13 janeiro 2026

Minha opinião

Muito a esclarecer
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65  

A conta-gotas, diariamente se divulgam mais detalhes da falência do Banco Master, como que num enredo de uma série de TV. 

Agora é a contratação de influenciadores digitais para produzirem conteúdos negativos sobre o Banco Central e positivos sobre o Master e, naturalmente, limpar a barra do pivô do escândalo, o banqueiro (ou ex) Daniel Vorcaro.

De tudo o que se sabe até agora é possível divisar que o escândalo de grande dimensão envolve muita gente importante no mercado e nos círculos políticos de direita e extrema direita.

Os grandes bancos, líderes do sistema financeiro, desde o início se pronunciaram no sentido da apuração rigorosa dos fatos. Os fundos de investimento nem tanto. 

Briga de gente grande? Sim, certamente. Talvez até com acento em Conselhos de Administração no complexo midiático dominante. 

O sequestro do fundo público https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/fundos-depauperados.html 

América do Sul: ameaças e desafios

América do Sul: um continente partido e tutelado
A história sul-americana foi sempre condicionada por uma geografia extremamente difícil, por uma economia fragmentada e voltada para fora, e por uma submissão quase permanente à tutela militar da Inglaterra, no século XIX, e dos Estados Unidos, no século XX.
José Luís Fiori/Observatório do Século XXI 

E é possível afirmar, de alguma forma, que até hoje o continente se debate com esses constrangimentos originários e estruturais.

I. Uma geografia partida

O continente sul-americano está situada entre o Mar do Caribe, ao norte; o Oceano Atlântico, ao leste, nordeste e sudeste; e o Oceano Pacífico, a oeste. Sua superfície, de 17.819.100 km2, ocupa 12% da Terra e possui 6% da população mundial.

Está separado da América Central pelo Istmo do Panamá; e da Antártida, pelo Estreito de Drake, e tem uma extensão de 7.500 km desde o Mar do Caribe até o Cabo Horn, no extremo sul.

Cerca de quatro quintos do continente ficam abaixo da Linha do Equador, que corta Peru, Colômbia, Brasil e o país que leva o nome de Equador.

A América do Sul possui três grandes bacias hidrográficas: do Rio Orinoco, do Rio Amazonas e do Rio da Prata, e seus rios interiores possuem enorme potencial para navegação e aproveitamento de energia hidráulica. Os três sistemas drenam em conjunto uma área de 9.583.000 km2.

No entanto, o mais importante, do ponto de vista geopolítico, é que se trata de um espaço geográfico inteiramente segmentado por grandes barreiras naturais que dificultam enormemente sua integração física, como é o caso da Amazônia e da Cordilheira dos Andes, que tem 8 mil Km de extensão e atinge 6.700m de altitude,oferecendo apenas alguns pontos de passagem naturais.

Na região da Floresta Amazônica, predominam as terras úmidas; na região central do continente, áreas alagadas, como o Pantanal brasileiro e o Chaco boliviano; mais ao sul, há planícies e cerrados; e na costa leste, a floresta original cedeu lugar a agricultura, urbanização e indústria. O litoral atlântico é baixo e possui uma larga plataforma marítima, ao contrário do litoral do Pacífico, que possui grandesprofundidades e onde não existem plataformas continentais.

Nos Pampas de Argentina, Uruguai, Paraguai e sul do Brasil, encontram-se as terras mais férteis do continente e algumas das melhores do mundo. Existem, ainda, algumas pequenas áreas com bons solos nos vales andinos e na zona central do Chile, na planície equatoriana de Guayas e no vale colombiano de Cauca, além das terras roxas, no lado brasileiro da bacia do Paraná.

Por outro lado, as terras da bacia Amazônica e a maior parte das planícies tropicais são muito pobres e de baixa fertilidade, o que explica o fato de que a população das terras tropicais da Venezuela, Guiana e Suriname viva quase toda a poucos quilômetros da costa.

A combinação de montanhas e florestas tropicais também limita enormemente as possibilidades de integração econômica dentro do arco de países que se estende da Guiana Francesa até a Bolívia. No caso do Peru, por exemplo, existe uma clara divisão econômica e social em seu território, entre as zonas costeiras, onde se concentra a atividade extrativa e de exportação, e um interior extremamente isolado e atrasado economicamente.

