08 janeiro 2026

Devastação criminosa

O Congresso pós-COP: o Brasil que promete e o Brasil que devasta
Celso Pinto de Melo*/Blog de Celso P. de Melo 

A derrubada, pelo Congresso Nacional, dos vetos presidenciais à Lei Geral do Licenciamento Ambiental tornou-se um dos contrastes políticos mais estridentes de nossa história recente. Belém prometera um país; Brasília entregou outro. Menos de uma semana após o Brasil encerrar, em Belém, uma COP30 marcada por elogios ao protagonismo climático do país, Brasília assistiu ao ressurgimento do chamado “PL da devastação”, descrito por redes de pesquisadores e organizações socioambientais como o maior retrocesso ambiental desde os anos 1980 1. O país que discursava na Amazônia não era – e nunca foi – o mesmo que legislava no Planalto Central.

A reintrodução de dispositivos que, a uma só vez, flexibilizam licenças, reduzem proteções para biomas sensíveis e excluem terras indígenas não homologadas e territórios quilombolas sem titulação do processo de licenciamento agrava não apenas o risco ambiental. Agrava, sobretudo, a insegurança regulatória – e o faz com uma contundência que dispensa explicações adicionais. Há, nisso, um eco histórico inquietante. Ao recriar brechas e dispensas, o Congresso redesenha um ambiente que remete nitidamente às décadas de 1970 e 1980 – quando se avançava primeiro para “produzir”, relegando o impacto a um futuro sempre adiado.

Na Conferência de Estocolmo de 1972, primeira cúpula global do meio ambiente, a delegação brasileira sustentou que restrições ambientais impostas no plano internacional poderiam limitar o desenvolvimento econômico de países pobres, defendendo que “as prioridades nacionais de crescimento” deveriam prevalecer sobre acordos ambientais multilaterais 2. Era a doutrina segundo a qual o país tinha o direito de “contaminar para depois limpar”, expressão célebre do período. Meio século depois, a lógica renasce reciclada: o mesmo impulso de sacrificar o futuro em nome de um progresso imediato que já não encontra lugar em mercados que punem severamente quem insiste nesse anacronismo.

O agronegócio aponta a arma para o próprio pé – e aperta o gatilho. Quando até os principais compradores globais adotam padrões ambientais rígidos, a contradição se torna inescapável. As cadeias globais de commodities funcionam com base em exigências estritas de rastreabilidade, comprovação de desmatamento zero e regularidade fundiária. A Regulamentação Europeia de Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) 3, que condiciona a entrada de soja, carne, café e madeira à prova verificável de ausência de desmate após 2020, não depende de interpretações elásticas da legislação doméstica. Ao contrário: os importadores analisam desmatamento real, e não “legalidades locais” fabricadas ao sabor do interesse político.

E o risco não se limita à União Europeia. A China – destino de cerca de 72% das exportações brasileiras de soja, 59% da carne bovina e responsável por mais de US$ 50 bilhões anuais em compras do agronegócio – já opera sob padrões ambientais mais exigentes do que sugere a retórica da bancada ruralista. Empresas estatais como a COFCO International, maior compradora de grãos brasileiros no mercado chinês, assumiram o compromisso formal de eliminar o desmatamento de suas cadeias globais até 2030 4, exigindo de tradings e produtores rastreabilidade completa da origem da produção e conformidade fundiária. Além disso, a “Green Supply Chain Initiative”, promovida pelo Ministério da Ecologia e Meio Ambiente da China, estabelece diretrizes que pressionam importadores a privilegiar fornecedores com comprovação ambiental e regularidade territorial, em consonância com as metas chinesas de pico de emissões até 2030 e neutralidade de carbono até 2060 5. Quando até o nosso maior parceiro comercial exige sustentabilidade, o problema deixa de ser ideológico: torna-se econômico. Nesse cenário, a derrubada dos vetos nos empurra exatamente na direção contrária àquela exigida pelos dois maiores compradores do agronegócio brasileiro: a União Europeia e a própria China. Ignorar essa transformação estrutural não ameaça apenas Bruxelas – ameaça sobretudo o nosso principal parceiro comercial. A nova lei, ao ampliar zonas cinzentas e fragilizar a fiscalização, não abre mercados: fecha-os.

