Escala 6x1 em um país que produz pouco
A transição para um modelo baseado em produtividade
exige investimento e coordenação, mas é a única capaz de sustentar crescimento.
Celso Pinto de Melo/Jornal do Commercio
O debate sobre a escala 6x1 ganhou força no Brasil, especialmente no
comércio e nos serviços. A discussão costuma partir de uma pergunta direta:
reduzir a jornada de trabalho vai reduzir a produção?
A resposta mais honesta é: não necessariamente – e, em alguns casos,
pode ocorrer o contrário. O problema não está no número de dias trabalhados,
mas na forma como a economia brasileira organiza o trabalho. O país convive, há
décadas, com baixa produtividade.
Segundo a OCDE, o Brasil produz por hora trabalhada menos da metade do
que economias como Estados Unidos e Alemanha. Mesmo em comparação com países
que partiram de níveis semelhantes, como a Coreia do Sul, o país ficou para
trás.
Diante disso, em vez de enfrentar causas estruturais – como baixa
incorporação de tecnologia, investimento limitado e organização produtiva
ineficiente –, recorre-se frequentemente a uma solução imediata: ampliar o
tempo de trabalho. O resultado é conhecido: trabalha-se mais, mas sem ganho proporcional
de produção.
A experiência internacional aponta em outra direção. Na União Europeia,
a jornada média semanal gira em torno de 37 a 38 horas. Na França, o padrão
legal é de 35 horas, e na Alemanha a jornada efetiva também costuma ficar
abaixo de 40 horas em vários setores.
Na Ásia, o movimento recente é de contenção de excessos. A Coreia do Sul
limitou a jornada a 52 horas semanais como teto, e o Japão passou a restringir
horas extras. Esses países não estão reduzindo jornadas por acaso. Estão respondendo
ao fato de que economias mais produtivas não dependem de trabalhar mais, mas de
trabalhar melhor. No Brasil, a escala 6x1 se concentra em setores contínuos,
como comércio e serviços. Isso também ocorre em outros países, mas em condições
diferentes. Lá, há mais previsibilidade, melhores salários relativos e maior
proteção.
Aqui, a jornada formal já é longa – próxima de 44 horas semanais – e
frequentemente se estende muito além disso. Dados do IBGE mostram que milhões
de trabalhadores gastam mais de uma hora por dia no deslocamento,
frequentemente ultrapassando duas horas nas grandes cidades. Na prática, uma
jornada de 8 horas pode se transformar em 11 ou 12 horas dedicadas ao trabalho.
Esse tempo adicional não é remunerado, mas reduz o descanso, o convívio
familiar e a possibilidade de qualificação. O impacto é ainda maior para as
mulheres, que dedicam quase o dobro do tempo dos homens ao trabalho doméstico.
Para muitas, a jornada simplesmente não termina. Esse modelo ajuda a explicar
por que a produtividade não avança. Sem tempo para qualificação e com alto
desgaste, o trabalhador permanece em ocupações de baixa produtividade. Forma-se
um círculo vicioso: baixa produtividade leva a jornadas longas, que dificultam
o aumento da própria produtividade. É nesse contexto que a escala 5x2 deve ser
analisada. Longe de representar um retrocesso, a ampliação de jornadas com dois
dias de descanso pode ser um passo importante para reorganizar o trabalho no
Brasil. Ao garantir maior previsibilidade e tempo de recuperação, tende a re
duzir o desgaste e melhorar a produtividade no médio prazo.
Dados de diferentes países indicam que jornadas mais equilibradas não
reduzem necessariamente a produção. Em muitos casos, aumentam a eficiência e
melhoram o desempenho. O que está em jogo não é apenas a escala de trabalho,
mas a lógica econômica. O Brasil não precisa trabalhar mais horas. Precisa
trabalhar melhor. A transição para um modelo baseado em produtividade exige
investimento e coordenação, mas é a única capaz de sustentar crescimento com
melhoria das condições de vida.
Nesse sentido, a escala 5x2 não deve ser vista como custo adicional, mas
como parte de uma agenda de modernização. Porque o problema do Brasil nunca foi
falta de esforço. O problema é que esse esforço ainda rende pouco – e
continuará rendendo pouco sem mudança.
Celso P. de Melo, membro da Academia Pernambucana de Ciências.
Pesquisador do CNPq e Professor Aposentado da UFPE
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