18 junho 2026

Minha opinião

Partidos se constroem na luta eleitoral? Sim e não*
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65 



De que tipo de construção partidária estamos falando? 

Óbvio que todas as três dezenas de legendas  legalmente aptas a participar das eleições gerais deste ano podem crescer de alguma forma, sobretudo elegendo postulantes aos diversos cargos em disputa. Porém, a depender da natureza do partido, os propósitos vão além disso. 

Caso do Partido Comunista do Brasil, há mais de um século presente na cena política. 

A natureza de classe desse partido, determinada pela sua base teórica e pelos seus objetivos programáticos e táticos, impõe desafios para além da conquista do voto — por si mesmo ingente e imprescindível tarefa.

O PCdoB propugna que sua estrutura orgânica não se dilua na campanha eleitoral, antes se fortaleça mediante o exercício das funções e responsabilidades de cada instância partidária — Comitê Central, comitês estaduais e municipais, assim como organizações de base. 

Intenções frequentemente prejudicadas por uma tendência à ação militante através tão somente de meios difusos. Estão longe de predominar comitês intermediários e organizações de base que efetivamente exerçam seu papel no transcurso da batalha.

Mas o buraco é mais embaixo, como se costuma dizer. A essência da construção de um partido da natureza do PCdoB reside precisamente em postura tática consequente de modo a tornar visível e atraente o matiz vermelho no arco-íris partidário constituinte da aliança político- eleitoral.

Em outras palavras: concomitantemente com o empenho, costumeiramente bem sucedido, em forjar frentes amplas no intuito de fortalecer o campo democrático e popular e, se possível, isolar e derrotar a extrema direita, expressar suas próprias opiniões de modo claro e diferenciado.

Significa a combinação dialética entre a unidade e a luta, a amplitude e a independência. 

Agora mesmo, mais uma vez o PCdoB participa da construção da plataforma eleitoral unitária que dará cores nítidas à campanha pela reeleição do presidente Lula. Propositura que tanto contém elementos avançados, como concessões às correntes políticas e setores sociais de matiz conservador, também integrantes da frente ampla. 

Isso não impede, antes exige, que candidatos e candidatas e a militância em geral empenhada na campanha exponham ideias próprias do PCdoB, de sentido tático e estratégico mais amplo. Caso de reformas estruturais que lastreiem um novo projeto nacional de desenvolvimento.

Tais reformas, conforme concebidas pelo PCdoB, demandam luta prolongada e de grande dimensão e, uma vez conquistadas, produzirão substancial elevação do padrão de vida material e espiritual do nosso povo e também a elevação do seu nível de consciência política e de organização — no rumo do socialismo, que haverá de acontecer no Brasil com o cheiro do nosso barro e do jeito da nossa gente.

Se nossos candidatos e candidatas, e a militância envolvida na campanha eleitoral, limitarem o seu discurso tão somente à plataforma da frente ampla em quase nada estarão contribuindo para a construção do Partido.

Simples? Em mais de 40 anos de experiência militante em batalhas eleitorais, o autor deste breve comentário pode afirmar, com convicção, que aí reside o "x" do problema.
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Parodiando Noel Rosa, "ser estrela é fácil, marcar nosso selo de classe é que é o x do problema".

*Texto da minha coluna semanal no portal Vermelho

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Leia também: O mundo cabe numa Organização de Base https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/05/minha-opiniao_18.html 

Fotografia

 

Pedro Caldas

"Dorme, que a vida é nada", poema de Fernando Pessoa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/palavra-de-poeta_01916947397.html 

Sylvio: soberania

O Brasil é um país politicamente difícil, disse o presidente dos Estados Unidos. Não, Mr. Trump, o Brasil é um país livre e democrático, cujo governo, em obediência à sua Constituição, não abre mão de um centímetro de sua soberania. 