E o estrago atinge também – e especialmente – quem vinha fazendo a lição de casa. Produtores e tradings que investiram em rastreabilidade e certificações visando capturar prêmios de preço e prioridade de compra voltam a ser nivelados por baixo. A insegurança regulatória, resultado direto do retrocesso legislativo, corrói o esforço dos setores mais avançados do agro e reforça a percepção de que o Brasil é incapaz de oferecer estabilidade mínima em matéria ambiental. Em um mercado global onde contratos são julgados por métricas objetivas, a insegurança jurídica se converte rapidamente em perda de competitividade. Não surpreende que estudos independentes apontem para o risco de exclusão de cadeias brasileiras inteiras do mercado internacional, caso o desmatamento – legal ou ilegal – não seja controlado.

O impacto climático, porém, é ainda mais profundo que o comercial. Pesquisas recentes mostram que o desmatamento amazônico tem atrasado a estação de chuvas, alterado as precipitações e reduzido a produtividade de cultivos essenciais como soja e milho em regiões inteiras do Centro-Oeste e do Matopiba 6. A floresta, longe de ser obstáculo ao agronegócio, é parte de sua infraestrutura climática. Destruir essa infraestrutura não é apenas crime ambiental: é comprometer a própria base física da produção agrícola – o que deveria alarmar até os defensores mais radicais da “desburocratização”.

E o sistema financeiro – muito mais atento que o Congresso a riscos de longo prazo – já incorporou essa realidade. Bancos e seguradoras, guiados por normas reforçadas desde 2024, intensificaram a exigência de comprovação socioambiental para crédito rural e apólices. Não se trata de “ambientalismo ideológico”, mas de cálculo econômico: desastres ambientais aumentam inadimplência e ampliam risco sistêmico. A derrubada dos vetos, ao contrário do que anunciam seus defensores no Congresso – sobretudo a Frente Parlamentar da Agropecuária, que insiste em apresentar o retrocesso como “desburocratização” – desorganiza o ambiente regulatório, aumenta o custo do crédito, dificulta a contratação de seguros e, ironicamente, estrangula os produtores que operam dentro da lei, enquanto favorece aventureiros e grileiros 7, 8.

Essa contradição torna-se ainda mais aguda quando lembramos que o Brasil saiu da COP30 com capital político e diplomático acumulado. O país parecia, enfim, pronto para assumir o papel de liderança responsável que o mundo esperava. A criação de fundos internacionais para conservação, as negociações para apoiar os países tropicais e o reconhecimento externo de que o país poderia liderar uma transição ecológica justa compunham uma narrativa promissora. Tudo isso se fragiliza quando o Congresso demonstra que as regras ambientais brasileiras podem ser reescritas ao sabor da madrugada, da bancada e da barganha.

Há ainda a engrenagem subterrânea do processo: interesses que orbitam a bancada ruralista, mas que não se confundem com o agronegócio produtivo. A facilitação do licenciamento interessa a mineradoras em áreas sensíveis, operadores de infraestrutura com histórico de impacto severo, especuladores fundiários e redes de grilagem que lucram com “esquentamento” de terras públicas – especialmente as indígenas não homologadas e os quilombos não titulados 9. É nessa zona de sombra – onde política, economia ilegal e desmonte regulatório se tocam – que o retrocesso legislativo revela seu rosto mais perigoso. Nesse submundo se produz aquilo que mais assusta o capital internacional: opacidade, violência, irregularidade territorial e instabilidade regulatória.

