Os
fracassos de Donald Trump
A escalada da retórica belicista
de Washington tenta disfarçar a profunda fragilidade de um governo marcado por
sucessivas derrotas geopolíticas e pela perda de influência global
José Luis Fiori/A Terra é Redonda
1.
Existem
pequenos “acidentes”, na história, que são emblemáticos, e que conseguem sintetizar
e desvelar – ao mesmo tempo – situações de enorme complexidade. Como foi o
caso, por exemplo, do que aconteceu na cidade de Ancara, no dia 8 de julho de
2026, quando o presidente Donald Trump foi retirado às pressas do seu avião
presidencial, e levado escondido num caminhão contêiner de refeições, para um
outro aparelho militar menor e mais discreto que o retirou da Turquia, e o
transportou para Inglaterra. E, na cidade de Londres, foi recolocado no Air
Force One, para que pudesse sair pela sua porta da frente, como se nada tivesse
acontecido.
Tudo isto
logo depois de ter participado da reunião anual da OTAN, a organização militar
mais poderosa do mundo, onde foi advertido pelo serviço secreto de Israel de
que sofreria um atentado da parte do Irã. Esse episódio seria digno de uma
comédia tipicamente americana, se não se tratasse do presidente dos EUA, e se
ele não tivesse deixado dentro do “avião-isca” os jornalistas que o acompanham
em suas viagens, junto com seus secretários de Estado, Marco Rubio, e do
Tesouro, Scott Bessent.
E ainda
mais, se essa “fuga secreta” não fosse um sinal da grande fragilidade e
insegurança atual do presidente Donald Trump, fora da Casa Branca. Inclusive
porque não foi apresentada nenhuma prova que corroborasse a informação sobre a
ameaça, não se podendo excluir, portanto, outras hipóteses – verossímeis neste
momento – como a de um atentado ou ameaça da parte dos inimigos internos de
Donald Trump, dentro dos EUA ou da OTAN, ou mesmo de ser apenas um “susto de
advertência” da parte de Israel.
Seja como
for, depois que esta informação “supersecreta” foi noticiada pelo jornal
americano, Washington Post, ela deu volta ao mundo transmitindo uma
ideia da extrema fragilidade de um presidente que gosta de transmitir a imagem
de um imperador global e todo-poderoso. Esta súbita fragilização da imagem do
presidente e do poder americano, talvez explique a sucessão imediata de
declarações de onipotência da parte de vários membros do governo Trump, e em
particular da sua ala mais belicista.
Foi o
caso do subsecretário de Guerra, Elbridge Colby, que declarou no dia 10 de
agosto, na cidade de Manila, Filipinas, que os EUA estavam decididos a conter a
China na “primeira cadeia de ilhas” através do “world’s biggest stick” –
em suas próprias palavras. O mesmo subsecretário que vem defendendo a
necessidade do uso de “armas nucleares táticas”, caso seja necessário, para
“expulsar os interesses” russos e chineses do Hemisfério Ocidental.
2.
No dia
seguinte, 11 de agosto, o Departamento de Estado divulgou um vídeo
institucional narrado pelo embaixador dos EUA no Panamá, que dizia “que o
domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais seria questionado”, dando
como exemplo da decisão inquebrantável dos EUA, a captura do presidente
venezuelano Nicolás Maduro, do dia 3 de janeiro de 2026.
De imediato,
no dia 12 de agosto, o Secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, anunciou no
Fórum da Coalizão das Américas contra os Cartéis (A3C), realizado na cidade do
Panamá, a decisão americana de iniciar de imediato operações militares
terrestres na Colômbia, antecipando a visita do Secretário de Estado, Marco
Rubio à própria Colômbia, ao Equador e ao Peru, no início do mês de setembro.
No dia 17
de agosto o próprio Donald Trump ameaçou destruir Omã, que é um protetorado
militar dos EUA, caso o governo de Omã negociasse separadamente com o Irã uma
administração conjunta do Estreito de Ormuz. E uma semana depois, no dia 24 de
agosto, o Secretário do Tesouro, Scott Bessent declarou – ao anunciar as novas
sanções econômicas contra o Irã – numa conferência de imprensa na Casa Branca,
que “ninguém no mundo está acima do alcance das sanções econômicas dos EUA”.
Esta
explosão de onipotência, entretanto, parece cada vez mais descolada dos fatos.
Porque até aqui o único grande “trunfo” do governo Donald Trump foi seu ataque
à Venezuela realizado depois de uma gigantesca mobilização de forças navais,
aéreas e terrestres, levada a cabo durante vários meses, com o objetivo final
de capturar apenas duas pessoas.
