22 outubro 2026

Contra os trabalhadores

Flávio Bolsonaro prepara 200 decretos para derrubar direitos trabalhistas e outras conquistas
Bomba relógio contra a classe trabalhadora. Aliados revelam plano do clã para “decretaço” anti-povo em eventual primeiro dia de governo
Davi Dmolir/Vermelho      

A poucos dias do segundo turno das eleições, a máscara de moderação do candidato Flávio Bolsonaro (PL) voltou a cair. Uma reportagem do Correio Braziliense publicada nesta terça-feira (21) revelou que aliados do senador já mantêm pronto um pacote com mais de 200 decretos para serem assinados no primeiro dia de um eventual mandato.

O objetivo central é desferir um golpe imediato contra a legislação trabalhista, a proteção ambiental e a participação social.

O plano de bastidores prevê um agressivo “revogaço” de medidas do governo Lula e um “decretaço” que visa, fundamentalmente, neutralizar as conquistas recentes da classe trabalhadora, em especial a regulamentação do fim da escala 6×1.

O arsenal de normas foi desenhado em segredo e mantido sob sigilo pela campanha, sem qualquer transparência para a sociedade ou pronunciamento oficial da assessoria do candidato.

O pacote da destruição: trabalho, meio ambiente e privatizações

Segundo as informações vazadas por interlocutores do senador, as medidas guardadas na gaveta para o dia 1º de janeiro articulam um verdadeiro choque de desmonte:

Esvaziamento dos direitos trabalhistas: Utilizando a regulamentação do Executivo como atalho, o plano busca esvaziar a recém-promulgada Emenda Constitucional 141/2026. O texto prevê reintroduzir a lógica da “negociação individual”, isolando o trabalhador frente ao patronato e enfraquecendo a atuação dos sindicatos.

Ataque à fiscalização ambiental: Os decretos preveem a limitação da atuação de órgãos de fiscalização ambientais sobre vegetações em áreas rurais e propriedades privadas não classificadas expressamente como de proteção. Na prática, trata-se de um salvo-conduto para o desmatamento e a impunidade no campo.

Fim da participação popular: Alterações administrativas planejam extinguir conselhos, comitês e grupos de trabalho da administração federal. Sob a justificativa de “enxugar a máquina”, o projeto busca calar a sociedade civil organizada e eliminar mecanismos constitutivos da democracia participativa.

Ofensiva privatista: Para os primeiros três meses, o plano traça o envio ao Congresso Nacional de um pacote de privatizações de empresas públicas e estatais estratégicas para o desenvolvimento nacional.

Estelionato eleitoral em marcha

A revelação dos decretos secretos expõe a falsidade do discurso do candidato na reta final da campanha. Flávio Bolsonaro, que criticou abertamente a proposta pelo fim da jornada 6×1, classificando-a como “oportunista” e defendeu a flexibilização irrestrita de horários, recalculou a rota apenas diante do amplo apoio popular à medida. Em entrevistas recentes, o senador chegou a declarar que “todos os direitos trabalhistas estão garantidos” e que respeitaria as decisões do Parlamento.

Entretanto, as informações de bastidores desmascaram o candidato, que publicamente prega a manutenção de direitos, mas nos bastidores articula um “revogaço” para esvaziá-los via decreto executivo e medidas provisórias logo após empossado, se vencer.

A ameaça à conquista histórica da jornada 6×1

A tentativa de contornar a emenda constitucional que acabou com a extenuante escapa 6 X 1, via normas infralegais no primeiro dia de governo atinge diretamente o coração dessa conquista, além de pretender aprovar a PEC do seu coordenador de campanha, Rogério Marinho que introduz o conceito de pagamento por horas trabalhadas, sem descanso remunerado, devolvendo o trabalhador à vulnerabilidade da imposição patronal.

