25 junho 2026

Minha opinião

Na Copa tudo é mercadoria 
Luciano Siqueira  

"A riqueza das sociedades em que domina o modo de produção capitalista aparece como uma 'imensa coleção de mercadorias'", escreveu Karl Marx. 

A coleção de mercadorias na Copa do Mundo de futebol é quase infinita. 

Tudo, tudo mesmo serve ao caríssimo merchandising. Vender é o que importa — mesmo que se alimente uma falsa euforia e incomensurável subjetivismo na análise dos fatos. 

Pelo menos na mídia brasileira, a paixão se sobrepõe à realidade. Já não somos os melhores, porém importa parecer que continuamos a ser. 

O tempo excessivo dedicado ao evento resulta encher linguiça em todos os horários. 

O merchandising se expressa nos mínimos detalhes, até no botão da blusa dos repórteres. 

Para quem gosta de futebol, um chute no saco. 

[Ilustração Peter Hodgkinson]

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Como o povo brasileiro transformou o futebol em símbolo nacional https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/nosso-futebol-ja-foi-o-melhor.html 

Humor de resistência

Aroeira

Como o povo brasileiro transformou o futebol em símbolo nacional https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/nosso-futebol-ja-foi-o-melhor.html 

Palavra de poeta

NARCISO CEGO
Thiago de Mello  

Tudo o que de mim se perde
acrescenta-se ao que sou.
Contudo, me desconheço.
Pelas minhas cercanias
passeio — não me frequento.

Por sobre fonte erma e esquiva
flutua-me, íntegra, a face.
Mas nunca me vejo: e sigo
com face mal disfarçada.
Oh que amargo é o não poder
rosto a rosto contemplar
aquilo que ignoto sou;
distinguir até que ponto
sou eu mesmo que me levo
ou se um nume irrevelável
que (para ser) vem morar
comigo, dentro de mim,
mas me abandona se rolo
pelos declives do mundo.

Desfaço-me do que sonho:
faço-me sonho de alguém
oculto. Talvez um Deus
sonhe comigo, cobice
o que eu guardo e nunca usei.

Cego assim, não me decifro.
E o imaginar-me sonhado
não me completa: a ganância
de ser-me inteiro prossegue.
E pairo - pânico mudo -
entre o sonho e o sonhador.

[Ilustração: Pablo Picasso]

Leia também: "Laços", poema de Marcelo Mário de Melo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/palavra-de-poeta_062988253.html 

Dica de leitura

O outro lado do conflito   

Transcrevi aqui no blog matéria publicada no site Outras Palavras, "A guerra e a paz, vistas de Teerã".

O texto é relativamente longo, mas de fácil leitura porque instigante. Trata-se de uma entrevista com o iraniano Mohammad Marandi, que analisa a complexa geopolítica do Oriente Médio a partir da perspectiva estratégica da República Islâmica do Irã.

Importa saber essa versão, pois tudo ou quase tudo o que sabemos, no noticiário cotidiano, é a versão difundida pelos Estados Unidos através de agências de notícias useira e vezeiras em distorcer a realidade.

O entrevistado argumenta que, longe de agir por mero impulso ideológico, o governo iraniano calibra suas ações militares e diplomáticas com base em uma lógica pragmática de sobrevivência do regime e dissuasão. Tenta expandir sua influência geopolítica por meio de forças aliadas em países como o Líbano, o Iêmen e a Síria. Encara o desafio de equilibrar a retórica beligerante de confronto com a necessidade de evitar um conflito direto e destrutivo em larga escala. Ressalta o papel da diplomacia secreta e das tentativas de normalização de laços com vizinhos árabes, na busca por estabilidade regional que favoreça sua soberania. O desafio de compreender o Irã não como um ator irracional, mas como uma potência que joga um xadrez político complexo para garantir seu espaço em uma nova ordem multipolar. 

Confira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/ponto-de-vista-do-ira.html

[LS]

Enio Lins opina

Escândalo Master, apuração e diversionismo – capítulo 2
Enio Lins   

DEFENDER QUE TODOS sejam exemplarmente punidos, caso provada vinculação em casos como o do Banco Master, mesmo gente de grande valor, é um gesto ético básico. Imparcialidade à toda prova: Errou, pagou. Entretanto, é-se indispensável não perder o foco do conjunto de fatores envolvidos para não se tornar massa de manobra.

