17 setembro 2026

Minha opinião

Na reta final detalhes importam*
Luciano Siqueira 

De tudo o que li das grandes batalhas da História e que aprendi no curso de seis décadas de militância, depreendo que próximo ao desenlace de uma grande batalha, nos últimos movimentos das forças litigantes, detalhes podem fazer a diferença.

Dito assim de modo meio que alegórico, parece algo muito complexo, mas na verdade não é. 

Caso das eleições presidenciais do Brasil desde a superação do regime militar. 

No segundo turno do confronto Lula versus Collor em 1989, a edição distorcida do último debate entre os oponentes, divulgada no Jornal Nacional, da TV Globo, todos os analistas concordam, teve peso decisivo na apertada vitória do alagoano. 

Já em 1992, na vitória sobre o tucano José Serra, a poucos dias do pleito Lula divulgou a conhecida "Carta aos brasileiros", contendo uma afirmação para muitos quase despercebida, porém de importante peso político específico — a de que, eleito presidente, não mudaria substancialmente "as regras do jogo" da política macroeconômica. 

Aí residiu a sinalização para importante segmento da elite dominante que admitia arrefecer suas resistências ao futuro presidente mediante entendimento prévio, que envolveu, inclusive, o futuro ministro da Fazenda, José Palocci. 

(Vários outros exemplos seria possível mencionar, incluindo a vitória em acirradas disputas pelo governo estadual de Pernambuco, nas quais o autor dessas breves linhas teve participação ativa, representando o PCdoB, no comando de coligações de centro-esquerda.)

Que tem a ver o comentário com as eleições de agora, que caminham para reta final?

Tudo. 

Em vários aspectos, da simples correção de um atraso absurdo na confecção das peças impressas de campanha do presidente Lula à desafiante possibilidade de diálogo com setores desgarrados do campo adversário. 

Apenas um exemplo: por que a Folha de S. Paulo e o Estadão vêm desancando o candidato Flávio Bolsonaro, o único competitivo da oposição? 

Ora, ambos os veículos pontificam no complexo midiático neoliberal como atores ativos na defesa dos interesses do núcleo essencial da elite dominante — o capital financeiro, o grande agro exportador e os monopólios do varejo. 

Ao baterem tão duro no candidato da extrema direita, não apenas confirmam que essa elite não se vê contemplada nem confia no principal candidato oposicionista, como admite, em algum grau, entendimento com a frente ampla reunida em torno do presidente Lula para evitar o "mal pior", que seria a eleição do corrupto, incompetente e desastroso filho do ex-presidente encarcerado. 

A julgar pelas pesquisas mais recentes, a peleja está tecnicamente empatada, exigindo o máximo de flexibilidade (sem abrir mão da essência dos compromissos com a nação e com o povo) no esforço de atrair, ou pelo menos neutralizar, setores desgarrados das hostes oposicionistas.

Situação semelhante também se verifica em algumas disputas por governos estaduais. 


João Amazonas dizia que na História das pelejas transformadoras, mundo afora, jamais foi possível vencer sem subtrair do campo inimigo parte das suas forças mais ativas e influentes.
Portanto, "detalhes" importam, sim. E, como dizia o poeta, "tudo vale a pena se a alma não é pequena".

*Texto da minha coluna no portal Vermelho

Três "questões de ordem" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0658357328.html  

Arte é vida

 

Aelcio Santos

Leia também "Tecnologia: não confunda a minha cabeça" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/uma-cronica-de-abraham-sicsu.html 

Subsídio invisível

Quem paga o custo social das empresas-aplicativos?
O que é o “subsídio invisível” pago pela sociedade para que as plataformas privadas operem, sem regulação alguma? Como ele esvazia a proteção previdenciária e sobrecarrega o SUS? Essencial, debate pode definir políticas necessárias para tributar empresas e proteger trabalhadores
Rafael Molina Vita/Outras Palavras   

No contexto eleitoral, o debate sobre a regulamentação do trabalho por plataformas digitais ultrapassa as fronteiras do Direito do Trabalho. Trata-se de uma discussão sobre financiamento de políticas públicas, sustentabilidade da seguridade social e modelo de desenvolvimento. Em outras palavras, trata-se de uma escolha sobre o tipo de Estado e de democracia que pretendemos construir nas próximas décadas.

