03 outubro 2026

Soberania nacional nas urnas

A dimensão geopolítica da eleição brasileira
Em meio ao avanço da influência dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental, alerta para riscos à soberania brasileira e para os impactos geopolíticos da eleição de 2026
Paulo Nogueira Batista Jr.     

A soberania brasileira corre um risco inédito na nossa história como nação. Estamos vivendo a eleição mais perigosa de todos os tempos por causa da conjunção de dois fatores: a candidatura competitiva de Flávio Bolsonaro e a nova fase da política internacional dos Estados Unidos.

O primeiro fator é conhecido, não preciso me alongar a respeito. Digo apenas que, entre muitas outras deficiências e antecedentes problemáticos (ele não tem currículo, mas sim folha corrida), Flávio Bolsonaro faz questão de explicitar a sua subordinação a Donald Trump, seguindo nesse ponto o exemplo do pai.

Só que agora há um agravante: o império estado-unidense se mostra muito mais agressivo do que na época em que Jair Bolsonaro foi presidente. O Trump 2 é uma versão piorada e mais violenta de Trump 1. Como os Bolsonaros são imitadores vulgares e assumidos de Trump, não será de surpreender que um eventual Bolsonaro 2 venha a ser pior do que o Bolsonaro 1. Se cometermos o erro gigantesco de eleger esse estrupício, o país retrocederá décadas e a soberania brasileira será esmagada.

Um aviso prévio. Este artigo está sendo finalizado alguns dias antes do primeiro turno das eleições. Em caso de vitória de Lula já no primeiro turno, o Basil estará, sem dúvida, mais preparado para enfrentar ameaças estrangeiras. Mesmo com a eleição de Lula, entretanto, no primeiro ou segundo turno, os graves problemas do entorno internacional e o desafio de lidar com uma superpotência agressiva, descritos no artigo, permanecerão conosco por muito tempo.

A lei da selva

Não estou exagerando, nem fazendo drama. É bem verdade que o imperialismo do Ocidente sempre foi brutal, sempre esteve disposto a se valer de todos os meios para submeter e até destruir outras nações e civilizações.

A diferença é que o Ocidente está agora em declínio. E não aceita esse declínio de forma nenhuma. Fará o diabo para tentar conter ou reverter a sua perda de relevância no mundo. Apesar de decadente, os EUA e o resto do Ocidente ainda têm muita força econômica, política e militar – e podem fazer grandes estragos, como estamos vendo.

Nada mais perigoso do que uma superpotência em declínio. Na segunda metade do século 20 e, mais ainda, no “momento unipolar” após o colapso da União Soviética em 1991, os Estados Unidos prevaleciam com naturalidade. Convencidos da sua superioridade, implementavam regras e tratados, criavam instituições multilaterais e propugnavam o livre-comércio urbi et orbi. Espalhavam mundo afora a ideologia dos mercados eficientes e da abertura das economias como receita para o sucesso de qualquer país.

Nas década iniciais do século 21, com o surgimento de um mundo multipolar marcado principalmente pela ascensão da China e outros países do Leste da Ásia, os estado-unidenses e europeus viraram casaca. Abandonaram o neoliberalismo e defesa do livre-comércio; passaram a praticar, sem rodeios, as políticas de proteção e intervenção estatal que antes condenavam.

A mudança das políticas econômicas mostrou-se, porém, insuficiente para deter o enfraquecimento dos Estados Unidos e da Europa. Atrapalhou, mas não deteve o avanço da China, vista como a principal ameaça. Resultado: o Ocidente, sobretudo os EUA, resolveram dobrar a aposta. Entraram em modo desespero e passaram a romper regras, acordos e tratados, além de minar algumas das instituições criadas por eles após a Segunda Guerra Mundial, notadamente a ONU e a OMC. Virou um vale-tudo em termos institucionais.

