30 maio 2026

Futebol: nuances

As histórias se repetem: Palmeiras e Flamengo na disputa do título
Na seleção também há repetição: Neymar novamente machucado, A recente ausência dos gramados pode atrapalhar a recuperação do santista
Tostão/Folha de S. Paulo   

De vez em quando alguém me pergunta por que eu não estou presente em eventos relacionados ao Cruzeiro, à CBF, à Fifa e a outras organizações. Além de gostar de meu canto e de tentar separar o público do privado, preciso, como colunista, manter uma distância para ter total liberdade e independência para criticar e elogiar.

As histórias se repetem no Brasileirão. Palmeiras e Flamengo, novamente, vão disputar o título. Na derrota do Flamengo para o Palmeiras, por 3 x 0, o primeiro gol aconteceu logo após a expulsão de Carrascal. O Flamengo, perdendo o jogo, teria de tentar o gol, ainda mais em casa, empurrado pela torcida. Nessas situações, é frequente a equipe com um jogador a menos sofrer mais gols por deixar muitos espaços na defesa. Mesmo assim, o técnico Leonardo Jardim foi duramente criticado. Por muito pouco, os treinadores se transformam de heróis em vilões pelas redes sociais e pelos gênios das estratégias.

Por que o Bahia, com frequência, não consegue marcar vários gols sem sofrer tantos? Contra o Coritiba fez 2 e sofreu 3. Seria por causa de deficiências táticas? Penso que o elenco é modesto para o time atacar e defender bem. Deveria se inspirar no modelo do equilibrado Arsenal, campeão inglês, em vez de seguir o do ousado Manchester City, clube do grupo do qual o Bahia faz parte.

Na seleção, as histórias também se repetem. Neymar está novamente machucado, com problema na panturrilha, o que reforça a opinião de que ele não deveria ter sido convocado. Ele se apresenta nesta quarta (27) junto com os outros jogadores e, mesmo se estiver em condições de treinar, os últimos dez dias de ausência dos gramados podem atrapalhar sua recuperação técnica e física. Existe também a possibilidade de Neymar continuar fora dos treinamentos ou mesmo de ser cortado.

Na época da apresentação da seleção para a Copa de 1970, eu tinha ficado seis meses sem participar de qualquer atividade física por causa da cirurgia após o descolamento da retina. Dias antes, fui aos EUA para fazer uma revisão e fui liberado pelo médico para treinar, porém separado do grupo. Carlos Alberto Parreira, que era na época auxiliar da preparação física, foi meu instrutor por cerca de 45 dias.

Na época, a moda no Brasil e no mundo era o teste de Cooper, que media quantos metros um atleta corria em 12 minutos. Logo que passei a treinar com o grupo, fiz o teste e fiquei na última colocação. A imprensa foi atrás do técnico, João Saldanha, para saber das minhas condições físicas. Ele disse: "Tostão foi o último no teste, mas já está escalado". Parecia até que eu era um supercraque, imprescindível. Não sei se Saldanha gostava mais das minhas características técnicas ou da minha pessoa, pois batíamos bons papos sobre futebol, política e outros assuntos.

Eu ainda não entendi por que Saldanha foi convidado para ser técnico da seleção, pois era um ativo participante do Partido Comunista Brasileiro no tempo da nefasta ditadura. Dizem que antes de ser demitido houve uma reunião em Brasília entre os dirigentes da CBD e o ditador Médici. Havia um sussurro entre os jogadores de que Saldanha sairia. Ficamos tristes, chateados, mas, como dizia o próprio Saldanha, "vida que segue". Entrou Zagallo e o Brasil foi campeão.

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Roda vida, roda pião https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Sylvio: "patéticos"

Ao ver nos jornais a foto dos irmãos Bolsonaro junto com Paulo Figueiredo, ladeando Trump, não  sei porque lembrei-me de um filme que me fazia rir muito na minha infância: Os três Patetas.

