04 abril 2026

Juventude: presente e futuro

Juventude brasileira entre o realismo capitalista e a formação do novo sujeito coletivo
Ela é mais instruída que as gerações anteriores. Mas deprime-se nas telas, num país estagnado há 40 anos e em pouca esperança de vida florescente. Há duas saídas: ou o ultraindividualismo, ou um novo engajamento político, ainda por construir
Marcio Pochmann/Outras Palavras    

A crescente incidência de sofrimento psíquico entre jovens brasileiros, registrada pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo IBGE com apoio dos ministérios da Saúde e da Educação, já não pode ser tratada como um problema isolado ou passageiro. Ela expressa uma mudança mais profunda na sociedade brasileira que resulta da perda de dinamismo econômico, enfraquecimento das promessas de mobilidade social e a transformação das formas de poder e de socialização.

Nesse sentido, a ansiedade revelada em setor crescente da parcela juvenil da nova sociedade de serviços, hiperconectada na era digital, deixa de ser vista apenas como um problema individual ou psicológico. Ela passa a ser compreendida como expressão social de um tempo histórico marcado pela incerteza. Desde os anos 1990, com a adoção de políticas neoliberais, o Brasil perdeu dinamismo econômico, sofreu a desindustrialização, aprisionou-se na financeirização e fragilizou os mecanismos de ascensão social. O resultado tem sido a formação de nova geração cuja subjetividade é atravessada pela instabilidade.

Em um país historicamente desigual, esse processo agravou a sensação de bloqueio social. Embora mais escolarizada do que as gerações anteriores, grande parte da juventude passou a encontrar um mundo do trabalho mais precário, instável e fragmentado. A educação continuou sendo apresentada como caminho de ascensão, mas a correspondência entre esforço e recompensa se enfraqueceu.

Durante o período de industrialização de elevada expansão econômica ocorrida entre as décadas de 1930 e 1980, predominou, apesar das desigualdades, a percepção de que o tempo trabalhava a favor da melhora de vida. Escola, emprego e urbanização apontavam, ainda que de modo desigual, para alguma perspectiva de avanço socieconômico. A partir dos anos 1990, contudo, essa narrativa foi sendo corroída. Em seu lugar, consolidou-se uma sociedade de serviços hiperconectada, porém incapaz de garantir inclusão ampla, segurança e horizonte estável.

É nesse contexto que os dados recentes da PeNSE ganham maior significado. O aumento da tristeza, solidão, ansiedade, exposição à violência e experiências de abuso não deve ser lido apenas como questão sanitária ou psicológica. Esses indicadores expressam uma época em que o futuro perdeu força como promessa coletiva. O horizonte de expectativas superiores se estreitou.

O mal-estar que emerge desse processo não aparece, ao menos por enquanto, como revolta organizada. Ele surge de forma mais difusa, íntima e silenciosa. A juventude brasileira não está apenas ansiosa. Ela percebe, muitas vezes de forma sensível e imediata, que o modelo social que antes prometia alguma melhora deixou de funcionar. A insegurança não decorre apenas do excesso de estímulos digitais, mas também da falta de perspectivas concretas.

A hiperconectividade faz parte desse problema, mas não o explica sozinha. Ao sair das telas de celulares e redes sociais, muitos jovens encontram um mundo que pouco os acolhe. A ansiedade não nasce apenas da conexão permanente, mas da experiência cotidiana de escassez de oportunidades, de fragilidade dos vínculos e de bloqueio do futuro.

Nesse quadro, o neoliberalismo produz mais do que políticas econômicas, pois gera uma forma de experiência social. Ele dissemina a sensação de que não há alternativa, de que cada indivíduo deve resolver sozinho problemas que são coletivos. Mesmo informados, conectados e escolarizados, muitos jovens percebem que poucas portas realmente se abrem. O resultado é uma geração marcada pela incerteza estrutural.

Mais do que uma “geração ansiosa”, trata-se de uma geração formada sob o signo da insegurança. A ansiedade, nesse caso, não é uma anomalia isolada, mas um sintoma de um modelo de desenvolvimento que perdeu a sua maior capacidade de inclusão. Ainda assim, esse sofrimento costuma ser interpretado como falha individual. Ao jovem que não consegue “dar certo”, resta a exigência de se reinventar continuamente como empreendedor de si mesmo. 

Com isso, a pressão não desaparece. Ela apenas se internaliza. O peso de uma estrutura social instável é carregado no próprio corpo e na própria mente. A frustração deixa de ser episódica e se torna estrutural. Muitos jovens fizeram o que lhes foi pedido, estudaram, buscaram qualificação e adaptaram-se às novas exigências. Ainda assim, encontram-se à margem de um projeto real de futuro.

É nesse ponto que a questão ganha dimensão política. O que está em formação não é apenas uma geração frustrada, mas um novo sujeito social, ainda fragmentado, instável e sem linguagem política clara. Trata-se de uma experiência comum de insegurança, bloqueio e perda de sentido, que ainda não se traduziu plenamente em organização coletiva.

