11 julho 2026

Palavra minha

Qual pecado?
Luciano Siqueira  

Viveu 93 anos sem jamais ter feito mal a ninguém. 

Se alguma vez pisou numa formiga foi absolutamente inconsciente. Não viu. 

Assim mesmo costumava se confessar católica praticante que era. 

— Mamãe, vai dizer o quê ao padre se a senhora não faz mal a ninguém? 

— Eu tive uma raiva, meu filho. Acho que é pecado. 

Assim era Dona Oneide, viúva, nos criou aos quatro filhos com muita determinação, paciência e bom senso. 

Uma santa.

Se comentar, identifique-se.

"Leitura do não escrito" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-palavra.html

10 julho 2026

Palavra de poeta

Segue o teu destino

Fernando Pessoa    

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nos queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-proprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

[Ilustração: Marc Chagall]

"Estarei errado em minhas escolhas?" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_23.html 

Editorial do 'Vermelho'

Ofensiva de Trump na América Latina eleva importância de reeleição de Lula
Ingerência nas eleições peruanas e colombianas indica necessidade de forte defesa da soberania brasileira
Editorial do 'Vermelho' www.vermelho.org.br 

As proclamações das vitórias da extrema direita no Peru e na Colômbia decorrem do processo de luta de classes nesses países, mas tiveram forte ingerência do governo Donald Trump. O embaixador estadunidense no Peru, Bernie Navarro, declarou que estava “monitorando o processo eleitoral até a divulgação dos resultados oficiais”, interferência que motivou uma petição da oposição ao governo peruano para que ele fosse declarado persona non grata. Ele anunciou também que lideraria pessoalmente uma equipe de “observadores” dos Estados Unidos.

Navarro também divulgou falsa interferência cubana nas eleições, apresentando como única prova um cidadão cubano naturalizado que pôde votar pela primeira vez e trabalhar em uma seção eleitoral. E acusou a China de atuar no país, citando o megaporto de Chancay, um complexo ultramoderno e o primeiro terminal totalmente automatizado da América Latina, construído pela estatal chinesa Cosco Shipping, que transforma o Peru no principal ponto logístico do Pacífico Sul e reduz significativamente o tempo de transporte de cargas até a Ásia.

O Pentágono respondeu destinando US$ 1,5 bilhão para modernizar a infraestrutura de uma base naval peruana. Washington está pressionando para que o Peru seja designado um “grande aliado não pertencente à OTAN”, integrando as forças armadas peruanas em exercícios conjuntos e compartilhando equipamentos. Uma decisão ratificada pelo Congresso, hegemonizado pela direita, autorizou a presença de tropas estadunidenses em território peruano.

O pano de fundo é o potencial do Peru, o terceiro maior exportador mundial de cobre, mineral crucial para a produção de veículos elétricos e tecnologia militar. A China é, de longe, seu principal comprador, num país com cerca de 30% da população vivendo na pobreza e a maioria da classe trabalhadora atuando no chamado setor informal, sem benefícios, aposentadorias ou proteções básicas. Aproximadamente 43% dos trabalhadores estão subempregados.

Na Colômbia, a ingerência também foi aberta. O candidato anunciado como vencedor, Abelardo De la Espriella, da extrema direita pediu ao governo dos Estados Unidos que monitorasse o processo eleitoral, conforme declarações do ex-presidente George W. Bush e do subsecretário de Estado, Christopher Landau. Trump declarou publicamente seu apoio a Espriella e afirmou que ele teria apoio total dos Estados Unidos.

O presidente colombiano, Gustavo Petro, e o então candidato Iván Cepeda denunciaram a interferência. “Quando um país interfere nas decisões de outro, a liberdade morre. Convido toda a Colômbia a votar livremente e a não se tornar escrava ou colônia de ninguém”, afirmou Petro.

A extrema direita brasileira também apoiou Espriella. No final de maio, durante uma viagem aos Estados Unidos para se encontrar com Trump, Flávio Bolsonaro conversou com ele por videochamada, com a participação de seu irmão, o foragido Eduardo Bolsonaro. Discutiram a formação de uma “frente antiesquerda” na região e, após a ligação, Espriella publicou uma mensagem em suas redes sociais referindo-se a Flávio Bolsonaro como o futuro presidente do Brasil.

