Blog de Luciano Siqueira
A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
28 junho 2026
Ronald Freitas opina
Eleições de 2026 exigem projeto nacional para enfrentar a extrema
direita
Campanha de Lula deve ir além do balanço do governo
e apresentar um Projeto Nacional de Desenvolvimento capaz de enfrentar a crise
institucional, fortalecer a soberania e conter o avanço da extrema direita
Ronald Freitas/Porta
Grabois
Apontamentos sobre o significado das
eleições presidenciais de outubro próximo
Estamos a menos de quatro meses das eleições gerais de outubro, nas
quais serão escolhidos o futuro presidente do Brasil, os futuros membros do
Congresso Nacional, os governadores dos estados federados e do Distrito
Federal, bem como os membros das casas legislativas estaduais e do Distrito
Federal. Ou seja, estará em jogo o fundamental da estrutura de poder do Estado
brasileiro. É muita coisa em jogo.
Ocorre entretanto que, sob a pressão das demandas do dia a dia, a
militância política progressista e de esquerda, às vezes, toma iniciativas e
executa atividades sem ter em conta a magnitude da batalha que enfrentaremos
durante esse processo eleitoral.
Embora estejamos, no Brasil, sob a direção de um governo de
centro-esquerda – o terceiro mandato do presidente Lula –, não significa que
participamos de uma disputa eleitoral na qual as forças progressistas estejam
em posição de vantagem explícita de se saírem vitoriosas; diria mesmo que
corremos o risco de que ocorra o contrário.
As condicionantes, internas e externas, nos colocam desafios que vão da
interferência estrangeira, como evidenciam tanto as ingerências diretas do imperialismo norte-americano, por meio
do governo Trump, quanto, no plano interno, com a existência de um ambiente
de desagregação das estruturas do Estado Burguês Liberal que vige no Brasil
atual.
Essa crise das instituições do Estado cria uma disputa entre os poderes
formais da República – Executivo, Legislativo e Judiciário – e mesmo entre
centros de poder de um segundo escalão, como Banco Central, Ministério Público,
Polícia Federal, entre outros. E isso, diante da falta de um Projeto Nacional de
Desenvolvimento, soberano e inclusivo, que seja a bússola a guiar a ação de
todas as instâncias do poder nacional, e de um poder executivo com força e
determinação para implementá-lo, cria um ambiente político propício ao
esgarçamento das instituições de Estado, com destaque para o uso da corrupção
como método de atuação política, e também um ambiente para que forças
obscurantistas de direita e extrema-direita desenvolvam na sociedade intensa
luta ideológica – cujo centro é a demonização da política como meio civilizado
de resolução dos conflitos que emanam da sociedade –, pregando como solução,
para essa situação de crise continuada que vivemos, a implementação de um
sistema político, ancorado na existência de um poder messiânico, autoritário,
livre da “política que aí está”, para com isso atingirem seus objetivos de
conquistar o poder e implementar projetos de cunho antinacional e antipopular e
de perfil fascistizante.
Esse cenário acima descrito sumaria o contexto político em que se
desenvolverão as eleições gerais de outubro de 2026, e nos remete ao desafio de
disputá-las num cenário de correlação de forças adversas, que inibe certos
círculos políticos de esquerda de participarem da campanha com proposições que
extrapolem os limites impostos pelas conveniências políticas do momento.
Desafios estratégicos da esquerda
brasileira
Vivemos em um período – já longo – de resistência democrática. Desde o
desmoronamento da ex-URSS, as forças de esquerda, no geral, e os comunistas, em
particular, atuam em uma conjuntura política muito difícil que, habitualmente,
tem levado a duas atitudes de como superar essa situação. Para um certo campo
de esquerda e progressista, a derrota infligida às ideias e à prática
revolucionárias, emanadas da revolução bolchevique de 1917, foi muito dura, na
qual, além do desmonte do poder político da ex-URSS, ou seja, a imensa derrota
que os campos socialista e comunista sofreram afetou também as próprias bases
teóricas que davam sustentação a essa experiência. Diante dessa realidade, e
mantendo-se fiéis aos princípios e postulados gerais do marxismo-leninismo – que
deram base teórica e prática à revolução bolchevique –, recolhem-se a uma
tentativa de reeditar os mesmos passos da revolução bolchevique, fazendo
propostas “maximalistas”, distantes da nossa realidade atual.
