21 março 2026

Postei nas redes

Ataques do Irã causam danos de R$ 4,2 bilhões a bases dos EUA no Oriente Médio, mas Trump continua dizendo que "venceu" a guerra. 

A Guerra EUA x Irã e Clausewitz https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_5.html 

Mídia reacionária

Há franco-atiradores em Brasília e eles se escondem em redações
Aliança de defesa da democracia forjada sobre as ruínas da Praça dos Três Poderes era frágil e já não existe
Luis Costa Pinto/Liberta     

As cenas de selvageria e boçalidade de hordas de golpistas transtornados, quebrando as sedes dos três poderes da República – o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o edifício principal do Supremo Tribunal Federal –, naquela tarde infame de 8 de janeiro de 2023, deveriam estar gravadas em ouro, prata e bronze nas retinas dos jornalistas brasileiros e de quem lhes paga o salário ou viabiliza o exercício profissional. Não estão. O preço a ser pago por essa rápida desmemória será alto e, estimo, fatal.

Há que lembrar aos que rápido esqueceram os arrancos e coices de Jair Bolsonaro, de todos os seus filhos, dos ministros e ministras dele e de muitos dos amigos do clã que sitiavam a Esplanada dos Ministério para saquearem os programas públicos e pilharem o Tesouro Nacional: desde a primeira hora da camarilha golpista no poder, foram suspensos ou modificados os rituais de transparência e de prestação de contas à população mediados pela imprensa. Vem dessa nobre missão dos jornalistas o substantivo “mídia” usado para designar o coletivo de veículos de comunicação, cujo papel central é mediar a relação entre governos (de quaisquer matizes), Estado e sociedade civil.

Coliseu a céu aberto

O chiqueirinho, cercadinho ou curralzinho (cada um chama como quiser aquela excrescência anacrônica, que há até tão pouco tempo tivemos como presença marcante em nossos noticiários, montada pelos taifeiros das três Forças Armadas diante do Palácio da Alvorada) foi uma espécie de micro Coliseu erguido a céu aberto.

O objetivo era lançar os jornalistas que cobriam política e o dia a dia de Brasília às feras pegajosas, andrajosas, todas agindo a soldo dos diretores de cena do bolsonarismo e das variadas denominações de igrejas evangélicas que ruminavam à sombra das alamedas onde grassava dinheiro público. As redes sociais, onde por definição e lógica a mediação dos jornalistas é dispensada e depauperada para que haja o contato direto entre detentores do poder e seu povo – e, de toda forma, a turma dos chiqueirinhos é povo de alguém –, deslegitimaram os veículos de comunicação como foros apropriados para dar notícia, reivindicar credibilidade e arrogar-se o papel de formador de opinião.

Durante os trágicos quatro anos de duração do mandato de Bolsonaro (pai), repórteres (em escala massiva as do sexo feminino) eram ofendidos, diuturnamente, por escroques de gabinete cumprindo o clássico roteiro das subcelebridades ou dos guardas da esquina em ditaduras que lograram degenerar o meio em que se implantaram. Mentiras e especulações ganhavam lançamentos solenes como se fossem políticas de Estado.

Recesso das almas

Naqueles tempos, os finais de semana em Brasília se tornaram infernais para os profissionais de mídia destacados para a cobertura palaciana. Sábado sim, outro não, atos de paradoxais “protestos a favor” eram convocados para que um bando de dementes marchasse desde a Praça das Fontes até a Avenida das Bandeiras, no Eixo Monumental. Domingo sim, outro também, um ajuntamento de militares desqualificados, reservistas de pijama, sentava praça na altura da Superquadra 208 da Asa Sul, no Eixo Estrutural da cidade (o popular Eixão) para grasnar platitudes bizarras, saídas do recesso das almas sebosas que povoam o espectro da extrema direita nacional.

