Lula cobra controle das plataformas e defende soberania brasileira
Em longa entrevista à TV Brasil, Lula falou sobre redes sociais, soberania, trabalho, apostas online e crise democrática global
Natalia Padalo/Vermelho
Na primeira participação de um presidente da República em exercício no programa Sem Censura, da TV Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva falou sobre democracia, soberania nacional, crise internacional e reconstrução do Estado brasileiro. Ao lado de Cissa Guimarães, Luciana Barreto e Nath Finanças, o presidente passou por temas que foram da geopolítica internacional às apostas online, além de temas como segurança pública, inteligência artificial, redes sociais e redução da jornada de trabalho.
Ao longo da conversa, Lula buscou construir uma leitura ampla sobre o atual momento político mundial. Para o presidente, o crescimento da extrema direita, o ambiente de radicalização nas redes e o descontrole das plataformas digitais estão diretamente ligados ao aumento da polarização social e da violência política em diferentes países. “O mundo está mais nervoso, mais irritado, mais polarizado”, afirmou. Em seguida, responsabilizou a lógica algorítmica das redes sociais pela deterioração da convivência democrática. “Estamos sendo vítimas do algoritmo”, declarou.
A crítica às plataformas digitais ocupou parte importante da entrevista. Lula defendeu maior responsabilização das empresas de tecnologia e afirmou que crimes cometidos na internet devem receber o mesmo tratamento jurídico daqueles praticados fora do ambiente virtual. “Eu não posso permitir que alguém ofenda a Cissa na rua e também não posso permitir que o façam na rede digital. O que é crime no real tem que ser crime digital”, disse.
Plataformas digitais, violência e crise democrática
Ao comentar os impactos das redes sobre crianças e adolescentes, o presidente mencionou episódios de violência incentivados online, incluindo “estupros coletivos pela internet”, e voltou a defender mecanismos de regulação das plataformas digitais.
A discussão sobre tecnologia apareceu também quando Lula comentou os riscos da inteligência artificial para os processos democráticos. O presidente criticou o uso político da IA em campanhas eleitorais e afirmou que as novas tecnologias não podem ser utilizadas para manipular escolhas populares.
“Você pode comprar uma mentira e depois como é que você conserta?”, questionou ao comentar o avanço das fake news e da manipulação digital nas eleições contemporâneas.
Trump e disputa geopolítica
Em outro momento da entrevista, Lula articulou a crise democrática global ao avanço do unilateralismo liderado pelos Estados Unidos. Ao comentar sua relação com Donald Trump, o presidente afirmou que o Brasil exige respeito nas relações diplomáticas e criticou a postura estadunidense diante da América Latina. “O Brasil quer ser tratado com respeito”, afirmou.
Lula revelou ainda bastidores das conversas com Trump e disse ter alertado o presidente norte-americano de que ele “não foi eleito para ser imperador do mundo”. Segundo o presidente, os Estados Unidos precisam abandonar práticas unilaterais e reconstruir mecanismos multilaterais de negociação internacional.
Ao tratar da guerra, do Conselho de Segurança da ONU e da reorganização geopolítica global, Lula criticou a concentração de poder nas grandes potências e voltou a defender maior protagonismo dos países do Sul Global, como Brasil, Índia e África do Sul.
Um dos temas estratégicos da entrevista foi a disputa internacional pelas chamadas terras raras e minerais críticos. Lula afirmou que o governo brasileiro trata o assunto como questão de “segurança nacional” e defendeu que a exploração desses recursos esteja vinculada à industrialização e ao desenvolvimento interno do país. “Não vamos fazer com os minerais críticos o que foi feito com o minério de ferro” afirmou, em referência ao histórico brasileiro de exportação de commodities sem agregação de valor tecnológico.
Segundo o presidente, o Brasil precisa impedir que suas riquezas naturais sejam apropriadas exclusivamente por interesses estrangeiros e deve utilizar os recursos estratégicos como instrumento de desenvolvimento soberano.
Reconstrução do Estado e enfrentamento das desigualdades
No plano interno, Lula retomou críticas ao desmonte institucional promovido durante o governo Bolsonaro e citou explicitamente o fim do Ministério das Mulheres como exemplo do esvaziamento das políticas públicas. “Não tinha mais Ministério da Cultura, não tinha Ministério da Mulher”, afirmou ao comentar a situação encontrada pelo atual governo em 2023.
A entrevista também foi marcada por uma defesa do papel do Estado na proteção social e no enfrentamento das desigualdades. Ao lado de Nath Finanças, Lula falou sobre endividamento popular, educação financeira e o crescimento das plataformas de apostas online. O presidente classificou as bets como um problema social grave e associou o avanço das apostas ao adoecimento coletivo e ao comprometimento da renda das famílias trabalhadoras. “Jogar é uma doença, é um vício”, declarou.
Presidente relaciona escala 6×1 à sobrecarga das mulheres trabalhadoras
Ao comentar o debate sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1, Lula relacionou diretamente o tema à qualidade de vida da população trabalhadora, especialmente das mulheres.
“A mulher trabalha fora, vai ter que fazer comida, cuidar das crianças, lavar roupa”, afirmou ao defender a ampliação do tempo livre e da convivência familiar.
O presidente também criticou setores empresariais que resistem à redução da jornada e afirmou que os ganhos tecnológicos acumulados nas últimas décadas precisam ser revertidos em melhores condições de vida para os trabalhadores.
Em outro momento de forte conteúdo político, Lula voltou fez severas críticas a operação Lava Jato, classificada por ele como “a grande mentira do século 21 nesse país”. Segundo o presidente, a operação destruiu empresas nacionais, desmontou empregos e contribuiu para o enfraquecimento da democracia brasileira.
Mais do que uma entrevista institucional, a participação de Lula no Sem Censura funcionou como uma tentativa de reorganizar politicamente temas centrais do debate contemporâneo — da soberania nacional ao poder das big techs, da crise democrática global ao avanço da extrema direita — articulando questões econômicas, sociais e culturais sob a defesa de um Estado forte, regulador e comprometido com a reconstrução democrática do país.
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