Esse procedimento imperialista ocorreu também na Argentina, no Chile, na Bolívia, em Honduras, além do bloqueio energético criminoso a Cuba, sob constante ameaça de intervenção militar, e a ação bandoleira que sequestrou o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. E anuncia-se como ameaça às eleições brasileiras, como já ocorre com as confabulações dos Bolsonaro com Trump, em sucessivos tarifaços contra o Brasil.

Tentar impedir a reeleição de Lula passa a ser grande batalha da marcha forçada do trumpismo, pela importância do Brasil na geopolítica e pelo seu peso na economia mundial, a mais importante referência da América Latina e do Caribe. Lula representa à resistência que vem do ciclo iniciado com a eleição de Hugo Chávez para presidente da Venezuela em 1998. Eles, o então presidente da Argentina, Néstor Kirchner, e outros, numa cúpula em Mar del Plata, em 2005, enterraram o projeto neocolonialista estadunidense de Livre Comércio das Américas (ALCA) e fizeram avançar o processo de integração.

A ofensiva estadunidense tem como carro-chefe a retórica “antiterrorista”, de “combate ao narcotráfico, um ardil propagandístico, violando a soberania dos países da região inclusive com a infiltração de agentes, como ocorre no México com certa recorrência, conforme tem denunciado o governo da presidente Claudia Sheinbaum. Ela declarou que, na semana passada, houve mais uma ação clandestina, uma operação do FBI para supostamente combater o narcotráfico no país.

Trump tenta reverter o declínio Estados Unidos à força, como ocorre com a retomada da guerra contra o Irã, e obstruir o direito dos países de diversificarem a política externa e comercial, sobretudo com a China e a Rússia. Suas vitórias na região não significam que a capacidade de luta e resistência democrática e patriótica tenha perdido vigor.

Apesar da diplomacia brutal e das ameaças econômicas, políticas e militares, a resistência cresce na região. Na Bolívia, uma grande mobilização popular reage às políticas do presidente Rodrigo Paz Pereira. Na Argentina, o ultraneoliberalismo de Javier Milei também enfrenta forte contestação popular. No Chile, as manifestações enfrentam os cortes drásticos nos gastos sociais, as medidas de austeridade econômica e as propostas de perdão a militares condenados por crimes contra a humanidade pelo presidente José Antonio Kast.

As eleições no Brasil vão se configurando cada vez mais como um duelo decisivo para os destinos do povo e do país e para a geopolítica, sobretudo na América Latina e Caribe, explicitamente ameaçados pelo chamado “corolário Trump” e sua doutrina de segurança nacional. O interesse dos Estados Unidos é claramente de domínio econômico, para se apossar das riquezas locais, impondo sua presença militar. A crise da hegemônica neoliberal na região gerou um consenso progressista, que sofre revezes, mas pode também ser a base de apoio para uma resistência mais ampla ao imperialismo e ao perigo do neofascismo trumpista.

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Pesquisa mostra Lula à frente em todos os cenários para 2026 https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/bons-sinais.html

Humor de resistência

 

Aroeira

O silêncio seletivo da grande mídia e a blindagem de Flávio Bolsonaro na engrenagem da “Lava Jato 2.0” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/conspiracao-midiatica.html 

Minha opinião

Como assim?
Luciano Siqueira   

Como assim, especialista em frustração? Creio que ouvi hoje no rádio conselhos aos simples viventes — sou um destes — ocasionalmente derrubados por algum fracasso.

A abordagem parece abrangente, alcança frustrações financeiras, emocionais e amorosas.

Tudo bem. Mas me custa acreditar que conselhos genéricos possam apaziguar o espírito quando algo importante naufraga.

Mas não me surpreende a presunção do “especialista” que tem a coragem de se expor assim.

Lembra um tal "professor Saturno", que encontrei no interior de Alagoas nos anos setenta, Luci e eu na militância clandestina.

Era um negro forte, que estatura mediana, terno branco, um simulacro de pedra preciosa à altura da testa, num turbante.

Na feira logo se formou uma aglomeração em torno do dito cujo, que com a serenidade dos enrolões distribuiu cinco senhas para acesso gratuito a “consulta” numa pensão próxima, onde por um valor acessível a todos receberia as pessoas interessadas em compreender melhor seu passado, seu presente e seu futuro. 

