18 abril 2026

Brics: novos desafios

A hora da verdade do Brics
Guerra coloca bloco emergente em encruzilhada e dá razão aos alertas emitidos pelo Brasil
Jamil Chade/Liberta  


 

Há poucos meses, Donald Trump gerou uma onda de críticas ao dizer que o Brics já não existia mais. Segundo ele, havia sido sua pressão que obrigara o bloco a desfazer suas ambições de ser um ator internacional e um freio à hegemonia da Casa Branca e seus aliados.

Desde o dia 28 de fevereiro deste ano, a péssima notícia é a de que o bloco, de fato, está em silêncio. Mas os motivos são outros. A guerra que eclodiu no Oriente Médio colocou, de forma inesperada, diferentes membros do Brics em lados opostos do conflito.

E escancarou o que muitos na diplomacia brasileira já alertavam: um Brics ampliado teria seus limites e poderia, inclusive, viver abalos.

Sob ataque, a resposta do governo do Irã – um novo membro do Brics – foi lançar mísseis não apenas contra Israel. Mas também no Golfo Pérsico, com ataques contra interesses americanos nos Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita – dois membros que, recentemente, também aderiram ao bloco.

Divergências internas

A realidade é que, se a crise já seria grave por si só, ela ganhou um contorno inesperado: colocou em trincheiras opostas países que fazem parte mesmo do bloco das economias emergentes e que eram a aposta de muitos para conter o avanço americano pelo mundo.

A reportagem apurou que, hoje, diante da guerra entre seus próprios membros, o Brics sequer conseguiu um consenso para convocar uma reunião de emergência. O imobilismo inédito contrasta com a atitude adotada pelo bloco aos longo dos últimos anos em diversos temas internacionais.

Quando a guerra de 12 dias entre Israel e Irã eclodiu, em junho de 2025, o bloco, então presidido pelo Brasil, rapidamente declarou que os ataques conjuntos EUA-Israel contra o Irã constituíam uma “violação do direito internacional”.

Mesmo diante da invasão russa contra a Ucrânia, o bloco reconheceu a divergência entre seus membros. Ainda, o tema chegou a ser tratado em reuniões de chanceleres.

Mas nada se compara a uma crise que envolve um membro do Brics bombardeando outro. Os Emirados Árabes Unidos anunciaram, ainda em março deste ano, que também poderiam lançar mísseis contra o Irã, como resposta aos ataques que vinham sofrendo. Os sauditas alertaram que reservavam o direito de retaliar o Irã, diante dos ataques contra suas refinarias.

Entre diplomatas, porém, o problema não se limita ao enfrentamento entre iranianos e os países do Golfo. Em 2026, a presidência do bloco está com os indianos, um aliado dos EUA e com relações cordiais com Israel.

O tom usado por Nova Delhi, portanto, foi de cautela. “A Índia reitera veementemente seu apelo ao diálogo e à diplomacia. Compartilhamos claramente nossa voz a favor de um fim rápido ao conflito”, se limitou a dizer o ministério de Relações Exteriores da Índia, acrescentando que a guerra coloca em risco a estabilidade regional e a segurança de milhares de cidadãos indianos que vivem e trabalham na região do Golfo.

O primeiro-ministro Narendra Modi também saiu em defesa dos países do Golfo e criticou os ataques retaliatórios contra seus territórios.

No Conselho de Segurança da ONU, China e Rússia – dois membros do Brics – votaram contra uma resolução que havia sido apoiada pelos Emirados Árabes e pelos sauditas, pedindo uma ação para abrir o Estreito de Ormuz.

Expansão polêmica

Parte dos diplomatas, hoje, culpa a expansão do bloco por sua fragilidade.

Originalmente com quatro membros, o Brics teve uma primeira ampliação em 2009 com a adesão da África do Sul. Mas foi a partir de 2023 que a China passou a pressionar os demais membros para que uma nova expansão fosse realizada.

Brasil e Índia eram contrários à movimentação de Pequim. O temor era o de que, diverso, o grupo pudesse perder sua força como ator internacional. O chanceler Mauro Vieira chegou a alertar que os ativos conquistados pelo Brics ao longo de mais de dez anos deveriam ser “preservados”.

Outro temor de Brasil e Índia era o de que o bloco se transformasse numa espécie de estrutura para legitimar as ambições de política externa da China.

Numa reunião a portas fechadas, apenas com Luiz Inácio Lula da Silva, Xi Jinping, Narendra Modi, Vladimir Putin por vídeo conferência e Cyril Ramaphosa, foi negociado o destino do bloco, num retiro na África do Sul em 2023 e sob enorme pressão por parte de Pequim.

Aos poucos, a resistência indiana se desfez e o Brasil acabou ficando sozinho numa posição contrária à expansão. Sem alternativas, Brasília acabou cedendo.

