12 janeiro 2026

EUA e a ordem mundial fissurada

O jogador, sua aposta e a desordem mundial
Ao se completarem os cem primeiros dias do governo de Donald Trump, um importante site de noticias brasileiro publicou na primeira página, ecoando boa parte da imprensa ocidental, que “em 100 dias Trump provocou o caos e abalou a ordem mundial”.
José Luís Fiori/ Observatório Internacional do Século XXI     

Isso é apenas parcialmente verdadeiro, uma vez que a desmontagem da “ordem internacional” do pós-Guerra Fria começou muito antes que Trump fosse eleito pela primeira vez, em 2016.

O desmonte começou em 1999, quando os EUA e seus aliados da OTAN desautorizaram as Nações Unidas, e atacaram e destruíram a Iugoslávia sem sua aprovação. E mais ainda, quando os EUA e a Grã-Bretanha atacaram o Afeganistão e o Iraque, em 2001 e 2003, contrariando a posição do Conselho de Segurança da ONU, principal órgão de “governança global” que eles mesmos haviam criado em 1945.

Esse processo de descrédito e desestruturação se agravou com o fracasso da “guerra global ao terrorismo”, declarada pelos EUA em 2001 e travada de forma quase contínua durante 20 anos, destruindo países e matando milhares de habitantes islâmicos do Oriente Médio, sem nenhum tipo de autorização da chamada “comunidade internacional”.

Não há dúvida de que o abalo definitivo da ordem vigente ocorreu quando as tropas rusas invadiram o território ucraniano, depois de EUA, OTAN e União Europeia rejeitarem um ultimato russo que exigia a desmilitarização da Ucrânia e a revisão do mapa geopolítico europeu, que havia sido imposto à Rússia pelas “potências vitoriosas” e a OTAN a partir de 1991.

Hoje, quando se olha com a perspectiva do tempo passado, percebe-se melhor que no dia 21 de fevereiro de 2021, se deu a ruptura definitiva dessa ordem euro-americana. Naquele momento surgiu uma potência -dentro do sistema mundial- que ousou desobedecer e desafiar, com suas próprias armas, as tropas ucranianas e o poder militar e financeiro dos EUA, da OTAN e da União Europeia, envolvidos numa verdadeira “guerra por procuração” contra a Rússia.

Os russos alcançaram uma vitória militar exponenciada pelo fracasso do ataque econômico masivo desfechado por essas mesmas potências do G7 e da Aliança do Atlântico Norte. Duas vitórias que desmoralizaram definitivamente a ideia da superioridade militar e econômica do “Ocidente” com relação ao “resto do mundo”.

Quase na mesma hora em que o massacre israelense, absolutamente cruel e insano, da população palestina da Faixa de Gaza, feito com as armas e o financiamento dos EUA, e com a cumplicidade silenciosa de seus aliados europeus, liquidou também o que restava da ideia da “excepcionalidade moral” da “civilização judaico-cristã” que serviu de fundamento ético da hegemonia cultural do “Ocidente”.

Foi nesse contexto, e após a grande crise financeira de 2008, que pôs em xeque a utopia da globalização econômica, que surgiu politicamente a figura de Donald Trump, o “grande jogador”. Sua vitória em 2016 e reeleição de 2024 são parte dessa mesma crise e desintegração da “hegemonia ocidental”.

Sua figura é indissociável da sua crítica veemente do “globalismo liberal” e de sua proposta de reorganização da política externa americana a partir da força e do interesse nacional dos EUA, sem maiores pretensões morais ou catequéticas. E não há a menor dúvida de que a política e a estratégia nacional e internacional de Donald Trump vêm contribuindo decisivamente para aumentar o caos e a desorden dentro e fora da sociedade americana.

Mais do que isto, a intenção declarada de Trump é destruir o que sobrou da “ordem liberal-cosmopolita” ou “globalista” do pós-91, e apostar num novo tipo sistema de correlação de forças internacionais baseado apenas no poder e nas negociações mercantis, sem nenhum tipo de utopia universalista.

Deixando de lado o “histrionismo volátil” de Trump, para poder entender melhor sua aposta geopolítica no campo internacional, o que mais se destacou nos primeiros meses do governo Trump foi exatamente sua crítica inclemente do “globalismo liberal” e o ataque direto contra seus próprios vizinhos, aliados e vassalos -como no caso do Canadá e do México, e do Panamá e da Groenlândia- e de forma ainda mais surpreendente e disruptiva, contra seus aliados europeus da União Europeia e da OTAN.