Tudo isso na maior cara de pau. 

As pessoas disputaram as senhas e meia hora depois fomos até próximo da pensão, onde já se fazia uma fila razoável. 

Vivo ainda fosse o tal vidente, provavelmente estaria prestando seus serviços online, pelo Instagram ou mesmo pelo WhatsApp, o pagamento pelo pix. 

Talvez seja assim que opere cotidianamente a dona da voz feminina dita especialista em frustrações. 

Suponho ser uma profissional (psicóloga, psiquiatra ou pedagoga), quem sabe, ela própria experiente na superação dos desagrados da vida. 

Antigamente, no auge dos jornais impressos, se dizia que "papel aceita tudo”. Hoje, o mesmo acontece através das diversas formas de comunicação digital, pela TV e pelas sempre poderosas ondas do rádio. 

É a vida.

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Leia também: “O fascínio da lata de sardinhas” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/minha-opiniao_2.html 

Palavra de Carlos Marinho

Faz escuro mas eu canto
Carlos Alberto Marinho*/Jornal O Poder 

Como disse o poeta Thiago de Melo, “faz escuro, mas eu canto”. Foi sob esse espírito que evoquei a minha casa, adquirida há cerca de 46 anos no SHO, aprimorada, preservada e cuidadosamente conservada ao longo de toda essa trajetória. Escrevi textos sofridos sobre suas fechaduras, suas portas e suas janelas, em um canto triste e, ao mesmo tempo, resistente, diante da ausência de reconhecimento, pelos órgãos de preservação, do esforço exemplar empreendido para manter a salvo esse patrimônio e a história que ele abriga.

Entretanto

Apesar da escuridão a que ainda me vejo submetido, continuo a cantar. Canto não apenas pela casa e por sua memória, mas também pelo reconhecimento que recebo daqueles que me cercam, observam e admiram a dedicação, a perseverança e o compromisso com a preservação. Se o reconhecimento oficial tarda, permanece vivo o reconhecimento humano, cotidiano e sincero — e é nele que encontro a força para seguir cantando.

*Carlos Marinho é médico e morador de Olinda desde sempre.

NR - Carlos comprou uma casa em ruínas, há muitas décadas, restaurou com esmero. O imóvel foi elogiado nacionalmente e apontado pelo Iphan como referência para cidades históricas. Agora, coincidentemente após criticar as gestões Lupércio/ Mirella, que estão devastando a cidade histórica, vem enfrentando a má vontade absurda do órgão municipal que controla o patrimônio histórico. Uma pena que, enquanto casarões desabam por descuido, quem zela seja alvo de perseguições. Ao médico, a solidariedade de O Poder.

[Imagem: Dudo Gomes]

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo. 

Leia também: "O Recife escrito nas ruas", crônica de Celso Pinto de Melo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/uma-cronica-de-celso-pinto-de-melo.html 

Dica de leitura

Oliver Stone e A História não contada dos Estados Unidos
Em 2015, o cineasta estadunidense, Oliver Stone, escreveu um livro para contar a seus filhos a verdadeira história dos Estados Unidos, de sua expansão imperial, das agressões, guerras e crimes contra os outros povos e contra os próprios trabalhadores do país. Em fins de 2016, Stone coroa essa denúncia lançando o filme Snowden, imperdível, porque desnuda completamente a política de poder imperial dos Estados Unidos. Aqui, a resenha do livro.
Carlos Azevedo*/Vermelho  
 
 

Autor de filmes emblemáticos sobre a história recente dos Estados Unidos, como Nascido em 4 de julho, Platoon, JFK, Wall Street e outros, Oliver Stone lutou na guerra do Vietnã. Diz que ficou espantado com o que os professores estão contando para seus filhos na escola, que, aliás, continua a ser o mesmo que ele havia aprendido em seu tempo de estudante: “Nós americanos éramos o centro do mundo. Havia um destino manifesto e nós éramos os mocinhos”. O cineasta juntou-se ao respeitado professor de História Peter Kuznick e, após uma pesquisa de cinco anos, a dupla fez um documentário e um livro com esta história não contada do seu país. Escrito em linguagem simples, tem como alvo imediato o público jovem norte-americano.

