22 abril 2026

Postei nas redes

Em editorial, Folha de S. Paulo diz que é preciso reformar a Previdência Social, fortalecer o SUS e elevar a produtividade como meios de enfrentar o aumento da população dependente no Brasil, que cresceu 0,9% em 2025, ante 0,1% da faixa etária ativa. Só não disse que é contra todo e qualquer gasto social em nome da preservação dos privilégios do capital financeiro. 

Centrais sindicais entregam pauta a Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/trabalhadores-com-lula.html

Teoria & prática

Releio e anoto
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65   

Não é preciosismo, é interesse mesmo: com frequência retorno aos textos que escrevo ou transcrevo aqui no blog e faço anotações.

Leio e releio o que publico. Anoto. E aprendo sempre.

O blog, assumidamente artesanal, funciona como uma espécie de diário aberto de militante que busca incessantemente associar a teria à prática.

Na internet, tudo é efêmero, mas a consistência do que foi publicado muitas vezes perpetua a informação ou a análise. Daí a “dica de leitura” também incluir, além de livros, referências a artigos publicados no blog.

"Definitivamente, um plebeu provinciano" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_12.html 

Urariano Mota opina

A série “O Testamento” e os herdeiros das Casas Pernambucanas
Reportagem resgata documentos inéditos de 1984 e revela disputa judicial marcada por herança contestada, denúncias de pressão e conflito entre herdeiros fora da narrativa da série.
Urariano Mota/Vermelho     

As notícias falam que a série “O testamento: o segredo de Anita Harley” mostra as desavenças em torno do comando das Casas Pernambucanas que já duram gerações. Mas, caros leitores, as “desavenças que duram gerações” a série não mostra.

Na semana passada, publiquei o texto “A série ‘O Testamento’, as Casas Pernambucanas e o romance. Nele, eu informava que “publiquei no jornal ‘Diga, Olinda’, editado por Ildefonso Fonseca e Ruy Sarinho, reportagens sobre a briga pela herança entre Ornilo Lundgren, um dos filhos naturais do império do patrão, e Nilson Lundgren, em 1984… Mas as reportagens em papel e sem publicação on-line se perderam”.

Pois, amigos leitores, fui ao Arquivo Público de Pernambuco e recuperei com fotos a reportagem. Como diziam os apresentadores de auditório, “temos a grata satisfação de receber”, de mostrar agora a reportagem “A roupa suja das Casas Pernambucanas” em seus principais pontos.   

Publicada em 3 grandes páginas do jornal “Diga, Olinda”, em 31 de agosto de 1984, a reportagem começava já na primeira página:

“Os herdeiros de Frederico Lundgren revelam: ‘Dois trilhões de cruzeiros das Casas Pernambucanas’ são nossos. Cedemos à força o nosso direito de continuarmos à frente dos interesses das Casas. Nossos tios nos obrigaram a vender 25% das ações por 52 milhões de cruzeiros antigos, na base do ‘ou esse dinheiro, ou nada’. Um arrumadinho que deu na maior rede comercial do país.

Da 1ª. Vara de Paulista veio a notícia. Reconhecido o direito dos herdeiros em todos os tribunais brasileiros, a 13 de agosto deste ano o Dr. Antônio de Oliveira e Silva mandou executar perícia e devassa nos papéis das Casas, a fim de que paguem o que devem. Um golpe de morte para os Lundgrens no poder, um golpe de vida para os Lundgrens espoliados.

Foram vinte e dois anos de luta, dentro e fora dos tribunais, contra um poderoso grupo que tudo fez para impedir a vitória dos 22 filhos de Frederico Lundgren.

Ornilo Lundgren, líder dos herdeiros, denuncia: ‘meu primo Nilson Lundgren está vendendo todo o patrimonio iniciado por nosso pai’ …”.

