18 setembro 2026

Com a mão na botija

Novas denúncias arrastam André Mendonça para o centro da crise no STF
Procedimento contra o ministro bolsonarista cita possíveis crimes de responsabilidade, abuso de autoridade e improbidade administrativa
André Cintra/Vermelho    

O jogo virou no Supremo Tribunal Federal (STF) – e o acusador passou a ser alvo de investigação. Nesta quinta-feira (17), o ministro André Mendonça foi parar no centro da crise que assola a Corte desde o início do mês.

Reportagem do portal UOL revelou que o Instituto Iter, fundado por Mendonça, recebeu R$ 5,2 milhões de uma empresa que tem como dono um parceiro do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Trata-se de Lucas Kallas, proprietário da holding de mineração Cedro Participações.

O contrato previa a alocação dos recursos na estruturação e nas atividades do instituto, que reconheceu ter usado a verba para bancar seus custos iniciais. Conforme o UOL, o Iter começou a devolver os recursos em janeiro deste ano. No mês seguinte, Mendonça foi sorteado relator do caso Master no STF.

A denúncia se soma a outras revelações da semana que trouxeram para o caso os ministros Nunes Marques, Luiz Fux e Dias Toffoli, em situações distintas e com diferentes graus de proximidade com Vorcaro. Mendonça, em particular, já estava sob os holofotes desde o início da manhã, quando o ministro Gilmar Mendes, em post nas redes sociais, chamou o colega de “boneco de campanha” e “pixuleco eleitoral”.

A crise começou quando Mendonça, em 1º de setembro, retirou o sigilo de relatório da PF que indicava supostas conversas entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. Passados 16 dias, a ofensiva contra Moraes perdeu força: até aqui, não surgiram novas acusações contra o ministro.

Em contrapartida, multiplicaram-se as contestações à atuação de Mendonça como relator – inclusive com acusações de uso político e eleitoral do caso. Ao mesmo tempo, vieram a público novas informações sobre as relações de Vorcaro com outros ministros. A crise se deslocou progressivamente de Moraes para o restante da Corte.

O presidente do STF, Edson Fachin, cancelou a sessão plenária desta quinta-feira e retirou de pauta, por tempo indeterminado, o julgamento previsto para quarta-feira (23) sobre o procedimento envolvendo Mendonça. A decisão ocorreu após a questão de ordem apresentada pelo ministro Gilmar Mendes, que cobrou a ampliação das investigações em plenário. Mendes solicitou “a identificação e a certificação, nos autos, de todos os magistrados mencionados nas investigações relacionadas ao caso Master que apresentem indícios de recebimento indevido de valores do banco”.

Dos dez integrantes atuais do Supremo, metade está chamuscada pelo caso Master. Ao menos dois ministros – Dias Toffoli e Nunes Marques – já se declararam impedidos de participar do julgamento sobre Moraes e devem ficar igualmente de fora de outras votações relacionadas ao caso Master. O presidente Lula defendeu, nesta quinta, que todos os ministros sob suspeita sejam julgados em conjunto.

“Se quiser fazer justiça na votação, tem que colocar todo mundo no mesmo dia”, afirmou Lula. “Vamos saber se os telefonemas são verdade, se o Fux está envolvido, se o André Mendonça está envolvido, se o presidente do TSE (Nunes Marques) está envolvido.”

Os holofotes se voltam, agora, para Mendonça. O procedimento contra ele cita possíveis crimes de responsabilidade, abuso de autoridade e improbidade administrativa. Pivô da crise, o ministro bolsonarista é cada vez mais comparado ao ex-juiz Sergio Moro, declarado suspeito pelo próprio STF na Operação Lava Jato. Mendonça abriu a caixa-preta do caso Master e jogou Moraes no centro da crise. Agora, a caixa-preta se voltou sobre ele.