O que os autores fazem é mostrar a distância entre os acontecimentos relativos à política expansionista e hegemonista dos EUA e as fabulações criadas para justificar e enquadrá-los dentro da ideologia da missão divina concedida (sic) por Deus aos EUA para levar aos outros povos o cristianismo, a democracia e o livre mercado.

No livro, retratam uma política de Estado que, desde as origens, orienta e sustenta um empresariado sedento por concorrer com os impérios coloniais da Grã Bretanha, da França, Alemanha etc. Depois de anexar metade do México, inicia o século XX incorporando as Filipinas, Guam, Pago Pago, Ilha Wake, Atol Midway, Havaí e Porto Rico e reivindicando o controle sobre Cuba. Participa da 1ª. Guerra Mundial para romper o protecionismo das grandes nações e abrir os mercados para seus negócios enquanto impõe altas tarifas para importação. No plano interno, esmaga o movimento operário e sindical com grande violência, suborno e legislação restritiva e persegue ferozmente as associações e aspirações socialistas até reduzi-las à insignificância.

Simpatia pelo nazismo

O livro descreve e apresenta documentos sobre a simpatia e a colaboração dos grandes banqueiros e empresários norte-americanos com Hitler e o governo nazista. Ford, GM,Standard Oil, Alcoa, ITT, GE, Dupont, Kodak, Westinghouse e muitas outras empresas continuaram a fazer negócios com os nazistas até 1941. Ford e GM até aceitaram converter suas fábricas instaladas na Alemanha para a produção de armas. Banqueiros continuaram a negociar com os alemães durante toda a guerra. 

Inglaterra, França e EUA se faziam de surdos aos insistentes apelos da URSS de Stalin para formarem uma aliança contra a Alemanha, e, ao mesmo tempo apresentavam apenas débeis protestos aos avanços das tropas de Hitler e Mussolini ocupando outros países (Etiópia, Austria, Thecoslovaquia, Sudetos etc). E vendiam armas a Franco para esmagar o governo republicano espanhol.

Para os autores, EUA e seus aliados fizeram muito pouco para auxiliar “a desesperada comunidade judaica-alemã quando em 1938 uma orgia de violência se desencadeou.” Em 1939, quando Hitler descumpriu os acordos feitos com a França e Inglaterra e invadiu a Thecoslovaquia sem qualquer reação, Stalin, certo de que a URSS estaria sozinha na luta contra o nazismo, procurou ganhar tempo para se armar, assinou o pacto de não agressão com a Alemanha, desviando o rumo da guerra para o Oeste. Em seguida, numa rápida sucessão, o exército alemão conquistou a Dinamarca, Noruega, Holanda e Bélgica. Em junho de 1940, a França desmoronava, com a maior parte de sua classe dominante optando pela colaboração com os nazistas.

Em 1941, diante dos apelos do primeiro-ministro da Inglaterra, Winston Churchill, para os EUA entrarem na guerra contra a Alemanha, Franklin Roosevelt declarou: “Acredito que falo como presidente dos Estados Unidos quando digo que não ajudaremos a Inglaterra nessa guerra se for para eles continuarem a tratar com arrogância os povos coloniais”. Suas palavras significavam que os EUA queriam em troca ter livre acesso aos mercados até então sob o domínio imperial inglês.

Mas Roosevelt havia prometido ao seu povo que não mandaria os jovens norte-americanos para morrer na guerra europeia e precisava de um pretexto para descumprir a promessa. Com o ataque do Japão à base norte-americana de Pearl Harbor, no Havaí, o pretexto estava dado.

Heroísmo estóico da URSS derrotou Hitler

Atacada com ferocidade pelo exército alemão, a URSS clamou em vão pela abertura de um segundo front na Europa durante três anos. Sob influência de Churcill, as tropas aliadas foram desviadas para a África, frente secundária, mas de interesse da Inglaterra para a defesa de seu império (e de seu petróleo no Oriente Médio). A invasão da Normandia só aconteceu depois que o Exército da URSS, numa façanha inacreditável, havia destroçado a até então invencível máquina de guerra alemã, e marchava celeremente para Berlim. Ameaçava tomar controle da segunda maior base industrial e tecnológica do planeta, o que seria desastroso para os interesses dos capitalistas norte-americanos e ingleses. Os autores dizem: “Ainda que susbsista o mito de que os Estados Unidos venceram a 2ª. Guerra Mundial, importantes historiadores concordam que foi a União Soviética e toda sua sociedade, incluindo Josef Stalin, seu brutal ditador, que por meio do absoluto desespero e do heroísmo incrivelmente estóico, forjaram a grande narrativa da 2ª. Guerra Mundial: a derrota da monstruosa máquina de guerra alemã”.

