06 julho 2026

EUA: decadência

250 anos de hipocrisia: o império decadente dos EUA comemora a si mesmo
Primeira revolução anticolonial das Américas pariu a potência que mais sistematicamente sufoca soberanias alheias
André Cintra/Vermelho 


Os Estados Unidos completaram neste sábado (4) 250 anos de independência. A primeira colônia das Américas a romper com uma metrópole europeia inspirou movimentos emancipatórios em todo o continente e difundiu a ideia de autodeterminação dos povos. Dois séculos e meio depois, porém, o país que nasceu da luta contra o Império Britânico se consolidou como a principal potência imperialista do planeta.

A independência proclamada em nome da liberdade deu lugar à expansão sobre territórios indígenas, à anexação de partes do México, à política do “Big Stick”, às invasões militares, à Doutrina Monroe, aos bloqueios econômicos e às guerras de intervenção. O abismo entre o mito fundador, personificado por Thomas Jefferson, e a prática de Washington nunca foi tão evidente quanto neste aniversário.

As comemorações dos 250 anos, marcadas por disputas políticas internas e demonstrações de força militar, refletem a decadência de um poder que não sustenta sua antiga narrativa moral. Em nome da “democracia”, os EUA intensificam ações que afrontam a soberania de outras nações e aprofundam tensões globais. A festa em Washington, entre fogos e patriotismo, cheira cada vez mais a pólvora e arbítrio.

O sequestro e a prisão do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, representam uma escalada contra a soberania latino-americana. Em janeiro, Maduro foi retirado de Caracas por uma operação militar dos EUA, levado ao território norte-americano e detido sob acusações de narcoterrorismo. O episódio escancarou a lógica colonial segundo a qual Washington se atribui o direito de decidir quem pode governar outros países.

O próprio Donald Trump descreveu a ação como um “ataque de grande escala” e afirmou que os EUA passariam a “governar” a Venezuela até uma transição considerada adequada. Mais do que combate ao narcotráfico, o que está em jogo é o controle direto sobre um Estado soberano e suas riquezas. É a mais grave afronta ao direito internacional desde as invasões do Iraque e do Afeganistão – a Doutrina Monroe reeditada em pleno século 21.

Enquanto fogos iluminam Washington, mísseis reais seguem caindo sobre o Oriente Médio. Em fevereiro, EUA e Israel lançaram uma ofensiva conjunta contra o Irã, matando autoridades – inclusive o líder supremo iraniano – e atingindo a infraestrutura civil. A guerra, encerrada formalmente em junho, reafirmou o velho intervencionismo baseado na força militar e na “mudança de regime”. A independência que um dia simbolizou a luta contra um império hoje é celebrada mediante bombardeios sobre povos do Sul Global. É a “Pax Americana” em sua essência: estabilidade para os aliados, guerra para os que desafiam sua hegemonia.

A mesma lógica de exclusão e arbítrio que guia os bombardeios no Oriente Médio se manifesta nas fronteiras domésticas – e nem mesmo o futebol escapa desse ambiente de intolerância. A Copa do Mundo de 2026, vendida pela Fifa como celebração global da diversidade, é marcada por políticas migratórias agressivas, barreiras discriminatórias e repressão xenófoba. A Anistia Internacional denunciou episódios de discriminação racial e revistas invasivas.

Anfitriões do Mundial ao lado de México e Canadá, os EUA converteram a festa do futebol em símbolo de sua decadência moral e em palco de vigilância e exclusão. Mais de 167 mil pessoas foram presas pelo ICE nas cidades-sede entre 2025 e 2026. Torcedores de países como Irã, Haiti e Senegal enfrentaram restrições de entrada, e até um árbitro somali foi impedido de atuar apesar de possuir visto válido. O fato de entidades como Anistia Internacional e Human Rights Watch terem pedido uma “trégua” migratória durante a Copa revela o tipo de país que os Estados Unidos se tornaram.

Ao abalar o colonialismo e inspirar emancipações, a Independência de 1776 teve seu lugar na história. Mas o paradoxo destes 250 anos é que a primeira revolução anticolonial das Américas pariu a potência que mais sistematicamente sufoca soberanias alheias. A primeira colônia independente das Américas tornou-se mais predadora que sua antiga metrópole. Celebrar a independência enquanto se impõem sanções, bloqueios e bombas a outros povos é transformar o símbolo libertador em instrumento de dominação.

Da América Latina ao Oriente Médio, da África à Ásia, a defesa dos interesses estratégicos de Washington invariavelmente significou golpes, ocupações, sabotagens econômicas e apoio a ditaduras. Os povos da América Latina, que tantas vezes sentiram na pele o intervencionismo de Washington, sabem bem que a “liberdade” que os EUA dizem exportar costuma vir acompanhada de bases militares, sanções e, quando necessário, bombas.

Impérios passam. Enquanto as elites de Washington brindam na National Mall, os povos agredidos cavam trincheiras. Nenhuma nação pode reivindicar para si o monopólio da liberdade enquanto nega aos demais o direito de existir soberanamente.

Que este 4 de julho seja lembrado como um marco de reflexão sobre os rumos do imperialismo estadunidense no século 21. Nestes 250 anos sob o signo da hipocrisia, não há o que comemorar. Há, isso sim, o que denunciar. Às forças progressistas e anti-imperialistas, cabe desmascarar a farsa deste aniversário e seguir marchando por um mundo multipolar e verdadeiramente livre.

