02 junho 2026

Plataformas digitais excludentes

Capitalismo sem povo
A desestruturação do trabalho e o avanço das plataformas digitais consolidaram um modelo econômico excludente, onde a alta tecnologia impulsiona a precarização estrutural da sociedade
Marcio Pochmann/A Terra é Redonda   

1.

O neoliberalismo no Brasil aprofundou a expansão do “circuito inferior” da economia e, ao mesmo tempo, reduziu relativamente a capacidade integradora do “circuito superior” produtivo. A modernização neoliberal mostrou-se regressiva, pois sem eliminar o atraso, terminou por expandi-lo, transformando-o em modelo funcional da própria acumulação rentista.

Conforme originalmente evidenciado por Milton Santos, o capitalismo urbano-industrial brasileiro havia construído um núcleo econômico dinâmico e crescente, capaz de absorver parcelas ampliadas da população. Entre as décadas de 1930 e 1980, apesar das enormes desigualdades, o Brasil conseguiu, por meio do avanço do setor industrial, das empresas estatais, da infraestrutura, dos bancos, da administração pública e dos serviços organizados, integrar enormes contingentes da classe trabalhadora ao inédito emprego assalariado com direitos sociais e trabalhistas.

Um novo e moderno “circuito superior” da economia cresceu apoiado na consolidação da nova sociedade urbana e industrial. Simultaneamente, a predominância generalizada do “circuito inferior”, marcada pela subsistência, por pequenos negócios de baixa produtividade, por reduzida modernidade tecnológica e pela oferta de baixos rendimentos aos trabalhadores, foi sendo significativamente contida.

Mas com a inflexão neoliberal dos anos 1990, parte dessa engrenagem superior do circuito econômico do capitalismo brasileiro foi sendo enfraquecida, quando não totalmente desmontada. A abertura comercial acelerada, a desregulação da financeirização, as privatizações, a terceirização, a flexibilização trabalhista e a desindustrialização reduziram a capacidade do setor moderno de gerar emprego de massa com maior produtividade e melhores rendimentos.

O resultado foi paradoxal. A economia nacional tornou-se mais integrada ao capitalismo global, porém crescentemente menos capaz de integrar socialmente a sua própria população a empregos decentes, compatível com a geração de um novo sujeito coletivo sobrante aso requisitos do capitalismo sem povo.

É verdade que o circuito superior da economia não desapareceu totalmente. Mas tornou-se mais sofisticado tecnologicamente, mais financeirizado e mais concentrado, empregando proporcionalmente cada vez menos trabalhadores. Os grandes bancos, plataformas digitais, agronegócio altamente mecanizado, logística automatizada e cadeias globais produzem um certo dinamismo econômico assentado em baixa absorção de mão de obra. 

2.

Enquanto isso, o excedente humano urbano foi sendo empurrado para um circuito inferior ampliado pela informalidade, “uberização”, microempreendedorismo de sobrevivência, pequenos negócios de baixíssima produtividade, microtrabalho intermitente, comércio ambulante, prestação precária de serviços e ocupações sem proteção social. O desemprego apareceu cada vez mais oculto por estratégias de sobrevivência à margem de um capitalismo sem povo.

A periferia urbana tornou-se um enorme espaço de produção e reprodução da auto-ocupação forçada. O neoliberalismo transformou o desempregado em “empreendedor de si mesmo”, deslocando para o indivíduo os riscos da sobrevivência socioeconômica.

Nesse contexto, uma mudança histórica importante encontra-se em curso. Após meio século de construção da sociedade urbana e industrial, o circuito inferior deixou de ser marginal para se tornar estruturalmente dominante nas vastas áreas metropolitanas brasileiras. Em muitos bairros populares, a economia cotidiana gira mais em torno da informalidade e da sobrevivência do que do emprego formal clássico.

Além disso, a tecnologia digital não eliminou a precariedade, pois frequentemente tem a reorganizado em torno dos aplicativos que controlam trabalhadores sem vínculo, das plataformas que extraem renda de microempreendedores, dos algoritmos que administram a informalidade, do consumo popular dependente do crédito caro e do endividamento ampliado.

