02 julho 2026

Enio Lins opina

Lembrando lambanças do presidenciável filho do presidiário
Enio Lins  

FLAVITO BOLSONARO é burro? Não. Apesar da estultícia explícita, não pode ser parvo um cidadão que, em 2021, através de uma lojinha de chocolates e de um mandato parlamentar, conseguiu adquirir uma mansão de R$ 5,97 milhões, com R$ 3,1 milhões financiados pelo BRB (Banco de Brasília). Na documentação contratual, “declarou renda mensal de R$ 56.833,51, sendo R$ 28.525,83 atribuídos à franquia de chocolates, R$ 24.934,81 ao salário parlamentar, e R$ 3.372,87 a aplicações financeiras”. O empréstimo contraído por Flavito junto ao BRB tinha prazo de 30 anos – 360 meses –, mas o débito foi pago em apenas 37 meses! Tudo quitado em 1/10 do prazo. O moçoilo é um gênio das finanças! Esse quadro de irrealismo fantástico está analisado num excelente artigo de Luís Nassif, acessível pelo link https://jornalggn.com.br/noticia/a-extraordinaria-franquia-de-chocolate-de-flavio-bolsonaro-por-luis-nassif/.

ZERO-JÚNIOR É BOM DE DRIBLE.
Livrou-se, num passe de mágica, de cabeluda denúncia feita em novembro de 2020 pela Procuradoria-Geral de Justiça do Rio de Janeiro. Foi acusado de “liderar uma organização criminosa para recolher parte do salário de seus ex-funcionários em benefício próprio. A prática, conhecida como ‘rachadinha’, teria desviado R$ 6 milhões de recursos públicos da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro)”. O processo, recheado de provas e indícios de ligações mais heterodoxas na captação de dinheiro vivo, virou pó depois que o STF (Supremo Tribunal Federal) e o STJ (Superior Tribunal de Justiça) anularam, em 2021, todas as provas coletadas e determinaram o encerramento das investigações. O moçoilo é craque em impunidade!

UM EXCELENTE RESUMO
sobre a desenvoltura de Flavito Zero-um – driblando as denúncias dos processos gentilmente arquivados – pode ler lido no link
https://iclnoticias.com.br/rachadinha-flavio-perguntas-nao-respondidas/. Vão aqui umas amostras grátis: “A investigação do MP-RJ mostrou que boa parte das despesas do senador era paga com dinheiro vivo, apesar de ele não ter realizado saques em volume correspondente e, até 2014, não ter qualquer fonte de renda declarada fora da atividade parlamentar” e “Uma das transações que levantaram mais suspeitas foi a compra no mesmo dia de dois apartamentos em Copacabana (zona sul), em novembro de 2012. De acordo com as escrituras, os apartamentos haviam sido adquiridos por R$ 440 mil em 2011 pelos antigos proprietários. Em 2012, eles foram vendidos por R$ 310 mil ao senador. Em 2014, Flávio os revendeu por R$ 1,12 milhão”. Uau! Lucrou 260%! Um fenômeno...

GRAÇAS AO ATAQUE
da madrasta número dois, Zero-Um está gozando de grande alívio no noticiário. A atenção da mídia foi desviada para as palmadinhas que Dona Michele aplicou na bundinha do Flavito. Desde então sumiram das manchetes as duas mais recentes imoralidades cometidas por Flávio Boçalnaro. Não se fala mais da mutreta que sugou R$ 61 milhões do amigão Vorcaro para os bolsos dos Bolsonaros; nem se fala mais sobre a proposta bolsonarista de – se eleito o filho de Jair – entregar a transição governamental brasileira para Trump. Duas picaretagens homéricas: botar no bolso dinheiro roubado aos aposentados; e traição nacional descarada. Para ajudar a empurrar a imprensa para longe dessas bandidagens de Flávio Bolsonauro, blogueiros ultrabolsonaristas entraram em campo: Paulo Neto do Figueiredo, homiziado nos Estados Unidos, e Umberto Estaca, homiziado na Espanha. Um acusou a senadora bolsonarista Damares da Goiabeira de ser “feminista” e “amante de pastor”; outro atacou as mulheres em geral e, no particular, espinafrou a madrasta número dois dos quatro irmãos metralha. Como modesto protesto contra essas ações diversionistas, vai aqui a relembrança de algumas lambanças do filho presidenciável do presidiário Jair.