Na reta final detalhes importam https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_01182604884.html 

Fotografia

 

Marie Adolphson

Editorial do 'Vermelho'

Sessão do STF comprova que crise foi deflagrada para prejudicar Lula
Sob pressão brutal da grande mídia, embate na Suprema Corte enfrentou tentativa de atropelo institucional e investida da extrema-direita para desmoralizá-la
Editorial do 'Vermelho'   

A sessão de 15 de setembro do Supremo Tribunal Federal (STF) transcorreu sob forte pressão da grande mídia, uma espécie de ultimatum, com a pretensão de impor um único veredito como aceitável: a cabeça de Alexandre de Moraes. Era a vocalização de poderosos setores do capital financeiro e do imperialismo, num momento em que o governo estadunidense de Donald Trump considera aplicar novas sanções contra ministros do STF, como denunciou na sessão o ministro Flávio Dino.

A sessão abriu-se sob essa espada, com Edson Fachin, na condição de presidente do STF e relator do caso, sustentando a proposta de que as duas petições, a que propõe investigar Alexandre de Moraes e a que propõe investigar André Mendonça, fossem deliberadas em dias separados. A proposta de Fachin foi contestada por uma questão de ordem do ministro Gilmar Mendes, elaborada pelo ministro Flávio Dino, propondo que os casos deveriam ser julgados conjuntamente.

Sublinhe-se que a questão de ordem de Dino e Gilmar não se opõe a que a Corte delibere sobre as duas petições, tampouco enseja protelar a decisão, posto que ambos defenderam que o plenário soberanamente votasse as duas no próximo dia 23.

Importa destacar o resultado jurídico e político da sessão e o impacto na disputa presidencial.

De início, a própria sessão naquela data foi uma exigência da mídia, em coro com a extrema-direita, com nítido objetivo de contaminar a disputa presidencial com esse tema, interditando o debate e criando um ambiente de caos e lama, terreno predileto da campanha neofascista de Flávio Bolsonaro. Tanto é verdade que Flávio Bolsonaro trouxe a crise do STF como tema central de sua campanha.

O ódio que Flávio Bolsonaro destila ao STF não deriva de seus erros e problemas estruturais, que demandam uma reforma do Judiciário, mas do papel que a Suprema Corte desempenhou durante a pandemia de Covid-19, enfrentando o negacionismo criminoso de Jair Bolsonaro e da totalidade de seu clã. E, em especial, pelo papel decisivo que cumpriu na defesa do regime democrático, julgando, condenando e prendendo a cúpula da organização criminosa chefiada por Jair Bolsonaro que tentou um golpe de Estado.

A votação ficou 4×3 para a proposta de Fachin, não computado o voto de Dino, que pediu vista.

A postura altiva e digna dos ministros que sustentaram a questão de ordem, com respaldo de largos setores da opinião pública e parcela de juristas do país, impuseram uma derrota à trama ardilosa da extrema-direita e à chantagem da grande mídia: não conseguiram o troféu que almejavam, a cabeça de Moraes, e o ponta de lança da crise, André Mendonça, foi acuado e sofreu duro desmascaramento.

No embate, os ministros Flávio Dino, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin enfrentaram a maré de pressão para manter o STF engolfado por uma corrosiva onda de parcialidade golpista de Mendonça, conduzindo inquéritos sob escancarada motivação político-eleitoral para favorecer o candidato da extrema-direita. Para tal, inclusive afastou, arbitrariamente, o diretor-geral da Polícia Federal. Cumpriram papel importante na defesa das prerrogativas institucionais do STF e do Estado Democrático de Direito.

Mendonça segue beneficiado por uma blindagem da grande mídia, mas o importante é que seu papel de ponta de lança do bolsonarismo no STF foi seriamente alvejado. Mas ele precisa responder por seus delitos e, em consequência deles, deve, definitivamente, perder a coordenação dos casos Master e INSS.

O fundamental é que todos que caíram na vasta teia armada por Vorcaro do Master devem ser investigados, os delitos apurados, a começar de Flávio Bolsonaro, único candidato a presidente da República íntimo, “irmãozão”, de Vorcaro, de quem implorou e recebeu milhões de dinheiro sujo. Por isto, formalmente investigado por corrupção e lavagem de dinheiro.