Não é possível, nem plausível, imaginar que os repórteres pagos para falarem dos fatos da política, para analisarem a conjuntura, para discorrerem sobre a sempre tensa realidade brasileira, tenham apagado de suas memórias tamanha pandemia de boçalidade que vivemos. Contudo, apagaram. É o que se depreende pela velocidade e pelo diapasão com os quais foram normalizadas e assimiladas como naturais as estratégias de retorno à ribalta da turma que colocou a Nação face à tragédia.

Dois dos Três Poderes da República foram ágeis e assertivos na apuração dos crimes contra a democracia, a Constituição e o Estado de Direito cometidos em 8 de janeiro de 2023 no coração cívico de Brasília. O Executivo, o governo federal, correu para garrotear o golpe em curso, vencê-lo e prender em flagrante delito 1,8 mil criminosos: a massa de manobra usada pelos golpistas para destruir os palácios republicanos. O Judiciário, coordenado pelo Supremo Tribunal Federal, conduziu quase duas mil ações em paralelo, individualizou as condutas delitivas, determinou a ação de cada um dos presos no dia do golpe, julgou-os e sentenciou todos eles – desde reles obreiros do caos até os formuladores do ataque à democracia.

O Legislativo, o Congresso Nacional, depauperado de vergonha ou de grandeza institucional, meteu os pés pelas mãos, deixou que sobrevivessem células golpistas em seu interior e dentro do sistema político. Ali, vicejaram os brotos da estupidez antidemocrática, antirrepublicana, amoral e aética da extrema direita brasileira, que se renovou e ganhou forma. Ela sempre teve nome e sobrenome, Flávio Bolsonaro, a quem jamais os franco-atiradores da mídia autoproclamada profissional importunaram com a precisão dos rifles adquiridos e mantidos pelos donos dos veículos comerciais de comunicação.

Tendo chegado ao Senado em 2019 como um deputado estadual do Rio de Janeiro transfigurado em senador, em razão da conjunção histórica mal sã do ano eleitoral de 2018, o primogênito de Jair Bolsonaro escondeu-se sob a casca protetora que o fato de ser “filho do presidente” lhe conferia. Hibernou por todo o primeiro ano de governo do pai, como um embrião de dinossauro dentro do ovo. Na CPI da Pandemia, que podia ter se convertido em pedra de toque do impedimento administrativo do traste que governava o país com a ignorância de sua mente desgovernada e o peso dos coturnos sujos das Forças Armadas, Flávio Bolsonaro começou a quebrar a casa do ovo e ensaiou coordenar a defesa do governo. Não se saiu bem, mas, também não foi cobrado por suas responsabilidades como devia tê-lo sido.

Ovo da serpente

O ovo eclodiu em seu esplendor há cerca de seis meses, quando ficou claro que o Bolsonaro pai ficaria por um bom tempo cumprindo sentença em regime fechado ou domiciliar em razão do golpe de 2023 e tampouco recuperaria os direitos políticos em razão da tentativa de golpe contra as eleições de 2022. Daquele ovo chocado com o silêncio benevolente da parcela da imprensa brasileira que se diz “profissional”, que lança em sua própria direção autoindulgências plenárias a fim de fugir do inferno das cobranças pelos atos e omissões cometidos nos verões passados, revelou-se a serpente demoníaca: Flávio Nantes Bolsonaro.

Serelepe, a serpente que atende pela alcunha de “filho 01” do demônio, desembarcou em Brasília num já longínquo 2019 montado no cometa de investigações de estripulias. Era promoção de rachadinhas salariais no gabinete de deputado estadual numa órbita, lavagem de dinheiro numa franquia de marca de chocolate noutra; associações pontuais com milícias no Rio de Janeiro em trajetória paralela, auxílio na fuga da Justiça de um ex-funcionário, o celebérrimo Fabrício Queiroz, e mais um filão apuratório que nunca rendeu grandes investigações na imprensa que se diz profissional.

