11 abril 2026

Superpotência decadente

Quando os impérios ficam perigosos
O paralelo entre Roma, o Império Otomano e os Estados Unidos atual revela um padrão: a dívida crescente e a sobretensão militar precedem a fragmentação
Celso Pinto de Melo*/A Terra é Redonda   

“Nada é tão difícil quanto perceber que a força já não convence” (Liev Tolstói)

Decadência, coerção e o custo crescente da hegemonia

Paul Kennedy ensinou que os impérios não entram em crise apenas quando perdem poder, mas quando o custo de sustentá-los passa a exceder a base econômica que os torna possíveis.[1] Raramente, a história registra um colapso súbito – a dissolução da União Soviética é uma exceção notável, embora também tenha sido precedida por um longo processo de esgotamento interno.

Mais frequentemente, o que se observa é um longo intervalo de transição – um tempo ambíguo em que o poder ainda existe, mas já não convence; em que a autoridade se impõe, mas deixa de integrar. É nesse momento, quando o declínio ainda não se admite, que as potências hegemônicas tendem a se tornar mais instáveis – e mais perigosas. A coerção substitui o consenso, a força tenta compensar a perda de legitimidade e a política externa passa a refletir menos confiança do que ansiedade.

O debate contemporâneo sobre a política externa dos Estados Unidos recoloca essa questão em termos particularmente nítidos. Uma sequência recente de ações – do Caribe ao Oriente Médio, passando por pressões sobre territórios estratégicos e o endurecimento de instrumentos econômicos – sugere a intensificação de um padrão: a passagem de uma hegemonia baseada em alianças e normas para formas mais diretas de projeção coercitiva de poder, em um mundo que já não responde automaticamente à liderança norte-americana.

A emergência da China como potência industrial, tecnológica e geopolítica – percebida em Washington como uma “ameaça sistêmica” – atua como catalisador desse processo. A competição com Pequim deixou de ser episódica e passou a estruturar a política externa e de defesa dos Estados Unidos. [2] [3] Como argumenta Paul Kennedy, grandes potências tendem a entrar em ciclos de sobretensão (overstretch), nos quais o custo de sustentar compromissos globais passa a exceder a base econômica que os sustenta.

Esse padrão histórico não é novo.

O colapso do Império Romano do Ocidente não resultou de uma derrota única nem de uma invasão decisiva. Ao contrário, foi o desfecho de um processo de longa duração, que se estende por cerca de dois séculos.[4]

Nesse intervalo, Roma tentou preservar sua integridade territorial por meio da expansão do esforço militar, do aumento da carga tributária e da crescente terceirização da segurança. A incorporação de povos federados (foederati) ao aparato militar acabou por criar centros de poder autônomos, cujas lealdades se tornaram progressivamente regionais.

À medida que a base fiscal se enfraquecia e os corredores logísticos vitais eram perdidos, o custo de manter a presença imperial tornava-se proibitivo. A coesão, antes sustentada por cidadania e pertencimento à res publica, passou a depender cada vez mais da força bruta[5]

A queda, portanto, não foi um evento, mas um processo de desagregação progressiva.

O caso otomano – exaustão, dívida e periferias em fuga

Um paralelo instrutivo é o do Império Otomano. Ao longo do século XIX, o sultanato sediado em Istambul tentou preservar a integridade de seus domínios em um ambiente internacional cada vez mais adverso.[6]

O resultado foi um ciclo clássico de exaustão: gastos militares crescentes, endividamento externo, dependência tecnológica e repressão intensificada nas periferias. A coerção substituiu o consenso; a força, a legitimidade.

Como consequência, o Império Otomano passou a ser descrito como o “doente da Europa” – expressão frequentemente atribuída ao czar Nicolau I da Rússia. Não se tratava de uma metáfora casual, mas de um diagnóstico geopolítico: um sistema incapaz de sustentar, com seus próprios meios, a extensão de seu poder.