Quando isso também não funcionou para preservar a hegemonia mundial, os EUA colocaram em campo o seu poderio militar. Com Trump 2, tornou-se rotina recorrer, ou ameaçar recorrer, à força militar para extrair concessões e abalar países considerados pouco cooperativos ou hostis. Estabeleceu-se a lei da selva.

Os EUA estão dando razão à profecia mordaz, atribuída a George Clemenceau, primeiro-ministro da França durante a Primeira Guerra Mundial, que usei como epígrafe deste artigo.

A vulnerabilidade do Hemisfério Ocidental

Outro elemento essencial do contexto internacional – o foco renovado dos EUA no Hemisfério Ocidental, que é considerado abertamente como parte da sua área de influência. Dois documentos oficiais do governo Trump deixaram esse ponto claro e cristalino – a “Estratégia de Segurança Nacional”, divulgada em novembro de 2025, e a “Estratégia de Defesa Nacional”, de janeiro de 2026, deram amplo destaque à retomada do controle sobre o Hemisfério Ocidental, da Groenlândia à Patagônia.

O primeiro documento afirma que os EUA “irão restaurar a proeminência americana sobre o hemisfério e negar a competidores não-Hemisféricos a habilidade de posicionar forças (…) ou possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais”. O segundo declara que “os interesses americanos estão sob ameaça em todo o Hemisfério Ocidental” e que os EUA, seguindo o “corolário Trump à doutrina Monroe”, buscarão “a restauração do poder e das prerrogativas dos EUA no hemisfério”.

Diversas declarações do presidente Trump e seus ministros, notadamente do ministro das relações exteriores, Marco Rubio, confirmaram enfaticamente essa abordagem. Foram muitas. A sua tônica pode ser resumida em uma frase: o Hemisfério Ocidental é nosso. Os EUA anunciam que usarão de todos os meios, inclusive militares, se preciso, para eliminar resistências nacionais e reduzir ou eliminar a presença econômica e política da China, cuja influência na América Latina e em outras partes do mundo cresceu muito nas décadas recentes.

Como se sabe, não foram só documentos e declarações. Já tivemos ações imperiais concretas no Hemisfério Ocidental, atingindo por exemplo  Groenlândia e Cuba. O episódio mais impressionante foi a intervenção relâmpago na Venezuela, com o sequestro do presidente do país. Sem resistência, a Venezuela foi transformada em protetorado dos EUA, que passou  a controlar as riquezas do país, notadamente as suas imensas reservas de petróleo. Trump não esconde, antes proclama, que esse controle foi a finalidade e o resultado da intervenção na Venezuela. Ressalte-se que esse descaro é novidade: antes, a tradição imperial era encobrir os seus objetivos com retórica hipócrita e discursos demagógicos, em especial sobre a sua suposta defesa da democracia e dos direitos humanos.

Uma outra vitória do governo Trump foi a ampliação e consolidação da presença militar dos EUA na Groenlândia. Com base em ameaças de intervenção militar, Trump extraiu da Dinamarca e da Groenlândia, um acordo que reforça e torna mais permanentes os direitos militares dos EUA nesse território.

Sob Trump, tivemos, também, a radicalização do embargo criminoso imposto a Cuba, causando grande sofrimento à população do país. É possível que o próximo passo dos EUA, depois das suas eleições parlamentares em novembro, seja alguma agressão militar e até mesmo a invasão de Cuba.

Note-se que essas ações têm um traço comum: a determinação de conter a influência da China e da Rússia. Os países agredidos ou ameaçados eram ou são próximos à China e a Rússia (Venezuela e Cuba) ou eram vistos como incapazes de deter a influência e ação dessas duas potências rivais no seu território (caso da Dinamarca e da Groenlândia).

Um Milei brasileiro?

A influência dos EUA no Hemisfério aumentou enormemente. Não só com as ações mencionadas acima, mas também porque as eleições em muitos países da região (com atuação estado-unidense nos bastidores) levaram a governos alinhados a Washington e também, sintomaticamente, a Telavive. O modelo Javier Milei fez escola. Esse modelo inclui subordinação explícita aos Estados Unidos e apoio incondicional ao regime criminoso de Israel.

