26 junho 2026

Conspiração midiática

O silêncio seletivo da grande mídia e a blindagem de Flávio Bolsonaro na engrenagem da “Lava Jato 2.0”
Imprensa fragmenta denúncias contra Flávio Bolsonaro e Vorcaro, expondo o duplo padrão e a seletividade da Lava Jato 2.0
Ana Gabriela Sales/Jornal GGN   

A cobertura política e econômica dos principais veículos de comunicação do país expõe um silêncio seletivo diante de um dos maiores tremores do sistema financeiro recente. A divulgação de mensagens, áudios e negociações milionárias envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, reacendeu uma discussão que ultrapassa os limites das investigações fiscais e alcança o papel da imprensa na disputa presidencial de 2026.

No centro do debate está a tese da chamada “Lava Jato 2.0”, exaustivamente defendida pelo jornalista Luís Nassif. O conceito descreve a atuação seletiva de instituições e da velha mídia diante de personagens estratégicos da extrema-direita, blindando-os do desgaste sistemático aplicado a lideranças de esquerda.

De acordo com a análise do GGN, as graves denúncias envolvendo Flávio Bolsonaro até receberam divulgação pontual, mas foram deliberadamente barradas de se transformarem em uma pauta permanente de pressão política e editorial. Para os defensores da tese do “jornalismo de esgoto“, a cobertura dos grandes veículos domesticou o escândalo, tratando-o apenas como uma variável eleitoral ou institucional, sem atribuir às revelações o peso devastador conferido a episódios de corrupção do passado. 

O estopim: Os R$ 134 milhões do “Dark Horse”

O caso ganhou tração nacional após o The Intercept Brasil divulgar mensagens que revelaram negociações diretas entre Flávio e Vorcaro para o financiamento de “Dark Horse, um filme laudatório sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. As conversas envolviam valores estimados em R$ 134 milhões. Embora o senador tenha confirmado a busca pelo apoio financeiro, negando irregularidades, o episódio migrou rapidamente das manchetes principais para o rodapé do noticiário cotidiano.

Abaixo, o GGN mapeia como o consórcio da grande mídia operou o enquadramento do escândalo:

Folha de S.Paulo enfatizou os efeitos políticos da crise

A Folha de S.Paulo foi um dos veículos que mais geraram conteúdo factual sobre os desdobramentos, mas sob a ótica da sobrevivência política do clã. Em reportagem de 17 de maio, sob o título “Crises em série com Master interrompem maré positiva de Flávio e testam campanha bolsonarista”, o jornal analisou os impactos eleitorais sobre a candidatura do senador. 

Anteriormente, o jornal chegou a retomar o caso das rachadinhas na matéria “Caso da rachadinha de Flávio Bolsonaro foi encerrado com perguntas não respondidas, apontando que o uso de dinheiro em espécie na compra de imóveis continuava sem explicação.

Contudo, o enfoque permaneceu estritamente político-eleitoral, sem a mobilização investigativa ou o clamor moralista de outrora.

O Globo concentrou atenção nos aspectos institucionais

No caso de O Globo, a cobertura recente sobre Flávio limitou-se ao registro frio de fatos confirmados por órgãos oficiais. Historicamente, o grupo realizou reportagens de fôlego sobre as rachadinhas — incluindo denúncias no Jornal Nacional que mostraram o senador acionando a Receita Federal para abafar investigações.

Diante do escândalo do Banco Master, porém, a intensidade da cobertura despencou, evitando associar diretamente o parlamentar ao colapso financeiro.

Estadão blindou o caso como mera “variável eleitoral”

O Estadão preferiu diluir o peso das denúncias na corrida presidencial de 2026. O jornal focou em pesquisas de intenção de voto, reações de adversários e nos impactos do Banco Master sobre o mercado financeiro. Para os analistas da mídia independente, essa escolha editorial cumpre a função de desidratar a gravidade do crime, transformando suspeitas de corrupção em mero debate de tática partidária.