Milton Santos percebeu precocemente que a globalização desregulada produziria uma modernização conservadora e concentradora, com cidades altamente conectadas, mas socialmente fragmentadas. O neoliberalismo aprofundou exatamente esse processo, produzindo um capitalismo avançado nos fluxos financeiros e tecnológicos, mas regressivo nas relações de trabalho e na integração social.

O desafio do Brasil, ao ingressar no segundo quarto do século XXI, é o de enfrentar uma economia moderna quase exclusiva no topo e uma massa crescente vivendo em amplo circuito inferior, agora digitalizado, financeirizado e permanentemente precarizado. Trata-se de uma enorme contradição histórica que parecia parcialmente superada durante a industrialização do século XX, quando a permanência estrutural da massa sobrante produzida pelo capitalismo periférico estava em considerável redução.

A velha massa inorgânica descrita por Caio Prado Júnior no passado da sociedade agrária brasileira e que parecia desaparecer com a industrialização nacional, passou a ser reconfigurada pela financeirização digital do capitalismo neoliberal contemporâneo em uma nova sociedade de serviços hiperconectada na era digital. Hoje, o entregador por aplicativo, a cozinheira informal do bairro, o camelô conectado por pix, o motorista endividado, o vendedor online sem proteção social e o trabalhador multitarefa da periferia representam a inédita morfologia da questão social brasileira.

O neoliberalismo produziu algo historicamente perverso. Uma sociedade altamente conectada tecnologicamente, mas profundamente precarizada economicamente e desorganizada socialmente. O país ampliou o consumo digital sem universalizar a proteção trabalhista. Expandiu o acesso financeiro sem democratizar a riqueza. Modernizou os meios de circulação enquanto precarizava as formas de vida.

A questão central já não é apenas garantir direitos ao trabalhador fordista clássico, cuja centralidade diminuiu com a desindustrialização. O desafio contemporâneo é proteger socialmente a multidão fragmentada do capitalismo de plataforma, da informalidade urbana e da economia de sobrevivência.

A legislação social construída no século XX estava organizada em torno do emprego formal na sociedade urbana e industrial. Mas o capitalismo neoliberal periférico dissolveu parcialmente essa base material em plena sociedade de serviços. A consequência é brutal, com parcela crescente da classe trabalhadora ocupada sem acessar plenamente os direitos concebidos para uma estrutura econômica que foi abandonada.

O novo direito coletivo precisa ser repensado. A proteção universal deve ser desvinculada do emprego tradicional, com renda básica, seguridade para trabalhadores de plataforma, regulação algorítmica, redução da jornada, novas formas de organização sindical, proteção ao trabalho fragmentado, democratização tecnológica e reconstrução da capacidade produtiva nacional.

*Marcio Pochmann, professor titular de economia na Unicamp, é o atual presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Autor entre outros livros de Novo sujeito coletivo: a governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil (Editora da Unicamp). [https://amzn.to/40lMNWU]

[Ilustração: imagem produzida em IA]

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Leia também de Marcio Pochmmann: Do Iluminismo ao algoritmo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/monopolio-da-atencao.html 

Arte é vida

 

Marcel Gromaire 

Sábado para quê? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/que-dia-e-hoje.html 

Relações inconfessáveis

“Caixa do fascismo”: como o dinheiro do Banco Master financiou o bolsonarismo
Investigações apontam que Vorcaro financiava atuação de Eduardo Bolsonaro nos EUA e "caixa dois" para as eleições de 2026 no Brasil
Elias Jabbour/Portal Grabois 

Esperei um pouco para tratar deste assunto, pois uma análise assim não deve ser feita no calor do momento. Agora, é possível realizar uma abordagem mais profunda sobre o fenômeno da relação entre o Banco Master, de Daniel Vorcaro, e Flávio Bolsonaro. Meu objetivo é desvendar a base material do bolsonarismo até chegarmos a essa ligação específica e ao papel da instituição financeira nesse contexto. Para entender o cenário, precisamos retornar ao golpe de 2016, que representou uma mudança fundamental no bloco de poder do país. Frações do capitalismo brasileiro foram retiradas do comando e, em seu lugar, entraram outros setores, notadamente uma parte do capital financeiro representada por bancos de investimento como o BTG Pactual e o Banco Master. Além disso, retornou ao poder o capital mercantil de importação e exportação, a chamada “burguesia compradora”, cuja maior expressão é Luciano Hang. Esse setor não produz, mas lucra com a precarização do trabalho.

