24 março 2026

Palavra de poeta

OS FIOS
Marcelo Mário de Melo      

A poesia é fio de voo.
O humor é fio de espelho.
A vontade é fio de prumo.
 
A luta é fio de fogo.
O medo é fio de abismo.
Traição ê fio de lama.
 
A espera é fio de sombra..
O prazer é fio de embalo.
Amizade é fio de luva.
 
A vida é o novelo.

[Ilustração: Arthour Suarez]

Leia também: "Trem de ferro", poema de Manuel Bandeira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/palavra-de-poeta_15.html  

A elite da usura

Enriquecimento financeiro de 1995 a 2025
A simulação de um milhão de reais investido em títulos públicos desde o Plano Real revela que a capitalização contínua a juros nominais elevados multiplicou o patrimônio por 66 vezes em trinta anos, um fenômeno que explica a formação de uma elite rentista no Brasil
FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*/A Terra é Redonda     

1.

É muito impressionante quanto R$ 1 milhão investido em títulos públicos em 1995 teria se tornado hoje com reinvestimento contínuo da Selic. O resultado ajuda a entender por qual razão o Brasil formou uma elite rentista tão rica nas últimas três décadas.

Podemos fazer uma estimativa plausível usando a taxa média aproximada da Selic desde o Plano Real. Entre 1995 e 2025, a taxa básica definida pelo Banco Central do Brasil ficou próxima de 15% ao ano em termos nominais em média, nos títulos emitidos pelo Tesouro Nacional do Brasil.

Se R$ 1 milhão (PV) tivesse sido continuamente reinvestido à taxa média nominal de 15% ao ano (i) por 30 anos (n), o crescimento seria: . Resultado aproximado do valor futuro (FV): ≈ R$ 66 milhões.

Ao longo do tempo, a evolução se deu no seguinte ritmo: no ano 1995, o patrimônio inicial era R$ 1,0 milhão; em 2000, R$ 2,0 milhões; em 2005, R$ 4,0 milhões; em 2010, R$ 8,1 milhões; em 2015, R$ 16,4 milhões; em 2020, R$ 33,0 milhões; em 2025, ≈ R$ 66 milhões. O patrimônio se multiplica cerca de 66 vezes!

Se considerarmos o juro real, a inflação média desde o Plano Real ficou perto de 7% ao ano. Isso implica um juro real médio próximo de 8% ao ano. Nesse caso, . O resultado em poder de compra constante apareceria na calculadora financeira: ≈ R$ 10 milhões.

Isso revela dois fatos importantes da economia brasileira. Em termos nominais, a capitalização financeira pode gerar grandes fortunas ao longo de décadas. Em termos reais, mesmo descontando inflação, o capital ainda multiplica cerca de 10 vezes.

Em outros termos, nominalmente , R$ 1 milhão vira R$ 66 milhões, mas em poder de compra real, R$ 1 milhão vira R$ 10 milhões. Cresce 10 vezes.

Outro ponto nem sempre percebido pelo leigo em finanças é as fortunas maiores crescerem muito mais rapidamente por causa da escala. Por exemplo, no mesmo período aproximado, capital inicial no valor nominal de R$ 1 milhão, após 30 anos, vira R$ 66 milhões; R$ 10 milhões viram R$ 662 milhões; R$ 100 milhões acumulam R$ 6,6 bilhões. Só.

Isso ajuda a explicar por qual razão a capitalização financeira de longo prazo contribui para a forte concentração patrimonial no Brasil.

2.

Como resultado do experimento financeiro, se R$ 1.000.000 tivesse sido aplicado continuamente em títulos equivalentes às LFT com reinvestimento automático, iria dobrando de cinco em cinco anos, até atingir em 2025 o valor final aproximado de ≈ R$ 66 milhões.

Esse número parece enorme, mas decorre de três características do regime monetário brasileiro após o Plano Real: (i) juros nominais historicamente elevados, definidos pelo Banco Central do Brasil; (ii) capitalização contínua, porque os títulos públicos emitidos pelo Tesouro Nacional do Brasil são reinvestidos automaticamente; (iii) horizonte de três décadas para o efeito exponencial dominar o resultado.

Em uma comparação internacional, se o mesmo US$ 1 milhão tivesse sido aplicado em títulos do Tesouro americano, desde 1995, o patrimônio final aproximado seria de US$ 3-4 milhões. Considerando a cotação de R$ 5,30/US$, o multiplicador brasileiro foi muito maior: US$ 12,453 milhões.

