05 junho 2026

Palavra de poeta

Amavisse
Hilda Hilst  

Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.

[Ilustração: Amedeo Modigliani]

Leia também: O homem só https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minhaopiniao_64.html 

Minha opinião

Onde tudo se disputa 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65 
 

Sim, não há nenhuma novidade quanto ao fato de que a sociedade capitalista se apoia no roubo do trabalho excedente do trabalhador e na concorrência. 

Disputa-se tudo além do capital e do lucro — das várias modalidades esportivas e pelejas eleitorais.

E o complexo midiático, que também se apoia no lucro vez que constituído por empresas, sempre dá um jeito de estimular a concorrência na tentativa de livrar alguns centavos. 

É o que me parece a competição entre os vários tipos de chá de camomila! 

Isso mesmo. E o fato mereceu até matéria no outrora considerado vetusto Estadão. 

Até que gosto de um chazinho de camomila de vez em quando. Hoje em dia, raramente. Porém não tenho nenhuma vontade de cotejar, entre os produtos oferecidos no mercado, qual deles merece a minha preferência. 

Tenho tempo para isso não. Levo o que estiver à venda, sobretudo se escolhido por Luci, que é quem nossas compras semanais.

Daí nem tive interesse em ler a matéria, que suponho ter noticiado um evento mais comercial do que propriamente científico — se é que existe ciência na escolha que cada um possa fazer sobre a marca predileta do chá de camomila ou de qualquer outro. 

Vida que segue.

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Prefiro a filosofia do boteco da esquina https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_59.html

Postei nas redes

Pesquisas qualitativas indicam perda gradativa de credibilidade do pré-candidato Flávio Bolsonaro diante do eleitorado conservador não direitista em razão de suas comprometedoras relações com o banqueiro preso Daniel Vorcaro. Tão natural quanto a luz do sol.  

Elias Jabbour: Como o dinheiro do Banco Master financiou o bolsonarismo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/relacoes-inconfessaveis.html 

Mares sob ameaça

A ameaça ambiental que os bilionários ocultam
Cresce o consenso científico sobre os riscos catastróficos de um fenômeno climático em curso nos mares. Qual é? Como se relaciona com o padrão de vida hegemônico? Por que, submetidas à lógica dos mercados, sociedades permanecem paralisadas?
George Monbiot | Tradução: Antonio Martins/Outras Palavras 

Os pobres e a classe média pagam impostos, os ricos pagam contadores, os muito ricos pagam advogados – e os ultrarricos pagam políticos. Não é uma observação original , mas vale a pena repeti-la até que todos a tenham ouvido. Quanto mais dinheiro os bilionários acumulam, maior é o seu controle sobre o sistema político – o que significa que pagam menos impostos, que acumulam mais, que seu controle se intensifica.

Eles remodelam o mundo para atender às suas demandas. Um dos sintomas da patologia conhecida como “cérebro de bilionário” é a incapacidade de enxergar além de seus próprios ganhos de curto prazo. Eles destruiriam o planeta por mais algumas pedras na montanha inútil da riqueza. E podemos ver isso acontecendo. O mês de abril trouxe a maior notícia do ano até agora, talvez a maior notícia do século. Mas, em parte porque os bilionários detêm a maior parte da mídia, a maioria das pessoas nunca ouviu falar dela. Podemos nos ver envolvidos em um evento capaz de acabar com a civilização antes mesmo de aprendermos que tal fenômeno é possível. 

A notícia é que o estado de um sistema crucial de circulação oceânica foi reavaliado por cientistas . Alguns agora acreditam que, como resultado das mudanças climáticas que alteram a temperatura e a salinidade da água do mar, é muito provável que ele entre em colapso. Esse sistema – conhecido como Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês) – transporta calor dos trópicos para o Atlântico Norte. Pesquisas recentes sugerem que, se ele deixar de ocorrer, poderá causar uma queda drástica nas temperaturas médias de inverno no norte da Europa e mudanças dramáticas nos ciclos da água da Amazônia. Isso poderia levar a floresta tropical a um colapso em cascata e desencadear um desastre ainda maior.

A paralisação da AMOC também provavelmente causará uma aceleração da elevação do nível do mar na costa leste dos EUA, ameaçando grandes cidades. Além disso, poderá elevar as temperaturas na Antártida em cerca de 6°C e liberar uma enorme quantidade de carbono atualmente armazenado no Oceano Antártico, acelerando a catástrofe climática.

