A
questão urbana em 2026
A frustração das camadas populares com a precariedade do
espaço urbano exige que se desmascare o rentismo financeiro como o verdadeiro
arquiteto da desigualdade nas metrópoles
Luiz Cesar de Queiroz
Ribeiro & Marcos Bittar Haddad*/A Terra é Redonda
1.
O ano de 2026 se desenha como um momento histórico desprovido de
presente. O Brasil caminha para um confronto eleitoral que é, ao mesmo tempo,
repetição e promessa de ruptura. Duas forças antagônicas – o lulismo e o
bolsonarismo – medirão forças em condições de virtual empate, restando uma fina
película de aproximadamente 5% do eleitorado ainda indeciso. Esse fragmento,
aparentemente residual, carrega o destino da nação. Sua oscilação, porém, não
se explica apenas por indecisão programática. O que está em jogo é um fenômeno
mais paradoxal e corrosivo: a metamorfose do progresso social em experiência de
fracasso.
As camadas populares deveriam ser a base natural de um projeto que
reconhecem como seu. Os indicadores macroeconômicos recentes oferecem um
cardápio que, no passado, selaria o voto de esperança: pleno emprego, renda em
lenta, mas consistente ascensão, crescimento econômico ainda que modesto,
políticas redistributivas de impacto direto – como a isenção ampliada do
Imposto de Renda para quem ganha até cinco mil reais e a capilaridade de
programas de renda mínima.
Há um Estado que, sob a liderança de Lula, sinaliza com concretude
para os de baixo. No entanto, esse mesmo eleitor vive uma experiência subjetiva
que inviabiliza a tradução automática da política em adesão eleitoral.
O paradoxo reside na sensação de mobilidade social descendente que
coexiste com a melhora dos números. É a frustração que nasce do endividamento
perene, dos salários que, mesmo crescendo na média, são insuficientes para
realizar as expectativas de consumo que o mercado digital inculca. Mas o
mal-estar popular não se esgota na economia doméstica; ele transborda para a
experiência brutal do território.
A geladeira cheia já não basta quando, para sair de casa,
enfrenta-se o medo do celular roubado, da bala perdida ou a extorsão silenciosa
do crime organizado infiltrado no cotidiano. O que dói não é apenas a parcela
do carro ou da moto que não se consegue pagar, mas a tarifa do ônibus que
devora o orçamento, o esgoto a céu aberto na porta de casa, a habitação
precária que ameaça desabar na primeira chuva forte.
A repetição de desastres climáticos urbanos – enchentes,
deslizamentos, calor extremo – deixa de ser exceção para se tornar um
calendário trágico, consequência de um aquecimento global que atinge primeiro e
com mais fúria quem vive nas áreas urbanas precárias. O presente é vivido como
uma corrida em que a linha de chegada se afasta mais rápido do que as pernas
podem correr, e onde o próprio chão sob os pés se desfaz.
2.
Essa experiência configura um terreno fértil para a narrativa da
antipolítica, para o discurso que culpa o sistema sem jamais nomear os
mecanismos reais que drenam a vida. É precisamente aqui que a intervenção de
instituições como o Observatório das Metrópoles ganha sua razão de ser –, mas
apenas se ousar ir além do diagnóstico. Não basta mapear desigualdades urbanas
se não politizarmos a questão. O verdadeiro salto político consiste em difundir
conhecimento que permita às camadas populares nomearem o seu verdadeiro inimigo.
Enquanto o debate público permanecer capturado pela polarização entre
personagens, o eleitor indeciso oscilará entre um passado idealizado e um
futuro ameaçador, sem jamais enxergar a estrutura que o aprisiona.
Nomear o inimigo é desvelar as forças do rentismo financeiro e sua
capacidade de exploração que sequestra tanto as finanças populares quanto o
próprio Estado. É mostrar que a drenagem de recursos via juros abusivos, a
financeirização da moradia, o endividamento como modo de vida e a canalização
de fundos públicos para a remuneração de ativos financeiros constituem a
arquitetura real da frustração. O trabalhador que vê seu salário evaporar no
crédito rotativo, a família que compromete décadas com uma prestação
imobiliária inflada, o microempreendedor sufocado por taxas: todos partilham um
mesmo adversário que opera com nome falso na cena política.