Alerta máximo para o segundo turno

A falta de transparência e o silêncio da candidatura diante do vazamento do pacote não atenuam a gravidade do cenário, pelo contrário, elevam o estado de alerta das forças populares e democráticas. A omissão deliberada de textos que afetam diretamente a vida cotidiana da população impede o eleitor de conhecer a real agenda do candidato, que sabemos nunca será a favor do trabalhador.

Manifesto pró-Lula une centro e direita contra ameaças bolsonaristas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/em-defesa-da-democracia.html 

Minha opinião

Subiu o sarrafo da luta política* 
Luciano Siqueira      


Qualquer que seja o resultado da eleição de domingo próximo, o patamar do conflito de classes no país já não será o mesmo. 

Na melhor das hipóteses, Lula reeleito para um quarto mandato enfrentará uma conjuntura extremamente complexa.

No plano institucional, o esgarçamento das relações entre os chamados Três Poderes da República - o Executivo, o Judiciário e o Parlamento.

Governará com uma maioria parlamentar oposicionista de forte expressão conservadora e de extrema direita, super empoderada com o arsenal de emendas parlamentares à disposição. 

O Judiciário, a partir do Superior Tribunal Federal, mergulhado em conflitos internos e seriamente desgastado ao olhar da opinião pública. 

Demais, a aposição implacável do complexo midiático neoliberal dominante, poderoso e hábil na formação de uma consciência social fortemente contaminada pelo ideário da elite dominante. 

Ainda que seja possível explorar oportunidades de ampliação e diversificação de relações econômicas num padrão minimamente vantajoso - mediante política externa altiva, propositiva e hábil -, enorme é a insegurança e a instabilidade no âmbito geopolítico. 

Tudo isso permeado pela absoluta necessidade de superar entraves estruturais ao desenvolvimento do país em bases soberanas e socialmente progressistas. 

Mesmo sob correlação de forças complexa e sob muitos aspectos desfavorável, o novo governo Lula e, sobretudo, as forças do campo popular e progressista, estarão chamadas a erguer a bandeira das reformas estruturais.

Nesse cenário, um dado novo extremamente promissor: a movimentação de massas de grande envergadura ora desencadeada no apoio à candidatura de Lula e na resistência à ameaça de um novo governo de extrema direita, que tende a se firmar como uma espécie de “fator rua” no desdobramento da situação. 

Um passo adiante que o conflito de classes e a luta no plano institucional parecem alcançar. 

E mesmo que ainda patine na superação de dificuldades decorrentes de mudanças estruturais no mundo do trabalho e da ascensão da complexa comunicação midiática digital - essa Esfinge que as correntes de esquerda e movimentos sociais ainda não conseguiram desvendar plenamente -, a juventude e demais parcelas da sociedade que ganharam as ruas neste segundo turno das eleições tudo indica que vieram para ficar. 

Isso pode significar novo patamar na luta política no país. 

Como se diz nas provas de salto em altura do atletismo olímpico, "subiu o sarrafo" da luta política no Brasil. 

*Texto da minha coluna semanal no ‘Vermelho’ www.vermelho.org.br   

Leia também: Manifesto pró-Lula une centro e direita contra ameaças bolsonaristas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/em-defesa-da-democracia.html 

Arte é vida

 

Emiliano Di Cavalcant

Flávio Bolsonaro é o filho do Riocentro https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/dna-espurio.html   

Dica de leitura

A proposta é cortar, sim!  

O candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro (PL), tem negado a todo instante que redução de gastos com programas sociais esteja em sua plataforma de governo.

Mas a verdade é outra. No artigo "Plano de Flávio prevê cortes em áreas sociais”, por Tatiane Correia, Jornal GGN https://jornalggn.com.br/economia/plano-de-flavio-preve-cortes-em-areas-sociais/, a verdade vem à tona.

O plano de governo do bolsonarista prevê um corte profundo de gastos públicos estimado entre R$ 200 bilhões e R$ 250 bilhões, o que exigiria intervenções diretas nas despesas obrigatórias da União.

O projeto prevê mudanças na aplicação dos pisos constitucionais da educação, alteração nas regras previdenciárias e desvinculamento do reajuste de benefícios sociais ao valor do salário mínimo.