Os dados são eloquentes. A partir de meados do século, o império recorreu a repetidos empréstimos externos. Em 1875, declarou a moratória da sua dívida. Poucos anos depois, a criação da Administração da Dívida Pública Otomana transferiu aos credores europeus o controle direto das receitas fiscais estratégicas.[7]

O paralelismo com o presente não deve ser tomado de uma forma literal. Hoje, a dívida pública dos Estados Unidos supera 34 trilhões de dólares, situando-se em torno de 120% do PIB, enquanto os gastos militares permanecem próximos de 900 bilhões de dólares anuais – um nível sem paralelo histórico recente.[8] [9] Os Estados Unidos, contudo, dispõem de instrumentos – financeiros, tecnológicos e militares – incomparavelmente superiores. Ainda assim, a dinâmica estrutural apresenta semelhanças importantes: amplos compromissos globais, custos militares persistentes e pressão crescente sobre a base fiscal.

Como contraponto, a experiência chinesa revela outro padrão. Apesar de períodos recorrentes de fragmentação, a China preservou uma matriz institucional capaz de sustentar ciclos de reunificação[10]. Mesmo após o “século da humilhação” (c. 1840–1949), o país demonstrou notável capacidade de reconstrução estatal e econômica, culminando em uma transformação acelerada nas últimas décadas.

Essa diferença é crucial. Impérios sustentados predominantemente pela coerção tendem à fragmentação quando os custos dessa coerção se tornam insustentáveis. Estruturas capazes de manter uma integração simbólica e administrativa dispõem de maior resiliência histórica.

O momento mais perigoso

A história raramente anuncia suas viradas de forma clara. Impérios não desmoronam de um dia para o outro – eles atravessam longos períodos em que continuam poderosos, mas deixam de ser incontestáveis; em que ainda impõem sua vontade, mas já não organizam o mundo à sua volta.

É nesse intervalo que o risco se concentra.

Quando a capacidade de liderança se reduz, mas os instrumentos de poder permanecem intactos – e até ampliados –, abre-se uma assimetria perigosa. A força continua disponível; o consenso, não. A ação se torna mais fácil do que a coordenação. A coerção, mais imediata do que a negociação.

Foi assim em Roma. Foi assim em Istambul.

Não porque esses impérios tenham “decidido” entrar em declínio, mas porque passaram a operar em um mundo que já não respondia plenamente às suas formas de poder.

A questão, hoje, não é se esse processo está em curso – isso parece cada vez mais evidente. Mais decisiva, porém, é outra: como uma potência reage quando descobre que já não consegue moldar o mundo com a mesma facilidade de antes?

A história sugere respostas possíveis. Nem todas são tranquilizadoras.

*Celso Pinto de Melo é professor titular de física aposentado da UFPE e membro da Academia Brasileira de Ciências.

Notas


1.         Kennedy, P., The Rise and Fall of the Great Powers. 1987, New York: Random House.

2.         United States, National Security Strategy. 2025: Washington. https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2025/12/2025-National-Security-Strategy.pdf.

3.         United States Department of Defense, China Military Power Report. 2025: Washington. https://www.andrewerickson.com/wp-content/uploads/2025/12/China-Military-Power-Report_20251223.pdf.

4.         Heather, P., The Fall of the Roman Empire. 2005, Oxford: Oxford University Press.

5.         Gibbon, E., Declínio e queda do Império Romano. 2006, São Paulo: Companhia das Letras.

6.         Zurcher, E.J., Turkey: A Modern History. 2004, London: I.B. Tauris.

7.         Pamuk, S., A Monetary History of the Ottoman Empire. 2000, Cambridge: Cambridge University Press.

8.         U.S. Treasury, Debt to the Penny. 2025. https://fiscaldata.treasury.gov.

9.         Sipri, SIPRI Military Expenditure Database. 2025. https://www.sipri.org.

10.       Arrighi, G., Adam Smith em Pequim. 2008, São Paulo: Boitempo.

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[Ilustração em IA]

Leia também Como os EUA podem tornar-se potência obsoleta https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ira-eua-em-apuros.html

Soberania nacional em jogo

Tecnologia de ponta logo cedo
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65   

Logo cedo porque no início da manhã deste sábado. Tecnologia de ponta é tema de matérias várias que me vêm à tela do computador numa primeira olhada nos principais jornais do país e sites noticiosos e analíticos.

