16 janeiro 2026

Minha opinião

De coisas que nunca sei
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65   

Muito por acaso descubro que entre as minhas deficiências como leitor — embora assíduo e atento a conteúdos — é saber muito pouco dos autores de livros que ao longo da vida se destacaram ao meu olhar e permanecem em estantes da biblioteca daqui de casa. 

Sei muito pouco da vida pessoal de cada um. E nunca imaginei que deveria saber. Não me interessa.

De Drummond, li por acaso reportagem na IstoÉ acerca de um namoro que por décadas o poeta mantivera em segredo. Só.

Eis que soube agora que Agatha Christie, autora de romances policiais da minha predileção, aos 36 anos de idade esteve desaparecida por 11 dias em meio a uma desavença com o marido, que lhe pedira o divórcio. 

Veio a ser encontrada num pequeno hotel nos arredores de Londres, onde se registrara com o nome da namorada do dito cujo. 

Nada mais se soube e ao longo de décadas o fato permanece como um mistério.

Imagine se fosse hoje, tanta gente abelhuda de posse do smartphone e pronta a fotografar tudo e a todos e, de imediato, divulgar nas redes sociais. 

Com certeza, a escritora britânica inevitavelmente seria vítima de “influencers” que explorariam o assunto como forma de conquistar seguidores e reforçar suas reservas monetárias.

"Água na fervura de quem já passou dos cinquenta" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/etarismo-em-laboratorio.html 

Frutos da Lei Rouanet

Estudo indica sucesso da Lei Rouanet que injeta R$ 25 bilhões na economia em 2024
Pesquisa inédita da FGV revela que cada real investido movimenta R$ 7,59 e reafirma a cultura como investimento estratégico capaz de gerar empregos
Davi Molinari/Vermelho    

Alvo prioritário de ataques ideológicos e desinformação nos últimos anos, a Lei Rouanet teve o impacto real mensurado por um estudo minucioso da Fundação Getulio Vargas (FGV), encomendado pelo Ministério da Cultura (MinC) e pela Organização de Estados Ibero-Americanos (OEI). Os resultados de 2024 revelaram que a lei de incentivo movimentou mais de R$ 25 bilhões na economia brasileira, gerando emprego, renda e tributos em uma escala sem precedentes.

O levantamento “Impacto Econômico da Lei Rouanet – Dados 2024” revela que, para além do fomento à arte, a lei funciona como um potente motor econômico. Para cada R$ 1,00 investido através da renúncia fiscal, foram gerados R$ 7,59 na economia nacional. Esse montante considera tanto a execução direta dos projetos quanto os gastos do público visitante (transporte, alimentação, hospedagem), demonstrando a força da cadeia produtiva cultural.

Cultura como motor de emprego e arrecadação

O estudo traduz o impacto da lei em números de mercado de trabalho e conclui que, em 2024, a Rouanet foi responsável por manter ou gerar mais de 228 mil postos de trabalho em todo o país. Além disso, o Estado recupera parte do incentivo com a movimentação econômica gerada pela ações culturais que, no ano passado foi da ordem de R$ 3,9 bilhões em tributos federais, estaduais e municipais.

Para a ministra da Cultura, Margareth Menezes, os dados provam que a cultura é uma força estratégica para o desenvolvimento nacional. “Cultura não é gasto, é trabalho, renda e futuro”, defende a ministra na apresentação do estudo, enfatizando que o Pronac (Programa Nacional de Apoio à Cultura) agora é analisado com profundidade científica.

Rompendo o eixo Rio-São Paulo: a vitória da desconcentração

Um dos destaques mais significativos da pesquisa é o avanço na descentralização dos recursos. Embora o Sudeste ainda concentre volumes absolutos elevados (R$ 18,4 bilhões do impacto total), as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste registraram os maiores crescimentos proporcionais no número de projetos e valores investidos entre 2018 e 2024.

  • Norte: Teve o crescimento mais expressivo, com alta de 153% nos valores investidos.
  • Nordeste: Cresceu 68,5%, apresentando um Índice de Alavancagem Econômica (IAE) de R$ 7,84 para cada real gasto.
  • Centro-Oeste: Registrou aumento de 22,4%.

A pesquisa aponta que 41,7% dos projetos já ocorrem em municípios que não são capitais, refletindo o esforço da atual gestão do MinC em levar a política pública para as áreas mais vulneráveis e para o interior do país.

O mito da “lei para os grandes”

Os dados da FGV também derrubam o mito de que a Rouanet beneficiaria apenas grandes estrelas ou megacorporações. Entre os proponentes (pessoas jurídicas), a grande maioria é formada por micro e pequenas empresas (MPEs) e entidades sem fins lucrativos. Dos 81 mil fornecedores e prestadores de serviço contratados pelos projetos em 2024, 85,5% são micro e pequenas empresas. A capilaridade é tamanha que quase 90% dos pagamentos realizados foram inferiores a R$ 10 mil, beneficiando técnicos de som, costureiras, gráficas e pequenos comércios locais.

