A política do espetáculo
Estética ganha dimensão de poder e controle cultural para legitimar
narrativa de Trump e seus asseclas
Adriana Ferreira da Silva/Liberta
Preso à
poltrona de um avião, Nicolás Maduro aparece algemado, vendado, com os ouvidos
cobertos por um fone. Suas mãos apertam uma garrafa d’água de plástico,
reforçando a ideia de fragilidade. Numa sala que simula um bunker, Donald
Trump fixa a tela à sua frente com os olhos semicerrados. O semblante tenso dos
homens que o cercam reforça o clima de suspense.
Em cortes
feitos para viralizar, as cenas mostrando a humilhação do primeiro e a vitória
do segundo reafirmam um modelo de gestão baseado no espetáculo da força bruta.
No show de Trump, ele encarna o xerife, numa encenação de valentia em
detrimento do trabalho burocrático e deliberativo de leis e instituições como o
Congresso e as organizações multilaterais.
Aqui, a
estética ganha uma dimensão central de poder e controle cultural, com o
objetivo de legitimar a narrativa do presidente e de seus asseclas. “Trump é um
líder do passado. Sua promessa política singular é: ‘Vou levá-los de volta a um
passado imaginário – antes de tudo isso acontecer, antes de todas as coisas
ruins do passado acontecerem, antes de vocês se sentirem desconfortáveis, antes
de sentirem medo do que poderia acontecer com vocês, antes de sentirem medo de
serem alienados de seus filhos. Vai ser acolhedor e confortável, exatamente
como você imagina que o passado tenha sido’”, diz Masha Gessen, jornalista e
ativista em causas LGBTQIAP+, de origem russa.
Entre os
livros que Gessen publicou, estão O Homem Sem Rosto: A Improvável
Ascensão de Vladimir Putin (Ed. Intrínseca), Surviving
Autocracy (Sobrevivendo à Autocracia)
e The Future Is History: How Totalitarianism Reclaimed Russia (O
Futuro É História: Como o Totalitarismo Recuperou a Rússia, em
tradução livre), com o qual venceu o National Book Award, em 2017, principal
prêmio literário dos Estados Unidos.
(Por se
identificar como uma pessoa trans, não binária, ao longo do texto, Gessen
receberá tratamento neutro.)
Propaganda
do ato
Numa
entrevista ao podcast Ezra Klein Show, Gessen concentra-se na dimensão do
espetáculo e do que chama de “propaganda do ato”, na qual o Estado opera por
meio de choques visuais para redefinir a realidade.
Realidade que,
nos Estados Unidos, é moldada pela ascensão ao poder do que Naomi Klein batiza de
mundo-espelho no livro Doppelgänger – Uma Viagem Através do
Mundo-Espelho (Ed. Carambaia). Segundo a jornalista canadense,
nessa versão invertida da vida em sociedade, fato e ficção se misturam numa
existência alternativa, em que as coisas mais absurdas passam a fazer sentido e
onde a verdade é distorcida e manipulada.
No mundo-espelho,
Maduro infestou os Estados Unidos de pessoas saídas de instituições de saúde
mental e delinquentes, a poeta Renee
Nicole Good foi assassinada por tentar atropelar um agente
do ICE (forças policiais que perseguem imigrantes) e os integrantes do Partido
Democrata são responsáveis por uma rede de pedofilia. Deu para entender, né?
Tendo as redes
sociais como plataforma perfeita de disseminação, o mundo-espelho desenhado por
Donald Trump e pelo movimento MAGA (Make America Great Again) inclui essa nova
modalidade de governança na qual Trump tudo pode para que os estadunidenses
retornem a “gilded age”, como é chamado o período de crescimento econômico e
industrialização no final do século 19 e início do 20, pouco importando as
profundas desigualdades de gênero, raça e classe dessa mesma época.