O dado mais revelador é a renda financeira brasileira multiplicou o capital aproximadamente por 66 vezes em 30 anos, mas a economia brasileira (PIB real) cresceu apenas cerca de 2,5 vezes no mesmo período. O estoque de riqueza financeira cresceu muito mais rápido diante o fluxo de renda da economia.

O exercício numérico mostra por qual razão o Brasil se tornou um dos países com maior concentração de riqueza financeira em títulos públicos do mundo: juros elevados, longa capitalização e baixo crescimento econômico gerador de empregos e renda do trabalho. Esse arranjo cria um sistema no qual a acumulação patrimonial financeira pode crescer independentemente da expansão produtiva.

A comparação entre riqueza imobiliária (1970-1994) e riqueza financeira (1995-2025) é muito reveladora para entender a transformação da elite patrimonial brasileira. O ponto central é o regime monetário e financeiro ter mudado profundamente entre esses dois períodos.

O regime patrimonial do período 1970-1994 era relacionado à urbanização e à inflação alta. Durante a fase final do ciclo desenvolvimentista e da hiperinflação, o principal ativo de proteção patrimonial era imóvel urbano.

Isso ocorreu por três razões estruturais: inflação muito elevada, mercado financeiro pouco desenvolvido e urbanização acelerada. A taxa de urbanização brasileira passou aproximadamente de 55% no censo de 1970 para mais de 75% em 1991. A terra urbana se valorizava porque as cidades cresciam rapidamente, a oferta de crédito habitacional era limitada e os imóveis protegiam contra inflação.

Estudos históricos do mercado urbano brasileiro indicam valorização média aproximada entre 3% a 4% ao ano em termos reais (sem contar renda de aluguel). Vamos, para fazer uma simulação, usar 4% real por 24 anos.

O crescimento segue a capitalização: A=P(1.04){24}. Resultado aproximado: R$ 1 milhão em 24 anos (1970–1994) propiciariam R$ 2,56 milhões em poder de compra constante. Se incluirmos aluguel líquido médio de 4–5% ao ano reinvestido, o retorno total poderia chegar a algo próximo de 7–8% real ao ano. Nesse caso, A=P(1.08){24} . Resultado: ≈ R$ 6,3 milhões em valores reais.

3.

O regime patrimonial pós-Plano Real, após 1994, tem uma mudança institucional decisiva com a estabilização monetária, a abertura financeira e a expansão do mercado de títulos públicos. Esse regime é conduzido pelo Banco Central do Brasil e pelo Tesouro Nacional. O ativo dominante passa a ser título público indexado à Selic. Entre 1995 e 2025, como vimos, o multiplicador aproximado foi ≈ 66 vezes nominalmente ou cerca de 10 vezes em termos reais.

Em comparação histórica dos dois regimes, se partirmos de R$ 1 milhão inicial, no regime patrimonial   de imóveis urbanos (1970–1994), o multiplicador real aproximado fica entre 2,5 – 6 vezes. Já no caso de títulos públicos (1995–2025), a riqueza financeira multiplica ~10 vezes.

Em consequência estrutural, a elite brasileira, inclusive a cultural com formação universitária e componente do Varejo de Alta Renda, mudou seu perfil patrimonial. Antes predominava a elite fundiária urbana com incorporadores, proprietários de imóveis e renda de aluguel. Depois do Plano Real, em 1994, surge com força a elite rentista financeira, composta de detentores de títulos públicos, investidores institucionais (fundos de pensão, fundos de investimentos e seguradoras) e gestores de patrimônio.

Essa transição patrimonial está ligada a três mudanças estruturais: estabilização monetária, redução do papel do imóvel como hedge inflacionário e desenvolvimento do mercado financeiro. Aumentou a liquidez e a segurança dos títulos públicos. Os juros reais elevados transformaram a dívida pública em um ativo extremamente rentável.

Como resultado sistêmico, o sistema econômico-financeiro brasileiro passou a ter um mecanismo peculiar de acumulação: o Estado paga juros elevados sobre sua dívida e esse fluxo de renda financeira alimenta a acumulação patrimonial privada.

