória sem a realização de todos os propósitos cogitados no início da ofensiva.

Teixeira afirma que o aspecto crítico abordado pela Armadilha de Escalada é a relação entre os objetivos políticos e os níveis estratégico e tático.

"Eles têm de ser claros e relativamente delimitados para que o poder militar possa persegui-los. A mudança de objetivos políticos pode tornar complicado o ajuste de instrumentos militares para sua consecução", diz Teixeira.

O pesquisador enfatiza também a disparidade das métricas de sucesso militar em nível tático (entre as quais inclui as mortes de líderes políticos e chefes militares) e estratégico, que define como "a ponte entre o uso da força no campo de batalha e os efeitos para produção das condições políticas desejáveis".

"Quais são as condições políticas desejáveis para os Estados Unidos, aquilo que se chama popularmente de 'endgame' [pontuação ou meta que define a conclusão de uma partida esportiva]?", questiona Teixeira.

Para o professor, o presidente dos Estados Unidos e seus auxiliares têm se referido a múltiplos objetivos políticos, da mudança de regime ao enfraquecimento da capacidade militar iraniana e ao fim de seu programa nuclear.

"A Armadilha da Escalada está intimamente ligada à característica do objetivo que Trump escolher como definitivo. Se for um objetivo minimalista, como a degradação da capacidade de projeção de força militar do Irã, ele conseguirá argumentar que, uma vez alcançado esse propósito, é possível retrair [a ação norte-americana contra o Irã]."

Teixeira afirma que toda guerra demanda estratégia, ou seja, planejamento militar de alto nível para atingir um determinado fim. "O problema é que estratégia é algo jogado por dois atores. O outro também tem direito de fala e vai reagir a fim de impedir que se realize", argumenta.

No caso do Irã, acrescenta, travar uma guerra defensiva para manter o regime no poder tem vantagens evidentes: se a República Islâmica sobreviver ao conflito, seus partidários poderão declarar vitória estratégica.

Custos da guerra são mais baixos para o Irã, diz pesquisador

Segundo Ricardo de Toma, pesquisador pós-doutoral do Instituto Meira Mattos da Escola de Comando e Estado-maior do Exército (Eceme), o modelo de Armadilha de Escalada é aplicável à Guerra do Irã, mas apenas parcialmente.

"Os Estados Unidos e Israel executaram com eficácia uma fase inicial de decapitação da cadeia de comando e de negação da capacidade de retaliação, concentrando-se nos lançadores de mísseis, fato inclusive celebrado por Trump. O problema é que o recrudescimento e a continuidade dessa situação já ameaçam uma evolução para uma guerra regional", afirma.

A Armadilha de Escalada manifesta-se, segundo De Toma, no alastramento de ataques com mísseis e drones pelo Irã contra os países vizinhos. "Esse desdobramento amplia os custos políticos e estratégicos da operação, que são consideravelmente mais baixos para o Irã", observa.

De acordo com De Toma, o modelo de Pape captura a lógica, mas não a geometria específica do conflito atual, no qual é o Irã que, enfraquecido militarmente, recorre a retaliações assimétricas "para evitar uma derrota percebida como total".

Segundo o pesquisador, o presidente dos Estados Unidos ocupa um papel triplo no conflito: decisor estratégico, ator comunicacional e fator de imprevisibilidade.

O fato de Trump ter oferecido justificativas múltiplas e contraditórias para a guerra acabou contrariando os próprios objetivos externos de seu movimento Make America Great Again, mais isolacionista e avesso à participação americana em guerras externas.

"Essa ambiguidade narrativa [de Trump] é disfuncional: impede a formação de coalizões internacionais, fragiliza a legitimidade da operação e incrementa consideravelmente os custos para os Estados Unidos."

De Toma observa que nenhum outro país-membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) além dos Estados Unidos atacou diretamente o Irã.
"No Irã, o papel de Trump é o de um presidente que conduz uma guerra de alta intensidade sem doutrina estratégica coerente, substituindo a clareza de objetivos pela intimidação retórica."

O desastre de Trump no Oriente Médio https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/oriente-medio-trump-atira-no-proprio-pe.html 

Humor de resistência

Hector 

Postei nas redes

Ataques do Irã causam danos de R$ 4,2 bilhões a bases dos EUA no Oriente Médio, mas Trump continua dizendo que "venceu" a guerra. 

A Guerra EUA x Irã e Clausewitz https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_5.html 

Mídia reacionária

Há franco-atiradores em Brasília e eles se escondem em redações
Aliança de defesa da democracia forjada sobre as ruínas da Praça dos Três Poderes era frágil e já não existe
Luis Costa Pinto/Liberta     

As cenas de selvageria e boçalidade de hordas de golpistas transtornados, quebrando as sedes dos três poderes da República – o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o edifício principal do Supremo Tribunal Federal –, naquela tarde infame de 8 de janeiro de 2023, deveriam estar gravadas em ouro, prata e bronze nas retinas dos jornalistas brasileiros e de quem lhes paga o salário ou viabiliza o exercício profissional. Não estão. O preço a ser pago por essa rápida desmemória será alto e, estimo, fatal.