O governo Lula tentou convencer aliados sul-americanos a aderir, numa esperança de equilibrar o jogo com a China. Brasília tentou costurar a entrada de Colômbia e Argentina. Bogotá optou por declinar o convite e, quando assumiu o governo argentino, Javier Milei rejeitou a proposta de fazer parte do bloco dos emergentes.

Pequim tentou garantir que seu aliado na região latino-americana – a Venezuela – fosse aceita. Mas, neste caso, foi o veto do Brasil que fez implodir a adesão de Caracas.

Alguns critérios, ainda assim, foram mantidos no acordo final. O primeiro deles era a exigência de que qualquer decisão continuasse sendo tomada por consenso.

Outra reivindicação de Brasil, África do Sul e Índia era a de que os novos membros se comprometeriam em apoiar o pleito dos três por uma vaga no Conselho de Segurança da ONU.

No momento da expansão, entre 2023 e 2024, o convite incluía sauditas e os Emirados. Uma proposta foi feita para a Indonésia, mas acabou sendo declinado por Jacarta, sob forte pressão dos EUA. E, como alternativa, o Irã foi convidado para fazer parte do bloco.

Atores rivais

Naquele momento, a presença na mesma sala de atores rivais no Golfo foi vendida como uma sinalização de que o Brics poderia ser, até mesmo nesse caso, uma ponte entre autoridades de vários países. O Brasil tinha sérias dúvidas se esse seria o caso, enquanto negociadores alertavam sobre o risco de ter no Brics países que tinham entregue parte de sua soberania com a instalação de bases militares americanas.

O que poucos imaginavam é que, menos de dois anos depois, uma guerra eclodiria entre eles. Hoje, um dos legados do conflito é a demonstração das limitações de um bloco que representava a esperança para uma frente de países emergentes.

Entre negociadores de outros países, a incapacidade de uma ação do Brics neste momento reforça a influência do Brasil como um ator que pensa de forma estratégica o destino do bloco emergente. “Ainda que ninguém reconheça publicamente o erro, quem sai mais influente dessa crise é o Brasil”, admitiu um funcionário de uma chancelaria estrangeira.

Entre diplomatas brasileiros, os comentários reservados são claros: “nós avisamos”.

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Brics sob fogo cruzado https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/mundo-papel-mais-do-que-relevante.html 

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O desemprego é o menor de toda a série histórica, iniciada em 2012; a recuperação da renda é constante — "mas Lula precisa dizer ao eleitor porque merece ser reeleito presidente", diz colunista de 'O Globo'. Parece análise, mas é mesmo campanha contra. 

Angu de caroço https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Arte é vida

 

Paul Klee

O jogador, sua aposta e a desordem mundial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eua-e-ordem-mundial-fissurada.html 

Combustível mais caro

Privatização gerou aumento de até 88% em combustíveis
Refinarias privatizadas cobram maiores valores pelo diesel; debate também questiona diferença entre custo de produção e valor de venda.
Aepet   
 

A privatização na área de combustíveis, especialmente após a venda das refinarias, da BR Distribuidora e da Liquigás, impactou os preços e prejudica a população, segundo especialistas reunidos em audiência pública, em Brasília, nesta quinta-feira. Dados apresentados pelo economista do Dieese/FUP Cloviomar Cararine reforçam esse cenário, mostrando aumento e maior volatilidade nos preços praticados pela Acelen, refinaria baiana privatizada em 2021.

Salvador é a capital brasileira que registra os maiores preços do diesel S10 ao consumidor final, atingindo em média R$ 8,20 por litro, na semana de 5 a 11 de abril. Em 12 meses, a variação de preço foi de 27,33%. O mesmo comportamento é observado em Manaus, onde a refinaria foi privatizada em 2022. Com isso, a cesta básica na capital amazonense teve alta de 7,42% em março, e de 7,15% em Salvador, no mesmo mês.

A diretora da Federação Única dos Petroleiros (FUP) e do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (Sindipetro-NF), Bárbara Bezerra, fez críticas ao modelo adotado após a privatização, destacando distorções que afetam diretamente a percepção da população.

Ela chamou atenção para a falta de controle na ponta final da cadeia. “A Petrobras segura o preço nas refinarias, os postos aumentam. A população não consegue entender. Tem algo aí que a gente ainda precisa corrigir.” Com a guerra no Oriente Médio, vimos aumentos de até 88% nas refinarias privatizadas, afirmou.

A diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), Ticiana Alvares, destacou o papel estratégico que a BR Distribuidora exercia antes da privatização, atuando como referência para o mercado e protegendo o consumidor contra abusos.

“Com essa fatia de mercado, a BR Distribuidora tinha um papel na formação de preços. Se o consumidor via o preço num posto BR a R$ 5, e no outro posto a R$ 7, ficava claro que o que cobrava R$ 7 estava com um preço abusivo”, afirmou.

Bezerra ainda destacou que o debate sobre preços precisa considerar toda a cadeia produtiva do petróleo, desde a extração. “O ciclo não começa na refinaria, começa no poço. No pré-sal, o custo do barril é de cerca de US$ 8. Quando se vende a US$ 120, é preciso discutir como essa riqueza está sendo utilizada e por que não está sendo revertida para garantir autossuficiência em derivados.”

