A escolha de Donald Trump
Trump descobriu que decapitar um regime não é o mesmo que
subjugar uma nação: o Irã resiste e o preço do petróleo cobra a fatura
MICHAEL ROBERTS*/A
Terra é Redonda
1.
Hoje, o petróleo bruto ultrapassou $100
por barril, apesar da Agência Internacional de Energia (AIE) ter aprovado a
maior liberação já realizada de reservas emergenciais de petróleo. Os
Estados-membros, em consequência, estão programando liberar 400 milhões de
barris nos próximos dias. Isso terá pouco efeito no preço do petróleo porque o
Iraque teve que suspender as operações em seus terminais de petróleo após dois
petroleiros terem sido alvejados em águas iraquianas.
O Estreito de Ormuz também permanece efetivamente
fechado; vários navios comerciais parecem ter isso atingidos na costa do Irã.
Isso levou grandes produtores do Oriente Médio a reduzirem a produção,
restringindo ainda mais a oferta global. O governo iraniano afirma que os EUA
devem garantir que nem ele nem Israel atacarão o país no futuro para que um
cessar-fogo seja considerado.
Portanto, a guerra no Irã não está indo
bem para Donald Trump. A sua “escolha pela guerra” (ou seja, pela agressividade
desenfreada) tornou-se uma “escolha de Hobson”.[i] O
seu “plano” de decapitar a liderança iraniana com bombardeios rápidos e assim
conseguir uma mudança de regime nos moldes da “solução venezuelana” não
aconteceu. O Irã não é a Venezuela. Trata-se de um país enorme com mais
de 90 milhões de habitantes e um estado armado até os dentes que possui
equipamentos militares necessários para se defender por um período longo. O
regime controlado pelos mulás iranianos – é preciso ver – está diante de uma
luta existencial.
A esperança que Donald Trump tinha de
uma revolta do povo iraniano contra o regime não se concretizou. O regime é
odiado pela maioria. Recentemente, como se sabe, matou mais de 30.000 pessoas
que protestavam nas ruas contra as más condições vida. Mas quando bombas caem
sobre as cabeças das pessoas, elas deixam de poder ir às ruas, passando a temer
pela própria existência. Além disso, qualquer protesto desse tipo seria
ferozmente reprimido pelo regime, que até agora não se dividiu; ao contrário,
parece unido para continuar resistindo.
Então, põe-se agora uma “escolha de
Hobson” para Donald Trump. Ou ele declara uma “vitória” e consegue um
cessar-fogo com o regime ainda intacto, ou reforça a aposta no possível uso de tropas
terrestres, aumentando os bombardeios para tentar derrubar o regime apenas com
força militar. Mas isso pode significar a morte de muitos americanos.
Os israelenses não querem parar. Eles
querem, se isso for possível, reduzir o Irã à condição de Gaza. Mas eles
precisam do financiamento e dos armamentos providos pelos EUA; ademais, eles
enfrentam ataques perigosos de mísseis do Irã e do Hezbollah no Líbano.
2.
De qualquer forma, tendo iniciado uma
guerra que a maioria dos americanos se opõe (segundo pesquisas de opinião),
Donald Trump e seus seguidores estão agora diante de uma possível derrota nas
eleições legislativas de meio de mandato. O Congresso, controlado pelos
republicanos de Donald Trump, não fez nada para impedir essa guerra, ilegal
segundo a constituição dos EUA.
Um congresso democrata também não
garantirá que Donald Trump venha a ser contido, mas ele poderá bloquear o
financiamento da guerra e impedir outras políticas econômicas de Donald Trump.
E essa guerra está custando ao estado
americano mais de 1 bilhão de dólares por dia. Claro, a administração Donald
Trump aumentou dramaticamente o orçamento de “defesa” para mais de US$ 1
trilhão por ano! Contudo, após apenas duas semanas já está se vendo que a
guerra está consumindo uma parte considerável do armamento e da logística
imediatmente disponíveis.
Isso, como resultado, está reduzindo o
material necessário para continuar a guerra na Ucrânia. O presidente ucraniano
Volodymyr Zelenskyy já está reclamando da falta de financiamento e de armamentos
que precisa para sustentar a linha de frente contra os russos.
Mas não se trata apenas do custo da
guerra pressionando o orçamento dos Estados Unidos, muito mais preocupante é o
impacto nos preços da energia e, eventualmente, na economia global. Como já argumentei antes, os preços do petróleo e gás só
subiriam a níveis astronômicos se duas coisas acontecessem: primeiro, se o
Estreito de Ormuz, um ponto chave de estrangulamento para o tráfego marítimo,
fosse bloqueado; e segundo, se as instalações de produção e distribuição de
petróleo nos estados do Golfo, Arábia Saudita e Irã fossem destruídas.
Até agora, a primeira condição está
satisfeita. Só a ameaça de atacar petroleiros nesse estreito já parou o
trânsito de petroleiros, ao mesmo tempo em que os prêmios de seguro de
transporte marítimo dispararam, deixando muitos navios descobertos. E para
evitar destruição, muitos estados do Golfo fecharam instalações de produção.