A grande reportagem continuava nas páginas inteiras 4 e 5:

“Seu Ornilo, Lundgren, naturalmente

Seu Ornilo é um homem forte, que já venceu um infarto e uma trombose. Mulato, ombros largos, a sua presença não infunde nenhuma ameaça. Tem um jeito bonachão, de quem está há muito acostumado a tratar as contradições, as diferenças entre as pessoas com um gracejo, um mimo, uma tapinha nas costas. Mas não se confunda isto com frouxidão, moleza: quando é chamado a defender seus interesses ele muda, fecha-se, devolve sem pestanejar….

“Em 1946 meu pai era sócio de todo o grupo, com 25%. Então, talvez ele prevendo a posição que os outros sócios tomariam em relação aos filhos dele, no caso dele morrer, uma vez que a maioria de nós era tupiniquim (aponta a própria pele) – esse racismo desses meus parentes, que é um racismo besta -, meu pai deixou em seu testamento o direito de permanecermos em suas firmas.

As Pernambucanas

As pernambucanas eram 19 mulheres, em sua maioria operárias do Engenho Têxtil Paulista, a quem Frederico Lundgren engravidou. As dezenove, em conjunto, deram-lhe 22 filhos, todos Lundgren, reconhecidos em cartório pelo pai.

Se era um expediente mais ou menos comum, em industriais europeus do século passado, o ato de engravidar operárias que lhes agradassem, a diferença para Frederico Lundgren reside no fato de ele ter aceitado a paternidade de filhos concebidos no exercício da mais-valia.  

Ao mesmo tempo, Frederico Lundgren não teve outros filhos do seu casamento legal, pois a esposa morreu três meses depois da cerimônia. Seus únicos (?) filhos são os 22 naturais, Lundgrens, mulatos fortes, mestiços de Pernambuco. Mas aqui termina o casamento de Casa Grande e Tear.

Negócios

A morte de Frederico João Lundgren, em 25 de fevereiro de 1946, vem surpreender esses Lundgrens mestiços em menor idade. Os tios, possuidores de 75% das ações, não se dão por achado. Pelo contrário, a morte do irmão não lhes poderia deixar melhor oportunidade de empalmarem o resto das ações. Naturalmente, livres de 22 sobrinhos incômodos, filhos ‘ilegítimos’ do velho Frederico, tudo, os sobrinhos, má gente. E fazem então um ‘negócio’.

Através de pressões as mais diversas, na base do ‘ou vocês aceitam esse dinheiro ou nada’, como diriam mais tarde os herdeiros Ornilo e Herculano, trocam os 25% das ações por 52 milhões de cruzeiros antigos. Esse dinheiro foi não só dividido em partes diferentes entre os filhos de Frederico, ao sabor dos diferentes poderes de barganha de cada um dos herdeiros, como também foi uma operação realizada sem a presença de um curador especial dos menores. Ou seja, é um negócio realizado sem obediência sequer a uma elementar e aritmética regra de sociedade. Mas tudo dentro da ‘legalidade’, de papel passado, com amplos e gerais recebimento e quitação dos herdeiros. Pronto: haviam liquidado os haveres de Frederico João Lundgren.      

Aos tribunais

Ornilo Lundgren, um dos herdeiros lesados, descobre na curva dos anos 60 que seu pai havia autorizado a participação dos filhos na direção das empresas do grupo. Isto em testamento. Ornilo parte então na liderança, com os demais herdeiros prejudicados, para tentar anular a liquidação dos bens de Frederico Lundgren. E argumenta: ‘esta venda foi realizada sob ameaças, a preço arbitrado pelos Lundgrens no poder, sem curador que representasse os interesses dos herdeiros menores’. Foi um arrumadinho, e vira a mesa.

Uma noite na Justiça dura vinte e dois anos.

A vitória       

Talvez os próprios diretores das Pernambucanas, ou os Lundgren no poder, como os prefere chamar Ornilo, não acreditassem na vitória dos primos pobres. Afinal, ninguém acorda para um pesadelo.