ANTES DE BATER O MARTELO, preste muita atenção em torno do acontecido, e pergunte-se quem ganha com um veredicto antecipado pelo zum-zum-zum. Capoeira mata um, diz a canção. Mas quem morrerá pelo rabo de arraia? É ingenuidade crer que a defesa radical da punição para todos garante que assim seja. Ser duro não é ser otário. “Hay que endurecerse, pero sin entregar la rapadura jamás!” poderia ter dito Che Guevara. No caso da apuração da suposta participação de Jacques Wagner em algum esquema Master, os procedimentos devem ter passos semelhantes e proporcionais aos principais e notórios envolvidos, como os Bolsonaros, Campos Neto e outros Master-chefes.

SUSPEITO DO RECEBIMENTO
 de algo como R$ 3,5 milhões, Jacques Wagner teve a PF procedendo busca e apreensão em seu domicílio. Wagner foi elevado pela chamada “grande mídia” a uma posição de visibilidade semelhante ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que está sob suspeita de ter abocanhado cerca de R$ 155 milhões (US$ 30 milhões). E Wagner está sendo injustamente comparado a Bolsonaro Júnior 01, que – confessadamente – mordeu R$ 61 milhões (US$ 10.6 milhões) como primeira parcela do valor de R$ 134 milhões (US$ 24 milhões) apalavrado – e gravado – com Vorcaro. E o mais grave: Alcolumbre e Flavito seguem, até o fechamento dessa coluna, invisíveis para o ministro André Mendonça, responsável no STF por destrinchar o Master.

E NÃO É QUE ESQUECERAM 
do Roberto Campos Neto? The Bob Fields' Grandson presidiu o Banco Central de 28 de fevereiro de 2019 até 1.º de janeiro de 2025, seis anos que correspondem exatamente aos seis anos do avassalador e criminoso sucesso do Banco Master. Como divulgado pela mídia, o Master (chamado Máxima até 2021), sob o comando de Daniel Vorcaro, saltou inexplicavelmente “da 91ª colocação no ranking de tamanho dos bancos brasileiros, com apenas R$ 3,47 bilhões de passivos (recursos captados) em 2019, para a 20ª posição, com R$ 83,18 bilhões, em março de 2025 - o último dado disponível, a poucos meses antes de quebrar” conforme
 artigo de Alvaro Gribel publicado o Estadão, em 8/3/2026. Esses seis longos anos de fraudes escandalosas passaram invisíveis e inaudíveis aos olhos fechados e ouvidos moucos de Campos Neto, providencialmente mudo – até hoje – sobre esse tema. E quede a PF pisando na soleira da porta dele?

GRAÇAS AO INTERCEPT BRASIL 
veio à público a negociata entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, um mimo na ordem de R$ 134 milhões, dos quais R$ 61 milhões repassados comprovadamente. Se não fosse essa reportagem sobre a mutreta Master/Dark Horse, publicada antes da ação sobre o petista senador da Bahia, o judeu Jacques Wagner estaria hoje crucificado, sozinho, num auto-de-fé autorizado pelo ministro André Mendonça. E destaque-se que o caso Wagner trata de uma suspeita, não comprovada, dele ter ganhado um apartamento de um empresário que seria sócio de Vorcaro. Pela suposição de ter recebido 1,9% do valor negociado por Vorcaro com Flávio Bolsonaro, Jacques Wagner não pode ser absolvido por antecipação, isto é certo. Mas, muito menos, pode ser usado como bode expiatório para anistiar os responsáveis pela roubalheira do Master.

QUE A INVESTIGAÇÃO 
se estenda até os principais suspeitos – família Bolsonaro, Partido Liberal, Ibaneis Rocha, Cláudio Castro... e, principalmente, Roberto Campos Neto – com a mesma rigorosidade que brindou o senador Wagner. Nem mais, nem menos. E que a Justiça seja feita.