Como afirmou o presidente Lula, é dever do presidente do STF, ministro Fachin, atuar para que a crise do STF não interfira no processo eleitoral. Reiterou que todos, sem distinção, que cometeram delitos devem ser investigados, respeitado o devido processo legal. Segue, também, erguendo a bandeira da reforma do Judiciário para se cortar pela raiz as causas da grave crise do STF. Disse, também, que Flávio Bolsonaro tem razões pessoais para atacar Moraes, que liderou a condenação de seu pai, o ex-presidente de extrema direita Jair Bolsonaro, por tentativa de golpe de Estado.

E, diante da campanha do bolsonarista que tenta botar um sinal de igualdade entre Lula e Moraes, o presidente lembrou que não era presidente quando Moraes foi indicado, em 2017, pelo usurpador e golpista Michel Temer. E, ainda, que Mendonça e Kássio, envolvidos na corrupção do Master, foram indicados pelo pai, com o apoio do filho Flávio.

A campanha do presidente da Lula, obviamente, não pode ficar alheia à crise do STF. Até porque, como maquinou a extrema-direita, ela já se tornou um dos temas centrais da disputa.

Todavia, a campanha de Lula não pode ficar refém desse tema. Um confronto desse porte tem muitas frentes de ação e combate. Primeiro, retomar a iniciativa política na campanha e, segundo, no governo, com anúncios de políticas e medidas que respondam às necessidades do povo.

Na campanha, o central é o confronto, ação cotidiana, intensa, sem trégua, para desmascarar Flávio Bolsonaro. Não menos importante é apresentar respostas, propostas às questões mais sentidas pelo povo. De igual modo, dirigir mensagens ao encontro de uma camada-chave do eleitorado que ainda não decidiu o voto e oscila entre as duas principais candidaturas. A campanha em si, nesta reta final do primeiro turno, ganhar mais volume, carga total, nas ruas e redes.

Apontar, para citar agora apenas um exemplo, o futuro promissor ao Brasil e ao povo, a começar disseminando com eficácia a verdade de que, com Flávio Bolsonaro, o país estará condenado a retornar ao passado, com versão até piorada, do pesadelo, da destruição e desastre que foi o governo do pai de Flávio, Jair Bolsonaro.

Com Flávio, o país não terá futuro, pois ele já se revelou um traidor da pátria, capacho de Trump, pronto para entregar as imensas riquezas do país aos Estados Unidos. Flávio é contra o fim da escala 6×1. Com ele os trabalhadores ficarão à mercê de um governo a serviço dos banqueiros e do patronato.

Não se constrói futuro de progresso para o país e prosperidade para o povo sem democracia, sem as liberdades. Flávio, para realizar seu programa neoliberal e neocolonial, como fez Jair Bolsonaro, e como vem sinalizando na campanha, irá mutilar a democracia e tentará impor um regime autoritário-ditatorial. Se eleito vai forjar uma maioria no STF, cassando ministros e nomeando lacaios, questão-chave para o golpismo. Já declarou que vai anistiar todo o bando de criminosos golpistas, a começar de seu pai.

Somente Lula pode firmar compromisso de um futuro de soberania, democracia, desenvolvimento que resulte em elevar a qualidade de vida do povo.

A praça ainda é do povo? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_02118984853.html

17 setembro 2026

Palavra de poeta

uma visão de croisic
Cida Pedrosa    

vai o vento o sol aurora 
vai no breu o azul agora 
mar de pedra e amaranto
 
vai na brisa o acalanto 
vai na tarde o mesmo manto 
mar de pedra mundo afora 
 
vai na chuva a moça flora 
vai no barco a dor de outrora 
mar de pedra sal e pranto 
 
mar de amor e desencanto 
vai na água o teu quebrado 
vai na água e vai embora
 
[Ilustração: Paul Signac]
 
Leia também: "O Poço", poema de Pablo Neruda https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/palavra-de-poeta_01059093239.html 

Potência decadente

Os fracassos de Donald Trump
A escalada da retórica belicista de Washington tenta disfarçar a profunda fragilidade de um governo marcado por sucessivas derrotas geopolíticas e pela perda de influência global
José Luis Fiori/A Terra é Redonda     

1.

