01 abril 2026

Enio Lins opina

Um presidiário cercado de luxo, privilégios e cumplicidades
Enio Lins      

EM MANCHETE na página de abertura, o portal globo.com publicou a seguinte pérola: “Moraes nega livre acesso de filhos à casa de Bolsonaro”. A platitude foi ao ar, com tremendo destaque, às 9h22 (sic) do sábado, 28. Reportagem com assinatura coletiva de Márcio Falcão, Gustavo Garcia, TV Globo e G1, redigida em Brasília. O destaque seguiu presente na tela inicial, em menor espaço, durante o domingão, 29. Numa boa.

GENTE, POR FAVOR: Jair B é um presidiário! A residência dele, numa generosidade excessiva do STF, foi convertida – provisoriamente – em carceragem. Tanto que o nome da benesse é “prisão domiciliar”. O ministro Alexandre de Moraes, atendendo às súplicas da defesa e dos familiares do condenado, concedeu o privilégio do apenado cumprir, da sua pena de 27 anos e três meses em regime fechado, 90 (noventa) dias no extremo conforto de sua mansão. Assim, o criminoso sobre o qual falamos está em cana. Em casa, mas devidamente preso, e as normas, no aconchego de seu lar, são iguais às normas de qualquer presídio Brasil afora. É isso, talkey? Filhos e demais familiares de Jair B que estejam soltos – por enquanto – não podem entrar e sair em ambientes prisionais quando bem entenderem. Não podem the Bolsonaro’s terem livre acesso – por exemplo – aos parceiros e amigos Ronnie Lessa, irmãos Brazão e Rodrigo Bacellar, atualmente encarcerados (em Bangu 8, se não me engano) por crimes diversos – os três primeiros, pelos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes, e o deputado (bolsonarista ex-presidente da ALERJ) por ligação com o Comando Vermelho.

TEM A MANSÃO DE JAIR B
 400 m² (quatrocentos metros quadrados) de área construída, dois andares, jardins, piscina, área de lazer privativa. Não é esse endereço um dos 101 imóveis adquiridos pelos Bolsonaros durante os recentes anos de fartura (desses, 50 foram comprados com dinheiro vivo, conforme as escrituras passadas em cartório). O domicílio seria alugado, dizem. Localizado no luxuoso Condomínio Solar de Brasília, por sua vez encravado no Jardim Botânico da Capital Federal, área verdejante cortada por ruas arborizadas, perímetro exclusivo, numa das mais aprazíveis e privilegiadas glebas urbanas do Brasil. Lembra o G1: “Entre 4 de agosto e 23 de novembro, Bolsonaro já cumpriu prisão domiciliar no condomínio Solar de Brasília (...). Ele foi transferido para a Superintendência da Polícia Federal em novembro após tentar violar a tornozeleira eletrônica que usava na domiciliar. E, dias depois, passou a cumprir [na Papudinha] a pena definitiva de 27 anos e 3 meses de prisão a que foi condenado pelo STF no inquérito da trama golpista”.

“COM 1.258 LOTES,
 o condomínio é tão extenso que foi dividido em três quadras: Solar de Brasília I, II e III. O urbanismo é semelhante ao dos condomínios em redor: lotes grandes, ruas internas arborizadas, guaritas com vigilância 24 horas e controle rígido de entrada e saída. Além disso, o conjunto oferece aos moradores e visitantes: ruas de bloquetes, avenidas pavimentadas e sinalizadas, pistas de caminhada, ciclovias, área de lazer com quadras para esportes, churrasqueiras, pista de skate, parquinhos, quatro igrejas cristãs de diferentes denominações, central de monitoramento de segurança, espaço de lazer para idosos” – assim descreve o G1 a ambiência do mito presidiário noutra reportagem, publicada em 27 de março, assinada por Ana Lídia Araújo, Fernanda Bastos e Ygor Wolf. Pergunta-se: é prisão ou premiação? Mas – provisoriamente – é uma Casa de Detenção e não uma Casa de Mãe Joana. Insisto: cadeias são locais nos quais não pode entrar e sair quem quiser na hora que quiser. Nem familiares, nem cúmplices. E no caso em tela – Zero Um, Zero Dois, Zero Três, Zero Quatro et caterva – são familiares/cúmplices que querem livre acesso a Zero Zero, o líder da quadrilha. Não dá, né?
 

Leia também: O mundo cabe numa Organização de Base https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/05/minha-opiniao_18.html  

Palavra de poeta

Delírio
Cyl Gallindo     

Ando pelas ruas tendo vertigens.
Veementes delírios:
Rodam as casas,
as ruas unem seus vértices,
as pessoas voam
como papagaios de papel.

