Delação na era da tecnologia digital?
Vorcaro já redigiu sua primeira
proposta: longa, difusa e ociosa. A segunda não necessita ser breve, mas
certamente deve ser clara e breve
João Cear de Castro Rocha/Liberta
Os lençóis já se foram
Bento
Santiago fornece o mote inicial. Numa noite, decidiu ir ao teatro:
Representava-se
justamente Otelo, que eu não vira nem lera nunca; sabia apenas o assunto, e
estimei a coincidência. Vi as grandes raivas do mouro, por causa de um lenço, —
um simples lenço! — e aqui dou matéria à meditação dos psicólogos deste e de
outros continentes, pois não me pude furtar à observação de que um lenço bastou
a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo. Os
lenços perderam-se, hoje são precisos os próprios lençóis; alguma vez nem
lençóis há, e valem só as camisas.
Antecipação
inesperada da civilização do selfie, crítica pioneira da voluntária exposição
da intimidade que define o universo das redes sociais? Nos tempos de Dom
Casmurro, o romance foi publicado em 1900, os lenços já eram coisa do passado
pelo excesso de recato e, sumidos os lençóis, restaram apenas as camisas. Em
2026, a insistência nas camisas seria anacrônica, impertinente até. Afinal, em
tempos de onipresença do aparelho celular no dia a dia planetário, a palavra
pudor desaparece pouco a pouco dos dicionários.
Não
é tudo.
O
advento da distopia da República Tecnológica, representada à perfeição por
empresas como Cambridge Analytica e Palantir, metamorfoseou o desejo de
privacidade numa virtual impossibilidade. Cidadãos e cidadãs foram convertidos
em perfis de usuário, cujos dados são manipulados como uma mercadoria especial,
que promete acesso à motivação mais recôndita de cada um de nós. Em sua
operação pós-freudiana, o algoritmo pouco se interesse pela anamnese
psicanalítica de traumas prévios, só o que conta são as futuras compras.
A
escolha de líderes políticos se vende como um produto qualquer; por exemplo, um
detergente.)
Delação?
O
escândalo maiúsculo do Banco Master e seu títere, Daniel Vorcaro, colocou em
xeque o estatuto da delação premiada. É verdade que seu papel foi desmoralizado
pelas manipulações vulgares do juiz Sergio Moro em seu conluio criminoso com o
procurador Deltan Dallagnol. Mas entre 2014 e 2016, auge de seu emprego, a
telefonia celular no Brasil não possuía a difusão atual. Em consequência, os
processos dependiam muito das delações; na verdade, dificilmente caminhariam
sem elas.
Hoje,
tudo mudou. Com o testa de ferro Daniel Vorcaro, o bode expiatório de plantão,
8 celulares foram apreendidos, criando uma situação nova: para que fechar com
celeridade um acordo de delação? Basta quebrar a senha dos aparelhos e um
universo paralelo se oferece à Polícia Federal.
(Títere?
Testa de ferro? Sim: ou você acredita que Daniel Vorcaro era o mestre da
operação, seu mentor intelectual?)
O
conteúdo apreendido dos 8 aparelhos equivale a maior delação jamais feita no
Brasil! Vorcaro não somente terá de devolver uma fortuna estimada na casa das
dezenas de bilhões, talvez algumas centenas, como também terá de entregar
segredos ainda mais escabrosos do que as tenebrosas transações que já vieram à
luz. Circunstância inédita e muito provavelmente o bode expiatório ainda não se
deu conta. Sua delação pode ter o mesmo destino do Banco Master, isto é, a liquidação.
O
cenário promete ser apocalíptico. Para fechar um acordo e obter benefícios,
Daniel Vorcaro não tem opção: precisará oferecer uma delação premiada com
detalhes dos podres poderes que sequer somos capazes de imaginar.
Após
a ida ao teatro, Bento Santiago caminhou sem rumo pela cidade, ceou e voltou
para casa. Inquieto, recorda:
Escrevi
dois textos. O primeiro queimei-o por ser longo e difuso. O segundo continha só
o necessário, claro e breve.
Vorcaro
já redigiu sua primeira proposta: longa, difusa e ociosa. A segunda não
necessita ser breve, mas certamente deve ser clara e breve.
Ou
sua estadia na Papuda será longa e obscura.
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Elias Jabbour: Como o dinheiro do Banco Master financiou o bolsonarismo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/relacoes-inconfessaveis.html