Ambientado na capital da República e confortável à sombra do mandato do pai, Flávio Bolsonaro comprou uma confortável casa de R$ 6,5 milhões no Lago Sul, lançando mão de um empréstimo no BRB sem lastro aparente de ter como pagá-lo. Em seguida, constituiu sociedade suspeita no ramo da advocacia com uma figura nefasta como Frederik Wassef, advogado sempre se misturando às figuras dos réus. A sociedade jurídica prescindia de ser “de fato”, posto que atuava “de direito” nos desvãos do Judiciário e era bússola à qual recorriam candidatos a magistrados que perseguiam indicações para si ou para outrem nos tribunais superiores. A ficha corrida é imensa e, no descrito aqui, não há menção ao exercício do mandato de senador em si.

Os snipers do jornalismo tupiniquim, protegidos pela armadura do “jornalismo profissional” forjada por eles mesmos, deixaram de apontar suas miras descalibradas para o coração da operação de poder que construiu e sustenta esta personagem nefasta, que hoje é ameaça real à democracia – Flávio Bolsonaro. Vencido o 8 de janeiro de 2023, aquele ponto fora da curva de assustadora ousadia registrado na História nacional, as miras foram reprogramadas para seguir o proverbial festival de cafajestices e recalques, que é a incompreensão da dimensão histórica e do protagonismo contemporâneo do ex-sindicalista e presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Mais atenção à realidade concreta! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minha-opiniao_26.html

20 março 2026

Palavra de poeta

Aprendiz

Adélia Maria Woellner     

Nasci de outras terras, 
vermelhas como a cor do sol 
da tarde 
anunciando estiagem. 
Foi longa e árida 
a viagem. 
Pés crestados 
na terra partida, 
ressequida 
de húmus e de vida. 
Porém, sobrevivi… 

Nasci de outras águas, 
fecundada fui 
no encontro das ondas com os rochedos. 
Por isso, 
cresci sem medos, 
mas parti os lábios 
no sal e no sol. 
Não pude sorrir, 
porém, sobrevivi… 

Surgi de outros ventos. 
Fui gerada em tufões, 
mas nasci do ventre da brisa. 
Rodopiei em rodamoinhos 
e fustiguei folhas, flores e frutos. 
Provei sabores 
doces e amargos… 
Corri mundos e não pude parar. 
Cansei, 
mas sobrevivi… 

Apareci assim, 
de repente, 
como salamandra entusiasmada. 
Vesti-me de cor e calor, 
lambi a casca da madeira seca 
e enxuguei o tronco úmido de lágrimas. 
Fogo incontrolado, 
querendo alcançar o céu, 
queimei e me consumi, 
vendo meu pranto arder ao léu. 
Mesmo assim, 
sobrevivi… 

Agora, sou como sou. 
Estou reaprendendo a viver.

[Ilustração: Tereza Costa Rêgo]

Leia também: "Bolas de vidro", poema de Cida Pedrosa  "https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_63.html 

Fotografia


Guido Sunnemann

“Sala de espera", uma crônica de Luis Fernando Veríssimo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/uma-cronica-de-luis-fernando-verissimo.html

Ignorância trivial

Biquíni de lacinhos
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65      

Vi de relance e guardei na memória no correr do dia notícia, creio eu, em revista de costumes: “morre o inventor do biquíni de lacinhos”. 

Trata-se de David Azulay, estilista renomado, conforme leio no início da matéria. 

Aqui registro meus sentimentos aos familiares e amigos. 

E não nego a minha absoluta ignorância na matéria da qual se ocupava o falecido. Tanto que até hoje tinha para mim que ninguém inventara o biquíni de lacinhos, imaginava ter surgido espontaneamente quando mulheres em meio a passos libertários resolveram acrescentar lacinhos à minúscula vestimenta. 

É a vida, como diria minha neta quando ainda entre 5 e 6 anos de idade. As coisas acontecem ora por acaso, ora por ato criativo consciente de homens e mulheres predispostos ao novo. 

