22 março 2026

Minha opinião

Crise dos combustíveis tem a assinatura de Trump
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65     


Subproduto da guerra dos EUA-Israel contra o Irã, o preço dos comb ustíveis tem alta extraordinária no mercado mundial. O diesel alcança marca histórica, com consequências em todos os continentes.

Antes da eclosão do conflito no Oruente Médio, que se espraia por toda a região, o refino global estava operando no limite, na esteira da guerra Rússia x Ucrânia e pelo bloqueio do abastecimento russo.

O que ocorre agora, portanto, não é apenas a alta de preço, mas a fakta física do produto, razão direta do aumento da inflação global.

No Brasil, há sinais de forte influência no desempenho da economia, interferência nos preços ao consumidor final (que vinham em queda).

Para Trump, “primeiro a América” e, se possível, a desgraça global.

A Guerra EUA x Irã e Clausewitz https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_5.html 

 


Arte é vida

 

Gustave Caillebotte

Leia: “Sala de espera", uma crônica de Luis Fernando Veríssimo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/uma-cronica-de-luis-fernando-verissimo.html


Uma crônica de Ruy Castro

Sem mais silêncio
As pessoas que atracam os fones às orelhas o dia inteiro isolam-se da vida. Eles são um passaporte para a alienação, o individualismo, o não-tou-nem-aísmo
Ruy Castro/Folha de S. Paulo
   

O jovem de fones ao ouvido atravessou a rua fora do sinal, costurando entre os carros em movimento e tirando fino das motos entre eles. Perplexo, eu assistia a tudo da calçada. Mas nada aconteceu. O garoto chegou ao outro lado e retomou tranquilo o seu caminho, como se o asfalto fosse uma extensão de sua casa. Perguntei-me que maravilhas estariam saindo dos fones, abafando tudo e permitindo-lhe ignorar as buzinas. Rockrapforrók-pop?

Outra cena que sempre me intriga é a dos jogadores descendo do ônibus do clube para o jogo de dali a pouco, no qual, em tese, eles deveriam estar totalmente concentrados. Todos trazem alguma coisa ao ouvido. Como 90% dos atuais jogadores são evangélicos, imagino que devem estar escutando os hinos e pregações que os levarão à vitória. Mas, se o repertório de seus fones vier do cafonejo, e ainda por cima perderem o jogo, não podem culpar Deus pela derrota.

Digo tudo isso ao ler sobre os efeitos dos headphones nas pessoas que hoje os atracam às orelhas para correr, caminhar, pedalar, motocar, dirigir, dormir, trabalhar e até estudar, alheios à vida ao redor. É como se se isolassem da vida. Usam-nos também para reduzir o estresse, relaxar ou, ao contrário, excitar-se, tudo exceto refletir. É um passaporte para a alienação, o individualismo, o não-tou-nem-aísmo.

Por sorte, quem usa esses fones tem a liberdade de tirá-los para, às vezes, dar um alívio aos fatigados tímpanos. Mas, e se uma pessoa for obrigada a ouvi-los, sem poder arrancá-los ou implorar a alguém para fazer isso?

Foi o que me contaram de um conhecido meu, homem de seus 80, nos estágios finais de um mal que o impedia de mover-se ou comunicar-se. Todos sabiam do amor que, em dias mais felizes, ele dedicara a Lizst, Chopin e Tchaikovski. Daí, seus netos prepararam 24 horas de playlist com suas sinfonias favoritas e, todos os dias, aplicavam-lhe os fones pelo dia inteiro.

É o terror: ser condenado a escutar sem parar o que você ama, quando tudo que quer é o silêncio.

Leia também uma crônica de Luis Fernando Verissimo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/01/uma-cronica-de-luis-fernando-verissimo.html 

Palavra de poeta

Esperança faz reviver

Simone Moisés     

As pessoas dizem:
“Olhe para frente e siga adiante”.
Hoje eu digo diferente.
Olhe para traz,
mas para despedir-se
das dores passadas,
dos sonhos frustrados,
dos momentos não vividos,
dos projetos não realizados.
É isso;
A vida continua
E terá sempre um novo sonho,
um novo dia,
um novo recomeço.
Recomece quantas vezes for preciso,
mas nunca se esqueça de onde
deu seu primeiro passo
porque é lá que começa a sua história
e olhando para trás que encontrará
forças e incentivos para prosseguir.