Esse sujeito, por enquanto, sente antes de formular. A ansiedade pode ser entendida, nesse sentido, como uma de suas primeiras formas de expressão. Ela ainda não aparece como programa político ou ação organizada, mas revela algo importante como a percepção difusa de que o jogo social mudou profundamente.

O risco é evidente. Esse mal-estar pode ser capturado por soluções individualizantes, por discursos de autoajuda ou por promessas de simples adaptação a uma realidade injusta. Também pode ser absorvido por formas regressivas de pertencimento, que oferecem identidade sem projeto coletivo. Mas existe outra possibilidade, ainda aberta: a de que essa ansiedade contenha o início de uma nova consciência histórica.

Não se trata, necessariamente, de uma consciência de classe nos moldes tradicionais. Trata-se, antes, de uma sensibilidade compartilhada diante de um mundo que deixou de oferecer sentido e direção. Algo que ainda não se organiza claramente em partidos, sindicatos ou movimentos duradouros, mas que circula em afetos, frustrações e percepções comuns de injustiça.

Se for assim, os dados da PeNSE deixam de ser apenas um alerta de saúde pública. Eles passam a registrar estatisticamente uma mutação social em curso. O Brasil pode estar diante de uma geração que já não acredita no futuro como promessa garantida, mas que, justamente por isso, talvez venha a recolocá-lo como problema político. Nesse caso, a ansiedade não seria o fim da história. Poderia ser justamente o começo de outra.

O Brasil vive uma silenciosa marcha para o interior https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/marcha-para-o-interior.html

Que dia é hoje?

Sábado para quê?
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65  

Cresci encarando o sábado como dia comum, produtivo. Às 5 horas despertava para acompanhar meu pai à feira do Alecrim, que desde a Lagoa Seca, bairro de Natal onde morávamos, levava talvez uns 20 a 25 minutos, creio. A pé.

Era comum outras pessoas irem juntas. Conversavam com seu Renato Siqueira, respeitado comerciante do bairro.

Nos dias que correm, o ritmo alucinante engole o prazer do sábado, sobretudo para trabalhadores obrigados a jornada de trabalho estafante. Mas também para os ansiosos de todos os naipes.

Há uma neurótica imposição de certo padrão de vida por si mesmo ansioso. Você se vê quase que obrigado a correr dez quilômetros, organizar o que está ou não desorganizado em casa, não perder a última postagem na sua rede predileta.

Relaxar não pode. É como se você se recusasse a estar bem informado sobre o que ocorre a seu redor e mundo afora.

Aqui em casa a gente resiste. E vence, pelo menos por enquanto.

Sim, há a feira de orgânicos entre as cinco e seis horas; o café na padaria; a entrega de frutas e verduras na portaria de onde residem filhas, genros e netos. Mas por volta das dez horas, a brisa do fim de semana aos poucos nos envolve.

Há tempo para ouvir música, ler, escrever ou simplesmente nada fazer. Rotina prazerosa só interrompida, eventualmente, por alguma reunião do Partido.

À noite, espaço quase sagrado para um filme, em casa ou na tela grande do ETC. Um drinque. Ou nada fazer.

Infelizes os obrigados à desumana escala 6 x 1 (seis dias de trabalho por um de descanso), alvo de campanha nacional encetada por sindicatos, movimentos sociais diversos e partidos de esquerda, o PCdoB com destaque.

Por um sábado semelhante ao meu e por uma vida digna.

Mais atenção à realidade concreta! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minha-opiniao_26.html 

Postei nas redes

Posso não ser especialista em matéria de futebol, mas considero Vinícius Junior o grande craque da seleção atual e Endrick indispensável pelo menos na reserva. 

O mundo cabe numa Organização de Base https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/05/minha-opiniao_18.html 

Arte é vida

Vicente Romero Redondo

Postei nas redes

A extrema direita via PL terá candidatura própria a governador ou seus candidatos se acomodarão no ninho de Raquel Lyra (PSD)? 

Alianças híbridas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_30.html 

Subserviência desavergonhada

Patriotismo de propaganda e soberania em liquidação
Flávio Bolsonaro vai aos Estados Unidos e põe o Brasil à venda
Ricardo Mello/Liberta   

Há momentos na história de um país em que uma fala revela mais do que um programa inteiro de governo. Não porque seja detalhada, técnica ou sofisticada, mas porque é direta demais. Transparente demais. Sem disfarce. A declaração de Flávio Bolsonaro, feita em solo americano, de que o Brasil pode ser a “solução” para os Estados Unidos na disputa por minerais estratégicos contra a China é um desses momentos.

Ali, diante de uma plateia estrangeira, não houve ambiguidades. Não houve cautela diplomática. Não houve um esforço mínimo de revestir o discurso com a linguagem da soberania ou do interesse nacional. O que se viu foi a apresentação do Brasil como fornecedor de riqueza estratégica para uma potência estrangeira. Um país que se oferece sem impor qualquer contrapartida ou condição para impulsionar o desenvolvimento nacional.

E é aqui que a frase de Flávio ganha densidade histórica. Porque não se trata de um episódio isolado, um deslize. É a continuidade de um projeto de poder do bolsonarismo. O senador está prometendo terminar o que Paulo Guedes começou.

