Em defesa do feminismo emancipacionista e anticapitalista
Feminismo emancipacionista propõe enfrentar patriarcado e capitalismo juntos, articulando a luta das mulheres à transformação radical da sociedade.
Caio Botelho/Vermelho
A luta pela emancipação das mulheres atravessa séculos de história e assume diferentes formas conforme o contexto social, econômico e político em que se desenrola. No cenário contemporâneo, marcado pela hegemonia neoliberal e pelo aprofundamento das desigualdades, torna-se fundamental reafirmar a perspectiva de um feminismo que não se contente com reformas superficiais, mas que aspire à transformação radical das estruturas que perpetuam a opressão. Um feminismo que compreenda que a libertação das mulheres é inseparável da emancipação do conjunto da humanidade e da superação do sistema capitalista.
A base material da opressão das mulheres
O capitalismo, embora não tenha criado o patriarcado, soube apropriar-se de suas estruturas para servir aos interesses da acumulação de capital. Como demonstrou Friedrich Engels em sua obra fundamental “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, a opressão das mulheres intensificou-se historicamente com o surgimento da propriedade privada e da divisão da sociedade em classes. A família monogâmica, tal como se consolidou sob o capitalismo, não representa uma forma natural ou eterna de organização social, mas uma instituição histórica que serve à transmissão da propriedade e à reprodução da força de trabalho.
A divisão sexual do trabalho, ao atribuir às mulheres a responsabilidade principal pelo trabalho doméstico e de cuidado não remunerado, cumpre função estratégica para o capital. Auguste Bebel em “A Mulher e o Socialismo”, já no século XIX, observou que o trabalho feminino no lar sustenta toda a estrutura produtiva sem que por ele se pague. Esse trabalho invisibilizado contribui decisivamente para a redução dos custos de reprodução da força de trabalho, permitindo ao capital extrair mais-valor sem arcar com os custos integrais de manutenção e formação dos trabalhadores.
Paralelamente, quando as mulheres ingressam no mercado de trabalho assalariado, enfrentam a superexploração: recebem salários inferiores aos dos homens pelo exercício das mesmas funções, concentram-se em setores precarizados e sofrem dupla ou tripla jornada de trabalho. Como apontaram Arruzza, Bhattacharya e Fraser, “o trabalho assalariado para a obtenção de lucro não poderia existir sem o trabalho (na maioria das vezes) não assalariado da produção de pessoas”. A opressão de gênero, portanto, possui uma sólida base material – não se reduz a uma questão meramente cultural ou ideológica, mas articula-se profundamente com os mecanismos de exploração capitalista.
As insuficiências do feminismo liberal
O campo feminista é plural e atravessado por disputas políticas e teóricas fundamentais. As correntes emancipacionistas distinguem-se precisamente por estabelecer a conexão entre patriarcado e capitalismo, compreendendo que a libertação definitiva das mulheres não será alcançada nos marcos do sistema vigente. Essa perspectiva contrapõe-se criticamente às visões liberais do feminismo, hegemônicas em grande parte dos espaços midiáticos e institucionais e com grande força no seio do próprio movimento.
O feminismo liberal concentra esforços na conquista da igualdade formal e na ascensão individual de mulheres a posições de poder dentro das estruturas existentes. Pautas como a paridade em cargos de liderança corporativa ou a representação feminina em espaços políticos tradicionais, embora representem conquistas importantes, não questionam as estruturas produtoras da desigualdade. Como afirmam Arruzza, Bhattacharya e Fraser, esse feminismo busca “um mundo onde a tarefa de administrar a exploração no local de trabalho e a opressão no todo social seja compartilhada igualmente por homens e mulheres da classe dominante”.
Longe de oferecer uma solução, o feminismo liberal torna-se parte do problema ao difundir a ilusão de que é possível superar a opressão das mulheres sem tocar nas bases do sistema capitalista. Ao tratar as mulheres como “grupo sub-representado” e buscar garantir que algumas poucas almas privilegiadas alcancem cargos e salários iguais aos dos homens de sua própria classe, essa perspectiva ignora que a ampla maioria das mulheres – trabalhadoras, negras, periféricas, imigrantes – permanece submetida a condições de superexploração e opressão.
