Mobilização a favor do fim da escala 6×1 e da redução da jornada é decisiva
Movimentos sociais e sindical, personalidades e partidos democráticos devem tomar a frente dessa luta dos trabalhadores
Editorial do 'Vermelho'
A agenda de lutas das organizações Frente Brasil Popular (FBP), Frente Povo Sem Medo (FPSM) e Vida Além do Trabalho (VAT) pelo fim da escala 6×1 e por redução da jornada de trabalho, sem redução salarial, constitui um passo decisivo para a defesa desses direitos fundamentais dos trabalhadores. Cumpre ampliá-la, com a participação efetiva de outros movimentos, como o sindical, e de personalidades e partidos democráticos – sobretudo os comunistas e a esquerda em geral, intrinsecamente ligados aos trabalhadores –, além do debate teórico para a produção de ideias que dão respaldo a essa justa e necessária reivindicação.
Essa mobilização tem potencial para ser caixa de ressonância dos anseios do povo e dos trabalhadores para pressionar o Congresso Nacional a aprovar a proposta. A redução da jornada, nos termos propostos, beneficia de maneira especial as mulheres, historicamente penalizadas por jornadas extras no âmbito doméstico e familiar. Outro aspecto importante é o tempo de deslocamento de todos os trabalhadores, que dependem de transporte público pessimamente servido, também não levado em conta nas argumentações patronais.
Uma declaração pública unificada das organizações deve apontar a importância da disputa no Congresso Nacional, onde forças da direita e da extrema direita, porta-vozes da pressão patronal, tentam protelar ou desfigurar o Projeto de Lei (PL) do governo. Uma manifestação nesse sentido é o movimento de deputados ligados ao pré-candidato Flávio Bolsonaro que assinaram textos de defesa de compensações ao patronato e medidas como a redução de 50% da contribuição ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Há também propostas da oposição que defendem prazo de transição para implementação das novas regras, que poderia variar entre 10 e 15 anos.
O governo avalia designar para a relatoria a deputada Daiana Santos (PCdoB-RS). Ela é autora de um PL que altera a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) para limitar a jornada a 40 horas semanais e garantir pelo menos dois dias de repouso remunerado. O PL do governo condessa esse e outros, como o do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), propõe reduzir a jornada semanal gradualmente das atuais 44 para 36 horas. Condensa também a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), que prevê uma escala de quatro dias de trabalho por semana, com limite de 36 horas no período.
Esse debate frequenta o Congresso Nacional há tempos. Em 2006, o deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA) apresentou um PL que altera a CLT para diminuir o teto de 44 para 40 horas por semana. O senador Paulo Paim (PT-RS) é autor de uma PEC que prevê a redução da jornada semanal de 44 para 36 horas.
A reivindicação se relaciona à forma de exploração da força de trabalho, que, pelas relações trabalhistas capitalistas, não distribui adequadamente os ganhos de produtividade. O movimento sindical tem, em sua história, a redução do tempo de trabalho como uma de suas principais bandeiras, inclusive dando origem ao Dia Internacional do Trabalho, em 1º de maio, instituído pela Segunda Internacional Socialista, em 1889, em memória de uma manifestação de operários na cidade de Chicago, nos Estados Unidos, violentamente reprimida.
Outro marco foi a execução dos “mártires de Chicago”, os militantes anarquistas August Spies, Albert Parsons, Adolph Fischer e George Engel, condenados à morte e executados em 11 de novembro de 1887 por liderarem uma greve reivindicando a redução da jornada. Essa luta prosseguiu, sobretudo com a evolução industrial e a organização trabalho taylorista-fordista, que atingiu um pico nas primeiras décadas do século 20.
No Brasil, essa reivindicação chegou nos primeiros anos do capitalismo, no final do século 19, pelo movimento anarquista, que também marcou as primeiras décadas do século 20. A entrada dos comunistas em cena, com a fundação do Partido Comunista do Brasil em 1922, trouxe uma nova concepção sobre as relações de trabalho. A criação da CLT, em 1943, pelo então presidente Getúlio Vargas, determinou a jornada de até oito horas diárias e 48 horas semanais. Na Constituição de 1988, a jornada semanal foi reduzida para 44 horas semanais.
Em toda essa trajetória, os trabalhadores enfrentaram a reação patronal, com um vasto histórico de violência. Atualmente, com o PL do governo, os argumentos patronais são os mesmos, alegando aumento de custos do trabalho e redução da produtividade, ladainha para justificar ataques devastadores à legislação trabalhista e social e à estrutura sindical, especialmente após o golpe de 2026.
A precarização das relações de trabalho dá ao patronato instrumentos para não criar vínculos empregatícios, promovendo alta rotatividade de trabalhadores, além de redução drástica de salários e benefícios. Essa exploração se intensificou com o projeto neoliberal, que institucionalizou o Estado pelo poder do rentismo do capital financeiro.
A proposta de fim da escala 6×1 e redução da jornada de trabalho, sem redução salarial, conta com amplo apoio popular, conforme mostram as pesquisas. E ocorre num momento em que o governo Lula toma mais inciativas para beneficiar o povo – principalmente os trabalhadores –, como o novo programa Desenrola, focado na renegociação de dívidas de famílias, estudantes e pequenas empresas com descontos expressivos; o programa Move Aplicativos, uma linha de crédito especial de R$ 30 bilhões voltada para motoristas de aplicativo e taxistas financiarem o veículo próprio; e o programa Brasil Contra o Crime Organizado. São iniciativas que criam um ambiente propício para a mobilização popular, conforme prevê a agenda das organizações sociais.
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A escala 6×1 e o espírito do capitalismo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/alienacao-jornadas-extensas.html