O Chile, por sua vez, possui um clima temperado e terras produtivas, mas é um dos países mais isolados do mundo, o que dificulta sua integração econômica com os demais países do “cone sul” -Argentina, Uruguai e Brasil- e o transforma obrigatoriamente numa economia aberta a exportadores, voltada quase exclusivamente para os EUA e os países asiáticos do Pacífico.

O mesmo se pode dizer dos demais países sul-americanos.

Sua inserção na divisão internacional do trabalho, na condição de exportadores de commodities, reforçou sua ocupação econômica e demográfica inicial, dispersa e voltada para o litoral, sempre em busca dos mercados centrais, e com escasso interesse nos mercados regionais. Até o final do século XX, o Atlântico foi mais importante do que o Pacífico para o comércio de largo curso da América do Sul, e a presença de importantes bacias hidrográficas articuladas ao litoral atlântico, além da maior proximidade da Europa e dos EUA, desfavoreceu o lado pacífico do continente nosdois primeiros séculos de sua história independente.

Este panorama econômico vem mudando no século XXI, com o aumento da importância da bacia do Pacífico, graças ao deslocamento do centro mais dinâmico da economia mundial para o Leste e Sudeste Asiático, e à transformação da China no novodínamo da economia sul-americana. A “virada” ao Pacífico, entretanto, representa ao mesmo tempo um desafio e uma ameaça.

Desafio pela dimensão financeira do projeto de integração bioceânica, e ameaça porque o desenvolvimento deste projeto só se viabilizará com a participação da China, que está sendo definida pelos Estados Unidos, neste momento geopolítico do mundo, como seu grande competidor estratégico que deve ser cercado e bloqueado em todos os pontos do sistema econômico mundial.

II. Uma história tutelada

Do ponto de vista geopolítico, entretanto, a América do Sul viveu quase toda a sua história independente sob a tutela anglo-saxônica: primeiro da Grã-Bretanha, até o fim do século XIX, e depois dos Estados Unidos, até o início do século XXI.

Além disso, durante o século XIX, foi uma zona de experimentação do “imperialismo de livre comércio” da Grã-Bretanha, e no século XX em particular, depois da 2ª Guerra Mundial, transformou-se num aliado incondicional da política externa norte-americana, que promoveu ativamente a redemocratização e o desenvolvimento do continente na década de 1950.

Nos anos 1960, entretanto, depois da vitória da Revolução Cubana, os Estados Unidos apoiaram os golpes de Estado e a formação de governos militares em quase todo o continente sul-americano. E após o golpe que derrubou o presidente Salvador Allende no Chile, em 1973, incentivaram a mudança da política econômica dos governos sul-americanos, que abandonaram -em sua maioria- seu “desenvolvimentismo” do pós-guerra.

No início dos anos 1980, a política do “dólar forte” do governo americano provocou um forte desequilíbrio dos balanços de pagamento na América Latina e deu origem à “crise da dívida externa” que atingiu toda a região, liquidando definitivamente o modelo desenvolvimentista brasileiro que havia sido o mais bem-sucedido da região.

A crise se prolongou por toda a década, mas ao mesmo tempo conviveu com o fim das ditaduras militares e com o início dos movimentos de redemocratização de quase todos os países do continente. Mais uma vez, entretanto, os novos governos democráticos sul-americanos aderiram em conjunto ao projeto da “globalização liberal” liderado pelos Estados Unidos, e às políticas neoliberais do chamado “Consenso de Washington”, queproduziram sucessivas crises cambiais -no México, em 1994; na Argentina, em 1999; e no Brasil, em 2001-, antes de serem abandonados e substituídos por governos que tentaram levar à frente, durante uma década, uma agenda experimental antineoliberal, sem deixar de alinhar-se à estratégia geopolítica global de combate ao terrorismo comandada pelos norte-americanos.

Relembrando a história: depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, em Washington e New York, a política externa norte-americana mudou de rumo, relegando ao segundo plano as questões econômicas e priorizando o combate global ao terrorismo.

Nesse novo contexto, o governo republicano de George W. Bush manteve seu apoio ao projeto da ALCA de integração econômica da América do Sul, proposto na década de 90 pela administração Clinton, mas já sem o entusiasmo das administrações democratas.