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Leia também: O bolsonarismo e a lavada de roupa suja como espetáculo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/enio-lins-opina.html 

Sylvio: bons sinais

Os indicadores econômicos e sociais continuam crescendo numa demonstração de que o Brasil está no rumo certo, em busca de melhor distribuição de renda e justiça social. Além disso, nosso país cada vez mais se destaca no mundo  elevando sua voz e participação em decisões relevantes. 

Sylvio Belém    

Cada campanha é uma campanha https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao.html 

Humor de resistência

Enio

A questão nacional

A reinvenção da identidade nacional
A reinvenção do Brasil no século XXI demanda uma nova narrativa identitária que supere o consumo e a fragmentação digital em prol de um projeto coletivo de nação
Marcio Pochmann/A Terra é Redonda 

Toda grande transformação econômica altera também a forma como um povo se reconhece. As identidades coletivas não surgem no vazio, nem dependem apenas de símbolos, bandeiras ou discursos. Elas resultam do modo como a sociedade trabalha, produz, distribui riqueza e organiza a vida coletiva.

Neste primeiro terço do século XXI, o Brasil atravessa uma profunda mudança de época. A antiga sociedade urbana e industrial vem cedendo lugar a uma nova sociedade de serviços, hiperconectada, digitalizada e cada vez mais fragmentada. Nesse cenário, a pergunta central deixa de ser apenas como voltar e sustentar o crescimento. Passa a ser também sobre qual identidade nacional pode sustentar um novo projeto de país?

Essa não é a primeira vez que o Brasil enfrenta uma transformação dessa magnitude. A própria história nacional pode ser lida como a sucessão de três formas de capitalismo, três modos de inserção na economia mundial e três grandes identidades coletivas.

A nação inacabada e o capitalismo agrário-exportador da República Velha

Durante a República Velha (1889-1930), o Brasil estava profundamente integrado à ordem econômica liderada pela Inglaterra. O país ocupava uma posição subordinada na divisão internacional do trabalho, exportando produtos primários e importando bens manufaturados modernos.

O café, a borracha, o açúcar e outros produtos agrícolas financiavam a acumulação das oligarquias, enquanto as mercadorias industriais britânicas abasteciam o mercado interno. A dependência econômica produzia também fragilidade política e identitária.

O Brasil era um vasto território ainda pouco integrado, sem uma comunidade nacional plenamente constituída. O povo estava praticamente ausente do sistema político. O ex-escravizado, o trabalhador rural, o imigrante e as massas urbanas emergentes não eram reconhecidos como sujeitos da nação.

A identidade coletiva era fragmentada, regional e oligárquica. Não existia um “nós” nacional. Ele era bloqueado pelo domínio de interesses regionais, vínculos locais, relações familiares e práticas patrimonialistas. 

A invenção do trabalhador brasileiro pelo projeto nacional-desenvolvimentista

A Revolução de 1930 inaugurou uma nova fase histórica, marcada pela modernização, ainda que conservadora, do capitalismo brasileiro. A crise da ordem liberal, aberta desde a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), conviveu com a ascensão dos Estados Unidos à condição de principal potência econômica mundial. Esse novo contexto abriu outra possibilidade histórica para o Brasil.

Entre as décadas de 1930 e 1980, o país construiu uma das experiências mais bem-sucedidas de industrialização tardia do mundo. Sob a liderança estadunidense no segundo pós-guerra, o Brasil estruturou o Estado moderno e implementou a política de substituição de importações. Com isso, reduziu sua dependência de bens manufaturados externos e formou uma estrutura produtiva mais complexa.

A entrada de empresas estadunidenses e europeias não significou apenas desnacionalização da economia. Ela também permitiu a montagem de um sistema industrial integrado, envolvendo siderurgia, petróleo, química, máquinas, bens de capital, automóveis, infraestrutura e serviços modernos.