Hoje, temos apenas três países grandes que mantêm uma linha independente – o Canadá de Mark Carney , o Brasil de Lula e o México de Claudia Sheinbaum. Além desses, temos apenas Cuba, Nicarágua – tradicionalmente anti-imperialistas – e, em menor medida, Suriname.

O que querem os EUA na eleição brasileira? Na medida do possível, ajudar a eleger um vassalo, um Milei brasileiro, e submeter nosso país à sua área de influência sem disparar um tiro sequer.

O Brasil vai permitir isso? É nas horas difíceis que os povos demonstram o seu valor. Os nossos descendentes farão inevitavelmente a pergunta: o que você fez em 2026 para defender a soberania nacional?

Lula reúne multidão no Rio e pede “dedicação revolucionária” para vencer https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/rio-lula-nos-bracos-do-povo.html

Postei nas redes

“Padroeiro de Flávio Bolsonaro é homem, loiro e mora na Casa Branca”, diz colunista da Folha de S. Paulo. Ou seja Donald Trump.

Na reta final detalhes importam https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_01182604884.html 

Urariano Mota opina

O presidente Lula nesta eleição
Eu vejo Lula aos 80 anos clamando e chamando à luta todas as mulheres e homens para a luta permanente contra o fascismo.
Urariano Mota/Vermelho    

Quase toda a gente não se dá conta da História no momento em que vive a História. Assim foi, assim tem sido em momentos decisivos que mudam o mundo. Não é nem ter a consciência de que viu o nunca visto antes. É mais do que o vislumbre do que virá. Mas seria a consciência de viver no ato o que ficará além dos seus dias e tomará conta do futuro. Seria como um louco  proclamar: “Ei, imaterial, eu já sei que serás a matéria do próximo tempo”. Loucura. Ainda assim, a tentação de espalhar a intuição para todos é grande. Coisa de maluco.

Da noite da quinta-feira primeiro de outubro de 2026 até agora, quando mal conseguimos dormir, aconteceram tantas coisas que mal podemos acreditar. O presidente Lula não foi a um debate na Rede Globo de Televisão, mas ganhou o debate. Absurdo. Pode? Pôde. No mesmo horário, participou do Flow Podcast, que alcançou 10 milhões de visualizações no YouTube até há pouco. Mas a quantidade não para, pois a sucessão dos números naturais é infinita. No mundo, ele está na mídia do Xinhua, China Daily, The Guardian, Le Monde, El País, New York Times, Kommersant, Russia Today,  como uma esperança da democracia. Mas aqui no Brasil… “Tapetão judicial derruba debate da Globo”, “Ataque de juízes prejudica neutralidade da eleição”.

Em que mundo estamos? Na imprensa mais longe, nos jornais do Brasil ou na realidade brasileira? No romance “A mais longa duração da juventude”, escrevi:

“Vejo as águias encanecerem, acompanho os fios brancos de suas cabeças se tornarem frágeis, quebradiços, e me falo e percebo que algumas não piscaram no alto. No píncaro do tempo, não decaíram, como se fossem uma revolta contra a biologia, contra a organização da vida que se desorganiza e se desintegra quando chega ao fim. Parodiando Goethe no poema Um e Tudo, eles foram atravessados pela alma do mundo, e com ela lutaram sem descanso, como se vivos pudessem ter a eternidade. Tomaram outras formas, é certo, mas mantiveram a permanência do ser da juventude”.

Então eu vejo Lula aos 80 anos clamando e chamando à luta todas as mulheres e homens para a luta permanente contra o fascismo. O que podemos dizer então em harmonia com esse homem que espelha todos nós, nós de pronome e nós que ele liberta? Que nos integremos de vez ao que falam a intuição e as ruas do Brasil. 

