03 julho 2026

Minha opinião

Conflito sem limites
Luciano Siqueira   

A madrasta e o enteado brigam publicamente pelo espólio do ex-presidente presidiário.

Quais as divergências?

Algo sobre os rumos do país? Discrepância sobre a tática eleitoral? Discordâncias sobre possíveis alianças?

Nada disso.

É a briga pelo espólio político do chefe do clã antes que seja tarde. Personagens que jamais formaram um bloco homogêneo e indestrutível, sempre envoltos numa espécie de fogo de monturo interno, autofagia provocada pela ganância por espaço, recursos do fundo partidário e, se possível, protagonismo eleitoral.

Na verdade, a extrema direita como um todo não exibe um programa de governo claro com propostas para o país. Além disso, o senador Flávio Bolsonaro, em meio à arenga com a ex-primeira dama Michelle, envia carta ao presidente Trump implorando o adiamento do pacote tarifário contra a economia brasileira para após as eleições.

Complexo de vira latas explícito! Entreguismo da mais baixa categoria!

Bom ou ruim para o país?

Ótimo!

Por esse caminho o bolsonarismo tem menos chances de vitória nas eleições.

Lula será reeleito.

Imagem gerada por IA

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Duas faces da cena pré-eleitoral https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_01490491014.html 

Editorial do 'Vermelho'

PEC amplia entrega do controle BC ao sistema financeiro privado
O sistema monetário deve servir ao desenvolvimento nacional, em vez de subordinar-se ao capital financeiro e ao rentismo
Editorial do 'Vermelho'  

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 65, que amplia a entrega do Banco Central (BC) aos interesses privados, aprovada em 10 de junho último, pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, traz de volta uma antiga tese neoliberal, a fórmula mágica de “menos Estado e mais mercado”. A Lei Complementar nº 179, de 24 de fevereiro de 2021 instituiu a “autonomia” do BC, aprovada pelo governo de Jair Bolsonaro, período em que o Estado nacional sofreu um desmonte sem precedentes.

Foi uma vitória do capital financeiro e do rentismo, que passaram a exercer tutela direta sobre a gestão da política monetária do país. Agora, essa PEC concede ao BC também “autonomia” administrativa, contábil, orçamentária, financeira, operacional e patrimonial, “com ausência de vinculação a ministério ou a qualquer órgão ou sistema da administração pública e de tutela ou subordinação hierárquica”. Com outras palavras, um ente “soberano”, público, que passa a ser gerido por mãos privadas, sem qualquer vínculo com o Estado nacional, entrelaçado ao sistema financeiro.

A receita que atualmente vai para o Tesouro Nacional e ficaria, pela PEC, com o BC, aumentaria substancialmente o seu orçamento – essa receita foi de R$ 23,3 bilhões, ao ano, entre 2017 e 2025, enquanto o orçamento do BC foi de R$ 4,8 bilhões, ao ano, no mesmo período, e substituiria o atual modelo de orçamento definido pela Lei Orçamentária Anual (LOA). De acordo com a proposta, o BC passaria a reter, no seu orçamento, receita própria criada pela senhoriagem, termo técnico histórico de gestão financeira que, resumidamente, consiste no quanto do déficit público não rolado pela emissão de dívida é coberto com emissão de moeda.

O sistema de metas de inflação determina a quantidade de moeda em circulação, o financiamento monetário do déficit, a senhoriagem. O restante da necessidade de caixa do governo deve, então, ser financiado via títulos, remunerados pela taxa de juros. O termo é histórico, mas ganhou espaço desde a década de 1960 como diagnóstico dos custos da inflação.

Há um lucro do BC derivado da emissão de moeda, a diferença entre o valor de face do dinheiro criado e o seu custo de produção. Para imprimir uma cédula de R$ 100, por exemplo, o custo é de centavos. Ou seja: a emissão de um valor alto, recebido pelo BC, tem baixo custo. Essa diferença é a senhoriagem que, apossada pelo BC, criaria uma casta altamente remunerada, espécie de quarto poder sobrepondo aos demais poderes da República.