Há que lembrar aos que rápido esqueceram os arrancos e coices de Jair Bolsonaro, de todos os seus filhos, dos ministros e ministras dele e de muitos dos amigos do clã que sitiavam a Esplanada dos Ministério para saquearem os programas públicos e pilharem o Tesouro Nacional: desde a primeira hora da camarilha golpista no poder, foram suspensos ou modificados os rituais de transparência e de prestação de contas à população mediados pela imprensa. Vem dessa nobre missão dos jornalistas o substantivo “mídia” usado para designar o coletivo de veículos de comunicação, cujo papel central é mediar a relação entre governos (de quaisquer matizes), Estado e sociedade civil.

Coliseu a céu aberto

O chiqueirinho, cercadinho ou curralzinho (cada um chama como quiser aquela excrescência anacrônica, que há até tão pouco tempo tivemos como presença marcante em nossos noticiários, montada pelos taifeiros das três Forças Armadas diante do Palácio da Alvorada) foi uma espécie de micro Coliseu erguido a céu aberto.

O objetivo era lançar os jornalistas que cobriam política e o dia a dia de Brasília às feras pegajosas, andrajosas, todas agindo a soldo dos diretores de cena do bolsonarismo e das variadas denominações de igrejas evangélicas que ruminavam à sombra das alamedas onde grassava dinheiro público. As redes sociais, onde por definição e lógica a mediação dos jornalistas é dispensada e depauperada para que haja o contato direto entre detentores do poder e seu povo – e, de toda forma, a turma dos chiqueirinhos é povo de alguém –, deslegitimaram os veículos de comunicação como foros apropriados para dar notícia, reivindicar credibilidade e arrogar-se o papel de formador de opinião.

Durante os trágicos quatro anos de duração do mandato de Bolsonaro (pai), repórteres (em escala massiva as do sexo feminino) eram ofendidos, diuturnamente, por escroques de gabinete cumprindo o clássico roteiro das subcelebridades ou dos guardas da esquina em ditaduras que lograram degenerar o meio em que se implantaram. Mentiras e especulações ganhavam lançamentos solenes como se fossem políticas de Estado.

Recesso das almas

Naqueles tempos, os finais de semana em Brasília se tornaram infernais para os profissionais de mídia destacados para a cobertura palaciana. Sábado sim, outro não, atos de paradoxais “protestos a favor” eram convocados para que um bando de dementes marchasse desde a Praça das Fontes até a Avenida das Bandeiras, no Eixo Monumental. Domingo sim, outro também, um ajuntamento de militares desqualificados, reservistas de pijama, sentava praça na altura da Superquadra 208 da Asa Sul, no Eixo Estrutural da cidade (o popular Eixão) para grasnar platitudes bizarras, saídas do recesso das almas sebosas que povoam o espectro da extrema direita nacional.

Não é possível, nem plausível, imaginar que os repórteres pagos para falarem dos fatos da política, para analisarem a conjuntura, para discorrerem sobre a sempre tensa realidade brasileira, tenham apagado de suas memórias tamanha pandemia de boçalidade que vivemos. Contudo, apagaram. É o que se depreende pela velocidade e pelo diapasão com os quais foram normalizadas e assimiladas como naturais as estratégias de retorno à ribalta da turma que colocou a Nação face à tragédia.

Dois dos Três Poderes da República foram ágeis e assertivos na apuração dos crimes contra a democracia, a Constituição e o Estado de Direito cometidos em 8 de janeiro de 2023 no coração cívico de Brasília. O Executivo, o governo federal, correu para garrotear o golpe em curso, vencê-lo e prender em flagrante delito 1,8 mil criminosos: a massa de manobra usada pelos golpistas para destruir os palácios republicanos. O Judiciário, coordenado pelo Supremo Tribunal Federal, conduziu quase duas mil ações em paralelo, individualizou as condutas delitivas, determinou a ação de cada um dos presos no dia do golpe, julgou-os e sentenciou todos eles – desde reles obreiros do caos até os formuladores do ataque à democracia.

O Legislativo, o Congresso Nacional, depauperado de vergonha ou de grandeza institucional, meteu os pés pelas mãos, deixou que sobrevivessem células golpistas em seu interior e dentro do sistema político. Ali, vicejaram os brotos da estupidez antidemocrática, antirrepublicana, amoral e aética da extrema direita brasileira, que se renovou e ganhou forma. Ela sempre teve nome e sobrenome, Flávio Bolsonaro, a quem jamais os franco-atiradores da mídia autoproclamada profissional importunaram com a precisão dos rifles adquiridos e mantidos pelos donos dos veículos comerciais de comunicação.