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Donald Trump e sua tresloucada política externa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_0648315181.html 

Palavra de poeta

engenharia do consentimento
Elys Zils     

na rua
mãos erradas

em casa
facas limpas

na igreja
silêncios ajoelhados

a família
passa o pano

uma engenharia
do consentimento
costurada na pele
há séculos
ensaiada

nascemos
marcadas

algumas
aprendem
a respirar

outras
confirmam
a estatística

[Ilustração: David Alfaro Siqueiros]

Leia também: Meu pardal amigo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2010/12/cronica-em-minha-coluna-semanal-no.html 

Fotografia

 

Walter Firmo

Curar o quê? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/estranha-epoca-nossa.html   

Literatura & tecnologia

Não há espaço para a IA na literatura?
Seriam os chatbots amarras à criatividade? Um professor de criação literária mostra que é possível utilizá-los para experimentar caminhos artísticos. Jamais para a escrita: ela requer a crítica, reflexão e audácia de que as máquinas não são capazes
Martin Puchner, no Aeon | Tradução: Rôney Rodrigues
   

Desde que a inteligência artificial se tornou popular, há alguns anos, ela também passou a funcionar como um teste de personalidade política: me diga o que você pensa sobre a IA e eu lhe direi quem você é. Os preocupados com as mudanças climáticas focam no consumo de energia. Os que denunciam o capitalismo tardio a veem como o exemplo máximo do monopólio corporativo. Os que se preocupam com o racismo alertam para os vieses da IA. Os que estudam os efeitos do colonialismo a enxergam como mais uma forma de exploração. E os mais apocalípticos veem no ChatGPT, Claude, Gemini e Grok os quatro cavaleiros do apocalipse.

As pessoas das artes e da cultura se sentiram particularmente ameaçadas pela IA, porque a tecnologia parece vir para tomar justamente o que elas mais prezam: o uso criativo de imagens, palavras e ideias. Estes dois últimos – palavras e ideias – estão no centro da tempestade porque a IA generativa é baseada na linguagem e porque as ideias estão intimamente ligadas às palavras com as quais são expressas. Em resposta, escritores têm optado majoritariamente pela resistência, defendendo a criatividade genuinamente humana contra as máquinas. Minhas redes sociais foram inundadas com porcarias de IA, produzidas e compartilhadas com entusiasmo por colegas na esperança de provar que a IA não pode ser criativa. Vamos chamar isso de Resistência Criativa. 

Com base na minha experiência dando aulas e palestras pelo mundo, a Resistência Criativa é mais forte na América do Norte, bem menos dominante na Índia, e ainda menor na China e na Coreia, com a Europa ficando em algum ponto intermediário. Quando dei uma aula sobre IA e criatividade em Seul no verão passado, com alunos de toda a Ásia e também da América Latina, eles tinham uma única preocupação: por favor, nos ensine a usar essas ferramentas de forma eficaz. A única pessoa que defendia a resistência criativa era um aluno estadunidenses que havia se perdido e entrado na turma. Na Índia também tive muitas interações com pessoas das artes que demonstraram uma atitude menos defensiva e mais exploratória.

Essas impressões anedóticas são respaldadas por pesquisas que medem as atitudes em relação à IA em diferentes localidades de forma mais geral. É tentador especular sobre as razões para essa distribuição desigual. O cineasta Shekhar Kapur me disse em uma conversa que se trata da defesa de privilégios enraizados: as pessoas do Sul Global têm menos a perder e, portanto, estão mais abertas às novas tecnologias. Também podem existir atitudes filosóficas e culturais mais profundas, com culturas de influência budista menos apegadas à distinção entre humanos e não humanos.

Não importa onde exista, a Resistência Criativa é compreensível como uma reação a uma tecnologia disruptiva, mas, no fim das contas, ela atrapalha a compreensão da IA. Nos últimos três anos, tenho experimentado a IA e me tornei um otimista cauteloso. A IA pode até ser péssima para os engenheiros de software, mas acredito que é um desenvolvimento intrigante para as pessoas que se importam com a linguagem e as ideias – justamente as que mais a rejeitam atualmente.

A Resistência Criativa tem um ponto válido quando a IA levanta questões sobre o que as máquinas podem ou não fazer – mas também levanta questões semelhantes sobre os humanos. Muitos dos defeitos que a Resistência Criativa vê na IA – que ela é previsível, que meramente recombina o que já existe – também são verdadeiros para muitos humanos. Na verdade, grande parte do trabalho nas artes nas últimas décadas questionou as alegações sobre a criatividade humana. Isso inclui o culto ao gênio solitário, o papel das instituições na formação da arte, a dependência de ferramentas e meios, e os modos coletivos de produção criativa. Tem sido estranho observar a rapidez com que escritores e artistas, diante da ameaça da IA, esqueceram tudo isso e agora buscam refúgio em visões muito tradicionais da criatividade humana. É quase como se estivéssemos de volta ao mundo que C. P. Snow descreveu nos anos 1950, dividido entre a ciência de vanguarda e as artes e humanidades presas à tradição.