Que veio, na humilde pessoa de um juiz de Paulista, Doutor Antônio de Oliveira e Silva, que simplesmente deu curso aos autos:

‘… o Direito Brasileiro hoje se encontra repleto de possibilidades para as partes no que tange à procrastinação dos feitos. No caso sob judice, revela por que não dizer, verdadeiro ato de selvageria, marchas e contramarchas têm se procedido, sendo que os fracos cada dia se acham mais fracos, tudo isso devido às chances processuais que são concedidas na aplicação da Lei, especificamente àqueles que contêm o poder econômico em mãos: simples intimações, de alguns instantes, perduram seis meses para sua realização….’ (do início do seu despacho).

Foi um deus nos acuda. Os Lundgren no poder pediram tempo, mais tempo, e seus advogados levantaram suspeição do mui digno dr. juiz da humilde comarca de paulista, arguindo que, de um despacho assim boa coisa não podia vir. Havia certamente tendência, pró-herdeiros filhos ilegítimos. Mas um ano e meio depois, o Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco confirmou a imparcialidade do Dr. Juiz. Num dia 13, de agosto, a bomba estourou: perícia e devassa nos papéis das Casas Pernambucanas”. A reportagem continuou com estimativa das somas bilionárias devidas aos herdeiros espoliados. Mas fico por aqui. Compreendam, por favor: digitar copiando de fotos de celular é trabalho que cansa além da conta.    

Por fim, as notícias até hoje falam que o documentário “O Testamento: O Segredo de Anita Harley” resgata o passado da família Lundgren.  Sério engano. Como veem na reportagem de 1984, não foi bem assim. A história real é mais fascinante. Bem mais, devo dizer. Bens e haveres.   

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Leia também: “Vivos, lúcidos e ativos" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/04/minha-opiniao_18.html 

Trump rejeitado

Popularidade de Trump segue baixa em meio a guerra e ataques ao papa
Pesquisa Reuters/Ipsos mostra que mandatário dos EUA tem 62% de rejeição. Além disso, apenas 26% o consideram mentalmente equilibrado
Priscila Lobregatte/Vermelho 
    

O presidente dos EUA, Donald Trump, segue com sua popularidade no nível mais baixo de seu mandato. Segundo levantamento Reuters/Ipsos, divulgada nesta terça-feira (21), 62% dos estadunidenses o rejeitam; 36% aprovam seu desempenho.

O levantamento foi concluído na segunda-feira (20) e feito em meio aos impasses em relação cessar-fogo com o Irã e aos embates do mandatário com o papa Leão 14.

A guerra promovida pelos EUA contra o Irã tem apenas 36% de aprovação — índice que se manteve estável ante pesquisa Reuters/Ipsos feita entre 10 e 12 de abril.

A pesquisa também mediu como os estadunidenses avaliam a lucidez do republicano, tema que tem emergido entre as preocupações de correligionários e da sociedade em geral.

Fatos como destemperos em relação ao papa, publicação de memes considerados ofensivos à fé católica e rompantes como quando disse que aniquilaria a civilização persa acabando com o Irã contribuíram para essa impressão — embora o comportamento do presidente possa ser facilmente identificado com posturas clássicas de fascistas.

Segundo a pesquisa, apenas 26% dos cidadãos o consideram “equilibrado”. Entre os republicanos, 46% não o consideram equilibrado, enquanto 53% acham que ele é. Apenas 7% dos democratas têm opinião positiva sobre a saúde mental de Trump.

A pesquisa mais recente foi feita com 4.557 adultos em todo o país, de maneira online e tem margem de erro de dois pontos percentuais.