Já um outro campo da esquerda – também mantendo-se, no geral, fiel aos
postulados teóricos que nortearam a grande revolução de outubro de 1917 –,
avalia que, diante da imensa derrota sofrida, a luta em defesa dos objetivos
revolucionários emanados dos princípios gerais do marxismo e do leninismo, ou
seja, a luta por uma sociedade pós-capitalista – para mim sinônimo de
socialismo –, encontra-se em uma defensiva tão profunda que, então, passam a
assumir a participação em frentes amplas democráticas e progressistas, que têm
caráter tático de acumulação de forças, como um objetivo em si. E, dessa
maneira, diluem suas ações políticas práticas e deixam de ter, na continuidade
da luta – necessária e inescapável – pela construção de uma sociedade
socialista, seu objetivo maior. Essa dicotomia aparece não só nas abordagens e
lançamentos de candidaturas para as futuras eleições, aparecendo mesmo na busca
de apresentar propostas para o programa de campanha de Lula Presidente 2026.
Programa Lula 2026 como projeto de
futuro
Por iniciativa da Fundação Perseu Abramo do PT, sob a coordenação de seu
dirigente, Sergio Gabrielli e com apoio de fundações congêneres – como a
Fundação Maurício Grabois, do PCdoB; a Fundação João Mangabeira, do PSB; a
Fundação Herbert Daniel, do PV; a Fundação Leonel Brizola, do PDT; e a Fundação
Rede Brasil Sustentável, da REDE, foi lançado o documento Plano Participativo pelo Brasil, pelos
brasileiros, que se propõe a ser um instrumento, por meio do qual os
vários setores da sociedade brasileira, particularmente o campo progressista e
democrático, possam contribuir para a elaboração do Plano de Campanha de Lula
2026. Além dessa iniciativa, também setores dos movimentos sociais e mesmo partidos
políticos da base de apoio do Governo Lula, como o PCdoB, discutem em suas
instâncias deliberativas apresentar – ou já o fizeram – propostas ao programa
de governo da campanha Lula 2026.
Esse movimento político de participação ativa na campanha Lula 2026,
seja dos partidos da base do atual governo, seja dos movimentos sociais e de
setores da sociedade civil, é um indicador da disposição das forças
progressistas e democráticas brasileiras de resistirem ao avanço da
extrema-direita e do neofascismo em nosso país.
Porém, espero que o resultado desse movimento de participação e
engajamento político seja traduzido em propostas que coloquem a construção de
um Brasil soberano, desenvolvido, democrático e socialmente mais justo como o
eixo em torno do qual as demais demandas da sociedade, de caráter setorial,
sejam agregadas como partes necessárias e inescapáveis, para o êxito da
conquista eleitoral, da candidatura Lula 2026 e da posterior implementação
destas no futuro governo.
Nesse sentido, o programa de campanha Lula 2026, ao lado de avaliar o
trágico legado deixado pelos governos Temer e Bolsonaro, e de explicitar para o
conjunto da sociedade, e do eleitorado, os êxitos obtidos, e as entregas
realizadas, no atual mandato do governo do presidente Lula, deve mostrar
perspectivas de um novo rumo para a construção de um Brasil que esteja à altura
dos desafios da atual conjuntura mundial e da superação de nossas deficiências
internas – materializadas nas persistentes desigualdades sociais e regionais –,
que criam na sociedade um estado de desilusão na atuação política, como o meio
por excelência para dirimir os conflitos emanados das contradições nela
existentes, e principalmente como um fator de despertar esperanças e sonhos de
uma vida melhor por parte da absoluta maioria do povo brasileiro.
