15 setembro 2026

Entreguismo sem limites

Plano mostra que Flávio Bolsonaro quer entregar terras raras aos Estados Unidos
Documento foi elaborado por André Marinho, cujo irmão é suplente de Flávio Bolsonaro no Senado e oferece o Brasil como fornecedor de minerais críticos aos EUA.
Barbara Luz/Vermelho    

Um documento de 22 páginas elaborado por André Marinho, aliado de Flávio Bolsonaro (PL) e candidato ao governo do Rio de Janeiro pelo Novo, detalha como um eventual governo do senador buscaria transformar o Brasil em fornecedor estratégico de minerais críticos e terras raras dos Estados Unidos, dentro de uma cadeia de abastecimento alinhada a Washington e em oposição à China.

A existência do material foi revelada nesta sexta-feira (12) em reportagem exclusiva de Guilherme Amado e João Pedroso de Campos, do Amado Mundo/Metrópoles. Produzido em inglês em 19 de março, o documento tem formato de apresentação de PowerPoint. A capa traz a inscrição “Flávio Bolsonaro | 2026 Campaign” e as páginas seguintes exibem a marca “Flávio Bolsonaro” acompanhada do slogan “Prosperity Partnership”. Os metadados identificam Marinho como autor, informação confirmada por ele à reportagem.

Marinho é filho de Paulo Marinho, suplente de Flávio no Senado. Embora negue qualquer relação entre o estudo e a campanha presidencial do senador, a identidade visual do material vincula diretamente a apresentação ao nome do candidato. Segundo ele, o documento foi produzido por iniciativa própria e não chegou às mãos de autoridades norte-americanas.

Alinhamento aos Estados Unidos

O chamado “Flávio Bolsonaro Way” apresenta três princípios. O Brasil deixaria de ser apenas exportador de matérias-primas, evitaria uma dependência estrutural das cadeias de processamento chinesas e “se alinhará com os Estados Unidos na construção de um sistema de abastecimento paralelo”.

O plano contrapõe esse projeto ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula é classificado como “pró-China”, marcado por “ambiguidade geopolítica deliberada” e por um “avanço regulatório lento”. Entre os supostos riscos de sua continuidade, o documento lista a possibilidade de o Brasil virar “mero fornecedor de matérias-primas para a China” e perder a oportunidade de realinhar sua cadeia mineral aos Estados Unidos.

A alternativa defendida para um governo Flávio Bolsonaro prevê “claro alinhamento ocidental”, aceleração regulatória, integração entre mineração e política industrial e atração de capital. O texto sintetiza a disputa em uma frase: “A diferença é simples: Lula hesita, Bolsonaro executa.”

Entre os pilares estão mudanças na legislação minerária e no licenciamento, capital norte-americano associado a ativos brasileiros e a inserção do país em um “clube de minerais críticos” alinhado aos Estados Unidos. A projeção apresentada estima de US$ 50 bilhões a US$ 100 bilhões em investimentos ao longo de dez anos, entre 500 mil e 1 milhão de empregos e expansão de 1,5 a 2,5 pontos percentuais do PIB.

A mensagem destinada a “interlocutores americanos” explicita a lógica geopolítica: “O Brasil não está pedindo por assistência. O Brasil oferece escala. […] O OCIDENTE NÃO TEM UM PROBLEMA DE MINERAIS. TEM UM PROBLEMA DE EXECUÇÃO. O BRASIL É A SOLUÇÃO.”

Do documento aos encontros em Washington

Nove dias depois da elaboração do material, Flávio Bolsonaro fez um discurso na CPAC, conferência da direita trumpista realizada em Dallas, nos Estados Unidos, com formulação semelhante à apresentada no documento.

“O Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido, porque o Brasil é a solução dos EUA para quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente elementos de terras raras”, afirmou em 28 de março.

