15 julho 2026

Palavra de poeta

Regaço turvo
Rosana Batista Almeida 

Da boca escorre o limo, a água, a águia.
Os dedos desenham montanhas e lixos.
Os ouvidos não ouvem,
não reconhecem,
não discretizam símbolos.

Não há mais máquinas de brincar.
Esgotaram-se os métodos de construção,
de arquiteturas mudas.
Não há saber, nem código.

Na carência de tudo, esbarrei-me no caos,
no excesso do mundo.

Espaços vazios.
O que não pode ser dito.
O abstrato, o incomensurável.
A bicicleta no céu.

O fantástico.
A Realidade sutil, o ininteligível.
O sopro, o ímpar, a incongruência.

Não. Não vamos chegar.
Não, não vou chegar ao final.
Não há porta, não há janela.
Não há nada.

E quem dirá: ainda há estrelas para nos guiar?
Não se apresse, escute.
Não fale, deite-se.
Hesite, não confie.
O infinito, a curva:
o desespero de não saber.
O animal e o regaço turvo.

[Ilustração: Richard Diebenkorn]

A Buenos Aires nordestina que admira e torce pela Argentina https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/surpreendente-emocionante.html   

Soberania fragiliada

O Estado do século XXI
Pela primeira vez na história, poucas e grandes empresas privadas caminham para possuir mais conhecimento sobre uma nação do que o próprio Estado nacional. Não haverá soberania nacional quando o conhecimento mais profundo sobre o país estiver armazenado em servidores privados localizados fora de seu território
Marcio Pochmann*/A Terra é Redonda  

1.

Poucas vezes na história a humanidade assistiu a uma transformação tão profunda quanto a que vivemos atualmente. Não se trata apenas da substituição de máquinas por computadores, nem da troca de fábricas por plataformas digitais. O que está em curso é uma mudança na própria natureza do poder. Se a Revolução industrial reorganizou a economia em torno da máquina, a transformação digital reorganiza a sociedade em torno dos dados, dos algoritmos e da inteligência artificial.

O século XX foi moldado pela indústria. Este início do século XXI está sendo moldado pela capacidade de produzir, integrar e transformar dados em conhecimento estratégico. O ativo decisivo das nações deixa de ser apenas o capital físico e passa a incluir o patrimônio informacional. A riqueza já não depende exclusivamente do controle de fábricas, energia, infraestrutura e força de trabalho, mas também da capacidade de organizar redes digitais, desenvolver inteligência artificial, comandar fluxos de informação e antecipar comportamentos.

É essa capacidade de antecipação que define o novo capitalismo. Antes, a fábrica disciplinava corpos, agora, os algoritmos influenciam escolhas, desejos e expectativas. Se o relógio regulava o tempo do trabalhador industrial, as plataformas digitais regulam nossa atenção. Se a publicidade vendia mercadorias, a inteligência artificial comercializa previsões sobre nossos comportamentos. O capitalismo contemporâneo não deseja apenas vender produtos: deseja prever, induzir e capturar condutas.

As grandes plataformas tecnológicas sabem onde estamos, o que consumimos, quais são nossos hábitos, vínculos sociais, preferências culturais, inclinações políticas e até aquilo que provavelmente faremos amanhã. Elas não administram apenas informações, pois administram probabilidades. E quem controla probabilidades passa a influenciar decisões econômicas, culturais e políticas. Ou seja, quem controla os dados controla parte crescente da própria capacidade social de decidir.

Essa transformação representa uma ruptura histórica comparável ao surgimento do Estado moderno ou à Revolução industrial. No século XIX, construir ferrovias significava integrar o território e consolidar a soberania nacional. No século XX, estruturar sistemas estatísticos nacionais permitiu conhecer a população e o território, organizar políticas públicas com base na realidade observada e planejar os passos do desenvolvimento. Neste primeiro terço do século XXI, a soberania passa também pelo domínio das infraestruturas digitais, da inteligência artificial e dos sistemas públicos de informação.

2.

