Lula reage à decisão dos EUA sobre facções e defende
a soberania do Brasil
Presidente critica ingerência norte-americana e
destaca que combate ao crime organizado exige cooperação técnica, não soluções
unilaterais que ignoram a autonomia brasileira
Davi Molinari/Vermelho
A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras, anunciada na quinta-feira (28), gerou uma reação firme do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta sexta-feira (29). Durante evento de anúncio de investimentos da Petrobras em Laranjeiras, Sergipe, o chefe do Executivo brasileiro classificou a medida como uma ingerência externa desnecessária. Ao defender a postura do país, Lula foi enfático: “Nós não aceitamos ser tratados como moleque. Nós não aceitamos ser tratados como se fôssemos uma republiqueta. Eu trato um país pequeno com o mesmo respeito que eu trato a China, com o mesmo respeito que eu trato a Rússia, com o mesmo respeito que eu trato os Estados Unidos”.
O presidente pontuou que, embora o Estado brasileiro reconheça o impacto
devastador dessas facções nas comunidades periféricas, o tratamento jurídico
deve observar as leis nacionais. Sobre o tema, declarou: “Eles são terroristas
para as comunidades brasileiras, para a sociedade brasileira, para o povo da
periferia desse país. Eles são terroristas porque eles incomodam as famílias,
eles incomodam o bairro, eles incomodam a cidade, eles roubam o direito do povo
de viver livremente”. Lula destacou que o governo tem buscado aprovar leis
antifacção e fortalecido a inteligência federal, sublinhando que a solução
definitiva depende de uma estrutura de segurança pública robusta, e não de
pressões externas que ignoram o rito democrático.
Durante o discurso, o presidente questionou a eficácia da medida
norte-americana e a hipocrisia de setores que pedem intervenção estrangeira,
criticando duramente a articulação política do clã Bolsonaro: “Não tem vergonha
na cara de trair a nossa pátria, dos Estados Unidos pedir intervenção americana
no Brasil”. O governo brasileiro ressaltou que já havia entregue propostas
concretas de cooperação aos EUA, incluindo informações sobre lavagem de
dinheiro em solo norte-americano, como no estado de Delaware. Nesse sentido,
Lula cobrou reciprocidade: “Se quiserem combater o crime organizado, não
precisa pedir ajuda para ninguém. Quer combater o crime organizado? Me entregue
os nossos que estão lá nos Estados Unidos”.
Fórum Brasileiro de Segurança Pública alerta para a decisão dos EUA
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), em nota oficial,
manifestou preocupação com o modo como a temática foi capturada pela disputa
eleitoral. Para o FBSP, a medida anunciada por Washington é uma decisão
soberana dos EUA, mas lamentável sob a ótica estratégica brasileira. A entidade
alertou que o apoio à medida por parte de setores políticos demonstra uma visão
reducionista, descolada da necessidade de ações complexas contra a lavagem de
dinheiro, o uso de criptoativos e o controle de setores como o de fintechs e bets,
que são as verdadeiras veias financeiras do crime organizado moderno. O Fórum
reforçou que o Brasil e os EUA possuem um histórico consolidado de cooperação
policial que deve ser mantido, porém, sem abrir mão das prerrogativas soberanas
do país na condu ção de sua política de segurança. Em nota oficial, o governo
brasileiro enfatiza que o Brasil defende uma postura de equilíbrio diplomático
baseada no respeito à integridade territorial.
Ao encerrar sua fala, Lula reiterou que o combate ao crime organizado é
uma prioridade do seu mandato e que a cooperação internacional é bem-vinda
quando pautada na reciprocidade, descartando qualquer tentativa de tratar o
Estado brasileiro como submisso a agendas alheias.
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