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A disputa entre tradições rivais da direita americana https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/eua-direita-dividida.html

Uma crônica de Ruy Castro

Carmen assombrou a Broadway
Carmen Miranda foi para os EUA em 1939 por seu talento, não pela política da Boa Vizinhança. Mas a ideia errada de que a contrataram por causa da Segunda Guerra continua a ser repetida
Ruy Castro/Folha de S. Paulo     

Entre os vídeos com que a internet me mimoseia regularmente, recebi um outro dia sobre Carmen Miranda. E, como em tantas publicações sobre Carmen, sou informado de que ela foi para a América em março de 1939 por uma manobra da política da Boa Vizinhança, o plano dos EUA para bajular os países latino-americanos e compensar a perda dos mercados europeus pela Segunda Guerra Mundial. Ou seja, Carmen foi para lá por uma conveniência política, não por seu talento. É mesmo?

Vejamos. Em março de 1939, o zilionário americano Nelson Rockefeller ainda não tinha vendido ao presidente Roosevelt a ideia de um intercâmbio cultural para nos seduzir —só faria isto em junho de 1940. Em março de 1939, os EUA também ainda não tinham entrado na guerra, o que só aconteceria em 7 de dezembro de 1941, depois do bombardeio de Pearl Harbor pelo Japão. E, finalmente, em março de 1939, nem a Segunda Guerra havia começado, o que ainda teria de esperar até setembro daquele ano de 1939. Portanto, se não havia política da Boa Vizinhança, os EUA não estavam em guerra e sequer havia a guerra, por que levaram Carmen para lá?

Porque, no Carnaval de 1939, Lee Shubert, o maior empresário teatral dos EUA, estava no Rio. Foi ver Carmen no Cassino da Urca e, confirmando o que amigos americanos aqui residentes haviam lhe dito, ela tinha mesmo tudo para ser um sucesso na Broadway. Então contratou-a, levou-a para Nova York e, na noite de 8 de junho, assim que Carmen adentrou o palco no musical "Streets of Paris", ele se certificou de que tinha descoberto, não uma estrela, mas uma superestrela.

Tudo isso está contado com detalhes, inclusive os termos do contrato, os valores e as condições, em meu livro "Carmen – Uma Biografia", publicado há alguns anos. Para isso, consultei toda a papelada do Arquivo Shubert em Nova York.

Mas meu amigo Carlos Heitor Cony já tinha me advertido: "Não adianta, Ruy. A gente escreve, escreve e escreve, e ninguém toma providências". Cony tinha razão. Por que contrariar uma ideia feita, mesmo que falsa?

[Ilustração: Discos, fotos, publicações e uma escultura de Carmen Miranda pelos americanos - Heloisa Seixas]

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Planos a longo prazo, sim https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_4.html 

Sylvio: destaque

A presença do presidente Lula na Europa falando de igual para igual, pedindo o fortalecimento da ONU como instituição responsável pela paz mundial e criticando as ações de guerra promovidas por Trump, mostra que o Brasil trilha o caminho certo e volta a ocupar lugar de destaque no cenário internacional.

Sylvio Belém     

Um mundo em transição https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Visões de mundo díspares

O imperador e o Papa (leitura do que está por trás das palavras)
Marcelo Barros*/Causas da vida    

Nesses dias, o papa Leão XIV concluiu sua primeira viagem missionária que o levou a três países da África. No entanto, o que mais ocupou a imprensa não foi o que o papa falou aos irmãos e irmãs africanos e sim o confronto entre o papa e o presidente dos Estados Unidos. O papa pronunciou-se a favor da paz e contra as guerras. O imperador reagiu conforme o seu estilo, com insultos e ameaças.

Leão XIV respondeu que pronunciou-se como pastor e não como político. Sem dúvida, essa foi sua intenção. No entanto, na realidade, ele é chefe de Estado do Vaticano, única monarquia absoluta do Ocidente. Trump nunca se preocuparia em responder à sua provocação se Leão XIV fosse apenas um líder religioso. A arcebispa primaz da Igreja Anglicana fez um pronunciamento pela paz e a favor da guerra. O Dalai Lama, chefe do Budismo Tibetano, ou o Patriarca Bartolomeu, líder das Igrejas orientais, ou qualquer outro líder religioso podem dizer e publicar o que quiserem. Trump não se preocupará em responder. Respondeu a Leão XIV, porque esse é chefe de Estado e o seu pronunciamento repercute na ONU. 