Nada disso é irreversível. A sociedade civil prepara ações no Supremo Tribunal Federal; governos estaduais podem adotar normas mais rígidas; mercados internacionais podem impor suas próprias salvaguardas. Mas cada resposta implica custos, atrasos e perda de credibilidade. O Brasil desperdiça, mais uma vez, a chance de se posicionar como potência ambiental do século XXI, com vantagens incomparáveis em biodiversidade, matriz energética e agricultura de baixo carbono.

Ao reconstruir o “PL da devastação”, o Congresso abdica de qualquer horizonte de longo prazo para atender a ganhos imediatos, repetindo a velha pulsão brasileira de sacrificar o futuro em nome do presente. Berry, ao recordar nossa condição transitória de meros custodiantes do planeta que deixaremos de herança, aponta a dimensão ética que falta à política ambiental do país. Ignorar esse chamado nunca saiu barato – e não será agora que sairá. O Parlamento, ao que tudo indica, preferiu ignorar esse chamado – e o Brasil, mais uma vez, paga o preço de fechar os olhos ao óbvio.

[*]   Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Pernambucana de Ciências e da Academia Brasileira de Ciências.

Referências

(1) Observatório do Congresso. Congresso recria PL da devastação e mata licenciamento ambiental no Brasil. 2025. https://www.oc.eco.br/.

(2) A delegação brasileira nessa Primeira Conferência Ambiental da ONU foi presidida pelo General Costa Cavalcanti, Ministro do Interior do Governo Garrastazu Médici. BRASIL. Brasil. Ministério das Relações, E.; Brasil. Ministério do, I. Relatório da Delegação do Brasil à Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano – Estocolmo 1972; CETESB, São Paulo, 1973. https://cetesb.sp.gov.br/proclima/wp-content/uploads/sites/36/2013/12/estocolmo_72_Volume_I.pdf.

(3) European, C. Regulation on deforestation-free products (EUDR). Brussels, 2023.

(4) International, C. COFCO International signs commitment to eliminate deforestation from its supply chains. 2022. https://www.cofcointernational.com/newsroom/cofco-international-publishes-its-2022-sustainability-report/.

(5) China. Ministry of, E.; Environment. Working Guidance for Green and Low-Carbon Transition of Foreign Trade Supply Chains. Beijing, 2021.

(6) Leite Filho, A. T.; et al. Agricultural economic losses due to Amazon deforestation and how forest restoration can reverse the impact; ARA Project, 2024. https://csr.ufmg.br/ara_project/.

(7) Federação Brasileira de, B. Gestão do risco de desmatamento e oportunidades; São Paulo, 2024. https://cmsarquivos.febraban.org.br/Arquivos/documentos/PDF/Gest%C3%A3oRiscoDesmat_2025-SUMARIO_vf.pdf.

(8) Notícias do Seguro. A participação do setor de seguros na COP30. 2025. https://noticiasdoseguro.org.br/noticias/a-participacao-do-setor-de-seguros-na-cop-30-protagonismo-desafios-e-estrategias-para-a-agenda-climatica-global.

(9) Fundação Nacional dos Povos Indígenas. Licenciamento ambiental: derrubada dos vetos ameaça 297 territórios. 2025. https://www.gov.br/funai/pt-br/assuntos/noticias/2025/licenciamento-ambiental-derrubada-dos-vetos-ameaca-297-territorios-e-aumenta-vulnerabilidade-das-comunidades-indigenas.

Leia também: Vulnerabilidade estrutural https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/pauta-de-exportacoes-em-xeque.html

Uma crônica de Abraham Sicsu

Leituras de férias
Abraham B. Sicsu  

Aposentado tira férias. Quinze dias, logo depois do Natal. Faz alguns anos vamos para Tamandaré em Pernambuco. Toda a família. Filhos, netos e queridos que a vida agregou ao grupo familiar.

A rotina muda. Acorda-se para ver o alvorecer, boas caminhadas, banhos de mar, pelo menos dois ao dia, bebidinhas e tira gostos para papos demorados, a barraca do Gil é um sucesso, almoço com todos presentes, excursões à cidade de noite, para conhecer as novidades e comilanças.

