18 março 2026

Editorial do Vermelho

Irã resiste à brutal agressão dos EUA e de Israel
Guerra une governo e grande parte da população iraniana, numa ação de resiliência e defesa dos interesses do país
Editorial do 'Vermelho'  

A guerra de Donald Trump e Benjamin Netanyahu contra o Irã chega à terceira semana com saldo negativo para os agressores. O triunfalismo evaporou-se. O uso dos brutais bombardeios indiscriminados causou crimes de guerra e esbanjamento de atrocidades, causando a morte de mais de 1.300 no Irã, das quais 168 são de meninas, crianças vítimas de um ataque a uma escola. Israel e os aliados dos Estados Unidos na região também sofreram as consequências do ataque, com a resposta do Irã às agressões.

Trump, influenciado por Netanyahu, que mantém sua sobrevida no poder à base de guerras e mais guerras, não contava com a resiliência do Irã. O assassinato do aiatolá Ali Khamenei, em 28 de fevereiro, foi um erro crasso de Trump. O crime uniu o governo e grande parte da população, inclusive setores divergentes, uma demonstração de indignação e de defesa da nação diante da destruição da economia e da infraestrutura do país.

Trump subestimou o Irã, com a premissa falsa de que bastava o bombardeio indiscriminado para mudar o “regime”, promessa para justificar a guerra. O Irã se preparou para se defender. Sabia, pela escalada de ameaças, que seria atacado, apesar do recurso sistemático à diplomacia, pactuando acordo, mesmo com a guerra como possibilidade efetiva. O decorrer da agressão mostrou que o Irã tem fôlego para empreender resistência ativa por tempo indeterminado.

O povo iraniano, embora severamente punido com escassez de alimento e de outros produtos, além da destruição generalizada do país, sabe que a responsabilidade recai sobre Trump. Da mesma forma, é dele a responsabilidade pelos efeitos da guerra na economia mundial, com a disparada do preço petróleo, com o barril já superando a barreira dos US$ 100, em grande parte decorrente do fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% do petróleo mundial, trunfo e recurso legítimo do Irã para a busca de um cessar fogo. Os preços dos fertilizantes também podem ser impactados, colocando em risco a segurança alimentar global. Cerca de 33% dos fertilizantes do mundo passam pelo Estreito de Ormuz.

Em desespero, Trump recorreu a aliados e à China para uma operação conjunta de desbloqueio do Estreito de Ormuz e já recebeu várias negativas. E reagiu com ameaças. “Se não houver resposta ou se for uma resposta negativa, acho que será muito ruim para o futuro da Otan”, disse ele em entrevista ao jornal Financial Times. “Esta não é uma guerra da Europa”, comunicou a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, uma enfática rejeição à proposta de Trump pelos 27 países membros da organização, numa demonstração de que a posição passiva do grupo em relação à guerra começa a ganhar novos contornos.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, disse seu país reitera o apelo para que as partes cessem imediatamente as operações militares, evitem uma escalada da tensão e impeçam que a turbulência regional impacte ainda mais a economia global.

A proposta de Trump de escolta de navios é avaliada por especialistas como inviável. O Irã possui lanchas de ataque rápido, embarcações de superfície não tripuladas, minissubmarinos, minas e até mesmo jet-skis carregados de explosivos, de acordo o comandante aposentado da Marinha Real Britânica, Tom Sharpe, em declarações à CNN. Ou seja: o tempo favorece o Irã.

Outro aspecto desfavorável aos Estados Unidos e a Israel é a vulnerabilidade de pontos de apoio à agressão ao Irã. São países sem a mesma defesa de Israel, como o Domo de Ferro, o sistema de defesa antiaérea móvel. A guerra de Trump e Netanyahu também já fez ataques a usinas de dessalinização de água, numa ação que a ONU classificou como risco do uso da água como arma de guerra, que compromete o abastecimento civil. Além do petróleo, o imperialismo usa a água como fator de guerra.