Vivendo e aprendendo.

Leia: Há vida a milhões de anos luz? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/09/vida-milhoes-de-anos-luz.html

Trump: nacionalismo étnico

O nacionalismo trumpista e a colonização do espaço doméstico dos EUA
As políticas migratórias do trumpismo representam um deslocamento sísmico de um nacionalismo cívico, tradicionalmente observado nos EUA (ao menos em termos formais), para um nacionalismo étnico e agressivo
Tatiana Vargas-Maia/Le Monde Diplomatique    

Pode parecer contraditório descrever o processo de controle migratório de um Estado com território historicamente consolidado como uma dinâmica de construção nacional, ou mesmo de colonização interna. Todavia, a hipótese que quero avançar neste texto é exatamente esta: o que observamos contemporaneamente nos EUA, sobretudo a partir da atuação do Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos (United States Immigration and Customs Enforcement – ICE) no segundo governo de Donald Trump, configura um projeto de redefinição da nação estadunidense.

Tradicionalmente, a política de imigração dos EUA é analisada sob a ótica da gestão de fronteiras, da regulação do mercado de trabalho ou da segurança nacional –perspectivas que podem ser consideradas normais para a maioria dos Estados contemporâneos. No entanto, o movimento de controle migratório desencadeado na segunda gestão de Trump representa uma mudança significativa neste panorama: não é apenas um processo de endurecimento do controle das fronteiras ou da administração de imigrantes que já se encontram no país, mas, efetivamente, uma tentativa deliberada de redefinir a própria composição étnico-racial da nação estadunidense.

As políticas migratórias do trumpismo representam um deslocamento sísmico de um nacionalismo cívico, tradicionalmente observado nos EUA (ao menos em termos formais), para um nacionalismo étnico e agressivo. Mais do que proteger as fronteiras nacionais, este projeto político opera por meio de uma lógica de colonização interna: um esforço do governo para reconfigurar o espaço doméstico, purificando-o de elementos considerados exógenos à nação dos EUA e buscando homogeneizar aquela sociedade. Para além da orientação para o espaço doméstico, esta obsessão pela reconstrução de uma nação etnicamente pura projeta-se para o internacional, reconfigurando também a política externa dos EUA, que passa a apresentar, de forma mais explícita, uma postura internacional de hostilidade e isolacionis mo beligerante.

Para compreender a magnitude desta mudança, é necessário revisitar o consenso do pós-Segunda Guerra Mundial sobre a identidade nacional estadunidense. Durante décadas, os EUA projetaram-se como uma nação proposicional, fundamentada em um nacionalismo cívico. Nesta concepção, ser estadunidense não dependia de sangue, raça ou religião, mas sim da adesão, do compartilhamento e da participação a um credo político comum: a Constituição, a democracia e o Estado de Direito, ou seja, as instituições fundadas no pós-independência (1776) e estabelecidas no pós-Guerra Civil (1861-1865). O Caldeirão Cultural estadunidense (Melting Pot), que preconizava a construção daquela nação a partir da fusão voluntária de pessoas de diferentes origens e tradições cultur ais, embora falho na prática e permanentemente desafiado por grupos supremacistas de extrema direita, era o ideal normativo que pautava a organização institucional da sociedade dos EUA.

O trumpismo rompe com essa tradição ao introduzir, com vigor renovado, um nacionalismo étnico como princípio central da identidade nacional dos EUA. Nesta visão, a nação não é um projeto político aberto à adesão voluntária, mas uma entidade cultural e demográfica fixa, enraizada em uma herança étnica específica (branca e europeia) que precisa ser protegida contra a diluição e a poluição (ou seja, a assimilação de minorias culturais e a miscigenação com outros grupos étnico-raciais).

