05 maio 2026

Palavra de poeta

Auden e Yeats
Antonio Cícero      

Eu exaltaria Auden,
viajante atormentado,
dialético e bizarro,
e lhe faria uma ode
se a tanto minha perícia
e minha audácia bastassem.

Ou quem sabe, Yeats, numa tarde
feito esta, tão vadia,
possa a leitura da tua
poesia, pura Musa,
inspirar a minha arte
se eu lhe implorar: Poesia,
na prisão destes meus dias
ensina-me a elogiar-te.

[Ilustração: Gilvan Samico]

Leia também "Tudo muda", poema de Berthold Brecht https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/palavra-de-poeta_15.html 

Celso Pinto de Melo opina

Escala 6x1 em um país que produz pouco
A transição para um modelo baseado em produtividade exige investimento e coordenação, mas é a única capaz de sustentar crescimento.
Celso Pinto de Melo/Jornal do Commercio     

O debate sobre a escala 6x1 ganhou força no Brasil, especialmente no comércio e nos serviços. A discussão costuma partir de uma pergunta direta: reduzir a jornada de trabalho vai reduzir a produção?

A resposta mais honesta é: não necessariamente – e, em alguns casos, pode ocorrer o contrário. O problema não está no número de dias trabalhados, mas na forma como a economia brasileira organiza o trabalho. O país convive, há décadas, com baixa produtividade.

Segundo a OCDE, o Brasil produz por hora trabalhada menos da metade do que economias como Estados Unidos e Alemanha. Mesmo em comparação com países que partiram de níveis semelhantes, como a Coreia do Sul, o país ficou para trás.

Diante disso, em vez de enfrentar causas estruturais – como baixa incorporação de tecnologia, investimento limitado e organização produtiva ineficiente –, recorre-se frequentemente a uma solução imediata: ampliar o tempo de trabalho. O resultado é conhecido: trabalha-se mais, mas sem ganho proporcional de produção.

A experiência internacional aponta em outra direção. Na União Europeia, a jornada média semanal gira em torno de 37 a 38 horas. Na França, o padrão legal é de 35 horas, e na Alemanha a jornada efetiva também costuma ficar abaixo de 40 horas em vários setores.
Na Ásia, o movimento recente é de contenção de excessos. A Coreia do Sul limitou a jornada a 52 horas semanais como teto, e o Japão passou a restringir horas extras. Esses países não estão reduzindo jornadas por acaso. Estão respondendo ao fato de que economias mais produtivas não dependem de trabalhar mais, mas de trabalhar melhor. No Brasil, a escala 6x1 se concentra em setores contínuos, como comércio e serviços. Isso também ocorre em outros países, mas em condições diferentes. Lá, há mais previsibilidade, melhores salários relativos e maior proteção.

Aqui, a jornada formal já é longa – próxima de 44 horas semanais – e frequentemente se estende muito além disso. Dados do IBGE mostram que milhões de trabalhadores gastam mais de uma hora por dia no deslocamento, frequentemente ultrapassando duas horas nas grandes cidades. Na prática, uma jornada de 8 horas pode se transformar em 11 ou 12 horas dedicadas ao trabalho.

Esse tempo adicional não é remunerado, mas reduz o descanso, o convívio familiar e a possibilidade de qualificação. O impacto é ainda maior para as mulheres, que dedicam quase o dobro do tempo dos homens ao trabalho doméstico. Para muitas, a jornada simplesmente não termina. Esse modelo ajuda a explicar por que a produtividade não avança. Sem tempo para qualificação e com alto desgaste, o trabalhador permanece em ocupações de baixa produtividade. Forma-se um círculo vicioso: baixa produtividade leva a jornadas longas, que dificultam o aumento da própria produtividade. É nesse contexto que a escala 5x2 deve ser analisada. Longe de representar um retrocesso, a ampliação de jornadas com dois dias de descanso pode ser um passo importante para reorganizar o trabalho no Brasil. Ao garantir maior previsibilidade e tempo de recuperação, tende a re duzir o desgaste e melhorar a produtividade no médio prazo.

Dados de diferentes países indicam que jornadas mais equilibradas não reduzem necessariamente a produção. Em muitos casos, aumentam a eficiência e melhoram o desempenho. O que está em jogo não é apenas a escala de trabalho, mas a lógica econômica. O Brasil não precisa trabalhar mais horas. Precisa trabalhar melhor. A transição para um modelo baseado em produtividade exige investimento e coordenação, mas é a única capaz de sustentar crescimento com melhoria das condições de vida.

Nesse sentido, a escala 5x2 não deve ser vista como custo adicional, mas como parte de uma agenda de modernização. Porque o problema do Brasil nunca foi falta de esforço. O problema é que esse esforço ainda rende pouco – e continuará rendendo pouco sem mudança.