São questões que levam Trump a um impasse, sem saber como terminar guerra, ao contrário do Irã, que se preparou para agressão, numa ação de resiliência. Não estava no cálculo dos agressores que o ataque ao Irã afetaria a guerra da Otan na Ucrânia contra a Rússia, momentaneamente favorecida pela decisão dos Estados Unidos de autorizar a venda de petróleo russo parado em navios no mar, que se soma aos mais de 400 milhões de barris das reservas de emergência da Agência Internacional de Energia, em uma tentativa de aumentar a oferta global e aliviar a alta dos preços. Todo aparato de guerra dos Estados Unidos se volta para Oriente Médio.

Em outra frente, Israel promove uma escalada de agressões ao Líbano, com operações terrestres e intensificação de bombardeios aéreos, com o pretexto de combater o grupo Hezbollah, que já resultou em centenas de mortes, incluindo crianças e profissionais de saúde, além de forçar o deslocamento de cerca de um milhão de pessoas, o que corresponde a 17% da população libanesa. Trump também abriu outra frente de agressões ao anunciar, na cúpula Escudo das Américas, em 7 de março, um acordo com seus aliados para uso da força militar no Hemisfério Ocidental a pretexto de combater cartéis de drogas e “redes terroristas”.

Internamente, Trump enfrenta o desafia das eleições parlamentares de novembro, que tendem a serem impactadas pelo andamento da guerra. Emparedado, ele não encontra meios e caminhos de proclamar vitória. A guerra provoca mais uma camada de desgaste para ele nos Estados Unidos e soma-se a outras medidas com resultados negativos, como o uso contínuo da força, da ameaça e das chantagens econômicas, sobretudo o recurso indiscriminado ao tarifaço. Há, inclusive, divisão no Make America Great Again (Maga), movimento liderado por Trump que polariza o eleitorado estadunidense.

O planeta está, enfim, caminhando para um intrincado entrelaçamento de contradições. A atual correlação mundial de forças impõe táticas unitárias de combate de todos os países e correntes políticas que lutam pela soberania e autodeterminação dos povos à pretensão de uma potência de impor seu domínio global, que usa, para isso, além do aparato militar, seus monopólios ideológicos, numa guerra cultural de largo espectro.

O desastre de Trump no Oriente Médio https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/oriente-medio-trump-atira-no-proprio-pe.html  

Futebol taticamente avançado

Futebol vive fase de síntese entre tática e talento
Boas partidas da Champions reforçam momento de jogo mais intenso, ofensivo e imprevisível entre as grandes equipes. Evolução tática valoriza meio-campistas, enquanto no Brasil casos como o de Gerson mostram desafios além do campo
Tostão/Folha de S. Paulo    

O jogo de futebol, na média, especialmente entre as melhores equipes do mundo, vive um ótimo momento. Foi o que presenciamos novamente nesta semana pela Champions League, com belas partidas e muitos gols.

O período, mais ou menos, entre 1954 e 1974, durante uns vinte anos, foi de encantamento com um futebol muito bonito, criativo, ofensivo, com grandes times e supercraques, como o Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha e Didi, o Real Madrid de Puskas e Di Stefano, as seleções brasileiras de 1958, 1962 e 1970, a Holanda de 1974, de Cruyff, e tantos outros times e craques que fascinaram o mundo.

A partir dos anos 80 ou 90, com o desenvolvimento progressivo da ciência esportiva, criou-se um grande dilema, um confronto entre o jogo bonito, inventivo, imprevisível e o futebol mais programado, tático, disciplinado e mais defensivo, com o recuo da marcação para fechar os espaços e contra-atacar. Um time esperava o outro e nada acontecia.

Nas últimas duas décadas, especialmente nos anos recentes, houve uma conciliação entre o dever, o jogo programado, tático, com o prazer, talento individual, a inventividade e a improvisação. O jogo está mais eficiente, intenso, ofensivo, com mais gols, mais pressão para recuperar a bola, mais compactação, mais troca de passes desde o goleiro e tantos outros detalhes.

Como os times tentam trocar passes desde o goleiro e pressionam para recuperar a bola mais próxima do outro gol, ocorrem mais riscos de perder a bola na própria intermediária e de deixar muitos espaços na defesa. O Barcelona está sempre próximo de golear, ser goleado ou de vencer ou perder em uma partida com muitos gols para os dois lados. Os jogos são emocionantes e deliciosos.