Televisão é proibida. O fundamental é a rede, o sofá e as leituras. Meu filho e companheira trazem, sempre, muitos livros para nos deliciarmos. Colocar em dia a literatura que fica para trás com o dia a dia corrido.

Este ano li quatro, alguns fora da minha área habitual de concentração. Muito me disseram.

Antropologia da Compaixão de Mônica Pedrosa Rangel. Um trabalho bem escrito sobre a importância de entender o sentido da vida em conjunto. Em um mundo em que estar próximo e entender os outros se fazem necessários.

Um livro que recebemos da autora, com mais de trezentas páginas, uma tese sobre como se desenvolve e técnicas que são utilizadas para fortalecer a compassividade. 

Evidentemente, não é a minha praia. Principalmente a parte das experiências práticas desenvolvidas pela autora. Mas, gostei muito da contextualização, dos capítulos iniciais, da visão teórica.

Desconhecia os textos de Marx sobre alienação, principalmente os dos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844. Alienações do trabalhador que vão desde a sua separação daquilo que produz e não tem acesso, até a sua alienação nas relações sociais. Também, para um não iniciado na área como eu, entender as razões do suicídio descritas por Émile Durkheim, atreladas ao perfil da sociedade em que se dão a formação e consolidação das esperanças de vida, pareceu-me uma novidade interessante.

Tinha recebido no amigo secreto da família. Queria ler. Brasil no Espelho de Felipe Nunes. Uma leitura não de um cientista social, como crítica bem estruturada de um artigo que li na revista Será?, mas como curioso pelas características do país em que vivemos.

O volume de informações impressiona. A maioria ratificando aquilo que já sabemos, muito bom ter dados para confirmar. Os capítulos finais, do oitavo ao décimo, trazem as observações e conclusões do autor, mais palatáveis para o público em geral.

Dois aspectos me chamam a atenção e ressalto. Um que fica muito claro, qualquer generalização que se faça sobre a sociedade brasileira se incorre em erro. Somos muito díspares, social e regionalmente. Temos perfis de formação e de identificação muito diferentes.

Com isso, análises superficiais que geralmente são feitas e generalizam as conclusões que são tiradas, pouco dizem sobre a realidade concreta que iremos enfrentar. Isso fica mais claro quando se está preocupado com o quadro eleitoral que teremos de enfrentar muito em breve.

Um segundo ponto, com o qual me identifiquei, é a estratificação geracional que assume. Detesto a sopa de letrinhas usuais dos textos alienígenas, principalmente os vindos dos Estados Unidos da América, assumida pelos nossos pseudo intelectuais como caracterização de nossa sociedade. Nada me dizem geração X,Y e Z.

Acho que definir quatro grupos, partindo no qual me incluo, o Bossa Nova, geração hoje com mais de 60 anos, passando pelo grupo que se formou na Ditadura Militar, indo para o que tem suas bases no período da redemocratização e chegando à geração viciada em internet, os jovens de hoje, parece bem mais próximo do que somos.

Claro, todas as gerações brasileiras são conservadoras, mas com características muito diferentes. Entender a geração .com deu-me um pouco de alento, uma geração mais aberta nos costumes, mais disposta a compreender seus semelhantes, que convive bem com o progresso técnico que se faz presente. Tenho convicção que esse perfil pode ser um ponto de partida para mudanças futuras para um Brasil mais sadio mentalmente.

Se alguém mereceu o Nobel de literatura, não tenho dúvidas, foi Han Kang. A escritora coreana tem uma prosa poética que encanta, que faz com que tenhamos sonhos de um mundo melhor.

Li “O Livro Branco”. A história da irmã que não conheceu, que morreu ao nascer, que provavelmente, se tivesse sobrevivido, não daria espaço ao surgimento da autora. O simbolismo do branco, em toadas as suas dimensões. Do luto, em alguns países, ao frio das geleiras, das plantas aos pássaros que representa. Um texto que vai construindo imagens que ficam na alma, que faz a memória recordar tempos que vivemos ou poderíamos ter vivido.