Essa nova configuração de poder gerou a necessidade das reformas trabalhista e da previdência. A reforma da previdência visava atender a interesses do mercado financeiro em abocanhar cerca de um trilhão de reais do mercado público. É nesse contexto de compreensão da base material do fascismo no Brasil que devemos entender a retirada da ex-presidenta Dilma Rousseff e do PT do governo para a entrada de Michel Temer, abrindo caminho para o bolsonarismo.

Existe também um elemento externo central: os Estados Unidos. O financiamento do filme Dark Horse (O Azarão) saiu do Brasil diretamente para lá. Foi nos Estados Unidos que se arquitetou o plano de destruição da nossa base material de construção civil e indústria pesada, operado pela Lava Jato e pelo Departamento de Justiça americano. Essa operação serviu tanto para remover o PT em 2016 quanto para viabilizar a ascensão de Bolsonaro. 

Os Estados Unidos funcionam como sede para quase todos os envolvidos na tentativa de golpe de janeiro de 2023, tendo Miami como destino principal. Eduardo Bolsonaro, por exemplo, opera em solo americano contra os interesses brasileiros, chegando a se colocar como intermediário obrigatório para qualquer diálogo com Donald Trump. Os Estados Unidos são, portanto, centrais na análise do escândalo que envolve o Banco Master e da base material que sustenta o fascismo no Brasil.

Tudo na vida possui uma totalidade entre elementos internos e externos, e a relação dessa instituição com o bolsonarismo é parte desse todo complexo. Há uma aliança de extrema-direita mundial, configurada desde a segunda metade da década passada, que hoje se manifesta em diversos cenários. Vemos isso em Honduras e na Bolívia, onde movimentos ligados a essa “Internacional” de direita tentam desestabilizar governos, além da atuação de ativistas que operam a mando dos interesses americanos.

Essa rede internacional inclui a entidade sionista que ocupa a Palestina histórica e governos de extrema-direita, como o do Paraguai, além da forte atuação de Eduardo e Flávio Bolsonaro no Brasil. Existe uma organização internacional que sistematiza esses interesses globalmente, o que torna o elemento externo fundamental para a nossa análise. Outro ponto relevante é a reforma da previdência realizada por Jair Bolsonaro e operada por Paulo Guedes. 

Embora eu não possa provar, há relatos de que ele teria lucrado 1 bilhão de reais nessa história. Os grandes beneficiários dessa reforma são fundos administrados por bancos como o Master, o Bradesco e o Itaú. Trata-se de frações de capitais do sistema financeiro que chegaram ao poder com o golpe de 2016, representadas inicialmente pelo BTG Pactual e, agora, por esse esquema que envolve o Banco Master.

No Rio de Janeiro, 1 bilhão de reais do Fundo de Servidores Públicos foi parar em fundos administrados pelo Banco Master, e o mesmo ocorreu com o BRB em Brasília. Isso faz parte de um esquema de compra de ativos públicos para conferir legitimidade a uma instituição financeira que funciona como um grande esquema de pirâmide. Embora o sistema financeiro em geral guarde semelhanças com esse modelo, o Banco Master foi longe demais.

Caixa do fascismo

Esses pontos são fundamentais para analisar o que chamo de “caixa do fascismo”. As operações de guerra híbrida e o uso de big techs a partir dos Estados Unidos para subverter nossa capacidade de pensar e nos manter prostrados diante do sistema custam muito dinheiro. A operação do Banco Master revela um grande esquema financeiro orientado ao financiamento do fascismo no Brasil. Como exemplo desse movimento, o dinheiro enviado aos Estados Unidos parece ter sido utilizado tanto para a compra de uma mansão de 3,5 milhões de dólares para Eduardo Bolsonaro quanto para o financiamento de um filme de mais de 130 milhões de reais. Este valor é completamente irreal para os padrões do cinema brasileiro, superando em muito produções de renome indicadas ao Oscar.