Sylvio Belém 

Retratos da vida https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

29 maio 2026

Palavra de poeta

Desalento

Vinícius de Moraes     


Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu chorei
Que eu morri
De arrependimento
Que o meu desalento
Já não tem mais fim
Vai e diz
Diz assim
Como sou
Infeliz
No meu descaminho
Diz que estou sozinho
E sem saber de mim

Diz que eu estive por pouco
Diz a ela que estou louco
Pra perdoar
Que seja lá como for
Por amor
Por favor
É pra ela voltar

Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu rodei
Que eu bebi
Que eu caí
Que eu não sei
Que eu só sei
Que cansei, enfim
Dos meus desencontros
Corre e diz a ela
Que eu entrego os pontos

[Ilustração: Simon Taylor]

Leia também: O homem só https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minhaopiniao_64.html 

Celso Pinto de Melo opina

O enterro de Brutus
O país inteiro parecia saber que havia algo apodrecido naquele edifício moral erguido em nome da pátria, da família e da honestidade.
Ceso Pinto de Melo/Jornal GGN      

Amigos, compatriotas, cidadãos de bem, emprestem-me seus ouvidos.

Venho enterrar Brutus, não elogiá-lo.

O mal que os homens fazem sobrevive frequentemente a eles; o bem, muitas vezes, é enterrado com seus ossos. Que assim seja com Brutus. 

Pois Brutus era um homem honrado.

E homens honrados merecem cerimônia digna, palavras graves, semblantes compungidos e editoriais respeitosos. Merecem o silêncio prudente dos antigos aliados, a cautela dos antigos admiradores e até mesmo a tristeza protocolar daqueles que ontem juravam jamais ter percebido sinais de decomposição moral no corpo agora exposto diante da praça pública

Porque Brutus era um homem honrado. 

Durante anos, disseram-nos que tudo não passava de exagero. De perseguição. De narrativa. Má vontade dos inimigos. Disseram-nos que os depósitos eram coincidências, que os assessores eram leais, que as movimentações eram atípicas apenas para olhos maliciosos. Garantiram-nos que imóveis apareciam e multiplicavam-se como um fruto natural do empreendedorismo patriótico.

E Brutus era um homem honrado.

Houve quem estranhasse a extraordinária capacidade financeira daquele círculo familiar. Quem perguntasse, ainda timidamente, como salários modestos produziam patrimônios tão vigorosos. Houve quem observasse a curiosa circulação de dinheiro vivo, essa relíquia econômica preservada com tanto carinho em plena era digital. 

Mas homens honrados certamente possuem hábitos financeiros incompreendidos pelas pessoas comuns.

Também surgiram amizades inconvenientes, vizinhanças desconfortáveis, fotografias embaraçosas, homenagens oficiais concedidas a personagens que pareciam frequentar em demasiado as páginas policiais. Nada conclusivo, asseguravam-nos. Nada definitivo. Apenas coincidências tropicais sob o calor excessivo da política brasileira.

E Brutus era um homem honrado. 

A cada nova revelação, porém, tornava-se necessário ampliar um pouco mais o esforço coletivo de fingimento. Jornalistas precisavam olhar para o lado. Aliados precisavam subitamente perder a memória. Patriotas inflamados precisavam explicar que rachaduras morais eram, na verdade, demonstrações de autenticidade popular. Afinal, homens simples movimentam dinheiro de maneira simples.

E Brutus era um homem honrado.

Talvez o mais extraordinário nessa longa cerimônia não tenha sido o segredo, mas justamente o fato de jamais ter sido segredo algum. O país inteiro parecia saber – ainda que discretamente, ainda que entre dentes – que havia algo profundamente apodrecido naquele edifício moral erguido em nome da pátria, da família e da honestidade. 

Mas ninguém desejava ser o primeiro a notar o odor.

Porque Brutus era um homem honrado.

Havia sempre uma nova desculpa. Uma nova cortina de fumaça. Um novo inimigo interno. Um novo escândalo capaz de deslocar a atenção pública. Enquanto isso, a honorabilidade permanecia cuidadosamente embalsamada diante das câmeras, envolta em bandeiras, versículos bíblicos e discursos contra a corrupção. 

Nem faltaram aspirantes a Mecenas dispostos a financiar futuras hagiografias audiovisuais da dinastia, numa curiosa tentativa de substituir julgamento histórico por direção de arte.

Mas homens honrados sempre atraem patrocinadores igualmente desinteressados.

Poucas coisas são mais resistentes no Brasil do que um cadáver político sustentado por conveniência. 

E Brutus era um homem honrado.

