EUA e China: uma disputa palmo a palmo na América Latina
Guerra
comercial e competição por influência na região aumentam a tensão política
entre as superpotências
Jamil Chade/Liberta
Das
minas da Nicarágua aos portos do Peru e telescópios na Argentina. Do petróleo
da Venezuela ao Canal do Panamá e minérios em Goiás. De Norte a Sul, a América
Latina se transforma em palco da disputa entre os interesses chineses e
americanos.
Um
ano depois de Donald Trump iniciar uma guerra comercial e declarar abertamente
sua intenção de militarizar o hemisfério, a China se organiza para defender
seus ativos e investimentos na região. O resultado tem sido uma crescente
tensão política entre governos locais e as duas superpotências.
Em
seu plano de segurança, Trump deixou claro que quer o controle da América
Latina e que não irá tolerar a presença chinesa em locais considerados como
estratégicos. A Casa Branca sabe como empresas chinesas construíram, possuem ou
operam grande parte da infraestrutura critica da região. A disputa por recursos
naturais e influência passou a ser um fator constante nas capitais da região.
Mas,
em dezembro de 2025 e poucos dias depois de Trump consolidar num documento sua Doutrina Donroe de
reocupação do espaço latino-americano, a China divulgou o que chamou de seu
novo “Livro Branco” sobre seu relacionamento com a América Latina.
Ainda
que não cite nominalmente os EUA, o plano de Pequim criticou a “intimidação
unilateral” e destacou a “gloriosa tradição de independência” da América
Latina. Para completar, afirmou que apoia a estratégia da região de manter seu
status de “zona de paz”, uma alusão ao militarismo de Trump no continente. O
recado, portanto, estava dado.
Voos
espaciais
De
um lado, a estratégia chinesa foi a de capitalizar o enorme descontentamento de
certos setores e governos latino-americanos diante das tarifas de Trump e,
assim, atrair esses países ainda mais para a sua esfera de influência. Não por
acaso, o plano apresenta a China como a defensora de um “ambiente internacional
aberto e cooperativo”, opondo-se à ‘intimidação”, em mais uma referência aos
EUA.
Alguns
dos projetos chineses acenderam o alerta na Casa Branca. O texto defende a
ideia da redução do peso do dólar no comércio da região e fala numa aproximação
em áreas estratégicas, como transferência de tecnologia e intercâmbios de
cientistas, bem como inteligência artificial e cooperação espacial.
Uma
das apostas é a introdução do sistema de satélites BeiDou, concorrente do
Sistema de Posicionamento Global, ou GPS. Se não bastasse, a China se
comprometeu a incluir um latino-americano nos programas espaciais tripulados de
Pequim.
Na
Argentina, porém, a Casa Branca convenceu Javier Milei a abandonar a concessão
de uma área do país para que a China construísse um novo telescópio espacial.
Mas
a China também deixou claro que, depois de décadas de aproximação e acordos com
os latino-americanos, não aceitará simplesmente deixar a região.
No
documento, portanto, Pequim rejeita o que chama de “ciber-hegemonia”. Ou seja,
a manobra dos EUA para excluir empresas e componentes chineses da
infraestrutura digital da América Latina.
Um
alerta claro da ameaça que seus interesses sofrem foi a audaciosa operação de
Trump para sequestrar Nicolas Maduro, em janeiro deste ano, e romper os acordos
de abastecimento a preços baixos de petróleo da Venezuela para a China. A
partir de agora, Pequim terá de pagar um preço de mercado pelo combustível
venezuelano. E, claro, passando pela administração dos EUA.
Menos
de dois meses depois de publicar seu “guia” de atuação na região, a China
passou a implementá-lo e não demorou para que, de ambos os lados, as disputas
fossem iniciadas.
Um
dos focos da tensão passou a ser o Panamá. Pressionado pelos EUA, o governo
local provocou o Judiciário a anular os contratos que existiam entre uma
empresa chinesa e o Canal do Panamá, em janeiro de 2026.
As
autoridades em Pequim, imediatamente, iniciaram um processo para retaliar o
governo local. Um procèsso de arbitragem internacional foi iniciado, com Pequim
solicitando uma indenização de US$ 2 bilhões.
Os
projetos de empresas chinesas com o Panamá foram suspensos e companhias de
transporte marítimo passaram a redirecionar suas cargas por outros portos. Na
China, tudo o que vinha do Panamá passou a ser alvo de uma inspeção reforçada.
Um mês depois, o Panamá tomou o controle dos portos administrados por empresas
chinesas e expulsou os funcionários contratados por Pequim.
No
Peru, o porto de Chancay – operado pela China – também se transformou em foco
da crise. Uma decisão da Justiça impediu a ingerência por parte de autoridades
locais no porto, o que gerou protestos dos EUA e denúncias em Washington de que
a China estaria violando a soberania peruana. Além disso, a recente queda
do presidente do Peru, José Jerí, ainda ocorreu por conta de uma
relação entre seu governo e um empresário chinês.
Reserva de mercado
A disputa entre EUA e
China também abalou a política no Chile. No começo do ano, a decisão do então
governo de Gabriel Boric de fechar um acordo para a construção de um cabo
submarino de fibra óptica para conectar seu país aos territórios chineses levou
o governo Trump a impor sanções contra ministros e outros funcionários de
Santiago.
Segundo Washington, o
acordo poderia abalar a “segurança regional”. Sob Boric, a China ainda assinou
acordos para financiar a construção de hospitais e ferrovias.
A ingerência americana
passou a ser um fator constante, sempre que algum governo da região anuncia um
acordo com os chineses.
Nas Bahamas, a decisão
do governo local de pegar um empréstimo milionário da China para a construção
de um hospital foi o estopim de um protesto da Cada Branca. A diplomacia
americana passou a pressionar as autoridades caribenhas a buscar outras fontes
de financiamento.
Poucos aspectos são tão
sensíveis nessa disputa entre as superpotências na região como a mineração. O
governo Trump se apressou por montar uma espécie de pacto para garantir uma
reserva de mercado de minerais críticos na região, com a participação de
Equador, México, Paraguai e Peru.
No Brasil, o governo de
Goiás, numa medida que passou a ser questionada internamente pelo governo Lula,
também assinou um acordo com os EUA no setor de minerais críticos. Já na
Argentina, o governo de Javier Milei se comprometeu a dar prioridade às vendas
de seu cobre, lítio e outros minerais críticos em detrimento de “economias ou
empresas que manipulam o mercado”, em referência à China.
Como resposta, Pequim
fortaleceu sua ofensiva para garantir novas áreas de concessão de mineração,
como no caso da Nicarágua, e se lançou em disputas por contratos em várias
partes do continente.
Observadores na China
destacam que, poucas vezes nas últimas décadas, a América Latina ocupou uma
posição tão central na disputa entre duas nações em busca da hegemonia. Resta
saber, para diplomatas, qual será o limite da guerra pelos recursos naturais da
região e como os governos locais irão reagir para tirar proveito dessa disputa.
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