A ligação de Flávio Bolsonaro para Daniel Vorcaro demonstra uma relação de extrema intimidade. Flávio cobra 60 milhões de reais em parcelas, falando de forma subordinada e utilizando códigos. Até o momento, não está provado que essa quantia tenha sido destinada apenas ao filme. Ninguém solicita valores dessa magnitude por telefone sem uma proximidade absoluta, especialmente considerando o risco de monitoramento pelo COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras). Isso reflete como esse grupo lida com grandes operadores financeiros.

Negociações de grandes volumes de dinheiro podem atrair a atenção do COAF  quando realizadas formalmente. Em uma relação de negócios convencional, uma cobrança dessa magnitude seria feita em termos técnicos e adequados, e não através de uma conversa telefônica informal. Flávio Bolsonaro não demonstrou qualquer parcimônia em cobrar diretamente os 60 milhões de reais em uma ligação telefônica, o que revela uma relação de muita proximidade entre ele e Daniel Vorcaro.

Não faço aqui um julgamento moral — acredito que as pessoas têm o direito de se relacionar com quem desejarem, e eu mesmo convivo com indivíduos de diversos espectros políticos — mas o que se observa é uma clara intimidade entre dois operadores de um grande negócio. Vorcaro atua como chefe de uma organização criminosa, e Flávio Bolsonaro se reporta a ele de maneira submissa, cobrando o dinheiro sem qualquer parcimônia. Este empreendimento é gerido por uma empresa criada às pressas, que nunca produziu um filme anteriormente. É extremamente suspeito que um filme de 130 milhões de reais, valor que supera produções brasileiras indicadas ao Oscar, seja financiado por meio de uma empresa sem histórico no mercado. 

O fato de o executivo dessa empresa ser Eduardo Bolsonaro é um ponto fundamental que deve ser conectado aos demais. Meu objetivo não é simplesmente acusar, mas sim ligar os pontos gerais e específicos para explicar a base material do fascismo no Brasil. Refiro-me àquela fração do capital financeiro que chegou ao centro do poder com o golpe de 2016 e que se tornou o sustentáculo fundamental desse movimento no país. Além disso, descobriu-se um esquema de emendas parlamentares na casa de milhões de reais, orientadas especificamente para financiar a produtora deste filme, o que é, no mínimo, estranho.

O que tudo isso dá a entender? Primeiro, sobre a família Bolsonaro: o pai é um personagem horroroso, uma página triste da nossa história. Dois dos filhos operam claramente como fanáticos ideológicos: Carlos é o mais extremista, enquanto Eduardo Bolsonaro é tido como o mais articulado do grupo, possuindo diversas conexões internacionais. Contudo, eles superestimam sua própria relevância. Donald Trump é um negociante e, embora entenda o papel de Bolsonaro, ele sabe quem é o Lula e qual é a importância real do Brasil.

Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo agem como se fossem representantes de um governo no exílio, mas, conhecendo o perfil de Trump, ele provavelmente os vê apenas como intermediários para prestação de serviços no Brasil. É exatamente assim que os americanos enxergam figuras como eles.

À medida em que as investigações avançam, fica cada vez mais claro que esse dinheiro enviado aos Estados Unidos possui um propósito definido: financiar tanto as ações de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo em solo americano quanto constituir um gigantesco “caixa dois” para as eleições de 2026.O pano de fundo dessa relação é exatamente este. Daniel Vorcaro não é um personagem qualquer nesse esquema: ele frequenta, por exemplo, a mesma igreja que o deputado Nikolas Ferreira.

Extrema-direita no “bolso” de Vorcaro

Para conhecer alguém, basta observar sua agenda telefônica, e toda a cúpula da extrema-direita está entre os contatos de Vorcaro. Um dos principais operadores políticos de Bolsonaro é o senador Ciro Nogueira. Ele atuava como o “testa de ferro” do Banco Master tanto no Legislativo quanto no Executivo, sendo o responsável por operar os interesses da instituição dentro do governo. Há indícios de que ele recebia vultosas quantias para cumprir esse papel, funcionando como uma espécie de “mensalão” pago pela instituição financeira.

As operações do Banco Master foram legalizadas sob a presidência de Roberto Campos Neto no Banco Central, mas acabaram suspensas com a chegada de Gabriel Galípolo. Diante da crise da instituição, houve uma tentativa deliberada de transferir a responsabilidade pelo problema para o governo Lula e para o PT. Além disso, Flávio Bolsonaro negou sistematicamente suas relações com Vorcaro, chegando a desqualificar jornalistas que o questionaram sobre o financiamento do filme de seu pai.