O Brasil urbano e industrial produziu, assim, uma nova identidade nacional, assentada numa narrativa poderosa de pertencimento. O trabalhador industrial, o servidor público, o professor, o técnico, o operário e o pequeno agricultor passaram a ser reconhecidos como parte de um projeto de país orientado pela industrialização, pela urbanização e pela modernização nacional.

Ainda que incompleta e desigual, havia uma ideia compartilhada de futuro. Com Getúlio Vargas (1930-1945 e 1951-1954), a industrialização era compreendida como a invenção de um novo povo. Daí sua afirmação histórica: “Hoje os trabalhadores estão comigo no poder; amanhã serão o próprio poder”.

Pela primeira vez, o trabalhador tornou-se sujeito político e símbolo da modernização nacional. Juscelino Kubitschek (1956-1961) transformou os candangos de Brasília em heróis de uma epopeia desenvolvimentista. João Goulart (1961-1964), por sua vez, acrescentou a defesa das reformas de base como obra do povo organizado, indicando que o trabalhador deixaria de ser apenas mão de obra para ser reconhecido como construtor do futuro.

Mesmo durante a ditadura dos governos militares (1964-1985), apesar do autoritarismo, a ideia de uma missão nacional foi mantida. Os discursos do “Brasil Grande” e da “potência emergente” reforçavam a perspectiva de um destino comum, associando a identidade nacional ao desenvolvimento do país.

Em síntese, por quase seis décadas, o brasileiro foi estimulado a se reconhecer pelo que produzia e pelo papel que exercia na construção das transformações nacionais. Havia um destino coletivo. Havia um projeto de país. Havia um “nós”.

Essa fase histórica, contudo, começou a ruir na década de 1980, com o ajuste dos Estados Unidos à globalização neoliberal e suas repercussões no Brasil (crise da dívida externa, inflação elevada e o impasse político nacional). Nesse contexto, ganhou força a mobilização pela redemocratização e emergiu o ciclo político da Nova República, originalmente assentado na esperança de mudança e na retomada das reformas interrompidas em 1964. 

A ruptura neoliberal e o retorno à especialização primário-exportadora

A transição conduzida pelo alto após 1985 acabou impossibilitando o reformismo nacional-desenvolvimentista. Com a vitória eleitoral de Fernando Collor de Mello (1990-1992) houve a consagração de uma nova maioria política nacional orientada pelo receituário neoliberal.

A partir de 1990, a abertura comercial e financeira, as privatizações e a desregulamentação econômica alteraram profundamente a estrutura do capitalismo brasileiro. A desindustrialização precoce enfraqueceu o sistema produtivo construído ao longo do século XX. O Brasil voltou a reforçar uma especialização baseada na exportação de produtos primários e recursos naturais, agora em um contexto geopolítico inteiramente distinto.

Se a Inglaterra havia sido a potência hegemônica da República Velha e os Estados Unidos o principal parceiro do ciclo nacional-desenvolvimentista, a ascensão da China deslocou o eixo dinâmico da economia mundial. Ao mesmo tempo, a China tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil.

Essa nova relação econômica apresenta semelhanças com o passado, mas também diferenças profundas. De um lado, o Brasil volta a assumir a posição de grande exportador de commodities agrícolas e minerais. De outro, a China não exporta apenas bens manufaturados. Exporta também tecnologia, plataformas digitais, equipamentos de alta complexidade e serviços associados à economia digital, reforçando uma divisão internacional do trabalho cada vez mais assimétrica.

A reprimarização da pauta exportadora brasileira coincidiu com o ingresso na era da inteligência artificial, digitalização e economia do conhecimento pelo centro dinâmico do capitalismo mundial. Essas transformações econômicas produziram também uma profunda mutação social, uma vez que a sociedade urbana e industrial cedeu lugar a nova de serviços hiperconectada.