E os mendigos ficam mais altos,
aqueles que confidenciam o corpo ao chão.

Mantêm-se acima dos edifícios,
deitados no ar.
Seus corpos vazios,
suas almas vazias...(?)
Deitados naqueles edredões
de roupas velhas
recheados de poeiras.

Um manto listrado
(de vermelho e branco)
vem cobrindo o céu.
Outras estrelas
comem as estrelas do meu céu.

- Eu tenho céu?

- No meu delírio fica abaixo da terra,
ou na flor da terra,
ou no papo dos urubus.

Destes urubus que enfeitam o céu!

Lá está meu céu,
e de milhões de irmãos,
voando aos pedacinhos,
sob o manto,
vermelho e branco,
que lhes dá a festa.
Festa de minha fome,
da minha própria carniça!

Já comeram o Cruzeiro
e as Três Marias
(e tantas Marias e tantos Joãos)
e todas as estrelas inferiores
à ordem e progresso.

Só se mantém viva a Espiga,
desvirginada por Ursa Maior.
Essas estrelas não entram no céu,
porque camelo não passa em fundo de agulha.

Só entram os mendigos:
Os que não comem,
os que não vestem,
dormem no chão
e não se revoltam.

Suas almas vão aos céus:
esfaceladas,
aos pedacinhos,
nos vôos dos urubus,
que estão no céu
voando, voando...

Talvez meu delírio
seja o caminho desse céu!

[Ilustração: Jaime Lauriano]

Leia também: "Autobiografia", um poema de Mia Couto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/palavra-de-poeta_68.html 

31 março 2026

Minha opinião

Chapa Lula-Alckmin reafirma frente ampla
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65     

Lula anunciou hoje, em reunião ministerial, a manutenção de Geraldo Alckmin na chapa que concorre à reeleição. Bom sinal. Não parecia haver razão para uma mudança.

É a reafirmação de que a Frente Ampla permanece como o pilar central de sustentação do atual projeto de governo.

Alckmin foi um adversário histórico da e possibilitou o posto de vice ao lado de Lula. No exercício do governo, mostrou sensato, equilibrado e produtivo. Ajudou no diálogo com segmentos econômicos que dão sustentação ao centro-direita. Ampliou possibilidades de gestão.

Neste instante, enquanto a extrema direita ainda não superou contradições e disputas, agora acentuadas com o lançamento de Ronaldo Caiado pelo PSD, a ampla coalizão que governa sinaliza para a opinião publica maturidade e equilíbrio. Isto é fundamental inclusive para o relacionamento com a Câmara dos Deputados e o Senado marcados por forte presença oposicionista.

Leia: Alianças híbridas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_30.html 

Humor de resistência

Guga

Powerpoint da Globonews reabre as feridas de manipulação da mídia https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/globo-na-lama-2.html 

Postei nas redes

Colunista do Estadão diz que Caiado, embora com intenção de voto menor no primeiro turno (cerca de 3,6%), possui a menor rejeição entre os principais candidatos, o que o torna um "agregador de votos de centro-direita". Análise superficial e precipitada de quem torce contra Lula. 

Terceira via carece de chão https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_19.html 

Máfia digital milionária

O gabinete das bets
Engrenagem mistura propaganda política, dinheiro de origem questionável e plataformas que lucram com tudo isso
Leandro Demori/Liberta      

Há algo de profundamente errado e perigosamente naturalizado no ecossistema digital brasileiro. Não se trata mais apenas de desinformação, nem de militância disfarçada de entretenimento. O que está em curso é mais sofisticado e vem turbinado por uma máfia bilionária, que não mede dinheiro para chegar aonde quer: uma engrenagem que mistura propaganda política, dinheiro de origem questionável e plataformas que lucram com tudo isso como se fossem meras espectadoras.

Perfis de fofoca com dezenas de milhões de seguidores abandonaram, sem qualquer constrangimento, o conteúdo que os tornou populares (o novo jet-ski da Ana Castela, o pet da Cláudia Leitte, o carrão do sertanejo do momento) para operar como canais de influência política. Não é uma guinada editorial espontânea, como mostrei no ICL Notícias esta semana. É um método financiado por uma bet de um conhecido “rei do tigrinho”, um esquema que atinge todos os dias dezenas de milhões de pessoas com propaganda anti-governo. Vem deste ecossistema, tenho certeza, parte relevante da corrosão da imagem do governo Lula.