Posteriormente, Flávio justificou sua negativa alegando a existência de “cláusulas de confidencialidade” que o impediriam de revelar o patrocínio de Vorcaro. No entanto, tendo trabalhado no banco do BRICS por um ano e sete meses, compreendo bem como funcionam esses mecanismos. Tais cláusulas aplicam-se a funcionários de órgãos multilaterais ou a contratos muito específicos, mas não fazem sentido no contexto do financiamento de um filme, a menos que o objetivo fosse ocultar deliberadamente o nome do investidor. Embora seja um direito do patrocinador não querer seu nome divulgado, o uso de um artifício jurídico para esse fim, neste caso, é extremamente suspeito. Embora seja um direito do investidor não querer seu nome envolvido, não é necessário um dispositivo jurídico complexo para isso: bastaria apenas não listar o nome entre os apo iadores. O uso desse artifício, portanto, serve apenas para levantar suspeitas sobre a real origem do financiamento do filme. 

Flávio Bolsonaro, o “cara da grana”

Sobre os filhos de Bolsonaro, embora existam figuras claramente desequilibradas entre eles — como o vereador em Blumenau, que demonstra total falta de noção —, considero Flávio Bolsonaro o mais inteligente e articulado politicamente. Como morador do Rio de Janeiro, cidade onde o bolsonarismo se consolidou, sei que Flávio é conhecido como o “cara da grana”, alguém focado exclusivamente em dinheiro. Relatos de pessoas que trabalharam com ele na Assembleia Legislativa reforçam essa percepção.

Há um histórico de denúncias que a Justiça precisa investigar, envolvendo as “rachadinhas”, a loja de chocolates e a compra de mansões com dinheiro vivo. Além disso, Flávio realiza o “serviço sujo” na relação do clã com as milícias do Rio de Janeiro. É de conhecimento público que ele homenageou e manteve em seu gabinete parentes de Adriano da Nóbrega, o falecido chefe do “Escritório do Crime”.

Por esse perfil, Flávio era o nome ideal para estabelecer uma relação de intimidade e realizar operações financeiras com Daniel Vorcaro. Vorcaro não é um ator qualquer: ele frequenta a mesma igreja de Nikolas Ferreira, mantém a cúpula da extrema-direita em sua agenda e tenta exercer influência sobre o sistema político e o Judiciário. Suas doações de campanha para Tarcísio de Freitas e Jair Bolsonaro, contrastando com a ausência de qualquer apoio a candidatos de esquerda, revelam de forma clara a qual projeto ele serve. Na política não existem coincidências, e o fato de ele estar por trás do financiamento desse filme diz muito sobre a base material que sustenta esse movimento.

Faço uma afirmação peremptória: qualquer pessoa minimamente informada sabe que todo esse montante não se destinava apenas ao financiamento de um filme, mas a alimentar um esquema de “caixa dois” estratosférico para as eleições de 2026. O bolsonarismo não possui qualquer sofisticação: o que vemos são diversos níveis de banditismo operando em conjunto.

Eles construíram uma narrativa “antissistema” muito bem-sucedida, como se Jair e Flávio Bolsonaro não fossem, eles próprios, homens do sistema. A realidade é que nenhum deles jamais trabalhou fora da política, tudo o que alcançaram na vida foi graças ao que agora chamam de sistema. A essa narrativa juntam-se figuras como Sérgio Moro, uma das personalidades mais deprimentes da história do Brasil. Recentemente, ele apareceu ao lado de Flávio Bolsonaro em uma entrevista coletiva — justamente ele, o homem que prendeu Lula sem provas, utilizando os casos do triplex e do sítio em Atibaia, para impedi-lo de concorrer em 2018, quando era o favorito. 

Esse esquema envolveu um setor do Judiciário alinhado à extrema-direita para favorecer um bloco de capitais que estava fora do comando em 2016. Eles operaram para que Michel Temer assumisse o governo e abrisse caminho para a reforma trabalhista, o teto de gastos e a destruição da Petrobras, que deixou de ser uma grande petrolífera para se tornar uma mera distribuidora de dividendos para poucos.