Ou seja: seria impor a lei do mais forte – no caso, o imenso poderio do sistema financeiro – sobre a soberania popular e o papel do Estado Democrático de Direito. Seria usurpar uma prerrogativa democrática em uma questão essencial para o interesse de todos: o controle privado de um meio essencial do processo produtivo e da sua regulação coletiva, portanto pública.

O Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central avaliou que a PEC traz em seu conteúdo uma série de riscos à atuação do BC, “colocando em xeque seu papel na formulação de políticas futuras e sua condição de instituição típica de Estado”. “Frente a este cenário, a categoria, após diversos debates e análises, em votação eletrônica, manifestou seu rechaço e indicou a necessidade de rejeição à matéria”, diz a entidade.

Um grupo de eminentes economistas – entre eles, Luiz Carlos Bresser-Pereira, ⁠Luiz Gonzaga Belluzzo, ⁠Paulo Nogueira Batista Jr. ⁠Leda Paulani – publicou um manifesto contra a PEC, afirmando que ela facilita a cooptação do BC pelo setor financeiro. A PEC cria independência seletiva: afasta o BC do controle democrático do Estado – Congresso, Tribunal de Contas da União (TCU) e o Executivo –, mas o mantém estruturalmente poroso às influências do mercado financeiro. Perdem-se os freios dos poderes constituídos e os canais de acesso do setor privado continuam abertos, diz o manifesto.

Afirma também que a PEC fragiliza a fiscalização, o controle social e a responsabilização do BC, que “passaria a se beneficiar institucionalmente de condições macroeconômicas, que deveria administrar em nome do interesse público, e não de seu próprio orçamento”. “E como a senhoriagem depende dos juros, o BC passaria a ter conflito de incentivos em relação à manutenção de juros elevados”, diz o texto.

Em artigo publicado no site Jota, intitulado Senhoriagem não é lucro: os riscos da PEC 65 para o Banco Central do Brasil, Camila Villard Duran – professora associada de direito da ESSCA School of Management e membro do grupo Mulheres na Regulação – e Edna Velho – servidora de carreira do BC, cedida ao Sindicato Nacional dos Funcionários do BC, no qual é diretora de Relações Externas – afirmam que, ao tratar o BC como uma entidade empresarial, a PEC “distorce sua natureza jurídico-política e compromete a transparência sobre o uso de uma das prerrogativas mais essenciais do Estado – o poder soberano de emitir moeda”.

O BC não é uma firma e não busca maximizar retornos, mas preservar a estabilidade da moeda e do sistema financeiro. A senhoriagem é uma consequência desse papel, não um objetivo per se, afirmam. “Se o BC pudesse reter a senhoriagem como receita própria, entraria em conflito com seu mandato de estabilidade de preços. Em contextos de alta inflação, a emissão de moeda e a senhoriagem aumentam, ampliando os recursos da própria instituição. Ao atrelar suas receitas à criação de moeda, a PEC introduz um incentivo perverso que distorce a função essencial do BC.”

Segundo elas, “converter a senhoriagem em fonte autônoma de financiamento seria como permitir que o Exército vendesse parte de sua monopolização da força para custear o quartel”. “Assim como a defesa nacional, a emissão monetária é uma função de soberania, e sua exploração financeira corroeria o princípio de que o poder público deve servir à sociedade – não a si mesmo.”

A mídia denomina de “pautas-bomba” um conjunto de projetos de lei que se aprovado pode resultar num custo anual ao governo de R$ 111 bilhões. Todavia, pouco se diz sobre essa PEC 65. Mas ela é, sim, também, uma “pauta-bomba”. Objetiva agravar e consolidar, a “autonomia” do BC.