Manchester City, contra o Real Madrid, começou melhor e perdeu por 3 x 0. O time inglês jogou no ataque em Madrid da mesma maneira que enfrenta os últimos colocados do campeonato inglês. O PSG goleou o Chelsea por 5 x 2 em um jogo equilibrado.

Nas grandes equipes europeias, os meio-campistas são importantíssimos, o que ainda não é habitual no futebol brasileiro. Vitinha, do PSG e da seleção portuguesa, como sempre, atuou com brilho em todas as partes do campo e ainda fez um belíssimo gol, com um belo toque por cima do goleiro. O meio-campista Valverde fez três bonitos gols contra o Manchester City. O São Paulo, dirigido por Crespo ou Roger Machado, segue esse modelo, com um excelente trio de meio-campistas que alternam suas posições durante a partida.

No Brasileirão, Flamengo e Cruzeiro fizeram um jogo discreto, previsível. Gerson, pelo que já jogou, criou uma enorme expectativa. Tenho a impressão de que Gerson e Gabigol atingiram um grande prestígio no Flamengo e não souberam lidar com suas carreiras. Perderam o senso crítico e o intenso brilho.

Como lembrou o excelente jornalista André Rizek, do Sport TV, Gerson foi titular e atuou bem na primeira partida da seleção sob o comando de Ancelotti e depois nunca mais foi convocado. Não está nem na pré-lista para os dois amistosos contra França e Croácia. O próprio jogador, o técnico Tite, a 

Por que a Premier League? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_2.html 

17 março 2026

Palavra de poeta

Rainha dos degradados

Cida Pedrosa      

salve-me rainha
pois a vida não é doce
nem misericordiosa

hoje só tem panela
e um pouco de maçunim

o marido foi para as bandas
do beberibe e vende caranguejo
na feira de peixinhos

salve-me rainha
antes que os de eva morram
sem direito a maçãs ou coisa assim

o gás acabou
os jambeiros do cemitério de santo amaro
desde ontem não safrejam
e minha filha menstruada
não pode frequentar o ponto hoje à noite

salve-me rainha
e desterre
esta vontade de incendiar a vida
e a dor que assola as mãos

[Ilustração: David Alfaro Siqueiros]

Leia também 'A Palavra Mágica', poema de Carlos Drummond de Andrade https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/palavra-de-poeta_80.html  

Postei nas redes

Quem enxerga para além das aparências obtém êxito na luta política. Na vida pessoal também.
.
A passos firmes https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minha-opiniao_26.html?m=1 

Interferência inaceitável

Sanha de Trump ameaça soberania brasileira sobre Porto de Santos
Washington opera contra presença chinesa no terminal Tecon 10, e transforma leilão portuário, em São Paulo, em peça-chave da geopolítica dos EUA
Davi Molinari/Vermelho  
 

A ofensiva do governo de Donald Trump para conter o avanço global da China encontrou um novo e estratégico campo de batalha: o Porto de Santos, no litoral Sul do estado de São Paulo. O que antes era tratado como uma questão de logística e eficiência comercial agora é abertamente discutido pelos Estados Unidos como uma questão de “segurança nacional” e “predominância hemisférica”. 

O recado de Washington sobre o Porto de Santos

Na primeira semana de março (5), no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo, o cônsul-geral dos EUA em São Paulo, Kevin Murakami, subiu o tom durante o Brazil Logistics & Supply Chain Forum, com empresários, especialmente, do setor portuário. Segundo os participantes, Murakami pôs as garras de fora ao afirmar que não seria do interesse de Washington que o leilão do Tecon 10 — um projeto de  megaterminal de contêineres avaliado em R$ 6,45 bilhões com contrato de 25 anos — terminasse com a vitória de uma empresa chinesa.

O diplomata — sem mencionar a China pelo nome — usou termos como “riscos de dependência em ativos estratégicos” e “parceiros confiáveis”, para insinuar que os EUA, sob Trump, veem empresas chinesas (como a Cosco, que construiu o porto peruano de Chancay) como ameaça à segurança, por poderem dar a Pequim controle sobre rotas comerciais vitais. Analistas interpretam as palavras de Murakami nesse contexto como um recado óbvio: “Evitem chineses no leilão do Tecon 10”.