Não é de hoje que as transformações observadas na economia e no mundo do trabalho vêm tensionando a manutenção do Estado de bem-estar social e, consequentemente, das democracias contemporâneas. A conexão entre ambos não é meramente retórica. Sob essa ótica, o Estado Democrático de Direito não pode ser reduzido a um conjunto de regras formais de representação política. Seu papel é criar as condições materiais necessárias para a efetivação dos direitos humanos em todas as suas dimensões, das liberdades individuais aos direitos sociais e coletivos.

Desde o fim da chamada “era de ouro do capitalismo” e da ascensão do neoliberalismo, na década de 1980, ganharam força, em diversas partes do mundo, discursos voltados à contenção dos gastos públicos e à austeridade fiscal. Nesse contexto, o Brasil viveu um paradoxo: ao mesmo tempo em que a Constituição de 1988 ampliou significativamente o rol de direitos sociais e consolidou as bases de um sistema abrangente de proteção social, a economia nacional enfrentou, ao longo da década de 1990, um ciclo de baixo crescimento econômico e desindustrialização. Esse processo começou a ser parcialmente revertido a partir de 2003, impulsionado pela valorização das commodities e pela expansão do investimento em políticas sociais.

Embora ainda possua uma população relativamente jovem em comparação com os países desenvolvidos, o Brasil passou por transformações demográficas nas últimas décadas, marcadas pela redução das taxas de natalidade e pelo envelhecimento acelerado da população. Essas mudanças ampliam a pressão sobre o sistema de proteção social em um contexto de desafios econômicos persistentes, expressos na desindustrialização, na dependência da exportação de produtos com baixo valor agregado e nos elevados níveis de desigualdade de renda. Torna-se, assim, cada vez mais complexo compatibilizar as limitações da nossa estrutura econômica com a necessidade de financiar um Estado capaz de atender às demandas crescentes da população.

Foi nesse cenário que ganhou força, na última década, o trabalho mediado por plataformas digitais, a chamada gig economy. Trata-se de um modelo no qual formas tradicionais de supervisão e gestão do trabalho são substituídas pela gestão algorítmica. A mediação humana é reduzida ao mínimo, e aspectos centrais da atividade laboral passam a ser determinados por sistemas automatizados, muitas vezes operando com critérios pouco transparentes para os trabalhadores, que passam a ser enquadrados como autônomos ou empreendedores, permanecendo à margem de mecanismos tradicionais de proteção trabalhista e previdenciária.

Aqui emerge uma escolha política fundamental. Vamos buscar equacionar nossas assimetrias como sociedade e fortalecer os mecanismos de proteção social ou nos contentar com uma concepção de democracia limitada às suas dimensões formais? Se optarmos pela primeira alternativa, o caminho terá que passar, necessariamente, pela regulação do trabalho por aplicativos.

Isso porque, para além da dificuldade de garantir direitos sociais a motoristas, entregadores e trabalhadores em geral, deixar de regular o trabalho plataformizado significa que, em alguma medida, todos nós estamos pagando para que essas grandes empresas operem no país.

Sim. Mesmo que a pessoa nunca utilize os serviços das grandes plataformas, ela ainda assim contribui, indiretamente, para que essas empresas operem em nosso país. É o chamado “subsídio invisível”, por meio do qual toda a sociedade absorve parte dos custos associados a essa atividade econômica.

As atividades econômicas mediadas por plataformas também produzem as chamadas “externalidades negativas”, ou seja, custos que não são integralmente absorvidos pelas empresas responsáveis pela atividade e acabam sendo transferidos para a sociedade. Esses efeitos manifestam-se de forma relevante nos sistemas de saúde e previdência social. É o caso, por exemplo, de motociclistas vítimas de acidentes de trabalho que recorrem ao Sistema Único de Saúde (SUS), e de trabalhadores por aplicativos que, sem cobertura previdenciária adequada, dependem de benefícios assistenciais em decorrência da idade avançada ou de situações de deficiência.

Também são observados impactos no meio ambiente, em razão do aumento da poluição atmosférica e sonora, e na infraestrutura urbana, que demanda investimentos crescentes em mobilidade e manutenção viária para absorver o crescimento dessas atividades.