O feminismo liberal oferece ainda o álibi perfeito para o neoliberalismo: ocultando políticas regressivas sob uma aura de emancipação, permite que as forças que sustentam o capital global retratem a si mesmas como progressistas. Celebrar uma mulher CEO ou uma primeira-ministra que implementa políticas de austeridade, bombardeia países ou desmantela direitos trabalhistas nada tem a ver com a libertação feminina. É fundamental reconhecer, como fez Clara Zetkin, que a solidariedade de classe é mais profunda que qualquer suposta solidariedade de gênero abstrata e descolada das condições materiais de existência.
Crítica ao feminismo pós-moderno e ao chamado feminismo radical
Outras correntes também apresentam limitações significativas para a luta emancipatória. O feminismo de matriz pós-moderna, ao dissolver as categorias de análise material e enfatizar exclusivamente as dimensões discursivas e identitárias da opressão, perde de vista as bases econômicas e estruturais da dominação. Embora as lutas por reconhecimento sejam legítimas e necessárias, sua desconexão da luta contra a exploração capitalista leva ao risco de cooptação e fragmentação dos movimentos sociais.
O chamado feminismo radical, por sua vez, ao localizar a opressão das mulheres exclusivamente no patriarcado, compreendido como sistema autônomo e independente, deixa de estabelecer os nexos fundamentais entre a dominação de gênero e a estrutura de classes. Essa perspectiva tende a conceber todos os homens como inimigos e a subestimar as possibilidades de construção de alianças de classe na luta pela transformação social. Como demonstrou Alexandra Kollontai em seus escritos sobre a questão feminista, a experiência histórica dos processos revolucionários mostra que a emancipação das mulheres avança quando homens e mulheres da classe trabalhadora se unem na luta contra a ordem do capital.
Por um feminismo de classe e anticapitalista
A tarefa histórica que se coloca é disputar o feminismo com uma perspectiva de classe que unifique o combate ao patriarcado com a luta contra o capitalismo. Como afirmou Clara Zetkin, figura central do movimento socialista internacional e da organização das mulheres trabalhadoras, “de mãos dadas com o homem de sua classe, a mulher proletária luta contra a sociedade capitalista”. Esta formulação expressa com nitidez a compreensão de que a luta pela emancipação das mulheres não se dá contra os homens em geral, mas contra um sistema de exploração e opressão que desumaniza tanto homens quanto mulheres, ainda que de formas distintas.
Um feminismo verdadeiramente emancipacionista compreende que a opressão das mulheres assume diferentes formas conforme a posição de classe, a raça, a nacionalidade e outras condições sociais. Proclamações abstratas de “sororidade global” que ignoram essas diferenças são contraproducentes, pois transmitem a falsa impressão de homogeneidade. Uma trabalhadora doméstica e uma executiva de uma corporação transnacional não compartilham os mesmos interesses materiais, ainda que ambas sejam mulheres. Como advertem Arruzza, Bhattacharya e Fraser, “nada que mereça o nome de ‘liberação das mulheres’ pode ser alcançado em uma sociedade racista, imperialista”. O feminismo emancipacionista não se limita às chamadas “questões das mulheres” e articula-se, portanto, com todas as lutas contra a explo ração, a opressão e a dominação.
O papel dos homens na luta pela emancipação das mulheres
Uma questão crucial para o avanço da luta emancipatória diz respeito ao papel dos homens da classe trabalhadora no combate à opressão das mulheres. É fundamental reconhecer que, embora os homens não sofram a opressão de gênero da mesma forma que as mulheres, o machismo e o patriarcado também os desumanizam e os impedem de desenvolver plenamente suas potencialidades. Mais importante ainda: o machismo fragmenta a classe trabalhadora e enfraquece sua capacidade de enfrentar o capital.
Os homens trabalhadores devem ter, portanto, interesse objetivo na superação da opressão das mulheres. Uma classe trabalhadora dividida por preconceitos de gênero, raça ou nacionalidade é uma classe trabalhadora enfraquecida em sua capacidade de luta.
