02 setembro 2026

Palavra de poeta

Relógio de ponto
Alberto da Cunha Melo       

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim os jogos,
a poesia, todos os pássaros,
mais do que tudo: todo o amor.
 
De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e atravessaremos os córregos
cheios de areia, após as chuvas.
 
Se alguma súbita alegria
retardar o nosso regresso,
um inesperado companheiro
marcará o nosso cartão.
 
Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim as faixas
da vitória, a própria vitória,
mais do que tudo: o próprio Céu.
 
De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e lavaremos as pupilas
cegas, com o verniz das estrelas.
 
[Ilustração: Joan Miró]
 
Leia também "Retorno", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-de-poeta_0433487496.html 

Postei nas redes

A grande mídia neoliberal ainda insiste na possibilidade de algum candidato da extrema direita capaz de superar Flávio Bolsonaro, fadado ao fracasso. A bola da vez é o tresloucado Augusto Cury, que propõe drones para combater o feminicídio.   

Prazeroso diálogo na telinha https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_0215026545.html 

Terras raras

Venda da Serra Verde fere soberania nacional e não deve ser concretizada
Terras raras são um elemento essencial para o desenvolvimento nacional, recurso que coloca o Brasil em posição privilegiada na geopolítica
Editorial do 'Vermelho' 

O acordo assinado sobre a venda da Serra Verde, empresa de mineração de terras raras, responsável pelo projeto Pela Ema, em Minaçu, no norte de Goiás, é uma operação inaceitável. A adquirente, a estadunidense USA Rare Earth (USAR), surgiu para construir uma cadeia integrada “da mina ao ímã” – mineração, processamento, separação, produção de metais e ligas e fabricação de ímãs permanentes –, projeto que ambiciona montar uma cadeia “ocidental” para competir com a cadeia chinesa.

A disputa mundial por terras raras é, essencialmente, uma disputa por autonomia tecnológica. E coloca Serra Verde como um dos casos mais importantes para entender a disputa mundial por minerais críticos. Segundo o Sumário Mineral Brasileiro 2025, baseado nos dados disponíveis para 2024, o Brasil possuía aproximadamente 11,4 milhões de toneladas de reservas de terras raras contidas, equivalentes a cerca de 13,9% das reservas mundiais, ficando atrás apenas da China.

A produção beneficiada brasileira registrada em 2024 decorreu do início das operações da Serra Verde em Minaçu. Ou seja: a Serra Verde é, na prática, o marco da entrada comercial brasileira nessa nova cadeia. Em fevereiro de 2026 surgiu uma mudança fundamental: a U.S. International Development Finance Corporation (DFC) anunciou um pacote de financiamento de aproximadamente US$ 565 milhões para a Serra Verde.

O acordo prevê possibilidade de participação acionária minoritária do governo estadunidense. “Ao estabelecer uma parceria com a Serra Verde, estamos dando um passo decisivo para romper o quase monopólio de nossos adversários sobre os elementos de terras raras”, disse o secretário-assistente de Guerra dos Estados Unidos Mike Cadenazzi.

Isso é muito significativo porque a DFC não é simplesmente um banco privado. É uma agência do governo dos Estados Unidos voltada a investimentos internacionais estratégicos. Portanto, nesse momento a Serra Verde deixou de ser apenas um projeto financiado por fundos privados e passou a ser também um ativo inserido na política estratégica de minerais críticos dos Estados Unidos. Em 20 de abril de 2026, a USAR anunciou o acordo para adquirir 100% da Serra Verde, concluído em 24 de agosto e referendado por uma assembleia de acionistas em 28 de agosto.

O aspecto principal é a participação do governo dos Estados Unidos no negócio, uma estrutura criada para comprar a produção da Serra Verde capitalizada em US$ 1,55 bilhão, com US$ 750 milhões de investimento do Departamento de Guerra dos Estados Unidos e US$ 500 milhões em crédito bancário, além de pelo menos US$ 300 milhões em compras futuras do governo dos Estados Unidos e acordos de financiamento do Departamento de Comércio estadunidense que podem chegar a US$ 1,6 bilhão, uma transação que chega a US$ 2,8 bilhões.