Até porque a resistência sul-americana e, em particular, a oposição do Brasil e da Argentina após 2002, esvaziaram e logo engavetaram a proposta norte-americana em 2005.

Os EUA mudaram, então, seu projeto inicial e passaram a negociar tratados comerciais bilaterais com alguns países do continente. Assim, depois do fracasso das políticas neoliberais do Consenso de Washington, do abandono do projeto da ALCA e da desastrosa intervenção norte-americana a favor do golpe militar da Venezuela, em 2003, os Estados Unidos mudaram sua posição no que se referia aos assuntos continentais, atraídos cada vez mais pelos novos desafios que vinham da Ásia e do Oriente Médio, e do avanço da OTAN na direção da Europa do Leste.

Essa tendência se fortaleceu na segunda década do século XXI, quando o esfacelamento da “ordem mundial” estabelecida depois da Guerra Fria e a mudança do foco geopolítico mundial reduziram a quase nada a atenção americana em relação à América do Sul, o que não impediu que eles apoiassem os golpes de Estado de Honduras, Paraguai e Brasil durante o governo democrata de Barack Obama.

Na terceira década do século, entretanto, depois da catástrofe da pandemia de Covid-19 e frente ao desafio das guerras da Ucrânia e de Gaza, e mais ainda, face ao deslocamento do eixo dinâmico da economia mundial na direção da Ásia e da China, em particular, a América do Sul reduziu ainda mais sua importância geopolítica e geoeconômica no sistema internacional, dividindo-se de cima abaixo frente ao conflito entre Estados Unidos e Venezuela, e desintegrando-se como um ator geopolítico global.

Paz e soberania na Venezuela! Sangue por petróleo, não! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_5.html 

Europa enfraquecida

O sequestro de Maduro faz tremer de medo a Europa
Halley Margon/Terapia Política 

Qual significado pode ter o sequestro do venezuelano Nicolás Maduro (ditador, presidente, chefe do executivo…, a escolha é mais ou menos arbitrária e para o que segue pouco importa), colocado lado a lado com os mais de dois milhões de mortos resultado da invasão do Vietnã? Ou com o golpe contra Salvador Allende (presidente eleito do Chile – e aqui não há escolha, Allende era legitimíssimo presidente do seu país, fato jamais contestado pelos militares golpistas que o depuseram, nem tampouco pelos que organizaram o golpe desde Washington)? Ou com o sequestro e assassinato do primeiro-ministro da República Democrática do Congo Patrice Lumumba (ordenado por Dwight D. Eisenhower), em 1961?

(Para além da estrita conformação do campo ideológico do Império, será simples coincidência que a Venezuela seja a maior reserva de petróleo comprovada do mundo, e que o Congo fosse um dos grandes produtores mundiais de urânio, de uma qualidade absolutamente excepcional e muito superior à dos demais produtores?)

As desculpas apresentadas, quando apresentadas, eram e são as mais esfarrapadas possíveis. Seu elevado nível de inverossimilhança é indicativo de que logo, logo já não serão mais necessárias. A justificativa usada por um dos ideólogos do regime de Donald Trump para a ameaça de ocupação da Groenlândia é que “os Estados Unidos são um império” – a frase é do Vice-Chefe de Gabinete da Casa Branca para Políticas Públicas e Conselheiro Especial em Segurança Interna do imperador, Stephen Miller, e foi dita numa entrevista para a CNN.

Muda o contexto, é verdade, mas para além dos contextos, afinal sempre mutantes, está a invariável constatação de que o caráter ou a natureza do indivíduo (ou do país) é sempre o mesmo e quem no final das contas parece estar com a razão é o citado sr. Miller. Como são um império (com o que estamos todos e todas de acordo), podem mandar e mandam seus exércitos e corpos de assassinos profissionais (as unidades de elite da Marinha dos Estados Unidos, o chamado SEAL Team ou os Delta Force do Exército) para matar adversários onde quiserem e quando quiserem. Depõem presidentes eleitos e impõem ditadores como e onde bem entendem. Tendo a possibilidade operacional e política para fazê-lo, sequestram e ordenam assassinar quem quer que considerem inimigo em qualquer rincão do planeta.

Porque “os EUA são um império” – lembra o consigliere Miller.