Gabriel Galípolo, presidente do BC, apoia a PEC. Ao fazê-lo, desempenha um papel execrável contra os interesses da nação. Mas há um longo caminho ainda para que esse retrocesso seja aprovado. A PEC precisa ser aprovada em dois turnos pelo plenário do Senado Federal e depois seguir para a Câmara dos Deputados.

O governo Lula e sua liderança no Senado e na Câmara dos Deputados precisam promover uma mobilização para esclarecer a sociedade e impedir a progressão da PEC. Cabe ao campo patriótico, popular e democrático denunciar o seu conteúdo nefasto. A gravidade da medida exige também uma luta de ideias que esclareça ao povo sobre o que está em jogo.

Nas eleições, os/as brasileiros/as elegem uma candidatura e um programa de governo. Mas, quando o presidente toma posse, os fatores decisivos para o desenvolvimento e o emprego, como a política de juros, são decididos por um BC dito “autônomo”, à revelia do programa eleito nas urnas.

Impõe-se, em perspectiva, um choque nacional autêntico, via um amplo movimento social e político, para repor a soberania do voto popular sobre a condução do BC, por meio de sua reintegração plena à estrutura do Estado nacional.

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Por que os Estados Unidos querem atingir o Pix? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/trump-contra-o-pix.html

Fotografia

 

Luciano Siqueira

Cida: luta, consciência e afeto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_0343482442.html   

BuenosAires, o filme

 


Quando Buenos Aires viu “Buenos Aires”, de Tuca Siqueira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/buenos-aires-o-filme.html 

Bolha algorítmica

O pensamento crítico na era dos algoritmos
Romper a bolha algorítmica significa enfrentar o desconforto de sustentar uma opinião que não se encaixa perfeitamente no senso comum ou na lógica de uma determinada “tribo” digital.
Leandro Erre/Vermelho   

A ilusão da escolha e a reificação digital

Em termos técnicos, um algoritmo é apenas uma descrição matemática de um processo. No entanto, no capitalismo contemporâneo, eles se transformaram na infraestrutura invisível que filtra a realidade, selecionando a enorme quantidade de informação disponível e tomando decisões por nós. O algoritmo aprisiona e limita o pensamento, uma vez que delimita o nosso acesso a temas fundamentais de nossa vida.

Quando permitimos que uma fórmula matemática decida a próxima notícia que vamos ler, o próximo vídeo que vamos assistir ou a opinião que devemos ter sobre um fato político, nossa capacidade de escolha fica restrita a interesses que não são os nossos. Mais do que isso, estamos vivenciando o que se chama de reificação: o processo pelo qual relações sociais e humanas (como a comunicação, o debate e a formação de opinião) ganham o caráter de “coisas” independentes que passam a governar nossas vidas. O algoritmo, desenhado para maximizar a extração de lucro, reter a atenção e nos manter numa bolha que dita o que vamos pensar e como vamos viver. Ele não tem compromisso com a verdade ou com a profundidade, mas apenas com o engajamento. Ele prioriza o que choca e o que conforta.

Nesse cenário, resistir ao algoritmo não significa abandonar a tecnologia, mas recusar o que é imposto de forma passiva. É fazer escolhas ativas para preservar nossa soberania intelectual. É, nos termos de Paulo Freire, recusar a condição de objeto — de mero receptáculo passivo de depósitos informacionais — e assumir-se como sujeito que lê criticamente o mundo (Freire, 1970). O pensamento crítico tornou-se nossa principal forma de resistência na era do algoritmo.

 A leitura crítica do mundo: superação dialética do senso comum

Mas precisamos entender o que é o pensamento crítico, pois existe uma armadilha perigosa no debate sobre ele: reduzi-lo a um ceticismo genérico. Dizer que pensar criticamente é “questionar tudo” é abrir as portas para o cinismo paralisante e para teorias da conspiração. A dúvida pela dúvida não constrói; a crítica sem perspectiva é inócua e serve à manutenção do poder. ela apenas destrói e te aprisiona numa eterna negação sem rumo.