A fala de Murakami não é um fato isolado, mas parte da “Política Marítima” da era Trump, que visa restaurar a dominância dos EUA nos oceanos. Em abril de 2025, Trump impôs tarifas de 100% sobre guindastes chineses   (Ordem Executiva 14257) e iniciou investigações contra práticas logísticas da China. No Brasil, o Porto de Santos é o maior da América Latina e escoa a maior parte da produção de soja e minério do país. Para os EUA, permitir que a China controle um terminal deste porte no coração do agronegócio brasileiro é visto como uma perda de terreno “inaceitável”.

O fantasma de Chancay e a soberania regional
O nervosismo da Casa Branca já tem um recalque geográfico: o Porto de Chancay, no Peru. Inaugurado em novembro de 2024 e financiado com US$ 3,5 bilhões pela estatal chinesa Cosco Shipping, Chancay é hoje o maior porto da América do Sul. Ele funciona como um “hub” que liga diretamente a região à Ásia, reduzindo drasticamente o tempo de viagem e os custos de frete.

Na paranoia do Comando Sul dos EUA (Southcom), Chancay é o exemplo perfeito do que chamam de infraestrutura de “duplo uso”: instalações que, embora comerciais, poderiam servir de base para a Marinha chinesa ou para o monitoramento do comércio regional. Há mais de um ano, a embaixadora dos EUA em Lima, Lisa Kenna, advertiu o governo peruano sobre a presença da China. No entanto, para analistas peruanos, as intenções norte-americanas são a verdadeira ofensa à soberania que ocorre quando uma potência externa tenta ditar com quem os países devem ou não fazer negócios.

A estratégia atual dos EUA busca pressionar as nações a barrar investimentos chineses em setores vitais como energia, 5G e logística. Essa postura ignora a necessidade de investimento em infraestrutura que os países da região possuem. Enquanto a China oferece financiamento e tecnologia para megaprojetos como Chancay, a resposta de Washington tem sido baseada em sanções, tarifas e pressão diplomática para desidratar a influência asiática.

Apesar das investidas de Murakami e da retórica agressiva de Trump, o governo brasileiro tem mantido o foco na eficiência logística e na atração de investimentos diversificados. O leilão do Tecon 10, previsto para o segundo semestre de 2026, segue os ritos da Antaq e do Ministério de Portos e Aeroportos. Os portos  brasileiros são responsáveis por 97% do comércio exterior brasileiro. 

O desafio para o Brasil é não abrir mão da autonomia nacional. Ceder às pressões de Washington para excluir empresas chinesas, além de ferir a soberania, dificulta e encarece o desenvolvimento da infraestrutura nacional.

O PCdoB e o acordo Mercosul-Comunidade Europeia https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/palavra-do-pcdob.html 

Fotografia

 

Emirhan Yazıcı 

Assumo o preconceito! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/minha-opiniao_5.html 

O filme e a cidade

O Agente Secreto tratou o Recife como se fosse Paris
Silvia Macedo*/Marco Zero     

Existe uma ferida específica que as cidades do interior do Brasil – e Recife, que insiste em ser metrópole e ao mesmo tempo carrega dentro de si toda a intimidade de uma cidade pequena, sabe bem disso – carregam há décadas. Não é a ferida da pobreza, embora ela exista e doa. É outra coisa, mais difícil de nomear: é a ferida de não ser levada a sério. De ter seus ritmos, suas lendas, seu sotaque, sua maneira torta e generosa de estar no mundo tratados como curiosidade folclórica, como exotismo para consumo alheio, nunca como matéria-prima para a arte mais alta. O Recife aprendeu cedo, e a contragosto, que as coisas que importavam – as coisas que mereciam câmera, atenção, eternidade – aconteciam em outro lugar.

O cinema pernambucano chegou e desfez esse ensinamento. Não suavemente.