O rentismo não é uma abstração econômica; é o síndico que
superfatura, o banco que multiplica o principal na renegociação da dívida, o
fundo imobiliário que expulsa o pobre das áreas valorizadas. É também o capital
imobiliário que, por meio de aluguéis de curta temporada via Airbnb, aspira a
moradia permanente e infla artificialmente os preços, convertendo bairros
inteiros em territórios de ostentação do seu poder. Sob a maquiagem do
UrbanLuxo – os condomínios-blindagem que privatizam a paisagem — ou do AgroLuxo
– as vitrines do agronegócio que transformam a terra em grife –, essas forças
erguem cidades-espetáculo para poucos, enquanto a maioria é empurrada para
periferias cada vez mais distantes e precárias.
A fração indecisa do eleitorado, portanto, não está simplesmente
entre Lula e o bolsonarismo como figuras; está entre a esperança de que o
bem-estar prometido se realize e a revolta que a vida concreta gera. O
bolsonarismo, com sua gramática moralizante e sua promessa de ordem que pune os
“de baixo” em nome dos “de bem”, oferece um alvo fácil e falso. O lulismo
oferece um projeto que, para ser percebido como tal, precisa fazer sentido na
vida cotidiana. E a vida cotidiana, hoje, é mediada por um território urbano
extrativo, onde o rentismo opera sem rosto.
3.
É preciso, então, explicar às camadas populares que políticas como
a isenção do Imposto de Renda para parcela da classe trabalhadora, a renegociação
de dívidas com juros baixos, o Pé de Meia, o Gás do Povo, a volta do Minha Casa
Minha Vida e a ampliação do Farmácia Popular as beneficiam diretamente. Mas no
cotidiano das pessoas os assuntos mais preocupantes são os preços dos
alimentos, a falta de segurança e a corrupção – e, graças à despolitização, a
culpa de tudo acaba atribuída ao Governo Federal.
As camadas populares não conseguem distinguir as atribuições de
cada ente federativo, nem compreendem a divisão de poderes entre judiciário,
legislativo e executivo. Cabe a nós, estudiosos da realidade urbana, fazer os
devidos esclarecimentos. O alto custo dos alimentos é consequência de uma
lógica rentista agroexportadora que prioriza o mercado externo em busca de
lucros maiores. A corrupção e os desvios do INSS começaram no governo de Michel
Temer, continuaram no governo de Jair Bolsonaro e vieram à tona com Lula, que
determinou as apurações.
Os rombos do Banco Master nada têm a ver com o governo federal,
mas podem ter ligações com parlamentares e governos estaduais e municipais. A
segurança pública, constitucionalmente de responsabilidade dos governos
estaduais, acaba, de forma interessada, sendo atribuída ao governo federal,
inclusive por alguns governadores.
Entre os dois projetos em disputa em 2026, um lado está no ataque,
atribuindo ao atual governo tudo de ruim que existe; o outro, o do governo,
coloca-se na defensiva e, mesmo composto por variadas forças políticas, tem
enorme dificuldade de se comunicar com a população.
As forças democráticas e populares só conseguirão vencer esse
impasse – transformando este “momento sem presente” em um novo ciclo de
esperança – se forem capazes de conectar a política da redistribuição com uma
política de nomeação clara do adversário. O Observatório das Metrópoles e
outros atores do pensamento crítico têm diante de si a tarefa histórica de
traduzir dados em narrativa, conhecimento em politização, para formadores de
opinião e para o público em geral. Não se trata apenas de mostrar que a cidade
é desigual, mas de evidenciar quem promove e lucra com essa desigualdade.
Para além de esclarecer o que está em disputa, é preciso fazer com
que as camadas populares entendam em qual faixa da sociedade se localizam. As
forças rentistas comunicam-se muito bem com as massas: penetram em seu universo
particular, transformam os objetos de desejo do cidadão mais humilde e o fazem
sonhar com uma grandeza que jamais alcançará.
Ao assumir o pensamento de que quanto mais trabalhar, mais chance
tem de crescer, o trabalhador amplia, sem se dar conta, as rendas de quem está
no comando do processo. A exploração que ele sofre jamais o deixará sair dessa
posição, mas ele “caminha para a morte” sonhando em um dia fazer parte do agro,
do luxo ou do seleto grupo da Faria Lima. Desmontar essa armadilha ideológica
é, em 2026, a condição de qualquer projeto emancipatório.
*Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro é professor do
Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ).
*Marcos Bittar Haddad é pós-doutor
em geografia pelo Instituto de Estudos Socioambientais de Universidade Federal
de Goiás (UFG).
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Presente e futuro na luta cotidiana: a reforma urbana, por exemplo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/01/meu-artigo-no-portal-da-fundacao.html