Mesmo levando em consideração os efeitos contrários do aquecimento global generalizado, um estudo posterior propõe que o impacto líquido no norte da Europa seria a ocorrência de períodos de frio extremo – incluindo eventos em que as temperaturas em Londres cairiam para -19°C, em Edimburgo para -30°C e em Oslo para -48°C. O gelo marinho em fevereiro se estenderia até a Inglaterra. Nosso clima mudaria drasticamente , com a probabilidade de extremos muito maiores, como tempestades de inverno de grande intensidade.

Essa mudança, em qualquer escala humana realista, seria irreversível. Sua velocidade provavelmente ultrapassaria nossa capacidade de adaptação . Interrupções na circulação atmosférica, impulsionadas pela variabilidade climática natural, já ocorreram antes. Mas não na era da civilização humana em larga escala.

O primeiro artigo propondo que a Amoc poderia ter um estado ativo e um estado inativo foi publicado em 1961. Desde então, muitos estudos confirmaram a descoberta e exploraram possíveis gatilhos e implicações prováveis. Até recentemente, o colapso da Amoc causado pela atividade humana era classificado como um evento de “alto impacto e baixa probabilidade”. Devastador, se ocorresse, mas improvável de acontecer.

Pesquisas realizadas nos últimos anos levaram a uma reavaliação: o evento passou a ser visto mais como algo de “alto impacto e alta probabilidade”. Agora, em resposta ao artigo de abril, o professor Stefan Rahmstorf – talvez a maior autoridade mundial no assunto – afirma que as chances de uma parada parecem ser de “mais de 50%”. Poderíamos ultrapassar o ponto de inflexão, diz ele, “em meados deste século”.

Por que isso não está em todos os noticiários? Por que não é a principal prioridade dos governos que afirmam nos proteger de danos? Em grande parte porque o poder oligárquico defende um modelo de impacto climático que pouco tem a ver com a realidade: ou seja, os que o comandam têm uma hipótese sobre como o mundo funciona que é completamente dissociada das descobertas científicas. Esse modelo fundamenta as respostas oficiais à crise climática. 

Tudo começou com o trabalho do economista William Nordhaus, que buscou avaliar os efeitos econômicos do aquecimento global. Seu modelo sugere que um nível de aquecimento “socialmente ótimo” está entre 3,5°C e 4°C. A maioria dos cientistas climáticos considera um aumento de temperatura desse tipo catastrófico. Mesmo um aquecimento de 6°C, segundo Nordhaus, causaria uma perda de apenas 8,5% do PIB. A ciência climática sugere que isso seria mais como o fim da civilização.

Segundo argumentaram os eminentes economistas Nicholas Stern, Joseph Stiglitz e Charlotte Taylor , os efeitos moderados previstos por Nordhaus são consequências do modelo enviezado que ele utilizou. Por exemplo, sua modelagem pressupõe que riscos catastróficos não existem e que os impactos climáticos aumentam linearmente com a temperatura. Não existe nenhum modelo climático que proponha tal tendência. Em vez disso, a ciência climática prevê impactos não lineares e riscos que aumentam consideravelmente.

Os prováveis impactos de altos níveis de aquecimento incluem a inundação de grandes cidades, o fechamento do nicho climático humano (as condições que sustentam a vida humana) em grande parte do globo, o colapso do sistema alimentar global e mudanças em cascata – ou seja, transições abruptas nos ecossistemas – liberando reservas naturais de carbono, o que pode levar a uma “Planeta-estufa” no qual pouquíssimos sobreviveriam. E não importa a pequena queda no PIB: não haveria meios de mensuração e praticamente nenhuma economia para medir.

De forma bizarra, a modelagem de Nordhaus também aplica taxas de desconto aos habitantes futuros do planeta: presume-se que suas vidas valem menos que as nossas. Em outras palavras, tomou-se um método usado para calcular o retorno do capital e se aplicou a seres humanos. Como apontam os três economistas, “é muito difícil encontrar uma justificativa para isso na filosofia moral”. Além disso, os impactos climáticos afetam desproporcionalmente os pobres – mas, segundo os modelos, suas vidas também valem muito pouco.