E não é sem razão.

Mesmo a agressão dos Estados Unidos e Israel ao Irã põe em destaque a capacidade de resistência dos iranianos movidos a armamentos de defesa e contra-ataque de altíssima tecnologia.

Tudo a ver com os desafios atuais e mediatos do Brasil, pois há o risco de nos tornarmos mero consumidores de serviços das big techs norte-americanas.

Aqui no blog, dias atrás, publicamos texto esclarecedor do professor e cientista da UFPE Celso Pinto de Melo sobre o tema https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/autonomia-tecnologica-brasileira.html

A soberania nacional implica necessariamente competência para armazenar e processar dados em nosso território, evitando a exportação de inteligência para nuvens controladas por potências estrangeiras.

Mais: dispomos de uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, vale dizer posição estratégica para infraestruturas sedimentares de IA de forma sustentável. Desde que inseridas num projeto nacional.

Tudo a ver com a nossa capacidade de integrar recursos naturais (energia) com potencial computacional (IA).

O Ministério da Ciência, Tecnologia & Inovação vem abordando esse desafio através do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024-2028 - "IA para o Bem de Todos", tendo como foco transformar a abundância de energia renovável do Brasil em vantagem competitiva para a soberania digital.

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Estados Unidos fracassam na agressão ao Irã e consolidam posição de contraventor da ordem internacional. 

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Midia sob desconfiança

Brasileiros desconfiam mais da imprensa do que de amigos no WhatsApp e nas redes sociais
Pesquisa inédita do Cetic.br revela crise profunda de credibilidade da mídia tradicional: plataformas digitais já superam rádio e TV como principal fonte de informação no Brasil
Barbara Luz/Vermelho  

Quase metade dos brasileiros desconfia da imprensa tradicional. É o que mostra a pesquisa “Painel TIC – Integridade da Informação”, lançada nesta sexta-feira (10) pelo Cetic.br: 48% dos usuários de internet desconfiam “sempre” ou “na maioria das vezes” das informações publicadas por veículos jornalísticos — índice superior ao registrado em relação a influenciadores e figuras públicas em redes sociais (43%). Enquanto isso, 72% se informam diariamente pelas redes sociais e 60% por aplicativos de mensagem como o WhatsApp.

O dado é revelador: em pleno debate sobre desinformação, o brasileiro confia mais no conteúdo que chega pelo grupo da família do que naquele apurado por uma redação. As plataformas digitais já superaram o rádio e a televisão — acessados diariamente por 58% dos entrevistados — e os jornais e revistas ficam ainda mais para trás, com 34%. Para ver a íntegra pesquisa, clique aqui.  

Ao Portal Vermelho, Renata Mielli, coordenadora do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), explica que o fenômeno tem raízes históricas e estruturais. “Isso é muito preocupante, mas infelizmente não é exatamente uma surpresa. A primeira motivação é a própria perda de credibilidade de muitos veículos de imprensa no Brasil, principalmente pós-2013, quando a polarização política nacional acabou explicitando para a sociedade que aquela suposta neutralidade e objetividade da imprensa, na verdade, não existia desta maneira como era propalada”, diz ela.

O grupo vale mais do que a verdade

A desconfiança na imprensa varia conforme o perfil do entrevistado. Entre os usuários com ensino fundamental, o índice chega a 59% — bem acima dos 48% da média geral. Entre os homens, é de 52%. Já a desconfiança em relação a influenciadores é maior entre os mais velhos: 51% entre os usuários de 60 anos ou mais.

Mas a pesquisa vai além da desconfiança e revela algo mais profundo onde uma parcela expressiva dos brasileiros simplesmente não vê sentido em checar o que recebe. Nada menos que 34% concordam, total ou parcialmente, que “não vale a pena pesquisar se as informações que recebo são verdadeiras ou falsas”. Outros 30% afirmam não ter interesse nesse tipo de verificação.

