Editoras, poder e silêncio: a geografia desigual do livro no Brasil
Quando 97% do faturamento editorial fica em dois estados, a
diversidade literária vira exceção e a identidade cultural, privilégio
geográfico
Eduardo Henrique
Barbosa de Vasconcelos*/A Terra é Redonda
La pensée politique a été réduite à l’économie,
comme si tout pouvait être calculé. -Edgar Morin
1.
Em reportagem para a coluna Painel das Letras do jornal Folha
de São Paulo, Walter Porto informou, em 19 de junho de 2026, o
resultado do mapeamento do mercado editorial no país. Os dados atuais
referentes as editoras demonstram haver “…1.047 editoras. Destas, 77% estão na
região Sudeste – e 70% só nos estados de São Paulo E Rio de Janeiro –, 13% na
região Sul, 5% no Nordeste, 3% no Centro-Oeste e 2% no Norte do país”.[i]
A hiperconcentração do mercado editorial brasileiro na região
Sudeste, especialmente nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, onde se
localizam 70% das editoras e se concentra 97% do faturamento do setor, não
configura meramente uma distorção econômica ou logística, mas revela um
problema social profundo que afeta a própria construção da identidade cultural
do país e o exercício democrático da cidadania. Os dados apresentados pelo
Sindicato Nacional dos Editores de Livros em parceria com a Nielsen escancaram
uma realidade em que a produção cultural e simbólica do país é filtrada por uma
“visão de mundo” centrada na “realidade e nas vontades” do eixo Sudeste do
Brasil, gerando um apagamento sistemático da diversidade constituinte das
demais regiões do país que vai muito além da questão autoral.
Quando 97% da receita do setor fica restrita a dois estados, o que
é produzido, o chega às prateleiras e, consequentemente, o que é visto,
lido e entendido pelos quase 214 milhões de brasileiros, é uma parcela mínima
da diversidade cultural que o país possui, pois as histórias, os
cenários, os sotaques, as necessidades e as problemáticas sociais das regiões
Norte, Nordeste e Centro-Oeste são relegados a um papel de inferioridade,
exotismo ou simplesmente ignorados, não complexificando a realidade
nacional, empobrecendo a formação política, econômica, social e cultural
da população e reforçando estereótipos que consolidam o “colonialismo interno”
executado pelo poderio econômico empresarial existentes no Rio de Janeiro e em
São Paulo frente as demais áreas do território nacional.[ii]
Esse desequilíbrio geográfico[iii] produz, uma barreira simbólica
intransponível para os profissionais que atuam fora do circuito Rio-São Paulo,
uma vez que, como aponta a Folha de São Paulo a editora Patrícia Vasconcellos,
enquanto um livro mediano produzido no Sudeste alcança visibilidade
naturalmente, as obras feitas em outras regiões precisam atingir um “nível de
excelência muito grande” para serem notadas, o que submete autores,
ilustradores, designers e editores periféricos a um escrutínio muito mais
severo em busca do mesmo reconhecimento, gerando uma sobrecarga que desgasta a
criatividade e a produção, além de transmitir a mensagem deletéria de que a
qualidade está intrinsecamente atrelada seu local de produção ou origem
geográfica.
2.
Essa dinâmica é agravada pelo fato de que as relações de trabalho
e as oportunidades de networking, cada vez mais
importantes para o sucesso no meio literário, são construídas em encontros
presenciais, festivais badalados como a Flip e a Feira do Livro, e eventos
majoritariamente restritos ao circuito sudestino. A esses eventos, os
profissionais de outras regiões só têm acesso com custos logísticos e
financeiros “absurdamente maiores”, o que configura um circuito fechado e elitizado
que perpetua a exclusão de talentos que não podem arcar com esse deslocamento.
Paralelamente, as indicações para prêmios, as resenhas na grande mídia,
entrevistas e as parcerias comerciais são decididas em conversas informais nos
cafés e corredores, acessíveis apenas a um grupo seleto.
Para além das relações de poder simbólico,[iv] a concentração do mercado editorial
produz efeitos perversos na cadeia produtiva e na vida das populações das
demais regiões do pais, pois a falta de gráficas, distribuidoras e
profissionais de promoção e divulgação fora do Sudeste implica menos empregos
formais nas áreas de edição, tradução, revisão, design gráfico e marketing no
Norte, Nordeste e Centro-Oeste, ao mesmo tempo em que as editoras locais arcam
com fretes mais caros e prazos de entrega mais longos, o que encarece o preço
final dos livros exatamente nas regiões onde a renda per capita já é
historicamente mais baixa, criando um ciclo vicioso em que o produto cultural
se torna menos acessível para quem mais precisa de estímulo à leitura.
Esse aspecto é particularmente grave quando se considera a
formação de novos leitores, pois crianças e jovens do interior da Amazônia ou
do sertão do Centro-Oeste, ao terem contato prioritário com livros que retratam
majoritariamente a vida urbana e os problemas do Sudeste, podem sentir que suas
próprias realidades não são dignas de serem conhecidas histórica e
literariamente. Isso afeta negativamente o engajamento com a leitura, que passa
a parecer distante e alheia ao seu cotidiano, fragilizando assim as políticas
públicas de incentivo à leitura. Quando essas políticas são feitas com um
acervo de conteúdos restritos e concentrado de forma exacerbada em uma única
realidade nacional, falham, dessa forma, em criar identificação e
pertencimento, elementos essenciais para a formação de uma sociedade leitora
crítica e participativa.