CNN e UOL: Ampla repercussão sob o viés da polarização

A CNN Brasil e o UOL deram espaço às revelações do Intercept sobre os R$ 134 milhões negociados com Vorcaro. No entanto, o enquadramento frequentemente reduziu o escândalo à tradicional fricção entre governo e oposição. A centralidade que o caso merecia no debate econômico e moral do país foi asfixiada pelo mote da disputa de narrativas. 

Metrópoles foi agressivo nos bastidores, mas sem criar clamor público

O portal Metrópoles destacou-se pela publicação de bastidores e documentos exclusivos da relação de Vorcaro com lideranças de Brasília. Embora tenha pautado concorrentes, a cobertura não produziu o ambiente de indignação permanente que caracterizou a Lava Jato original ou que se repete quando o alvo pertence à esquerda — a exemplo do massacre midiático recente envolvendo suspeitas no INSS, onde o nome de “Lulinha” foi exaustivamente explorado.

O duplo padrão da “Lava Jato 2.0”

Como aponta Luís Nassif, a engrenagem da “Lava Jato 2.0” não se baseia na censura completa dos fatos, mas sim na sua fragmentação. Ao dar menor permanência às manchetes contra a família Bolsonaro, a imprensa tradicional dita o que deve ou não indignar a opinião pública.

O duplo padrão fica evidente quando se compara o tratamento dado a Flávio com o recebido pelo senador Jaques Wagner (PT-BA), também mencionado na Operação Compliance Zero. No caso do petista, a cobertura gerou manchetes garrafais, atualizações em tempo real e forte repercussão moralista nos portais.
Em ano de definição política, a grande imprensa deixa claro que sua prioridade não é a higidez do sistema financeiro, mas a calibração das narrativas que moldam a corrida rumo ao Palácio do Planalto.

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

O Partido Digital Bolsonarista: síntese analítica, por Luís Nassif https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/por-fora-das-instituicoes.html 

Sylvio: entreguismo

Em resposta ao senador Flávio Bolsonaro, o secretário americano Marco Rubio reforça a postura de aplicar as absurdas tarifas de Trump contra o Brasil. Essa troca de ideias evidencia a participação e comprometimento cada vez maior da família do ex-presidente em ações contra nossos interesses.

Sylvio Belém 
[Imagem produzida por IA]

Diplomacia altiva e propositiva https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/lula-no-g7.html 

Boa notícia

Melhora socioeconômica reduz população nas classes D e E
Baixo desemprego e programas sociais fizeram com que as classes D e E encolhessem a menos de 20%, o menor nível da série histórica da consultoria 4Intelligence
Murilo da Silva/Vermelho    

Levantamento da consultoria 4Intelligence mostra que as classes D e E diminuíram no Brasil com a melhora no cenário econômico-social nos últimos anos.

O estudo revela que as classes D e E chegaram ao menor nível em 2025 e agora correspondem a 19,4% da população brasileira. Isso equivale a cerca de 41 milhões de pessoas que vivem em domicílios com renda de até R$ 760 por pessoa.

A série histórica do estudo analisa dados desde 2012, quando as classes D e E, as mais humildes da sociedade, representavam 31,6%. Essas classes chegaram a ser 34% da sociedade durante a pandemia de covid-19, em 2021.

A diminuição das classes D e E reflete a ascensão social propiciada desde 2023 pelo governo Lula.

Ao Valor, o economista Bruno Imaizumi, líder do estudo, indica que o resultado é motivado pela melhora do mercado de trabalho e programas de transferência de renda. Nesse sentido, destacam-se os menores índices de desemprego da história e o aperfeiçoamento do Bolsa Família, chegando a quem mais precisa.