Tendo chegado ao Senado em 2019 como um deputado estadual do Rio de Janeiro transfigurado em senador, em razão da conjunção histórica mal sã do ano eleitoral de 2018, o primogênito de Jair Bolsonaro escondeu-se sob a casca protetora que o fato de ser “filho do presidente” lhe conferia. Hibernou por todo o primeiro ano de governo do pai, como um embrião de dinossauro dentro do ovo. Na CPI da Pandemia, que podia ter se convertido em pedra de toque do impedimento administrativo do traste que governava o país com a ignorância de sua mente desgovernada e o peso dos coturnos sujos das Forças Armadas, Flávio Bolsonaro começou a quebrar a casa do ovo e ensaiou coordenar a defesa do governo. Não se saiu bem, mas, também não foi cobrado por suas responsabilidades como devia tê-lo sido.

Ovo da serpente

O ovo eclodiu em seu esplendor há cerca de seis meses, quando ficou claro que o Bolsonaro pai ficaria por um bom tempo cumprindo sentença em regime fechado ou domiciliar em razão do golpe de 2023 e tampouco recuperaria os direitos políticos em razão da tentativa de golpe contra as eleições de 2022. Daquele ovo chocado com o silêncio benevolente da parcela da imprensa brasileira que se diz “profissional”, que lança em sua própria direção autoindulgências plenárias a fim de fugir do inferno das cobranças pelos atos e omissões cometidos nos verões passados, revelou-se a serpente demoníaca: Flávio Nantes Bolsonaro.

Serelepe, a serpente que atende pela alcunha de “filho 01” do demônio, desembarcou em Brasília num já longínquo 2019 montado no cometa de investigações de estripulias. Era promoção de rachadinhas salariais no gabinete de deputado estadual numa órbita, lavagem de dinheiro numa franquia de marca de chocolate noutra; associações pontuais com milícias no Rio de Janeiro em trajetória paralela, auxílio na fuga da Justiça de um ex-funcionário, o celebérrimo Fabrício Queiroz, e mais um filão apuratório que nunca rendeu grandes investigações na imprensa que se diz profissional.

Ambientado na capital da República e confortável à sombra do mandato do pai, Flávio Bolsonaro comprou uma confortável casa de R$ 6,5 milhões no Lago Sul, lançando mão de um empréstimo no BRB sem lastro aparente de ter como pagá-lo. Em seguida, constituiu sociedade suspeita no ramo da advocacia com uma figura nefasta como Frederik Wassef, advogado sempre se misturando às figuras dos réus. A sociedade jurídica prescindia de ser “de fato”, posto que atuava “de direito” nos desvãos do Judiciário e era bússola à qual recorriam candidatos a magistrados que perseguiam indicações para si ou para outrem nos tribunais superiores. A ficha corrida é imensa e, no descrito aqui, não há menção ao exercício do mandato de senador em si.

Os snipers do jornalismo tupiniquim, protegidos pela armadura do “jornalismo profissional” forjada por eles mesmos, deixaram de apontar suas miras descalibradas para o coração da operação de poder que construiu e sustenta esta personagem nefasta, que hoje é ameaça real à democracia – Flávio Bolsonaro. Vencido o 8 de janeiro de 2023, aquele ponto fora da curva de assustadora ousadia registrado na História nacional, as miras foram reprogramadas para seguir o proverbial festival de cafajestices e recalques, que é a incompreensão da dimensão histórica e do protagonismo contemporâneo do ex-sindicalista e presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Mais atenção à realidade concreta! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minha-opiniao_26.html

20 março 2026

Palavra de poeta

Aprendiz

Adélia Maria Woellner     

Nasci de outras terras, 
vermelhas como a cor do sol 
da tarde 
anunciando estiagem. 
Foi longa e árida 
a viagem. 
Pés crestados 
na terra partida, 
ressequida 
de húmus e de vida. 
Porém, sobrevivi… 

Nasci de outras águas, 
fecundada fui 
no encontro das ondas com os rochedos. 
Por isso, 
cresci sem medos, 
mas parti os lábios 
no sal e no sol. 
Não pude sorrir, 
porém, sobrevivi… 

Surgi de outros ventos. 
Fui gerada em tufões, 
mas nasci do ventre da brisa. 
Rodopiei em rodamoinhos 
e fustiguei folhas, flores e frutos. 
Provei sabores 
doces e amargos… 
Corri mundos e não pude parar. 
Cansei, 
mas sobrevivi… 

Apareci assim, 
de repente, 
como salamandra entusiasmada. 
Vesti-me de cor e calor, 
lambi a casca da madeira seca 
e enxuguei o tronco úmido de lágrimas. 
Fogo incontrolado, 
querendo alcançar o céu, 
queimei e me consumi, 
vendo meu pranto arder ao léu. 
Mesmo assim, 
sobrevivi… 

Agora, sou como sou. 
Estou reaprendendo a viver.

[Ilustração: Tereza Costa Rêgo]

Leia também: "Bolas de vidro", poema de Cida Pedrosa  "https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_63.html