Quando a Copa muda o mapa do mundo
O que distingue as grandes seleções não é a
existência de talentos extraordinários. É a capacidade de transformá-los em
competência coletiva.
Celso Pinto de Melo/Jornal GGN
Os resultados da Copa do Mundo de 2026 talvez estejam revelando
uma transformação muito maior do que um novo equilíbrio esportivo.
Eles podem ser um dos primeiros sinais visíveis de uma lenta redistribuição
das capacidades coletivas no século XXI.
“A verdadeira viagem de descoberta consiste
não em procurar novas paisagens,
mas em ter novos olhos.”
Marcel Proust
Uma Copa do Mundo faz mais do que revelar um campeão. Ela revela uma
mudança de época.
O espanto
Bilhões de pessoas acompanharam a Copa do Mundo de 2026. A maioria viu
gols, vitórias, derrotas e surpresas. Talvez o mais importante, porém, não
estivesse dentro de campo.
Ao longo de poucas semanas de competição, seleções de países
tradicionalmente considerados periféricos passaram a enfrentar, de igual para
igual, antigas potências do futebol. Para muitos, tratava-se apenas de uma
sucessão de zebras. Mas talvez aqueles resultados estivessem revelando algo que
ia muito além do esporte.
E se a Copa não estiver apenas mostrando um novo equilíbrio entre as
seleções?
E se ela estiver revelando uma mudança histórica que já vinha sendo
construída silenciosamente havia décadas?
As grandes mudanças históricas raramente chegam de forma espetacular.
Elas se acumulam lentamente, quase sempre longe dos holofotes, até que um
acontecimento aparentemente comum nos obriga a enxergar aquilo que já estava
acontecendo.
Talvez seja esse o verdadeiro significado da Copa de 2026.
Durante boa parte do século XX, bastava olhar uma Copa do Mundo para
reconhecer onde estavam concentradas algumas das maiores competências do
futebol. Europa e América do Sul dominavam quase completamente o cenário. As
demais regiões produziam talentos extraordinários, mas apareciam como exceções,
não como protagonistas permanentes.
Hoje esse mapa parece menos estável.
A explicação mais imediata aponta para a globalização do esporte, a
profissionalização dos clubes, a circulação internacional de atletas e o
aperfeiçoamento dos métodos de treinamento. Todos esses fatores contribuíram
para tornar o futebol mais competitivo. Mas talvez expliquem apenas como essa
transformação ocorreu, e não por que ela ocorreu.
Fotografias e filmes
Fotografias congelam um instante. Filmes revelam trajetórias.
Grande parte dos equívocos na interpretação da História nasce justamente
dessa diferença. Fotografias mostram onde uma sociedade está. Filmes revelam de
onde ela veio e, sobretudo, para onde parece estar caminhando. Quando
observamos apenas o instante, mudanças graduais parecem surgir de repente.
Quando acompanhamos o filme, percebemos que elas vinham sendo construídas havia
muito tempo.
Foi essa mudança de perspectiva que levou o demógrafo francês
Jean-Claude Chesnais, ainda no final do século passado, a chamar a atenção para
uma transformação que poucos percebiam. Enquanto o debate permanecia
concentrado na distribuição da riqueza e do poder daquele momento, Chesnais
observava outro movimento: a lenta redistribuição demográfica da população
mundial. O crescimento relativo da África e de partes da Ásia alteraria, ao
longo do século XXI, o centro de gravidade humano do planeta.
Na época, essa parecia apenas uma projeção demográfica. Hoje sabemos que
ela descrevia o início de uma mudança histórica.
Anos depois, Hans Rosling acrescentaria uma observação igualmente provocadora.
O mundo havia mudado muito mais rapidamente do que nossa percepção dele.
Continuávamos descrevendo a realidade com categorias herdadas dos anos 1970,
enquanto centenas de milhões de pessoas experimentavam melhorias profundas em
educação, saúde, urbanização e expectativa de vida.
Quando o talento encontra instituições
Rosling costumava dizer que continuávamos descrevendo o mundo com
categorias que já não correspondiam à realidade. Em outras palavras, seguíamos
assistindo ao filme por meio de uma fotografia antiga.
Mas a demografia, por si só, não produz desenvolvimento. Populações
numerosas nunca bastaram para criar universidades de excelência, sistemas
científicos sofisticados, empresas inovadoras ou seleções competitivas. Entre o
potencial humano e a realização coletiva existe um processo longo, cumulativo e
frequentemente invisível: a construção de capacidades.
Foi essa mudança de perspectiva que levou o demógrafo francês
Jean-Claude Chesnais, ainda no final do século passado, a chamar a atenção para
uma transformação que poucos percebiam. Enquanto o debate permanecia
concentrado na distribuição da riqueza e do poder daquele momento, Chesnais
observava outro movimento: a lenta redistribuição demográfica da população
mundial. O crescimento relativo da África e de partes da Ásia alteraria, ao
longo do século XXI, o centro de gravidade humano do planeta.
Na época, essa parecia apenas uma projeção demográfica. Hoje sabemos que
ela descrevia o início de uma mudança histórica.