Mas
depois disto, ou ao lado disto, sem respeitar necessariamente a sequência
cronológica dos acontecimentos, o governo de Donald Trump fracassou no seu
projeto de pacificar a Ucrânia em 100 dias, como havia anunciado em sua
campanha presidencial; recuou com relação ao seu anunciado desejo de conquista
da Groenlândia e do Canadá; sofreu um grande revés na sua guerra comercial
contra a China; não conseguiu atrair a Coreia do Norte para algum tipo de
negociação e fratura do bloco de países eurasianos; foi derrotado nas eleições
da Hungria, a despeito da intervenção direta e pessoal do vice- presidente
americano, David Vance; viu seu projeto de paz de 15 pontos para Gaza rejeitado
sem nenhuma contemplação, pelo seu grande aliado Benjamin Netanyahu.
Sofreu
uma derrota estratégica fragorosa na sua guerra ao lado de Israel, contra o
Irã; não conseguiu impedir que os Houthis conquistassem nos últimos dias, a
cidade-porto de Makha e a Ilha Perim, abrindo uma segunda frente vitoriosa, ao
lado do Irã e contra os EUA e Israel, e assumindo o controle militar do
Estreito de Bab al-Mandeb, e de todo o tráfico marítimo pelo Mar Vermelho, em
particular do petróleo da Arábia Saudita.
Finalmente,
vem fracassando na sua guerra econômica contra a Rússia, há mais tempo, e agora
na sua nova ofensiva contra o Irã – a despeito de toda a empáfia de Scott
Bessent – que apesar de intervir diretamente no mercado, por meio de operações
financeiras e liberação de reservas estratégicas, nestas últimas semanas, não
conseguiu impedir que o preço do petróleo ultrapassasse a “linha vermelha” dos
US$ 107 dólares, depois da última ofensiva vitoriosa dos Houthis.
3.
Acrescente-se
a esta lista de “insucessos imperiais” de Donald Trump, sua ruptura diplomática
com alguns de seus principais aliados e vassalos do Atlântico Norte e da Ásia,
muitas vezes sem nenhum tipo de justificação como ocorreu recentemente com a
suspensão parcial dos exercícios militares conjuntos dos EUA com a Coreia do
Sul.
Ou mesmo,
com a guerra comercial extremamente destrutiva com o Canadá, seu vizinho com
quem mantinha relações amistosas e pacíficas desde 1815. Contribuindo
decisivamente para a fragilização do bloco político-econômico e militar do
Atlântico Norte, deixando as portas abertas para o avanço do BRICS e da China,
em particular, no Oriente Médio, na Eurásia e África, e até mesmo na América do
Sul.
Basta
dizer que no mês de agosto, depois de participar da reunião do Escudo das
Américas, no Panamá, concebido para conter a presença chinesa na América
Latina, várias autoridades sul-americanas visitaram Pequim e manifestaram sua amizade
irrestrita com os chineses. Como foi o caso mais “escandaloso” do presidente da
Assembleia de El Salvador, Ernesto Castro, aliado muito próximo do presidente
Nayib Bukele. Mas também do Ministro de Relações Exteriores do Chile, Perez
Mackena que manteve conversações com o Ministro de Relações Exteriores da
China, Wang Ji, e com o Vice-Primeiro Ministro chinês, He Lifang.
E,
finalmente, do próprio presidente do Equador Daniel Noboa que teve uma recepção
oficial do governo chinês, e encontrou-se pessoalmente com o presidente Xi
Jinping, tendo declarado “que a China sempre poderá contar com o Equador […] um
amigo chinês do outro lado do Pacífico” Somando-se e subtraindo-se todas estas
informações entende-se melhor a “queda de Trump”, que alcançou seu máximo de
popularidade e prestígio internacional depois do seu “sucesso venezuelano” do
dia 3 de janeiro de 2026, e nove meses depois, depois de sua fracassada guerra
contra o Irã, e de sua “fuga” apressada da Turquia, transformou-se num dos
presidentes mais impopulares da história americana, dentro e fora dos EUA.
Atropelado,
além do mais, pela aproximação das próximas eleições parlamentares do midterm do
mês de novembro, e por uma disputa cada vez mais intensa entre as várias
facções da extrema direita republicana, que se digladiam pela sucessão de
Donald Trump, onde se destacam as figuras do Vice-Presidente, David Vance, e do
Secretário de Estado, Marco Rubio.
Transmitindo
ao mundo a imagem de um império que segue armado “até os dentes” mas perdeu o
seu “norte”, e de um governo que aumenta sua agressividade retórica, na mesma
medida em que aumenta a sua incapacidade de impor sua vontade ao resto do
mundo.
*José
Luís Fiori é
professor emérito da UFRJ. Autor, entre outros livros, de Conjuntura e
história (Vozes). [https://link.amazon/B0cDSrftS]
Publicado originalmente no Boletim do Observatório
internacional do século XXI, no. 19, setembro de 2026.
Trump e a diplomacia anárquica https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_01291229765.html