O pensamento crítico é, antes de tudo, uma postura intelectual que rompe com a absorção passiva dos conteúdos impostos pelo algoritmo, é uma leitura crítica do mundo — e essa leitura precede sempre a leitura da palavra (Freire, 2000). Isso significa que antes de “checar fatos” ou “verificar fontes”, precisamos compreender as condições materiais e históricas que produzem esses fatos.

É aqui que o materialismo histórico se torna uma ferramenta indispensável para a construção de um pensamento crítico, sendo um dos pilares de nossa independência intelectual. Ele nos ensina que as ideias — inclusive a desinformação e as “fake news” — não existem no vazio. Elas são produzidas por condições materiais específicas: o modelo de negócios das grandes plataformas de tecnologia, a concentração da propriedade dos meios de comunicação, a necessidade de extrair lucro através da retenção da nossa atenção. Pensar criticamente exige identificar essas raízes materiais, não apenas combater as ideias no plano abstrato. Parafraseando Max não basta explicar – ou entender – a realidade, é preciso transformá-la. A superação das oposições teóricas não é apenas uma questão de conhecimento, mas também uma exigência da vida concreta e prática.

Freire nos ensina que essa leitura crítica envolve dois movimentos simultâneos: a denúncia do que existe (a realidade injusta, a manipulação, a desinformação, o capitalismo desigual) e o anúncio do que ainda não existe (o mundo possível, a sociedade justa, o “inédito viável”, a superação do capitalismo) (Freire, 2000). Pensar criticamente, portanto, não é apenas desmontar mentiras, denunciar a desigualdade — é construir alternativas concretas para a superação desta realidade. É a passagem da constatação passiva ao projeto de transformação social.

O pensamento crítico não é um dom individual, mas uma construção coletiva e histórica. Ele se manifesta como a transição da curiosidade ingênua — aquela associada ao saber do senso comum — para a curiosidade epistemológica: uma curiosidade que se torna crítica e metodicamente rigorosa em sua aproximação ao objeto (Freire, 1996).

Essa passagem não é uma ruptura absoluta, mas uma superação dialética. A dialética nos ensina que o desenvolvimento do pensamento não se dá descartando o conhecimento anterior como puro erro, mas incorporando-o em formas mais ricas e concretas. A curiosidade do trabalhador que se pergunta por que seu salário não acompanha a inflação é a mesma curiosidade do cientista político que investiga a concentração de renda — o que muda é o rigor metódico. O senso comum “só se supera a partir dele e não com o desprezo arrogante dos elitistas por ele”.

A indústria cultural algorítmica

Por que a leitura crítica do mundo é decisiva na era digital? Porque o algoritmo funciona exatamente nos moldes daquilo que Freire chamou de educação bancária (Freire, 1970): deposita conteúdos em sujeitos passivos, sem diálogo, sem problematização. A timeline é o novo “banco” onde se depositam informações fragmentadas, que servem à dominação na medida em que impedem a visão de totalidade.

Mais profundamente, o ecossistema das redes sociais é a forma contemporânea da Indústria Cultural, conceito central desenvolvido pela Escola de Frankfurt. Adorno e Horkheimer mostraram como, sob o capitalismo monopolista, a cultura é destituída de seu potencial de expressão autêntica e passa a funcionar como mercadoria padronizada e massificada, destinada a estabilizar a ordem social. A lógica industrial se traduz hoje nos algoritmos, que reproduzem a mesma dinâmica: oferecem a ilusão de diversidade infinita, mas, na prática, aprisionam os usuários em bolhas de retroalimentação, reforçando o conformismo e neutralizando o pensamento crítico (Adorno e Horkeimer, 1944).