Catalisadora de investimentos

Além disso, a Lei Rouanet demonstrou ser uma “selo de confiança” que atrai e “avaliza” outros recursos. Em 2024, os projetos captaram R$ 579,5 milhões adicionais de outras fontes (editais estaduais, patrocínios diretos e crowdfunding) e geraram R$ 151,3 milhões em receitas próprias (bilheteria e vendas).

Com 4.939 projetos executados no ano, abrangendo desde artes cênicas (34%) e música (26%) até patrimônio cultural e museus, a Lei Rouanet se consolida como o principal pilar de financiamento cultural do Brasil.

Foto: Fernando Frazão

A democracia sob ameaça de ser hackeada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eleicoes-ia-ameaca.html

Palavra de poeta

Descrição de algo perdido
Charles Simic   

Nunca teve um nome
E não me lembro de como o encontrei.
Carregava-o no bolso
Como um botão perdido
Exceto por não ser um botão.

 

Filmes de terror
Lanchonetes 24 horas,
Botequins escuros
E casas de bilhar
Em ruas molhadas de chuva.

 

Levava uma existência quieta, inexpressiva,
Como uma sombra em um sonho,
Um anjo num alfinete,
E então sumiu.
Os anos passaram com sua fila

 

De estações sem nome,
Até que alguém anunciou é aqui!
E tolo que eu era
Desembarquei na plataforma vazia
Sem nenhuma cidade à vista.

 

[Ilustração: Gervane de Paula]

Leia também: "Soneto da busca", um poema de Carlos Pena Filho https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_40.html 

15 janeiro 2026

Thiago Modenesi opina

Trump joga WAR tendo o mundo como tabuleiro
Ao tratar a geopolítica como jogo de conquista, a política externa de Trump expôs desprezo pelo direito internacional, corroeu alianças e acelerou a erosão da ordem global.
Thiago Modenesi/Vermelho   

Se você tem mais de 40 anos muito provavelmente pode ter passado horas jogando War com amigos e amigas em sua adolescência. O jogoreduz a geopolítica a um conjunto simples de regras: territórios são cartas a serem coletadas; países, peças a serem conquistadas; e a vitória é absoluta – o domínio total do mapa. A diplomacia é substituída pelo lance de dados, e a complexidade socioeconômica e cultural de nações inteiras é apagada. A administração Trump, particularmente em seu segundo mandato muito mais agressivo, operou sob uma cosmovisão alarmantemente semelhante à do jogo. As ações descritas, a recente invasão da Venezuela sob o pretexto de “restauração da democracia” e combate ao “narcoterrorismo de governo”, a surpreendente oferta de compra e subsequentes ameaças de anexação da Groenlândia (um “grande terreno” estratégico e rico em recursos), e as ameaças de intervenção militar no México e Colômbia para “erradicação total do narcotráfico” não são vistas como eventos isolados, mas como movimentos táticos numa grande estratégica de reconfiguração forçada do tabuleiro mundial.

A expansão territorial e controle de recursos como um fim, assim como no jogo, onde controlar continentes garante bônus de reforço, estão refletidos na política externa de Trump, que visou o controle direto ou indireto de territórios ricos em recursos. A Venezuela foi enquadrada não por sua “crise humanitária,” mas por suas vastas reservas de petróleo. A Groenlândia representa uma jogada de mestre para o projeto imperialista trumpista: controle do Ártico, acesso a minerais raros e uma posição estratégica contra a Rússia e China. A lógica não é de integração, mas de aquisição.

As alianças são vistas como um meio descartável no War, são temporárias e baseadas puramente na conveniência do momento, sendo descartadas sem cerimônia. O governo Trump levou isto ao extremo, tratando a OTAN com desdém, pressionando aliados tradicionais como Dinamarca (no caso da Groenlândia) com ameaças, e cooptando ou subordinando governos regionais, como o da Argentina, para legitimar a intervenção na Venezuela. A mensagem era clara: a lealdade é contingente à obediência e à utilidade imediata.

O conceito clausewitziano é invertido. Para Trump, a guerra (ou sua ameaça crível) era a diplomacia por outros meios. Os tuítes provocativos, os ultimatos públicos ao México (“ou fazem algo, ou nós faremos”), e a retórica belicosa contra o governo Maduro eram táticas calculadas para forçar capitulação ou criar casos de guerra. A dissuasão clássica dava lugar à coerção ostensiva.

Assim como as regras do War são autocráticas e definidas pelo vencedor, a abordagem de Trump desprezou o direito internacional. A invasão da Venezuela, sem mandato do Conselho de Segurança da ONU, violou a Carta das Nações Unidas. A ameaça de anexação de um território autônomo dinamarquês desrespeitaria o direito à autodeterminação. As ameaças de violação da soberania mexicana e colombiana pisoteariam normas seculares de não-intervenção.