[Ilustração: Ron Hicks]

Leia também: "Mãos dadas", poema de Carlos Drummond de Andrade  https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_11.html 


Lula na CELAC

Não podemos viver num mundo de mentiras usadas para justificar a destruição, diz Lula 
Presidente brasileiro defende busca pela paz e critica uso da força dos EUA contra países como Irã, Palestina, Venezuela e Cuba, bem como a inação da ONU
Piscila Lobregatte/Vermelho    
 

Num ambiente de crescente ingerência do imperialismo estadunidense sobre a América Latina e outros continentes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender a autonomia e independência das nações e relações multilaterais. A fala ocorreu durante o I Fórum de Alto Nível da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e África, realizado em Bogotá, na Colômbia, neste sábado (21). 

Lula salientou que “não podemos viver mais num mundo de mentiras, em que as pessoas constroem uma imagem negativa do inimigo para justificar a destruição”.

Afirmou, ainda, que “não somos mais países colonizados. Nós conquistamos soberania com a nossa independência. Não podemos permitir que alguém possa se intrometer e ferir a integridade territorial de cada país”.

O presidente salientou que “nossos continentes congregam quase a metade dos países do mundo e um quarto da população mundial. Mas ainda somos penalizados por uma ordem desigual, estabelecida enquanto o colonialismo e o apartheid prevaleciam em muitas partes do mundo”. 

Disse ainda não fazer sentido “que a América Latina e a África não tenham representação adequada no Conselho de Segurança da ONU. As guerras na Ucrânia, em Gaza, no Irã e tantos outros conflitos nos afastam do caminho do desenvolvimento. Geram efeitos econômicos, sociais e políticos no mundo todo. Aumentam os preços da energia e dos alimentos”. 

Ele defendeu ser preciso “manter o Atlântico Sul livre de disputas geopolíticas alheias” e lembrou que este é o objetivo da reunião ministerial da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, que o Brasil organizará em 9 de abril.

Guerras e conflitos

Lula também demonstrou sua preocupação com a atual situação global. “É importante que a gente não esqueça nunca que o mundo de hoje está vivendo a maior concentração de conflitos desde a Segunda Guerra”, destacou.

Ao mesmo tempo, salientou que “enquanto se gastou, no ano passado, US$ 2,7 trilhões em armas e guerras, nós ainda temos 630 milhões de pessoas passando fome”. 

O presidente brasileiro também criticou “a falta total e absoluta de funcionamento das Nações Unidas”. Ele lembrou que o Conselho de Segurança da ONU e os seus membros permanentes foram criados “para tentar manter a paz”, mas “são eles que estão fazendo as guerras”.

Lula reforçou que “como ser humano, como democrata e como presidente do Brasil” está “indignado com a passividade dos membros de segurança”, que não foram capazes de resolver o problema na Faixa de Gaza, no Iraque, na Líbia, na Ucrânia e nem no Irã. 

Ou seja, questionou, “tudo se resolve por guerra?Quem tem mais canhão, quem tem mais navio, quem tem mais avião, quem tem mais dinheiro, se acha dono do mundo?”. 

Ataques ao Irã

Ao falar especificamente do Irã, Lula recordou sua visita a Teerã, em 2010, juntamente com o presidente da Turquia, para buscar um entendimento contra o enriquecimento de urânio para fins bélicos. 

“Fizemos um acordo. Quando esse acordo foi publicado, ao invés dos países europeus e dos Estados Unidos aceitarem, eles aumentaram o bloqueio ao Irã. E é muito engraçado, isso já foi publicado na imprensa, não é segredo para ninguém. Eu tinha recebido uma carta do companheiro [Barack] Obama [ex-presidente dos Estados Unidos], dizendo que se o senhor Ahmadinejad [então presidente do Irã] concordasse com aquele acordo, estava tudo certo. Pois nós fizemos da Ahmadinejad assinar o acordo tal qual estava na carta do Obama”. 

