Partidos se constroem na luta eleitoral? Sim e não*
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
De que tipo de construção partidária estamos falando?
Óbvio que todas as três dezenas de legendas legalmente aptas a
participar das eleições gerais deste ano podem crescer de alguma forma,
sobretudo elegendo postulantes aos diversos cargos em disputa. Porém, a
depender da natureza do partido, os propósitos vão além disso.
Caso do Partido Comunista do Brasil, há mais de um século presente na cena
política.
A natureza de classe desse partido, determinada pela sua base teórica e pelos
seus objetivos programáticos e táticos, impõe desafios para além da conquista
do voto — por si mesmo ingente e imprescindível tarefa.
O PCdoB propugna que sua estrutura orgânica não se dilua na campanha
eleitoral, antes se fortaleça mediante o exercício das funções e
responsabilidades de cada instância partidária — Comitê Central, comitês estaduais
e municipais, assim como organizações de base.
Intenções frequentemente prejudicadas por uma tendência à ação militante
através tão somente de meios difusos. Estão longe de predominar comitês
intermediários e organizações de base que efetivamente exerçam seu papel no
transcurso da batalha.
Mas o buraco é mais embaixo, como se costuma dizer. A essência da construção de
um partido da natureza do PCdoB reside precisamente em postura tática
consequente de modo a tornar visível e atraente o matiz vermelho no arco-íris
partidário constituinte da aliança político- eleitoral.
Em outras palavras: concomitantemente com o empenho, costumeiramente bem
sucedido, em forjar frentes amplas no intuito de fortalecer o campo democrático
e popular e, se possível, isolar e derrotar a extrema direita, expressar
suas próprias opiniões de modo claro e diferenciado.
Significa a combinação dialética entre a unidade e a luta, a amplitude e a
independência.
Agora mesmo, mais uma vez o PCdoB participa da construção da plataforma
eleitoral unitária que dará cores nítidas à campanha pela reeleição do
presidente Lula. Propositura que tanto contém elementos avançados, como
concessões às correntes políticas e setores sociais de matiz conservador,
também integrantes da frente ampla.
Isso não impede, antes exige, que candidatos e candidatas e a militância em
geral empenhada na campanha exponham ideias próprias do PCdoB, de sentido
tático e estratégico mais amplo. Caso de reformas estruturais que lastreiem um
novo projeto nacional de desenvolvimento.
Tais reformas, conforme concebidas pelo PCdoB, demandam luta prolongada e de
grande dimensão e, uma vez conquistadas, produzirão substancial elevação do
padrão de vida material e espiritual do nosso povo e também a elevação do seu
nível de consciência política e de organização — no rumo do socialismo, que
haverá de acontecer no Brasil com o cheiro do nosso barro e do jeito da nossa
gente.
Se nossos candidatos e candidatas, e a militância envolvida na campanha
eleitoral, limitarem o seu discurso tão somente à plataforma da frente ampla em
quase nada estarão contribuindo para a construção do Partido.
Simples? Em mais de 40 anos de experiência militante em batalhas eleitorais, o
autor deste breve comentário pode afirmar, com convicção, que aí reside o
"x" do problema.
Parodiando Noel Rosa, "ser estrela é fácil, marcar nosso selo de classe é
que é o x do problema".
*Texto da minha coluna semanal no portal Vermelho
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