Relação de subordinação

Durante o governo de Jair Bolsonaro, o então ministro da Economia conduziu um dos processos mais agressivos de abertura e desmonte de ativos estratégicos do Estado brasileiro. Refinarias da Petrobras foram vendidas. A política de preços foi alinhada ao mercado internacional, mesmo com produção interna abundante. Empresas públicas foram colocadas na vitrine. O discurso era sempre o da eficiência, modernização e integração ao mercado global.

Mas, por trás dessa narrativa, havia uma escolha política muito clara: reduzir a capacidade do Brasil de controlar seus próprios recursos e ampliar o espaço para grandes grupos econômicos internacionais, muitos deles sediados, justamente, nos Estados Unidos.

O que Flávio faz agora é retirar o véu dessa estratégia. Ao falar de terras raras, minerais fundamentais para a indústria tecnológica, militar e energética, ele não está apenas reconhecendo a importância do Brasil no cenário global. Ele está sinalizando disposição para alinhar esses recursos aos interesses dos EUA e dizendo, com todas as letras, que o Brasil pode ser peça de reposicionamento geopolítico dos Estados Unidos.

O grande problema é que a proposta da extrema direita para os EUA não é uma parceria entre iguais, é subordinação. Nenhum país soberano apresenta suas riquezas estratégicas dessa forma. Nenhum líder comprometido com a soberania e o desenvolvimento nacional vai ao exterior oferecer recursos naturais como solução para outro país. Países desenvolvidos protegem seus ativos, regulam seu acesso, negociam com base em interesse próprio e, sobretudo, mantêm controle sobre cadeias produtivas estratégicas.

O Brasil, sob essa lógica apresentada por Flávio Bolsonaro, faria o oposto: renunciaria ao controle, entregaria valor agregado e se posicionaria como fornecedor de matéria-prima numa disputa que não é sua.

No palco do CPAC, Flávio falou como um americano, com um discurso alinhado. Não se trata apenas de afinidade ideológica com o trumpismo ou com setores da extrema direita americana. Trata-se de uma aderência perfeita ao que os próprios Estados Unidos desejariam ouvir. Se um político americano subisse ao palco para defender os interesses industriais e estratégicos dos EUA, dificilmente construiria uma narrativa tão conveniente quanto a apresentada por Flávio Bolsonaro.

Escolha de modelo de país

É por isso que a fala repercute com tanta força no Brasil. Não apenas pela oposição política (que, rapidamente, apontou o risco de “entreguismo”), mas porque toca num nervo histórico da formação econômica brasileira: a tensão permanente entre desenvolvimento autônomo e dependência externa. Desde o período colonial, passando pela industrialização tardia e chegando à inserção contemporânea na economia global, o Brasil oscila entre projetos que buscam construir soberania e projetos que aceitam ou até promovem uma posição subordinada no sistema internacional.

O bolsonarismo, nesse sentido, não inaugura essa lógica. Mas a radicaliza. Ao se apresentar como patriótico, enquanto defende abertura irrestrita de ativos estratégicos, ele produz um fenômeno curioso: um nacionalismo de discurso e uma prática de subordinação. Uma retórica inflamada sobre soberania, acompanhada de decisões que a enfraquecem.

Flávio Bolsonaro, ao falar nos Estados Unidos, sintetiza esse paradoxo. Ele fala em nome do Brasil, mas organiza seu discurso a partir das necessidades de outro país. Ele se apresenta como defensor da nação, mas oferece seus recursos como solução externa. E isso tem consequências concretas.

Entregar o controle de minerais estratégicos não é apenas uma decisão econômica, é uma decisão sobre o futuro industrial, tecnológico e geopolítico do país. É renunciar a cadeias produtivas de alto valor, e aceitar um lugar de fornecedor de insumos brutos na divisão internacional do trabalho. É, em última instância, abdicar de um projeto de desenvolvimento.

Por isso, o debate que se abre não é apenas eleitoral. Não se trata apenas de disputa narrativa entre governo e oposição. Trata-se de uma escolha de modelo de país. De um lado, a ideia de que o Brasil deve controlar suas riquezas, agregar valor, negociar em pé de igualdade e construir autonomia estratégica. De outro, a proposta cada vez menos disfarçada de integração subordinada, em que recursos naturais são moeda de troca para alinhamento político e apoio internacional para que a extrema direita retorne ao poder.

Flávio Bolsonaro, ao discursar no exterior, deixou claro de que lado está. E ao fazê-lo, revelou que o projeto de destruição do Estado brasileiro, iniciado por Paulo Guedes, não terminou.

Ele apenas aguarda continuidade. A diferença é que agora, sem o verniz técnico e com menos preocupação em disfarçar intenções, a proposta aparece em sua forma mais explícita: o Brasil como solução para outros. Nunca para si mesmo.

Direita dividida x Lula? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_27.html

Humor de resistência

Miguel Paiva 

Powerpoint da Globonews reabre as feridas de manipulação da mídia https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/globo-na-lama-2.html