Não surpreendentemente, modelos desse tipo, observam Stern, Stiglitz e Taylor, foram apropriados por “interesses especiais”, como a indústria de combustíveis fósseis, para defender respostas mínimas à crise climática. E não são apenas as companhias petrolíferas. Bill Gates, que alega querer proteger o planeta, doou US$ 3,5 milhões (R$ 17,5 milhões) para um grupo de investidores que usa o modelo de Nordhaus como argumento. É liderado por Bjorn Lomborg, que construiu sua carreira promovendo o modelo enviezado, o que contribuiu para minimizar a necessidade de ações climáticas. Nordhaus recebeu o Prêmio Nobel de Economia por suas ideias absurdas e perniciosas – e elas estão profundamente enraizadas na tomada de decisões governamentais.

Um culto da morte bilionário tem o pescoço da humanidade em suas garras. Ele tanto causa quanto minimiza nossa crise existencial. Os oligarcas não são apenas inimigos de classe, mas, como sempre foram, inimigos da sociedade. Alguns milhares de pessoas podem destruir civilizações. É a guerra entre os bilhões e os bilionários, e as consequências não poderiam ser mais graves.

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Donald Trump diante de Xi Jinping https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/minha-opiniao_0704474379.html

Arte é vida

 

Luciano Pinheiro

Trabalhadores em saúde

Saúde: uma força de trabalho superexplorada
Salários baixos. Jornadas longas. Trabalho intenso e extenuante. Em seminário de Outra Saúde, pesquisadora caracteriza condições laborais na saúde em país dependente: “O SUS são trabalhadores precarizados cuidando de trabalhadores precarizados”
Thauanne Gonçalves/OutrasPalavras   

O texto a seguir é uma adaptação da fala da enfermeira e pesquisadora Thauanne Gonçalves, doutora em Saúde Coletiva pelo IMS/UERJ e membro do grupo de pesquisa Saúde, Sociedade, Estado e Mercado (Grupo SEM), no seminário Da Reforma Sanitária ao Futuro do SUS, promovido pelo Outra Saúde em parceria com a Associação Paulista de Saúde Pública, a Faculdade de Saúde Pública da USP e o ICICT/Fiocruz. Thauanne foi uma das convidadas da mesa “Gestão do trabalho e da educação na saúde: como avançar para um SUS público”, realizada na etapa São Paulo do ciclo de debates e ocorrida no último dia 22 de maio. A gravação da mesa (e seu relato jornalístico) está disponível aqui.

Durante o primeiro dia da etapa São Paulo do evento “Da Reforma Sanitária ao Futuro do SUS”, ficou muito evidente, a partir das manifestações da plateia, a alta expectativa para discutirmos hoje a situação dos trabalhadores do SUS. E, sobretudo, para pensar no futuro desses trabalhadores. A mesa que estamos realizando no segundo dia tem essa grande responsabilidade.

No Grupo de Pesquisa Saúde, Sociedade, Estado, Mercado (SEM) do Instituto de Medicina Social (IMS) da UERJ, temos como uma das nossas principais frentes de trabalho os estudos sobre a força de trabalho em saúde no Brasil. Somos um grupo marxista que compõe a recém criada Rede de Pesquisa Marxista na Saúde, que foi fundada em 2025 e contou com o apoio do Outra Saúde para a publicação da nossa Carta

O principal referencial teórico que utilizamos nas nossas pesquisas é a Teoria Marxista da Dependência (TMD), que tem como categoria analítica fundamental a superexploração da força de trabalho. É a partir dessa lente que observamos a realidade dos trabalhadores do SUS.

Cabe destacar que essa frente de trabalho surgiu quando, ao estudar textos sobre a TMD e o conceito de superexploração, percebemos o quanto aquelas observações pareciam descrever a realidade da enfermagem brasileira. Esse, então, foi nosso ponto de partida: buscar “sinais” de superexploração na enfermagem. E cada vez mais fomos nos convencendo de que essa interpretação se mostrava bastante interessante para analisar a realidade do trabalho no país. Atualmente, estamos desenvolvendo uma pesquisa mais ampla sobre o tema, agregando outros profissionais, mas começamos essa trajetória observando resultados de outras pesquisas sobre as nossas lentes.

Em termos bastante gerais, os trabalhadores dos países dependentes estão relegados a condições de trabalho muito precárias, porque carregam em seus ombros a necessidade de transferir valor da periferia para o centro do capitalismo. É esse olhar, que considera uma perspectiva ampliada sobre a economia política, que nós trazemos para o trabalho em saúde e a partir do qual pensamos nossa práxis. 