Até que chega o momento em que até mesmo os carregadores do caixão começam discretamente a soltar as alças.

Então surgem os vazamentos definitivos, os antigos aliados silenciosos, os abandonos cautelosos, os editoriais tardios e as súbitas descobertas morais de quem passou anos contemplando o abismo com admirável serenidade institucional. 

Subitamente, todos parecem perplexos.

Perplexos com aquilo que sempre souberam.

Porque Brutus era um homem honrado. 

O funeral de que falamos aqui não é o de um corpo, mas o de uma reputação política que durante muito tempo se pretendeu intocável. O que talvez esteja sendo sepultado diante de nós é algo mais profundo: a velha encenação nacional segundo a qual determinados personagens seriam moralmente inalcançáveis apenas porque vestem a fantasia correta, frequentam os altares adequados e gritam os slogans esperados.

Toda farsa política depende menos da mentira em si do que do pacto coletivo de fingir acreditar nela.

E Brutus era um homem honrado. 

Talvez, por isso, o funeral produza tamanho desconforto. Não porque o segredo tenha finalmente vindo à luz, mas porque a luz tornou impossível continuar a fingir escuridão.

Mesmo agora, haverá quem peça cautela. Recomende prudência. Quem explique que não convém exagerar. Afinal, dizem, a política é dura, os tempos são polarizados, e as acusações podem ser injustas.

Certamente. 

Mas, ainda assim, resta a pergunta que ecoa sobre este enterro: quantas evidências são necessárias para que um segredo de Polichinelo deixe de ser tratado como mera suspeita?

Talvez nunca saibamos.

Pois Brutus era um homem honrado. 

Toda República produz seus Brutus. Mudam apenas os uniformes, os slogans e os idiomas do Império.

Em Roma, chamavam-no Brutus.

Nos trópicos, às vezes atende por Flavius.

Honrado, naturalmente.

Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

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Crise dos combustíveis tem a assinatura de Trump https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_90.html

Editorial do 'Vermelho'

Família Bolsonaro e Trump atacam, novamente, a soberania do Brasil
A classificação de facções criminosas como organizações terroristas pelos Estados Unidos, além prejudicar o combate a essas facções, é nociva à economia nacional e expõe o Brasil à intervenção estrangeira
Editorial do 'Vermelho' 

A classificação pelo governo dos Estados Unidos do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), duas facções criminosas, como organizações terroristas tem múltiplas implicações. A decisão se deu logo após a visita do candidato a presidente da extrema direita, Flávio Bolsonaro, ao presidente estadunidense Donald Trump, que teria pedido a inclusão dessas facções na lista do Departamento de Estado daquele país. Com o candidato estavam seu irmão, Eduardo Bolsonaro, e o blogueiro Paulo Figueiredo, ambos foragidos da Justiça brasileira. A grande mídia estadunidense afirma que a decisão resultou de um “lobby agressivo dos Bolsonaros.”

De acordo com o comunicado de Marco Rubio, Secretário de Estado dos EUA, a partir de 5 de junho o PCC e CV serão incluídos na lista de organizações terroristas estrangeiras, após notificação ao Congresso. O governo Trump classificou, desde o ano passado, mais de uma dúzia de facções latino-americanas como organizações terroristas, parte de sua investida de ingerência na região a pretexto de atingir grupos criminosos que representariam ameaça aos Estados Unidos.

Na prática, são ações da Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, atualizada por Trump para reforçar o conceito de seu quintal para a América Latina. A ideia foi reforçada por Trump na cúpula Escudo das Américas, realizada em 7 de março, em Miami, nos Estados Unidos, ao anunciar cooperação militar com doze de seus aliados no chamado Hemisfério Ocidental, iniciativa também descrita como Coalizão Anticartéis das Américas.

Suas decisões causaram tensões com países como México e Colômbia, e agora estão de volta nas relações com o Brasil, após uma aproximação que levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a visitar a Casa Branca. A designação de “organizações terroristas” pode servir de pretexto para os Estados Unidos realizarem operações, inclusive militares, extraterritoriais de forma unilateral, como fizeram no México, com infiltrações de agentes no país, e na Venezuela, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro.