Até hoje, muitos irmãos do clero e da hierarquia, assim como grupos católicos continuam a pensar a Igreja como Cristandade, para a qual, o poder político, mesmo que seja apenas simbólico, pode facilitar a missão. É pelo fato do papa ser chefe de Estado que existem as “concordatas” entre o Vaticano e países laicos que possibilitam privilégios ao clero.

De fato, como bom frade agostiniano, Leão XIV sabe que, no século IV, Santo Agostinho (354-430 d.C.) concebe o Estado (Cidade dos Homens) como instituição, naturalmente, violenta. Diz que essa violência é necessária, por causa da natureza pecaminosa do ser humano. Para Agostinho, a violência inerente ao Estado é “remédio necessário” (benigna asperitas) para manter a ordem e conter a maldade humana. Assim, Agostinho defende a "guerra justa". Conforme essa visão, torna-se normal que o Papa considere-se mensageiro da paz, mas tenha, em torno de si, uma guarda armada e, em todo lugar onde chega, seja recebido com honras militares e acompanhado por escolta militar.

Em fevereiro de 2016, o saudoso Papa Francisco desembarcou no México, para a sua 12ª viagem missionária. Menos de dois anos antes, tinha acontecido o desaparecimento de 43 jovens, estudantes de uma escola rural em Iguala, estado de Guerrero.  Quando o papa chegou ao México, um grupo de mães que ainda procuravam os corpos de seus filhos pediu que o papa as recebessem para uma oração e para chamar a atenção do mundo para o que tinha acontecido. O Papa Francisco teve de responder que não podia recebê-las, porque o governo mexicano consideraria interferência de um chefe de Estado estrangeiro na política mexicana.

Infelizmente, poucos irmãos e irmãs, mesmo entre aqueles e aquelas que fazem parte da caminhada de libertação percebem que, enquanto a hierarquia católica insistir nessa forma de organização monárquica não superará o modelo medieval de Cristandade Colonial e não terá liberdade para exercer sua missão profética, nem parecerá coerente ao pregar a Paz.

Em 1966, portanto há 60 anos, logo depois do Concílio Vaticano II, Dom Helder Camara percebia isso. Escreveu ao Papa Paulo VI, propondo que o papa renunciasse a ser chefe de Estado, entregasse o Vaticano a ONU e voltasse a morar na Igreja de São João de Latrão, antiga residência do bispo de Roma. Alguns dias depois, recebeu uma resposta assinada pelo Cardeal Villot, secretário de Estado do Vaticano: “Excelência Reverendíssima, Sua Santidade, o Papa, recebeu a sua carta e lhe agradece. Mas, recorda a Vossa Excelência que não  estamos mais na época do Evangelho[1].

Hoje, seria importante que todos os irmãos e irmãs que, nesses dias solidarizam-se com o Papa Leão XIV pelo ataque injusto que sofreu, o ajudassem a assumir o que o Papa Francisco afirmava: A Cristandade morreu e pudesse tirar disso as consequências que o próprio Francisco não pode tirar.

O Papa Leão XIV sabe que tanto o genocídio perpetrado pelo governo sionista de Israel contra o povo palestino, como a guerra do império dos Estados Unidos contra os países que tentam ser independentes do império são guerras santas. Têm objetivos sociais, econômicos e políticos, mas movem-se por uma mística religiosa. O primeiro ministro de Israel chama o povo do Irã de amalecitas e pretende executar, hoje,  a ordem que, conforme o livro de Josué, Deus teria dado a Israel, de exterminar os cananeus. Do mesmo modo, os governantes  dos Estados Unidos, convertidos à fé bíblica e convencidos pelo dinheiro de bilionários sionistas, estão convencidos de que o seu país representa o novo povo eleito de Deus, encarregado de destruir os ímpios e estabelecer na terra o reino messiânico.