Em O Agente Secreto, Kléber Mendonça Filho não fez uma carta de amor à cidade no sentido piegas da expressão. Fez algo mais violento e mais verdadeiro: tratou o Recife como se fosse Paris. Com a mesma exigência, a mesma seriedade, a mesma convicção de que cada ângulo de uma rua, cada letreiro gasto, cada fachada marcada pela umidade do mar continha dignidade suficiente para a tela grande. O Recife virou um personagem a mais no filme, assim como o seu elenco. E quando uma cidade se vê tratada assim, quando percebe que sua existência cotidiana foi considerada arte, algo se move nela que não é apenas orgulho. É uma espécie de reparação.

O que aconteceu nas ruas depois não foi só entusiasmo. Foi reconhecimento. E reconhecimento, quando ocorre numa cidade que foi sistematicamente ensinada a se diminuir, tem a textura de um abalo sísmico que ninguém vê mas todos sentem.

O sotaque local, vários rostos conhecidos, expressões populares e os espaços onde a vida acontecia – e ainda acontece – ocuparam um lugar nas telonas que, para o público mais amplo, cabia apenas a cidades como Paris, Nova York ou Londres. Isso pode parecer uma observação simples. Não é. Há décadas de subalternidade cultural acumulada nessa constatação. Há uma geração inteira de recifenses que cresceu acreditando – não conscientemente, mas nas fibras mais fundas do que se acredita sem saber que se acredita – que o lugar onde nasceu era provisório. Que a vida de verdade acontecia em outro eixo geográfico. Que o sotaque era coisa a ser perdida, a frase longa e sinuosa do nordestino, coisa a ser encurtada, a referência à Perna Cabeluda, à La Ursa, ao frevo de bloco, coisas íntimas demais para o espaço público da cultura nacional.

O filme devolveu tudo isso. Não como museu. Como urgência.

Ao ver sua cidade, seus costumes e sua cultura projetados para o mundo, parte do público reagiu com orgulho e entusiasmo, é o orgulho recifense, como se costuma dizer, em linha reta. Mas havia, por baixo desse orgulho em linha reta, algo mais complexo – uma torção, uma perturbação, como quem encontra numa gaveta antiga uma fotografia de si mesmo que não sabia que existia e precisa parar para reconhecer o próprio rosto. O encantamento dos pernambucanos estava ligado a um sentimento de pertencimento e orgulho.

A crítica internacional identificou no filme uma obra capaz de articular história, tensão e ironia sem perder o contato com a realidade que representa – e reconheceu nele uma forma própria, insubstituível, de falar sobre violência, repressão e território. O mundo olhando para o Recife e dizendo: isto aqui é universal. Não porque o Recife deixou de ser particular. Ao contrário, porque foi particular o suficiente para se tornar universal. Porque foi fundo o bastante na sua própria especificidade para tocar o que é de todos. Uma produção que atingiu um contingente mais amplo, não os cinéfilos de sempre, mas o motorista de aplicativo, a funcionária dos Correios, o rapaz que vende mingau na avenida Guararapes, que estava de repente torcendo para um filme como quem torce para o Santinha, Sport ou Náutico.

O público pernambucano passou a torcer pelo filme como quem torce por um time ou por um bloco de Carnaval. A comparação não é retórica. É sociológica. No Recife, a identidade coletiva se forja nas disputas: o bloco contra o outro bloco, o time contra o outro time, a cidade contra o descaso do sul. Quando o filme entrou nessa estrutura afetiva – quando passou a ser “o nosso” filme, não um filme sobre nós, mas nosso – ele se tornou veículo de algo que a cidade precisava e não encontrava espaço para expressar. A certeza de que existir aqui é suficiente. Que não é preciso ir embora para ser levado a sério.

E então aconteceu uma coisa estranha e linda: as pessoas começaram a redescobrir o que já conheciam.

Os lugares que serviram como cenário para o longa passaram a ser procurados por turistas e pela própria população local, que tem redescoberto a história da cidade. A avenida Guararapes, o Cinema São Luiz voltaram a ficar nos olhos e na boca do povo. Voltaram – essa palavra importa. Não chegaram. Voltaram. Como se tivessem estado sempre ali, na periferia do que se vê, esperando que alguém os olhasse com atenção suficiente para que os outros também vissem. Isso é o filme funcionando como espelho, não o espelho liso que reflete o que já sabemos, mas o espelho levemente torto que mostra o que estava ali e não víamos porque era óbvio demais para ser visto.