A Escola de Frankfurt nos alerta para o perigo da razão instrumental — a lógica cega da eficiência e do cálculo (a própria essência do algoritmo) que se divorcia dos fins éticos e humanos. Essa racionalidade transforma tudo em objeto de manipulação, reduzindo pessoas a estatísticas e interações a métricas de engajamento, sem qualquer preocupação com emancipação ou justiça. Trata-se do desdobramento da mesma matriz de pensamento que, historicamente, atingiu seu ápice destrutivo ao viabilizar sistemas tecnicamente eficientes, mas moralmente devastadores, como o nazismo ou a produção da bomba atômica (Adorno e Horkeimer, 1944).

Em contraste, a razão crítica questiona os fins e não apenas os meios: indaga a serviço de quem está essa eficiência, quem se beneficia do tempo que passamos rolando uma tela e se tais estruturas promovem autonomia ou apenas reforçam a alienação. Enquanto a razão instrumental naturaliza o conformismo e a passividade, a razão crítica denuncia as contradições e busca abrir espaço para a reflexão e a transformação social.

Freire já antecipava essa preocupação em relação à mídia de massa:

“Não temo parecer ingênuo ao insistir não ser possível pensar sequer em televisão sem ter em mente a questão da consciência crítica. É que pensar em televisão ou na mídia em geral nos põe o problema da comunicação, processo impossível de ser neutro.” (Freire, 1996). 

Se substituirmos “televisão” por “algoritmo”, a advertência de Freire se torna ainda mais urgente. O poder dominante leva uma vantagem sobre nós: “para enfrentar o ardil ideológico de que se acha envolvida a sua mensagem na mídia, nossa mente ou nossa curiosidade teria de funcionar epistemologicamente todo o tempo. E isso não é fácil” (Freire, 1996). Não é fácil, mas é necessário.

A anatomia do argumento: ferramentas objetivas

A leitura crítica do mundo, porém, precisa de ferramentas. A curiosidade epistemológica exige rigor metódico. É aqui que a lógica informal nos instrumentaliza (WALTON, 2012). Pensar criticamente é a capacidade de qualificar se estamos diante de um bom ou de um mau argumento. Na lógica informal, um argumento é um conjunto de premissas (fundamentos) que sustentam uma conclusão.

Para testar a solidez de um discurso, seja a fala de um político ou a manchete de um jornal, precisamos aplicar cinco critérios fundamentais:

Critério

Pergunta-chave

Exemplo de violação

Validade

A estrutura lógica (dedutiva) funciona?

A conclusão simplesmente não decorre das premissas apresentadas.

Força

O cenário faz sentido no mundo real?

O argumento se baseia em uma generalização apressada ou amostra insuficiente.

Clareza

Os termos e conceitos são precisos?

O uso de palavras ambíguas ou polissêmicas (como “Liberdade”) sem definir para quem.

Verdade

As premissas são factualmente verdadeiras?

Uso de dados inventados, estatísticas distorcidas ou fake news.

Plausibilidade

A afirmação é compatível com o conhecimento comum e com as evidências disponíveis?

A premissa adotada é mais difícil de aceitar e acreditar do que a própria conclusão.
 

A aplicação rigorosa desses critérios é, em última análise, o exercício prático daquilo que a Escola de Frankfurt conceituou como Razão Crítica. Na sociedade contemporânea, o discurso público é frequentemente colonizado pela Razão Instrumental — uma lógica cega que prioriza a eficácia técnica, o cálculo político e o engajamento a qualquer custo, esvaziando-se de compromissos éticos ou humanos. A Razão Instrumental produz discursos esteticamente polidos e tecnicamente eficientes, mas que operam violando deliberadamente a clareza, a força ou a verdade para induzir o conformismo e neutralizar o debate (Adorno e Horkeimer, 1944).

Quando um discurso viola esses critérios propositalmente para manipular o público, estamos diante de uma falácia. É o caso do argumento Ad Hominem, que ataca a pessoa em vez de debater a estrutura lógica do argumento, ou da falácia do Espantalho, que distorce a posição do oponente para enfraquecer a verdade dos fatos. Identificar essas armadilhas por meio da razão crítica é o primeiro passo para desmascarar a racionalidade instrumental e escapar da manipulação cotidiana.