A novidade é que o novo imperador está alargando os limites do possível e testando, dia a dia, mês a mês, desde que tomou posse menos de um ano atrás, até onde pode chegar suas pretensões imperiais. A escalada está em andamento e cada novo sucesso mais combustível lança na fogueira das vaidades e da ambição – na linguagem habitual do protagonista, mais aumenta o preço colocado à mesa para as negociações.

Curiosamente, as supostas razões apresentadas pela administração trumpista para sequestrar Nicolás Maduro estão bem distantes do campo da política – o que talvez soe ambíguo ou incompreensível. Ao contrário da mídia em geral, que faz questão de grudar ao nome do sequestrado o rótulo de ditador (implicitamente justificando o sequestro), os sequestradores não parecem dar a mais mínima bola para caracterizar o regime, nem dar importância para a sua legitimidade ou ilegitimidade do ponto de vista da democracia – como se dessem como implícita que tal tarefa estivesse mesmo a cargo da mídia.

Numa inédita operação conjunta entre as chamadas Delta Force (forças especiais do Exército), o FBI (polícia interna) e a DEA (Drug Enforcement Admninistration), levaram a cabo o sequestro porque tinham condições técnicas, militares e políticas para fazê-lo. O pouco valor dado à retórica para justificar o feito vaza por todos os lados. Mas sua dimensão denuncia uma nova etapa ou um mais ou menos inédito padrão para as práticas imperiais daqui para diante. Esboça, ao mesmo tempo, um novo mapa político para o planeta, com os Estados Unidos controlando o mais diretamente possível e formando um enorme e coesionado bloco, sem subterfúgios ou meias palavras, o que considera seu por direito natural e divino – a América Latina antes de qualquer outro território, e arrastando no vácuo a sempre subserviente Europa.

Desgraçadamente, o castigo ao velho mundo (para o bem e para o mal, berço da civilização tal como a conhecemos até agora) parece merecido.

Depois de recepcionar com glórias e louros de estadista o autoproclamado presidente interino da Venezuela Juan Guaidó (que fim terá tomado ninguém mais sabe ou se interessa em saber), estimular ao limite da sem vergonhice toda e qualquer natureza de oposição ao chavismo, premiar a ultradireitista Maria Corina Machado com o Nobel da Paz e, como consequência, sendo obrigada a se opor, mui candidamente, ao sequestro de Maduro, ou até mesmo apoiá-lo, como fez a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, o que restará aos europeus, e particularmente aos nórdicos, dizer quando as garras sedentas de Trump decidirem tomar para si a Groenlândia?

P.S.: a Groenlândia possui uma das maiores reservas não exploradas de terras raras do mundo (neodímio, praseodímio, disprósio, etc).

Os fortes fazem o que querem: Trump e a Venezuela https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/celso-pinto-de-melo-opina.html 

Humor de resistência

Miguel Paiva



12 janeiro 2026

Palavra de poeta

O som invade tudo

Arthur Versiani   

o som invade tudo

faz tremer a matéria viva
quebra vidros e fantasmagorias
rasga e violenta o ar estagnado
– incorpora ventania

sua maquinação com o tempo
o próximo gesto inaudito
é pretenso mergulho

que o que não tem corpo
não retorna à superfície

profundidade precipitada
não retorna à percepção

delírio onduloso
leva junto toda a minha mania de futuro

[Ilustração: Salvador Dali]

Leia também: "Mutatis Mutandis", poema de Bartyra Soares https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/palavra-de-poeta_19.html 

Soberania ameaçada

Projeto nacional ou barbárie: sequestro de Maduro acende alerta sobre soberania no Brasil
Elias Jabbour explica porque o ataque contra a Venezuela é um ataque indireto ao Brasil, a partir do interesse no controle de recursos naturais: petróleo e terras raras
Elias Jabbour/Portal Grabois www.grabois.org.br       

O recente ataque dos Estados Unidos contra instalações militares em Caracas e a subsequente invasão do território venezuelano representam uma grave quebra da soberania não apenas da Venezuela, mas de toda a América Latina. O sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua transferência para um país estrangeiro sob pretextos de narcotráfico configuram o que pode ser chamado de “governança da barbárie” sobre a região. Diante desse cenário, é fundamental prestar solidariedade incondicional ao governo revolucionário venezuelano, compreendendo que a defesa da Venezuela hoje é a defesa do Brasil amanhã.