Após quase três semanas da produção da apresentação, André Marinho esteve nos EUA e se encontrou com o vice-presidente J.D. Vance. O encontro foi articulado por Robert Kennedy Jr., secretário de Saúde do governo Trump e pai do cunhado de Marinho. Em 26 de maio, Flávio Bolsonaro reuniu-se com Donald Trump em Washington e afirmou ter discutido tarifas e terras raras. No dia seguinte, encontrou Vance e o secretário de Estado Marco Rubio.

Marinho também aparece em outra frente de aproximação com o trumpismo. O empresário Pedro Sang afirmou que foi ele quem o aproximou da Rockbridge Network, rede de financiadores conservadores fundada por Vance. O presidenciável Renan Santos, do Missão, acusa a campanha de Flávio de ter recebido recursos norte-americanos por meio da rede, mas não apresentou provas. A legislação brasileira proíbe doações eleitorais provenientes direta ou indiretamente de entidades ou governos estrangeiros.

A revelação expõe uma contradição no discurso da direita bolsonarista, que se apresenta publicamente como defensora da soberania nacional. Enquanto o tema foi usado politicamente inclusive nas manifestações do 7 de Setembro, o documento preparado por um aliado de Flávio propõe inserir recursos minerais estratégicos brasileiros numa cadeia de abastecimento orientada pelos interesses geopolíticos dos Estados Unidos.

Marinho nega qualquer participação da campanha. “Esse estudo foi uma iniciativa exclusivamente minha e estava armazenado em meu dispositivo. […] Não enviei nem apresentei esse conteúdo a nenhuma autoridade americana, afirmou.

A campanha de Flávio Bolsonaro, por sua vez, não respondeu à reportagem sobre a origem do documento, sua relação com as propostas apresentadas nem sobre eventual conhecimento do material. O silêncio mantém em aberto dúvidas sobre um plano que, embora negado por seu autor como peça de campanha, leva o nome de Flávio, adota identidade visual eleitoral e apresenta aos EUA uma proposta de alinhamento estratégico em torno de recursos minerais brasileiros.

O conteúdo também expõe a distância entre o discurso público de soberania nacional adotado pela direita bolsonarista e uma proposta que coloca terras raras e minerais críticos do Brasil dentro de uma estratégia geopolítica voltada aos totalmente aos interesses de Washington.

Defender a soberania nacional com Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/editorial-do-vermelho_0189987053.html

Mais sujeira atrás da porta

Investigação aponta ligação com o PCC na produção de filme sobre Bolsonaro
“A Turma” de Vorcaro também teria pago R$ 10 mil em articulação com o PCC para a proteção de Vorcaro na prisão
Davi Dmolir/Vermelho   

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, retirou neste domingo (13) o sigilo de cerca de cinco mil páginas produzidas pela Polícia Civil de São Paulo sobre a produtora do filme Dark Horse, cinebiografia fictícia de Jair Bolsonaro.

No despacho, o relator afirma que há a hipótese de um esquema sofisticado de destinação e desvio de recursos públicos, com destaque para emendas parlamentares federais e contratos da Prefeitura de São Paulo, e registra que essa organização teria vínculos com a facção criminosa PCC.

Dino determinou que o material da Vara Estadual das Garantias de Organizações Criminosas e Lavagem de Bens passe a tramitar com publicidade no STF e que a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo entregue à Polícia Federal celulares, computadores, documentos e o conteúdo bruto extraído dos aparelhos apreendidos em junho.

Também autorizou Relatórios de Inteligência Financeira do Coaf sobre a empresária Karina Ferreira da Gama e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), pedido que a Justiça estadual havia recusado.

Com a determinação, a apuração deixa de ficar confinada à Secretaria de Segurança Pública de São Paulo e passa a ser tratada no Supremo como um possível sistema de captação, circulação e ocultação de dinheiro público.

O elo que a polícia paulista documentou

A ramificação com o Primeiro aparece a partir dos vínculos contratuais e financeiros de Karina Ferreira da Gama, que preside o ICB e é sócia da Go Up Entertainment, com a Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda. que à época pertencia a Alex Leandro Bispo dos Santos, que segundo a polícia paulista, seria integrante relevante da facção criminosa, conhecido como escorpião.