De acordo com
Gessen, a promessa de riqueza da “era de ouro” é acompanhada de uma “barganha
totalitária” similar à usada por Vladimir Putin na Rússia. Quando o líder já
não pode garantir o bem-estar econômico individual, ele oferece em troca a
glória imperial: você pode ser pobre, mas fará parte de uma nação que toma a
Groenlândia ou subjuga a Venezuela. É a troca do conforto pela grandeza bélica.
Para
corroborar essa volta aos tempos áureos, a estética trumpista inclui desde a
reforma neoclássica, que encheu de dourado o salão oval da Casa Branca, à
desqualificação de qualquer pessoa que não se enquadre no padrão de “raça pura”
europeia, incluindo estadunidenses de ascendência africana, asiática ou latina.
Nas recentes incursões da polícia migratória em Minneapolis, há relatos de
perseguição a cidadãos dos Estados Unidos devido à cor da pele e outras
características físicas.
“Esteticamente,
uma representação desse passado é a arquitetura clássica. É uma história
americana inteiramente branca. São os grandes monumentos e tudo o mais que ele
[Trump] prometeu trazer de volta”, diz Gessen. A outra perspectiva, explica, é
a afirmação de uma raça superior. “Essa é a outra dimensão do fascismo. E,
esteticamente, ela está muito presente. Raça pode ser definida de maneiras
diferentes, mas o que vemos são homens cisgêneros brancos em excelente forma
física. Esse é o ideal deste governo.”
Vírus da fraqueza
A obsessão com
o vigor físico não é apenas vaidade. Para Gessen, a ideologia do governo vê a
empatia, os direitos humanos e a deliberação democrática como um “vírus de
fraqueza”, que teria infectado a sociedade, impedindo a “vitalidade natural” de
conquista e dominação masculina, que, na visão deles, fez a “América grande”
originalmente.
É claro que,
como em todo Estado autoritário, essas pessoas estão longe de tal modelo. Uma
demonstração é o ensaio publicado
na edição de dezembro da revista Variety com personagens da alta cúpula do
governo Trump, como o vice-presidente JD Vance, o secretário de Estado Marco
Rubio, o conselheiro Stephen Miller e a secretária de imprensa Karoline
Leavitt.
Deslocados,
mal posicionados ou retratados em closes que evidenciaram poros, imperfeições e
procedimentos estéticos – o preenchimento labial de Karoline recebeu comentários
cruéis –, as fotos expunham o ridículo daquelas figuras. Rodaram o mundo como
exemplo de desconstrução de imagens de controle que esses personagens tentam
estabelecer, graças ao talento do fotógrafo Christopher Anderson.
Junto à
espetacularização das demonstrações de autoridade externas e internas (como a
federalização da Guarda Nacional em estados governados por democratas, como a
Califórnia), Gessen destaca a “propaganda do ato”. O termo se refere a uma
tática anarquista do início do século passado, que considerava que ações muitas
vezes violentas e espetaculares poderiam romper com a normalidade social e
mostrar que o Estado não tem o poder que se imagina.
Na versão
trumpista, o cerco à Venezuela, os ataques a embarcações sob a justificativa de
estarem à serviço do tráfico de drogas e o sequestro de Nicolás Maduro, bem
como o assassinato de Renee Nicole Good pela repressão estatal, cumprem o papel
de mostrar ao mundo e aos próprios estadunidenses que o líder “não está para
brincadeira”.
Junta-se a
essa estratégia uma sucessão ininterrupta de eventos para dominar o debate
público numa velocidade alucinante, que, segundo Gessen, é a forma como a
autocracia “hackeia” o sistema. Para ele, a democracia é, por desenho, lenta e
deliberativa. Ao acelerar a produção de crises e espetáculos, o regime impede
que as instituições de arbítrio tenham tempo hábil para reagir, tornando a
opinião pública e a checagem de fatos irrelevantes.
Por tudo isso,
Gessen é pessimista quanto às consequências dessas e de outras ações nas
eleições de meio de mandato deste ano, nos Estados Unidos. Até lá, quem ainda
vai se lembrar de Maduro ou Renee?
O jogador, sua aposta e a desordem mundial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eua-e-ordem-mundial-fissurada.html