Lula prosseguiu lembrando que, para a sua surpresa, “quando foi publicado o acordo, tanto a Europa quanto os Estados Unidos aumentaram o bloqueio. Depois de alguns anos, foram fazer outro acordo pior do que aquele que a gente tinha feito. E agora se invadiu o Irã a pretexto de que estava construindo bomba nuclear. Cadê as armas químicas do Saddam Hussein? Aonde elas estão? Quem achou?”. 

Ainda sobre a ingerência ilegal dos EUA, Lula tratou da situação de Cuba e da Venezuela. “O que estão fazendo com o Cuba agora? O que fizeram com a Venezuela? Isso é democrático? Em que parágrafo e em que artigo da Carta da ONU está dito que um presidente de um país pode invadir o outro? Em que documento do mundo está dito isso? Nem da Bíblia. Não existe nada que permita que isso aconteça. É a utilização da força e do poder para nos colonizar outra vez?”, questionou, indignado. 

Ele alertou ainda para os interesses do imperialismos em riquezas naturais da região, como o petróleo e as terras raras. “Ou seja, nós não teremos chances [de desenvolvimento] agora que descobrimos que temos terras raras, que descobrimos que temos minerais críticos? Agora que a gente pode aspirar a dar um salto de qualidade na produção de combustíveis alternativos?”. 

O presidente disse ser preciso “que a gente possa gritar alto e em bom som para não permitir que aconteça em outros países o que já aconteceu em Gaza recentemente”. 

Tecnologia e meio ambiente

Entre os outros pontos tratados em seu discurso, Lula também falou do uso da tecnologia para o desenvolvimento dos países e da crise ambiental. 

“Precisamos de um modelo de cooperação que alinhe governança digital e respeito aos direitos fundamentais, fortalecendo nossa soberania. A regulação do mundo virtual não é um mecanismo de controle. É antes de tudo um instrumento de inclusão e proteção das pessoas”, declarou. 

Nesse momento, destacou que “para enfrentar discursos de ódio, desinformação, pornografia infantil e misoginia, o Brasil está atualizando sua legislação”, citando como exemplo a entrada em vigor do ECA Digital. 

Além disso, salientou a importância do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, que contempla duas linhas de financiamento para cooperação com África e América Latina. “São 20 milhões de dólares para financiamento de projetos conjuntos e 10 milhões para o uso de infraestruturas de IA brasileiras”, disse. 

Com relação ao enfrentamento à mudança do clima e à preservação do meio ambiente, Lula pontuou que “apesar de não sermos historicamente responsáveis pelo aquecimento global, somos os mais afetados por eventos climáticos extremos”. 

Por isso, prosseguiu, “temos em comum a preocupação de combater processos de desertificação. Compartilhamos a responsabilidade de cuidar das duas maiores florestas tropicais do mundo: a Floresta Amazônica e a do Congo. Cooperamos em diversos foros para combater os crimes ambientais, que já são a terceira maior fonte de recursos para o crime organizado”. 

Lula lembrou o trabalho que tem sido feito com Fundo Florestas Tropicais para Sempre, iniciativa que já mobilizou quase US$ 7 bilhões. “Não se tratam de doações. Os lucros gerados pelo TFFF serão repartidos entre os países de florestas tropicais e os investidores”, salientou. 

Além disso, agregou que “a ciência já provou que sem uma transição para economias de baixo carbono, não será possível evitar a crise climática. Por isso, a transição energética também deve ser um dos eixos de ação conjunta”. 

Lula enfatizou que “nosso enorme potencial para produção de energia limpa de fontes solar, eólica e hídrica ainda contrasta com o acesso precário à eletricidade em muitas partes de nossos continentes” e que “a formação de um mercado internacional de biocombustíveis abre oportunidades de desenvolvimento local e viabiliza a descarbonização da economia”. 