Em síntese, entre 1970 e 1994, a riqueza da elite brasileira era predominantemente imobiliária. Após o Plano Real, entre 1995 e 2025, a riqueza passou a ser predominantemente financeira, baseada em títulos públicos e fundos de investimento.

Essa mudança ajuda a explicar por qual razão hoje o Brasil apresenta grande concentração de riqueza financeira, forte peso político do sistema financeiro e menor centralidade do setor imobiliário na formação das grandes fortunas.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]

Poder & dinheiro na direita brasileira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/poder-dinheiro.html 

Humor de resistência

Aroeira

Minha opinião

Pausa para quê?
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65      

Simplesmente mais uma manifestação de inconsequência de Donald Trump? Certamente, não. Não apenas isso.

A guerra dos EUA-Israel contra o Irã está perto de completar um mês, sempre sob declarações diárias desencontradas do presidente norte-americano e agressividade bélica sem limites.

Hoje Trump anunciou a suspensão dos ataques à infraestrutura de energia do Irã por cinco dias. Uma manobra tática?

No último fim de semana, Trump havia dado um prazo de 48 horas para que o Irã reabrisse totalmente o Estreito de Ormuz (por onde trafega 20% do petróleo mundial), sob ameaça de “obliterar” as centrais elétricas iranianas.

Hoje, dia seguinte, o anúncio da suspensão das hostilidades por cinco dias parece decorrer da pressão de aliados europeus, de países do Golfo e o risco de um colapso econômico global.

Também o isolamento político dos EUA. Não se ouve uma declaração de apoio sequer vinda dos seus aliados da OTAN, nem do Oriente Médio.

E ninguém acredita que Trump tenha mantido conversas satisfatórias e produtivas com representantes de Teerã, como ele disse.

De toda forma, há consequências imediatas positivas da suspensão temporária dos ataques pelos EUA. O preço do barril de petróleo (Brent), que estava em níveis absurdos, caiu mais de 10% logo após a notícia, passando a operar abaixo dos US$ 100. Também as bolsas reagiram positivamente.

Mas tudo parece duvidoso. Tanto que Israel continua realizando ataques a alvos em Teerã e no Líbano, enquanto a mídia estatal iraniana nega qualquer negociação com os EUA e considera o gesto de Trump como recuo.

Entretanto, uma tênue esperança parece surgir quanto à hipótese de algum acordo que propicie o fim da guerra, pelo menos temporariamente.

É o que me parece, em minha modestíssima interpretação dos fatos, obviamente a partir do noticiário dominante.

Leia também: Trump tresloucado https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/trump-tresloucado.html

 


Enio Lins opina

Banksy deixou de ser um mistério no mundo das artes de rua?
Enio Lins   

BANKSY, SUMIDADE ENTRE AS SUMIDADES da arte de rua em todo o mundo, teve seu nome real – até então secreto – anunciado como descoberto por uma investigação patrocinada pela Agência Reuters. O mistério em torno da identidade do artista se alongou por, pelo menos 27 anos, desde a notoriedade internacional conquistada por suas pinturas murais na cidade inglesa de Bristol. Apesar das evidências de que a apuração tenha sido criteriosa, uma aura de mistério ainda paira sobre a esquiva criatura, até porque durante muito tempo se especulou ser aquela assinatura uma expressão de um codinome coletivo e não uma individualidade.

NÃO VOU REPLICAR 
aqui a identificação anunciada. Na verdade, foram divulgadas duas denominações, pois o artista teria mudado oficialmente nome e sobrenome em algum momento. Eu prefiro a magia da clandestinidade original dos velhos tempos em que o escondimento da cara de um autor singular sob aquele pseudônimo era a referência para intervenções sempre jovens, talentosas, criativas, corajosas, satíricas, aguerridas. Banksy é uma das marcas globais mais marcantes na virada do século XX para XXI. Sua assinatura é sinônimo de inventividade, associada ao rigor técnico e a facilidade de transmissão de mensagens profundas. Seus murais são a perfeita expressão do mais fino cartum: crítica gráfica, contundente, de leitura fácil e universal.