O sistema de seguridade social é particularmente tensionado pela insuficiente proteção previdenciária dos trabalhadores de plataformas digitais. Segundo dados da PNAD Contínua sobre Trabalho por Meio de Plataformas Digitais, divulgados pelo IBGE em 2026 e referentes ao ano de 2025, apenas 34% dos 1,959 milhão de profissionais que atuavam por meio de plataformas digitais contribuíam para a previdência social. No setor privado tradicional, esse percentual alcançava 63% dos trabalhadores. Dentre os entregadores plataformizados que utilizavam motocicletas, apenas 19,4% possuíam cobertura previdenciária, enquanto entre os motoristas de automóveis vinculados a aplicativos, esse índice era de 25,5%. Em outras palavras, apenas cerca de um terço desses trabalhadores possuía cobertura previdenciária.

Os efeitos da falta de proteção também podem ser observados na saúde e na segurança dos trabalhadores. Estudo publicado em 2025 nos Cadernos de Saúde Pública, com 563 entregadores de diferentes regiões do Brasil, identificou que 44,1% haviam sofrido pelo menos um acidente de trabalho no ano anterior à pesquisa. Os acidentes de trânsito representaram 82,8% dessas ocorrências. Mais da metade dos trabalhadores acidentados (56,1%) precisou se afastar do trabalho e, entre aqueles que permaneceram afastados por 15 dias ou mais, apenas 20% receberam algum benefício previdenciário. O estudo também constatou que 84,8% dos serviços de saúde utilizados em razão desses eventos eram públicos, enquanto 92,6% dos atendimentos ocorreram em serviços de urgência ou emergência. A gravidade desses riscos também é evidenciada por estudos epidemiológicos e por registros administrativos do Ministério da Saúde, que apontam a elevada incidência de incapacidades temporárias, sequelas permanentes e óbitos em acidentes de trânsito envolvendo motociclistas. Trata-se, portanto, de uma atividade laboral associada a riscos expressivos para a integridade física e para a capacidade laboral dos trabalhadores.

Diante de tudo o que foi exposto, é importante ressaltar que não se pretende demonizar o trabalho por aplicativos, fonte de renda e subsistência para milhares de famílias brasileiras. O ponto central deste debate é a necessidade de sua regulamentação, de modo a equilibrar um sistema de proteção social cada vez mais pressionado e garantir sua sustentabilidade em um contexto marcado por restrições fiscais e perda de direitos.

Concluindo, e retomando a questão que orienta este texto, a regulamentação do trabalho por plataformas não deve ser compreendida apenas como uma pauta trabalhista. Ela se insere em uma série de escolhas que definirão a capacidade do Estado brasileiro de financiar direitos, sustentar seus sistemas de proteção social e concretizar o Estado Democrático de Direito para além de sua dimensão formal. Em última instância, a questão é decidir quem arcará com os custos sociais desse modelo econômico: as empresas que exploram a atividade ou a coletividade. Nessa encruzilhada, cabe ao governo eleito utilizar os instrumentos de política pública disponíveis, inclusive a regulação, para assegurar que inovação e desenvolvimento econômico caminhem lado a lado com cidadania, proteção social e democracia.
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Plataformas digitais excludentes https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/plataformas-digitais-excludentes.html

Humor de resistência

 

Quinho


Do homem da mala para 'Dark Horse' https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/em-cima-do-lance.html 

Pés na lama

“Folha” se soma ao “Estadão” e pede a cabeça de Flávio Bolsonaro
Jornais paulistas questionam não apenas o frágil programa do presidenciável da extrema direita – mas também sua trajetória política e sua experiência para ocupar o cargo máximo da República.
André Cintra/Portal Vermelho 
 

Os jornalões brasileiros vivem uma crise de consciência. Embora mantenham uma linha editorial crítica ao governo Lula e à candidatura do presidente à reeleição, não conseguem confiar na alternativa bolsonarista. Nesta quarta-feira (16), a 18 dias do primeiro turno, a Folha de S.Paulo se somou a seu principal concorrente, o Estadão, e pediu a cabeça de Flávio Bolsonaro (PL).