A engrenagem funciona assim: páginas como a Alfinetei (25 milhões de seguidores, mais do que o padre Fábio de Melo) publicam ataques sistemáticos ao governo federal e promovem figuras da direita e da extrema direita, como Tarcísio de Freitas, Jair Bolsonaro e Nikolas Ferreira. Fazem isso enquanto exibem, sem pudor, a logomarca de casas de apostas. Entre elas, a 7games.bet, ligada a Fernando Oliveira de Lima, vulgo Fernandin OIG, “empresário” associado à expansão predatória do jogo do “Tigrinho” no Brasil e próximo de Ciro Nogueira. Foi Fernandinho que levou o senador para Mônaco. No jatinho do tigreiro, os amigos foram ver um GP de F1.

Esse mesmo perfil e outros como ele já haviam sido apontados por atuarem em campanhas coordenadas, envolvendo o Banco Master, de Daniel Vorcaro, em ataques ao Banco Central do Brasil. Estava, como se diz, “no bolso do Vorcaro”, detonando a imagem do BC a pagamento. Agora, repetem o padrão: conteúdo político disfarçado de entretenimento, impulsionado por dinheiro publicitário de origem opaca. Enquanto corroem a imagem do governo e do BC, essas mesmas contas aplaudem Tarcísio de Freitas. Entre um pet e um carrão de luxo, elas encontram espaços para posts sobre a inauguração do Rodoanel em São Paulo.

E aqui entra o ponto central e talvez mais grave de todos: nada disso existiria sem as plataformas. O Instagram sabe quem são esses perfis. Sabe quem paga pelos anúncios, pois são perfis “verificados”. Sabe quais conteúdos são impulsionados e consegue “ver” o logotipo da bet nos posts. Sabe, inclusive, quando se trata de propaganda política – tanto que bloqueia campanhas de veículos jornalísticos sob esse pretexto, inclusive os documentários do ICL, alegando (falsamente) que se tratam de campanha política.

Mas, quando o dinheiro vem travestido de publicidade de apostas, quando o conteúdo político é embalado como fofoca, quando o ataque é lucrativo para os tech bros, a plataforma não apenas permite, ela monetiza e se associa ao crime. Cada curtida, cada comentário indignado, cada compartilhamento amplifica não só a mensagem, mas o faturamento das empresas. As plataformas recebem sua parte. São intermediárias financeiras dessa engrenagem.

Quando uma rede social aceita dinheiro para impulsionar conteúdo político disfarçado, financiado por agentes com interesses diretos no debate público, ela deixa de ser uma infraestrutura neutra e passa a ser um agente econômico do processo. Sócia, ainda que indireta, do resultado.

E o resultado está aí: distorção do debate público, manipulação de percepção, artificialização de popularidade política e muito, muito dinheiro. No ICL N1, mostramos uma tabela de preços. Cada posts pode chegar a custar 40 ou 50 mil reais. São milhares de posts por ano que tornaram perfis de fofoca uma espécie de cabos eleitorais do submundo. É o gabinete das bets. Casas de aposta viram financiadoras de discurso e plataformas de redes sociais viram o caixa registrador de tudo isso.

Há uma pergunta que precisa ser feita com clareza, sem rodeios: por que o Instagram bloqueia a promoção de documentários jornalísticos, mas permite (e lucra com) campanhas políticas disfarçadas, pagas por empresas envolvidas em controvérsias ou até mesmo em crimes?

Alguma esperança poderia residir no TSE. O tribunal eleitoral poderia, por exemplo, derrubar as contas. Será? Acontece que no fundo do poço tem um alçapão, mais precisamente um episódio exposto na CPI das Bets que adiciona uma camada surreal ao debate público. Fernandin OIG admitiu ter dado carona em seu jatinho (o mesmo que levou Ciro Nogueira) ao ministro do STF Kassio Nunes Marques para uma viagem à Grécia, onde ambos participariam de uma festa do cantor Gusttavo Lima.

Segundo OIG, trata-se de uma “amizade antiga, nascida no Piauí”. O episódio – revelado sob indagação do senador Alessandro Vieira na CPI das Bets – levanta claros questionamentos óbvios sobre a proximidade entre figuras com interesses econômicos relevantes e membros da mais alta Corte do país, mas não acaba aí: Nunes Marques assume a presidência do TSE (que poderia acabar com o gabinete das bets) em junho deste ano.

Pois é.
Dá pra rir ou chorar.
Escolha aí.
Talvez nem faça diferença.

Powerpoint da Globonews reabre as feridas de manipulação da mídia https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/globo-na-lama-2.html 

Postei nas redes

Minas gerais concentra 11% dos votos de todo o país. É o segundo colégio eleitoral após São Paulo. Toda habilidade é necessária para construir uma alternativa eleitoral que beneficie a reeleição do presidente Lula. 

Alianças de quem com quem? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/fator-de-instabilidade.html