Existem pequenos “acidentes”, na história, que são emblemáticos, e que conseguem sintetizar e desvelar – ao mesmo tempo – situações de enorme complexidade. Como foi o caso, por exemplo, do que aconteceu na cidade de Ancara, no dia 8 de julho de 2026, quando o presidente Donald Trump foi retirado às pressas do seu avião presidencial, e levado escondido num caminhão contêiner de refeições, para um outro aparelho militar menor e mais discreto que o retirou da Turquia, e o transportou para Inglaterra. E, na cidade de Londres, foi recolocado no Air Force One, para que pudesse sair pela sua porta da frente, como se nada tivesse acontecido.

Tudo isto logo depois de ter participado da reunião anual da OTAN, a organização militar mais poderosa do mundo, onde foi advertido pelo serviço secreto de Israel de que sofreria um atentado da parte do Irã. Esse episódio seria digno de uma comédia tipicamente americana, se não se tratasse do presidente dos EUA, e se ele não tivesse deixado dentro do “avião-isca” os jornalistas que o acompanham em suas viagens, junto com seus secretários de Estado, Marco Rubio, e do Tesouro, Scott Bessent.

E ainda mais, se essa “fuga secreta” não fosse um sinal da grande fragilidade e insegurança atual do presidente Donald Trump, fora da Casa Branca. Inclusive porque não foi apresentada nenhuma prova que corroborasse a informação sobre a ameaça, não se podendo excluir, portanto, outras hipóteses – verossímeis neste momento – como a de um atentado ou ameaça da parte dos inimigos internos de Donald Trump, dentro dos EUA ou da OTAN, ou mesmo de ser apenas um “susto de advertência” da parte de Israel.

Seja como for, depois que esta informação “supersecreta” foi noticiada pelo jornal americano, Washington Post, ela deu volta ao mundo transmitindo uma ideia da extrema fragilidade de um presidente que gosta de transmitir a imagem de um imperador global e todo-poderoso. Esta súbita fragilização da imagem do presidente e do poder americano, talvez explique a sucessão imediata de declarações de onipotência da parte de vários membros do governo Trump, e em particular da sua ala mais belicista.

Foi o caso do subsecretário de Guerra, Elbridge Colby, que declarou no dia 10 de agosto, na cidade de Manila, Filipinas, que os EUA estavam decididos a conter a China na “primeira cadeia de ilhas” através do “world’s biggest stick” – em suas próprias palavras. O mesmo subsecretário que vem defendendo a necessidade do uso de “armas nucleares táticas”, caso seja necessário, para “expulsar os interesses” russos e chineses do Hemisfério Ocidental.

2.

No dia seguinte, 11 de agosto, o Departamento de Estado divulgou um vídeo institucional narrado pelo embaixador dos EUA no Panamá, que dizia “que o domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais seria questionado”, dando como exemplo da decisão inquebrantável dos EUA, a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, do dia 3 de janeiro de 2026.

De imediato, no dia 12 de agosto, o Secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, anunciou no Fórum da Coalizão das Américas contra os Cartéis (A3C), realizado na cidade do Panamá, a decisão americana de iniciar de imediato operações militares terrestres na Colômbia, antecipando a visita do Secretário de Estado, Marco Rubio à própria Colômbia, ao Equador e ao Peru, no início do mês de setembro.

No dia 17 de agosto o próprio Donald Trump ameaçou destruir Omã, que é um protetorado militar dos EUA, caso o governo de Omã negociasse separadamente com o Irã uma administração conjunta do Estreito de Ormuz. E uma semana depois, no dia 24 de agosto, o Secretário do Tesouro, Scott Bessent declarou – ao anunciar as novas sanções econômicas contra o Irã – numa conferência de imprensa na Casa Branca, que “ninguém no mundo está acima do alcance das sanções econômicas dos EUA”.

Esta explosão de onipotência, entretanto, parece cada vez mais descolada dos fatos. Porque até aqui o único grande “trunfo” do governo Donald Trump foi seu ataque à Venezuela realizado depois de uma gigantesca mobilização de forças navais, aéreas e terrestres, levada a cabo durante vários meses, com o objetivo final de capturar apenas duas pessoas.