Para atingir esses objetivos, é necessário que o programa de campanha
Lula 2026, além de incorporar as diversificadas e multifacetadas reivindicações
setoriais, tenha como eixo propostas voltadas para a consolidação de um Projeto
Nacional de Desenvolvimento Soberano e Democrático, que, além de promover uma
reforma política que organize o Estado Nacional a serviço de sua implementação,
tenha, no planejamento de sua realização, um instrumento indispensável para
ordenar a solução dos desafios que o país enfrenta:
i) implementar um plano de reindustrialização do país de acordo com o
que há de mais avançado no campo das forças produtivas atuais, inteligência
artificial, tecnologias digitais, domínio do ciclo completo da produção de
equipamentos avançados para a indústria da saúde, da agricultura, da defesa
nacional;
ii) incorporar os valores da proteção ambiental como um elemento
constitutivo do processo de reindustrialização do país;
iii) para tornar exequíveis essas propostas, torna-se necessário romper
com fortes limitações existentes, como o arcabouço fiscal, a autonomia do Banco
Central, a manutenção de uma abusiva e indecente taxa de juros, que impede o
crescimento econômico do país e piora as condições de vida do povo, certo tipo
de abertura ao capital estrangeiro para
explorar nossas riquezas naturais, como as terras raras e outros minerais
críticos, sem que sejam explicitados
claramente os limites dessa atuação, e inclusive a criação de uma empresa
estatal (Terrabras) que nos garanta o usufruto soberano desse patrimônio;
iv) a manutenção e o fortalecimento de estatais estratégicas como a
Petrobras, bem como a reestatização de empresas, também de caráter estratégico,
que foram irresponsavelmente privatizadas, como a Eletrobras etc., e como já
registrado acima, de uma reforma política, que reorganize o Estado Nacional em
função da execução desse projeto de desenvolvimento.
A campanha deverá também ser um momento privilegiado para debatermos com
a sociedade a necessidade fundamental de implementar esse projeto de um Novo
Brasil, que seja capaz de pôr em ação os seus imensos recursos humanos e
materiais, hoje reprimidos pelo fato de ser hegemônico na sociedade, e mesmo em
certos setores do governo, a dominância de um ideal político conservador e
retrógrado, que se baseia nos preceitos neoliberais do Consenso de Washington,
como arrojo fiscal, liberação cambial, abertura comercial indiscriminada,
abertura ao capital estrangeiro para investimentos em qualquer área da economia
nacional, privatização das empresas estatais e a implementação de uma reforma
política que reduza o papel do Estado Nacional, como indutor do desenvolvimento
do país em bases soberanas.
Se conseguirmos desenvolver uma campanha, nos termos acima
superficialmente esboçados, estaremos não só no caminho de uma vitória
eleitoral, como também no caminho de iniciarmos um novo ciclo no processo ainda
inconcluso da construção de um Brasil soberano, democrático, desenvolvido e
socialmente mais justo.
Ronald Freitas é membro do
Comitê Central do PCdoB e coordenador do Grupo de Pesquisa Estado e
Conflitos Institucionais no Brasil da Grabois.
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O selo do PCdoB na frente pró-Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/o-pcdob-e-lula.html
Arte é vida
Leia: "Duplo sentido" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-palavra_070600094.html
Editorial do 'Vermelho'
A face parasitária do capitalismo estampada na fortuna trilionária de Elon Musk
Em vez de grande feito, o primeiro trilionário da história evidencia a crise sistêmica do capitalismo, que exacerba a desigualdade de renda e riqueza e a precarização do trabalho
editorial do 'Vermelho'
O status de trilionário de Elon Musk revela muito sobre o capitalismo contemporâneo. Ele compõe a categoria de magnatas da tecnologia, a elite do Vale do Silício, como Tim Cook, da Apple, Jeff Bezos, da Amazon, e Sundar Pichai, do Google, presentes na posse do segundo mandato presidencial de Donald Trump, em janeiro de 2025. Desde então, eles estão próximos do governo, participam de atividades da Casa Branca e integram comitivas de Trump, como na visita oficial à China em maio de 2026.
Elon Musk e o seleto grupo de bilionários dos Estados Unidos apoiam o governo Trump e, em troca, sugam o Estado. O governo estadunidense atua como um cão de guarda de seus superlucros pelo mundo afora. Estão engajados também em fortalecer a extrema direita e o neofascismo, em escala internacional, e em atacar governos democráticos e patrióticos.