No entanto, o pesquisador pondera que as famílias que ascenderam ainda dependem de que este bom cenário permaneça para se manterem nas classes acima, pois as reservas que fizeram ainda não são suficientes. Isso demonstra que, apesar do quadro favorável, as vulnerabilidades financeiras ainda demandam atenção.

A classe A, por sua vez, passou de 2,7% em 2012 para 3,8% em 2025 (mais de 8 milhões de pessoas). Ela representa brasileiros que vivem em domicílios com renda pessoal acima de R$ 7.989.

Já as classes B1 (13,9 milhões de pessoas) e B2 (30,2 milhões) correspondem a 20,8% da população, sendo que a primeira tem renda per capita até R$ 7.989 e a segunda até R$ 5.123.

Com a mobilidade das classes D e E, a classe C cresceu e alcança 56% dos brasileiros, somando as classes C1, com rendimento até R$ 2.825 (43,8 milhões de pessoas), e C2, com rendimento até R$ 1.852 (75,3 milhões de pessoas).

Apesar da diminuição das pessoas nas classes mais baixas (D e E), a diferença de renda média ainda chama a atenção para o nível de desigualdade que ainda persiste. Conforme a consultoria, o rendimento domiciliar per capita médio das classes D e E ficou apenas em R$ 453. No entanto, a classe A tem uma renda média por pessoa de R$ 14.214, quase 31 vezes maior em relação aos mais pobres. (*Com informações Valor)

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Duas faces da cena pré-eleitoral https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_01490491014.html

25 junho 2026

Palavra de poeta

a parede e a flor 
Cida Pedrosa    

o paredão de pedra 
divide são paulo e eu 
 
as nuvens passam beirando as balas 
e as meninas dos sinais 
 
as barbas do edifício estão de molho 
neste frio mariano
 
são paulo é uma cidade do alto 
mas aqui também tem girassóis 
 
mesmo que o frio arda
mesmo que a noite adentre a boca 
mesmo que a boca adentre a terra 
 
são paulo é uma cidade do alto 
mas aqui também tem girassóis 
mesmo que girem pra brindar a morte
 
[Ilustração: Yara Tupynambá]

 
Leia também: 'A demora', poema de Mia Couto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/palavra-de-poeta_9.html 

Futebol argentário

Como o capitalismo sequestrou a Copa e o sonho de uma criança
O que vi nesses últimos 25 anos faz com que me sinta profundamente traído pelas instituições do futebol
Jamil Chade/Liberta   

O que acontece dentro do prédio da Fifa, em Zurique, sempre me surpreende. Primeiro, por sua arquitetura. O palácio de vidro de mais de US$ 250 milhões tem alguns andares acima da terra. Mais outros cinco no subterrâneo. Em algumas das salas, aparelhos foram colocados para bloquear os sinais de celular. Por qual motivo o destino do jogo é desenhado tão longe da transparência do escrutínio público?

Mas não é só a estrutura de 37 mil metros quadrados que me impressiona. Numa de minhas visitas ao local, certa vez, uma cena surreal desbancou todas as fronteiras da civilização. Cansados de serem multados pela Fifa por cantos homofóbicos de seus torcedores durante partidas das Eliminatórias para a Copa do Mundo, os cartolas da Conmebol pediram um encontro com o comitê de disciplina da entidade máxima do esporte.

Antes de a reunião começar, no saguão da Fifa, questionei um dos dirigentes – um uruguaio – sobre qual seria a agenda do encontro. A resposta era difícil de acreditar. Segundo ele, a Conmebol iria pleitear que a Fifa suspendesse a aplicação de multas. Sua postura era a de que aqueles cantos homofóbicos não deveriam ser interpretados como ofensas. “Eram apenas uma expressão cultural”, me disse. 

Talvez por minha expressão de surpresa ou por meu absoluto silêncio, o cartola tentou se explicar. Segundo ele, torcedores que usam de linguagem homofóbica não são… homofóbicos. Era cultura.