Mas depois disto, ou ao lado disto, sem respeitar necessariamente a sequência cronológica dos acontecimentos, o governo de Donald Trump fracassou no seu projeto de pacificar a Ucrânia em 100 dias, como havia anunciado em sua campanha presidencial; recuou com relação ao seu anunciado desejo de conquista da Groenlândia e do Canadá; sofreu um grande revés na sua guerra comercial contra a China; não conseguiu atrair a Coreia do Norte para algum tipo de negociação e fratura do bloco de países eurasianos; foi derrotado nas eleições da Hungria, a despeito da intervenção direta e pessoal do vice- presidente americano, David Vance; viu seu projeto de paz de 15 pontos para Gaza rejeitado sem nenhuma contemplação, pelo seu grande aliado Benjamin Netanyahu.

Sofreu uma derrota estratégica fragorosa na sua guerra ao lado de Israel, contra o Irã; não conseguiu impedir que os Houthis conquistassem nos últimos dias, a cidade-porto de Makha e a Ilha Perim, abrindo uma segunda frente vitoriosa, ao lado do Irã e contra os EUA e Israel, e assumindo o controle militar do Estreito de Bab al-Mandeb, e de todo o tráfico marítimo pelo Mar Vermelho, em particular do petróleo da Arábia Saudita.

Finalmente, vem fracassando na sua guerra econômica contra a Rússia, há mais tempo, e agora na sua nova ofensiva contra o Irã – a despeito de toda a empáfia de Scott Bessent – que apesar de intervir diretamente no mercado, por meio de operações financeiras e liberação de reservas estratégicas, nestas últimas semanas, não conseguiu impedir que o preço do petróleo ultrapassasse a “linha vermelha” dos US$ 107 dólares, depois da última ofensiva vitoriosa dos Houthis.

3.

Acrescente-se a esta lista de “insucessos imperiais” de Donald Trump, sua ruptura diplomática com alguns de seus principais aliados e vassalos do Atlântico Norte e da Ásia, muitas vezes sem nenhum tipo de justificação como ocorreu recentemente com a suspensão parcial dos exercícios militares conjuntos dos EUA com a Coreia do Sul.

Ou mesmo, com a guerra comercial extremamente destrutiva com o Canadá, seu vizinho com quem mantinha relações amistosas e pacíficas desde 1815. Contribuindo decisivamente para a fragilização do bloco político-econômico e militar do Atlântico Norte, deixando as portas abertas para o avanço do BRICS e da China, em particular, no Oriente Médio, na Eurásia e África, e até mesmo na América do Sul.

Basta dizer que no mês de agosto, depois de participar da reunião do Escudo das Américas, no Panamá, concebido para conter a presença chinesa na América Latina, várias autoridades sul-americanas visitaram Pequim e manifestaram sua amizade irrestrita com os chineses. Como foi o caso mais “escandaloso” do presidente da Assembleia de El Salvador, Ernesto Castro, aliado muito próximo do presidente Nayib Bukele. Mas também do Ministro de Relações Exteriores do Chile, Perez Mackena que manteve conversações com o Ministro de Relações Exteriores da China, Wang Ji, e com o Vice-Primeiro Ministro chinês, He Lifang.

E, finalmente, do próprio presidente do Equador Daniel Noboa que teve uma recepção oficial do governo chinês, e encontrou-se pessoalmente com o presidente Xi Jinping, tendo declarado “que a China sempre poderá contar com o Equador […] um amigo chinês do outro lado do Pacífico” Somando-se e subtraindo-se todas estas informações entende-se melhor a “queda de Trump”, que alcançou seu máximo de popularidade e prestígio internacional depois do seu “sucesso venezuelano” do dia 3 de janeiro de 2026, e nove meses depois, depois de sua fracassada guerra contra o Irã, e de sua “fuga” apressada da Turquia, transformou-se num dos presidentes mais impopulares da história americana, dentro e fora dos EUA.

Atropelado, além do mais, pela aproximação das próximas eleições parlamentares do midterm do mês de novembro, e por uma disputa cada vez mais intensa entre as várias facções da extrema direita republicana, que se digladiam pela sucessão de Donald Trump, onde se destacam as figuras do Vice-Presidente, David Vance, e do Secretário de Estado, Marco Rubio.

