Lixo
fascistoide sendo recolhido, mas substituído pelo quê?
Enio Lins
UMA EUFORIA DEMOCRÁTICA se espalha pelo dito ocidente em função da derrota do
ultradireitista Viktor Orban, autocrata que comandou a Hungria nos últimos 16
anos. Motivos existem para tal. Mas é importante olhar para quem venceu o
pleito, e saber quais mudanças advirão no posicionamento interno e no contexto
das guerras em cartaz.
DIZ O GLOBO.COM: “a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, acompanhou com
particular atenção a eleição na Hungria, vista como um teste para avaliar a
real capacidade de ingerência de Donald Trump em eleições nacionais”, e que “a
ingerência direta de Trump — sobretudo nos últimos dias da campanha — não teve
influência decisiva sobre o resultado eleitoral. A derrota é compartilhada por
Trump e pelo russo Vladimir Putin, outro que jogou pesado a favor de Orban”.
PÉTER MAGYAR, O PÚCARO
HÚNGARO, é um vaso contendo o quê em seu interior?
Pelo entusiasmo da grande mídia, e pela euforia dos da OTAN, retorna ao poder a
perigosa aposta de intensificação dos atritos com a Rússia através do apoio à
autocracia ucraniana em guerra com a autocracia russa. Segundo a BBC, Magyar
tem se esquivado de temas polêmicos e centrado seu discurso contra o
“iliberalismo” de Orban. Garimpando na Internet, é mais fácil encontrar
informações confiáveis sobre o Partido Húngaro do Cão de Dois Rabos (Magyar
Kétfarkú Kutya Párt, MKKP) que sobre o pensamento de Magyar e de seu partido
Tisza. Um dos partidos satíricos húngaros, o Cão de Dois Rabos tem três
vereadores em Budapeste, e seu programa defende a semana de um dia de trabalho,
cerveja grátis, mais de um pôr do sol por dia, gravidade reduzida etc.
SER AMIGO DE TRUMP E DE
PUTIN ao mesmo tempo é como levar tiros de sal de uma
escopeta cano duplo. Viktor Orban era ligado aos dois. Outra desmoralização
pesando sobre ele é ser próximo da gangue brasileira-estadunidense The
Bolsonaro’s. Em abril de 2019, o primeiro-ministro húngaro recebeu Dudu
Bananinha para conversar potoca, num convescote de energúmenos. Em 17 de
fevereiro de 2022, Jair B, no ocaso de sua despresidência, voou até Budapeste
para se abraçar com Orban e soluçar: “Prezado Orban, o trato como irmão, dada a
afinidade que temos”. Em março de 2024, com as investigações da Polícia Federal
dele se aproximando, Jair, experimentando uma rota de fuga, dormiu durante duas
noites na Embaixada da Hungria, em Brasília. Viktor e Jair foram uma dupla
caipora. Como se sabe, a caipora é figura mitológica brasileira que, pela
crença indígena, dá azar a quem a enxerga ou com ela faz contato.
SÓ POR SER AMIGO DE JAIR
B, a derrota de Orban merece ser comemorada. Oquei,
não há o que discutir neste aspecto. E, por ter sido rechaçada uma tentativa de
interferência de Donald Trump nas eleições húngaras em benefício de Orban, há
que se aplaudir o voto do povo húngaro como atitude digna e muito positiva, sem
dúvida. Mas, igualmente é verdade que, ao reconhecer a derrota, e ligar para o
adversário e parabenizá-lo pela vitória, Viktor Orban apresenta um resquício de
dignidade que nem Jair nem Donald nunca tiveram, não têm, nem virão a ter algum
dia.
RESTA AGUARDAR o que Péter Magyar – opositor de direita à ultradireita
– fará ao chegar no Palácio Sándor, residência oficial e espaço de trabalho do
chefe de governo da Hungria. O prédio, construído entre 1803 e 1806, foi palco
de uma tragédia há 85 anos: o suicídio do primeiro-ministro Pál Teleki. Membro
de tradicional família da Transilvânia, embora simpatizante do Nazismo e
responsável por leis antijudaicas, Teleki ficou muito abalado quando Hitler
invadiu a Hungria, e – autoemparedado entre o nazifascismo e o nacionalismo,
entre a ultradireita e a direita – matou-se na noite de 3 de abril de 1941. Que
a Hungria tenha boa sorte com esse novo governo conservador.
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