Além disso, a equipe que o assessora estuda a inclusão da privatização do Banco do Brasil no programa de desestatizações, compatível com o conceito adotado de “austeridade fiscal” voltado para a redução do peso do Estado na economia e a atração de investimentos externos do setor financeiro.

O candidato nega tudo, acuado pela pressão político-eleitoral que emerge nas ruas.

(LS)

As ruas, as redes e o almoço do domingo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_02010278885.html  

Distorção

Todos os brasileiros e brasileiras têm o direito de reclamar da precária discussão de propostas programáticas dos candidatos à Presidência da República. Porém a mídia neoliberal dominante, não; pois jamais deu prioridade ao tema e sempre focou em fofocas de bastidores e especulações em favor do mercado financeiro.   

Ganhos do povo sob bombardeio midiático https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_01555616586.html    

21 outubro 2026

Palavra de poeta

Consolo na praia
Carlos Drummond de Andrade     

Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te — de vez — nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.


[Ilustração: Selcuk Sazak]

Leia também: "Véu de pirilampo", poema de Virgínia Leal https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/palavra-de-poeta_0575741691.html  

Boa notícia

Lula envia proposta de tarifa zero ao Congresso Nacional
PEC prevê transporte público gratuito em todo o Brasil aos fins de semana e feriados. Fonte de custeio indicada diz respeito a 26,8% (R$ 12 bilhões) do montante de emendas parlamentares
Murilo da Silva/Vermelho       

Em cerimônia no Palácio do Planalto (DF), nesta quarta-feira (21), o presidente Lula assinou o envio, ao Congresso Nacional, da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que propõe tarifa zero no transporte coletivo aos fins de semana e feriados.

Segundo o presidente, com a aprovação do fim da escala 6×1, é justo que os trabalhadores tenham transporte público gratuito aos finais de semana e feriados para aproveitar a vida. Lula deu um relato pessoal, de quando ainda era metalúrgico, e voltava a pé para casa por não ter dinheiro para a condução, e emendou: “Eu fico pensando quantas vezes a pessoa que está nessa situação chora de raiva por não ter dinheiro?”

Conforme explicou, a ideia é começar pelos finais de semana como teste para depois ampliar a experiência. A expectativa do presidente é que o Congresso vote ainda este ano a proposta, que indica, como forma de custeio, no mínimo, 26,8% do montante global anual das emendas parlamentares, valor calculado em cerca de R$ 12 bilhões.

“Vocês sabem que nós pegamos um orçamento quebrado, inexistente, na verdade um orçamento que não tinha dinheiro para o Farmácia Popular, um orçamento que não tinha dinheiro para a educação, que não tinha dinheiro para a saúde, porque o dinheiro tinha sido colocado à disposição de emenda parlamentar. E eu acho que hoje os parlamentares, mesmo aqueles que não gostam de nós, mesmo aqueles que são da oposição, hão de convir que é melhor pegar uma parte da emenda e fazer com que o povo tenha um pouco de respeito e dignidade do que ficar gastando dinheiro da forma que bem entendem”, afirmou Lula.

O ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, explicou que a PEC destina a parcela das emendas impositivas que está no orçamento para o transporte coletivo como forma de alcançar a tarifa zero aos fins de semana e feriados. “Nós temos os recursos garantidos para que as pessoas possam se locomover, ter o seu direito à mobilidade garantido”.

O ministro diz que a medida tem como fundamento a neutralidade fiscal com a indicação da fonte de custeio, já prevista no orçamento com as emendas.

“O que o senhor propõe [Lula] é dar qualidade às emendas parlamentares. São recursos públicos, a sociedade exige respeito com o recurso público. É uma qualificação dessas emendas. Um percentual equivalente, no ano que vem, a R$ 12 bilhões das emendas parlamentares, para ser destinado ao custeio da tarifa zero”, disse Moretti.

Leia também: Debate na TV para quê? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0643838648.html