O Ginásio Pernambucano, fundado em 1825, teve como alunos ilustres Clarice Lispector e Ariano Suassuna. Clarice Lispector, que nasceu na Ucrânia e veio para o Recife quando ainda não tinha dois meses de vida, que aprendeu a ler português nessas ruas antes de partir para o Rio e de lá para a língua – Clarice, que talvez seja a escritora brasileira que mais visceralmente escreveu sobre o que significa pertencer a um lugar que não se pode explicar. Ela foi aluna do Ginásio Pernambucano. O mesmo Ginásio que Kleber usou como cenário. A cidade que a fez está na cidade que ele filmou. Não é saudade. É continuidade. É a prova de que há uma linha subterrânea que conecta todas as formas de amor por esse lugar específico, e que esse amor, quando encontra expressão pública à altura de sua intensidade, produz nos que o reconhecem uma espécie de tremor.

A socióloga e folclorista Rúbia Lóssio diz que cidade portuária, ponto de passagem de diferentes povos, o Recife absorveu influências judaicas, portuguesas, africanas e indígenas — um caldeirão de efervescência criativa cuja construção social é pautada pela manifestação do fantástico. O fantástico que Kleber trouxe para a tela – a Perna Cabeluda como alegoria do medo de Estado, a lenda urbana que o jornalismo de 1975 inventou e amplificou até que virasse verdade coletiva – não é exotismo. É arqueologia. É ir fundo o suficiente numa cidade para encontrar onde sua psicologia coletiva se formou, e mostrá-la sem pudor e sem condescendência.

O Carnaval de 2026, a imagem que ficará não será a do presidente no desfile do Galo da Madrugada, nem o coração de Dom Helder Câmara na escultura da Boa Vista. Será a camisa retrô da Pitombeira, a mesma que Wagner Moura veste no filme, produzida em série, copiada aos milhares, transformada em brinde, vestida por milhares de pessoas na torcida pelo Oscar. Uma camisa de troça carnavalesca fundada em 1947, patrimônio vivo de Pernambuco, virando símbolo de uma disputa global de cinema. Há nisso uma dignidade que nenhum planejamento cultural inventaria: ela surge quando uma cultura que sempre foi rica e nunca foi suficientemente reconhecida finalmente encontra o canal por onde pode transbordar.

Mesmo não recebendo as estatuetas do Oscar, o filme fez história. Os debates urbanos que dele eclodem e os sentimentos de apropriação da cidade talvez sejam conquistas ainda mais duradouras do que qualquer prêmio.

Sim. Porque o que O Agente Secreto fez não se guarda numa prateleira. Guarda-se no gesto do recifense que parou na frente do Cinema São Luiz e o olhou como se o visse pela primeira vez – sendo que o havia passado por ele 300 vezes sem ver. Guarda-se na criança que foi levada aos passeios pelas locações e perguntou ao pai o que era aquele prédio, e o pai soube responder, e os dois ficaram um pouco em silêncio depois. Guarda-se em tudo o que uma cidade descobre de si mesma quando alguém, finalmente, decide olhá-la com o sério e o terno que ela sempre mereceu.

Há coisas que uma cidade carrega por décadas sem saber que carrega. O Agente Secreto foi a mão que abriu a gaveta.

*Arquiteta formada na UFPE, mestre em Teoria da Arquitetura e Urbanismo e PhD em Film Studies na Universidade de Reading (Reino Unido). No Brasil, trabalhou como diretora de arte no audiovisual, teatro e televisão. Atualmente vive na Inglaterra, onde finaliza seu documentário UK-Ukrainians — sobre a presença ucraniana no Reino Unido — e investiga as relações entre cinema e cidade em sua pesquisa de pós-doutorado no King’s College London.

Leia também: O talento brasileiro, de Pernambuco falando para o mundo! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/enio-lins-opina_17.html