O principal problema da Resistência Criativa é que ela nos cega para o que há de mais interessante na IA: o fato de ela ser baseada na linguagem – algo que compartilhamos com a IA. É claro que máquinas e humanos aprendem a linguagem de formas diferentes, processam-na de forma diferente e interagem com ela de forma diferente. Mas essas diferenças não significam que apenas nós, humanos, realmente usamos a linguagem, enquanto as máquinas apenas a imitam. Os agentes de IA são usuários de linguagem surpreendentemente eficazes, embora com pontos fortes e fracos diferentes dos nossos. Reconhecer isso não nos obriga a dizer que a IA é consciente (um conceito notoriamente difícil de definir) ou que é semelhante aos humanos de outras formas. Na verdade, um dos pontos fortes da IA é que ela usa a linguagem de maneira diferente de nós. Mas a questão aqui é que a linguagem é o território onde humanos e máquinas se encontram. Vamos chamar isso de Modelo de Linguagem Compartilhada, o que também explica por que os humanos podem interagir com a IA em primeiro lugar.

Conviver com o Modelo de Linguagem Compartilhada é algo que precisamos aprender. Até recentemente, era razoável supor que todos os agentes falantes eram humanos (com exceção de papagaios treinados), daí o nosso hábito enraizado de atribuir personalidade aos chatbots, com todas as consequências amplamente divulgadas. Mas agora precisamos nos acostumar a ter outro usuário de linguagem entre nós.

Muitos leitores se sentem enganados quando descobrem que um texto foi escrito por IA. Mas essa atitude vai persistir? 

Muitas disciplinas serão necessárias para nos ajudar a entender as implicações da IA, incluindo engenharia e matemática. Mas elas também incluem duas teorias associadas às humanidades: a teoria da resposta do leitor e o pós-estruturalismo. Ambas são, por acaso, as teorias com as quais cresci intelectualmente, e descobri que ambas são surpreendentemente úteis para lidar com o desafio da IA.

A teoria da resposta do leitor se desenvolveu nos anos 1970 e 1980, na Alemanha e nos EUA, desafiando a visão padrão de que a literatura é produzida por um autor (ou vários autores) usando diferentes meios (rolos de manuscritos, livros impressos) e depois transmitida por intermediários (bibliotecas, livrarias) até os leitores, que então, bem, a leem. “Não tão rápido”, disseram teóricos como Wolfgang Iser, na Alemanha, e Stanley Fish, nos EUA. A suposição de que a literatura é o que está preso entre as capas de um livro deixa de fora os leitores, que, na verdade, coproduzem a literatura por meio do ato da leitura. Literatura não são palavras no papel; são palavras no papel que estão sendo lidas por leitores. Em sua forma mais extrema, isso significava que não importava como (e por quem) um texto era escrito; tudo o que importava era como ele era lido. O ato da leitura era tudo, e as palavras escritas por um autor eram meramente uma desculpa para que um ato de leitura acontecesse.

O centro da teoria da resposta do leitor era a Universidade de Konstanz, uma universidade recém-fundada no extremo sudoeste da Alemanha, bem na fronteira com a Suíça, onde fui estudar no final dos anos 1980. No meu primeiro semestre, entrei por acaso em um seminário de Iser, autor de “O Ato da Leitura” (1976), uma das primeiras obras-chave desse movimento. Quando voltei para casa no Natal daquele ano, diverti minha família e amigos com a afirmação surpreendente de que a literatura não era o que eles exibiam com orgulho em suas estantes, mas algo que só passava a existir quando eles começavam a ler.

A IA é um experimento perfeito para a teoria da resposta do leitor. Será que realmente não importa quem (ou o quê) produz um texto? No momento, o veredito parece ser que importa muito. A Resistência Criativa, em particular, tem tudo investido nessa diferença, e muitos leitores se sentem enganados quando descobrem que um texto foi escrito por IA. Mas essa atitude vai persistir? A percepção central da teoria da resposta do leitor nos ajuda a formular essa pergunta de uma maneira melhor: o que importa não são as palavras em si, mas como as lemos. Para a IA, isso significa que a verdadeira questão não é quão bons serão os textos produzidos por IA, mas se os leitores continuarão a lê-los de forma diferente (ou simplesmente não os lerão).

A outra teoria literária que pode nos ajudar a entender a IA é o pós-estruturalismo. Foi com essa teoria que tive contato na pós-graduação, depois de ter passado pela teoria da resposta do leitor. Foi também o que me trouxe aos EUA, onde fui estudar com Jacques Derrida, que dava aulas regularmente na Universidade da Califórnia, em Irvine. Lembro-me de quando juntei coragem pela primeira vez para ir ao horário de atendimento de Derrida. Esperava uma longa fila de fãs, mas, em vez disso, o encontrei sentado, completamente sozinho, no final de um longo corredor vazio. Voltei algumas vezes, ansioso por esses encontros um pouco estranhos em inglês imperfeito (nós dois melhoramos com o passar do semestre). Na maior parte do tempo, ele queria falar sobre seu medo de que as pessoas estivessem meramente imitando seu estilo de pensamento sem a substância. Essa preocupação ficou comigo e acabou me fazendo me afastar do pós-estruturalismo.