Transmitindo ao mundo a imagem de um império que segue armado “até os dentes” mas perdeu o seu “norte”, e de um governo que aumenta sua agressividade retórica, na mesma medida em que aumenta a sua incapacidade de impor sua vontade ao resto do mundo.

*José Luís Fiori é professor emérito da UFRJ. Autor, entre outros livros, de Conjuntura e história (Vozes). [https://link.amazon/B0cDSrftS]

Publicado originalmente no Boletim do Observatório internacional do século XXI, no. 19, setembro de 2026.
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Trump e a diplomacia anárquica https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_01291229765.html 

Humor de resistência

Claudius

Ligação com o PCC na produção de filme sobre Bolsonaro https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/mais-sujeira-atras-da-porta.html 

Minha opinião

Na reta final detalhes importam*
Luciano Siqueira 


De tudo o que li das grandes batalhas da História e que aprendi no curso de seis décadas de militância, depreendo que próximo ao desenlace de uma grande batalha, nos últimos movimentos das forças litigantes, detalhes podem fazer a diferença.

Dito assim de modo meio que alegórico, parece algo muito complexo, mas na verdade não é. 

Caso das eleições presidenciais do Brasil desde a superação do regime militar. 

No segundo turno do confronto Lula versus Collor em 1989, a edição distorcida do último debate entre os oponentes, divulgada no Jornal Nacional, da TV Globo, todos os analistas concordam, teve peso decisivo na apertada vitória do alagoano. 

Já em 1992, na vitória sobre o tucano José Serra, a poucos dias do pleito Lula divulgou a conhecida "Carta aos brasileiros", contendo uma afirmação para muitos quase despercebida, porém de importante peso político específico — a de que, eleito presidente, não mudaria substancialmente "as regras do jogo" da política macroeconômica. 

Aí residiu a sinalização para importante segmento da elite dominante que admitia arrefecer suas resistências ao futuro presidente mediante entendimento prévio, que envolveu, inclusive, o futuro ministro da Fazenda, José Palocci. 

(Vários outros exemplos seria possível mencionar, incluindo a vitória em acirradas disputas pelo governo estadual de Pernambuco, nas quais o autor dessas breves linhas teve participação ativa, representando o PCdoB, no comando de coligações de centro-esquerda.)

Que tem a ver o comentário com as eleições de agora, que caminham para reta final?

Tudo. 

Em vários aspectos, da simples correção de um atraso absurdo na confecção das peças impressas de campanha do presidente Lula à desafiante possibilidade de diálogo com setores desgarrados do campo adversário. 

Apenas um exemplo: por que a Folha de S. Paulo e o Estadão vêm desancando o candidato Flávio Bolsonaro, o único competitivo da oposição? 

Ora, ambos os veículos pontificam no complexo midiático neoliberal como atores ativos na defesa dos interesses do núcleo essencial da elite dominante — o capital financeiro, o grande agro exportador e os monopólios do varejo. 

Ao baterem tão duro no candidato da extrema direita, não apenas confirmam que essa elite não se vê contemplada nem confia no principal candidato oposicionista, como admite, em algum grau, entendimento com a frente ampla reunida em torno do presidente Lula para evitar o "mal pior", que seria a eleição do corrupto, incompetente e desastroso filho do ex-presidente encarcerado. 

A julgar pelas pesquisas mais recentes, a peleja está tecnicamente empatada, exigindo o máximo de flexibilidade (sem abrir mão da essência dos compromissos com a nação e com o povo) no esforço de atrair, ou pelo menos neutralizar, setores desgarrados das hostes oposicionistas.

Situação semelhante também se verifica em algumas disputas por governos estaduais. 


João Amazonas dizia que na História das pelejas transformadoras, mundo afora, jamais foi possível vencer sem subtrair do campo inimigo parte das suas forças mais ativas e influentes.
Portanto, "detalhes" importam, sim. E, como dizia o poeta, "tudo vale a pena se a alma não é pequena".

*Texto da minha coluna no portal Vermelho

Três "questões de ordem" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0658357328.html