“Na privatização da BR Distribuidora, a gente tem um verdadeiro crime quando se aceita que os postos continuem usando a marca Petrobras. Isso confunde a população e faz parecer que a Petrobras é responsável pelo aumento dos preços”, afirmou a diretora da FUP.

Privatização gera ameaça de desabastecimento de combustíveis no Norte

Paulo Neves, diretor da FUP e do Sindicato dos Petroleiros do Amazonas (Sindipetro-AM), destacou que, em regiões como o Norte do país, a privatização criou situações ainda mais críticas, com concentração de mercado e risco de desabastecimento. “Quando a gente olha para a região do Amazonas, onde há apenas uma refinaria, isso configura um monopólio privado regional fortíssimo”, afirmou.

Neves também alertou para os efeitos concretos sobre a população. “Nos rincões do Amazonas, o combustível é vendido a preços absurdos. Já temos desabastecimento acontecendo.” O dirigente defendeu a retomada do papel da Petrobras também como garantia de acesso universal ao combustível. “A gente precisa garantir que o abastecimento chegue não só às grandes capitais, mas também aos lugares mais distantes, sob condições justas.”

Na mesma linha, Deyvid Bacelar, petroleiro, ex-coordenador da FUP, reforçou o caráter estratégico e a necessidade de controle público sobre os combustíveis. “Combustível não é uma mercadoria qualquer. Ele impacta toda a economia. Sem controle público, o resultado é aumento de preços e mais desigualdade”.

Ao final da audiência, os participantes convergiram na avaliação de que a retomada de uma Petrobras integrada, “do poço ao posto”, é fundamental para garantir soberania energética e estabilidade de preços, protegendo a população das oscilações do mercado internacional. Bárbara Bezerra destacou os efeitos diretos da privatização sobre os preços e a vida da população.

“Precisamos lembrar que, em 2019, a BR Distribuidora foi vendida e o grupo comprador manteve o direito de usar a marca Petrobras. Hoje, não existe nenhum posto da Petrobrás, apesar de o nome continuar sendo usado comercialmente. Em 2020, foi vendida a Liquigás, e vimos o preço do botijão disparar. Sai da distribuição a cerca de R$ 37 e chega, em alguns lugares, a R$ 155 para a população”, protesta.

Fonte(s) / Referência(s): Monitor Mercantil

Nada é por acaso https://lucianosiqueira.blogspot.com 

Postei nas redes

Vi o bom jogo Roma 1 X 1 Atalanta. Largo predomínio de atletas ESTRANGEIROS nas duas equipes. Alguma relação com a ausência da Itália na Copa do Mundo? 

Seleção brasileira: "Tempos vividos e perdidos" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/selecao-brasileira-para-onde.html 

Conduta irresponsável

Trump errátil e inconsequente
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65   

Estranha forma de negociação a de Donald Trump: concomitantemente com gestões diplomáticas complexas e delicadas destinadas a por um fim à guerra, o presidente norte-americano alimenta a própria narrativa através de redes sociais e toma iniciativas que, na prática, negam as negociações.

Caso do bloqueio ao Estreito de Ormuz, que a China considera “irresponsável e perigosa”.

É o que o Global Times – publicação chinesa – registra ao mencionar o diálogo entre o chanceler chinês, Wang Yi, e o diplomata iraniano, Seyed Abbas Araghchi.

Para o governo chinês, o cerco militar não viola apenas a soberania iraniana, mas principal via para o transporte de petróleo mundial e o Irã tem o direito de exercer sua soberania sobre suas águas e recursos.

Mais o uso de sanções e cercos militares por parte dos Estados Unidos configura “chantagem econômica”, acirrando mais ainda o risco de um choque na economia global caso o conflito se prolongue sem perspectiva de paz.

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IA: Como a China está vencendo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ia-china-vence-eua.html

Palavra de poeta

Façamos uma limpeza geral
Amalia Bautista      

Façamos uma limpeza geral
e deitemos fora todas as coisas
que não nos servem para nada, essas
coisas que nós já não usamos, essas
coisas que ficam a apanhar pó,
as que evitamos encontrar porque
nos trazem as lembranças mais amargas,
as que nos magoam, ocupam espaço
ou nunca quisemos ter junto a nós.
Façamos uma limpeza geral
ou, melhor ainda, uma mudança
que nos permita abandonar as coisas
sem sequer lhes tocar, sem nos sujarmos,
deixando-as onde sempre estiveram;
e vamos nós embora, vida minha,
para começar de novo a acumular.
Ou então deitemos fogo a tudo
e fiquemos em paz, com essa imagem
das chamas do mundo perante os olhos
e com o coração desabitado.

[Ilustração: Steve Hanks]

Verso e reverso da vida https://lucianosiqueira.blogspot.com/