18 junho 2026

Palavra de poeta

Os três mal-amados

João Cabral de Melo Neto    

O amor comeu meu nome, minha identidade,
meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade,
minha genealogia, meu endereço. O amor
comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos
os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas
camisas. O amor comeu metros e metros de
gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o
número de meus sapatos, o tamanho de meus
chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a
cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas
médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas,
minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus
testes mentais, meus exames de urina.
 
[Iustração: Marila Tarabay]


Leia também: A gratidão dos bichos e os riscos da clonagem https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/minha-opiniao_6.html 

FIFA reacionária

Fifa persegue camisa do Haiti e ignora ações políticas dos EUA na Copa
Entidade máxima do futebol foca o rigor em seleções periféricas e silencia sobre o arbítrio de potências
Davi Dmolir Molinari/Vermelho 

A decisão da Federação Internacional de Futebol (Fifa) de vetar o uniforme principal do Haiti para a Copa do Mundo de 2026 trouxe à tona o debate sobre a tutela desproporcional que a entidade exerce sobre as nações de menor peso geopolítico. Sob o argumento de manter a neutralidade nos gramados, a federação barrou a camisa que homenageava a Batalha de Vertières (1803) – marco da Revolução Haitiana contra o colonialismo francês -, mas expôs uma contradição: o próprio protocolo oficial da entidade obriga e ritualiza a execução dos hinos nacionais antes de cada partida. 

Os hinos nacionais são, por definição, as expressões mais explícitas de ideologia e afirmação do poder de um Estado. Ao mesmo tempo em que a Fifa proíbe uma pequena federação caribenha de estampar um símbolo de libertação da primeira república negra independente do mundo, ela institucionaliza manifestações políticas de grande porte. Críticos apontam que a rigidez contra o Haiti contrasta com o silêncio da entidade diante de abusos promovidos pelos Estados Unidos, co-sede do torneio.

Rigores com o Sul Global e complacência com o império

Enquanto pune o resgate histórico de uma nação periférica, a Fifa silencia perante as restrições consulares e logísticas impostas pelo governo norte-americano. A seleção do Irã enfrentou severos entraves diplomáticos, incluindo a negativa de vistos de entrada para 11 membros da comissão técnica sob a justificativa de segurança nacional. O bloqueio forçou os iranianos a transferirem sua base de preparação para Tijuana, no México, além de se submeterem a longas esperas na fronteira. A ingerência também atingiu a arbitragem, com juiz impedido de ingressar no país por restrições de visto impostas pela administração de Donald Trump.

Mesmo diante de declarações do mandatário estadunidense questionando a presença da delegação iraniana e de claras violações ao livre trânsito que as regras exigem de um país anfitrião, a direção da Fifa, comandada por Gianni Infantino, evitou contestações. Infantino manteve agenda de proximidade com o presidente norte-americano, reforçando as críticas sobre o duplo padrão na governança do futebol mundial, onde os abusos de uma superpotência são tratados com omissão institucional.

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Mudança de padrão tático https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/selecao-brasileira-indefinida.html

Humor de resistência

Quinho

Nem sempre é o que parece https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Postei nas redes

Compreensiveis as alterações na escalação da seleção brasileira para o jogo com o Haiti. Mudanças sempre acontecem. Ruim é a indefinição sobre a estratégia de jogo; torna o time inoperante e inseguro. 

O mundo cabe numa Organização de Base https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/05/minha-opiniao_18.html   

Enio Lins opina

Quando o Poder Judiciário se recusa a ser banana
Enio Lins   

DUDU BANANINHA, marginal milionário homiziado nos Estados Unidos, foi condenado a uma pena de quatro anos e dois meses de prisão por tentar sabotar o julgamento do derrotado golpe de Estado em 2023, e ficará inelegível por 12 anos, sem poder ser votado até 2038. O meliante não foi julgado ainda pelas ações de traição nacional feitas junto ao governo dos Estados Unidos, e que provocaram tremendos prejuízos à economia brasileira com a imposição de taxas pela administração Trump.