Em comum, os dois veículos questionam não apenas o frágil programa do presidenciável da extrema direita – mas também sua trajetória política e sua experiência para ocupar o cargo máximo da República. Sem a transferência do capital político do pai – o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que está preso e inelegível –, seria difícil explicar como Flávio chegou à atual condição de candidato competitivo ao Planalto.

Com o título “Flávio é inexperiente e herdeiro de visão golpista”, a Folha mostra hoje, em editorial, por que se recusa a chancelar o presidenciável bolsonarista. “Flávio não possui experiência em gestão relevante nem trajetória parlamentar que, por si, o credencie para a Presidência. Mais grave é o projeto político do qual se apresenta como herdeiro”, aponta o texto.

A Folha também acusa Flávio de “preservar o discurso de confronto institucional”, devotar “subserviência” ao presidente norte-americano, Donald Trump, e ter vínculos com nomes “associados a atividades criminosas”. Sem contar os diálogos constrangedores com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, que levou Flávio a ser investigado por suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Não fica claro, segundo o jornal, qual o ganho que o Brasil teria se elegesse um presidente com esse perfil. “Antes de postular à Presidência, Flávio precisa demonstrar que está preparado para exercê-la – e que aceita sem ambiguidades os limites que a Constituição impõe a quem ocupa o poder”.

“Dinheiro sujo”

No sábado (12), também em editorial, o Estadão já havia usado um tom duro contra Flávio Bolsonaro, “um candidato sob suspeita”. Diante das denúncias contra o senador, o tradicional jornal paulista negava qualquer respaldo ao projeto bolsonarista.

“É gravíssimo o fato de um candidato favorito, de acordo com as pesquisas de intenção de voto, concorrer à Presidência da República na condição de investigado – e sob tão sérias suspeitas”, avaliou o Estadão. “Isso só reforça que Flávio Bolsonaro não reúne condições morais nem sequer para disputar cargos eletivos, quanto mais para ser chefe de Estado e de governo.”

O texto é mais longo que o da Folha e se debruça sobre o caso Dark Horse – a cinebiografia de Jair Bolsonaro que contou com “dinheiro sujo” de Daniel Vorcaro. Conforme lembra o jornal, “tudo indica” que parte da verba milionária foi desviada para “o sustento da vida de playboy que o deputado cassado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, leva nos Estados Unidos”.

O jornal conclui: “Espera-se que um candidato à Presidência da República saiba distinguir entre o certo e o errado, o público e o privado, o lícito e o ilícito. Alguém que se perde entre essas noções elementares, evidentemente, não está qualificado para governar o Brasil”.

É importante notar que a manifestação dos dois jornalões ocorre num momento em que Flávio Bolsonaro aparece tecnicamente empatado com o presidente em algumas pesquisas de segundo turno. Nem mesmo a perspectiva de uma disputa competitiva parece ter levado os barões da imprensa paulista a abraçar o candidato bolsonarista. Estadão e Folha estão órfãos na corrida eleitoral.

[Ilustração: Aroeira]

A praça ainda é do povo? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_02118984853.html 

16 setembro 2026

Palavra de poeta

Ausência
Carlos Drummond de Andrade     

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

[Ilustração: Salvador Dali]

Um poema de Ana Estaregui https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/palavra-de-poeta_4.html 

Dica de leitura

Importa saber
Luciano Siqueira   

Não tenho, obviamente, condições de julgar o desempenho da ministra Cármen Lúcia, do STF. Apenas me causa espécie ver como a mídia a trata, conforme se comporte em favor de tal ou qual interesse.

Daí a oportunidade de ler artigo de Luís Nassif, onde faz uma análise crítica da trajetória da ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, destacando a contradição entre a sua imagem pública e sua atuação prática nos processos judiciais https://jornalggn.com.br/destaque-capa/jamais-existira-uma-ministra-como-carmen-lucia-por-luis-nassif/ .

Segundo Nassif, o desempenho da ministra envolve discursos moralistas seguidos de omissões, oscilações de posição e silêncios calculados. Daí a fama de “amiga da imprensa”, o que lhe garantiu uma blindagem midiática ao longo de sua carreira no STF.

Casos de grande repercussão são relembrados e a condutar da ministra em relação a cada um deles. Vale conferir.

[Ilustração: Jildelt]

A sociologia do golpe https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/natureza-do-golpe.html