Joel Silveira retrata a 2ª Guerra como devastação em vez de uma epopeia
Autor é
considerado precursor do jornalismo literário no Brasil. Repórter exibiu
empatia e ironia em textos enviados do front
João
Gabriel de Lima/Folha de S. Paulo
Em 3 de maio de 1945, dia
seguinte à capitulação das tropas de Hitler na Itália, o jornalista brasileiro Joel Silveira percorria de jipe a estrada que ligava
Bolonha a Milão. No quilômetro 312, cruzou com dois veículos militares alemães
que batiam em retirada. Seguiu-se um diálogo memorável, em que o repórter que
tentava entrevistar os soldados é crivado de perguntas por um grupo maltrapilho
e atônito.
O soldado
alemão Hans, intérprete da conversa em italiano, sabia que àquela altura Hitler
já se matara, Berlim fora
destruída e o ditador Benito
Mussolini havia sido executado e pendurado de cabeça para baixo
num posto de gasolina em Milão, junto com seus auxiliares mais próximos e a
namorada, Clara Petacci.
Foi informado
por Silveira que seu país fora derrotado e regiões inteiras da Alemanha haviam sido devastadas pelos
bombardeios aliados.
Nas palavras
de Silveira: "Muitas das cidades onde haviam nascido, e para onde
pretendiam retornar um dia, eram naquele instante apenas nomes, referências sem
sentido numa geografia que a guerra havia passado a limpo, nalguns pontos
apagando-a por completo do mapa".
O trecho
—"uma cena digna dos melhores filmes de guerra", como escreve Sérgio
Augusto no magistral posfácio que acompanha o livro— resume o espírito de
"O Inverno da Guerra", livro que acaba de ser relançado. Mais que
cenas épicas da Segunda
Guerra Mundial, a obra mostra a devastação de vidas e cidades em
meio ao conflito.
Aos 26 anos,
Silveira foi um dos jornalistas destacados para cobrir a campanha da Força
Expedicionária Brasileira na Itália. Seguiu num contingente tardio de
repórteres —ele trabalhava no diário O Jornal, do Rio de Janeiro, pertencente a
Assis Chateaubriand, e a ditadura de Getúlio
Vargas resistiu até o último momento a permitir jornalistas que
não fossem subordinados ao Departamento de Imprensa e Propaganda do regime.
"O
Inverno da Guerra" foi organizado pelo próprio autor em 2005 a partir dos
textos que havia enviado do front, alguns deles totalmente reescritos.
Silveira
chegou à Itália a tempo de presenciar as duas maiores vitórias dos pracinhas
brasileiros, em Monte Castello, em fevereiro de 1945, e em Montese, em abril. O
tom que prevalece no livro, no entanto, não é de epopeia. O autor usa seu poder
descritivo para retratar a ruína dos últimos dias de uma guerra.
O capítulo
sobre Montese é ilustrativo. O repórter aproveitou uma trégua para passear pela
cidade.
"Possivelmente,
o prédio que era a farmácia não existirá mais; e o esverdeado balcão da bela
casa da esquina, debruçado sobre o vale, também já terá desaparecido. Ali, na
paz, é o que me conta o velho contadino (camponês, em italiano), os homens
bebiam vinho, discutiam política e futebol. E as moças, nas tardes de sábado e
domingo, mostravam seus melhores vestidos."
Entre as
coberturas jornalísticas brasileiras do conflito, "O Inverno da
Guerra" se destaca ao lado de "Com a FEB na Itália", livro de Rubem Braga.
"Braga
retrata a guerra com olhos de cronista, enquanto Silveira o faz com uma visão
de romancista", disse à Folha Sérgio
Augusto, o autor do posfácio. "Em toda a sua produção
jornalística, Silveira demonstra um talento enorme para a observação e
descrição de personagens."
Desfilam
pelo livro, além do soldado Hans, o sargento brasileiro Max Wolf Júnior, morto
pelos alemães dias antes de ser promovido, deixando órfã a filha única cuja
foto o acompanhava na trincheira; o italiano Pietro, pescoço envolto pelo lenço
vermelho dos comunistas da época, cujo melhor amigo, Lorenzo, teve a cabeça
destroçada por uma granada; e a enfermeira brasileira Berta, que garimpava
objetos de decoração nas horas de folga para melhorar o aspecto do hospital de
campanha onde trabalhava.
O
livro "Hiroshima", do americano John Hersey,
publicado em 1946, se tornou um marco do jornalismo literário ao contar a
história da bomba atômica a partir dos relatos de sobreviventes.
Com seu olhar empático e irônico, Silveira fez algo parecido em contexto e continente diferentes —e por isso é considerado um dos precursores do gênero no Brasil.
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