Passando então para uma aproximação da realidade do trabalho, são três os principais mecanismos pelos quais a superexploração ocorre: baixa remuneração; longas jornadas; e alta intensidade do trabalho. O que temos observado? 

A baixa remuneração das enfermeiras no Brasil

Para entendermos se um salário é alto ou baixo, temos que definir algum parâmetro. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) realiza um estudo atualizado mensalmente que calcula o salário mínimo necessário (SMN)1, considerando o que a Constituição Federal de 1988 (Art. 7º, IV) determina como essencial para o trabalhador e sua família. Para abril de 2026, o SMN foi de 7.612 reais, enquanto o salário mínimo realmente em vigor é de 1.621 reais, ou seja, 4 vezes menor.

E o Piso da Enfermagem? A Lei 14.434/2022 determinou um piso de 4.750 reais para enfermeiras, 70% desse valor para técnicas e 50% para auxiliares. A recente pesquisa da Demografia da Enfermagem2 mostrou que desde 2015, a maior parte das enfermeiras ganha entre 3 e 4 salários mínimos, ou seja, abaixo do SMN, com piora acentuada desde 2021. Isso significa que, durante a pandemia, enquanto a enfermagem lidava com os horrores da covid-19, sua média salarial caía.  

Os efeitos do piso ainda precisam ser avaliados, porque sua implementação é recente e ainda não temos dados disponíveis em todas as bases que utilizamos. Mas cabe ressaltar que, mesmo em uma conjuntura muito adversa, com pandemia e Bolsonaro, a enfermagem conseguiu aprovar uma lei de piso nacional — e isso não é pouca coisa. Isso mostra a força dessas trabalhadoras, que são 87% de mulheres dentre os 3 milhões de registros profissionais no COFEN.3

Entretanto, para o piso ser capaz de mudar substancialmente a realidade das enfermeiras, ele deve ser associado a uma jornada de trabalho de 30 horas semanais – além de possuir um mecanismo de reajuste, é claro. Porém, o STF determinou que o piso é referente à jornada de 44 horas. Isso nos leva ao segundo mecanismo da superexploração: a jornada de trabalho prolongada.

As intermináveis jornadas de trabalho na saúde

Por definição, as profissões de saúde lidam com a insalubridade – ela é parte da atividade profissional. Sendo assim, é fundamental a redução da jornada. E o que acontece com o trabalhador que ultrapassa os limites que deveriam ser estabelecidos na jornada? O consumo do seu fundo de vida. Por isso, a remuneração deve estar atrelada à jornada, não podemos pensar as duas coisas separadamente. A redução da jornada sem aumento salarial leva à multiplicidade de vínculos, que por sua vez resulta em… longas jornadas.

E será que a alta remuneração pode compensar as longas jornadas? Para responder a essa pergunta, podemos observar o cenário da medicina. Os médicos possuem uma média de remuneração dentre as maiores das profissões de nível superior no país. Mas, se considerarmos que o baixo salário não é um problema para esta categoria, poderíamos ainda assim dizer que os médicos são superexplorados? O estudo Demografia Médica de 20254 aponta para uma redução importante dos vínculos formais. Além disso, recentemente, a pesquisadora Fernanda Rodrigues defendeu uma dissertação no IMS sobre a plataformização do trabalho médico por empresas de telemedicina.5 Ou seja, o modelo de plataformas como iFood e Uber já chegou na área médica.

Antes, a Demografia Médica de 20206 já havia trazido alguns dados alarmantes sobre as jornadas da categoria: em uma comparação dos anos de 2014 e 2019, os médicos que relataram ter 6 vínculos ou mais subiram de 5% para 18%. E em relação à duração da jornada semanal, em 2019, 46% dos médicos relataram trabalhar mais de 60h semanais, sendo quase 30% mais de 80 horas.

Há remuneração que compense essas jornadas? Existem estudos de conselhos regionais de medicina que mostram que médicos têm expectativa de vida inferior à população geral.7 Novamente, é isso que faz ser fundamental considerar a redução da jornada de trabalho junto à questão salarial. 

Voltando à enfermagem, por isso é tão relevante aprovar a PEC 19/2024, que visa associar o piso à redução da jornada e incluir o reajuste anual. A demografia da enfermagem mostra que um percentual muito pequeno das profissionais trabalha até 30 horas.

