O gabinete das bets
Engrenagem mistura propaganda política, dinheiro de
origem questionável e plataformas que lucram com tudo isso
Leandro Demori/Liberta
Há algo de profundamente errado e perigosamente naturalizado no ecossistema digital brasileiro. Não se trata mais apenas de desinformação, nem de militância disfarçada de entretenimento. O que está em curso é mais sofisticado e vem turbinado por uma máfia bilionária, que não mede dinheiro para chegar aonde quer: uma engrenagem que mistura propaganda política, dinheiro de origem questionável e plataformas que lucram com tudo isso como se fossem meras espectadoras.
Perfis de fofoca com dezenas de milhões de seguidores abandonaram, sem qualquer constrangimento, o conteúdo que os tornou populares (o novo jet-ski da Ana Castela, o pet da Cláudia Leitte, o carrão do sertanejo do momento) para operar como canais de influência política. Não é uma guinada editorial espontânea, como mostrei no ICL Notícias esta semana. É um método financiado por uma bet de um conhecido “rei do tigrinho”, um esquema que atinge todos os dias dezenas de milhões de pessoas com propaganda anti-governo. Vem deste ecossistema, tenho certeza, parte relevante da corrosão da imagem do governo Lula.
A engrenagem funciona assim: páginas como a Alfinetei (25 milhões de seguidores, mais do que o padre Fábio de Melo) publicam ataques sistemáticos ao governo federal e promovem figuras da direita e da extrema direita, como Tarcísio de Freitas, Jair Bolsonaro e Nikolas Ferreira. Fazem isso enquanto exibem, sem pudor, a logomarca de casas de apostas. Entre elas, a 7games.bet, ligada a Fernando Oliveira de Lima, vulgo Fernandin OIG, “empresário” associado à expansão predatória do jogo do “Tigrinho” no Brasil e próximo de Ciro Nogueira. Foi Fernandinho que levou o senador para Mônaco. No jatinho do tigreiro, os amigos foram ver um GP de F1.
Esse mesmo perfil e outros como ele já haviam sido apontados por atuarem em campanhas coordenadas, envolvendo o Banco Master, de Daniel Vorcaro, em ataques ao Banco Central do Brasil. Estava, como se diz, “no bolso do Vorcaro”, detonando a imagem do BC a pagamento. Agora, repetem o padrão: conteúdo político disfarçado de entretenimento, impulsionado por dinheiro publicitário de origem opaca. Enquanto corroem a imagem do governo e do BC, essas mesmas contas aplaudem Tarcísio de Freitas. Entre um pet e um carrão de luxo, elas encontram espaços para posts sobre a inauguração do Rodoanel em São Paulo.
E aqui entra o ponto central e talvez mais grave de todos: nada disso existiria sem as plataformas. O Instagram sabe quem são esses perfis. Sabe quem paga pelos anúncios, pois são perfis “verificados”. Sabe quais conteúdos são impulsionados e consegue “ver” o logotipo da bet nos posts. Sabe, inclusive, quando se trata de propaganda política – tanto que bloqueia campanhas de veículos jornalísticos sob esse pretexto, inclusive os documentários do ICL, alegando (falsamente) que se tratam de campanha política.
Mas, quando o dinheiro vem travestido de publicidade de apostas, quando o conteúdo político é embalado como fofoca, quando o ataque é lucrativo para os tech bros, a plataforma não apenas permite, ela monetiza e se associa ao crime. Cada curtida, cada comentário indignado, cada compartilhamento amplifica não só a mensagem, mas o faturamento das empresas. As plataformas recebem sua parte. São intermediárias financeiras dessa engrenagem.
Quando uma rede social aceita dinheiro para impulsionar conteúdo político disfarçado, financiado por agentes com interesses diretos no debate público, ela deixa de ser uma infraestrutura neutra e passa a ser um agente econômico do processo. Sócia, ainda que indireta, do resultado.
E o resultado está aí: distorção do debate público, manipulação de percepção, artificialização de popularidade política e muito, muito dinheiro. No ICL N1, mostramos uma tabela de preços. Cada posts pode chegar a custar 40 ou 50 mil reais. São milhares de posts por ano que tornaram perfis de fofoca uma espécie de cabos eleitorais do submundo. É o gabinete das bets. Casas de aposta viram financiadoras de discurso e plataformas de redes sociais viram o caixa registrador de tudo isso.
Há uma pergunta que precisa ser feita com clareza, sem rodeios: por que o Instagram bloqueia a promoção de documentários jornalísticos, mas permite (e lucra com) campanhas políticas disfarçadas, pagas por empresas envolvidas em controvérsias ou até mesmo em crimes?
Alguma esperança poderia residir no TSE. O tribunal eleitoral poderia, por exemplo, derrubar as contas. Será? Acontece que no fundo do poço tem um alçapão, mais precisamente um episódio exposto na CPI das Bets que adiciona uma camada surreal ao debate público. Fernandin OIG admitiu ter dado carona em seu jatinho (o mesmo que levou Ciro Nogueira) ao ministro do STF Kassio Nunes Marques para uma viagem à Grécia, onde ambos participariam de uma festa do cantor Gusttavo Lima.
Segundo OIG, trata-se de uma “amizade antiga, nascida no Piauí”. O episódio – revelado sob indagação do senador Alessandro Vieira na CPI das Bets – levanta claros questionamentos óbvios sobre a proximidade entre figuras com interesses econômicos relevantes e membros da mais alta Corte do país, mas não acaba aí: Nunes Marques assume a presidência do TSE (que poderia acabar com o gabinete das bets) em junho deste ano.
Pois é.
Dá pra rir ou chorar.
Escolha aí.
Talvez nem faça diferença.