3.
Outro efeito colateral desse insulamento da produção bibliográfica
pode ser percebido nos critérios de premiações e reconhecimento público que sob
essa “lógica econômico-organizacional” torna-se mais um vetor de
desigualdade, pois a proximidade física entre a mídia, os organizadores de
festivais, as universidades centrais e as grandes editoras do Sudeste faz com
que a curadoria do que é relevante ou premiado seja influenciada por essa
proximidade geográfica e social, de modo que a consagração literária no Brasil
não reflete a produção intelectual do país como um todo, mas tão somente a
produção de uma fração territorial, o que priva o público de conhecer a
pluralidade da produção literária brasileira e reforça a ideia de
que existem culturas de primeira e de segunda classe no mesmo país. As
primeiras devem ser conhecidas e as segundas devem ser esquecidas.
Apesar de não haver culpados individuais nesse processo, como
ponderam os próprios editores ouvidos na pesquisa divulgada pela Folha de São
Paulo, o mercado opera como uma engrenagem que se retroalimenta, na qual as
editoras consolidadas no eixo têm mais recursos para investir em divulgação e
distribuição, enquanto as editoras regionais operam com margens de lucro
mínimas, gastando proporcionalmente muito mais para produzir e distribuir, mas
sem conseguir cobrar preços mais altos sob pena de perder mercado, o que as
mantém em vulnerabilidade financeira crônica e impede que invistam em novos
autores, prejudicando o desenvolvimento de gerações inteiras de escritores e
profissionais do livro em vastas porções do território nacional.
Diante desse quadro, fica evidente que a hiperconcentração do
mercado editorial não é apenas um problema logístico ou mercadológico, mas uma
questão de justiça social, cultural e educacional, pois ela cria um país onde a
cultura de uma determinada área é indevidamente elevada à categoria de “cultura
nacional”, por meio do efeito metonímia[v] (a parte pelo todo), enquanto as
demais são marginalizadas e forçadas a um esforço hercúleo para existirem,
aprofundando o fosso das desigualdades regionais e transformando a cultura, que
deveria ser um direito universal, em um privilégio socioespacial, tanto para
quem produz quanto para quem consome, razão pela qual se torna imperativo, como
sugerem os editores consultados na matéria jornalística, que políticas públicas
de fomento à descentralização da cadeia produtiva e à formação de leitores em
todas as regiões sejam implementadas, não apenas com recursos financeiros, mas
sobretudo com o reconhecimento de que o Brasil, sendo “radicalmente diverso” e
contendo múltiplas realidades, precisa de um mercado editorial que reverbere
essa bibliodiversidade.[vi]
*Eduardo
Henrique Barbosa de Vasconcelos é
professor de história na Universidade Estadual de Goiás (UEG).Autor do livro Ciência
peculiar de Joaquim Antonio Alves Ribeiro (Cancioneiro).
Notas
[i] PORTO,
Walter. Mapeamento expõe como o mercado editorial brasileiro se concentra no
Sudeste. In: Folha de São Paulo, São Paulo, 19 jun. 2026. Coluna Painel das
Letras. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/walter-porto/2026/06/mapeamento-expoe-como-o-mercado-editorial-brasileiro-se-concentra-no-sudeste.shtml.
Acesso em: 19 jun. 2026.
[ii] ARRUDA,
André Felipe Soares & SOUSA NETO, Francisco Florentino de. Vaquinhas que
produzem pouco: uma demonstração da existência do colonialismo interno
brasileiro. In: CONTEMPORÂNEA – REVISTA DE ÉTICA E
FILOSOFIA POLÍTICA, v. 4, p. e4180, 2024. Disponível em: https://ojs.revistacontemporanea.com/ojs/index.php/home/article/view/4180 Acesso
em: 15 jun. 2026.
[iii] MORAES,
Antonio Carlos Robert de. Ideologias geográficas:
espaço, cultura e política no Brasil. São Paulo: Annablume, 2005.
[iv] BOURDIEU,
Pierre. O
Poder Simbólico. Tradução de Fernando Tomaz. Lisboa: DIFEL; Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
[v] VASCONCELOS,
Eduardo Henrique Barbosa de. Historiografia das ciências no Brasil. In: A
Terra é Redonda, [s. l.], 31 dez. 2024. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/historiografia-das-ciencias-no-brasil/.
Acesso em: 18 jun. 2026.
[vi] HAWTHOME,
Susan, Bibliodiversidade.
[Recurso Eletrônico] um manifesto pelas edições independentes. Belo Horizonte:
LABED: LED, 2024. Disponível em: https://labed-letras-ufmg.com.br/publicacoes/bibliodiversidade-um-manifesto-pelas-edicoes-independentes/ Acesso
em: 17 jun. 2026.
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