Quando se observam os vínculos da enfermagem no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), como foi feito pela pesquisadora Thaís Brasil, que defendeu uma tese no IMS/UERJ sobre a precarização do trabalho da enfermagem na Estratégia de Saúde da Família8, encontramos algo interessante.

Em relação ao tipo de vínculo de enfermeiras e técnicas em 2023, observamos um percentual em torno de 20% de estatutários, 20% a 30% celetistas e 20% de contrato por tempo determinado. Por sua vez, quando vemos os dados das auxiliares de enfermagem, 45% são estatutárias, 26% celetistas e 7% têm contrato por tempo determinado. Nota-se então, uma piora progressiva dos tipos de vínculos com a diminuição do funcionalismo público, visto que, desde 2003, a formação de auxiliares vem sendo substituída pela de técnicas de enfermagem – o que significa que os vínculos desses primeiros são mais antigos. 

Um trabalho intenso e extenuante

Por fim, o terceiro mecanismo da superexploração é o aumento da intensidade do trabalho, o que a longo prazo resulta em doenças laborais, acidentes de trabalho e efeitos danosos para a segurança do paciente. 

A Demografia da Enfermagem mostra o aumento progressivo dos afastamentos do trabalho, acentuados desde a pandemia.2 Além disso, as técnicas e auxiliares de enfermagem lideram as estatísticas de acidentes de trabalho no Brasil.9,10

Para além dessa categorização que temos feito, há muitos pontos que carecem de ser abordados. Um deles é que a enfermagem, ao lado da nutrição e do serviço social, é uma das profissões de ensino superior com maior taxa de desemprego entre os recém formados, em torno de 25%, de acordo com uma pesquisa de 2024.11 Mas o desemprego na enfermagem vem sendo notado como um problema longínquo. Na pesquisa Perfil da Enfermagem Brasileira, publicada em 201712, 10% dos profissionais relataram terem enfrentado desemprego nos últimos 12 meses, compondo um montante de 182 mil profissionais.

Todas essas condições, junto com a difusão cada vez mais intensa da ideologia neoliberal no trabalho, gera uma pressão grande sobre os jovens profissionais e estudantes, que passam a acreditar que a saída para nossos problemas coletivos, pode ser individual. Muitos passam a buscar a emigração e o empreendedorismo como alternativa.

Um futuro para os trabalhadores do SUS

Por fim, eu queria trazer um pouco da minha experiência pessoal com o desalento das enfermeiras. Reli recentemente o documento “A questão democrática na área da saúde13 e me deparei com o seguinte trecho: “a grande maioria dos profissionais de saúde encontra-se, hoje, colocada na trincheira de uma batalha inglória a tentar remediar os males de um planejamento ineficaz para uma população carente”. 

À época, é claro, tratava-se do “planejamento ineficaz” da saúde antes do SUS. Contudo, esse trecho me marcou porque vejo isso nos olhares das enfermeiras que tenho como alunas. 

Eu poderia reescrever esse trecho dizendo que: a grande maioria dos profissionais de saúde encontra-se, hoje, colocada na trincheira inglória de tentar remediar os males das condições sociais de uma população superexplorada. O SUS é feito de trabalhadores precarizados cuidando de trabalhadores precarizados.

Há alguns anos, dou aula como convidada na graduação em enfermagem e na residência de enfermagem em saúde da família na UERJ e sempre busco abordar o tema das condições de trabalho. Só que as últimas aulas que dei este ano tomaram um rumo diferente do planejado. As enfermeiras ou técnicas que cursam enfermagem estavam muito angustiadas com sua prática e a aula virou um espaço de desabafo.

A residência é um caso bastante relevante no que se refere a problemas de sobrecarga de trabalho e fragilidade de vínculos, ao mesmo tempo que é uma ferramenta estratégica para superar problemas existentes no SUS, como a falta de especialistas.

Assim, em uma aula recente da residência, a greve da atenção básica do Rio de Janeiro, que permanece denunciando as condições precárias de trabalho e assistência, tornou-se um ponto sensível e necessário a ser tratado. Essa aula foi bastante difícil e a fragilidade dos vínculos das residentes as deixou sentindo-se sem saída.

Depois da aula, a coordenadora da disciplina, professora Amanda Xavier, me perguntou: será que deveríamos parar de falar sobre isso? As alunas saíram tristes e não é esse o nosso objetivo.

Depois de pensar por algum tempo, entendi que não. Não dá para jogar os problemas para baixo do tapete. No entanto, temos que passar a abordá-los trazendo ideias sobre como mitigá-los ou até superá-los. 

