16 julho 2026

Editorial do 'Vermelho'

Desmorona o castelo de crimes erguido pelo bolsonarismo
Uma teia de ilícitos, falcatruas, corrupção, milícias e crime organizado começa a ser desbaratada. No centro está o clã Bolsonaro e a extrema-direita
Editorial do 'Vermelho' www.vermelho.org.br 

A teia de escândalos envolvendo o candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro, parece não ter fim. Além dos R$ 134 milhões negociados com o criminoso Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, para supostamente financiar o filme biográfico Dark Horse sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, surgiram evidências de falcatruas e ilicitudes em série na seara do candidato. Na base original do bolsonarismo, o Rio de Janeiro, o clã de Flávio ergueu um arranjo de poder à base de condutas criminosas, conforme tipificação da Polícia Federal, do Ministério Público e do Judiciário.

A série atual começou com a crise que levou ao seu rompimento com o ex-governador Wilson Witzel, eleito em 2018 apoiado no bolsonarismo, com acusações mútuas de “rachadinhas”. O caso de Witzel envolvia verbas da saúde e tentativas de enterrar as investigações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre movimentações estranhas na conta de Fabrício Queiroz, então assessor de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa. Seu irmão, Carlos Bolsonaro, então vereador, também foi investigado.

Witzel foi cassado em 30 de abril de 2021 e o vice, Cláudio Castro, igualmente bolsonarista, assumiu o cargo de governador e, em 2022, se elegeu pelo Partido Liberal (PL), que abriga os Bolsonaro. Também acusado de corrupção, ele renunciou em março de 2026 para tentar evitar que seu mandato fosse cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que declararia sua inelegibilidade por oito anos.

O ex-presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar (União Brasil), foi preso, após também ser condenação no TSE por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022, junto com Cláudio Castro. Ele foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por obstrução de investigação policial, acusado de vazar informações sigilosas sobre uma operação contra o ex-deputado Thiego Raimundo dos Santos Silva (TH Joias), apontado como aliado da organização criminosa Comando Vermelho.

O caso mais recente foi a prisão de Márcio Canella, pré-candidato ao Senado. A polícia encontrou um fuzil em seu carro durante uma investigação sobre seu envolvimento com a máfia dos combustíveis. Quatro dias antes, ele apresentou a mãe de Flávio Bolsonaro, Rogéria Bolsonaro, como sua suplente. Em fevereiro, o pré-candidato da extrema direita anunciou, em Brasília, o presidente da Assembleia Legislativa, Douglas Ruas (PL), como candidato a governador, numa chapa com Cláudio Castro e Márcio Canella na disputa pelo Senado.

Para completar o cenário, a Polícia Federal investiga se o presidente do partido de Flávio Bolsonaro, o PL, Valdemar Costa Neto, desviou R$ 119 milhões em emendas parlamentares. O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a suspensão das emendas que teriam sido indicadas por ele irregularmente. O ex-deputado Eduardo Cunha também teve R$ 6 milhões bloqueados, acusado de atuar nos bastidores com mais influência do que deputados em exercício.

Valdemar é suspeito dos crimes de desvio de dinheiro e de associação criminosa. São pelo menos 21 emendas. A maioria já foi paga. A Polícia Federal pediu ao Supremo a suspensão dos pagamentos que ainda não foram feitos e o bloqueio de bens do presidente do PL no mesmo valor, para ressarcimento dos cofres públicos, caso a irregularidade seja confirmada.

O ministro Flávio Dino, relator de ações sobre o pagamento de emendas, autorizou as medidas. “O encaminhamento direcionava essas emendas alocando, falsamente, deputados federais como ‘solicitantes’ das indicações, a fim de conferir ares de legalidade às indicações formalizadas conforme diretrizes de um não parlamentar”, diz um trecho da sua decisão.

Há uma teia de ilícitos, falcatruas, corrupção, milícias, crime organizado e, no seu centro, reina o clã Bolsonaro, a extrema-direita. A célere sucessão de acontecimentos no Rio de Janeiro foi um castelo de cartas que se desmontou, deixando a nu, mais uma vez, a essência da candidatura de Flávio Bolsonaro e do bolsonarismo. Assim como a queda da máscara de patriota, após as suas vexatórias bajulações a Donald Trump em busca de ações contra o Brasil, sua pregação moralista está definitivamente desmascarada

Fica demonstrado que esses traidores da pátria se projetaram na vida política e fermentaram a força da extrema-direita por intermédio de métodos e ações ilícitas de toda espécie.  Eles criaram um império da gambiarra para burlar as regras do Estado Democrático de Direito, inclusive com sua trama golpista, com a finalidade única de obter privilégios e poder.

Inclua-se a violência como método político, a exemplo da tentativa de golpe de Estado. Mas não só. Flávio Bolsonaro condecorou Adriano da Nóbrega na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro nos anos de 2003 e 2005. Nóbrega foi expulso da Polícia Militar e apontado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como líder do grupo de matadores de aluguel conhecido como “Escritório do Crime”, além de envolvimento com milícias.

Fica patente que uma figura que ostenta um currículo tão sinistro quanto esse não deve e não pode ser presidente do Brasil. Seria abrir às portas do Palácio do Planalto à delinquência e à traição ao país.