Mielli explica que a lógica por trás desse desengajamento tem a ver com pertencimento. “Quando você recebe um conteúdo num grupo de WhatsApp da família, que tem ali uma pessoa com autoridade familiar, ou um grupo de amigos no qual você tem pertencimento, aquelas informações têm muito mais peso do que a qualidade da informação em si” — seja o grupo da igreja, do sindicato ou de qualquer outra comunidade de confiança.

O fenômeno não é novo. Nas eleições de 2018, segundo a coordenadora, já havia indícios de que muitas pessoas sabiam que estavam recebendo fake news — como as relacionadas ao “kit gay” —, mas preferiam confiar na informação vinda de um familiar ou pastor a checar num veículo jornalístico. “Isso mostra a fragilidade que nós estamos enfrentando do ponto de vista da construção da opinião pública na sociedade brasileira”, avalia Mielli.

Sem dados para checar: a dimensão estrutural do problema

O desengajamento com a verificação de informações é mais frequente entre jovens do sexo masculino, das classes C e DE, e com ensino fundamental incompleto — e a pesquisa revela que esse perfil também é o que tem maior dificuldade em classificar corretamente informações como falsas ou enganosas na internet.

Mielli aponta que, para grande parte da população, checar uma informação não é apenas uma questão de hábito ou vontade — é uma questão de infraestrutura. A maioria dos brasileiros acessa a internet pelo celular com pacotes de dados pré-pagos. “No 12º, 15º dia do mês, a franquia de dados já zerou. Como checar uma informação quando eu saio do serviço de mensagem, que é gratuito, para ir no site de qualquer veículo de comunicação? Prefiro guardar os meus dados para saber se meu filho chegou bem da escola no fim do mês”, ilustra a coordenadora do CGI.br.

O exercício prático realizado pela pesquisa, com apoio da Agência Lupa, confirma a assimetria: os entrevistados foram convidados a classificar como falsas ou verdadeiras informações que circularam no país nos últimos dois anos. Os melhores resultados foram entre pessoas com 45 anos ou mais, das classes AB, com maior escolaridade e com conexão por fibra óptica. Os grupos mais engajados com verificação e com melhor compreensão do funcionamento das plataformas digitais também se saíram melhor.

Algoritmos, deepfakes e a captura da atenção

A pesquisa revela ainda que metade dos entrevistados (50%) acredita que o que faz um conteúdo circular mais na internet é ele ser mais confiável — uma confusão direta entre viralização e veracidade. Outros 45% afirmam que todos encontram as mesmas informações quando pesquisam na internet, demonstrando desconhecimento sobre o funcionamento das bolhas algorítmicas.

Sobre deepfakes — imagens, vídeos ou áudios produzidos ou manipulados por inteligência artificial para parecerem verdadeiros —, 41% dos entrevistados relatam contato diário com esse tipo de conteúdo, proporção que sobe para 44% entre jovens de 16 a 24 anos. A coordenadora do CGI.br admite que nem ela própria está imune ao problema: “Eu sou jornalista de formação, lido com temas de tecnologia há muitos anos, e não me sinto 100% confiante de identificar quando um conteúdo é falso ou não, ainda mais no contexto de inteligências artificiais generativas.”

O desconhecimento sobre deepfakes é maior justamente entre os mais vulneráveis: 20% das classes DE e 24% das pessoas com menor escolaridade afirmam não saber o que é ou nunca ter tido contato com o fenômeno.

Quanto ao uso de ferramentas de IA generativa, 47% dos usuários de internet de 16 anos ou mais já utilizaram o ChatGPT ou similares. Entre os que acessam a internet exclusivamente pelo celular, a IA do WhatsApp é predominante (38%) — mais um reflexo da divisão digital do país.

“A pesquisa inteira é um alerta”

Para Mielli, o caminho passa obrigatoriamente pela regulação das grandes plataformas digitais. “Essas plataformas não são veículos jornalísticos. Elas têm outro propósito. O modelo de negócios é baseado exatamente na captura da atenção para que a gente permaneça conectado, interagindo, reagindo, compartilhando”, afirma.