Sylvio Belém  

Palavra de poeta

A demora
Mia Couto    

O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz,
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

[Ilustração: Edvard Munch]

Leia também: "Flores do mais", poema de Ana Cristina Cesar https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/palavra-de-poeta_11.html 

17 junho 2026

Minha opinião

Benéfica globalização 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65 

Muito cedo para avaliar, pois ainda estamos na primeira rodada de todos os grupos da atual Copa do Mundo de futebol, disputada nos Estados Unidos, México e Canadá. Mas vale destacar o aparente progresso do futebol jogado nos países da África, Ásia, Oriente Médio e América Central.

Como se explica? 

Que tenham a palavra os especialistas no assunto — que são poucos dentre numerosos jornalistas e acadêmicos não mais do que palpiteiros.

Cá com meus modestíssimos botões, tenho pra mim que desde a transmissão dos jogos pela TV, confrontos entre os melhores times do mundo acompanhados até por beduínos ou tribos africanas em regiões mais longínquas, disseminaram a ginga brasileira, a combatividade ágil argentina e a disciplina tática europeia, fazendo surgir novos talentos em toda parte. 

Nessa Copa, revelam-se dados curiosos. No selecionado japonês, dez atletas atuam na Holanda e no selecionado holandês apenas sete jogam no seu país. O time do Uruguai tem sete dos seus atletas atuando no Brasil.

O técnico da nossa seleção é italiano e nesta Copa e não há nenhum técnico brasileiro dirigindo uma das 40 seleções inscritas na competição.

E eu que não mais frequento estádios, porém acompanho quase tudo pela TV, dê-me conta de uns oito convocados para a seleção brasileira eu nunca havia ouvido falar!

Benéfica e surpreendente é a "globalização" da técnica e da tática do futebol.

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A postura coletiva dos campeões https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/selecao-quem-vai-copa.html 

Uma crônica de Celso Pinto de Melo

O Recife escrito nas ruas
Como nomes de bairros, pontes e ruas preservam memórias que a cidade já esqueceu
Celso Pinto de Melo/Algomais

 

Há cidades que guardam sua história em museus. O Recife prefere espalhá-la pelas ruas. Não se trata apenas de memória, mas de uma forma própria de organizá-la: a cidade não explica, nomeia. Ao nomear, a cidade registra, desloca e, às vezes, suaviza o que viveu.

Quem passa hoje pela Rua do Imperador dificilmente se lembra de que ali já foi a Rua da Cadeia. A Rua da Imperatriz, por sua vez, era o antigo Aterro da Boa Vista. A mudança não é apenas estética: referências diretas à função cedem lugar a símbolos de autoridade. O que era função torna-se representação. O passado não desaparece – é reescrito. No Recife Antigo, algo semelhante ocorre. A Rua do Bom Jesus já foi Rua dos Judeus e, antes, Rua do Bode.  

Cada nome marca uma camada histórica. A rua permanece; o sentido, não. Nem todos os nomes passaram por esse “refinamento”. Alguns persistem com uma franqueza quase desconcertante: Beco da Facada, Praça Chora Menino, Rua do Fogo. Não há metáfora – há registro. Houve faca, choro, incêndio; bastou para fixar a referência. O mesmo ocorre com a Rua da Angustura: estreita, comprimida, um aperto urbano convertido em nome – como a Rua Direita e as antigas Larga e Estreita do Rosário. Vestígios de um tempo em que a cidade nomeava sem filtro. Não constroem imagem.  Registram.

Mas o Recife não vive apenas de conflito. Há nomes que projetam uma cidade desejada: ruas da Concórdia, da Amizade, do Sossego, da Aurora. Não descrevem o que foi, mas o que se quis ver. Entre o vivido e o ideal, a cidade constrói sua narrativa. 

Há ainda uma camada mais profunda, anterior ao urbano: Apipucos, Iputinga, Parnamirim, Ibura, Muribeca, Jiquiá. Nomes indígenas que descrevem diretamente a paisagem e o modo de vida. Mesmo onde o Capibaribe foi retificado ou a várzea, aterrada, permanecem como vestígios de uma geografia já incompleta.