Com leveza, com sabedoria de quem entende os detalhes, com paixão ao próximo que justifica nossa existência. Mais que recomendo, lerei novamente detendo-me aos detalhes, ajuda muito a enfrentar as intempéries da vida.

Fui ao último. Orbital de Samantha Harvey. Premiado, a história de seis astronautas em uma estação espacial, observando a terra e o fluir de seus pensamentos.

Acreditei que tinha algo de ficção científica. Engano meu. Muito mais um pensar de cada um dos participantes sobre sua relação com o mundo e com sua história. Tem passagens muito interessantes.

No entanto, achei um pouco hermético, diria até claustrofóbico, a solidão que todos nós enfrentamos com o dialogar com nossos pensamentos. Acredito que vale a pena no sentido de ser um texto em que o leitor se encontra com o mundo interior dos personagens que pode ser refletido em seus possíveis caminhos de vida.

As férias acabaram. Voltarei ao dia a dia. Com as leituras, às vezes, enfadonhas do mundo econômico. Com as catástrofes ecológicas, com os desvarios de poderosos, com o pessimismo habitual de quem observa o menosprezo pela empatia imperando.

Também, com uma firme convicção. Ano que vem novamente férias!!!

Leia também: Primórdios do cinema: Lumière – a aventura continua! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/primordios-do-cinema.html

Postei nas redes

Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) projeta R$ 61 bilhões em emendas parlamentares, que deputados e senadores impuseram, pela maioria de direita e centro-direita. Até quando?

*

Mergulhar fundo para avançar na superfície https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/11/meu-artigo-no-portal-da-fundacao.html 


07 janeiro 2026

Minha opinião

O tempo nosso de cada instante
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65   

Lidar com o tempo não é fácil, sobretudo na época em que vivemos.

Tecnologias as mais diversas nos passam a impressão que tudo há que ser feito às pressas, pois nada pode esperar.

Ninguém pretenda abstrair esse dado de realidade. Basta que se veja ao espelho para contemplar no próprio rosto as tais marcas do tempo do tempo vivido.

Certa vez — já tem mais de duas décadas —, minha mãe impressionada com o que ela considerava rapidez com que meus cabelos se tornavam grisalhos, perguntou: "Meu filho, que aconteceu com seu bigode que está assim todo branco?" Outra resposta eu não poderia dar: "Tempo de uso, minha mãe."

Era uma fase da vida em que muitos contemporâneos meus e amigos de velhas datas rasparam o bigode justamente para evitar a exibição do tempo de vida vivido.

E me perguntavam se eu não iria fazer o mesmo.

Claro que não.

Nômades digitais: ascensão e queda previsível https://lucianosiqueira.blogspot.com/2022/08/trabalhadores-em-home-office.html 

Palavra de poeta

Soneto da busca
Carlos Pena Filho  


Eu quase te busquei entre os bambus
para o encontro campestre de janeiro
porém, arisca que és, logo supus
que há muito já compunhas fevereiro.

Dispersei-me na curva como a luz
do sol que agora estanca-se no outeiro
e assim também, meu sonho se reduz
de encontro ao obstáculo primeiro.

Avançada no tempo, te perdeste
sobre o verde capim, atrás do arbusto
que nasceu para esconder de mim teu busto.

Avançada no tempo, te esqueceste
como esqueço o caminho onde não vou
e a face que na rua não passou.

[Ilustração: Evgeniy Monahov]

Leia também "Elogio da aprendizagem", poema de Berthold Brecht https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/palavra-de-poeta_28.html 

Arte é vida

 

Wlad Safronow

"Da rede tudo se ouve e se imagina" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_29.html 

Enio Lins opina

Sobre presidentes e narcotraficantes, pesos e medidas
Enio Lins    

VENEZUELA AGREDIDA é a bola da vez. O mundo se agita por conta da overdose autoritária do governo Trump. Enquanto isso, em Nova Iorque está montado um circo jurídico para tentar justificar o sequestro do presidente Nicolás Maduro, acusando-o ilegalmente, pelas normas do direito internacional, de “narcotraficante”. Depois de iniciado o julgamento, a principal acusação, de “chefe do Cartel de Los Soles”, foi retirada pelo governo Trump, mas o teatro segue com outras acusações menores.