A economia dos EUA quase dobrou durante a guerra, apoiada na indústria de armas. Como Franklin Roosevelt estava doente, sua terceira eleição à presidência envolveu uma batalha e um golpe branco para a escolha do vice-presidente. O progressista Wallace, que era o auxiliar mais próximo de Roosevelt, foi afastado por uma manipulação dos grandes industriais em favor de um senador provinciano e ignorante chamado Harry Truman. Meses depois, ao assumir a presidência após a morte de Roosevelt, segundo os autores, Truman estava “escandalosamente despreparado” para a função. Estimulado pelos representantes dos grandes empresários da indústria do aço e de armamentos e altos funcionários anticomunistas, rompeu unilateralmente os acordos estabelecidos entre Roosevelt e Stalin, suspendeu ajuda prometida para a reconstrução da economia da URSS.

As bombas nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki foram jogadas sobre um país que já havia assumido a derrota, desnecessárias, dizem os autores. Depois de ter suas cidades severamente bombardeadas pela aviação norte-americana, e na iminência de a URSS entrar na guerra contra eles, os japoneses estavam buscando ativamente negociações para sua rendição. Na verdade, as bombas foram utilizadas para intimidar a União Soviética e conquistar vantagens nas negociações para o pós-guerra, ainda mais que o exército soviético estava em vias de derrotar a Alemanha e conquistar Berlim e todo o aparato industrial e tecnológico alemão.

A mais polêmica decisão da 2ª. Guerra Mundial foi tomada apesar das fortes restrições internas, mesmo entre os principais generais norte-americanos. O general Dwight Eisenhower, por exemplo, disse que era contra sua utilização porque “os japoneses estavam próximos a se render e não era necessário atingi-los com aquela coisa horrível”.

Os autores descrevem com detalhes o horror das consequências das bombas nucleares sobre a população japonesa e a euforia do presidente Truman ao receber a notícia.

Os EUA no topo do mundo

Ao final da guerra, os EUA ocupavam sozinhos o topo do mundo. O império britânico se desmantelava e a Inglaterra se tornava um estado-cliente dos EUA. A União Soviética estava devastadoramente pobre, mas tinha o maior exército de todos, e os partidos comunistas desfrutavam de crescente influência na Europa, o que causava calafrios na diplomacia norte-americana. Com sua economia florescente, produzindo 50% dos bens industriais do planeta, e detentores do monopólio da arma nuclear, ainda assim os EUA acusavam a URSS de estar prestes a conquistar o mundo. E ameaçavam de usar a bomba contra ela. Com a brutal repressão aos comunistas na Grécia, os EUA inauguraram a Guerra Fria. Internamente, iniciou-se a “caça às bruxas”, as investigações para descobrir comunistas “infiltrados” entre funcionários do governo, artistas, intelectuais. Alguns delatores de seus colegas destacaram-se: Ronald Reagan, Robert Taylor, Gary Cooper e Walt Disney. O grande jornalista I.F. Stone declarou que estavam tentando converter “toda uma geração de americanos em dedo-duros”.

No plano externo, a CIA (Central Intelligence Agency) passou a promover “guerras secretas”, centenas de operações em todo o mundo (mais de oitenta durante o segundo mandato do presidente Truman). Chamada de “exército invisível do capitalismo” a CIA cresceria “exponencialmente nas décadas vindouras”, dizem os autores (o que, aliás, foi completamente confirmado por Snowden, como mostra o filme). Grandes somas do Plano Marshall, destinado à recuperação da Europa, foram desviadas à CIA.

Em 1949, a explosão da bomba atômica soviética e a vitória da revolução comunista na China foram motivo para criar um clima de vulnerabilidade nos EUA. A revista Time deu manchete: “A onda vermelha que ameaça engolfar o mundo”. A guerra da Coréia, em 1950-53, “foi a pior derrota que os norte-americanos já sofreram”, escreveu a revista.