As antigas identidades coletivas do mundo do trabalho enfraqueceram, com o operário industrial, o sindicalismo de massa e as grandes organizações coletivas perdendo centralidade. Em seu lugar, surgem trabalhadores fragmentados, empreendedores de sobrevivência, prestadores de serviço, trabalhadores de plataformas e indivíduos permanentemente conectados.

A política tentou responder a essa transformação, em primeiro lugar, pela figura do consumidor. Cada governo democrático apostou, à sua maneira, apontou para a integração social pelo mercado. O acesso ao crédito e ao consumo tornou-se instrumento importante de inclusão. Mas consumir não é pertencer. O consumo pode melhorar as condições de vida, mas não oferece, por si só, uma narrativa de reconhecimento coletivo. Quando a crise econômica avança, a identidade do consumidor revela sua fragilidade.

E foi nesse vazio que a extrema direita cresceu. Ela compreendeu que as pessoas desejam algo mais profundo como o pertencimento, reconhecimento e sentido de comunidade. Por isso, passou a oferecer uma nova identidade baseada no patriotismo, religião e oposição a inimigos internos pelo ressentimento e ódio, transformando a nação, então, em campo permanente de guerra cultural.

Por isso, o desafio histórico do século XXI não seria apenas econômico, também civilizatório. Como se viu, em cada fase do capitalismo, o país produziu uma identidade coletiva. Na sociedade agrária, prevaleceu a nação inacabada, enquanto na urbano-industrial, afirmou-se a identidade do trabalhador e do desenvolvimentismo e na atualidade da sociedade de serviços hiperconectada, o consumidor passou a disputar espaço com o patriota digital.

Nenhuma dessas identidades hoje vigentes parecem capazes de responder sozinha aos desafios do primeiro terço do século XXI. O Brasil necessita de uma outra narrativa nacional, adequada à era digital, à transição ecológica e à economia do conhecimento e que seja capaz de reconhecer o brasileiro para além do que consome ou da comunidade virtual à qual pertence. Uma narrativa que o reconheça pelo que produz, cria, pesquisa, cuida, inova e constrói coletivamente.

Nesse sentido, a reconstrução de um projeto nacional de desenvolvimento depende, antes de tudo, da reconstrução de um novo “nós” brasileiro. Sem isso, o país poderá permanecer preso a uma condição paradoxal por ser uma das maiores economias do mundo e incapaz de produzir um sentimento comum para o destino nacional numa época de profundas transformações geoeconômicas e tecnológicas.

*Marcio Pochmann, professor titular de economia na Unicamp, é o atual presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Autor entre outros livros de Novo sujeito coletivo: a governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil (Editora da Unicamp). [https://amzn.to/40lMNWU]

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Palavra de poeta

Tu tens um medo
Cecília Meireles     

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

[Ilustração: Andrzej Wróblewski]

O lugar da leitura https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_0667045785.html 

Humor de resistência

 

Aroeira

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Fim da jornada 6×1

Debate no Senado sobre fim da escala 6×1 espelha a mais pura luta de classes
Patronato e direita tentam barrar PEC com o manjado discurso do terror econômico, enquanto governo e trabalhadores pressionam por avanço civilizatório
Priscila Lobregatte/Vermelho  

A audiência pública do Senado que debateu, nesta quarta-feira (1º), o fim da escala 6×1 remeteu à mais pura luta de classes. De um lado, estavam os patrões e seus defensores no Congresso colocando a economia (ou o lucro) acima de tudo; do outro, representantes dos trabalhadores e do governo defendendo o direito da grande maioria da população a ter mais tempo para viver.

O cerne da discussão é a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, patrocinada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que prevê a redução da escala para a 5×2 e da jornada de trabalho para 40 horas semanais. Aprovada na Câmara, a matéria agora está em debate no Senado.

Pouco antes da audiência, o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), se reuniu com lideranças das centrais sindicais e manifestou apoio à proposta. Além disso, acenou com a possibilidade de acabar com o período de transição de 60 dias após a promulgação, previsto no texto aprovado pela Câmara no final de maio.