Mas agora, diante da IA, cheguei a ver que o pós-estruturalismo acertou em algo importante: que não há nada de natural na linguagem. A linguagem não é uma capacidade mágica que nos torna humanos, mas uma tecnologia estranha que se apoderou de nós e mudou a forma como pensamos.

A forma como Derrida apresentou esse argumento era aparentemente contraintuitiva: a escrita é mais fundamental do que a fala. Essa afirmação contrariava as evidências históricas de que os humanos evoluíram primeiro a capacidade de falar, cerca de 100 mil anos atrás, e só muito depois aprenderam a capturar as palavras faladas por meio de signos escritos. O que incomodava Derrida nessa história era que ela fazia a linguagem parecer natural e a escrita artificial, quando, na verdade, toda linguagem era artificial: uma ferramenta de pensamento. A melhor maneira de provar esse ponto era mostrar que a fala continha traços (uma palavra importante para Derrida) da escrita, no sentido de que era um sistema criado artificialmente que operava de acordo com suas próprias regras. Essa artificialidade era mais fácil de ver na escrita, daí sua afirmação de que a escrita, essa tecnologia abertamente artificial, revelava algo sobre a fala que, de outra forma, seria difícil de perceber. Na verdade, o pós-estruturalismo não surgiu com essa teoria do nada, e alguns pós-estruturalistas, como Jacques Lacan, chegaram a ler os teóricos por trás da revolução da IA, como Claude Shannon e Norbert Wiener.

Além da teoria literária, há outra fonte à disposição dos escritores que pode nos ajudar a avaliar a IA: a história cultural. Do mito de Pigmalião à peça “R.U.R.” (1920), de Karel Čapek – na qual o escritor tcheco cunhou a palavra “robô” –, a literatura vem refletindo sobre a IA há muito tempo. A melhor literatura aqui não se limita a avisos apocalípticos no estilo “O Exterminador do Futuro”, embora as preocupações com a perda de controle possam ser encontradas em mitos como “O Aprendiz de Feiticeiro”, que desencadeia um mecanismo mágico que não consegue controlar. Outras histórias sobre criaturas inteligentes podem ser encontradas em contos sobre lâmpadas mágicas e tapetes voadores, fantasmas, gênios e fadas, oráculos e deuses. Nós, escritores e estudiosos, possuímos vastos recursos culturais para pensar sobre outras formas de inteligência, se ao menos descobrirmos como usá-los.

Veja um romance como “Frankenstein” (1818). À luz da IA, podemos perceber que Mary Shelley pensou profundamente sobre o papel da linguagem e o que hoje chamaríamos de dados de treinamento na criação de uma criatura artificial. No romance, o Dr. Frankenstein abandona sua criatura antes de completá-la: ele lhe deu forma exterior, mas nenhum conhecimento ou educação. Lançado ao mundo, a criatura agora precisa adquirir isso por conta própria: Shelley faz com que ela aprenda a linguagem espionando uma família de humanos durante meses.

Mas isso não é suficiente. A criatura também precisa adquirir conhecimento baseado em livros. Shelley especifica precisamente quatro livros que a criatura lê e que, de fato, moldam suas reações subsequentes ao mundo e sua inteligência. Esses dados de treinamento são: “Vidas Paralelas”, de Plutarco; “Paraíso Perdido” (1667), de John Milton; “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (1774), de J. W. Goethe; e “As Ruínas” (1791), de C. F. Volney, uma obra sobre a história das civilizações. Esses quatro textos – o supercânon de Shelley – incutem na Criatura sua noção de grandeza baseada em ideais clássicos (Plutarco); um senso dramático da criação e seus desafios morais (Milton); uma linguagem de interioridade e sentimento (Goethe); além de um senso trágico da história mundial (Volney).

Abordar a IA a partir da história cultural profunda também pode ajudar a explicar alguns dos comportamentos mais perturbadores da IA. Como nossa IA foi treinada com a herança coletiva e digitalizada do pensamento humano, essa história de imaginar a IA é, na verdade, parte desses dados de treinamento. Pelo menos parte das interações inquietantes entre humanos e chatbots de IA, que soam como algo saído diretamente de “O Exterminador do Futuro”, realmente vieram de “O Exterminador do Futuro” – não porque a franquia do ciborgue assassino previu o futuro com precisão, mas porque sua pegada cultural faz parte dos dados de treinamento e, portanto, está moldando o comportamento dos chatbots. Escritores, com um bom conhecimento dos cânones da literatura mundial, seriam excelentes analistas desses ciclos de retroalimentação cultural.

Os dados de treinamento – a ingestão de enormes quantidades de texto criado por humanos, desde as grandes obras da literatura mundial até todo o Reddit e o X (antigo Twitter) – levantam a questão dos direitos autorais. Como é amplamente sabido, as empresas de IA treinaram seus modelos não apenas em livros de domínio público (como as obras de Plutarco, Milton e Goethe), mas também em vastos repositórios de obras protegidas (incluindo várias das minhas). Escritores e artistas têm se indignado com o fato de que empresas privadas primeiro roubam nosso trabalho e depois oferecem para vendê-lo de volta para nós a preços muito baixos. Os processos judiciais resultantes desse ato generalizado de pirataria estão atualmente tramitando nos tribunais e provavelmente serão resolvidos a favor dos autores, como deve ser. Mas a IA também levanta questões mais espinhosas sobre propriedade e arte. É verdade que os produtores criativos há muito dependem da proteção dos direitos autorais para ganhar a vida com seu ofício. Ao mesmo tempo, eles dependem do direito de usar obras criadas por outros por meio da doutrina do “fair use” (uso justo), que lhes permitia apropriar-se e transformar obras protegidas de maneiras criativas. As empresas de IA não apenas violaram as leis antipirataria. Elas também reivindicam a mesma doutrina de “fair use” criada para proteger a liberdade criativa dos artistas. Isso, mais do que os atos mais diretos de pirataria, ameaça o delicado equilíbrio entre proteção e liberdade artística que sustenta a arte há mais de um século.