O negócio precisa ser entendido como de uma empresa privada inserida numa estratégia industrial e de “segurança nacional” dos Estados Unidos. E há um detalhe decisivo: a USAR precisa da Serra Verde principalmente porque Pela Ema contém disprósio e térbio, duas terras raras pesadas particularmente estratégicas que são difíceis de obter fora da China. A empresa afirma que, com a aquisição, passará a controlar a única mina fora da Ásia que produz comercialmente os quatro elementos magnéticos em escala.

Ou seja: a USAR é o veículo empresarial estadunidense que está tentando transformar a Serra Verde em um dos elos fundamentais da “cadeia ocidental” de terras raras independente da China, com forte apoio financeiro do governo dos Estados Unidos. E isso explica por que a Serra Verde passou de uma mina brasileira a uma questão de geopolítica, política industrial e soberania mineral brasileira.

Um estudo do Ministério de Minas e Energia descreve o arranjo como um mecanismo de redução de risco comercial, porque a produção já possui comprador e preços mínimos; ao mesmo tempo, observa que, no curto prazo, o acordo significa que a produção da primeira fase será direcionada para processamento fora do Brasil, comprometendo a internalização de processos com maior valor agregado.

É justamente por isso que o caso é tão importante para o Marco dos Minerais Críticos, em tramitação no Congresso Nacional, parte do acordo essencial entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), para destravar votações prioritárias durante a semana de esforço concentrado de 31 de agosto a 4 de setembro.

O governo apoia o Projeto de Lei que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, e um conselho nacional voltado à industrialização desses minerais. A proposta trata as terras raras não apenas como commodities minerais: passa a considerá-los parte de uma política de desenvolvimento industrial, segurança econômica, transição energética, inovação tecnológica, defesa e soberania nacional.

Ele se choca com a venda da Serra Verde ao estabelecer como princípio “a valorização, a agregação de valor em território nacional”. E prevê instrumentos para estimular beneficiamento, transformação e industrialização no Brasil.

Essa contradição motivou o presidente Lula a pedir a Alcolumbre rapidez na votação do Marco. “Nós precisamos tomar uma decisão sobre o que o governo vai fazer com esse material estratégico que pode dar ao Brasil não apenas a soberania do minério, mas também financeira, tecnológica, e de conhecimento”, afirmou. E completou: “O que falta para nós? Falta uma decisão política, falta uma decisão de governo.”

O acordo da Serra Verde não significa que os Estados Unidos sejam proprietários do minério brasileiro enquanto ele está no subsolo. A Constituição estabelece que as jazidas e demais recursos minerais pertencem à União, e a empresa recebe o direito de explorar economicamente o recurso mediante o regime minerário brasileiro. O problema é quem controla a empresa que explora, quem compra a produção, quem determina seu destino e onde a cadeia de processamento ocorre.

É por isso que o valor estratégico da Serra Verde é muito maior do que o de uma mina convencional. “O Brasil está aberto ao capital americano e de qualquer outro país que respeite a nossa soberania”, disse o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, em encontro com o principal executivo global da Serra Verde, Thras Moraitis, em maio.

A venda da Serra Verde não é um simples negócio privado: terras raras são patrimônio estratégico do Brasil e estão no centro da disputa mundial por autonomia tecnológica, industrial e econômica. Como disse Lula, “tem muita gente estrangeira comprando aquilo que ainda nem regulamos”. É nítido que o negócio da USAR é uma corrida para não ser alcançado pelo Marco.

O governo brasileiro deve adotar as medidas jurídicas necessárias para impedir a concretização dessa manobra. Cabe às forças democráticas e patrióticas se unirem em uma grande mobilização nacional pelo domínio tecnológico e controle nacional sobre um recurso decisivo para o futuro do desenvolvimento e da soberania do Brasil.

