Quem controla as eleições na era digital
Internet libertou a circulação de ideias dos gastos e máquinas
eleitorais. Mas as big techs fragmentaram espaço público e passaram a definir
que grupos receberão quais mensagens. Só uma grande reforma do espaço digital
resgatará a democracia
Marcio Pochmann/Outras Palavras
A
migração das campanhas eleitorais para as plataformas globais mudou o destino
dos recursos eleitorais e concentrou, como nunca antes, o poder sobre a
circulação da informação. Proteger a soberania democrática exige transparência
sobre os algoritmos e garantias de que interesses privados não condicionem a
disputa política.
Durante
décadas, fazer campanha eleitoral no Brasil significava ocupar praças,
percorrer bairros, organizar comícios, distribuir panfletos e conquistar espaço
no rádio e na televisão. A política dependia da presença física, da mobilização
territorial e da capacidade de organização. Hoje, a disputa também acontece nas
telas dos celulares, nos vídeos curtos e nos aplicativos de mensagens.
Essa
transformação vai além da tecnologia. Mudou a forma de construir lideranças,
conquistar votos, distribuir recursos eleitorais e exercer poder. A questão já
não é apenas quem consegue falar com mais eleitores, mas quem controla os canais
de circulação da política, recebe o dinheiro das campanhas e define quais
mensagens alcançam milhões de pessoas.
A
internet abriu possibilidades antes impensáveis. Candidaturas com poucos
recursos podem publicar vídeos e conversar diretamente com apoiadores. A
popularidade digital tornou-se um ativo político, capaz de projetar lideranças
e alterar o equilíbrio de forças nos partidos. Mas seguidores não são votos,
nem visualizações significam necessariamente participação política. A audiência
precisa se converter em confiança, identificação e mobilização.
Mesmo sem
garantir vitórias eleitorais, o controle de grandes audiências amplia o poder
das candidaturas e das empresas que organizam a circulação dessa atenção. A
democracia ganhou novas vozes, mas a infraestrutura que as conecta à sociedade
está concentrada em poucas empresas globais.
Para onde vai o dinheiro das campanhas?
No modelo
tradicional, as campanhas combinavam comunicação de massa e mobilização
territorial. Gráficas, transportadores, profissionais de comunicação,
trabalhadores de rua e pequenos fornecedores recebiam parte dos recursos
eleitorais. Esse dinheiro circulava na economia local, remunerava
trabalhadores, movimentava pequenos negócios e sustentava atividades
temporárias.
O modelo
nunca foi perfeitamente igualitário, pois havia concentração de recursos e
desigualdade entre candidaturas. Ainda assim, o trabalho presencial permitia
que parte do dinheiro chegasse diretamente a trabalhadores e comunidades.
Com as
plataformas digitais, esse circuito se transforma. Publicar um vídeo pode
custar pouco, mas conquistar grande visibilidade pode exigir publicidade paga,
impulsionamento e serviços especializados. O custo de produzir mensagens
diminui, enquanto a disputa pela atenção pode absorver recursos cada vez
maiores.
As
prestações de contas à Justiça Eleitoral mostram que empresas como as big techs
estrangeiras passaram a receber recursos crescentes que evidenciam a relevância
econômica desse mercado. Parte do dinheiro antes destinada a trabalhadores de
campanha, gráficas, transportadores e pequenos fornecedores passa a remunerar
plataformas globais.
Muda,
assim, o destino de uma parcela dos recursos eleitorais. Alguns pagamentos
beneficiam empresas transnacionais e integram seus resultados internacionais,
com efeitos sobre a economia local diferentes daqueles gerados pela contratação
direta de trabalhadores e pequenos negócios.
Isso não
significa que o trabalho presencial tenha desaparecido ou que todo pagamento
digital seja remetido ao exterior. As contas eleitorais, isoladamente, não
permitem calcular o fluxo líquido de divisas. Para isso, são necessários dados
contábeis e fiscais sobre os destinatários efetivos dos pagamentos, a
tributação e as operações internacionais.
Precisamos
de informações que permitam avaliar se, e em que proporção, o dinheiro
eleitoral fortalece o trabalho e a economia nacionais ou remunera
infraestruturas empresariais globais.
Os algoritmos também disputam a política
As
plataformas digitais não são espelhos neutros da sociedade. Seus sistemas
selecionam, ordenam, recomendam e distribuem conteúdos segundo critérios
definidos pelas empresas. Esses mecanismos combinam interesses comerciais,
engajamento, características dos usuários, políticas de moderação e decisões automatizadas.
Isso não
prova que toda diferença de alcance decorra de favorecimento partidário
deliberado. Mas também não é razoável presumir que infraestruturas capazes de
influenciar a visibilidade de milhões de pessoas sejam neutras em seus efeitos
políticos.
As
grandes empresas de tecnologia têm estratégias comerciais, interesses
econômicos e escolhas sobre a organização de seus serviços. Decisões sobre
publicidade, moderação, recomendação e acesso afetam a circulação de ideias.
Mesmo sem uma ordem explícita para favorecer um partido, essas empresas podem
distribuir, recomendar, restringir ou remover conteúdos.
Quem
verifica se conteúdos equivalentes recebem tratamento equivalente? Quem
fiscaliza mudanças nos sistemas durante uma campanha? Como contestar uma
restrição de alcance quando seus critérios não são conhecidos?
Uma
empresa não precisa controlar diretamente um partido para influenciar uma
eleição. Basta que suas decisões sobre a distribuição da informação afetem, de
forma relevante e pouco transparente, as condições em que candidatos e ideias
chegam aos cidadãos.