A retórica da invasão é uma peça central para a compreensão desta proposta. Quando lideranças políticas enquadram a migração como uma invasão, alteram fundamentalmente a natureza do debate. O imigrante deixa de ser um potencial cidadão ou um ator econômico para se tornar um invasor. Esta linguagem beligerante legitima medidas de exceção. Se o país está sendo invadido, então a resposta não é o processo legal administrativo, mas a defesa territorial militar. Assim, a presença do imigrante, documentado ou não, é reconfigurada como uma ameaça existencial à soberania popular, pavimentando o caminho para que o governo atue não apenas contra estrangeiros presentes em seu território, mas também, como observado nos últimos meses, contra cidadãos que não se encaixam nos critério s de pertencimento nacional agora então redefinidos a partir da chave étnico-racial.

A manifestação prática deste processo pode ser compreendida como uma colonização do espaço doméstico e descreve a inversão da lógica estatal: o governo deixa de proteger os habitantes do seu território para tratar o próprio interior do país como uma fronteira hostil a ser domada. Sob a lógica trumpista, a fronteira deixa de ser uma linha estática demarcada geograficamente e passa a ser móvel, seguindo as redefinições étnico-raciais do governo sobre a população presente no território. Ela se move para o interior, reconfigurando o espaço público por meio de quatro mecanismos principais: o emprego de tecnologia digital para o rastreamento de pessoas e grupos, o estabelecimento de um complexo de centros de detenção, a consolidação de uma força policial para a ocupação e o contro le do espaço doméstico e a instauração de uma política do medo.

A primeira ferramenta desta colonização é tecnológica. A construção do muro, tão anunciada durante a campanha eleitoral de 2016, não é apenas física, mas agora também é digital. Por meio da expansão massiva de tecnologias de vigilância, como o reconhecimento facial, a coleta de dados biométricos e o monitoramento de redes sociais, o governo cria um panóptico digital voltado às comunidades imigrantes e às minorias étnico-raciais. O uso de tornozeleiras eletrônicas e de aplicativos de rastreamento para imigrantes em processo judicial transforma o próprio corpo do indivíduo na fronteira. Onde quer que o imigrante vá, a fronteira o acompanha. Esta vigilância de dados permite ao governo exercer controle sem a necessidade de encarceramento físico imediato, criando uma prisão a céu aberto em que a liberda de de movimento é ilusória.

Paralelamente à vigilância, ocorre uma expansão física da infraestrutura de detenção, que funciona como enxertos coloniais na metrópole. O sistema de detenção de imigrantes nos EUA (frequentemente gerido por empresas privadas com fins lucrativos) tende a ser localizado em áreas rurais e remotas. Esta geografia isola os detidos do acesso a advogados, à visibilidade da mídia e às redes de apoio comunitário. Tais centros constituem espaços no território nacional em que os direitos constitucionais são suspensos. Ao segregar fisicamente milhares de pessoas, o governo realiza uma higienização étnico-racial do espaço social, tratando seres humanos como excedentes indesejáveis a serem armazenados antes da expulsão.

A colonização do espaço doméstico exige uma força de ocupação. Isto é alcançado por meio da fusão entre o direito penal e o direito migratório, um fenômeno conhecido como crimigração. Programas como o 287(g), que conferem a policiais locais capacidades de agentes de imigração, dissolvem a distinção entre a polícia civil e a polícia de imigração. Quando a polícia local atua como braço do ICE, qualquer infração de trânsito pode se tornar um gatilho para a deportação. Isso militariza a sociedade civil: escolas, igrejas e hospitais, tradicionalmente zonas de segurança, tornam-se locais de risco.

Por fim, a colonização interna também articula uma dimensão emocional. A ameaça constante de revogação de status legais (como o ataque ao Dream Act e a retórica contra a cidadania por nascimento) serve para produzir novas ilegalidades, convenientes ao processo de homogeneização nacional. O governo remove ativamente o tapete jurídico que protege residentes legais, transformando vizinhos em invasores por decreto administrativo. Este mecanismo aposta na criação de um ambiente doméstico hostil. O medo torna-se uma ferramenta de governança, maximizando ameaças (frequentemente imaginárias) para fins políticos pouco democráticos.
 