A invasão da Venezuela seria o equivalente a conquistar a América do Sul no jogo, garantindo um “bônus de continente” em recursos e influência. No entanto, a realidade provou ser mais complexa. A invasão não rompeu a hegemonia do Chavismo e Bolivarianismo no poder até o momento.

As ações de Trump trazem ⁠consequências sistêmicas, quando o jogo termina, a realidade permanece. A aplicação da lógica do War resultou até agora na ⁠erosão acelerada da atual ordem internacional, o desprezo por instituições e normas minou a já frágil arquitetura pós-1945.

Além disso, progride a deslegitimação do poder norte-americano, o soft power dos EUA foi devastado pelas ações de Trump. A imagem de uma potência arbitrária e conquistadora pode dificultar futuras cooperações e manobrou até aliados para posições de resistência.

A política externa da era Trump, que guarda paralelos com a lógica simplista e brutal do jogo War, demonstrou os perigos catastróficos de se tratar a geopolítica como um jogo de soma zero. Enquanto no tabuleiro o vencedor leva tudo e o jogo pode ser reiniciado, no mundo real as conquistas são ilusórias, os custos humanos e materiais são profundos e as cicatrizes na ordem internacional são duradouras.

Os EUA, ao jogar War com o mundo, podem ter ganhado algumas batalhas táticas de impacto midiático, mas iniciaram um processo estratégico de erosão de sua própria liderança e de um sistema que, apesar de suas imperfeições, oferecia mais estabilidade do que o caos hobbesiano de um tabuleiro de jogo permanente. A lição final é que na geopolítica real, diferentemente do War, não há vencedores solitários quando o tabuleiro é incendiado.

Os fortes fazem o que querem: Trump e a Venezuela https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/celso-pinto-de-melo-opina.html 

Postei nas redes

EUA suspendem emissão de vistos de imigração do Brasil e mais 74 países. Mais uma patada de uma superpotência decadente. 

A disputa mar e terra pela geopolítica dos dados https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/uma-nova-dimensao-da-geopolitica.html 

Arte é vida

 

Waldomiro Sant'Anna

Leia: "Na esteira fantástica de Flash Gordon"  https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_14.html 

Minha opinião

Gente, coisas e animais 
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65  

Mero subjetivismo: cada um de nós enxerga os outros conforme suas referências e ocasional estado de espírito - respeitáveis, sérias ou descontraídas, jocosas.

Pessoas se parecem com bichos ou com objetos, você já reparou?

Tive um colega no curso ginasial, muito bom em matemática, que era uma águia, uma exuberante águia - pelos traços fisionômicos e pelo corpanzil esguio. Aquele nariz pontiagudo era de águia, sem a menor dúvida!

Mulher longilínea, mais de um metro e setenta e cinco e movimentos comedidos logo é vista como girafa. Ao longo da vida, conheci várias – invariavelmente bonitas.

Um velho amigo conserva até hoje, vividas mais de seis décadas, o desenho corporal de um frigobar. Baixa estatura, ligeiramente obeso, o tronco e o abdome inteiriços formando um cubo. Abstraia o pescoço e a cabeça e os membros inferiores e você terá aos seus olhos um sempre simpático e risonho frigobar.

Um exercício divertido é observar as pessoas no salão de embarque do aeroporto, na sala de espera do consultório médico ou no restaurante e identificar a fauna presente.

Outro dia, numa sorveteria, vi entrar um casal, ela por sinal muito bonita, e ele o rosto inconfundível de um coelho.

Mesmo minha inesquecível mãe, cujo fervor religioso a impelia a impor o crivo da "falta de caridade" em tudo o que parecesse julgamento pessoal negativo, por mais inocente que fosse, reconhecia o pecado venial de achar uma velhinha pedinte que frequentava nossa casa parecidíssima com uma tesourinha de unha.

Não sei, nunca perguntei a ninguém alvo desse tipo de associação, em que grau se constrange, ou não. Ou simplesmente entra na brincadeira.

Ponto para os artistas do cartum, da charge e da caricatura.

O presidente Eurico Dutra teve seu rosto de coruja desenhado à exaustão. Carlos Lacerda foi retratado anos a fio como corvo.

Caso do cidadão que assumiu a presidência da República via golpe parlamentar-midiático, Michel Temer. Não deve se sentir à vontade por se reconhecer ao espelho na imagem de um vampiro.

De cara amarrada Temer é um vampiro melado e cuspido. Quando ri, pior ainda. De pé, ouvindo o Hino Nacional, parece mais o embaixador da Transilvânia. 

Pior: as pessoas que se parecem com bichos e objetos apenas se parecem. Michel Temer não apenas se parece; ele é. Um autêntico e tenebroso vampiro, que passará à História como usurpador do mais alto cargo que ocupou.

Crônica de dezembro de 2016

[Ilustração: Mário]

Entre soluços e quedas, o cárcere é o lugar para golpistas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/enio-lins-opina_9.html