APESAR DE MODERADAS,
 essas penalidades são um alento para a Democracia, pois sinalizam às milícias golpistas que tentativas de golpes de Estado deixaram de ter a cumplicidade da Justiça. Ao longo de toda história brasileira, a impunidade era uma garantia para qualquer poderoso que quisesse tentar destruir o sistema democrático vigente. Sistema que nunca foi perfeito, mas os reacionários sempre procuraram eliminar todas as chances de evolução e consolidação do Estado Democrático de Direito. Com os julgamentos dos criminosos que se expuseram à luz do dia em 8 de janeiro de 2023, está em curso a mais importante mudança de atitude – constitucional – no Poder Judiciário brasileiro desde seus primórdios. Assim, são de enorme importância as penalidades impostas ao fugitivo Dudu.

ALIMENTADO A PÃO-DE-LÓ 
numa mansão americana, o condenado desdenhou do processo desde antes, inclusive não nomeando advogado de defesa, posição que teve de ser ocupada por um defensor público pago com recursos públicos. Como publicou o jornal carioca Extra, “com bens e contas bloqueados pela Justiça e no meio de uma polêmica sobre um expressivo montante de dinheiro entregue a ele, proveniente de contas atribuídas a Daniel Vorcaro para um suposto financiamento do filme ‘Dark Horse’, sobre o pai, Jair, Eduardo Bolsonaro, não pode se queixar da vida que leva nos Estados Unidos. O ex-deputado federal e escrivão afastado da Polícia Federal vive numa mansão em Southlake, no Texas, numa vila de imóveis bem parecidos, com aqueles jardins bem-cuidados e sem muro que se vê nos filmes”.

VIVER COMO UM MARAJÁ 
sem dispor de fontes de recursos identificáveis é evidência de financiamento escuso. Isso é óbvio. E se essa vida luxuosa, de inexplicável fartura, for no exterior, aumentam as suspeitas de dinheiro movimentado pelo crime organizado internacional, pois circular cotidianamente grandes somas sem deixar rastro é coisa para profissionais. Mas não apenas Little Banana curte existência de parasita rico em território americano, sem dar um dia de serviço para ninguém, nem ser herdeiro de algum milionário. Três dos mais conhecidos integrantes dessa lista de privilegiados fora-da-lei acolhidos pelos Estados Unidos, são cúmplices de Dudu e figurinhas carimbadas: o deputado cassado Alexandre Ramagem (mais recente “refugiado”), o blogueiro Allan dos Santos, e um neto do último ditador brasileiro, chamado Paulo Figueiredo.

CONFRONTAR A JUSTIÇA, 
entretanto, segue sendo um mantra dos golpistas. Assim que foi anunciada a condenação de Dudu, o PL (Partido Liberal) divulgou – segundo a jornalista Camila Bezerra, no site Jornal GGN – que pretende manter a candidatura do apenado como suplente de senador por São Paulo: “Segundo integrantes do partido, a intenção é sustentar a candidatura pelo maior tempo possível, ainda que a tendência seja de que a Justiça Eleitoral a barre em decorrência da condenação”. Essa turma não consegue aceitar que a impunibilidade não mais lhes cobre os malfeitos, e se esmera em defender o retorno da criminalidade sem ônus como se isso lhes fosse um direito inalienável. É hora, portanto, do Ministério Público e do Poder Judiciário manterem a firmeza do cumprimento da Lei, e dar sequência às investigações ainda em curso, encaminhando exemplarmente os muitos processos pendentes. Eles merecem.

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Lula avança e candidato de Donald Trump recua https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/editorial-do-vermelho_01899426184.html 

Arte é vida

 

Paul Klee


Quem é de luta nunca desiste https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Sylvio: merecida condenação

Mais uma anotação na ficha criminal da família Bolsonaro,  por conta da condenação do ex-deputado Eduardo pelo Supremo Tribunal Federal. Agora se impõe sua extradição para cumprimento da pena que lhe foi, justamente, imposta. 

Sylvio Belém 

Charge: Nando Motta

Leia também: Enrolados e hipócritas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/minha-opiniao_0898482679.html