Subjacente a estas iniciativas de reengenharia da sociedade dos EUA está a lógica da Grande Substituição (Great Replacement), uma teoria conspiratória de movimentos supremacistas brancos de que elites globais estão orquestrando a substituição da população branca e cristã dos países do Norte por imigrantes do Sul Global. Embora nem sempre explicitada, essa teoria orienta a rejeição ao multiculturalismo. O veto a viajantes de países muçulmanos (Muslim Ban) e a preferência declarada por imigrantes de países como a Noruega, em detrimento de “países de merda” (a forma como Trump escolheu se referir ao Haiti e ao El Salvador em declaração proferida em janeiro de 2018), revelam um desejo de engenharia social racializada.

Ao tentar purgar a coletividade de indivíduos e grupos considerados não assimiláveis, o projeto trumpista busca criar uma sociedade em que estadunidense seja sinônimo de um perfil cultural e linguístico específico: branco, cristão, de origem europeia. É uma rejeição frontal ao pluralismo democrático em favor de uma identidade homogênea, forçada pela coerção estatal.

Ainda que a tendência geral seja a de analisar os processos supracitados como uma dimensão puramente interna da política dos EUA, é relevante destacar que, historicamente, observa-se uma correlação entre a forma como uma nação trata os seus residentes internos, estrangeiros ou minorias étnico-raciais, e sua postura no sistema internacional. A lógica de colonização interna e de homogeneização nacional não para na fronteira; ela transborda, gerando uma política externa agressiva e paranoica.

Se a premissa deste processo de colonização interna é que o país está sob cerco de forças estrangeiras que já penetraram o território, a atitude internacional decorrente de tal premissa é de profunda desconfiança. O mundo exterior deixa de ser um espaço de potenciais parcerias mutuamente benéficas para se tornar uma fonte de contaminação e de ameaça. O multilateralismo é substituído por uma visão de soma-zero: para os EUA ganharem, os outros devem perder. Esta mentalidade justifica o abandono de tratados internacionais, o desprezo por organizações como a ONU e a OTAN, e uma abordagem transacional nas relações exteriores. A agressividade interna necessária para deportar milhões requer uma desumanização que, quando projetada externamente, resulta em uma política internacional insensível &ag rave;s crises humanitárias e desdenhosa dos direitos humanos. O nacionalismo de homogeneização étnico-racial parece criar um Estado que se vê como vítima do mundo, justificando, paradoxalmente, que atue como agressor no sistema internacional.

Em suma, as políticas de imigração da era Trump não devem ser vistas como um fenômeno isolado de gestão pública, ou como uma distração para outras questões, mas sim como a ponta de lança de um projeto de reengenharia social de alcance nacional e projeção internacional. Ao transitar formalmente do nacionalismo cívico para o étnico, o atual governo estadunidense adota uma postura de colonização interna, tratando o próprio território do país como um campo de batalha em que a homogeneidade deve ser imposta à força por meio da tecnologia, do encarceramento e da militarização da sociedade civil. Este processo tem custos devastadores. Internamente, corrói o tecido social e os direitos civis, criando uma casta de subcidadãos e normalizando a violência estatal. Externamente, transforma os EUA em uma na&cce dil;ão entrincheirada, cuja insegurança identitária se manifesta em agressividade geopolítica, um processo com potencial para reconfigurar as relações internacionais contemporâneas.

Tatiana Vargas-Maia é professora do Bacharelado em Relações Internacionais do Departamento de Economia e Relações Internacionais (DERI), da Faculdade de Ciências Econômicas (FCE), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Para o Irã, vencer é simplesmente não ser vencido https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ira-guerra-prolongada.html

Humor de resistência

 

Hector

Na política, terceira via? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/abraham-sicsu-opina.html