A crítica em três camadas

A desinformação não é um acidente de percurso; é um sintoma estrutural. Por isso, a nossa análise não pode parar na superfície. Ela exige três camadas de profundidade:

camada lógica é onde aplicamos os cinco critérios acima. Mas, só ela não basta.

Precisamos da camada dialética: É aqui que investigamos as mediações entre o objetivo e o subjetivo, perguntando: quem fala? De onde fala? Quais interesses de classe estão subjacentes a esse discurso? Aqui lidamos com uma forma de imposição da dominação que não usa a força. A ideologia não opera por meio de uma imposição violenta e explícita; sua maior força reside na capacidade de colonizar o cotidiano e moldar o vocabulário comum, fazendo com que a dominação e as desigualdades sejam assimiladas como a ordem natural das coisas. É no nível da linguagem que o intolerável é domesticado: quando a perda de direitos e a precarização brutal do trabalho são rebatizadas docilmente como “empreendedorismo”, a sobrevivência passa a ser vista como escolha, e o poder se reproduz sem contestação. Diante disso, ir além das estruturas aparentes exige o que Freire propõe: a leitura crítica do mundo como uma “prática educativa crescentemente desocultadora de verdades. Verdades cuja ocultação interessa às classes dominantes” (Freire, 1993).

É necessário, ainda, a camada histórica: Por fim, compreendemos que as ideias não brotam no vazio. Elas são a expressão superestrutural de uma base material concreta. Entender o contexto histórico e econômico — ou seja, recorrer ao materialismo histórico — que gerou um argumento, moldou uma timeline ou arquitetou uma narrativa política é o passo definitivo para desnaturalizá-los e, finalmente, desmontá-los.

Estratégias práticas de resistência

Como construir essa resistência sem que ela se torne um fardo exaustivo? O pensamento crítico deve ser uma prática diária, uma passagem constante do “senso comum” para o “bom senso” gramsciano (uma visão de mundo coerente e emancipatória). Em termos freirianos, é a promoção permanente da curiosidade ingênua à curiosidade epistemológica. Algumas estratégias práticas ajudam nesse processo:

Aceleração intencional da dúvida: Crie o hábito de pausar por 10 segundos antes de compartilhar qualquer conteúdo que cause uma reação emocional extrema (raiva ou validação absoluta). A emoção imediata é o combustível do algoritmo. Lembre-se: “é preciso contar de um a dez antes de fazer a afirmação categórica” (Freire, 1996).

O teste da recomendação: Quando a plataforma sugerir o próximo vídeo ou texto, recuse ativamente e busque um tema diferente por conta própria. Quebre o padrão que o algoritmo desenhou para você. Isso é recusar a “domesticação” e exercer a autonomia.

Triangulação de perspectivas: Leia a cobertura de um mesmo fato político em veículos de linhas editoriais distintas. Anote mentalmente quais adjetivos e recortes cada um utilizou para moldar a narrativa. Freire nos lembra que “o papel do educador progressista é salientar que há outras ‘leituras de mundo’, diferentes da sua e às vezes antagônicas a ela” (Freire, 1992).

Sem superficialidades: Dedique tempo a textos longos e livros. A estrutura do livro exige fôlego e encadeamento lógico, o exato oposto da fragmentação das redes sociais. A leitura profunda é o exercício mais completo de curiosidade epistemológica.

Debate coletivo: Participe de algum clube de leitura (logo vou criar o Clube de Leitura Crítica), assine newsletter (como essa), enfim, busque informação com pessoas que tenham uma visão crítica de mundo.

A leitura do mundo antes da leitura da palavra: Antes de verificar se uma notícia é “verdadeira ou falsa”, pergunte-se: por que essa notícia está circulando agora? Quais condições materiais (materialismo histórico) permitem sua difusão? A quem interessa que eu sinta raiva ou medo diante dela?