Soberania digital é soberania democrática
A
soberania de um país não se resume ao controle do território e à autonomia de
suas instituições. Em uma sociedade conectada, depende também da capacidade de
compreender e fiscalizar as infraestruturas que organizam a informação, os
dados e a comunicação pública.
Um país
pode realizar eleições formalmente livres e, ao mesmo tempo, depender de
empresas estrangeiras para distribuir parcela expressiva das mensagens que
alimentam o debate eleitoral. Quando essas empresas controlam sistemas, dados e
critérios de visibilidade, sem que as instituições nacionais disponham de meios
suficientes para auditá-los, surge uma assimetria de poder que precisa ser
enfrentada.
Soberania
digital não significa fechar as fronteiras à tecnologia nem entregar ao governo
o controle das opiniões na internet. Significa submeter decisões privadas que
afetam a democracia à transparência, à fiscalização independente e às leis
nacionais.
A
regulamentação eleitoral brasileira já estabelece obrigações para a propaganda
digital e para conteúdos produzidos ou alterados com inteligência artificial. A
fiscalização, porém, precisa acompanhar a complexidade desse ambiente. Não
basta saber quanto foi gasto em anúncios, pois é necessário compreender os
sistemas de recomendação, as práticas de moderação e as mudanças que podem
afetar a circulação de conteúdos políticos.
A
dependência tecnológica torna-se um problema de soberania quando o país não
consegue avaliar autonomamente as infraestruturas que influenciam a vida
pública. A democracia não pode depender exclusivamente das informações que as
próprias empresas fiscalizadas decidem divulgar.
Quando a atenção vale mais que o debate
A
comunicação digital amplia as oportunidades de participação, mas também acelera
a disseminação de informações enganosas. A inteligência artificial permite
produzir imagens, áudios e vídeos sintéticos capazes de simular acontecimentos
e declarações. Identificar conteúdos manipulados e responsabilizar abusos são
medidas importantes para proteger a integridade eleitoral.
Outro
problema é a segmentação das mensagens políticas. Diferentes grupos podem
receber conteúdos distintos, selecionados conforme seus perfis e interesses.
Uma promessa feita a determinado público pode não ser confrontada com outra
divulgada a um grupo diferente. A segmentação aproxima candidatos de
preocupações específicas, mas também pode fragmentar o debate público.
Quando a
atenção se torna mercadoria e os algoritmos organizam sua distribuição, a
democracia fica exposta a incentivos comerciais que nem sempre favorecem uma
discussão plural e informada. O desafio não é condenar a tecnologia, mas
impedir que a lógica comercial se sobreponha às condições necessárias para uma
escolha eleitoral livre e consciente.
Democratizar os recursos e fiscalizar o poder
Enfrentar
esses desafios exige uma agenda de soberania digital democrática. O primeiro
passo é ampliar a transparência sobre os gastos eleitorais e os fornecedores
beneficiados. É necessário distinguir os recursos destinados à contratação de
trabalhadores e fornecedores locais daqueles pagos por serviços digitais, além
de investigar, com dados fiscais e contábeis, os fluxos financeiros
internacionais.
O segundo
é fortalecer a auditoria independente dos sistemas que distribuem conteúdos
políticos. Isso requer acesso regulado a dados relevantes, critérios claros de
recomendação, mecanismos de contestação e informações sobre mudanças capazes de
afetar o alcance das mensagens. A fiscalização deve seguir regras objetivas
para todas as candidaturas, sem transformar o Estado em árbitro discricionário
das opiniões políticas.
O
terceiro é ampliar a capacidade nacional de produzir conhecimento sobre a
sociedade digital. Sem dados confiáveis sobre a circulação de informações, a
concentração econômica e os efeitos das novas tecnologias, o país continuará
dependente das explicações fornecidas pelas próprias empresas que precisam ser
fiscalizadas.
O futuro da democracia não pode pertencer aos
algoritmos
A
passagem das praças às redes não tornou a política menos material. Por trás de
cada publicação há trabalho, infraestrutura, recursos financeiros e interesses
econômicos. Por trás dos algoritmos, há escolhas de projeto, critérios
operacionais e decisões empresariais com consequências sociais e políticas.
A
comunicação eleitoral tradicional tinha barreiras de acesso e mecanismos de
concentração. A comunicação digital ampliou as possibilidades de expressão, mas
criou novas dependências. O desafio não é restaurar o passado nem rejeitar a
inovação, mas garantir que o avanço tecnológico não reduza a autonomia da
sociedade para decidir seu próprio futuro.
A disputa
eleitoral já não ocorre apenas entre candidatos. Envolve também a
infraestrutura que distribui as mensagens, o dinheiro que a financia e os
critérios que determinam sua visibilidade.
Defender
a soberania democrática significa impedir que empresas, por maior que seja seu
poder tecnológico ou econômico, influenciem opacamente a disputa eleitoral sem
transparência e responsabilização. Significa também analisar os recursos de
campanha não apenas como despesas contábeis, mas por sua capacidade de gerar
trabalho, distribuir renda e fortalecer a economia nacional.
Democratizar
as campanhas do século XXI é assegurar não apenas o direito de falar. Mas
também o de conhecer, fiscalizar e contestar as estruturas que decidem quem
será ouvido e compreender quem recebe os recursos destinados a essa nova arena
pública.
Leia também - Marcio Pochmann: "O
Estado do século XXI" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/soberania-fragiliada.html