Ao mesmo tempo, apontou: “Nossos países também possuem importantes reservas de minerais críticos, que desempenham um papel estratégico na transição para economias de baixo carbono. A cooperação entre os países detentores desses recursos minerais será vital para conseguir agregar valor em nossos próprios territórios e evitar investidas neoextrativistas”. 

O projeto das Big Techs para substituir os Estados nacionais https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/big-techs-x-estados-nacionais.html 

Futebol: o conjunto pesa

O passe como essência do jogo coletivo
Craques decidem, mas é o conjunto que sustenta os grandes times, e o passe que os conecta. Entre dribles e gols, o futebol moderno reforça a importância de pensar o jogo de forma coletiva
Tostão/Folha de S. Paulo    


No meio da semana, as partidas da Liga dos Campeões foram belíssimas e com um número enorme de gols. O Barcelona, como é frequente, goleou. Dessa vez foi o Newcastle, por 7 a 2, depois de um primeiro tempo equilibrado e com muitas chances de gols para os dois times.

As melhores equipes europeias são fortes pelo conjunto, por terem excelentes jogadores e, principalmente, por possuírem alguns especiais, fora de série. No Barcelona, são Raphinha, Lamine Yamal e Pedri. No Real MadridMbappéVinicius Junior e Courtois. No Bayern de Munique, Kane e Kimmich. No PSG, Vitinha e os dois laterais Hakimi e Nuno Mendes. No Arsenal, Rice e Saka. No Liverpool, Van Dijk e Szoboszlai. Todos estes e outros grandes talentos são destaques em suas seleções.

Os craques, para brilharem, precisam de bons conjuntos, mas não se forma um grande time sem craques, com raras exceções. Precisamos valorizar mais os goleiros, os defensores e os meio-campistas, e não apenas os artilheiros e grandes dribladores. Assim como o sistema defensivo começa com a marcação dos atacantes, os gols nascem da ação dos passes dos defensores, algumas vezes até dos goleiros.

Os dribles são decisivos para ultrapassar as fortes defesas, porém, para ser um craque é preciso ter outras qualidades. Vinicius Junior e Lamine Yamal são excepcionais nos dribles, nos passes e nas finalizações. Os dois aprenderam a dar passes de curva com a parte interna e externa do pé (trivela). A bola contorna o adversário e chega ao companheiro atrás do marcador. "A linha reta não sonha" (Oscar Niemeyer).

Garrincha driblava para frente, seguido de um ótimo passe, ou em pequenos espaços, quando ia para um lado e o marcador ia para o outro. No drible elástico, Rivellino colava a bola no pé como se fosse um ímã e a levava de um lado para o outro. Rivellino foi um cracaço, muito mais que um driblador. Dirceu Lopes driblava em velocidade, mudando de direção, como se fosse guiado por uma inteligência artificial.

Quando eu jogava, gostava mais de dar passes do que driblar e fazer gols, embora seja o maior artilheiro da história do Cruzeiro, com 243 gols. Mais importante do que o número de gols é a média. Não sei quantos jogos fiz para marcar esse número de gols.

Gerson foi o mestre do passe preciso, tecnicamente perfeito, enquanto Didi foi o rei do passe de curva com a parte interna e externa do pé. Até os passes mais simples e fáceis de Didi eram lindos, por ele jogar sempre com a cabeça em pé e o corpo ereto. Daí o apelido dado ao craque por Nelson Rodrigues de Príncipe Etíope.

Os grandes times europeus têm formado meio-campistas, como Rice, do Arsenal, Pedri, do Barcelona, e Vitinha, do PSG, capazes de dar passes rápidos e para frente, para o companheiro receber a bola entre o meio-campo e a defesa. No Brasil, continua a divisão ultrapassada entre os volantes que marcam e os meias ofensivos, únicos responsáveis pelos passes decisivos.

O desarme, o drible, o passe e a finalização são essenciais no futebol. Assim como o gol define o resultado e o drible representa a individualidade, o passe é o símbolo do jogo coletivo, da união e da solidariedade em campo. O Brasil precisa dar mais passes e ter mais consciência da presença do outro.

A arte, a técnica e a objetividade no futebol https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/futebol-aparencia-e-essencia.html

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