Um país que não controla seus próprios dados dificilmente controlará o seu próprio destino. A dependência informacional tende a se tornar a forma mais sofisticada de dependência nacional. No passado, a subordinação se expressava pelo controle externo da terra, dos portos, das minas, das ferrovias, da indústria e do financiamento. Agora, ela se amplia pelo controle externo das nuvens digitais, dos algoritmos, dos modelos de inteligência artificial, dos sistemas de pagamento, das plataformas de comunicação, dos mapas, das identidades digitais e dos fluxos de dados.

Mas essa mudança não transforma apenas a economia. Ela exige uma profunda reinvenção do Estado construído durante a era industrial e organizado segundo a lógica da fábrica. A estrutura estatal moderna tornou-se fragmentada, dividida em ministérios, secretarias e órgãos especializados, cada qual responsável por um setor específico da realidade. A saúde, educação, transporte, segurança, habitação, meio ambiente, trabalho e economia passaram a ser tratados separadamente, como se a vida social pudesse ser repartida em gavetas administrativas.

Esse modelo cumpriu papel decisivo na construção das sociedades modernas. Foi graças aos censos, às pesquisas estatísticas, aos registros administrativos e às instituições de planejamento que os governos passaram a conhecer sua população, mapear o território e formular políticas públicas baseadas em evidências. O Estado industrial aprendeu a contar, classificar, medir e planejar. Essa foi uma revolução civilizatória.

Entretanto, havia um limite nessa forma de organização. As informações permaneciam dispersas entre diferentes instituições, dificultando uma compreensão integrada da realidade. O Estado produzia bons diagnósticos, mas quase sempre sobre fatos já consumados. Suas políticas públicas atuavam principalmente sobre as consequências dos problemas, corrigindo aquilo que já havia acontecido. Era um Estado planejador, porém essencialmente reativo.

A revolução digital rompe essa limitação histórica. Cada vez mais, torna-se possível integrar estatísticas oficiais, registros administrativos, informações geoespaciais, imagens de satélite, sensores ambientais e sistemas de inteligência artificial em uma mesma infraestrutura pública de conhecimento. As big techs já avançaram nessa direção, mas pelo caminho da privatização dos dados e do esvaziamento da soberania digital das nações. Poucos países possuem hoje um projeto efetivo de soberania informacional.

A integração de múltiplas fontes de informação é estratégica porque permite enxergar conexões antes invisíveis entre economia, território, clima, mobilidade, saúde, educação, mundo do trabalho, dinâmica demográfica, segurança alimentar, transição energética e organização urbana. Dessa forma, o Estado pode deixar de conhecer apenas partes isoladas da realidade para compreender seus sistemas complexos de forma integrada. O desafio não é apenas ter mais dados, mas transformar dados em inteligência pública.

Com isso, transforma-se também a natureza das políticas públicas. Elas deixam de atuar apenas sobre os efeitos para antecipar tendências, identificar vulnerabilidades, simular cenários e prevenir crises. O planejamento deixa de ser exercício periódico para se tornar capacidade permanente de antecipação. Trata-se de políticas públicas de novo tipo, orientadas pela predição e pela ação sobre as causas antes que as consequências se consolidem plenamente como realidade.

3.

Esse salto institucional é decisivo. O Estado do século XX esperava a fome aparecer nas estatísticas para então agir. O Estado do século XXI deve antecipar onde a insegurança alimentar pode crescer. O Estado tradicional esperava a evasão escolar se materializar. O Estado inteligente deve identificar previamente os territórios, famílias e condições que elevam esse risco. O Estado reativo contava vítimas depois da tragédia climática. O Estado preditivo precisa mapear riscos, prevenir desastres e proteger vidas antes que a catástrofe se imponha.

Essa talvez seja a maior inovação institucional desde a construção do Estado de bem-estar social no século XX. Não se trata de substituir governantes por algoritmos, nem de delegar decisões à inteligência artificial. Ao contrário: quanto maior o poder da tecnologia, maior deve ser o controle democrático sobre ela. O problema não está na inteligência artificial em si, mas em quem a controla, com quais interesses, com quais critérios, com qual transparência e a serviço de qual projeto de sociedade.