De acordo com o jornal Financial Times, com o alinhamento entre a Casa Branca e as big techs, essas companhias passaram a se beneficiar de alívio regulatório, políticas favoráveis e, em alguns casos, contratos governamentais lucrativos. “A evolução das fortunas desses executivos nos 12 meses desde a posse evidencia a natureza cada vez mais transacional de Washington durante o segundo mandato de Trump e o novo”, afirma o jornal em artigo reproduzido pela Folha de S. Paulo. Elon Musk já era o homem mais rico do mundo e iniciou o segundo mandato de Trump com um império empresarial em expansão e enorme influência no governo, depois de gastar mais de US$ 250 milhões na campanha trumpista.
É uma tendência antiga. No bem documentado livro Pigs at the Trough (Porcos no cocho), publicado em 2004, Arianna Huffington, comentarista e ativista política estadunidense, mostra que houve um afluxo de executivos que se beneficiaram de salários milionários e inúmeras regalias, fraudaram as contas de empresas e manipularam ofertas de ações, entre outros abusos. O mais ultrajante, porém, é que muitos dos que se beneficiaram desse fluxo de dinheiro foram capazes de pressionar com sucesso o Congresso e a Casa Branca para que abrissem caminho aos excessos cometidos.
Essa simbiose de magnatas com o poder político é da natureza do regime capitalista. Por isso, os escândalos pipocam e a Justiça não é chamada a intervir, tampouco a polícia. Isso quebraria essa intrincada teia de relações, jogaria luz em trevas intocadas e romperia com o rito natural do poder econômico na dinâmica política desse regime. Donald Trump é um legítimo representante dessa simbiose.
Tomas Piketty, em seu livro O capital no século 21, publicado no Brasil em 2014, afirma que a concentração de riqueza provém, em grande parte, das desigualdades internacionais. Piketty associa à desigualdade também ao conceito de que a renda do capital tende a se concentrar nas mãos de uma pequena elite, enquanto a renda do trabalho é distribuída de forma mais ampla, o que gera grande disparidade de poder econômico. O 1% mais rico, cerca de 45 milhões de adultos sobre 4,5 bilhões, possuía, segundo ele, um patrimônio médio equivalente a cinquenta vezes o patrimônio médio.
Trata-se de uma derivação da formulação clássica de Karl Marx que, resumidamente, estabelece que a renda do trabalho se refere ao salário pago pela venda da força de trabalho, enquanto a renda do capital deriva da propriedade dos meios de produção ou, de forma mais acentuada na atualidade, do dinheiro investido para gerar mais dinheiro, sem passar pelo processo de produção de mercadorias, a hipertrofia financeira.
Em contraste com essa escalada de concentração de renda do capitalismo, a China socialista retirou em torno 850 milhões de pessoas da extrema pobreza nas últimas quatro décadas. Esse esforço do Partido Comunista da China resultou em mais de 75% de toda a redução da pobreza global no mesmo período.
O relatório da Oxfan intitulado Resistindo ao domínio dos ricos: defendendo a liberdade contra o poder dos bilionários, de janeiro de 2026, indica que a concentração extrema de riqueza está avançando em ritmo acelerado, colocando em risco direitos humanos, liberdades civis e fator de desgaste da democracia representativa. A riqueza coletiva dos bilionários cresceu US$ 2,5 trilhões em 2025, alcançando US$ 18,3 trilhões, o maior valor já registrado, um crescimento três vezes mais rápido do que a média dos últimos cinco anos. Desde 2020, a riqueza dos bilionários aumentou 81%, enquanto quase metade da população mundial vive na pobreza – uma em cada quatro pessoas não tem acesso regular a comida suficiente.
Segundo a Oxfam, entre 2000 e 2025, na América Latina e Caribe, o patrimônio de um bilionário cresceu, em média, US$ 491.198 por dia. Em contrapartida, o salário-mínimo médio de um trabalhador na região é de US$ 4.815 por ano. Se no início de 2024 esse trabalhador precisava trabalhar 90 anos para ganhar o que um bilionário ganha em um único dia, hoje ele precisaria de 102 anos, afirma o relatório. Ou seja: mesmo trabalhando desde o nascimento até a morte, ele precisaria de mais três décadas adicionais de trabalho acima da expectativa de vida média na região.
