A mídia flerta com o desastre
Cobertura das eleições joga no lixo compromisso com os valores democráticos
Rodrigo Vianna/Liberta
O primeiro sinal veio naquela tarde em que a GloboNews, no programa conduzido por Andréia Sadi, exibiu o PowerPoint terrivelmente bolsonarista que tentou colar em Lula o escândalo do banco Master. Como até as palmeiras do Jardim Botânico já sabiam, Daniel Vorcaro virou banqueiro graças à proteção de Jair Bolsonaro, Campos Neto e de sua gangue mercadista. E não por causa de Lula, que o transformou em presidiário.
Os ingênuos viram no episódio do PowerPoint apenas a ação desastrada de um editor que – mais realista que o rei – decidiu vincular a estrela do PT a Vorcaro, pensando que assim garantiria promoções internas. Acabou demitido, porque a Globo espera alguma sutileza dos que se dispõe a trabalhar em favor dos interesses da família Marinho.
Ali, em março de 2026, já se desenhava qual seria o papel da mídia hereditária diante de mais uma ameaça à democracia no país. A Globo pediu desculpas pelo PowerPoint criminoso, mas não pediu desculpas – e nem pedirá – por “normalizar” Flávio Bolsonaro, deixando de expor suas ligações com a milícia e sua disposição para transformar o Brasil numa colônia submetida a Trump.
A maior irresponsabilidade da chamada “imprensa profissional”, ao longo da atual campanha, foi tratar Flávio como um candidato normal. O silêncio das redações não foi inocente: pavimentou o caminho para o filhote de Jair avançar, vendendo a imagem impossível de um “bolsonarista moderado”.
Passaram-se os meses e, em maio, coube ao Intercept Brasil mostrar que Flávio (e não Lula) era o irmãozão de Vorcaro. O áudio em que o “01” pedia dinheiro ao banqueiro bandido vazou graças ao trabalho do jornalista Paulo Motoryn, que hoje integra a equipe do ICL Notícias.
Durante dois meses, a aliança tácita entre Flávio Bolsonaro, Faria Lima e mídia hereditária desmoronou, não sendo mais capaz de oferecer proteção ao candidato das milícias. Para completar, coube à madrasta Michelle lembrar que ele é autoritário e maltrata as mulheres – seguindo a linhagem paterna.
Junho e julho foram os piores meses da campanha para Flávio: Lula chegou a abrir dez pontos de vantagem nas pesquisas de primeiro turno. Foram os únicos meses em que a sociedade conseguiu enxergar quem é o candidato do PL, sem o véu protetor da imprensa amiga.
O galope desgovernado do dark horse ameaçava conduzir o bolsonarismo ao precipício eleitoral. Mas, então, o dispositivo midiático voltou a operar, municiado por André Mendonça e pelos lavajatistas incrustrados em seu gabinete no STF.
A mídia hereditária, comandada pela Globo, tentou empatar o jogo da corrupção, criando uma falsa equivalência entre dark horse e as ligações do filho de Lula com uma lobista de terceiro escalão. Foram semanas de bombardeio, em que Fábio Luís frequentou o Jornal Nacional, as manchetes do UOL, do G1 e de sites menores a serviço da extrema direita. Durante esse período, Flávio voltou à redoma protegida.
Coube a repórteres fora da chamada “grande imprensa” manter a luz acesa, para mostrar quem é o candidato do Partido Liberal: filhote de Jair, sim; mas filho também das rachadinhas, que permitiram à família comprar 51 imóveis em dinheiro vivo, como já havia demonstrado a repórter Juliana dal Piva. Filho dos esquemas de Willer Tomaz, o advogado que caça negócios suspeitos em safáris na África do Sul ao lado do “01”.
A tática da família Marinho (como já ocorrera em 2006, 2010 e 2014) era bombardear o candidato do PT para impedir uma vitória em primeiro turno. O dito mercado exigia um Lula mais fraco, que fosse obrigado a negociar compromissos com a banca num segundo turno.
A sabatina de Lula no JN se transformou no símbolo de um jornalismo vassalo e emporcalhado: com o país sob cerco dos Estados Unidos, os dois apresentadores globais gastaram mais da metade da entrevista com perguntas sobre o filho do presidente. Sim, uma ou duas perguntas sobre o tema talvez fossem necessárias, mas a desproporção foi absoluta: o tarifaço, as ameaças de Trump e a interferência externa na eleição foram ignorados pela Globo.
Viúvas da Lava Jato
Em meados de setembro, circularam informações – trazidas por esta Revista Liberta, na coluna Reserva Exclusiva – de que amigos da família Marinho na direita liberal estavam preocupados: a Globo havia exagerado na dose, na tentativa de enfraquecer Lula, e deixou aberto o caminho para que o filho de Jair avançasse nas pesquisas.
Para completar, as viúvas da Lava Jato na imprensa foram alimentadas pela ação calculada de André Mendonça, que jogou Alexandre de Moraes aos tubarões. Agiu como um pixuleco eleitoral do bolsonarismo, com apoio ostensivo nas redações.
Sim, Moraes deve explicações à sociedade pelas relações com Vorcaro. Mas só ele? Mais uma vez, coube a jornalistas da chamada imprensa alternativa mostrar que Mendonça, terrivelmente evangélico e golpista, estava também terrivelmente envolvido com esquemas do banqueiro bandido.
É verdade que o bolsonarismo teria força, por si só, nas redes sociais. Também é fato que Lula 3 não conseguiu criar a mesma sensação de bonança econômica verificada entre 2003 e 2012. Esses fatores e mais o cerco trumpista já tornariam o caminho difícil para Lula em 2026.
Mas a falta de compromisso de boa parte dos meios de comunicação com a defesa da democracia e da independência nacional faz com que cheguemos à reta final da eleição sob ameaça de um desastre. Durante seis meses, a prioridade dos grupos tradicionais de imprensa – que ainda cumprem o papel de pautar o debate junto a setores não polarizados – foi enfraquecer Lula e pavimentar o caminho para um candidato que nasceu das milícias e do golpismo dos quartéis.
Coube ao Estadão – jornal carcomido, e que no passado falava em nome da elite paulista – dar nome aos bois, nesta penúltima semana antes do primeiro turno. O diário publicou editorial alertando para o risco de eleger Flávio, candidato coberto pela “sombra dos milicianos”.
O alerta, talvez, esteja chegando tarde.
Se o Brasil for capaz de evitar o desastre, isso terá acontecido apesar de o “jornalismo profissional” ter jogado no lixo o compromisso com valores democráticos.
Dois mil e vinte e seis marca o momento em que jornalismo de verdade se fez fora das redações tradicionais: no ICL, no Intercept Brasil, na Piauí, na Fórum, na Carta Capital e em dezenas de sites e pequenos produtores de conteúdo que não desistiram de mostrar ao país o risco de se entregar a maior nação latino-americana nas mãos de um filho da milícia, da corrupção e da vassalagem ao Império.
A palavra contundente de Lula no Recife https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/lula-no-recife-e-em-maceio.html





