Da ‘volta do mar’ ao improviso: quando a diplomacia vira aposta
Trump 2, a política externa da tensão permanente e a erosão da mediação institucional
Celso Pinto de Melo/Sul 21
“O diabo pode citar as Escrituras para seus próprios fins.”
– William Shakespeare, O Mercador de Veneza
Quando a previsibilidade deixa de ser virtude
Em 1494, na vila espanhola de Tordesilhas, às margens do rio Douro, Portugal e Espanha tentavam dividir um mundo que ainda não conheciam. O Tratado de Tordesilhas não foi negociado por navegadores, mas por diplomatas. Ainda assim, por trás daqueles homens havia algo decisivo: o conhecimento acumulado da navegação atlântica portuguesa.
Esse conhecimento tinha uma expressão concreta e quase paradoxal: a chamada “volta do mar”. Para retornar da costa africana, não bastava seguir o litoral. Era preciso afastar-se deliberadamente, avançar pelo oceano aberto e só então, num arco amplo, retornar com ventos favoráveis. Era uma técnica contraintuitiva. Para quem olhava de fora, parecia um erro. Mas era, na prática, o único caminho que funcionava.
Esse domínio empírico do Atlântico não era apenas operacional – ele teve consequências diretas na negociação. A insistência portuguesa em deslocar a linha de demarcação para 370 léguas a oeste não foi arbitrária. Ela refletia uma compreensão prática das rotas oceânicas e da necessidade de garantir liberdade de navegação nesse arco atlântico. O resultado, ainda que não plenamente antecipado, foi decisivo: abriu caminho para a futura incorporação do Brasil ao espaço português.
A lição que ela carrega é simples e profunda: a realidade dos sistemas complexos raramente coincide com a intuição imediata.
Cinco séculos depois, essa lição parece, em certos momentos, esquecida.
A mesa e o que está por trás dela
Nas negociações recentes envolvendo os Estados Unidos e o Irã, o contraste entre as delegações é revelador. Do lado iraniano, a composição não é apenas técnica ou diplomática – é estrutural. Figuras como Abbas Araghchi (diplomata de carreira e negociador central do dossiê nuclear) e Mohammad Bagher Ghalibaf (ex-comandante da Guarda Revolucionária e ator político de peso no sistema iraniano) aparecem ao lado de representantes da segurança nacional, da política interna, da diplomacia econômica e de instituições estratégicas.
A delegação, nesse sentido, não é apenas um grupo negociador. É uma síntese do próprio Estado iraniano, com suas múltiplas camadas de poder operando simultaneamente.
Do lado americano, a imagem é distinta. A linha de frente inclui nomes como Steve Witkoff (empresário do setor imobiliário, sem trajetória diplomática formal) e Jared Kushner (empresário e genro de Donald Trump, com atuação política construída no interior da Casa Branca). São figuras cuja trajetória se construiu fora da diplomacia profissional e da especialização técnica em temas estratégicos, como a não proliferação nuclear.
Isso não significa ausência de conhecimento. Ao contrário, ele existe em abundância, mas deslocado para os bastidores, onde operam equipes extensas de especialistas, analistas e técnicos.
O que mudou, portanto, não foi a disponibilidade de conhecimento, e sim sua posição no processo decisório. A técnica permanece – mas já não conduz a cena.
Do Estado à rede
Essa mudança revela algo mais profundo. A política externa americana, historicamente estruturada por instituições como o Departamento de Estado, o Conselho de Segurança Nacional e o aparato de inteligência, passa a incorporar, com maior intensidade, uma lógica de rede e de proximidade pessoal – uma forma de diplomacia de compadrio, baseada em confiança direta e não em trajetória institucional.
Poucos exemplos ilustram melhor essa transição do que Paolo Zampolli, enviado político e representante do governo Trump 2 em fóruns multilaterais por nomeação direta. Trata-se de um empresário italiano radicado nos Estados Unidos, próximo de Donald Trump desde os anos 1990, tendo inclusive desempenhado papel na aproximação entre Trump e Melania. Sua atuação diplomática decorre dessa nomeação política – e não de trajetória institucional – e está associada a redes de relacionamento que orbitam o universo empresarial e social do trumpismo, marcadas pela centralidade do acesso pessoal e pela informalidade dos canais de influência.