Patronato x trabalhadores 

Como em outros debates envolvendo direitos da classe trabalhadora feitos ao longo da história, o patronato apelou ao terror para dizer que a implementação da nova escala e jornada afetaria a economia, a geração de empregos e até mesmo o equilíbrio fiscal.

No entanto, tal discurso tem sido confrontado por experiências que se mostraram bem-sucedidas dentro e fora do Brasil, assim como estudos de diferentes e respeitados institutos sobre a viabilidade e os ganhos que a mudança pode gerar, tanto do ponto de vista humano quanto econômico, para ambos os lados.

Essa foi a tônica da audiência. Em defesa dos empresários, participaram dirigentes de entidades representativas do comércio, da indústria e dos transportes, entre outros, além de senadores da direita e extrema direita alinhados ao ideário neoliberal de “quanto menos direitos, melhor”.

Do lado dos trabalhadores, estavam o governo Lula, parlamentares de esquerda e representantes de centrais sindicais — entre as quais CTB, CUT, UGT e Força Sindical.

“O estudo mais robusto até o momento sobre o impacto econômico na produtividade e nos custos do trabalho com o fim da escala 6×1 foi feito pelo Ipea (…). O percentual a que chegou foi de 7,8%, algo equivalente ao aumento real do salário mínimo que tivemos nos últimos três anos (…). E todo o impacto que está sendo dito aqui não aconteceu”, argumentou o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos. 

Boulos também rechaçou outro ponto usado pelo empresariado: o suposto impacto inflacionário. “O salário mínimo aumentou em termos reais num valor correspondente ao custo da escala 6×1 e nós temos a menor inflação acumulada em quatro anos desde a redemocratização”.

O ministro também ponderou que o aumento do salário não levou à quebra de empresas, nem ao desemprego. “Ao contrário: estamos com a menor taxa da série histórica” e “o PIB brasileiro está crescendo como não crescia há uma década”, afirmou.

Do ponto de vista humano, lembrou ainda que no ano passado, o Brasil bateu recorde de afastamentos de trabalhadores por burnout, depressão e ansiedade. “Isso é resultado da exaustão dos trabalhadores. Fala-se em perda de produtividade, mas em praticamente todas as experiências onde se reduziu a jornada de trabalho, houve aumento da produtividade por razões que deveriam ser óbvias: um trabalhador mais descansado é mais produtivo”.

O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, abordou experiências já implantadas no Brasil de redução da escala para mostrar sua viabilidade. “Empresas que tiveram dificuldade para o preenchimento das vagas existentes quando adotavam a escala 6×1 resolveram esse problema quando mudaram para a 5×2” e ainda “diminuíram drasticamente o absenteísmo”.

O ministro argumentou que pesquisa da Fundação Getúlio Vargas acompanhou 19 empresas que implantaram a escala 5×2 e constatou que “72% aumentaram suas receitas — ou seja, cresceu a produtividade e, portanto, aumentou seu resultado econômico efetivo — e 44% melhoraram o cumprimento de prazos operacionais — ou seja, tiveram melhora também em seu fluxo de trabalho”.

O peso da 6×1 sobre as mulheres 

Eutália Naves, secretária-executiva do Ministério das Mulheres, chamou atenção para o peso da escala 6×1 para a parcela feminina, que representa mais de 50% da população.

“Gostaria de fazer uma pergunta que me parece fundamental para este debate — e pergunto principalmente para o patronato: será que a gente já parou para somar quanto custa em tempo a preparação da força de trabalho para chegar até o local de trabalho? Porque ninguém trabalha sem se alimentar, sem vestir uma roupa, sem as condições essenciais”.

Se essa conta for feita, prosseguiu, “a gente chegará nas mulheres e vamos falar de um trabalho invisível, que é o trabalho de cuidado. As mulheres acordam mais cedo e gastam mais tempo com o trabalho invisível de cuidado para preparar a sua própria força de trabalho, mas também para reproduzir a futura força de trabalho e cuidar daquela que não está mais disponível ao mercado”.