AINDA EM NOVA IORQUE outro espaço se projeta como picadeiro: o Conselho de Segurança da ONU, reunido para analisar e se posicionar sobre a agressão sofrida pela Venezuela. Ao longo dos tempos, esse órgão tem sido anulado, em suas decisões mais importantes, pelo poder de veto exercido pelos Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido, na condição de membros permanentes. Qualquer um desses cinco países, por seu próprio e único voto, pode cancelar qualquer posição da maioria. Com o veto garantido dos americanos e de seus aliados, este caso venezuelano se anuncia mais uma desmoralização das Nações Unidas.

DO PONTO DE VISTA LEGAL, como tem sido abordado pela mídia aqui e alhures, não se sustenta a ação do governo americano em nenhum item do Direito Internacional. Ademais, rapto de Maduro escancara uma grave contradição da Casa Branca, pois os Estados Unidos se recusam a aplicar decisões do Tribunal Penal Internacional, principal órgão do gênero no mundo, quando essas alcançam criminosos que têm apoio americano, como no caso de Benjamin Netanyahu. O genocida israelense é detentor de um mandado de prisão por crimes de guerra contra a população civil palestina, emitido pelo TPI em 21 de novembro de 2024. Em pleno vigor, esse documento legal perfeito é ignorado pelo governo estadunidense, que tem acolhido o criminoso Bibi depois dessa ordem de captura, por várias vezes, no Salão Oval e na mansão do atual presidente, em Mar-a-Lago (a recepção mais recente, foi há apenas nove dias). E os crimes comprovadamente cometidos por Bibi são escandalosamente maiores que os atribuídos a qualquer narcotraficante em qualquer ponto do planeta.

ISSO SEM FALAR QUE, até agora, não foi apresentada evidência de que Nicolás Maduro tenha ligações com o narcotráfico, ao contrário do ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández. Processado e julgado nos Estados Unidos por comandar “uma das maiores e mais violentas conspirações para o tráfico de drogas do mundo”, Hernández foi preso em 2022, em sua residência, na cidade de Tegucigalpa, depois de terminar seu segundo mandato presidencial. Foi detido pela polícia local, cumprindo determinação da Justiça de Honduras, e extraditado legalmente para os Estados Unidos “onde foi condenado, em 2024, a 45 anos de prisão e pagamento de multa de US$ 8 milhões. Segundo os promotores, ‘ele pavimentou uma estrada de cocaína para os EUA, com o apoio de metralhadoras’. Gravações exibidas no tribunal mostraram diálogos explícitos com traficante: em um deles, disse que queria ‘enfiar drogas nos narizes dos gringos’ nos EUA” –entre aspas, trechos de reportagem publicada n’O Globo há três dias.

EM 2 DE DEZEMBRO, um mês antes de sequestrar Maduro, Donald Trump perdoou o narcotraficante Juan Orlando Hernández, liberando-o da prisão e autorizando sua permanência em território americano, pois o ex-presidiário não poderia voltar imediatamente a seu país, pois lá lhe esperam outras condenações. Um dos objetivos do inquilino da Casa Branca foi possibilitar ao notório narcotraficante liberdade e condições de articular remotamente seus cúmplices no crime organizado para os momentos finais das eleições presidenciais em Honduras. Em 24 de dezembro, Nasry Asfura, candidato direitista, apoiado por Trump e Hernández, foi declarado vencedor num pleito suspeito, recheado por denúncias de fraude no processo de apuração, que se arrastou por três semanas, na contagem manual – “auditável” – do s votos. Simples assim.

Paz e soberania na Venezuela! Sangue por petróleo, não! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_5.html