O Brasil é o país que concentra mais bilionários, que juntos acumulam a maior riqueza da região, seguido pelo México, Chile, Colômbia e Argentina. Em 2019, segundo a Oxfam, seis brasileiros tinham uma riqueza equivalente ao patrimônio dos cem milhões mais pobres do país. Os 5% mais ricos detinham a mesma fatia de renda dos demais 95%.
O binômio concentração de riquezas e desigualdades sociais é intrínseco ao capitalismo, fenômeno que se agravou com a égide da financeirização e os ditames do neoliberalismo. Incide, fortemente também, a elevada composição orgânica do capital por meio da avançada automação dos processos de trabalho, inclusive a Inteligência Artificial (IA), sob o comando do capital que privatiza e se apropria das diversas esferas da sociedade; e o domínio dos mercados por conglomerados. Na busca por maiores taxas de lucro, os capitalistas promovem uma desenfreada concorrência pela produtividade, intensificando a exploração da força de trabalho por diversos meios, entre eles, as plataformas digitais. Na atualidade, o predomínio dos monopólios tecnológicos, que controlam dados globais, os gigantes do mercado de ações e os grandes fundos de investimentos, fazem a concentração de riqueza atingir níveis sem precedentes.
Essa realidade, como assinala a Resolução Política do 16º Congresso do PCdoB, pressiona os povos e os trabalhadores a buscarem saídas. E, em linha crescente, passam a enxergar no socialismo a alternativa viável e necessária ao capitalismo em crise. O socialismo, destaca o documento dos comunistas, ergue-se como a alternativa superior ao capitalismo, sistema esgotado historicamente, promotor de guerras e conflitos, de opressão dos povos e dos trabalhadores e exploração predatória da natureza.
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Postura chinesa da cena mundial
A China não improvisa
“Subjugar o inimigo sem lutar é o acme da habilidade.” Sun Tzu, em A Arte da Guerra
Paulo Nogueira Batista Jr./Vermelho
Tomo a visita de 10 dias que fiz a Shanghai como ponto de partida para este artigo. Acabei de chegar e ainda luto com o fuso horário (a viagem de volta foi de 39 horas porta a porta). Assim, o artigo será talvez ainda mais incoerente do que de costume. Mas, enfim, vamos lá.
A China está em pleno processo de redefinição das suas relações com o resto do mundo, com o Ocidente em particular. Nas primeiras três ou quatro décadas do período de reforma e abertura econômica iniciado por Deng Xiaoping em 1979, a China buscava uma “ascensão pacífica” no interior do quadro internacional estabelecido sob a égide dos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial. E foi inicialmente muito bem-sucedida nesse propósito. Evitava sistematicamente confrontações com os Estados Unidos e outras nações, posicionando-se com prudência e paciência estratégicas. Deng adotava como lema uma máxima chinesa clássica – “esconda a força, espere a hora”.
Como representante do Brasil em reuniões dos BRICS, na fase de formação do grupo de 2008 em diante, posso dar o meu testemunho de que os delegados chineses, sem exceção, obedecendo a um comando superior, evitavam a todo custo qualquer linguagem ou iniciativa que fosse mais agressiva em relação ao Ocidente ou que pudesse ser interpretada como tal. A China se posicionava como uma potência reformista – cautelosamente reformista, tanto na retórica como nas propostas. Às vezes, passava-nos a impressão de que dava precedência a um entendimento estratégico com os Estados Unidos – à formação de um G-2, como se dizia na época – mesmo que isso sacrificasse a articulação entre os BRICS.
O G-2 nunca viria a se constituir. Os Estados Unidos preferiram partir para uma política de contenção e confrontação, começando no primeiro mandato de Donald Trump, de 2017 a 2020, continuando com Joe Biden, de 2021 a 2024, e se intensificando de modo dramático no segundo mandato de Trump desde o ano passado. Formou-se um sólido consenso bipartidário de que a China precisa ser freada. Os Estados Unidos passaram a ver o país como rival e principal ameaça, adotando de caso pensado uma série de medidas desenhadas para solapar a China nas áreas comercial, tecnológica, militar e diplomática,
Desde o primeiro governo Trump pelo menos, e provavelmente antes disso, a China reconheceu que a estratégia de “esconder a força e esperar a hora” não era mais viável. A China tornara-se grande demais, chegando a ultrapassar os Estados Unidos em termos econômicos (quando se comparam os PIBs medidos por paridade de poder de compra) e comerciais (a China virou o principal parceiro comercial para a maioria dos países do mundo). O rápido desenvolvimento despertou invejas e suspeitas. O país passou a ser alvo de intrigas, manobras diplomáticas e agressões.