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Leia também: Escândalo Master, apuração e diversionismo – capítulo 1 https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/enio-lins-opina_0830324009.html

24 junho 2026

Postei nas redes


Sim, a seleção brasileira melhorou muito e mereceu vencer, mas não exageremos. A Escócia joga esquematicamente, sem criatividade. 

Qual Copa do Mundo?

A última barreira da lógica no futebol
Será que um dia teremos uma grande surpresa nas Copas? Propagandas de apostas invadem as transmissões dos jogos
Tostão/Folha de S. Paulo   

Na Copa 2026, como se esperava, acontece uma maciça propaganda comercial, especialmente de casas de apostas, até na parada para hidratação durante as partidas.

Certamente crescerão o número de viciados e os problemas mentais e financeiros. Muitos pobres gastam na jogatina o dinheiro reservado para necessidades essenciais. É fácil apostar, basta um clique. A mensagem no final dos anúncios comerciais que diz "Jogue com responsabilidade" é um cínico conselho, como já escreveu Sérgio Rodrigues, colunista desta Folha.

As enquetes, manchetes de recordes, estatísticas e comparações, muitas inúteis, com tantas variáveis, aumentaram bastante no Mundial. É a máquina de informações. As estatísticas costumam ser importantes, mas é preciso olhar, com profundidade, para o campo e para os números, como faz o colunista PVC.

Contra o Haiti, Carlo Ancelotti colocou Rayan porque ele tem características parecidas às de Raphinha, que entrava com velocidade em diagonal para receber a bola nas costas dos defensores adiantados.

Nesta quarta (24), contra a Escócia, que deve ter uma marcação recuada, perto da área, Luiz Henrique pode ser a melhor opção, por atuar aberto. Outra alternativa é escalar um centroavante.

Ancelotti deve manter o trio no meio-campo, com Casemiro centralizado, Bruno Guimarães de um lado e Paquetá do outro. Pela esquerda, Paquetá, com seus precisos lançamentos, facilita para Vinicius Junior. Além disso, Matheus Cunha, pelo meio e mais próximo à área adversária, não precisa voltar para marcar pela esquerda. O meio-campo com três fica mais preenchido, marca e constrói com mais eficiência.

As seleções, como se esperava, na média, estão mais intensas, compactas, pressionando mais para recuperar a bola no campo do adversário e fazendo mais gols. A Argentina foge do lugar comum, pois prefere marcar mais no meio campo em vez de pressionar, além de não ter pontas abertos, rápidos e dribladores.

Messi fez todos os cinco gols marcados pela seleção. Além da enorme criatividade, precisão técnica e da grande capacidade de definir rapidamente as jogadas, de tornar simples o que é complexo, possui a sabedoria de esperar o momento certo para brilhar. Como ele sabe? Sabendo.

Existe um saber inconsciente que antecede o raciocínio. Os neurologistas chamam de inteligência cinestésica.

Na Copa de 1994, nos EUA, há 32 anos, os americanos e os japoneses diziam que iam investir bastante no planejamento, na ciência esportiva, na formação de jogadores e que em 20 a 30 anos se tornariam uma potência mundial no futebol.

As duas e várias outras seleções evoluíram bastante, possuem ótimas equipes e excelentes jogadores, mas não chegaram a ponto de ser candidatas ao título da Copa. Faltam os craques. Por quê?

Os motivos devem ser culturais, sociais e genéticos. Parafraseando a musica de Noel Rosa, samba e futebol não se aprendem no colégio. Craques não são apenas os atacantes que fazem muitos gols.

Nos outros campeonatos com jogos mata-mata espalhados pelo mundo, como a Copa do Brasil, de vez em quando acontece uma surpresa, a conquista do título por uma equipe que não estava entre as favoritas. Por que nunca aconteceu em uma Copa do Mundo? Penso que a razão principal seja a seriedade com que as grandes seleções se preparam para a maior competição do futebol mundial.

Será que um dia teremos uma grande surpresa? É a última barreira da lógica a ser vencida pela imprevisibilidade do futebol.

[Ilustração: Nelson Leirner]

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Futebol: estratégia e arte https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/futebol-estrategia-e-arte.html