Anos depois, Hans Rosling acrescentaria uma observação igualmente
provocadora. O mundo havia mudado muito mais rapidamente do que nossa percepção
dele. Continuávamos descrevendo a realidade com categorias herdadas dos anos
1970, enquanto centenas de milhões de pessoas experimentavam melhorias
profundas em educação, saúde, urbanização e expectativa de vida.
Quando o talento encontra instituições
Rosling costumava dizer que continuávamos descrevendo o mundo com
categorias que já não correspondiam à realidade. Em outras palavras, seguíamos
assistindo ao filme por meio de uma fotografia antiga.
Mas a demografia, por si só, não produz desenvolvimento. Populações
numerosas nunca bastaram para criar universidades de excelência, sistemas
científicos sofisticados, empresas inovadoras ou seleções competitivas. Entre o
potencial humano e a realização coletiva existe um processo longo, cumulativo e
frequentemente invisível: a construção de capacidades.
É justamente nesse ponto que o futebol oferece uma metáfora
particularmente esclarecedora.
Talentos individuais podem surgir em qualquer lugar. O que distingue as
grandes seleções não é a existência de talentos extraordinários. É a capacidade
de transformá-los em competência coletiva. Isso exige escolas de formação,
treinadores experientes, instituições sólidas, continuidade, intercâmbio
internacional, infraestrutura e conhecimento acumulado ao longo de gerações.
O mesmo acontece com as sociedades. Países não se tornam protagonistas
na ciência, na tecnologia, na indústria ou na cultura apenas porque possuem
grandes populações ou abundância de recursos naturais. Tornam-se protagonistas
quando conseguem construir, ao longo de décadas, ecossistemas capazes de formar
pessoas, produzir conhecimento, estimular a inovação e transmitir competências
entre gerações.
Talvez seja justamente isso que esteja mudando em diferentes partes do
mundo. Ao longo das últimas décadas, diversos países investiram simultaneamente
em educação, saúde, infraestrutura, pesquisa científica, formação profissional
e fortalecimento institucional. Os resultados não foram imediatos nem
homogêneos. Mas, vistos em perspectiva, começaram a deslocar lentamente a
distribuição mundial das capacidades humanas.
Essa transformação não aparece apenas no futebol.
Uma nova cartografia
Ela pode ser percebida na expansão da produção científica de países
antes considerados periféricos, no surgimento de novos polos tecnológicos, na
crescente importância demográfica e econômica da África e até na redistribuição
das grandes comunidades linguísticas. O próprio português oferece um exemplo
eloquente desse processo. Ao longo deste século, seu centro demográfico tenderá
a deslocar-se cada vez mais para a África, onde vivem algumas das populações
mais jovens e de crescimento mais acelerado do planeta. À primeira vista, esses
parecem fenômenos independentes. Observados em conjunto, porém, sugerem que
fazem parte de uma mesma transformação histórica.
Os mapas tradicionais continuam indispensáveis. Eles mostram fronteiras,
recursos naturais, população e riqueza. Mas dizem pouco sobre uma questão
talvez ainda mais decisiva: onde estão sendo construídas as capacidades que
definirão a economia, a ciência, a tecnologia, a cultura – e até o esporte –
nas próximas décadas?
Talvez estejamos precisando de um novo tipo de mapa.
Não um mapa dos territórios.
Mas um mapa das capacidades coletivas.
Uma cartografia capaz de revelar não apenas onde os países estão, mas
para onde parecem estar caminhando.
A verdadeira lição da Copa
Se essa hipótese estiver correta, a Copa do Mundo de 2026 deixa de ser
apenas um torneio esportivo.
Ela passa a representar um raro momento em que uma mudança histórica se
torna visível para bilhões de pessoas ao mesmo tempo. Durante algumas semanas,
um espetáculo acompanhado em praticamente todos os continentes talvez tenha
revelado algo que vinha sendo construído silenciosamente havia décadas: a lenta
redistribuição das capacidades humanas.
É por isso que talvez estejamos fazendo a pergunta errada. O mais
importante não é saber por que surgiram novas potências do futebol, mas
compreender o que elas podem estar sinalizando.
Mudanças dessa natureza raramente começam onde esperamos. Primeiro
aparecem como episódios isolados. Depois começam a surgir em diferentes áreas
do conhecimento, da economia, da cultura ou do esporte. Só muito mais tarde
percebemos que todos esses fenômenos faziam parte de uma mesma transformação.
Talvez o futebol não tenha mudado o mundo
Talvez tenha sido apenas um dos primeiros lugares onde o novo mundo
resolveu aparecer.
Uma mudança de época
Durante algum tempo continuamos interpretando o presente com mapas
desenhados para o passado. Até que um acontecimento aparentemente comum nos
obriga a reconhecer que uma nova época já começou.
Talvez seja essa a maior contribuição da Copa do Mundo de 2026.
Não a de revelar um novo campeão.
Nem apenas a de anunciar novas potências do futebol.
Mas a de mostrar, diante de bilhões de espectadores, que o mapa das
capacidades humanas está sendo redesenhado.
O mapa do futebol mudou.
Talvez ele tenha sido apenas o primeiro a nos mostrar que o mapa do
mundo já vinha mudando havia muito tempo.
*Celso Pinto de Melo – Professor Titular
Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de
Ciências.
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comentar, identifique-se.
"Como o capitalismo sequestrou a Copa e o sonho de uma
criança" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/futebol-argentario.html