A Fifa não cedeu e as multas continuaram a ser cobradas, ainda que os valores fossem pífios. Mas, no fundo, a absurda pressão por parte dos dirigentes sul-americanos deu resultado. A entidade nunca aumentou a pena, nem transformou suas leis para punir exemplarmente uma ação de uma torcida, jogador ou clube que opte por fazer do futebol um espaço de ataque à dignidade de um outro ser humano.

Assim como na luta contra o racismo, o combate à homofobia e tantas outras discriminações no futebol jamais foi prioridade. Nem quando o mundo inteiro clama por justiça, o amor em sua forma de política pública.

Mergulhando nos estatutos da Fifa e nas centenas de páginas de contratos comerciais de empresas do futebol, descobri que, se houver num estádio de uma Copa do Mundo uma violação comercial, a multa que será aplicada será muito superior a qualquer penalidade que um clube, federação, jogador ou torcedor sofrerá no caso de um ataque à humanidade de uma pessoa.

Se for identificada na arquibancada uma ação de marketing que ameace os donos dos direitos sobre aquele jogo, a punição será mais draconiana do que qualquer ato de racismo ou de homofobia. Vi isso ocorrer na Copa de 2010, quando supostos torcedores da Holanda foram às arquibancadas com fantasias que sugeriam um marketing de emboscada de uma cervejaria que fazia concorrência à patrocinadora oficial.

Descrédito ao esporte

Em 2007, a Fifa encerrou uma disputa comercial pelo patrocínio das Copas do Mundo, desembolsando US$ 90 milhões para arcar com danos sofridos pela MasterCard. Quase 20 anos depois, a mesma entidade decidiu multar as autoridades de futebol de Israel por apenas US$ 190 mil por não agirem contra o racismo e ataques de seus clubes contra palestinos.

O próprio comitê disciplinar da Fifa admitiu a existência de uma profunda violação por parte de clubes israelenses, em especial o Beitar Jerusalem, por comportamento racista e discriminatório. “Os torcedores têm se envolvido em comportamento racista persistente e bem documentado”, afirmou o relatório sobre os torcedores do Beitar.

“O uso de slogans como ‘puro para sempre’ e os repetidos cânticos de insultos étnicos, como ‘terrorista’, direcionados a jogadores árabes, não são incidentes isolados, mas sim parte de um padrão sistêmico de conduta que ofende as regras básicas de comportamento decente e traz descrédito ao esporte”, constatou. Apesar disso, a punição não passou de um tapa na mão dos autores das violações.

Num futebol transformado em uma multinacional capitalista, o maior pecado não é atacar os direitos humanos, nem exigir democracia. O crime hediondo é quando os interesses econômicos são prejudicados. Isso, sim, é intolerável.

A transformação do futebol num dos grandes negócios do planeta é um fato e todos os números revelam isso. Entre 2019 e 2022, a receita da Fifa bateu todos os recordes, com um total de US$ 7,6 bilhões. Para o ciclo entre 2022 e 2026, a projeção é de um aumento exponencial e uma receita de US$ 13 bilhões. O que mais surpreende é que, há 20 anos, a receita da entidade era de “apenas” US$ 3,2 bilhões.

Isso, porém, é só parte da história. A grande transformação foi a explosão de dinheiro nos clubes europeus, abalando o eixo do poder no esporte. Hoje, os 20 maiores clubes do mundo geram, por ano, US$ 12 bilhões, quase uma Copa do Mundo. Se eles fossem uma economia nacional, superariam o PIB de países inteiros como Libéria, Sudão do Sul, República Centro Africana, Cabo Verde e tantos outros.

Recentemente, o Real Madrid entrou para a história como o primeiro clube a gerar mais de US$ 1 bilhão em receita por ano.

De acordo com um levantamento do Parlamento Europeu, em 2018, a participação do esporte no Produto Interno Bruto (PIB) da UE é de 2,12%, o que corresponde a €$ 279,7 bilhões. Além disso, o esporte emprega quase 3% dos trabalhadores da UE, o equivalente a 5,6 milhões de pessoas, diretamente e indiretamente.