Como escritor e historiador cultural, tenho experimentado a IA nos últimos três anos e quero encorajar mais escritores e artistas a fazerem o mesmo. No passado, sempre houve alguns artistas com versatilidade técnica que programavam computadores para usos criativos (eu não era um deles). Mas agora é necessário apenas um conhecimento técnico mínimo para acessar e trabalhar com grandes corpora e cânones, e criar ferramentas personalizadas usando nada mais do que nossa tecnologia favorita: palavras, palavras, palavras.

A experiência mais emocionante para mim tem sido o “vibe coding” (construir software dando instruções conversacionais à IA). Assim que me dei conta de que o romance de Shelley continha instruções assustadoramente proféticas sobre o uso da linguagem e dados de treinamento, comecei a criar um chatbot. Pelo que aprendi, a Criatura estava basicamente implorando para ser implementada em um chatbot baseado em RAG (Retrieval-Augmented Generation). Chatbots baseados em RAG são construídos sobre grandes modelos de linguagem (LLMs). Olhando em termos do romance “Frankenstein”, o LLM é como a primeira fase, em que a Criatura aprende a falar, aprendendo a usar a linguagem como ferramenta. Então vem a próxima fase, a fase RAG, quando ela lê quatro livros específicos que moldarão seu comportamento subsequente. Um processo RAG significa adicionar uma base de conhecimento com esses quatro textos. Esses textos, uma vez transformados em um formato pesquisável (tecnicamente, um espaço vetorial), formam um filtro principal que molda a forma como o chatbot usa a linguagem. O processo exigiu algumas outras etapas e muitas tentativas e erros. Mas eventualmente funcionou: eu tinha criado a Criatura de Frankenstein, graças à imaginação precisa de Shelley. Desde então, criei algumas dúzias desses chatbots, ou, como um dos meus alunos disse, um “Jurassic Park” para a literatura.

Encorajado por essas primeiras experiências, passei dos chatbots baseados em RAG para aplicativos de “vibe coding” que colocam esses chatbots em ação. Um projeto é um aplicativo que encena debates entre esses filósofos, realizando o que muitos filósofos e humanistas sempre sonharam: reunir as melhores mentes do mundo e fazê-las conversar entre si. Outro oferece conselhos mais práticos sobre carreira e escolhas de vida, uma espécie de coach executivo com base filosófica.

Ambas as experiências mudaram minha abordagem em relação aos materiais criativos que leciono há décadas: graças ao “vibe coding”, agora posso pensar de forma muito mais concreta sobre como os alunos – ou qualquer pessoa, na verdade – podem interagir com esses materiais e com que finalidade. Em outras palavras, como esses materiais podem ser aplicados. O “vibe coding” me ensinou a pensar mais como um engenheiro. “Para quem tem um martelo, tudo parece um prego”, diz o velho ditado. Sempre achei que o que parece uma crítica – “nem tudo é um prego” – é, na verdade, uma visão profunda: os martelos nos transformaram em uma espécie que martela. Para manejar um martelo com eficácia, precisamos ver o mundo sob sua ótica, ou seja, como um monte de pregos em potencial.

Algo semelhante está acontecendo com o “vibe coding”: agora vejo o mundo em termos de aplicações. No fundo da minha mente, uma nova forma de pensar está sempre em ação: posso transformar essa visão, essa filosofia, em algo que tenha um uso concreto e prático? Não estou dizendo que todos precisam adotar esse tipo de atitude, apenas que a IA permitiu que escritores dispostos a experimentá-la façam isso.

Quase todos os professores de humanidades se preocupam com a deterioração das habilidades de leitura, escrita e pensamento entre os alunos que usam IA rotineiramente. E é verdade que há boas evidências de que o uso excessivo de IA para certas tarefas pode impedir os alunos de aprender habilidades cognitivas cruciais. Isso significa que a educação básica e universitária deve incluir estratégias de ensino da era pré-IA, aquelas das quais todos nós, inclusive entusiastas da IA como eu, nos beneficiamos ao longo de décadas de ensino analógico. E como as tarefas e avaliações desempenham uma importante função de incentivo, é certo estruturá-las de modo que os alunos nem sempre possam usar a IA, seja por meio de redações feitas em sala de aula, exames orais ou outras técnicas. O ponto é que os alunos devem ser protegidos da tentação de sempre usar a IA como atalho, para que possam desenvolver habilidades cognitivas cruciais, incluindo habilidades metacognitivas (ou aprender a aprender), como fazer anotações, estruturar ideias, pesquisar e revisar.