Infelizmente, durante toda a história da humanidade e até hoje,  o fator religioso tem mais provocado guerras e violências do que paz. Das mais de 50 guerras que, hoje, assolam a humanidade, mais da metade conta com o elemento religioso como um de seus componentes. Católicos e evangélicos continuam a se combater na Irlanda do Norte. Em algumas regiões da Turquia, a luta é entre ortodoxos e muçulmanos. Na Palestina, o Estado de Israel comete o genocídio contra os palestinos em nome do Judaísmo bíblico. No sul da Índia, conflitos opõem hinduístas e muçulmanos.  Cristãos e muçulmanos enfrentam-se em alguns países da África, sem falar na perseguição às religiões tradicionais por cristãos fundamentalistas, em vários países latino-americanos (nessa violência religiosa, o Brasil é campeão).

Também precisamos ler por trás das palavras o que, nessa controvérsia, afirmou Trump. Este respondeu ao papa que apenas cumpria a sua função de Presidente dos Estados Unidos. Foi como se dissesse: Eu apenas executo a política que o governo dos Estados Unidos planeja.

Nesse ponto, ele tem razão. Está, apenas, cumprindo o que reza o Documento Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos (National Security Strategy - NSS), divulgado em 18 de dezembro de 2017, aprovado por todas as instâncias de governo do império. Esse documento mudou radicalmente a política externa do governo dos Estados Unidos. Tirou a máscara democrática, que antes o império usava contra o Comunismo. Jogou no lixo a preocupação com direitos humanos, que, antes, o mesmo governo usava como pretexto para intervir em outros países e suscitar ditaduras militares. Decidiu desrespeitar até as regras do neoliberalismo, que ele próprio promovia e passou a intervir no mercado com sansões contra todos os que lhes oferecerem qualquer resistência. É a execução concreta do lema: "America First" (América Primeiro)[2]

Trump faz isso do seu modo, histriônico, exibicionista e agressivo. Mas, de fato, como presidente dos Estados Unidos é símbolo do império. Quem manda mesmo é o sistema financeiro e a direita internacional. Eles foram responsáveis por sua eleição e estão por trás de suas palavras e ações. Enquanto as pessoas continuarem atribuindo a Trump a culpa por todas essas desumanidades, a elite econômica e agências de notícia dos Estados Unidos podem continuar tranquilas e planejar a próxima crueldade contra a humanidade e o planeta Terra, que ocupam apenas para explorar.

Não há saída para a paz e a fraternidade humana, se insistimos na Cristandade colonial e em falar de um Deus como todo-poderoso, que premia os bons e castiga os maus. Só a libertação na direção da espiritualidade das Igrejas locais possibilitará no mundo e nas Igrejas uma cultura de paz, baseada na recomendação que, em 1968, ao tratar da juventude, na conferência de Medellín, os bispos católicos latino-americanos afirmaram:  “que, na América Latina (hoje, podemos acrescentar: e no mundo inteiro) apresente-se a Igreja com o rosto de uma Igreja pobre, despojada dos meios de poder, missionária e pascal, consagrada à libertação de toda humanidade e de cada ser humano, em todas as suas dimensões pessoais” (Med. 5, 15).

[1] - Cf. BARROS, Marcelo. Não deixe cair a profecia. A herança de Dom Helder Camara para a humanidade do século XXI. Recife, 2022, p. 149. CASTRO, Marcos de. Dom Helder: misticismo e santidade. Rio de Janeiro:  Civilização Brasileira, 2002, pp. 202- 206. ;

[2] - FIORI, José Luis. A síndrome de Babel e a disputa do poder global. Petrópolis: Vozes, 2020.

Marcelo Barros é monge beneditino, escritor, assessor de movimentos populares e no diálogo entre as religiões, biblista e doutor em ciências da religião.

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Caminhos tortuosos da vida https://lucianosiqueira.blogspot.com/