A práxis como horizonte: denúncia e anúncio

Os desafios são grandes. Romper a bolha algorítmica significa enfrentar o desconforto de sustentar uma opinião que não se encaixa perfeitamente no senso comum ou na lógica de uma determinada “tribo” digital. É o exercício de pensar além das fronteiras impostas, mesmo quando isso gera estranhamento ou resistência. Quem desenvolve o pensamento crítico adquire maior capacidade de concentração, repertório argumentativo robusto e tolerância à complexidade, conseguindo enxergar a realidade em sua totalidade.

Mas o pensamento crítico não é um fim em si mesmo, nem um mero exercício acadêmico de vaidade intelectual. Seu objetivo final é a práxis — a união indissociável entre a reflexão teórica rigorosa e a ação prática para transformar a realidade. Não pensamos criticamente apenas para entender o mundo, mas para mudá-lo.

Paulo Freire sintetiza isso com precisão: a leitura crítica do mundo envolve, simultaneamente, a denúncia da realidade injusta e o anúncio do que ainda não existe (Freire, 2000). A denúncia sem o anúncio é cinismo. O anúncio sem a denúncia é ingenuidade. O pensamento crítico maduro articula os dois: desmonta a mentira e constrói a alternativa. “A denúncia e o anúncio criticamente feitos no processo de leitura do mundo dão origem ao sonho por que lutamos” (Freire, 2000).

Ao exercitarmos o pensamento crítico assumimos o controle de nossas escolhas, recuperamos nossa autonomia e pavimentamos o caminho para uma sociedade genuinamente livre.

Mas não basta pensamento crítico isolado, a essência do pensamento crítico está na sua síntese coletiva. É no debate que construímos alternativas melhores para os problemas reais. O pensamento crítico não é fruto de alguma “mente iluminada” que vai “descobrir” soluções mágicas. Nas palavras de Paulo Freire: ninguém se conscientiza sozinho — nos conscientizamos em comunhão, mediatizados pelo mundo.

Mais isso é assunto para outro dia.

Referências

Adorno, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. A Indústria Cultural: o esclarecimento como mistificação das massas. In: ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

Freire, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.

Freire, P. Pedagogia da Indignação: Cartas Pedagógicas e Outros Escritos. São Paulo: UNESP, 2000.

Freire, P. Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

Freire, P. Política e Educação. São Paulo: Cortez, 1993.

[11] Freire, P. Pedagogia da Esperança: Um Reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

Walton, Douglas N. Lógica Informal: um manual de argumentação crítica. São Paulo: Martins Fontes, 2012.

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Competente, corajosa, múltipla https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/combativa-sem-perder-leveza-jamais.html

Sylvio: "de olho na Copa"

A Copa do Mundo de futebol é o mais importante evento esportivo do mundo, mobilizando povos de todos continentes. Como ferrenho seguidor do football association, como diziam os antigos comentaristas, esta é, se não me engano, a décima quarta Copa que acompanho, sempre com muita emoção. 

Sylvio Belém   

A Copa do Mundo agora e no passado https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_0995517251.html 

Minha opinião

O futebol em muitos invólucros
Luciano Siqueira 

Se na Copa do Mundo tudo visa o lucro, o futebol nos chega em múltiplos invólucros. Um deles é uma propaganda absurda das chamadas apostas, apresentadas por personalidades extremamente simpáticas, principalmente ex-atletas ou atletas em atividade, de renome e reconhecida simpatia.

Paradoxalmente, mas compreensível pela falta clássica de escrúpulos, o mesmo complexo midiático dominante noticia a epidemia do endividamento que assola milhões de famílias e sem o menor pudor fatura milhões veiculando a propaganda nociva. 

O lucro acima de tudo.

Se comentar, identifique-se.

Como o capitalismo sequestrou a Copa e o sonho de uma criança  https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/futebol-argentario.html