A coordenadora do CGI.br aponta avanços recentes como a condenação da Meta por causar vício nos Estados Unidos e a aprovação do ECA digital no Brasil — que proíbe o perfilamento de crianças com base em conteúdo de caráter moral e emocional e o scroll infinito. Mas avalia que muito mais precisa ser feito, inclusive na questão do financiamento do jornalismo.

“Nós precisamos urgentemente restabelecer o debate na sociedade sobre o papel do jornalismo. Isso passa por criar regras para que essas plataformas possam remunerar os conteúdos jornalísticos que circulam no seu interior, porque vivemos uma crise do financiamento de veículos de comunicação em razão da migração dos recursos de publicidade para essas plataformas. Acho que a pesquisa inteira é um alerta para a sociedade brasileira de que algo precisa mudar.”

A pesquisa “Painel TIC – Integridade da Informação” foi conduzida pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), em parceria com o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). Foram entrevistados 5.250 usuários de internet de 16 anos ou mais, por meio de questionário online, entre agosto e setembro de 2025. Os dados completos estão disponíveis em cetic.br.

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Humor de resistência

 

Orlando Pedroso

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Região sob disputa

EUA e China: uma disputa palmo a palmo na América Latina
Guerra comercial e competição por influência na região aumentam a tensão política entre as superpotências
Jamil Chade/Liberta     

Das minas da Nicarágua aos portos do Peru e telescópios na Argentina. Do petróleo da Venezuela ao Canal do Panamá e minérios em Goiás. De Norte a Sul, a América Latina se transforma em palco da disputa entre os interesses chineses e americanos.

Um ano depois de Donald Trump iniciar uma guerra comercial e declarar abertamente sua intenção de militarizar o hemisfério, a China se organiza para defender seus ativos e investimentos na região. O resultado tem sido uma crescente tensão política entre governos locais e as duas superpotências.

Em seu plano de segurança, Trump deixou claro que quer o controle da América Latina e que não irá tolerar a presença chinesa em locais considerados como estratégicos. A Casa Branca sabe como empresas chinesas construíram, possuem ou operam grande parte da infraestrutura critica da região. A disputa por recursos naturais e influência passou a ser um fator constante nas capitais da região.

Mas, em dezembro de 2025 e poucos dias depois de Trump consolidar num documento sua Doutrina Donroe de reocupação do espaço latino-americano, a China divulgou o que chamou de seu novo “Livro Branco” sobre seu relacionamento com a América Latina.

Ainda que não cite nominalmente os EUA, o plano de Pequim criticou a “intimidação unilateral” e destacou a “gloriosa tradição de independência” da América Latina. Para completar, afirmou que apoia a estratégia da região de manter seu status de “zona de paz”, uma alusão ao militarismo de Trump no continente. O recado, portanto, estava dado.

Voos espaciais

De um lado, a estratégia chinesa foi a de capitalizar o enorme descontentamento de certos setores e governos latino-americanos diante das tarifas de Trump e, assim, atrair esses países ainda mais para a sua esfera de influência. Não por acaso, o plano apresenta a China como a defensora de um “ambiente internacional aberto e cooperativo”, opondo-se à ‘intimidação”, em mais uma referência aos EUA.

Alguns dos projetos chineses acenderam o alerta na Casa Branca. O texto defende a ideia da redução do peso do dólar no comércio da região e fala numa aproximação em áreas estratégicas, como transferência de tecnologia e intercâmbios de cientistas, bem como inteligência artificial e cooperação espacial.

Uma das apostas é a introdução do sistema de satélites BeiDou, concorrente do Sistema de Posicionamento Global, ou GPS. Se não bastasse, a China se comprometeu a incluir um latino-americano nos programas espaciais tripulados de Pequim.

Na Argentina, porém, a Casa Branca convenceu Javier Milei a abandonar a concessão de uma área do país para que a China construísse um novo telescópio espacial.

Mas a China também deixou claro que, depois de décadas de aproximação e acordos com os latino-americanos, não aceitará simplesmente deixar a região.