A reforma da previdência, operada por Paulo Guedes, permitiu que fundos de pensão passassem a controlar uma fatia gigantesca desse mercado público. Trata-se de um entrelaçamento com o que chamo de “lumpen das classes dominantes brasileiras”: um setor financeiro picareta representado por instituições como o Banco Master e figuras como o dono da Havan. Juntos, construíram uma massa de fanáticos utilizada como manobra na tentativa de golpe de janeiro de 2023 e que agora tenta, por todas as vias, retornar ao governo em 2026.

É fundamental compreender a que servem, no fundo, o Banco Master e o que chamo de “caixa do fascismo”. Eles servem a um projeto que não é de país, mas sim de entrega. Como o próprio Flávio Bolsonaro demonstrou recentemente no Texas, o objetivo é entregar nossas terras raras aos Estados Unidos para aliviar as pressões sobre a indústria americana decorrentes de restrições de exportação.

Nesse cenário, surgem figuras como Romeu Zema, que defende a privatização total, e Tarcísio de Freitas, a quem vejo como um gestor ineficiente que consegue ser pior do que o PSDB foi em São Paulo. A privatização da Sabesp é o maior exemplo desse esquema. O Banco Master é parte essencial da base material que esses grupos operam para tentar retornar ao poder em 2026. Para nossa sorte, contamos com a figura de Lula, um gigante e um animal político de primeira grandeza. Ele agiu de forma estratégica ao acionar a Polícia Federal e o Ministério da Justiça para investigar a “ponta do iceberg” desses esquemas. As investigações, que começaram com a Operação Carbono na Faria Lima, chegaram agora ao esquema de Flávio Bolsonaro.

Esta é a forma mais eficiente de combater o crime: sufocar o fluxo financeiro. Assim como ocorre com facções como o Comando Vermelho, quando se corta o dinheiro, a capacidade operacional da organização cai drasticamente. Ao atingir o cerne do sistema financeiro, a Polícia Federal acaba descobrindo toda a engrenagem por trás do movimento. Jair Bolsonaro encontra-se em uma situação muito delicada. Teremos eleições muito duras, mas o fato é que os candidatos deles estão se inviabilizando e podem derreter com o tempo. Isso é positivo, mas não podemos nos acomodar ou achar que nada mais pode acontecer até lá.

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Lula defende a soberania do Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/palavra-de-lula_01103779267.html

Fotografia

 

Priscilla Buhr

"A rosa que inspira e a solidão que dói" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minha-opiniao_18.html 

Abraham Sicsu opina

Ingerência inaceitável: o que pode nos afetar
Abraham B. Sicsu  

Como Nação autônoma, um princípio basilar para a nossa dignidade, é a defesa da Soberania. Temos que poder dizer o que queremos e não admitir interferências indébitas em nosso território ou que afetem nossa sociedade.

Duas medidas, dois mecanismos de intervenções possíveis, dos Estados Unidos da América, que muito podem nos afetar: facções como terrorismo e ataque ao PIX como sistema monetário.

Em 28 de maio de 2026 os Estados Unidos da América classificou o Primeiro Comando da Capital-PCC e o Comando Vermelho-CV, facções criminosas brasileiras, como organizações terroristas estrangeiras. Entra em vigor agora em início de junho.

Para o leitor desavisado pode parecer uma mera medida interna dos americanos, ou, apenas a intervenção de um grupo político tresloucado que procura um fato para apagar as luzes de suas ações criminosas junto ao maior escândalo financeiro do país. Quer que sejam ofuscados seus desvios de conduta e morais. Não serão, a cada dia surgem novos fatos. Mas, as medidas aqui em discussão não são uma mera ação irrelevante, podem ter impactos muito mais nocivos para a sociedade brasileira.

Classificando como terroristas globais as organizações criminosas, é permitida uma intervenção nos seus membros, mas não só, também em qualquer instituição que porventura possa lhes dar suporte.