A inteligência artificial precisa permanecer subordinada ao interesse público. Os dados produzidos pela sociedade devem constituir patrimônio coletivo, e não matéria-prima exclusiva das plataformas digitais globais. É exatamente nesse ponto que se encontra uma das grandes disputas geopolíticas do nosso tempo. A questão não é apenas tecnológica. É política, econômica, democrática e civilizatória.

Pela primeira vez na história, poucas e grandes empresas privadas caminham para possuir mais conhecimento sobre uma nação do que o próprio Estado nacional. Conhecem hábitos de consumo, padrões de mobilidade, redes sociais, preferências culturais, tendências econômicas e dinâmicas territoriais em escala jamais imaginada. Se essa capacidade permanecer concentrada nas grandes corporações tecnológicas, os governos tenderão a perder autonomia justamente naquilo que define sua razão de existir, como o conhecer da sociedade para governá-la, transformando-a.

Não haverá soberania nacional quando o conhecimento mais profundo sobre o país estiver armazenado em servidores privados localizados fora de seu território. Não haverá democracia robusta quando a esfera pública for mediada por algoritmos opacos, desenhados por interesses comerciais estrangeiros. Não haverá planejamento nacional quando os dados estratégicos da população, da economia e do território estiverem submetidos à lógica de plataformas globais que respondem a acionistas, e não à cidadania.

Por isso, a grande disputa estratégica deste início do século XXI não seguira sendo apenas por petróleo, minerais críticos, energia ou rotas comerciais. Será, cada vez mais, pelo domínio das infraestruturas do conhecimento. A independência nacional passa a incluir, necessariamente, a independência digital. A soberania, antes associada ao território, à moeda, às Forças Armadas, à indústria e à energia, passa a depender também da capacidade de produzir, proteger e governar dados.

4.

O Brasil possui condições extraordinárias para liderar esse processo. Dispõe de uma das mais respeitadas instituições estatísticas e geocientíficas do mundo, com capacidade científica reconhecida, universidades públicas relevantes, centros de pesquisa, experiência histórica em políticas sociais de grande escala e um patrimônio territorial, ambiental e social cuja complexidade exige crescente e massiva inteligência de Estado.

Mas potencial não é destino. O Brasil pode transformar essa base em projeto nacional ou assistir passivamente à colonização digital de sua economia, de sua sociedade e de seu Estado. Pode construir uma inteligência pública soberana ou terceirizar seu futuro às plataformas privadas. Pode usar dados para aprofundar a democracia, reduzir desigualdades e planejar o desenvolvimento, ou permitir que os dados de seu povo sejam convertidos em renda privada, vigilância comercial e dependência tecnológica.

O desafio consiste em dar um novo passo histórico. Assim como o país construiu empresas estratégicas, universidades, institutos de pesquisa, bancos públicos, infraestrutura produtiva e um moderno sistema estatístico durante a industrialização, precisa agora construir uma infraestrutura pública superior, com a integrada de dados, inteligência artificial soberana, computação de alto desempenho e governança democrática da informação.

Não basta digitalizar serviços públicos. Digitalizar a burocracia antiga é insuficiente. É preciso reinventar uma nova arquitetura do Estado. A Revolução industrial produziu o Estado planejador, a transformação digital requer o Estado inteligente. Um Estado capaz de integrar suas bases de conhecimento, articular estatísticas, geociências e registros administrativos, proteger seu patrimônio informacional e produzir políticas públicas preditivas, capazes de antecipar problemas antes que eles se transformem em crises.

Esse Estado inteligente não pode ser confundido com tecnocracia autoritária. Ao contrário, deve ser mais democrático, mais transparente, mais controlado socialmente e mais comprometido com direitos. O uso público de dados precisa estar submetido a regras claras, proteção da privacidade, segurança institucional, participação social e finalidade pública. A inteligência de Estado deve servir à emancipação coletiva, não à vigilância dos cidadãos.

Essa não é apenas uma agenda tecnológica. É um novo projeto nacional de desenvolvimento. No século passado, governar poderia significar planejar. Neste começo de século, governar significa também antecipar. Porque soberania continua sendo conhecer. Mas, na era dos algoritmos, conhecer já não basta. É preciso integrar para antecipar, antecipar para decidir e decidir para construir um futuro em que a inteligência pública permaneça a serviço da democracia, do desenvolvimento e da nação.