Ao mesmo tempo, os alunos, como os das minhas turmas na Coreia, estão absolutamente certos em exigir que a faculdade os ensine a usar as ferramentas de IA em evolução. E como essas ferramentas evoluem tão rapidamente, será necessário ensinar aos alunos o que se pode chamar de habilidades “meta-IA”, ou seja, abordagens para pensar sobre como usar a IA. Observar meu próprio uso nos últimos dois anos e meio me deu uma ideia de como isso pode ser. Envolveria aprender a interagir efetivamente com a IA, aprender a pensar como um engenheiro. Também envolveria pensar sobre aplicações, como as percepções podem ser testadas e aplicadas por meio de ferramentas de IA (ou outras).

Uma área em que eu mesmo tentei implementar essa abordagem é um curso de redação on-line que desenvolvi nos últimos três anos. Nossa abordagem foi ensinar aos alunos um processo passo a passo de escrita que inclui como fazer uma pergunta de pesquisa viável, como fazer pesquisa, como construir um argumento, como reunir evidências, como revisar uma tese com base em contra-argumentos e contrapontos, como estruturar uma redação, como obter feedback e como revisar. O objetivo é apresentar a escrita como uma técnica para pensar, incluindo a capacidade de evitar falácias lógicas comuns. Sentimos que os alunos precisavam absolutamente passar por esse processo trabalhoso para aprender habilidades cognitivas sofisticadas. A escrita, aqui, foi apresentada como um processo de pensamento e, portanto, não deveria ser terceirizada para a IA.

Mesmo que os alunos venham a depender da IA para muitas formas de escrita depois da faculdade, eles precisam desenvolver aquelas habilidades cognitivas que só estão disponíveis depois de se esforçar com uma redação mais longa, por meio de muitas revisões. Além disso, esse processo colocará os alunos em condições de julgar a qualidade da escrita produzida pela IA. Por fim, a IA nos encorajou a enfatizar aquelas habilidades estilísticas – como se arriscar, criar frases surpreendentes e metáforas incomuns – nas quais a IA é notoriamente ruim. Mesmo que a escrita gerada por IA seja boa o suficiente para muitas tarefas, há um valor em saber como ser melhor do que a IA.

Ao mesmo tempo, sentimos que, se usada corretamente, a IA poderia melhorar o processo de escrita e pensamento. Para isso, ensinamos os alunos a criar agentes de IA que atuam como parceiros de treino, forçando-os a aprimorar seu pensamento reagindo a contra-argumentos e contrapontos. A IA também pode ser usada como assistente de pesquisa e para brincar com diferentes estruturas. Por fim, como o curso precisa ser escalável, construímos agentes treinados para dar feedback preciso sobre os primeiros rascunhos e atuar como auxiliares no planejamento do processo de revisão.

Desde que criei esse curso, é assim que tenho usado a IA pessoalmente. Criei vários assistentes personalizados que conhecem meus projetos e aos quais instruí para testar ao limite minhas ideias e argumentos. É claro que isso não substitui a leitura e a conversa com humanos, mas se tornou uma prática crítica que incorporei ao meu processo de pensamento e escrita.

A IA é uma tecnologia poderosa que terá muitas consequências, intencionais e não intencionais. Há boas razões para nos preocuparmos com seu impacto no mercado de trabalho e na educação, entre outras áreas. Nesse contexto, é especialmente importante que nós, artífices da palavra, entendamos a IA corretamente. Para isso, temos à nossa disposição ferramentas teóricas e históricas que nos ajudam a descobrir o que é a IA e como devemos interagir com ela. Vamos usá-las.

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O pensamento crítico na era dos algoritmos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/bolha-algoritmica.html 

Arte é vida

Andrew Atroshenko

"Bebo sim, mas quase nada" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/minha-opiniao_6.html 

Energias renováveis

Os paradoxos da energia brasileira e a injustiça territorial no Nordeste
Os recordes em energias renováveis ocultam a reprodução de velhas assimetrias regionais, que impõem ao Nordeste os custos socioambientais do abastecimento do Centro-Sul
Cidoval Morais de Sousa/A Terra é Redonda     

O Brasil acaba de divulgar o Balanço Energético Nacional 2026, que celebra números impressionantes: 49,5% de renovabilidade na matriz energética e 86,8% na matriz elétrica, com recordes na geração eólica (116,5 TWh) e solar (88,1 TWh). A capacidade instalada de solar cresceu 33,7% e a eólica 17,5%, consolidando o país como referência global em energias limpas. Contudo, por trás desses números, escondem-se contradições profundas que merecem um olhar crítico: o aumento das renováveis convive com a expansão de 9,5% do gás natural, as perdas energéticas crescem devido à maior participação térmica e as emissões sobem 2,5%. A transição energética brasileira não é linear nem tão virtuosa quanto parece.

O primeiro paradoxo é a convivência entre renováveis e fósseis. Em 2025, a oferta interna de energia cresceu 1,7%, mas enquanto a energia hidráulica caiu 5,7% e a biomassa da cana recuou 3,2%, o gás natural disparou 9,5% e os derivados de petróleo avançaram 0,9%. Isso significa que, para compensar o estresse hídrico e a queda das hidrelétricas, o país recorreu a termelétricas a gás, que são menos eficientes e mais poluentes. A eficiência das centrais elétricas até melhorou – 77,0% –, mas as perdas nas centrais térmicas aumentaram, porque a geração térmica cresceu 12,3% em 2025, puxada justamente pelo gás natural (+22,7%) e pelo licor preto. O discurso da “matriz limpa” esconde que o Brasil está longe de romper com a lógica do fóssil.