PROVOCAR COM CONTEÚDO 
é sinônimo de Banksy. Um dos maiores exemplos dessa postura foi o leilão de um stencil assinado por ele, em 2018, na Sotheby's. Arrematada por £ 1.000.000 (um milhão de libras, ou R$ 6.970.060,00 pelo câmbio atual), a obra – assim que o leiloeiro anunciou a venda – foi picotada por um triturador escondido na moldura. Uma sacudida impactante, uma lapada contra a comercialização da arte. A gravura se chamava Girl with Balloon e reproduzia um grafite famoso do mesmo autor. As reportagens sobre o acontecimento nunca explicaram o que houve na sequência: A compra foi cancelada? O comprador aceitou levar os fiapos de papel? Mas imortalizou o impacto da inusitada performance como ato de pura arte contestatória, um fato instigador para reflexões sobre o valor do objeto artístico.

SEMPRE QUESTIONANDO 
temas monetários, ações culturais e atitudes políticas, denunciando violências, o clandestino artista realizou algo inusitado, que pode ser considerado uma “instalação” – por sinal tão atrevida e arriscada que causou enorme perplexidade em todos os fronts de uma guerra cruenta. Em 2017 fundou o Walled Off Hotel (Hotel Murado, na tradução Google), localizado na bíblica Belém, coração da Cisjordânia, área palestina violentada por Israel. Segundo o material de divulgação feito pelo próprio artista e investidor, o hotel oferecia ‘a pior vista do mundo’, pois os quartos tinham janelas voltadas à muralha erguida pelos sionistas para isolar a comunidade árabe originária. Em 2023 o empreendimento (e/ou obra de arte) fechou as portas por conta do avanço do terrorismo israelense na região. Ele também arriscou a vida pintando murais nas ruas de Gaza, denunciando as matanças sionistas.

IDENTIFICADO OU NÃO,
 seja uma só pessoa ou uma legião, quem quer que use o cognome Banksy segue sendo a personalidade mais relevante nas artes plásticas de rua em todo o mundo. Criatividade, coragem e contestação seguem sendo suas marcas registradas. Como fã, na falta de talento para ser imitador, sigo fiel à ignorância da verdadeira identidade do grande mestre – no mínimo, até que o próprio se identifique por conta própria. Mesmo assim, considero ser o certo chamá-lo pelo nome que assinou desde seu nascimento artístico. E, como nos tempos em que existiam livrarias dignas dessa denominação, sigo caçando seus livros, álbuns da mais pura arte mural.

Leia também um poema de Antônio Cícero https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/palavra-de-poeta_24.html

PCdoB, 104 anos

PCdoB completa 104 anos com ato político e unidade em defesa da democracia
Celebração nesta quarta (25) conta com mensagens de Lula e dirigentes partidários, além de homenagens póstumas a Renato Rabelo e Márcio Cabreira e debate sobre o cenário político
Cezar Xavier/Vermelho     

O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) realiza nesta quarta-feira (25), às 19h, um ato nacional online para comemorar seus 104 anos de fundação. O evento será transmitido do estúdio da Fundação Maurício Grabois, em São Paulo, via YouTube, com apresentação de Renata Rosa e Pedro Campos. A programação reúne lideranças de diferentes espectros para discutir o momento político e homenagear figuras históricas.

Celebração e alianças políticas

A celebração destaca o papel do partido no cenário nacional e contará com Nádia Campeão, Luciana Santos e aliados, o presidente do PT Edinho Silva e parlamentares, incluindo Jandira Feghali (PCdoB), e Lídice da Mata (PSB). Representantes de movimentos sociais, como CTB (central sindical), UNE (movimento estudantil) e Conam (movimento de moradia), também participam, além de trechos de discurso do presidente Lula e representantes internacionais.

Memória e legado histórico

Um dos pontos centrais é a homenagem a dois recentes dirigentes históricos falecidos: Márcio Cabreira e Renato Rabelo. A trajetória de Cabreira será lembrada com vídeos e falas de familiares e dirigentes. Já Renato Rabelo, histórico presidente do partido, receberá tributos de nomes como Jô Moraes, Gustavo Petta, José Dirceu e Roberto Amaral, destacando sua contribuição para a política brasileira.

Transmissão digital e encerramento

Com formato acessível, o ato permite a participação de militantes de todo o país. O encerramento terá a exibição da canção A Bandeira do Meu Partido (Jorge Mautner). A iniciativa reforça a atualidade do PCdoB nas discussões sobre democracia e desenvolvimento nacional.

Leia também O lugar do PCdoB na cena política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/partido-renovado-e-influente.html

Arte é vida

Alice, 12 anos