Sobre essa base, sobrepõe-se o Recife dos engenhos – Monteiro, Cordeiro, Curado, Mustardinha – e os nomes que nascem do uso direto: Bomba do Hemetério, Linha do Tiro. Aqui, o espaço é definido por sua função. O cotidiano, quando marcante, vira registro.

Às vezes, esse princípio se repete quase didaticamente. O Recife guarda três bairros que remetem à mesma prática: Hipódromo, Derby e Prado. As corridas de cavalo desapareceram; os nomes ficaram – vestígios ainda legíveis no mapa.

Há também nomes que parecem excessivos, mas revelam outra coisa. A Rua do Hospício remete a uma casa de acolhimento religioso; os Aflitos, à devoção; Afogados, a uma paisagem de várzea; e Encanta-Moça, menos a um fato do que a uma impressão – a de um lugar que atrai e seduz. No Recife, o nome raramente coincide com o que sugere: desloca, amplia, dramatiza – e, assim, revela.

A cidade se reorganizou, renomeou ruas, cobriu rios e, ainda assim, deixou escapar fragmentos em cada esquina. Aos poucos, revela-se menos como um conjunto de lugares e mais como um texto – descontínuo, sobreposto, que se lê por aproximações.

A literatura recifense segue outro caminho. Em Clarice Lispector, o Recife surge como memória difusa – “quintal, mangue, cheiro”. Em Carlos Pena Filho, como paisagem vivida, “metade roubada ao mar, metade à imaginação”. Em ambos, trata-se de um Recife interiorizado. Os nomes das ruas operam em outro registro: mais direto, quase documental. Onde a literatura sugere, eles registram.

Talvez o melhor modo de compreender a cidade seja caminhar – como quem lê. Uma leitura de lampejos, como na Ponte Buarque de Macedo, atravessada pela sombra de Augusto dos Anjos, ou no primeiro “alumbramento” de Manuel Bandeira, às margens do Capibaribe.

Seguindo esse percurso – Rua do Sol, Rua da Aurora, Rua da União – chega-se ao Parque 13 de Maio. Ali, pela memória, reaparece a “Torre de Londres”, símbolo de um período em que o Recife buscava inscrever-se no imaginário europeu. Não explicava – sugeria. E, ao sugerir, revelava: o Recife não apenas vive sua história; ele a encena.

Mas não foi só a torre que se transformou em memória. A antiga ponte giratória – hoje fixa – evoca um Recife em que o rio ditava o ritmo da cidade. Ela se abria para os saveiros rumo ao Cais de Santa Rita. O aterro redesenhou o espaço; a ponte permaneceu – em outra relação com o rio.

Ali perto, a antiga Rua da Praia remete a um tempo em que a água fazia parte do cotidiano. Até o Século 19, famílias frequentavam o local para banhos de mar em cabines privativas. O nome ficou; a geografia, não.

No conjunto, não se trata apenas de curiosidades, mas de um sistema de inscrição histórica. Cada nome – e cada construção – é um ponto de encontro entre tempos distintos.

Talvez por isso o Recife dispense explicações longas. Como sugeriu Gilberto Freyre, o passado aqui não desaparece – apenas muda de forma.

Caminhar pelo Recife é também ler. Entre uma esquina e outra, o Recife continua falando. Cabe a nós decidir se apenas passamos – ou se, de fato, escutamos.

*Celso Pinto de Melo é professor titular aposentado da UFPE, pesquisador 1A do CNPq, membro da Academia Pernambucana de Ciências e da Academia Brasileira de Ciências.

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Leia também: A cidade que amamos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/minha-opiniao_9.html 

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Calcula-se em 30 bilhões de dólares os prejuízos dos Estados Unidos com a guerra contra o Irã. Mais o desgaste político de Trump dentro e fora do país. 

EUA: Os bilionários pedem mais guerra https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/multimilionarios-senhores-da-guerra.html