A Venezuela é um país soberano, que desde 1998 busca um caminho próprio de socialismo, o que tem provocado uma ira gigantesca contra o seu governo que se manifesta, desde 2014, através de sanções, bloqueios econômicos e a exclusão do sistema internacional de pagamentos (Swift).

O ataque contra a Venezuela é um ataque indireto ao Brasil. O interesse central nessas intervenções é o controle de recursos naturais: o petróleo na Venezuela e as terras raras e minerais críticos no Brasil. O antigo secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger (1923-2023) falava sobre a necessidade de impedir o surgimento de um novo Japão no hemisfério Sul e, evidentemente, esse país é o Brasil. 

O ataque contra a Venezuela é um ataque contra contra a vontade de qualquer país se organizar sobre um projeto nacional de desenvolvimento que coloque em questão sua dependência econômica em relação ao Norte Global.

Nós devemos pensar estrategicamente nesse momento, sobre como vamos enfrentar esse tipo de ameaça hoje e amanhã, porque muita coisa está em jogo e se faz necessário elevar o nível da discussão política a outro patamar no Brasil. O nosso grande problema é o rebaixamento da discussão política, que não alcança a centralidade da questão nacional. Esse ataque à Venezuela deve servir para aumentar e reavivar o nosso sentimento de solidariedade internacional e para que nós tenhamos oportunidade de elevar o nível de discussão política no país.

América Latina sob barbárie

A coletiva de imprensa em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que passará a administrar a Venezuela após o sequestro do presidente Nicolás Maduro, revela o início de um processo de governança da barbárie sobre a América Latina. Na última edição do programa Meia Noite em Pequim, no final do ano passado, eu alertei que a nossa militância deveria se pautar pelo lançamento da nova doutrina de segurança nacional dos Estados Unidos, que retoma os princípios da Doutrina Monroe, onde a América Latina é considerada parte do território norte-americano, sua área de influência. 

A partir da invasão da Venezuela e do sequestro de Nicolás Maduro, as opções para o Brasil vão ficando cada vez menores. A realidade mudou completamente em relação à semana anterior, o mundo é completamente diferente com o salvo-conduto dos americanos para invadirem qualquer país da América Latina e sobram poucas opções para o Brasil, menos do que havia há uma semana atrás.

Temos que rever nossa política de segurança, não apenas diante do problema interno da desindustrialização, mas da necessidade premente diante da ameaça externa. Temos que ganhar corações e mentes com a prática de um projeto nacional de desenvolvimento e a formação de outra maioria política, porque a pauta da soberania nacional será fundamental nas próximas eleições, diante de uma extrema-direita que comemora a invasão da Venezuela. 

Todos os governadores da extrema direita, Ronaldo Caiado (União Brasil – GO), Ratinho Júnior (PSD-PR), Zema, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), demonstraram apreço pelo que aconteceu na aconteceu na Venezuela. Estão falando não somente contra a Carta da ONU, mas contra a Constituição Brasileira.

O deputado federal Nicolas Ferreira (PL-MG) chegou a sugerir em vídeo que acontecesse o mesmo com o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. Em outro momento, ele apoiou abertamente uma intervenção estrangeira no Brasil. Isso é fundamental para as próximas eleições, que vai colocar uma risca de giz no chão para demonstrar quem é quem nessa conversa.

O que sobra para nós nesse momento são duas escolhas muito claras: a volta da extrema-direita ao poder como fantoche para entregar as riquezas naturais do Brasil para os Estados Unidos e, por outro lado, o nosso campo político que deve ser organizar em torno de um projeto nacional de desenvolvimento.

Se a extrema direita ganhar as eleições, eles vão absorver completamente o corolário Trump para o Brasil. Eles vão entregar o que os Estados Unidos quiserem, a troco de proteção ante uma possível volta da esquerda ao governo do Brasil. E o Brasil tem tudo que os americanos precisam: petróleo, água e terras raras, os chamados minerais minerais críticos.

Para a esquerda e o campo democrático, está colocada a necessidade de pensarmos urgentemente em termos de uma política de segurança nacional que capacite o Brasil a se defender dessa barbárie que acomete a América Latina, junto a um processo de reindustrialização baseado em um grande projeto nacional.