O segundo paradoxo, e o mais grave, é territorial. A expansão eólica e solar ocorre maciçamente no Nordeste, que responde pela maior parte dos novos parques eólicos e solares. A capacidade instalada eólica nacional alcançou 34.707 MW e a solar 64.793 MW, com expressiva concentração nos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará, Bahia e Piauí. Contudo, a energia gerada é majoritariamente consumida no Centro-Sul, onde estão as indústrias, os transportes e as residências de maior renda. A MMGD (micro e minigeração distribuída), por sua vez, concentra-se em Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso – estados do Sul e Sudeste – enquanto o Nordeste permanece como exportador líquido de eletricidade, sem usufruir dos benefícios da geração distribuída.

Esse modelo reproduz, no século XXI, a velha divisão colonial do trabalho: o Nordeste fornece matérias-primas energéticas (ventos, sol) para o Centro-Sul industrializado, arcando com os custos socioambientais que não aparecem nos relatórios oficiais. Comunidades tradicionais, quilombolas, indígenas e camponesas têm denunciado a perda de acesso a territórios, a restrição de usos comuns do solo e a fragmentação de suas paisagens. Pesquisas acadêmicas já apontam o fenômeno da “injustiça territorial”, em que os impactos não se limitam ao meio ambiente, mas atingem a cultura, a saúde e a organização social dessas populações. Relatos de alterações do sono, cefaleia e ansiedade são frequentes entre moradores próximos aos parques eólicos, além da mortalidade de aves e morcegos que afeta o equilíbrio ecológico da Caatinga.

Os dados oficiais celebram a redução da geração em Sistemas Isolados, com a interligação de Boa Vista ao SIN (Sistema Integrado Nacional), mas não mencionam que essa interligação eliminou a geração local e a possibilidade de desenvolvimento autônomo na região. O Nordeste, que já foi palco de grandes projetos hidrelétricos com barragens que deslocaram populações, agora vê os ventos e o sol serem apropriados privadamente, com contratos de arrendamento frequentemente desiguais e concentrados em grandes proprietários. Benefícios como empregos temporários não compensam a perda de soberania territorial nem os danos à saúde e ao meio ambiente. A “energia limpa” torna-se, assim, um novo ciclo de extração, agora revestido de sustentabilidade. 

Mais concentração

O terceiro paradoxo é distributivo. A eletricidade consumida no transporte rodoviário eletrificado atingiu 745 GWh em 2025, com crescimento expressivo desde 2020, mas esse consumo está vinculado a veículos de alto valor agregado, como automóveis e comerciais leves, que respondem por mais de 90% do total. Trata-se de uma mobilidade elitizada, que não beneficia a maioria da população usuária do transporte coletivo. Da mesma forma, os biocombustíveis – etanol e biodiesel – tiveram crescimentos de 4,3% e 8,2%, respectivamente, impulsionados por políticas de mistura obrigatória (E30 e B15). Contudo, o etanol de milho, que já responde por 25% da produção total (9,4 bilhões de litros), está concentrado no Centro-Oeste, em modelo de agronegócio integrado à soja, com pouca capilaridade social.

O biodiesel, majoritariamente produzido a partir de óleo de soja, fortalece o mesmo agronegócio exportador, enquanto potenciais oleaginosas para agricultura familiar – como mamona, dendê e pinhão-manso – permanecem subutilizadas. As decisões do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) sobre os percentuais de mistura são tomadas sem participação popular e sem estudos aprofundados sobre impactos nos preços dos alimentos e no uso da terra. A renovabilidade do setor de transportes chegou a 26,1%, mas esse ganho ambiental não se traduz em ganho social; ao contrário, pode estar aprofundando a concentração fundiária e a monocultura, com efeitos indiretos sobre a segurança alimentar. 

Cortina de fumaça

O quarto paradoxo é o das emissões. O relatório orgulha-se de que o Brasil emite, por habitante, apenas 2,1 t CO₂ eq, equivalente a 15% do que emite um estadunidense e 26% do que emite um chinês. Além disso, o setor elétrico brasileiro emite apenas 64,8 kg CO₂/MWh, um quarto do valor da União Europeia. Esses números são verdadeiros, mas induzem a uma leitura enviesada: as emissões totais de gases de efeito estufa do Brasil são altíssimas, pois 70% vêm do desmatamento e da agropecuária, setores que o BEN não aborda. A baixa emissão energética não torna o país climaticamente inocente; pelo contrário, o Brasil é um dos maiores emissores mundiais quando se contabiliza o desmatamento, e a expansão do agronegócio – que também produz os biocombustíveis – é diretamente responsável por esse quadro – basta ver o LULUCF,  sigla em inglês para Land Use, Land-Use Change and Forestry (Uso da Terra, Mudança do Uso da Terra e Florestas), categoria de inventário de emissões de gases de efeito estufa (GEE) utilizada pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e pelos relatórios nacionais de emissões.