O escorpião e os vínculos com a produtora de Dark Horse.

O instituto Conhecer Brasil firmou com a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia o Termo de Colaboração do programa Wi-Fi Livre SP para a instalação, operação e manutenção de 5 mil pontos de internet em comunidades da capital, com valor inicial citado pelas investigações de R$ 108 milhões ao ano, e aditivos que elevaram o montante a cerca de R$ 157 milhões.

Leia mais: Mendonça retira sigilo de rede de pagamentos do Banco Master

Dentro dessa execução, o ICB subcontratou a Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., cujo contrato chegou a R$ 12 milhões, conforme a Polícia Civil.

Notas fiscais juntadas aos autos registram ao menos três pagamentos em 2025: R$ 500 mil em 24 de junho, R$ 500 mil em 4 de julho e R$ 2 milhões em 7 de julho. Até dezembro de 2025, a empresa havia recebido mais de R$ 2 milhões.

Órgãos de inteligência policial e o Ministério Público de São Paulo apontam Alex Leandro como integrante relevante do PCC no estado, conhecido como Escorpião do PCC.

O empresário acumula condenações por roubo e outros crimes, cumpriu cerca de 13 anos em regime fechado e passou por unidades de segurança máxima. Responde ainda a processo de feminicídio pela morte de Maria Katiane Gomes da Silva, em novembro de 2025. Ao receber a denúncia, a juíza da 5ª Vara do Júri registrou que havia notícia de que o réu se vangloriava da pecha criminosa de Escorpião do PCC.

A defesa dele nega filiação à facção e o feminicidio. O ICB afirmou que a empresa estava regular e que desconhecia vínculos criminais, enquanto a Prefeitura de São Paulo diz que seu contrato é apenas com o instituto. O ponto para a investigação não é uma filiação formal na produtora, mas o trânsito de dinheiro público municipal por uma empresa cujo sócio é qualificado pelo Ministério Público e pela inteligência como quadro da facção, no mesmo emaranhado societário que recebe emenda federal e produz a cinebiografia.

Suspeitas sobre deputados e repasses financeiros

Dino registrou em seu despacho que há alusão reiterada ao deputado federal, Mário Frias, que ocuparia um papel de liderança na suposta arquitetura criminosa.

Frias, ex-secretário de Cultura, é roteirista e produtor executivo de Dark Horse. A Controladoria-Geral da União apontou indícios de irregularidade na destinação de R$ 2 milhões em emendas do parlamentar ao ICB e à Academia Nacional de Cultura, também ligada a Karina Gama.

A Polícia Federal mapeou transferências pessoais de R$ 645,4 mil do deputado à Go Up entre novembro e dezembro de 2025.

Na quinta-feira (10), a Polícia Federal deflagrou a Operação Make Up, autorizada por Dino na mesma petição, cumprindo 49 mandados de busca em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal.

O comunicado oficial do STF registra a tese de que recursos de emendas ao ICB e ANC foram desviados para o filme. Dino suspendeu atividades econômicas das duas entidades e impôs cautelares.

A defesa de Frias nega irregularidades e afirma que as emendas tiveram fim social.

Conexões apontam ligações de Vorcaro com o crime organizado

De acordo com apurações divulgadas pelo portal ICL Notícias, a PF encontrou transferências de R$10 mil em articulação por proteção do PCC para Vorcaro, na cadeia.

Relatórios policiais detalharam movimentações financeiras e mensagens em que integrantes do braço miliciano de Vorcaro, conhecido como A Turma transferiu dinheiro para fazer chegar ao banqueiro o recado que havia uma “força por trás” capaz de ajudá-lo na prisão.

O dinheiro foi transferido por Manolo (Manoel Mendes Rodrigues), integrante da A Turma para o advogado André Luis Chagas Bergeralck.