Essa é a importância de participar de momentos de reflexão que remetem aos 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde: pensar ideias para “adiar o fim do mundo” na Saúde Coletiva. Apesar dos muitos ataques aos direitos dos trabalhadores, ainda existem condições de luta nesse aspecto no país. 

O futuro do SUS só será, se o SUS oferecer um futuro a seus trabalhadores.


REFERÊNCIAS

1. DIEESE. Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos [Internet]. 2026 [citado 27 de maio de 2026]. DIEESE – análise cesta básica – Salário mínimo nominal e necessário. Disponível em: https://www.dieese.org.br/analisecestabasica/salarioMinimo.html 

2. Brasil. Demografia e mercado de trabalho em enfermagem no Brasil [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2025 [citado 11 de maio de 2026]. (Demografia da Enfermagem no Brasil 2025). Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/demografia_enfermagem_mercado_trabalho_v1.pdf 

3. Cofen. Cofen – Conselho Federal de Enfermagem [Internet]. 2026 [citado 30 de janeiro de 2023]. Enfermagem em Números. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/enfermagem-em-numeros/ 

4. Scheffer et. al M. Demografia Médica no Brasil 2025 [Internet]. Brasília : Ministério da Saúde: Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Associação Médica Brasileira; 2025. 446 p. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/demografia_medica_brasil_2025.pdf 

5. Rodrigues FSM. Plataformização do trabalho médico e a mercantilização da saúde: um estudo sobre plataformas de telemedicina no Brasil [Dissertação de mestrado] [Internet]. [Rio de Janeiro]: Instituto de Medicina Social (IMS), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); 2026. Disponível em: Ainda não publicada. 

6. Scheffer et. al M. Demografia Médica no Brasil 2020 [Internet]. São Paulo: Faculdade de Medicina da USP e Conselho Federal de Medicina; 2020. 312 p. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/sgtes/acoes-em-educacao-em-saude/cfm-e-usp/07-relatorio-demografia-medica-no-brasil_2020-5.pdf 

7. Grupo de Trabalho “Mortalidade dos Médicos”. Estudo da mortalidade dos médicos no estado de São Paulo: tendências de uma década (2000-2009) [Internet]. março de 2012 [citado 27 de maio de 2026]. Disponível em: https://www.cremesp.org.br/pdfs/Mortalidade%20v%20220312.pdf 

8. Brasil T de A. Expressões da precarização do trabalho: um estudo sobre a enfermagem da Estratégia Saúde da Família [Tese (Doutorado em Saúde Coletiva)] [Internet]. [Rio de Janeiro]: Universidade do Estado do Rio de Janeiro; 2025 [citado 30 de janeiro de 2026]. Disponível em: https://www.bdtd.uerj.br:8443/handle/1/24451 

9. Brasil. Ministério do Trabalho e Emprego [Internet]. 2025 [citado 27 de maio de 2026]. Ministério do Trabalho e Emprego identifica aumento de acidentes de trabalho no Brasil. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/noticias-e-conteudo/2025/julho/ministerio-do-trabalho-e-emprego-identifica-aumento-de-acidentes-de-trabalho-no-brasil 

10. Brasil. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiologico -v. 54, n.17 – Acidentes de trabalho com exposição a material biológico em profissionais da enfermagem, 2018-2022 [Internet]. 2023 [citado 27 de maio de 2026]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/edicoes/2023/boletim-epidemiologico-volume-54-no-17 

11. Instituto Semesp. 4a Pesquisa Empregabilidade [Internet]. 2024 [citado 27 de maio de 2026]. Disponível em: https://revistaensinosuperior.com.br/wp-content/uploads/2024/09/Pesquisa-Empregabilidade-2024.pdf

12. Machado MH, et al., FIOCRUZ, COFEN. Relatório final da Pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil. Rio de Janeiro, 28 volumes. Produzido em 2016, Publicado em 2017. Volume I – Brasil [Internet]. 2017 [citado 30 de janeiro de 2023]. Disponível em: http://www.cofen.gov.br/perfilenfermagem/pdfs/relatoriofinal.pdf 

13. Cordeiro H, Fiori JL, Guimarães R. A questão democrática na área da Saúde. Physis Rev Saúde Coletiva. 2021;31:e310302. doi:https://doi.org/10.1590/S0103-73312021310302

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Fotografia

 

Rodrigo Santacruz

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