Se a maluquice for uma profecia, vivamos então este futuro mais seguro, porque mais perto: o presidente Lula será eleito no primeiro turno, no próximo domingo. E depois, ah, depois fiquemos com frevo Ciranda de Maluco. Clique aqui e veja https://www.youtube.com/watch?v=sc0aiAb0wZw&t=46s

Lula reúne multidão no Rio e pede “dedicação revolucionária” para vencer https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/rio-lula-nos-bracos-do-povo.html

02 outubro 2026

Minha opinião

E se der primeiro turno?
Luciano Siqueira   

Não se trata de questionar as pesquisas eleitorais realizadas pelos institutos de maior credibilidade, mas cabe relembrar, sempre, que cada resultado é uma espécie de retrato do momento. Importa identificar tendências.

Mudanças na intenção de voto podem ocorrer nos últimos dias sob a influência de fatores como a migração de eleitores indecisos, por exemplo.  

Além disso, diferentes institutos lidam com as margens de erro e não negam o comportamento do eleitorado de última hora.

Durante toda a campanha, Lula tem se mantido na dianteira, ainda que por diferenças que oscilam.

Agora mesmo, o próprio presidente (e a campanha como um todo) faz um grande apelo a que eleitores de 70 anos e mais, legalmente dispensados da obrigação do voto, compareçam à urnas. Numa disputa tão acirrada, podem fazer a diferença.

Lula reúne multidão no Rio e pede “dedicação revolucionária” para vencer https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/rio-lula-nos-bracos-do-povo.html 

Dica de leitura

Como nas eleições passadas
Luciano Siqueira   

Mais do que plausível a suspeita levantada pelo jornalista Luís Nassif, em artigo publicado no Jornal GGN https://jornalggn.com.br/politica/as-manobras-para-afastar-o-eleitor-de-lula-das-urnas-por-l-nassif/ de que estaria em curso uma estratégia de guerra híbrida com o objetivo de desestimular a participação nas urnas.

O primeiro passo é incutir em parcela expressiva da população uma sensação de medo e insegurança. Três narrativas centrais estariam sendo veiculadas simultaneamente: suposta interferência direta dos Estados Unidos nas eleições brasileiras riscos iminentes de violência política durante e após a votação;  fechamento preventivo de embaixadas e consulados (como os EUA e a Austrália) sob a justificativa de preocupações com a segurança.

Nassif faz um paralelo histórico com operações de comunicação estratégica e empresas de dados (como o SCL Group e a Cambridge Analytica ), que praticaram artifícios que induziram a abstenção em grupos de eleitores específicos nas eleições passadas, envolvendo sobretudo o eleitorado tendente a votar em Lula.

No mato sem cachorro https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_02027768607.html   

Palavra de poeta

Louvor do revolucionário
Bertolt Brecht       

Quando a opressão aumenta
Muitos se desencorajam
Mas a coragem dele cresce.
Ele organiza a luta
Pelo tostão do salário, pela água do chá
E pelo poder no Estado.
Pergunta à propriedade:
Donde vens tu?
Pergunta às opiniões:
A quem aproveitais?
Onde quer que todos calem
Ali falará ele
E onde reina a opressão e se fala do Destino
Ele nomeará os nomes.
Onde se senta à mesa
Senta-se a insatisfação à mesa
A comida estraga-se
E reconhece-se que o quarto é acanhado.
Pra onde quer que o expulsem, para lá
Vai a revolta, e donde é escorraçado
Fica ainda lá o desassossego.


[Ilustração: David Alfaro Siqueiros]


Leia também "Sou meu hóspede", poema de Mario Benedetti https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/palavra-de-poeta.html 

Postei nas redes

A maioria dos 120 milhões de eleitores aptos a votar neste domingo ainda não escolheu os seus candidatos a deputado estadual e federal, revelam pesquisas. Colaboro pedindo votos para Renildo federal 6513 e Cida estadual, 65113.

Renildo, tanto quanto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao.html