A questão decisiva é saber se o Brasil aceitará ser apenas fornecedor de dados brutos, consumidor de plataformas estrangeiras e território passivo da economia digital global, ou se será capaz de construir sua própria inteligência pública soberana. A escolha é histórica. Assim como houve países que lideraram a Revolução industrial e países que foram subordinados por ela, haverá países que comandarão a revolução digital e países que serão comandados por seus algoritmos.

Essa é a revolução silenciosa que definirá quais nações serão protagonistas e quais permanecerão dependentes na nova economia do conhecimento. O Brasil ainda tem a oportunidade de escolher de que lado da história deseja estar. Mas essa escolha exige coragem. Exige Estado. Exige projeto nacional. Exige compreender que, no século XXI, a soberania não será defendida apenas nas fronteiras físicas, mas também nas fronteiras invisíveis dos dados, dos algoritmos e da inteligência artificial.

Imagem: Steve Johnson

*Marcio Pochmann, professor titular de economia na Unicamp, é o atual presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Autor entre outros livros de Novo sujeito coletivo: a governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil (Editora da Unicamp). [https://amzn.to/40lMNWU]

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Engrenagem mistura propaganda política, dinheiro sujo e plataformas que lucram https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/mafia-digital-milionaria.html 

Abraham Sicsu opina

Tecnologia: não confunda a minha cabeça
Abraham B. Sicsu  

Sou um tradicionalista em termos de tecnologia. Mudanças me perturbam. Tenho um microcomputador de mais de dez anos e me serve muito bem. Como máquina para escrever e apoio a poucas buscas na internet, mais que suficiente. Ainda assino a Microsoft e não quero mudar. Esse software eu domino.

Meu velho orientador de Mestrado, com quem tenho o privilégio de almoçar pelo menos uma vez por mês, sempre insiste nas maravilhas das plataformas abertas, na necessidade de se readequar. Para quê? Tenho tudo que quero na minha velha máquina, não acho ruim pagar quinhentos reais ao ano para manter-me na inércia de não mudar.

A onda agora são “LIVES”. Em geral virtuais. Tive que me adequar. No início era o ZOOM. Entrou o MEET e o TEAMS. Até aí tranquilo, sem muita sofisticação.

Na semana passada me chamaram para uma apresentação virtual. Entrando vi ser outra plataforma da Rede Nacional de Pesquisa. Todos os meus colegas estão usando. Uma complicação para mim. Primeiro para o compartilhamento de voz, depois para o compartilhamento de tela. Fiquei uma meia hora me adequando. Daqui a pouco terei outra e, com minha aversão às mudanças, sei que terei problemas. Nada que não possa superar.

Esses são detalhes. Há algo na essência. A onda agora é inteligência artificial. Estou trabalhando numa pesquisa sobre digitalização na indústria regional. Algumas primeiras observações fazem-se necessárias.

Nas empresas, o uso começou com o famoso ChatGPT da OpenAI. A novidade pegou e os modelos Claude da Anthropic entraram firme O Gemini da Google e o xAI do Musk também ganharam espaço.

Nos anos recentes nota-se uma mudança significativa. As empresas chinesas como a DeepSeek, Grok, Alibaba e Baidu passam a ganhar espaços muito significativos. Oferecem custos muito mais atrativos com características operacionais similares às empresas americanas.

Críticos dizem que elas foram financiadas pelo governo do grande país asiático e que deveria se tomar cuidado, pois tudo que se oferece de graça torna você o produto. Como?  Seus dados ficariam nas bases chinesas e facilmente manipuláveis.

O que não se diz é que no caso das nuvens, isso também pode acontecer com os modelos americanos ou europeus.

Anos atrás, lembro-me de assistir uma palestra sobre a WEB no seu nascedouro, de um pesquisador pernambucano, em que ele dizia que nada que se coloca nas plataformas pode se manter segredo. Tudo passa a domínio público, quando é interessante fazê-lo.