Portanto, apesar das alegações de Donald Trump de que navios serão escoltados
pelo Estreito de Ormuz pela marinha dos EUA e que o regime iraniano estaria
“quase completamente” derrotado, as grandes oscilações nos preços do petróleo e
gás continuam e permanecem muito acima dos níveis pré-guerra.
3.
O que tudo isso pode significar para a
economia mundial? Isso depende do que vier a acontecer com os envios de
petróleo e gás da região e da escala dos danos de longo prazo às instalações de
petróleo e gás. Se um cessar-fogo for alcançado na próxima semana, ainda haverá
uma queda nas exportações mundiais de petróleo e gás, mas isso talvez não seja
suficiente para manter os preços da energia nos altos níveis atuais.
Mas se o conflito durar meses, as
exportações de energia podem cair de 5 a 6%, o que manteria os preços cerca de
10 a 20% acima dos níveis pré-guerra. E se as instalações de petróleo e
gás fossem permanentemente danificadas ou ficarem fora de operação por muito
tempo, então os preços do petróleo poderiam chegar a $150 por barril, ou quase
três vezes os níveis pré-guerra, e os preços do gás natural disparariam para
€120 MWH, ou quatro vezes a taxa pré-guerra.
Segundo a Capital economics,
tal aumento seria comparável ao choque global de oferta do final dos anos 1970,
que contribuiu para a alta inflação e recessão global. Mas pode não ser tão ruim,
já que as principais economias dependem muito menos do petróleo e gás do que
nos anos 1970, graças à transição para energia renovável e a uma melhora geral
na eficiência energética.
Mesmo assim, se ocorrer uma guerra
prolongada, isso intensificará a tendência preexistente nas principais
economias para caírem em estagflação, ou seja, no aumento da inflação dos
preços e do desemprego, algo que vem junto com a queda do crescimento
econômico. Segundo economistas do Royal Bank of Canada, a inflação
dos preços ao consumidor nos EUA dispararia para 3,7%, ante os atuais 2,4% ano
anterior, se os preços do petróleo se mantiverem em $100 por barril.
A economia dos EUA perdeu 92.000
empregos em fevereiro e a taxa de desemprego subiu para 4,4%. E isso após um
2025 marcado por um aumento médio mensal de empregos considerado bem fraco;
fora dos períodos em que ocorreu uma recessão em mais de duas décadas, ele se
mostrou como o mais fraco. A guerra contra o Irã, que eleva a incerteza, tende
a aumentar ainda mais o desemprego.
A inflação europeia também dispararia
se os preços do gás natural permanecerem nos níveis atuais. E a inflação
aumentaria significativamente nas economias do Leste Asiático e na Índia. O
crescimento econômico mundial, segundo o Fundo Monetário Internacional,
resistiria a um aumento de 10% nos preços da energia, mas desaceleraria de
cerca de 3,2% projetado para este ano para 3%. O Reino Unido e a zona do euro
cresceriam cada um apenas 1% ou menos.
Mas se os preços do petróleo permanecerem
acima de $100 por barril, o dano seria muito maior. Por exemplo, a Société
Générale estimou que cada aumento sustentado de 10 dólares nos preços
do petróleo ampliaria o déficit em conta corrente da Índia, atualmente em torno
de 1% do PIB, em meio ponto percentual e reduziria o crescimento econômico em
0,3%.
Se continuar a $100 por barril, isso
significaria um déficit atual de 3% do PIB e uma redução no crescimento
econômico de uma previsão de 6,4% para 5% para 2026. E nesse nível de preço do
petróleo, isso poderia reduzir o crescimento do PIB real dos EUA em 0,8% (ou
seja, de 2% ao ano para perto de 1%) e a inflação americana poderia chegar a 4%
ao ano.
Isso representaria um sério dilema para
os Bancos centrais. Eles deveriam aumentar as taxas de juros para tentar conter
a inflação ou deixar a inflação disparar para não prejudicar o crescimento
econômico? O aumento das taxas pode desencadear o estouro da bolha de
Inteligência artificial que ainda está a caminho.
De qualquer forma, famílias ao redor do
mundo, nas economias do Norte Global e do Sul Global, enfrentariam preços
crescentes e custos de empréstimos e/ou queda no emprego e na renda. A escolha
de Hobson se apresentaria tanto para eles como para Donald Trump.
*Michael Roberts é
economista. Autor, entre outros livros, de Capitalism
in the 21st Century: Through the Prism of Value (Pluto Press). [https://amzn.to/4kVvi9z]
Tradução: Eleutério F. S. Prado.
Publicado
originalmente em The next recession blog.
Nota do tradutor
[i] Hobson’s
choice é um filme britânico de comédia romântica de 1954, dirigido por
David Lean, baseado na peça de mesmo nome de Harold Brighouse. Nele, há uma
situação em que uma escolha livre é oferecida, mas na verdade, existe apenas
uma opção disponível. É a ilusão de ter opções, quando aceitar aquela que se
apresenta vem a ser a única alternativa disponível.
Leia também: O desastre de Trump no Oriente Médio https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/oriente-medio-trump-atira-no-proprio-pe.html