27 julho 2026

Sistema de saúde

País precisa de reforma sanitária
Nova etapa deverá reorganizar o sistema para responder às necessidades de uma sociedade mais longeva
José Gomes Temporão, José Eustáquio Diniz Alves, Rômulo Paes de Sousa e Deborah Carvalho Malta/O Globo 
 

Os sistemas de saúde em todo o mundo atravessam profundas transformações. Em diversos países observa-se a retração da participação do Estado no financiamento e na oferta de serviços, enquanto outros enfrentam dificuldades para adaptar suas políticas às novas demandas sanitárias, convivendo com subfinanciamento, redução da cobertura e deterioração da qualidade do cuidado.

Apesar do recente processo de reconstrução de sua capacidade operacional, após período de degradação institucional, o Sistema Único de Saúde (SUS) permanece submetido a desafios estruturais que pressionam sua sustentabilidade.  

Esses desafios tornam-se ainda mais relevantes diante da acelerada transformação demográfica. No século XX, a redução da mortalidade, especialmente infantil, permitiu a queda da fecundidade, ampliou os investimentos das famílias no desenvolvimento de seus filhos e contribuiu para o avanço do bem-estar e da mobilidade social. Ao longo do século XX, a expectativa de vida mundial passou de 32 para 66 anos e, no Brasil, de 29 para 69 anos. No século XXI, porém, o envelhecimento populacional tende a ser o principal determinante das necessidades de saúde. No Brasil, essa transição ocorre em ritmo mais acelerado que a média global. 

Ao mesmo tempo, consolidou-se a predominância das doenças crônicas não transmissíveis, especialmente as cardiovasculares, cerebrovasculares e as demências, enquanto permanecem relevantes as causas externas de morte. Entre as principais causas de incapacidade, destacam-se os transtornos mentais e musculoesqueléticos. Os fatores de risco mais importantes passaram a ser metabólicos e comportamentais, como hipertensão, diabetes, obesidade, alimentação inadequada e tabagismo. Contudo, a pandemia de Covid-19 nos mostrou que doenças infectocontagiosas poderão emergir ou reemergir provocando catástrofes sanitárias em países, regiões ou em todo o planeta. Persistem ainda grandes desigualdades ambientais e étnico-sociais em saúde, com indicadores menos favoráveis nas regiões Norte e Nordeste e nas periferias das grandes cidades.  

Esse cenário exige uma Reforma Sanitária de Segunda Geração. Se a primeira consolidou a saúde como direito e instituiu o SUS sob os princípios da universalidade, integralidade, descentralização e participação social, a nova etapa deverá reorganizar o sistema para responder às necessidades de uma sociedade mais longeva, com desigualdades interseccionais e tecnologicamente complexas.

O objetivo não é apenas ampliar a oferta de serviços, mas produzir a melhoria do bem-estar da população com mais equidade e mais anos de vida saudável. Para isso, será necessária uma estratégia nacional baseada em financiamento público estável, regionalização efetiva, fortalecimento da atenção primária, expansão dos cuidados de longa duração, incorporação responsável da inovação tecnológica e soberania sanitária.

O SUS reúne condições singulares para liderar essa transformação. Sua universalidade, presença territorial, capacidade de coordenação e experiência em saúde pública permitem integrar ações de vigilância, promoção, prevenção, assistência e recuperação em escala nacional. A Reforma Sanitária de Segunda Geração representa, portanto, uma agenda que transcende as fronteiras administrativas da saúde pública. Ela é parte intrínseca de um projeto de desenvolvimento nacional, multidimensional, democrático, que é assentado na inovação e na participação social.

*José Gomes Temporão, Rômulo Paes de Sousa e José Eustáquio Diniz Alves são pesquisadores da Fiocruz, Deborah Carvalho Malta é pesquisadora da UFMG

Se comentar, identifique-se. https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/06/participe.html

Luciana Santos: O papel estratégico do CTVacinas para o Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/boa-noticia_28.html

26 julho 2026

Palavra de poeta

Sonho
Arnaldo Antunes   

sonho
que estou tentando
tanto
fazer uma coisa
mas outras coisas
me atrapalham
— desvios, falhas, enganos,
obstáculos
espetaculares, perigos
de morte, lapsos
de memória, acidentes,
catástrofes, pormenores
irrelevantes, pessoas
que desaparecem
ou se transformam
em outras ou
surgem repentinamente
como se já estivessem ali
há muito tempo,
ou se perderam
e esperam
que alguém (eu,
é claro)
as leve
de volta
ao caminho —
e me afasto da meta
que persigo
flecha
cada vez mais longe
do arco
e do alvo
quando então
do alto
do teto
caio
no colchão
do quarto
em que desperto
Sísifo
dissidente
do círculo
eternamente
incompleto.

[Ilustração: Marcos Guinoza]

Leia também "Chuva e sol", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/palavra-de-poeta_0567998667.html 

Postei nas redes

Folha de S. Paulo, em editorial, nivela Lula a Flávio Bolsonaro quanto a suposta ausência de propostas para o país e ignora a plataforma de governo do presidente, em fase de atualização para o provável quarto mandato. Tergiversação ridícula! 

Governo Lula defende o Brasil contra o tarifaço Trump-Bolsonaro https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/editorial-do-vermelho_025789528.html 

Arte é vida

 

Maurício Arraes

"Anotações" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-palavra_02027913016.html 

Sylvio: bizarro

O folclórico, bizarro e despreparado presidente da Argentina Javier Milei, no Brasil participando de ato político em favor de Flávio Bolsonaro, proferiu impropérios e insultos ao presidente Lula e ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de  Moraes. Em defesa de nossas instituições, que os mesmos representam, tal procedimento, digno de um autêntico moleque, deve ser repelido veementemente e adotadas as medidas judiciais e políticas cabíveis.

Sylvio Belém  

Tendências favoráveis https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0865763975.html 

História viva

Qual discurso?
Luciano Siqueira    

Na fila do caixa do restaurante:

- Prazer em vê-lo, Doutor Luciano.

- Prazer meu. 

(Não o reconheço: cidadão alvo-vermelho, obeso, cabelos brancos, mais ou menos da minha idade.)

- Vai sair pra quê nesta eleição?

- Não sou candidato.

- Se fosse, votaria novamente no senhor...

- Grato pela confiança. 

- Nunca esqueço aquele seu discurso na Praça do Diário de Pernambuco, na campanha de Marcos Freire.

(Daquela campanha, em 1982, quando me elegi deputado estadual pela primeira vez, recordo apenas das falas de Ulysses Guimarães e do próprio Marcos. Que discurso terei feito!?)

- O senhor disse que a ditadura "crescia feito rabo de cavalo, pra baixo"...

(Na verdade, lembro bem, quem disse isso foi Ulysses, arrancando aplausos da multidão).

- Boa memória a sua...

- Pois é. Conto esses casos para filhos e netos, essa gente nova que mal conhece a História pelos livros, vive vidrada na tela do celular.

Faz bem.

(Chegou a minha vez de pagar a conta, nosso diálogo interrompido).

- Hoje em dia os candidatos quase não falam nas ruas, é tudo pelas redes sociais!, arrematou.

- Tem razão, concordei já me despedindo.

(Leonel - apresentou-se ao se despedir - é um dentre milhares que guardam na memória fragmentos dos tempos idos, nem sempre com a precisão que imaginam. Importa que se mantenha do lado certo no áspero e confuso tempo em que vivemos). 

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Três "questões de ordem" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0658357328.html 

Humor de resistência

Aroeira