Um especialista na área de inteligência artificial, com todos os “pedigrees” acadêmicos, consultado sobre o tema, afirma que “a segurança e privacidade um modelo de IA não dependem de sua origem, mas sim da arquitetura de implantação, conformidade jurídica e controles que são adotados. Modelos chineses ou americanos podem ter diferentes fontes de investimentos, mas isso não determina o nível de proteção de dados.”

Mais adiante diz, “softwares gratuitos podem ser seguros através de código aberto, enquanto serviços pagos podem coletar dados via telemetria”

E ressalta mais, “não é possível concluir que um modelo seja inseguro, apenas por ser chinês, indiano ou outro qualquer, nem que seja seguro por ser pago ou americano. A avaliação deve ser baseada em requisitos técnicos.”

Esse debate, evidentemente, tem aspectos ideológicos envolvidos e preconceitos já estabelecidos. No entanto, bom notar, para as médias e pequenas empresas que têm muito a ganhar com o uso da inteligência artificial e não têm tantos segredos que possam as tornar vulneráveis frente à concorrência, ter mecanismos a custos reduzidos e em condições de agilizar e reorientar suas atividades, é algo muito interessante. Isso vem sendo notado em escala mundial e no regional também.

Um ser criado na era analógica, vendo essas modificações, que se tornam querelas e embates por razões meramente ideológicas fica confuso.

Como gosto dos chineses, voltarei aos ábacos que eram muito mais seguros.

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Leia também: Celso Pinto de Melo: Como plataformas digitais transformam política em comportamento de enxame https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/celso-pinto-de-melo-opina_0232354324.html 

Fotografia

 

Elliott Erwitt

Carmen Miranda assombrou a Broadway https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/uma-cronica-de-ruy-castro_22.html 

Minha opinião

Toda sugestão vale a pena 
Luciano Siqueira  

Na fila "preferencial" da farmácia, me aborda:

— Tenho uma sugestão para a campanha de Lula.

— Ótimo! 

— Quer dizer, não sei se cabe...

— Toda ideia é válida...

Dispara:

— Acho que o senhor não se lembra de mim, sou aposentado da Prefeitura do Recife e todo fim de ano recebia sua visita de agradecimento pelo nosso trabalho...

— Ah, sim...

— ...e toda a minha equipe gostava, se sentia valorizada. E também porque a gente via que podia conversar à vontade com o vice-prefeito.

— Meu dever... 

— Agora tenho uma sugestão para a campanha de Lula.

— Sim...

— O presidente deve dizer na TV que o que melhora a situação das pessoas é o emprego com carteira assinada. Tem gente que não pensa assim. Meu vizinho, motorista do Uber, vive arrotando a vantagem de não ter patrão! Tá errado, não tem garantia nenhuma, o senhor concorda?

E seguiu falando sobre emprego e trabalho e ainda sugeriu umas tantas ideias sobre a campanha de governador e dos nossos candidatos a deputado federal e estadual.

Algumas cabem e já estão na pauta, outras nem tanto; mas importa a atitude proativa do meu interlocutor ocasional. O desejo de contribuir com suas ideias. 

Dei-lhe o número do meu celular e sugeri uma conversa mais à vontade — tomando um cafezinho — entre nós e mais alguns amigos que ele possa juntar. 

Ouvir as pessoas sobre qualquer assunto e a qualquer tempo é um dever militante. Aprendi com alguns líderes políticos de grande dimensão, com os quais tive a oportunidade de conviver: João Amazonas, Miguel Arraes, Renato Rabelo...

A sabedoria milenar chinesa sugere que "quem não escuta não tem direito à palavra".

Tenho conversado bastante com pessoas que me abordam pelo WhatsApp. Sempre fiz isso, inclusive quando estive vice-prefeito do Recife por 16 anos. Também quando deputado estadual e em toda a minha trajetória militante. 

Melhor ainda quando a conversa no WhatsApp se desdobra no encontro "presencial", breves reuniões entre amigos em torno de um cafezinho. 

"Tudo vale a pena se a alma se a alma não pequena", nos ensina Fernando Pessoa em seu poema "Mar português".

Sigamos juntos.