Existe uma única contradição principal que nos acomete hoje: projeto nacional ou barbárie. É isso que nos espera, caso não tenhamos capacidade de apreender o fluxo dos acontecimentos. Esse ano de 2026 deve ser marcado pela insígnia, projeto nacional ou barbárie, porque eles querem colocar o Brasil na rota da barbárie, que os EUA estão tentando fazer com a Venezuela e ainda não estão conseguindo.

A questão fundamental do momento é que o ciclo básico do regime change ainda não logrou sucesso na Venezuela. O ciclo de desestabilização, guerra híbrida, criação de condições para as pessoas irem para a rua e derrubar o governo, colocar o partido governante na ilegalidade e prender todo todo o primeiro segundo escalão do governo, não aconteceu na Venezuela ainda.

O PSUV continua no poder, a oposição não tem força acumulada para colocar povo na rua suficiente para derrubar o governo e uma invasão por terra é improvável. O mundo é muito diferente de uma semana atrás, mas também é muito diferente de 50 anos atrás, quando os EUA exerciam uma unipolaridade. Eles não têm mais a mesma força de antes para poder chegar em um país e fazer o que bem entendem, principalmente países com os sistemas políticos em consolidação e com certo apoio popular, como o caso da Venezuela.

Desde 2014 a Venezuela passa por sanções, bloqueios, mas nem isso é capaz de derrubar a tentativa de construção do socialismo no país. A população venezuelana tem passado por imensas privações com o empobrecinento do país nos últimos 10 anos, mas nada disso foi capaz de derrubar a revolução bolivariana. A Venezuela foi expulsa do sistema internacional, não tem acesso aos seus dólares colocados em fundo soberano, seu ouro na Inglaterra foi literalmente roubado recursos que o país utilizava para importar remédios e alimentos. O país foi colocado em uma imensa crise cambial e nem por isso o governo caiu. O fato é que o ciclo do regime change não foi completo e ainda vai ter muita luta política dentro da Venezuela.

Elias Jabbour é professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, foi consultor-sênior do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS) e é presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. É autor, pela Boitempo, com Alberto Gabriele de “China: o socialismo do século XXI”. Vencedor do Special Book Award of China 2022.

Paz e soberania na Venezuela! Sangue por petróleo, não! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_5.html

Minha opinião

João Campos x Raquel Lyra para além das redes sociais 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65
 

Precária sob todos os títulos a avaliação de que o prefeito do Recife, João Campos (PSB), pré-candidato a governador, estaria experimentando curva descendente em sua força nas redes sociais. E de que este seria um fator de redução da vantagem que tem ostentado nas pesquisas em hipotético confronto com a governadora Raquel Lyra (PSD).

Primeiro, porque a força eleitoral do prefeito é fruto não apenas da eficiência de sua comunicação digital; antes decorre de exitosa gestão à frente do governo da capital. Daí a sua reeleição com 78,11% dos votos válidos.  

Segundo, porque o próximo pleito não acontecerá focado essencialmente em pauta administrativa. A concomitância com a eleição presidencial em ambiente político de confronto aberto entre rumos para a nação politiza naturalmente o embate em plano estadual. Este é mais um fator de fortalecimento da postulação do prefeito.  

Na outra ponta, a governadora Raquel Lira segue enfrentando no início do quarto ano de governo as mesmas contradições e dificuldades reveladas desde o primeiro ano. Realiza uma gestão politicamente instável e, no aspecto administrativo, muito aquém das expectativas da população.  

Mesmo a hipótese pouco provável de que a governadora também apoie a reeleição do presidente Lula dificilmente resultará na superação das dificuldades que ostenta. De quebra, precisa do reforço da extrema direita local perfilada na oposição em plano nacional e aspirante a uma vaga no Senado como prioridade.

Evidente que ainda há muito chão pela frente e não se pode descartar a hipótese de fatos fortuitos, que poderão alterar esse cenário. 

Passada a ressaca do réveillon e ultrapassado o período momesco, a movimentação das forças políticas ganhará outra dimensão até as convenções partidárias, que acontecerão no meio do ano. E, por enquanto, o polo mais atraente segue sendo a conjugação de forças em torno de João Campos.

Leia mais sobre o mundo da política https://lucianosiqueira.blogspot.com/