Celso P. de Melo, membro da Academia Pernambucana de Ciências. Pesquisador do CNPq e Professor Aposentado da UFPE

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Uberização bancária https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/sistema-bancario-tecnologia.html 

Postei nas redes

Vergonhosa a campanha do Estadão contra a redução da jornada de trabalho. Deturpa dados, reúne declarações tendenciosas e mira os ataques em Lula.

Estética imperialista: A política do espetáculo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/estetica-imperialista.html 

Minha opinião

Aveia na linha de tiro 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65    

Quem tem a paciência de me ler aqui no blog já percebeu que não levo muito a sério matérias sobre a saúde da gente nos jornalões do país.

Talvez até devesse prestar atenção, mas a essa altura do meu campeonato etário o tempo que me resta é preciosíssimo e tenho outra agenda como prioridade. 

Posso até estar perdendo dicas importantíssimas, a exemplo os benefícios da aveia no enfrentamento do colesterol alto ou da glicemia. 

Até consumo aveia — pouco e raramente. É quando Luci a introduz em algum alimento no café da manhã. 

A desimportância que dou a essas matérias tanto tem a ver com o meu próprio conhecimento médico, hoje rarefeito, que no transcorrer do tempo tem contrariado alardeados achados científicos. O que é hoje já não é mais amanhã e pode até voltar a ser um pouco mais adiante. 

De toda forma, imagino muito mais sensato ler algumas páginas do livro do momento que tenho sobre a minha mesa de trabalho do que gastar tempo com tanta descoberta frágil e incerta. 

Minha mãe diria: "Eu, hein?"

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Carmen Miranda assombrou a Broadway https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/uma-cronica-de-ruy-castro_22.html   

Fotografia

 

Elliott Erwitt

Nada é por acaso https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Jornada de trabalho

Governo Lula lança campanha pelo fim da escala 6×1
Campanha de comunicação será veiculada em diferentes meios; estimativa é de que redução de jornada de trabalho trazida na medida possa beneficiar 37 milhões de pessoas
Murilo da Silva/Vermelho   
 

As mobilizações pelo fim da escala 6×1 estão cada vez mais fortes. No 1º de maio, Dia do Trabalhador e da Trabalhadora, os atos pelo Brasil elencaram como principal tema o pedido de mudança na escala sem redução de salários. O governo Lula já havia incorporado para si essa luta ao enviar para o Congresso Nacional um projeto de lei para a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais com a garantia de dois dias de descanso remunerado e proibindo qualquer redução salarial. A iniciativa visa estabelecer uma escala 5×2 e colocar fim à tão exploratória escala 6×1, que tanto rouba a vida dos trabalhadores.

Para dar ênfase à luta, o governo lançou no domingo (3) uma campanha nacional de comunicação sobre o tema. As inserções serão veiculadas em canais de mídia digital, televisão, rádio, jornais, cinema e na imprensa internacional. O slogan da campanha é: “Mais tempo para viver. Sem perder salário. Porque tempo não é um benefício. É um direito.”

De acordo com a Secretaria de Comunicação Social (Secom), a proposta visa conscientizar empregados e empregadores sobre a importância do maior convívio com a família e do convívio social, ao mesmo tempo em que se acompanham as transformações do mundo. Do ponto de vista econômico, também há benefícios aos empresários, a partir de ganhos de produtividade e menor rotatividade de funcionários.

Impacto

A iniciativa, caso seja aprovada, deverá impactar cerca de 37,2 milhões de pessoas que hoje estão na jornada de 44 horas semanais, com base em um universo de 50,2 milhões trabalhadores celetistas, de acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Desse montante, 14,8 milhões fazem escala 6×1 e 1,4 milhão de domésticas faz escala 6×1. Ou seja, pela diminuição da carga horária para até 8 horas diárias em cinco dias da semana, grande parte dos celetistas brasileiros será beneficiada, ao menos por uma das mudanças (redução da jornada e nova escala). O texto do governo indica que os trabalhadores terão direito a dois repousos semanais remunerados de vinte e quatro horas consecutivas cada, com preferência aos sábados e domingos. No entanto, existe a ponderação de que os dias de repouso poderão ser definidos em negociação coletiva devido às peculiaridades de cada atividade (como comércio, saúde e transportes).

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Leia também: Para além do “economicismo governamental” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/minha-opiniao_5.html

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"O possível a gente faz, o impossível o povo nos ensina a fazer." (Miguel Arraes, no discurso de posse do seu segundo governo, citado no livro Arraes, de Tereza Rozowykwiat). 

Convergência necessária e possível https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/minha-opiniao_15.html