Esse dinheiro, sem dúvida, mudou o futebol. Cada vez mais ricos, esses clubes passaram a exigir um lugar na mesa de definição do esporte, de seu calendário e de suas regras.

Num primeiro momento, esses clubes exigiram que a Fifa reconhecesse seu poder, chantageando com a recusa em liberar um jogador para sua seleção ou, simplesmente, promovendo um boicote contra eventos da entidade.

Naquele momento, há cerca de 20 anos, o então presidente da Fifa, Joseph Blatter, negociou um acordo para remunerar os clubes pelos ganhos que a entidade teria com uma Copa. Primeiro, ele passou a dar um seguro caso um atleta do Barcelona, por exemplo, fosse contundido em um jogo pela Seleção brasileira. Mas os clubes queriam mais.

Anos depois, ele instaurou o pagamento de um verdadeiro aluguel aos times por liberar os jogadores ao Mundial. Quanto mais aquele jogador entrasse em campo numa Copa, mais o clube dele seria recompensado financeiramente.

Para 2026, a Fifa reservou US$ 355 milhões para recompensar times por “emprestar” seus craques para o Mundial. A questão é que esse dinheiro vai alimentar justamente aqueles clubes mais ricos do planeta, e que já são donos dos melhores jogadores. Na Copa de 2022, a Fifa destinou US$ 150 milhões para os clubes europeus por liberarem seus jogadores ao torneio. Quase cem vezes mais do que os clubes brasileiros receberam. E, ainda assim, quase tudo para Flamengo e Palmeiras.

Poder do dinheiro

A realidade é que, junto com essa explosão financeira, o que também vimos foi a concentração inédita de recursos nas mãos de poucos atores do futebol. Os clubes mais ricos são os que mais acumulam receitas dos torneios. Como consequência, são os mais competitivos e, portanto, ficam ainda mais ricos. O dinheiro, de fato, mata o amor e a competição.

Vimos a distância entre os clubes europeus e do restante do mundo se aprofundar como jamais na história do esporte. Nos últimos 20 anos, o Mundial de Clubes foi vencido apenas por dois clubes de fora da Europa, ambos brasileiros.

Segundo um levantamento da Fifpro, a disparidade social é uma realidade. Quarenta e cinco por cento dos jogadores pelo mundo ganham menos de mil dólares por mês. Apenas 2% ganham mais de US$ 720 mil por ano.

A igualdade de gênero é ainda um sonho distante. Aitana Bonmati é hoje a jogadora profissional mais bem paga da história do futebol feminino, com renda anual de €$ 1 milhão. Já Cristiano Ronaldo somou no ano passado mais de €$ 202 milhões.

O que chama atenção ainda é a crescente disparidade até mesmo dentro da Europa. Hoje, no Velho Continente, 70% dos títulos nos últimos cinco anos foram vencidos pelos clubes com mais dinheiro naquela competição. Troféus são, no fundo, disputados por alguns poucos, enquanto a maioria não passa de coadjuvante para torcidas que jamais verão seus clubes campeões.

Hoje, equipes de Bucareste, Belgrado, Porto ou da Holanda deixaram de sonhar com conquistas continentais. O que no futebol a Cortina de Ferro não impediu, durante o auge da Guerra Fria, o capitalismo garantiu neste século 21: a vitória do dinheiro.

Uma prova do poder do dinheiro foi a decisão que determinou como seria realizada a Copa do Mundo de 2026. Lembro-me muito bem da reunião da Fifa que colocou, pela primeira vez, o tema na agenda. Foi em outubro de 2016 e eu estava lá.