E ainda, seu ataque contra as instituições e organismos multilaterais criados depois da II GM para administrar a hegemonía mundial dos próprios EUA. Culminando com o “tarifaço universal” de Trump contra todos os países do mundo e, em particular, contra a China e a própria Europa, visando reorientar o comercio internacional e redesenhar o mapa produtivo do mundo.

De todas as suas iniciativas, entretanto, a mais heterodoxa foi sem dúvida a reaproximação e abertura de negociações com a Rússia, para acabar com a guerra da Ucrânia e trazer a Rússia para dentro dos circuitos produtivos, mercantis e financeiros do G7, na contramão da “russofobia” dos europeus. A tal ponto que chegou a reconhecer e denunciar a responsabilidade de Joe Biden e da OTAN pela própria Guerra da Ucrânia, antecipando a vitória inevitável da Rússia e defendendo a necessidade da paz para que os russos não simplesmente não acabem com a Ucrânia. Deixou no ar, inclusive, a possibilidade de que os EUA abandonem, no médio prazo, seu compromisso de “defesa mútua” incondicional, com relação aos países da OTAN.

Existe, no entanto, outro aspecto menos notado mas igualmente importante desses primeiros 100 dias de governo: a percepção cada vez mais nítida de que Trump não dispõe do poder que imaginou ter inicialmente, ao se propor a reorganizar o mundo de forma unilateral. Foi o que aconteceu no ataque económico contra a China, que encontrou uma resposta inesperada, dura e agressiva. Os chineses não se intimidaram nem se submeteram, e acabaram impondo aos norte-americanos um recuo e uma negociação em pé de igualdade, e nos termos exigidos pelo governo chinês.

Algo parecido com o que passou com a apressada tentativa americana de pacificação da Ucrânia, que entrou em choque com a resistência do seu próprio vassalo, e muito mais ainda, com a posição firme da Rússia em defesa de uma renegociação mais ampla do mapa geopolítico da Europa, que lhe havia sido imposto em 1991, e das próprias bases da nova ordem internacional que russos e chineses também consideram que deva ser reconstruída.

E o mesmo deve ser dito sobre a resistência demonstrada pelo Irã na defesa de seu programa nuclear, a despeito das reiteradas ameaças apocalípticas de Trump. Para não falar do recuo do governo Trump frente à corajosa resposta do México, ou mesmo seu fracasso em impedir que os países do seu “quintal latino-americano” comparecessem em peso ao 4º Fórum Ministerial China-CELAC, em Pequim, neste mês de maio, uma das mais importantes inciativas de cooperação multilateral do Sul Global.

Do nosso ponto de vista, a fraqueza demonstrada pelos EUA de Trump tem contribuído também, e de forma decisiva, para o desaparecimento quase completo de qualquer tipo de limites, regras, instituições e árbitros capazes de impedir que a guerra se transforme no meio mais comum e natural de “solução” de todo e qualquer conflito internacional.

É o que está acontecendo no caso dos ataques de Israel contra o Líbano, a Síria, e o Iêmen; e no caso dos ataques do Iêmen contra os navios “inimigos” que atravessam o Mar Vermelho; e ainda dos ataques massivos dos EUA e da Grã Bretanha contra o Iêmen, da mesma forma que na disputa fronteiriça entre a Índia e o Paquistão.

Assim mesmo, quando se olha com mais cuidado para essa “desordem no mundo”, percebe-se que ela se concentra muito mais nas zonas de “influência ocidental”, ou das potências do Atlântico Norte que dominaram o mundo nos últimos 200 anos, do que no “lado oriental” do sistema mundial. Sobretudo porque essa desordem vem sendo produzida pela erosão do poder militar e da liderança econômica e moral das “potências ocidentais”.

Por isso mesmo, pode-se afirmar que o fim do caos e da desordem no mundo só ocorrerá com a construção e consolidação de uma nova ordem internacional. Esse é um processo que passará, inevitavelmente, pela redefinição das relações entre esses “dois mundos”.

Com certeza, haverá avanços e recuos, mas essa construção tomará muitas décadas e envolverá ainda muitos conflitos e guerras, mas já não será mais uma ordem tutelada pelos EUA, nem muito menos pela Europa. Isto acabou.