Paralelamente, corre sob a relatoria do ministro André Mendonça a apuração de recursos pedidos por Flávio Bolsonaro ao ex-controlador do Banco Master, totalizando cifras milionárias rastreadas para fundo nos Estados Unidos,que teria sido usado para manter Eduardo Bolsonaro morando no Texas, EUA, de onde promove sucessivos ataques à soberania nacional.

Do homem da mala para 'Dark Horse' https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/em-cima-do-lance.html

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Em declaração conjunta, ministros das Finanças do BRICS reiteram a crítica ao atual sistema financeiro internacional, considerado desatualizado e favorável aos países desenvolvidos. Propõem uma governança econômica global mais inclusiva, multipolar e alinhada com as necessidades e realidades do século XXI. 

Hegemonia imperialista em crise https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/decadencia-imperialista.html 

Fotografia

Julio Strauch

"Cada um em sua telinha" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/cada-um-em-sua-telinha-luciano-siqueira.html 

Dica de leitura

Onde reside o perigo?
Luciano Siqueira    
 

O tema é permanente em todas as mídias: IA, benesses e ameaças; progresso e risco.

Há boas abordagens e há abordagens alarmantes apenas, carentes de fundamentação científica e de perspectiva política.

Vale conferir o bom ensaio "IA: Onde está a ameaça à humanidade?", publicado no portal Outras Palavras. https://outraspalavras.net/tecnologiaemdisputa/ia-onde-esta-a-ameaca-a-humanidade/ de autoria de Reynaldo Aragon.

Uma abordagem do avanço da Inteligência Artificial a partir de uma perspectiva crítica e sociopolítica, deslocando o foco dos alarmes ficcionais para os impactos reais e imediatos da tecnologia na sociedade.

A verdadeira ameaça reside no uso da IA ​​como ferramenta de controle econômico e corporativo. A tecnologia está controlada por poucas grandes empresas de tecnologia (Big Techs), reforçando o monopólio digital, a limpeza massiva de dados pessoais e a vigilância constante.

Concomitantemente, no que se refere ao ambiente da produção e dos serviços, a automação via IA não ameaça apenas substituir postos de trabalho, mas também aprofunda a precarização das relações trabalhistas (a "uberização"), reduz a desvantagem e amplia o abismo de desigualdade social entre quem possui a tecnologia e quem depende dela para sobreviver.

Outra dimensão reside numa esfera geralmente apontada apenas como beneficiária do aporte em IA: decisões automatizadas (no judiciário, na concessão de crédito, no policiamento e na seleção de empregos) perpetuam e ampliam preconceitos de raça, gênero e classe contidos nos dados de treinamento, sem a dívida transparência ou prestação de contas.

Demais, como se tem denunciado exaustivamente, a capacidade da IA ​​generativa de criar deepfakes, manipular conteúdos e otimizar a transmissão de notícias falsas em massa coloca em risco os processos democráticos, moldando a opinião pública de forma invisível e automatizada – a guerra cultural.

Importa destacar que a ameaça da IA ​​à humanidade não vem da tecnologia em si ou de uma "consciência autônoma das máquinas", mas sim da lógica capitalista e mercantil sob a qual ela é desenvolvida e praticada. O que põe em destaque a luta pela soberania digital, a regulação pública, a transparência algorítmica e a democratização do uso da tecnologia.

Item obrigatório na agenda das transformações estruturais que emerge no cenário global e em cada país de domínio e ao mesmo tempo decadência do imperialismo.

Celso Pinto de Melo: "Quando a vida ganhou um terceiro domínio" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/celso-pinto-de-melo-evolucao-da-ciencia.html 

Arte é vida

 

Victor Sheleg

A Buenos Aires nordestina que admira e torce pela Argentina https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/surpreendente-emocionante.html     

Postei nas redes

A tentativa de gerar uma crise política às vésperas das eleições gerais no Brasil faz parte da articulação internacional da extrema-direita, o uso sistemático da guerra cultural e a instrumentalização da desinformação para desestabilizar os regimes democráticos por dentro. 

A sociologia do golpe https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/natureza-do-golpe.html