Outro grande abalo para os americanos foi o lançamento do Sputnik pela URSS em 1957, que lançou os EUA numa frenética escalada armamentista. Mas as autoridades sabiam que a vantagem bélica americana era abissal. O arsenal norte-americano chegava a 22 mil bombas nucleares. Através dos aviões espiões U-2 “era possível ver cada folha de grama da URSS”, vangloriou-se Allen Dulles, diretor da CIA. O poder da CIA se estendia: assassinou Patrice Lumumba, líder do Congo e tentou inúmeras vezes assassinar o dirigente cubano Fidel Castro.
A tensão era muito grande em relação à Alemanha, os soviéticos temiam que os EUA cedessem armas nucleares aos alemães. A propaganda anticomunista visando conduzir a opinião pública norte-americana a aceitar a corrida armamentista acabou por criar uma histeria coletiva com a criação de um programa nacional de construção de abrigos atômicos nas casas das pessoas e o direito de matar os vizinhos que quisessem invadir seu abrigo.

Em 1962, a guerra nuclear por um triz

Em 1962, a crise dos misseis soviéticos instalados em Cuba levou ao paroxismo a tensão e houve uma grave ameaça de deflagração da guerra nuclear. O generais queriam atacar Cuba, mas Kennedy resistiu: “se nós os escutarmos e fizermos o que eles querem, nenhum de nós sobreviverá para dizer a eles que estavam errados”, disse. O livro relata o episódio de modo emocionante. Foi o momento em que as duas máquinas militares estiveram a pique de deflagrar a guerra escapando do controle dos seus governantes.

Os autores dão indicações de que a morte do presidente John Kenney de alguma forma se deveu à insatisfação dos “altos escalões das comunidades de inteligência, das forças armadas e dos negócios, sem falar na Máfia, nos segregacionistas e nos cubanos a favor e contra Castro (…) a raiva contra ele era visceral.”

Com Lyndon Johnson na presidência, a guerra do Vietnã se ampliaria, se dariam a instalação de ditaduras militares na América do Sul, novo golpe na Grécia. Na Indonésia, obra da CIA, o banho de sangue só foi menor que o do Vietnã. Aliás, um dos capítulos do livro mais ricos em detalhes trata da guerra do Vietnã, do presidente Richard Nixon e de seu assessor Henry Kissinger. Um exemplo de sua política: segundo Le Duan, dirigente norte-vietnamita, os EUA ameaçaram usar armas nucleares treze vezes. Os autores também mostram a indústria bélica que se desenvolveu para sustentar a guerra.

A criação dos mujahedins, um tiro no pé

Em 1979, dois acontecimentos teriam repercussão histórica de longo prazo. A revolução dos aiatolás no Irã; e, com apoio das ditaduras da Arabia Saudita e do Paquistão, a formação, pelos EUA, de grupos armados fundamentalistas islâmicos para combater o governo pró-soviético do Afeganistão. Nos anos futuros os EUA teriam motivos para se lamentar diante do crescimento exponencial do movimento islâmico radical e em especial pelo ataque às torres gêmeas, em Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001.

A partir dali, os Estados Unidos caminhariam para a direita talvez mais que em qualquer outro momento, mergulhando nas guerras fracassadas no Afeganistão e no Iraque, com apoio entusiástico da mídia, praticando a tortura e o assassinato em nome da defesa da democracia e dos direitos humanos.

Os autores perguntam: “quem foi o vencedor real? Depois de trilhões de dólares gastos, duas guerras, centenas de milhares de mortos no mundo todo, uma interminável guerra contra o terror, a perda das liberdades civis, uma presidência fracassada e uma extremamente maculada e o quase colapso da estrutura financeira do império, pode-se dizer que os EUA tiveram uma vitória de Pirro, em que suas perdas tornaram inútil a vitória”.

(Atualização de Resenha publicada em 2015 na revista Retrato do Brasil, da Editora Manifesto).

Livro
A HISTÓRIA NÃO CONTADA DOS ESTADOS UNIDOS
Por Oliver Stone e Peter Kuznick
355 páginas
Faro Editorial, 2015.

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Leia Trump 2, a política externa da tensão permanente 
https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/celso-pinto-de-melo-opina.html