Lula entre Estados Unidos e Venezuela a passos firmes https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_21.html

Alyson Fonseca opina

Entre o edital e a inclusão: Recife na vanguarda da defesa dos direitos e das garantias fundamentais
Alyson Fonseca* 

O recente episódio envolvendo a nomeação de um candidato com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em Recife — cidade que se orgulha de sua vocação vanguardista — transcende a narrativa política e impõe à sociedade uma reflexão jurídica profunda sobre a efetividade da Lei Brasileira de Inclusão (LBI).

O debate central não deve girar em torno do parentesco do candidato, mas sim da colisão entre o formalismo estrito do edital e o direito material assegurado pela Constituição Federal. No Direito Administrativo contemporâneo, o edital é considerado a “lei do concurso”, mas não habita um vácuo jurídico. Acima dele, repousa o Bloco de Constitucionalidade e a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, da qual o Brasil é signatário.

O ponto de inflexão neste caso é a entrega do laudo médico após o prazo editalício. Para o formalismo cego, o prazo é fatal. Para o Direito Humanizado — e para a jurisprudência consolidada dos tribunais superiores — a deficiência é uma condição pré-existente, e o laudo é meramente declaratório. Negar o direito à cota a quem comprovadamente possui a condição, fato ratificado pela Justiça do Trabalho, seria punir o indivíduo por um diagnóstico tardio. Isso, sim, fere o princípio da isonomia.

Quanto à atuação da Procuradoria Geral do Município (PGM), é preciso desmistificar a divergência de pareceres. A existência de opiniões contrárias entre procuradores de carreira é salutar e faz parte da dialética jurídica cotidiana. Contudo, cabe ao Procurador-Geral, como órgão de cúpula, a palavra final para unificar o entendimento administrativo. Se a PGM optou pela inclusão, alinhando-se à jurisprudência, agiu sob o manto da prevenção de litígios, evitando que o município fosse futuramente condenado por danos morais e exclusão indevida.

Por fim, a anulação do ato pelo Prefeito, com base no Princípio da Autotutela Administrativa (Súmula 473 do STF), demonstra prudência política. Em tempos de polarização, o gestor escolheu o recuo estratégico para conter o eco do senso comum. Mas a base jurídica que sustentou a nomeação original permanece íntegra: o direito à inclusão não é um favor do administrador público, mas uma imposição do Estado Democrático de Direito.

Justiça não se faz apenas com o cumprimento mecânico de cronogramas, cedendo aos ritos burocráticos, mas com a garantia de que barreiras biopsicossociais não impeçam o acesso ao serviço público por aqueles que, por lei, têm o direito de ocupá-lo.

*Pesquisador e acadêmico de Direito

Mais sobre o mundo da política https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

11 janeiro 2026

Palavra de poeta

Mãos dadas
Carlos Drummond de Andrade  

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
São taciturnos, mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, consideramos uma enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicidas,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Leia também: "Soneto da busca", um poema de Carlos Pena Filho  https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_40.html 

Fotografia

 

Luciano Siqueira

"Da rede tudo se ouve e se imagina"  https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_29.html 

Bastiões da direita

Bolsonarismo e centrão: as duas cabeças do monstro que assombra o Brasil
Monstruosidade dupla atua como guardiã feroz do poder que lhe garante privilégios
Ana Prestes/Liberta  



A conveniente união entre o bolsonarismo e o Centrão, especialmente na Câmara dos Deputados, evoca a imagem do cão bicéfalo Ortros, guardião dos bois vermelhos do gigante Gerião na mitologia grega. O monstro canino de duas cabeças está presente na literatura brasileira na obra Os Doze Trabalhos de Hércules (1944), de Monteiro Lobato, que popularizou entre as crianças e a juventude a simbologia daquele monstro vigilante, que protege um poder injusto.

Tal metáfora ilustra bem a fusão entre esses dois campos políticos que, embora diferentes, atuam juntos como guardiões ferozes de um mesmo tipo de poder concentrado, que lhes garante privilégios.

Proteção de poder

No mito, Ortros representa a vigilância absoluta, a ferocidade que impede qualquer transformação. Sua função é latir e amedrontar todo aquele que se aproxima do rebanho de Gerião, cujo poder ilegítimo o transformou num anti-“bom Rei” por dominar sua ilha de modo contrário ao ideal da pólis grega, pela força e não pelo debate democrático.