Eutália também sublinhou que a escala 6×1 “é absolutamente cruel” para as mulheres que, devido a essa rotina, em geral não têm condições, nem tempo, de participar de outras atividades. “Por que será que o Congresso Nacional tem apenas 16% de mulheres parlamentares? Será que é por que as mulheres odeiam ou não se interessam pela política? Não: é porque elas estão exaustas e não conseguem participar de outros espaços sociais”, apontou.

Representação sindical

Um dos dirigentes sindicais a falar durante a audiência foi Rodrigo Calais, presidente da CTB-RS, que representou a entidade nacional e é oriundo do setor de serviços. 

“Uma das críticas que foram feitas repetidamente aqui diz respeito à celeridade do governo para que a PEC seja votada antes das eleições. Eu quero dizer que quem está impondo celeridade a esse processo é a classe trabalhadora e só não sabe disso quem não está lá na ponta, conversando nos locais de trabalho, para entender a realidade de quem faz a roda da economia girar. Deixar para depois das eleições é massacrar ainda mais a classe trabalhadora”.

Mais adiante, Calais chamou atenção para a contradição de outro argumento usado pelo setor patronal de que os trabalhadores usariam a nova folga para ter ganhos extras. “Se os trabalhadores conquistarem mais um dia de folga e optarem por fazer bicos, é sinal de que paga-se muito pouco à classe trabalhadora neste país”, alfinetou.

Ricardo Patah, comerciário e presidente da UGT, salientou: “O conceito que trazemos é o da valorização do ser humano, do indivíduo”. Ele lembrou, ainda, que na área do comércio, 340 mil vagas não foram preenchidas em 2025. “Isso acontece porque o jovem não quer mais se submeter a um trabalho em que ganha pouco e trabalha excessivamente, como é o caso dos supermercados, por exemplo”.

Patah também defendeu que os mais ricos paguem a conta dos custos que a mudança da escala pode trazer. “No ano passado, os 10% mais ricos tiveram acréscimo (de renda) de 9% e os 40% mais pobres, de 3%. Esses 10% dos mais ricos detêm 70% do patrimônio do Brasil. Será que não está na hora de iniciarmos um processo da valorização da igualdade e da oportunidade?”, questionou.

Sérgio Nobre, presidente da CUT e de origem metalúrgica, enfatizou que “a bandeira da redução da jornada sempre representou muito mais do que diminuir as horas de trabalho; significa repartir os ganhos do desenvolvimento entre aqueles e aquelas que produzem a riqueza do país”.

Ele também rebateu o argumento de que o processo para o fim da escala 6×1 estaria se desenvolvendo de forma abrupta. “Mudança abrupta e sem debate foi feita na reforma trabalhista de 2016 — lá sim fizeram uma mudança profunda na organização do trabalho, da noite para o dia, e sem ouvir sequer uma organização de trabalhadores”.

Nobre reforçou que a PEC “propõe uma transição responsável e estabelece um tempo para as empresas se adaptarem, definindo um calendário gradual para a redução das jornadas até as 40 horas semanais. Ao mesmo tempo, garante imediatamente os dois dias de descanso semanal e preserva o que sempre defendemos, que é a negociação coletiva como instrumento para organizar as diferentes escalas de trabalho”. 

Nesse mesmo sentido se manifestou o deputado federal Inácio Arruda (PCdoB-CE), cuja trajetória é marcada pela luta em defesa dos trabalhadores. “Este não é um debate novo, vem desde a Constituinte (…). Não é preciso mais tempo para discutir, o que precisamos é de compreensão para o que acontece desde aquela época”, ressaltou.

Ele pontuou que nas últimas décadas “assistimos a uma transformação brutal com a automação, a robótica e a inteligência artificial; mas, os ganhos do aumento de produtividade advindos dessa evolução tecnológica não foram transferidos aos trabalhadores, ficaram com o capital. E uma maneira de abrir esses ganhos para o trabalhador é diminuir a jornada de trabalho. Esta é a hora para que a gente possa consagrar essa vitória dos trabalhadores e trabalhadoras que, na verdade, é a vitória dos que produzem a riqueza brasileira”.

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