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Conflito sem limites https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_02106193163.html


Enio Lins opina

Quando o “combate” ao crime organizado é um crime maior
Enio Lins       

NO MUNDO COR-DE-ROSA das ingenuidades mais profundas, existe quem possa acreditar que o governo dos Estados Unidos (ao longo dos tempos) e Trump (no particular, como presidente) se dediquem verdadeiramente ao combate às organizações criminosas transnacionais. Mas...

NO MUNDO MULTICOLORIDO
de verdade, em todos os tons das cinzas, os Estados Unidos usam, historicamente, a justificativa de “combate ao crime organizado internacional” para espalhar ainda mais seus tentáculos pelo globo, apresentando-se como o xerife sem fronteiras, pressionando organizações criminosas a transacionarem a favor dos interesses ianques. Na II Grande Guerra Mundial, essa pressão produziu, pela primeira e única vez, um resultado positivo, quando a Máfia foi convocada para a sabotar fascistas italianos.

VALE A PENA LER DE NOVO
algo sobre essa questão. Houve um acordo da Casa Branca com a Máfia durante a II Grande Guerra, a Operação Submundo: operações conjuntas entre o serviço secreto da marinha (Office of Naval Intelligence) e a Cosa Nostra. Envolvia apoio local para a invasão da Sicília. Em contrapartida, os chefes mafiosos presos nos Estados Unidos receberam regalias, as atividades mafiosas foram menos policiadas, e o maior de todos os mafiosos atuantes em território americano, Lucky Luciano, foi liberado de sua pena, e autorizado a migrar para a Itália em 1946.

SESSENTA ANOS DEPOIS
de Lucky Luciano ser anistiado pelos Estados Unidos para seguir liderando a Cosa Nostra a partir da Itália, a BBC News Brasil publicou uma reportagem intitulada “A medida de Trump que pode facilitar acesso do CV e do PCC a fuzis americanos”. Só não é perfeita porque a frase certa teria de usar “vai” no lugar de “pode”. O fato é que as mudanças na regulação do comércio de armas, propostas por Trump, contêm pérolas como “reverter restrições aplicadas pelo governo de Joe Biden, como a ampliação da exigência de licença na venda de armas, e liberar o comércio online, eliminando a necessidade de que o comprador compareça a uma loja física para conferência de seus antecedentes criminais (...)” – ou seja, qualquer delinquente poderá adquirir farto armamento, reduzindo drasticamente os custos dessas operações, afinal os riscos de apreensões são reais.

EM MARÇO DE 2019,
foram localizados num endereço carioca 117 fuzis americanos modelo M16. O apartamento funcionava como oficina de montagem operada pelo ex-PM Ronnie Lessa, amigo e vizinho do então presidente Jair – que apresentava como uma das principais realizações de sua gestão a abertura para compra e porte de armas no Brasil. Em 19 de janeiro de 2023 o g1 publicou: “Governo Bolsonaro liberou em média 619 novas armas por dia para CACs; 47% dos registros foram em 2022 (...) Dados do Exército obtidos pelo g1 mostram que, nos quatro anos de mandato do ex-presidente, foram concedidos 904 mil novos registros de armas para caçadores, atiradores e colecionadores”. Por sua vez, o digital Jornal do Brasil, em 4 de março de 2024, dava conta que “Farra das armas de Bolsonaro concedeu registros de CAC a traficantes, assassinos e até pessoas mortas (...) Auditoria do TCU mostra que a política armamentista de Bolsonaro facilitou acesso a armas ao crime organizado, que teria usado laranjas em registros dos chamados Colecionadores, Atiradores e Caçadores junto ao Exército”. Mesmo antes da presidência, Jair exercitava esse jogo duplo: atacar o crime organizado no discurso e se apoiar no crime organizado (as milícias, em primeiro lugar) para obter vantagens e poder.

ESSE É O JOGO
da extrema-direita, alhures e aqui: jair berrando contra o crime organizado e, simultaneamente, se aliar ao crime organizado – procurando usar o Estado para pressionar facções que, eventualmente, lhes sejam incômodas.

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Arte é vida

 

Ademir Martins 

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Valber

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A Argentina jogou como o Brasil de antigamente e mereceu vencer a acovardada Inglaterra. 

Futebol brasileiro: para onde vamos? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/futebol-brasileiro.html 

15 julho 2026

Palavra de poeta

Regaço turvo
Rosana Batista Almeida 

Da boca escorre o limo, a água, a águia.
Os dedos desenham montanhas e lixos.
Os ouvidos não ouvem,
não reconhecem,
não discretizam símbolos.

Não há mais máquinas de brincar.
Esgotaram-se os métodos de construção,
de arquiteturas mudas.
Não há saber, nem código.

Na carência de tudo, esbarrei-me no caos,
no excesso do mundo.

Espaços vazios.
O que não pode ser dito.
O abstrato, o incomensurável.
A bicicleta no céu.

O fantástico.
A Realidade sutil, o ininteligível.
O sopro, o ímpar, a incongruência.

Não. Não vamos chegar.
Não, não vou chegar ao final.
Não há porta, não há janela.
Não há nada.

E quem dirá: ainda há estrelas para nos guiar?
Não se apresse, escute.
Não fale, deite-se.
Hesite, não confie.
O infinito, a curva:
o desespero de não saber.
O animal e o regaço turvo.

[Ilustração: Richard Diebenkorn]

A Buenos Aires nordestina que admira e torce pela Argentina https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/surpreendente-emocionante.html