Sua atuação recente, marcada por declarações controversas – como as que envolveram comentários sobre mulheres brasileiras, trazendo para o plano da diplomacia referências inadequadas à sua própria trajetória pessoal – e por propostas sem qualquer viabilidade institucional, como a sugestão de substituir o Irã pela Itália na Copa do Mundo FIFA 2026, não se encaixa no padrão clássico da diplomacia. Trata-se menos de negociação e mais de encenação reluzente, mais próxima do brilho superficial do que da substância estratégica. Menos de construção institucional e mais de sinalização política imediata.
Nesse contexto, a linguagem diplomática perde densidade e passa a oscilar entre o improviso, o voluntarismo e o gesto simbólico. Quando isso ocorre, o problema deixa de ser apenas de forma e passa a ser de substância.
O que se perdeu no caminho
Em momentos críticos do século XX, a política externa americana operava de outra maneira. Durante a crise dos mísseis de Cuba, John F. Kennedy reuniu uma equipe que combinava diplomacia, defesa, inteligência e formulação estratégica. Nomes como Dean Rusk, Robert McNamara e McGeorge Bundy não estavam ali apenas por proximidade política, mas sim por sua capacidade de compreender a complexidade do cenário.
Mesmo quando a diplomacia se tornou mais centralizada, como no período de Henry Kissinger (arquiteto da diplomacia estratégica americana durante a Guerra Fria), ela não abandonou a densidade analítica. Ao contrário, buscou integrá-la em uma estratégia coerente. O mesmo vale, com outra ênfase, para Zbigniew Brzezinski (conselheiro de segurança nacional de Jimmy Carter e formulador de uma visão geopolítica estruturada do sistema internacional), cuja leitura do equilíbrio global partia da premissa de que estabilidade exigia compreensão profunda das forças em jogo.
É difícil imaginar que qualquer um dos dois veria com tranquilidade uma diplomacia orientada por impulsos, negociações personalistas e declarações que confundem política externa com o horizonte mais curto da política doméstica.
E John Keegan?
Talvez a leitura mais dura viesse de John Keegan (historiador britânico e um dos principais intérpretes da guerra como fenômeno social e cultural). Ao longo de sua obra, Keegan insistiu em um ponto essencial: guerras não são apenas decisões políticas, mas também fenômenos complexos, enraizados em estruturas sociais, culturais e tecnológicas.
Ignorar essa complexidade é abrir espaço para formas de conflito que escapam ao controle dos Estados.
No mundo contemporâneo, essas formas assumem frequentemente a forma de guerras assimétricas, em que atores não estatais, redes informais e estratégias indiretas substituem os confrontos convencionais. Nesse cenário, a fragilização das instituições diplomáticas não reduz o conflito. Ao contrário, tende a torná-lo mais difuso, menos previsível e mais difícil de gerir.
Uma diplomacia baseada no improviso e nas relações pessoais pode funcionar em negociações pontuais. Mas dificilmente oferece respostas consistentes para conflitos dessa natureza.
De volta à “volta do mar”
A metáfora retorna, inevitável. No século XV, os navegadores portugueses aprenderam que confiar apenas na intuição – seguir a linha mais próxima, evitar o desconhecido – era uma receita para o fracasso. Era preciso aceitar o desvio, confiar no conhecimento acumulado e compreender a lógica mais profunda do sistema em que se navegava.
Hoje, parte da política externa parece fazer o movimento inverso. Em vez de confiar no acúmulo institucional, aposta na intuição. Em vez de integrar conhecimento, o desloca. No lugar de estruturar a negociação, aposta no voluntarismo – como se a complexidade pudesse ser dobrada pela vontade.
Mas o mundo continua sendo um sistema complexo. E, como no Atlântico do século XV, ele não recompensa atalhos.
Quando o problema já não é descobrir – mas compreender
Em Tordesilhas, dividia-se um mundo desconhecido. Hoje, negocia-se um mundo amplamente conhecido – mas profundamente instável. A diferença é que, antes, o desafio era descobrir o caminho. Agora, é não perder a capacidade de compreendê-lo. Porque, no fim, a política externa continua sendo feita por pessoas.
A questão é saber se elas ainda reconhecem os limites entre intuição e realidade – ou se passaram a confundi-los perigosamente.
(*) Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.
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