O governo brasileiro argumentou que a medida abre precedentes para intromissão em assuntos internos e afronta a soberania nacional. “Não aceitamos ser tratados como moleques”, reagiu o presidente Lula. Em nota, o governo afirmou que “a soberania nacional é inegociável”. “O Brasil rejeita qualquer forma de interferência externa em seus assuntos internos. Quem define como o crime é classificado e combatido dentro do Brasil são os brasileiros, com suas instituições, suas leis e suas forças de segurança.”

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o assessor especial Celso Amorim destacaram que essas facções são motivadas por lucro financeiro, e não por ideologia ou fins políticos e religiosos, contrárias ao conceito legal de terrorismo. “O crime organizado deve ser combatido com a máxima energia e determinação”, disse Celso Amorim em um fórum de segurança em Moscou no final de maio de 2026. Segundo o ex-chanceler equiparar crime organizado a terrorismo não é correto e pode servir como inaceitável “pretexto para intervenção” no Brasil.

O governo também tem enfrentado, no Congresso Nacional, tentativas da extrema direita de ampliar o conceito de terrorismo para incluir organizações criminosas, medida que daria razão à ingerência do governo dos Estados Unidos, a exemplo da Lei Antifacção, que tipifica os atos violentos de facções, sem equiparação direta ao terrorismo, mas que endurece as penas e cria a categoria de “organização criminosa ultraviolenta”.

A Lei Antiterrorismo nacional, de 2016, regulamenta a Constituição Federal para conceituar, tipificar e punir os crimes de terrorismo no território nacional e exige motivação política, ideológica ou religiosa. Há ainda a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, aprovada na Câmara dos Deputados em março de 2026, que enfrenta forte resistência da extrema direita e de setores da direita para ser aprovada no Senado.

A medida do governo Trump, na verdade, ao contrário do que alardeiam os bolsonaristas, dificulta o combate às facções, porque compromete a cooperação entre as polícias do Brasil e dos Estados Unidos no combate ao crime organizado transnacional, narcotráfico, tráfico de armas e lavagem de dinheiro, envolvendo inteligência em tempo real. Com os programas Desarma e Interdição Mútua, a Receita Federal brasileira e autoridades estadunidenses realizam trocas de informações em tempo real sobre a circulação de armamento pesado, drogas e munições.

As novas regras dificultam drasticamente essa cooperação, pois nos Estados Unidos o tema irá passar à alçada da Central de Inteligência Americana (CIA) e do Pentágono, o que impõe sigilo a qualquer informação relevante e, na prática, favorece as organizações criminosas.

Criam também dificuldades para a economia, expondo o sistema bancário e financeiro à desconfiança, fato que pode resultar em perda de investimentos estrangeiros e, também, imposição de sanções draconianas. Para isto, basta a CIA apontar que circulou, em determinado banco, mesmo que sem responsabilidade direta, algum montante das facções, como já ocorreu em outros países.

Outro setor que pode ser afetado é o do turismo, contido pelo impacto no fluxo de visitantes, a começar por sua porta de entrada, o Rio de Janeiro. A imigração, os vistos estadunidenses, sobretudo de pessoas que residem em cidades onde há presença das facções, serão dificultados.

A medida é mais um ataque ao Brasil, a exemplo do que ocorreu com o tarifaço de Trump e as sanções pela Lei Magnitsky para tentar impedir que o ex-presidente Jair Bolsonaro fosse preso por orquestrar um golpe de Estado e liderar uma organização criminosa.

É também uma aberta ingerência no processo eleitoral brasileiro, num momento em que que o candidato da extrema direita está em queda pelas revelações de seu vínculo com o banqueiro criminoso Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e o presidente Lula avança nas pesquisas, beneficiado pelas entregas populares de seu governo, a exemplo da recente aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que reduz a jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas por semana, sem redução salarial. Trata-se, também, de uma de boia de salvação para Flávio Bolsonaro, uma tentativa de reavivar a competitividade de sua candidatura.

A conclusão é óbvia: Flávio Bolsonaro é um candidato totalmente subordinado ao governo Trump. Demonstra que a coordenação geral de sua campanha não está no Brasil, mas em Washigton. Um governo com o seu perfil seria tutelado por uma potência estrangeira, constatação que exige do campo democrático e patriótico, das personalidades e instituições representativas do povo, compromisso para repelir essa medida, que além de eleitoreira afronta a soberania nacional. Cabe ao campo popular, democrático e patriótico lutar para derrotar o títere de Trump e reeleger o presidente Lula.