Evidentemente que se sabe que tais movimentos “mafiosos” têm e tiveram ligações, mesmo sem serem sabidas, com muitas instituições financeiras que operam no Brasil. Além de processos criminais e suas consequências, as operações em dólares e as transações comerciais a elas atreladas podem ser bloqueadas, gerando prejuízos enormes para o sistema financeiro e para as empresas que têm sua base comercial alicerçada por esse sistema, principalmente aquelas que nada têm a ver com as quadrilhas criminosas.

As instituições que forem punidas podem ser impedidas de receber ou enviar dinheiro a outros bancos. Tal punição traria anarquia para o sistema financeiro e para o cidadão comum. Seus clientes não teriam, por exemplo, PIX funcionando. Criar-se-iam enormes lacunas daqueles que estão no sistema e daqueles que seriam expurgados. Um verdadeiro caos.

Sob a alegação de possível lavagem de dinheiro, que deve e é fortemente combatida pela legislação brasileira, criam-se barreiras que ameaçam constantemente o comercio internacional brasileiro, transações em dólares proibidas, e a cidadania nacional privada de mecanismo eficiente.

Um aspecto relevante. A medida americana, na prática, leva a que o combate às facções seja transferido para as instituições financeiras que deveriam, então, sem disporem de mecanismos de combate criminal, detectar as transações suspeitas e bloquear qualquer movimentação a fim de asfixiar financeiramente as organizações criminosas. Caso não detectem, correm o risco de serem fortemente punidas por desvios que nada tem de afinidade com suas áreas de atuação.

A interferência na soberania nacional não foi previamente negociada com as autoridades competentes do País. Segundo especialistas no assunto, a medida dá ao governo americano instrumento eficaz para operações das agências de inteligência, como a CIA em nosso território e mesmo para intervenções militares sob a alegação de combate a cartéis e narcotráfico.

Cabe dizer que é importante notar que as facções brasileiras, volto a dizer que devem ser fortemente combatidas, não podem ser confundidas com movimentos terroristas, as facções se fundamentam na busca de posses, poder e riquezas, não podem ser confundidas com movimentos que têm caráter ideológico ou político como propulsor.

Vamos ao PIX. Esta semana deve sair uma resolução de condenação. Muito perigoso.

Os americanos têm expressado fortes críticas ao sistema que tanto facilitou a vida dos brasileiros. Dizem que é uma barreira comercial que prejudica as grandes empresas estadunidenses proprietárias dos mais usados cartões de crédito na praça.

O Escritório do USTR, representante comercial dos EUA, tem afirmado que o PIX é uma proteção excessiva do mercado nacional que prejudica empresas que tiveram fortes investimentos em tecnologias. Acusam até o PIX de facilitar o financiamento de organizações criminosas como o PCC e o CV.

O governo brasileiro tem se manifestado, principalmente o Ministério da Fazenda. Alerta que o sistema é hoje utilizado por mais de 150 milhões de usuários, sistema que facilitou as transações comerciais e financeiras no País enormemente.  O dia a dia do brasileiro foi modificado com este modelo transacional. Uma infraestrutura segura que legitima a soberania nacional. O ataque ao mesmo pode fortemente impactar a economia nacional. Destaque-se que, atualmente, não é usado para transações internacionais com os Estados Unidos o que não justificaria qualquer intervenção.

Cabe aqui fazer uma reflexão.

As tensões subiram com a classificação das facções como terroristas. Especialistas têm alertado que o designar como terroristas pode levar o Brasil a novas sanções internacionais. Sanções que podem afetar efetivamente o sistema financeiro nacional e mesmo nossa inserção comercial e organizacional nas diferentes estruturas internacionais.

Bloquear instituições por não detectar sistemas de lavagem de dinheiro faz com que seus clientes sejam fortemente afetados. Inclusive saindo do sistema do PIX e com isso gerando problemas sérios para as transações comerciais internas.

Também, o bloqueio seletivo a instituições e indivíduos dos mecanismos nacionais de funcionamento de nossa economia é uma ingerência inaceitável nos assuntos internos e na soberania nacional.

É se arvorar no direito de definir nossas normas de conduta e de ignorar nosso modelo de justiça ou definidor das leis, plenamente capaz de evitar, punir qualquer desvio inconsequente e estabelecer controles eficientes.

Não pode ser aceito. Exige-se respeito à Nação que somos, evitando interferências que afrontam nosso País, nossa população.

[Ilustração: imagem produzida por IA]

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