Mas a China não abandonou a sua cautela estratégica. Continuou evitando conflitos sempre que possível. Prevalece o cuidado com as palavras e ações, mesmo quando o país está sob ataque ou enfrenta hostilidade sistemática. Em meio às turbulências, os chineses mantêm o seu estilo tradicional de lidar com desafios estratégicos que Henry Kissinger, em seu célebre livro Sobre a China, descreveu como uma combinação de análise minuciosa, preparação detalhada e atenção a fatores psicológicos e políticos.
Uma parte da preparação chinesa, que se revelaria decisiva em 2026, foi a formação de reservas estratégicas de petróleo. Graças a isso, a China sofre relativamente pouco com o choque de preços do petróleo desencadeado pela guerra do Irã. Continuam imensas também as reservas monetárias do país, hoje menos expostas a confiscos e sanções. Boa parte dessas reservas internacionais estão ocultas, tendo sido transferidas pelo Banco Central para bancos comerciais e outros bancos públicos. Esses bancos públicos também compram moeda estrangeira no mercado cambial, em coordenação com o Banco Central, para evitar apreciação indesejada da moeda nacional. Além disso, a China começou a construir sistemas de pagamentos transfronteiriços como alternativa aos sistemas controlados pelo Ocidente, que têm sido usado para punir e sancionar países considerados hostis. Cresceu também o uso do renminbi em transações internacionais da China. Quase 100% do comércio Rússia/China, por exemplo, se faz atualmente em rublos e renminbi.
Assim, como logo ficaria evidente, a China estava bem posicionada para enfrentar a tempestade desencadeada pelo governo Trump no seu segundo mandato. Trump veio com tudo, usando de maneira mais radical os instrumentos já usados contra a China no seu primeiro mandato. Encontrou, contudo, um adversário mais disposto a brigar e mais capaz de enfrentar embates internacionais. Sob Xi Jinping, a China aparece como um adversário que sabe se defender com grande eficácia e, mais do que isso, conhece as vulnerabilidades da superpotência e dos seus aliados e satélites. Não só conhece, como está disposta a explorá-las toda vez que sofre alguma investida dos Estados Unidos ou de outros países.
A ninguém escapa que a China vem levando a melhor nessa confrontação com os Estado Unidos. E isso não apenas pelas suas qualidades e pontos fortes, mas também por causa dos erros do adversário. Os EUA, superestimando a própria força, abriram ao mesmo tempo frentes de conflito com a Rússia, a China e o Irã. Promoveram assim o estreitamento da aliança entre os três países. E pior: estão perdendo nas três frentes. A guerra contra o Irã, em especial, parece ser um marco. Em retrospecto, como muitos têm notado, poderá ser vista como o prenúncio do fim do Império Americano.
A China não só segue estratégias consistentes, como também sabe manobrar taticamente. Joga parada, quando conveniente, aproveitando os erros dos adversários. Os chineses seguem a máxima atribuída a Napoleão Bonaparte: “Nunca interrompa um adversário quando ele estiver cometendo um erro.” Não existe, ao que parece, evidência confiável de que Napoleão realmente disse ou escreveu isso, mas esta máxima ocidental apócrifa é inteiramente consistente com o pensamento militar clássico chinês, tal como expresso notadamente por Sun Tzu em A Arte da Guerra, inclusive por exemplo na frase que aparece em epígrafe.
A China muda, evolui, se adapta aos desafios que vão aparecendo, mas preserva ao mesmo tempo as suas tradições filosóficas e a sua cultura milenar. Não descarta Confúcio, nem Mao Tsé-Tung. Não se apega irrefletidamente ao passado, mas também não abandona suas raízes.
A sua ascensão, não mais pacífica, mas crescentemente conflitiva, deve continuar sem interrupção.