Em Lobato, a boneca Emília engana o cão com sua astúcia e tagarelice para ajudar Hércules a chegar ao rebanho. Mas, antes disso, o monstro cumpre o seu papel: bloquear as mudanças, intimidar oponentes e proteger um senhor que teme perder o que acumulou. A analogia se impõe quando observamos as similaridades com o comportamento político da aliança entre bolsonarismo e Centrão.

Como no mito, essa aliança forma um bloco de proteção do poder, cujo propósito é resguardar privilégios, bloquear reformas e manter sistemas arraigados que contrariam o interesse público e, muitas vezes, a própria legalidade constitucional.

Trata-se de uma combinação entre a agressividade ideológica do bolsonarismo e o cálculo fisiológico do Centrão, duas cabeças que defendem o mesmo Gerião contemporâneo: o Estado capturado, submetido a interesses privados, milícias, corporações políticas e redes ilícitas, que sequestram o orçamento e a máquina pública.

Outra característica do cão Ortros é sua reatividade primária: vigia, ataca e protege, mas não cria nem transforma.

De forma similar, a atuação conjunta de bolsonarismo e Centrão no Congresso tem sido marcada pela obstrução do que ameaça seu campo de influência pela contenção de investigações, pela blindagem de aliados e pela manutenção de uma estrutura de trocas fisiológicas. É uma força dedicada a impedir perdas para seu campo, mas incapaz de construir horizontes programáticos para o país. Interdita o debate, pois não há projetos a serem comparados.

Lobato descreve o cão bicéfalo como pavoroso, símbolo de terror, que afasta qualquer tentativa de questionar o poder estabelecido. A aliança entre Centrão e bolsonaristas opera com a mesma lógica: intimida por meio de uma retórica agressiva da extrema direita e, ao mesmo tempo, morde com as chantagens institucionais típicas do fisiologismo: distribuição de emendas, controle de cargos e ameaça permanente de paralisia legislativa. Late na retórica e morde no mecanismo de poder.

Desgaste político

Essa fusão, contudo, não existiu desde o início do governo Bolsonaro.

Eleito em 2018 com discurso antipolítica, Bolsonaro dizia rejeitar o “toma-lá-dá-cá” e atacava o próprio Centrão. Algo que se demonstrou uma grande falácia. Pressionado por crises e investigações, mudou de posição no ano pandêmico de 2020. Entre maio e julho daquele ano, iniciou negociações com PP, PL e Republicanos, distribuiu cargos estratégicos e consolidou a aproximação com Arthur Lira.

Em fevereiro de 2021, a eleição de Lira à presidência da Câmara contou com o apoio explícito do governo e se institucionalizou de vez a aliança, fundada na proteção contra tentativas de impeachment, no controle da agenda legislativa e no acesso ao Orçamento Secreto.

Hoje, essa união segue assombrando e impedindo avanços democráticos no Brasil, mas já aparecem fissuras importantes. A prisão e a inelegibilidade de Bolsonaro, a queda de mobilização do bolsonarismo nas ruas e o desgaste político do núcleo mais radical enfraqueceram sua capacidade de liderança.

No Centrão, cresce a desconfiança de manter laços com um movimento que perdeu força e já não oferece garantias eleitorais como em outros tempos. Somam-se a isso disputas internas pela herança do capital político da extrema direita e divergências entre pragmatismo fisiológico e radicalização ideológica, fatores que fragmentam o bloco conservador.

Assim como o cão bicéfalo de Gerião, que protege um poder monstruoso mas não conduz o rebanho, a aliança entre bolsonaristas e Centrão tornou-se um instrumento de vigilância e contenção, não de projeto. Continua operante, mas fragilizada, reativa e sem um rumo aparentemente comum. Seu único consenso é impedir que os “trabalhos de Hércules” da vida real, como as reformas democráticas, o fim da escala 6×1, a garantia de uma legislação de proteção ambiental, o combate à corrupção e os grandes projetos de infraestrutura e logística que o país precisa avancem.

Trata-se, portanto, de uma monstruosidade dupla, que assombra o Brasil. Dois monstros que guardam privilégios e mordem qualquer ameaça que ouse aproximar-se do poder e dos privilégios que defendem juntos. 

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