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Soberania nacional e entreguismo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/abraham-sicsu-opina.html 

Humor de resistência

 

Aroeira

Leia: 'Mergulhar fundo para avançar na superfície" https://grabois.org.br/2024/11/18/luciano-siqueira-mergulhar-fundo-para-avancar-na-superficie/


Palavra de Lula

Lula reage à decisão dos EUA sobre facções e defende a soberania do Brasil
Presidente critica ingerência norte-americana e destaca que combate ao crime organizado exige cooperação técnica, não soluções unilaterais que ignoram a autonomia brasileira
Davi Molinari/Vermelho   

A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras, anunciada na quinta-feira (28), gerou uma reação firme do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta sexta-feira (29). Durante evento de anúncio de investimentos da Petrobras em Laranjeiras, Sergipe, o chefe do Executivo brasileiro classificou a medida como uma ingerência externa desnecessária. Ao defender a postura do país, Lula foi enfático: “Nós não aceitamos ser tratados como moleque. Nós não aceitamos ser tratados como se fôssemos uma republiqueta. Eu trato um país pequeno com o mesmo respeito que eu trato a China, com o mesmo respeito que eu trato a Rússia, com o mesmo respeito que eu trato os Estados Unidos”.

O presidente pontuou que, embora o Estado brasileiro reconheça o impacto devastador dessas facções nas comunidades periféricas, o tratamento jurídico deve observar as leis nacionais. Sobre o tema, declarou: “Eles são terroristas para as comunidades brasileiras, para a sociedade brasileira, para o povo da periferia desse país. Eles são terroristas porque eles incomodam as famílias, eles incomodam o bairro, eles incomodam a cidade, eles roubam o direito do povo de viver livremente”. Lula destacou que o governo tem buscado aprovar leis antifacção e fortalecido a inteligência federal, sublinhando que a solução definitiva depende de uma estrutura de segurança pública robusta, e não de pressões externas que ignoram o rito democrático.

Durante o discurso, o presidente questionou a eficácia da medida norte-americana e a hipocrisia de setores que pedem intervenção estrangeira, criticando duramente a articulação política do clã Bolsonaro: “Não tem vergonha na cara de trair a nossa pátria, dos Estados Unidos pedir intervenção americana no Brasil”. O governo brasileiro ressaltou que já havia entregue propostas concretas de cooperação aos EUA, incluindo informações sobre lavagem de dinheiro em solo norte-americano, como no estado de Delaware. Nesse sentido, Lula cobrou reciprocidade: “Se quiserem combater o crime organizado, não precisa pedir ajuda para ninguém. Quer combater o crime organizado? Me entregue os nossos que estão lá nos Estados Unidos”.

Fórum Brasileiro de Segurança Pública alerta para a decisão dos EUA

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), em nota oficial, manifestou preocupação com o modo como a temática foi capturada pela disputa eleitoral. Para o FBSP, a medida anunciada por Washington é uma decisão soberana dos EUA, mas lamentável sob a ótica estratégica brasileira. A entidade alertou que o apoio à medida por parte de setores políticos demonstra uma visão reducionista, descolada da necessidade de ações complexas contra a lavagem de dinheiro, o uso de criptoativos e o controle de setores como o de fintechs e bets, que são as verdadeiras veias financeiras do crime organizado moderno. O Fórum reforçou que o Brasil e os EUA possuem um histórico consolidado de cooperação policial que deve ser mantido, porém, sem abrir mão das prerrogativas soberanas do país na condu ção de sua política de segurança. Em nota oficial, o governo brasileiro enfatiza que o Brasil defende uma postura de equilíbrio diplomático baseada no respeito à integridade territorial.

Ao encerrar sua fala, Lula reiterou que o combate ao crime organizado é uma prioridade do seu mandato e que a cooperação internacional é bem-vinda quando pautada na reciprocidade, descartando qualquer tentativa de tratar o Estado brasileiro como submisso a agendas alheias.

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Soberania nacional e entreguismo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/abraham-sicsu-opina.html