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Como a China contornou o tarifaço https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/china-x-estados-unidos.html
Arte é vida
A Buenos Aires nordestina que admira e torce pela Argentina https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/surpreendente-emocionante.html
Futebol: disciplina tática
A ciência do acaso
Agora tenho o amparo da ciência
para minha convicção. Japão, que enfrentará o Brasil, muda bastante de posição,
com enorme disciplina tática
Tostão/Folha de S. Paulo
O Japão possui um ótimo conjunto, bons jogadores, pressiona bastante para recuperar a bola, alterna a troca curta de passes com as jogadas em velocidade, mas não tem a improvisação e o talento individual da seleção brasileira, especialmente de Vinicius Junior.
A
equipe japonesa se posiciona com um trio de zagueiros, dois alas que atacam e
defendem, dois meio-campistas hábeis e um trio de atacantes. Os jogadores mudam
bastante de posição, com enorme disciplina tática. Será um jogo difícil, porém
o Brasil tem mais chances de vencer.
Ancelotti
deve manter a escalação e a formação tática, com quatro defensores, um trio de
meio-campistas (Casemiro pelo centro, Bruno de um lado e Paquetá do outro), Rayan pela direita, atacando e voltando
para marcar, formando um quarteto no meio-campo na proteção aos defensores.
Matheus cunha centralizado, sem precisar voltar para marcar pela esquerda, atua
mais próximo de Vini livre, que se movimenta por todo o ataque. Contra a
Escócia, faltou mais compactação e mais intensidade para recuperar a bola.
O
gol no início da partida, após falha grave do zagueiro, pressionado por Rayan,
mudou todo o planejamento da Escócia. Eles, que provavelmente iriam marcar
muito atrás para contra-atacar, tiveram que avançar. Deixaram enormes espaços
na defesa e continuaram fracos no ataque.
Os detalhes
mudam a história dos jogos. Hélio Schwartsman, na sua coluna "Dribles do acaso", relatou que no livro "Os Números do
Jogo", publicado em 2013, os autores Chris Anderson e David Sally, depois
de um rigoroso trabalho estatístico e analítico, concluíram que o acaso explica
50% dos resultados. Hélio completou: "Meu palpite é que gostamos do futebol porque ele imita a vida".
Eu,
que sempre valorizei o acaso no futebol, sem diminuir a enorme importância da
estratégia, do planejamento e do talento individual, tenho agora o amparo da
ciência para minha convicção, embora ache que 50% de gols por causa do acaso é
um exagero.
Os
grandes craques estão brilhando na Copa. Craques não são apenas os atacantes
que fazem muitos gols. São craques também os excepcionais goleiros, como
Courtois, da Bélgica,
zagueiros como Van Dijk, da Holanda, laterais como Nuno Mendes, de Portugal, meio-campistas como Bruno Fernandes,
de Portugal, Pedri, da Espanha, e outros.
Vini
evoluiu. Está com uma técnica mais precisa, tenta menos jogadas impossíveis sem
diminuir a inventividade, a fantasia e o bailado em campo. Assim como Maradona,
Vini é um craque artista, diferentemente de Messi, que é muito mais craque que
artista.
Kane
é o craque discreto, coletivo, excepcional nas finalizações. Mbappé é o craque veloz, talentoso, com
muita força física. Cristiano
Ronaldo é o magistral finalizador, de todos os jeitos. Haaland
é o gigante veloz e artilheiro. Lamine Yamal é
o Vini pela direita, craque do presente e do futuro. Cada um tem seu jeito de
fazer.
Neste
domingo (28) começam os jogos eliminatórios, o mata-mata. O futebol simboliza a
vida e a morte. Quando ganha, é o êxtase. Quando perde, morre e renasce.
No
livro "A
Terra É Redonda" (editora Nós), de Milly Lacombe e Jamil Chade,
a jornalista escreveu: "O futebol em seu estado mais puro faz isso com a
gente: aponta para a vida e lida com a morte. Dá sentido à existência, eleva o
lugar de mais significado e ensina que tudo acaba. Morremos, renascemos,
tornamos a morrer. Começo, meio e recomeço. Não existe fim, o tempo não é
linear, depois de acabar volta a começar".
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