O aumento de 2,5% nas emissões energéticas em 2025, consequência do maior uso de gás natural, alerta para a armadilha de uma transição que avança nas renováveis, mas recua nos fósseis. O gás natural é vendido como “combustível de transição”, mas sua queima emite CO₂ e seu vazamento de metano é ainda mais danoso. Manter a expansão do gás na matriz energética, mesmo em ritmo menor que o das renováveis, compromete a meta de neutralidade climática e perpetua a dependência de infraestrutura fóssil. O discurso da “matriz limpa” serve como cortina de fumaça para esconder a falta de uma política industrial e energética verdadeiramente descarbonizante.

A comparação internacional também merece ponderação. Embora o Brasil emita menos por unidade de energia, nossa intensidade energética por PIB caiu apenas 1,5%, enquanto a OIE (Oferta Interna de Energia) per capita subiu 2,0%. Isso indica que o país ainda é ineficiente no uso da energia, desperdiçando grande parte do que produz nas perdas de transmissão e distribuição. As perdas em centrais elétricas aumentaram em 2025, justamente porque a geração térmica cresceu – um movimento contrário à eficiência energética. Se somarmos as perdas à injustiça distributiva, percebemos que a energia disponível não chega a quem mais precisa, seja por ineficiência técnica, seja por concentração geográfica.

Diante desses paradoxos, não basta celebrar os índices de renovabilidade; é necessário impor condições para que a expansão das renováveis não reproduza as velhas injustiças. Comunidades organizadas do Nordeste têm elaborado as “Salvaguardas Socioambientais para Energia Renovável”, que propõem distância mínima de torres em relação a edificações, estudos de impacto participativos, reparação integral de danos e contratos de arrendamento equilibrados. Essas salvaguardas são um contraponto à lógica de mercado que trata o território como mero recurso a ser explorado, sem considerar as vozes de quem vive e produz nesses lugares.

A transição energética justa exige, também, a descentralização dos benefícios: parte da energia gerada no Nordeste deveria ser destinada a cooperativas locais, programas de eletrificação rural e fundos de desenvolvimento territorial, em vez de ser integralmente escoada para os centros consumidores. A MMGD solar poderia ser fomentada no próprio Nordeste, com linhas de crédito específicas para famílias de baixa renda e pequenos negócios, em vez de se concentrar no Centro-Sul. Da mesma forma, os biocombustíveis deveriam priorizar a agricultura familiar e a produção de oleaginosas nativas, com assistência técnica e garantia de preço mínimo, gerando renda e fixação no campo. 

Contrapartidas socioambientais

O poder público tem instrumentos para corrigir essas distorções: o CNPE pode incluir critérios sociais e territoriais nos leilões de energia, a ANEEL pode regulamentar a participação comunitária nos licenciamentos, e o MME pode condicionar financiamentos a contrapartidas socioambientais efetivas. No entanto, o que se vê é uma política energética conduzida de cima para baixo, influenciada pelos grandes grupos econômicos do setor elétrico, do agronegócio e da indústria de petróleo e gás. O relatório do BEN, ao exaltar os números sem discutir esses conflitos, contribui para naturalizar um modelo que concentra benefícios e externaliza custos.

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), citados no relatório, não podem ser reduzidos a metas quantitativas de renovabilidade. O ODS 7 – Energia Limpa e Acessível – exige, também, acessibilidade econômica, confiabilidade e equidade. No Brasil, o acesso à energia elétrica ainda é precário em comunidades isoladas e rurais, enquanto a tarifa de luz pesa no orçamento das famílias mais pobres. A geração distribuída, que poderia aliviar esse peso, está concentrada nas classes médias e altas do Sul e Sudeste, que podem investir em painéis solares. A energia limpa, assim, torna-se um privilégio de quem já tem renda, aprofundando.

É preciso reconhecer que a energia não é um fim em si mesma, mas um meio para o bem-estar humano e a justiça social. O Balanço Energético Nacional, ao focar exclusivamente em fluxos físicos e econômicos, omite a dimensão política e ética da energia. Não pergunta quem ganha, quem perde, quem decide e quem paga. Não registra os conflitos territoriais, as denúncias de violação de direitos ou as alternativas comunitárias que existem às margens do mercado. Esse silêncio é revelador: os números podem ser objetivos, mas a escolha do que medir e do que ignorar é sempre política.

Enquanto o Nordeste continuar sendo o celeiro de ventos e sóis do Brasil, mas suas comunidades continuarem sem acesso à energia que produzem, a transição energética será apenas mais uma face da nossa histórica dependência e desigualdade regional. Romper esse ciclo exige coragem política para reorientar subsídios, rever leilões e institucionalizar a participação popular. A energia limpa é um patrimônio de todos, e seus frutos devem ser colhidos por todos – não apenas por aqueles que já têm o poder de comprar e consumir. O Brasil tem condições técnicas de liderar a transição energética global, mas só será um exemplo a ser seguido se incluir, no centro dessa transição, a justiça territorial e a dignidade das populações que há muito sustentam o país com seu território e seu trabalho.

*Cidoval Morais de Sousa, professor do Departamento de Comunicação da Universidade Estadual da Paraíba, é secretário regional da SBPC Paraíba.

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Finda a ilusão, concentremos nossas energias na batalha eleitoral. O Brasil precisa vencer nas urnas. 

Fim da escala 6×1 espelha a mais pura luta de classes https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/fim-da-jornada-61.html