O jornalismo econômico troca o debate plural pelo consenso do mercado https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/midia-pro-mercado.html  

Arte é vida

 

Rubens Gerchmann

Sebastião Salgado, o homem que “desenha com a luz” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/02/sebastiao-salgado-80-anos.html 

Minha opinião

Especialíssimo especialista 
Luciano Siqueira      

Definitivamente, o século XXI é a era das especialidades! 

Quanto mais avança o conhecimento humano na onda da ciência ou da mais simples e pura imaginação, mais mentes especializadas se produzem.

É o que se vê na TV e nos mais diversos meios de comunicação, incluindo as inundantes redes digitais.

Na medicina, então, o generalista se sente obrigado a pedir desculpas quando insiste na compreensão holística do ser humano.

Há especialistas em tudo! 

Não há mais ortopedistas; há, sim, especialista em joelho, em articulação coxofemoral, em mão, em cotovelo, em pé e até em calcanhares! 

Saber muito virou motivo de inibição, quase vergonha. Cada um de nós é instado a compreender apenas um detalhe da natureza e da condição humana! 

Agora mesmo deparei-me com manchete de jornal referindo-se a algo supostamente importante anunciado por um tal "especialista em bem-estar".

Não li a matéria, porém sinto-me tomado pelo desejo irresistível de ver num debate as opiniões conflitantes de especialistas "em bem estar" e "em mal estar". Por que não? Se alguém se especializa e é tido como sábio numa faceta da condição humana, mais do que natural que haja também especialista no oposto. 

Ora, só se sabe que alguém é genial quando imerso em ambiente de mesmice e mediocridade! 

O grande erro do italiano Ancelotti, percebo agora com clareza solar, foi montar a seleção brasileira de 11 especialistas tidos como craques em suas funções e nenhum generalista feito Pelé, capaz de atuar em todas as posições e, assim, compreender na inteireza os movimentos táticos adversários. 

Fracassamos mais uma vez.

E comentaristas esportivos da nova geração se veem condenados à misera condição de especialistas em Copa do Mundo de futebol frustrada! 

Leia também: Tédio? Falta-me tempo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_0262906581.html 

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Analistas da mídia neoliberal fazem todo tipo de especulação matemática para "demonstrar" que a direita poderá vencer as eleições, apesar do poço de areia movediça em que afunda Flávio Bolsonaro. 

Atenção ao conteúdo programático https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_02003961006.html 

Palavra de poeta

Aqui te amo
Pablo Neruda     

Aqui te amo.
Nos escuros pinheiros desenreda-se o vento.
Fosforescente a lua sobre as águas errantes.
Dias comuns costumam seguir-nos sempre.

Liberando-se a névoa em dançantes figuras.
Uma gaivota de prata desprende-se do entardecer.
Às vezes uma vela. Altas, altas estrelas.

Ou a cruz de um barco.
Só.
Às vezes amanheço, e até minha alma está úmida.
Soa, ressoa o mar distante.
Este é um porto.
Aqui te amo. 

Aqui te amo e em vão te oculta o horizonte.
Estou te amando ainda entre estas frias coisas.
Às vezes vão meus beijos nesses barcos graves,
que correm pelo mar até onde não chegam.

Já me sinto esquecido nessas velhas âncoras.
São mais tristes os portos quando chega a tarde.
Fatiga-se a minha vida inútil e faminta.
Eu amo o que não tenho. E tu estás distante.

Meu tédio forceja com os lentos crepúsculos.
Mas, ao chegar, a noite já começa a cantar.
A lua faz girar o seu círculo de sonho.

Olham-me com teus olhos as estrelas maiores.
E como eu te amo, os pinheiros, na ventania,
querem cantar teu nome com suas folhas de arame.


[Ilustração: Wellington Virgolino]

Leia também: "Passeio pelas ruas do espinheiro", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-de-poeta_0470369103.html