Antes do encontro, cada um dos cartolas encontrou, em seu quarto de hotel, um dossiê com todos os detalhes da proposta de elevar o número de seleções de 32 para 48. Num dos trechos, o documento dizia que, caso optassem pela expansão sem precedentes, o nível da competição iria sofrer. Mas, em outra página, um argumento acabaria prevalecendo: com 16 times extras, a receita da Copa – e de cada um daqueles homens que votaria – seria elevada em US$ 1 bilhão.

Entre a grana e a qualidade do torneio, optaram pelos lucros.

Naquele dia, eu comprovei como o futebol havia sido usado como um veículo para o enriquecimento de alguns poucos, às custas do próprio esporte e, claro, da experiência do torcedor.

O que eu vi ao longo desses últimos 25 anos na Fifa foi um sequestro de nossas emoções. Eu, que passei minha infância entre o Morumbi e o Pacaembu, me senti profundamente traído pelas instituições do futebol.

Passei a escrever, em parte, para alertar o garoto que frequentava os estádios nos anos 1980 e 1990 que não renunciasse ao futebol. Que não deixasse de torcer.

Mas que o fizesse de forma consciente. Sabendo por qual motivo aquele jogo estava ocorrendo naquele horário, quem pagava e quem vencia, principalmente fora de campo. Foi essa indignação que me levou a denunciar a estrutura de poder. Não por odiar o futebol. Justamente por amá-lo. 

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Como o povo brasileiro transformou o futebol em símbolo nacional https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/nosso-futebol-ja-foi-o-melhor.html 

Fotografia

 

Luciano Siqueira 

Minha opinião

Mercado das ilusões
Luciano Siqueira      

A Copa do Mundo de futebol é uma imensa holding que promove o lucro pela exploração do sentimento.

É verdade que o futebol nunca foi apenas o jogo. Abola rolando no gramado é o pretexto. A mercadoria é a transitória emoção. Mesmo quando apenas retratada em sofisticadas imagens na TV e mídias digitais.

Ao alcançar dimensão global, o grande negócio do futebol concorre com o petróleo e a tecnologia do silício, por assim dizer.

A FIFA e os seus parceiros comerciais exploram a catarse estimulada nos canais de televisão e nos aplicativos de apostas, que associam habilmente engenhosas jogadas, como o passe de calcanhar do meia-atacante ou a defesa espetacular do goleiro desviando a bola na forquilha.  

Comercializa-se tudo, nos mínimos detalhes: o plano de streaming, a camisa oficial de preço inflacionado, a cerveja mais enaltecida pela propaganda e não-sei-o-que mais que nos ofusca na tela da TV.

Explora-se o desejo inconsciente de pertencimento, a fantasia do instante.

A consciência patriótica momentaneamente perde seus liames com o território, a cultura, a luta por direitos e a preservação da soberania. Transforma-se na bandeira nacional adicionada a rótulos vários.

O cotidiano duro, monótono, carregado de boletos e de pequenas frustrações se transmuta por quase quarenta dias numa mágica empreitada em que a vitória (qual?) se faz possível.

O torcedor não é apenas um espectador; ele se vê como figurante que paga para atuar no espetáculo da própria ilusão.

Apesar de tudo, quando o gol acontece o abraço entre desconhecidos e a celebração entre amigos se converte em instante de efusiva felicidade, ainda que efêmera.

Dizia Nelson Rodrigues que cada lance, cada drible rumo à rede carregava a aura de uma guerra épica e o drama da vida e da morte. O autor do gol assume a aura de um herói ou algoz impiedoso que promove a "destruição minuciosa" da defesa adversária, deixando-a totalmente indefesa. A personificação do torcedor por um instante livre de todas as limitações e mazelas.

A se concluir, a Copa terá ensejado novos negócios em diversas dimensões, à revelia dos seus verdadeiros atores – os atletas e o apaixonado público reunido nos estádios e diante das telas nos cinco continentes.

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

"Ai de ti, futebol brasileiro" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/qual-futebol.html