Sob a direção política das mulheres organizadas, que conhecem na própria pele a realidade da opressão, os homens devem engajar-se ativamente no combate ao machismo em todas as suas formas. Isso implica questionar práticas cotidianas, assumir responsabilidades pelo trabalho doméstico e de cuidado, combater o assédio e a violência contra as mulheres, e reconhecer a legitimidade da autonomia organizativa das mulheres em seus espaços de luta. Não se trata de uma concessão pretensamente generosa, mas de uma necessidade histórica para a construção de uma sociedade verdadeiramente livre e igualitária.
A emancipação como obra coletiva
A superação definitiva da opressão contra as mulheres somente ocorrerá com a superação do sistema capitalista e com a emancipação do conjunto da humanidade. Esta não é uma tarefa que possa ser realizada por um setor isolado da sociedade, mas uma obra a ser construída coletivamente por mulheres e homens da classe trabalhadora e das massas oprimidas. Como demonstraram as experiências históricas dos processos revolucionários, avanços significativos na condição das mulheres estão associados a transformações profundas nas estruturas econômicas e sociais.
O capitalismo produz periodicamente crises que afetam de forma particularmente severa as mulheres trabalhadoras. A forma atual, neoliberal, do capitalismo está esgotando sistematicamente as capacidades individuais e coletivas para reconstituir os seres humanos e para sustentar os laços sociais. O desmantelamento de serviços públicos, a precarização do trabalho, o ataque aos direitos sociais – tudo isso recai de forma desproporcional sobre as mulheres, que seguem sendo as principais responsáveis pelo trabalho de reprodução social.
Diante desse quadro, é fundamental construir um feminismo que não celebre CEOs que ocupam escritórios luxuosos, mas que busque construir um mundo justo, onde a riqueza e os recursos naturais sejam compartilhados por todos, e onde a igualdade e a liberdade sejam premissas, não aspirações distantes. Um feminismo que compreenda que a produção de pessoas não pode ser tratada como mero meio para gerar lucro, mas deve ser valorizada por si mesma, em uma sociedade que assegure as bases materiais para o pleno desenvolvimento de cada indivíduo.
Conclusão
O feminismo emancipacionista e anticapitalista apresenta-se, assim, como uma perspectiva política que articula de forma inseparável a luta contra a opressão das mulheres e a luta contra o sistema capitalista. Inspirado nas contribuições dos grandes pensadores e pensadoras marxistas – de Bebel a Engels, de Kollontai a Zetkin –, esse feminismo compreende que a libertação das mulheres é parte indissociável da emancipação humana universal.
Contra o feminismo liberal, que se contenta com a diversificação das elites; contra as perspectivas que fragmentam a luta em identidades isoladas. É preciso dar seguimento ao esforço de construir um feminismo verdadeiramente transformador, que seja fonte de esperança para toda a humanidade.
Esta é a tarefa histórica colocada para o movimento feminista do século XXI: ser parte integrante e fundamental da luta por uma sociedade socialista, onde mulheres e homens possam, finalmente, desenvolver plenamente suas potencialidades humanas, livres da exploração e da opressão. Uma sociedade onde o trabalho doméstico e de cuidado seja socializado e valorizado, onde não haja espaço para a violência de gênero, onde as mulheres tenham pleno controle sobre seus corpos e suas vidas, e onde todas e todos possam viver com dignidade, igualdade e liberdade.
Referências
ARRUZZA, Cinzia; BHATTACHARYA, Tithi; FRASER, Nancy. Feminismo para os 99%: um manifesto. São Paulo: Boitempo, 2019.
BEBEL, Auguste. A Mulher e o Socialismo. São Paulo: Expressão Popular, 2019.
ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. São Paulo: Boitempo, 2019.
KOLLONTAI, Alexandra. A Nova Mulher e a Moral Sexual. São Paulo: Expressão Popular, 2005.
KOLLONTAI, Alexandra. Marxismo e Revolução Sexual. São Paulo: Global Editora, 1982.
ZETKIN, Clara. La Cuestión Femenina y el Reformismo. In: ZETKIN, Clara. Escritos Selectos. Moscou: Editorial Progreso, 1984.
ZETKIN, Clara. Selected Writings. Edited by Philip S. Foner. New York: International Publishers, 1984.
8 de Março, palavra da UBM https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/8-de-marco-palavra-da-ubm.html