No documento, portanto, Pequim rejeita o que chama de “ciber-hegemonia”. Ou seja, a manobra dos EUA para excluir empresas e componentes chineses da infraestrutura digital da América Latina.

Um alerta claro da ameaça que seus interesses sofrem foi a audaciosa operação de Trump para sequestrar Nicolas Maduro, em janeiro deste ano, e romper os acordos de abastecimento a preços baixos de petróleo da Venezuela para a China. A partir de agora, Pequim terá de pagar um preço de mercado pelo combustível venezuelano. E, claro, passando pela administração dos EUA.

Menos de dois meses depois de publicar seu “guia” de atuação na região, a China passou a implementá-lo e não demorou para que, de ambos os lados, as disputas fossem iniciadas.

Um dos focos da tensão passou a ser o Panamá. Pressionado pelos EUA, o governo local provocou o Judiciário a anular os contratos que existiam entre uma empresa chinesa e o Canal do Panamá, em janeiro de 2026.

As autoridades em Pequim, imediatamente, iniciaram um processo para retaliar o governo local. Um procèsso de arbitragem internacional foi iniciado, com Pequim solicitando uma indenização de US$ 2 bilhões.

Os projetos de empresas chinesas com o Panamá foram suspensos e companhias de transporte marítimo passaram a redirecionar suas cargas por outros portos. Na China, tudo o que vinha do Panamá passou a ser alvo de uma inspeção reforçada. Um mês depois, o Panamá tomou o controle dos portos administrados por empresas chinesas e expulsou os funcionários contratados por Pequim.

No Peru, o porto de Chancay – operado pela China – também se transformou em foco da crise. Uma decisão da Justiça impediu a ingerência por parte de autoridades locais no porto, o que gerou protestos dos EUA e denúncias em Washington de que a China estaria violando a soberania peruana. Além disso, a recente queda do presidente do Peru, José Jerí, ainda ocorreu por conta de uma relação entre seu governo e um empresário chinês.

Reserva de mercado

A disputa entre EUA e China também abalou a política no Chile. No começo do ano, a decisão do então governo de Gabriel Boric de fechar um acordo para a construção de um cabo submarino de fibra óptica para conectar seu país aos territórios chineses levou o governo Trump a impor sanções contra ministros e outros funcionários de Santiago.

Segundo Washington, o acordo poderia abalar a “segurança regional”. Sob Boric, a China ainda assinou acordos para financiar a construção de hospitais e ferrovias.

A ingerência americana passou a ser um fator constante, sempre que algum governo da região anuncia um acordo com os chineses.

Nas Bahamas, a decisão do governo local de pegar um empréstimo milionário da China para a construção de um hospital foi o estopim de um protesto da Cada Branca. A diplomacia americana passou a pressionar as autoridades caribenhas a buscar outras fontes de financiamento.

Poucos aspectos são tão sensíveis nessa disputa entre as superpotências na região como a mineração. O governo Trump se apressou por montar uma espécie de pacto para garantir uma reserva de mercado de minerais críticos na região, com a participação de Equador, México, Paraguai e Peru.

No Brasil, o governo de Goiás, numa medida que passou a ser questionada internamente pelo governo Lula, também assinou um acordo com os EUA no setor de minerais críticos. Já na Argentina, o governo de Javier Milei se comprometeu a dar prioridade às vendas de seu cobre, lítio e outros minerais críticos em detrimento de “economias ou empresas que manipulam o mercado”, em referência à China.

Como resposta, Pequim fortaleceu sua ofensiva para garantir novas áreas de concessão de mineração, como no caso da Nicarágua, e se lançou em disputas por contratos em várias partes do continente.

Observadores na China destacam que, poucas vezes nas últimas décadas, a América Latina ocupou uma posição tão central na disputa entre duas nações em busca da hegemonia. Resta saber, para diplomatas, qual será o limite da guerra pelos recursos naturais da região e como os governos locais irão reagir para tirar proveito dessa disputa.

Leia também: Guerra ameaça a Economia do Ocidente: e agora, falastrão? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/trump-caleidoscopico.html