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Lula lidera 1º e 2º turnos e Flávio Bolsonaro tem maior rejeição https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/lula-avanca.html 

Arte é vida

Tereza Costa Rêgo

Enio Lins opina

Nenhuma chance (ainda) para a Paz no Oriente Médio
Enio Lins   

RECOMEÇOU A GUERRA que nunca foi interrompida entre EUA/Israel e Irã. A suposta trégua, assinada pomposamente no Palácio de Versalhes, em Paris, no dia 17 de junho, nunca passou de um ato circense. Desde que foi anunciada, só serviu para comparações, mais das vezes sarcásticas, entre o acordo fajuto rubricado por Trump em 2026, e o tratado histórico que encerrou a I Grande Guerra Mundial em 1919, assinada no mesmo cenário que representa o que foi a pompa majestática, absolutista, de Luís XIV de França.

NÃO DUROU UM MÊS 
a pantomima. Sempre foi uma farsa estadunidense, e o Irã assinou porque lhe foi útil o embuste, seja porque aliviou, por um lapso de tempo, a pressão militar direta ianque (de poder de fogo imensamente maior), seja porque isso lhe rendeu pontos ao apresentar ao mundo sua disposição em firmar compromisso de paz com inimigos figadais. Afinal, quem se arrisca a se opor aos interesses israelenses e americanos, inapelavelmente recebe os carimbos de “radical” e “terrorista”. Mas Israel, a parte mais belicosa das forças em conflito, como sempre, abjurou qualquer oportunidade de interromper a guerra infinda que move contra as populações nativas de todo Oriente Médio.

TRUMP DEU UM PASSO
 pra dentro do “tratado de paz” como coreografia de ampliação de espaços na mídia e como ação destinada a reduzir as pressões internas nas proximidades das eleições de meio-mandato, em 3 de novembro. Washington não fez um “pas de deux” com Telavive, o que poderia ter dado, de fato, alguma chance à paz, ou pequena trégua real. Mas, apenas 20 dias depois de assinar pomposamente o cenográfico “Memorando de Islamabad” em Versalhes, deu um passo pra fora, anunciando dramaticamente que “a trégua acabou!” e, como sempre, ameaçando acabar com o país persa rapidamente, pois “mil mísseis estão prontos” para serem lançados em um ataque em larga escala contra alvos estratégicos e de infraestrutura iraniana. E, ao denunciar o Irã como responsável por prejudicar a economia mundial ao fechar o Estreito de Ormuz, Trump anuncia que “tomará conta do Estreito de Ormuz” e que passará a cobrar taxas pelo tráfego naquela área (prejudicando a economia mundial).

ISRAEL, PRINCIPAL PROVOCADOR 
e mantenedor da guerra no Oriente Médio, não foi signatário do tal “Memorando de Islamabad” e nem participou das negociações articuladas pelo Paquistão. O Estado israelense, cujo governo segue nas mãos de Bibi Netanyahu e seus terroristas, jamais interrompeu as ações de agressão contra as populações originárias da Palestina e vizinhanças. Manteve sua ofensiva militar no Sul do Líbano, assim como avançou na ocupação crescente e ilegal das terras da Cisjordânia, assim como seguiu exterminando a população do Gueto de Gaza. Em verdade, repito: nunca houve trégua, apenas uma tentativa de Donald Trump em respirar um pouco em meio aos insucessos de seu segundo mandato, num movimento que interessou a Teerã, pois possibilitou aos iranianos uma pequena folga junto aos Estados Unidos. Entretanto, os israelenses nunca fizeram intervalo na matança.

JAMAIS HAVERÁ PAZ 
no Oriente Médio enquanto Israel mantiver sua velhíssima política de terror e ocupação ilegal dos territórios que jura ter recebido como presente de seu deus nacional – divindade que segue autorizando o holocausto das populações nativas tal como teria sido executado na mítica passagem da derrubada das muralhas de Jericó, num massacre “abençoado”, tal qual expressado no Livro de Josué. Evidentemente que o poder israelense só existe pela cumplicidade de potências como os Estados Unidos (e, no passado recente, a União Soviética foi fundamental no processo de criação e armamento do Estado de Israel). Nessa intrincada teia de violências e morte, a Paz (com maiúscula) não tem – ainda – a menor chance.

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A guerra e a paz, vistas de Teerã https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/ponto-de-vista-do-ira.html