22 julho 2026

Palavra de poeta

Poeta sem voz
Thelma Miguel    

por que fui nascer poeta?
as palavras me engasgam
prendem na garganta
falta o ar
não embelezam meu dia
não hoje
não neste dia
a vida de poeta
me embaralha nas letras
fico perdida nas emoções
nas curvas da vida
porque o poeta
sente forte o que vê
às vezes enlouquece
quando as palavras perdidas
pelo corpo
engessam a alma
o poeta se desespera
quando o silêncio
vence o grito
e ele não consegue
pôr no papel
aquilo que em sua alma
sangra
o poeta enlouquece
quando uma página branca
atravessa o seu dia
os rabiscos ficam vazios
sem nexo
ele risca
rabisca em vão
e não consegue
que sua alma se esparrame
tempos sombrios
para o poeta que se delicia com a beleza
com a suavidade da alma
hoje um martelo crava
em seu peito uma estaca
e ele não consegue respirar
de dor
as palavras perderam o caminho da boca
ficam embrulhadas no meio do estômago
não sai uma só palavra
só restou um vazio
oco
no meio dos lábios 

[Ilustração: Alexej von Jawlensky]

Leia também: "a parede e a flor", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/palavra-de-poeta_01116453344.html 

Minha opinião

Palpites a granel
Luciano Siqueira   

A grande mídia corporativa neoliberal chuta para todos os lados em matéria de eleições presidenciais.

Chora pela fragilidade e incompetência do pré-candidato Flávio Bolsonaro, ungido pelo pai ex-presidente presidiário; e busca a todo instante razões para atacar o presidente Lula.

Quanto ao pré-candidato da extrema direita, lamentos de toda ordem – sobretudo pela dificuldade de unir em espectro único a extrema direita e o centro conservador.

Quanto à campanha de Lula, que se in ciará em breve, haja especulação sobre a linha política, os alvos supostamente prioritários, propostas que a juiz do mercado financeiro ameaçariam o equilíbrio fiscal e que tais.

Na verdade, o complexo midiático dominante ao atuar de modo uníssono e convergente cumpre papel de partido politico, cuja essência está justamente na linha política adotada. Um “partido”, entretanto, momentaneamente carente da obediência das legendas inscritas no TSE e representadas no parlamento.

Casa em que falta projeto consistente, todos brigam e nenhum tem razão.

Por que não noticia o debate em curso entre os partidos integrantes da frente ampla pró-Lula visando a formulação da plataforma eleitoral?

Se comentar, identifique-se.

Entreguismo desavergonhado https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0871197417.html 

"Rolo"

 


"Estadão": Flávio Bolsonaro recebeu R$ 500 mil de diretor de empresa do esquema do Banco Master. Senador e pré-candidato à Presidência da República afirma que prestou serviços advocatícios, sem detalhar quais foram."

Desmorona o castelo de crimes erguido pelo bolsonarismo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/editorial-do-vermelho_0412311635.html 

Arte é vida

 

Berthe Morisot 

Enfim, o silêncio https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/anotacoes_01619744217.html 

Editorial do 'Vermelho'

Trump, inimigo da paz, retoma guerra contra o Irã
Presidente neofascista dos Estados Unidos alastra guerras para impor domínio sobre países, saquear riquezas e buscar super-lucros com a venda de armamentos
Editorial do 'Vermelho' 

A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump de abrir fogo, novamente, contra o Irã, rompendo o Memorando de Entendimento que pactuara o cessar-fogo entre os dois países, caracteriza violação do direito internacional e das leis constitucionais do próprio país agressor.

O líder supremo do Irã, aiatolá Mojtaba Khamenei, afirmou que a assinatura de Trump “não tem valor nem credibilidade”. O Ministério das Relações Exteriores iraniano disse, em comunicado, que os Estados Unidos cometeram “inúmeros crimes de guerra, particularmente ao atacar instalações e infraestruturas civis”, uma “violação flagrante da Carta das Nações Unidas e das normas fundamentais do direito internacional”.

Disse também que a resposta iraniana, ao atingir alvos dos Estados Unidos em países vizinhos, é um ato de legítima defesa. As forças iranianas atingiram o Kuwait e o Bahrein, países que abrigam forças estadunidenses. A resistência aumentou com a ação dos chamados houthis, do Iêmen, que anunciaram um bloqueio aos navios sauditas no Estreito de Bab el-Mandab, uma alternativa ao Estreito de Ormuz, podendo afetar mais de 3% do mercado global de petróleo.

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, disse que seu país está “envolvido em uma guerra em grande escala”. “A guerra de hoje não é apenas uma guerra de mísseis; o inimigo concluiu que não pode forçar o povo iraniano a se render por meio de ataques militares”, afirmou. “A economia e os meios de subsistência da população são a arena mais importante de confronto com o inimigo.”

Teerã anunciou que uma invasão terrestre pelos Estados Unidos, discutida abertamente por Washington, ampliaria a guerra em todo o Golfo Pérsico. De acordo com o jornal Washington Post, o Pentágono prepara opções para operações terrestres, que podem envolver milhares de militares e prolongarem-se por semanas ou meses. Trump descartou novas negociações.

No âmbito interno, Trump ignorou, mais uma vez, a decisão do Congresso de proibir novos ataques sem a sua anuência, de acordo com a Constituição, além de uma lei inédita aprovada em junho — que limitou o presidente de fazer novos ataques — não sancionada por ele, apesar da pressão, sobretudo, pelos impactos econômicos. Após a lei ser aprovada no Senado, Trump declarou: “Esses senadores tornaram meu trabalho mais complicado, mas eu vou alcançar o objetivo de qualquer jeito, porque eu sempre consigo.”

No mês passado, o governo solicitou US$ 87,6 bilhões em financiamento suplementar, que incluiu US$ 67,1 bilhões em gastos militares adicionais neste ano. Segundo o Pentágono, o custo da guerra até aqui já soma US$ 200 bilhões, mais de R$ 1 trilhão.

A decisão de Trump apresentou um cenário político difícil aos republicanos, atingidos por uma guerra impopular meses antes das eleições parlamentares de meio de mandato presidencial, nas quais as maiorias do Congresso estão em jogo. A aprovação de Trump enfrenta queda contínua e desgasta até o movimento Make America Great Again (Maga), com crescente fragmentação interna.

O presidente estadunidense expressa a conduta dos altos chefes militares, os senhores da guerra, uma importante fonte de poder e dinheiro, o escalão mais importante do governo dos Estados Unidos. No Oriente Médio, rica fonte de matéria-prima e entroncamento de três continentes, essa premissa cumpre também o papel de demarcar território e cercar a China e a Rússia num ponto estratégico da geopolítica, com o Estado de Israel instrumentalizado para agir como força de choque imperialista na região, condição que se agravou ao longo do tempo.

Na cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em Ancara, na Turquia, realizada nos dias 7 e 8 de julho, Trump foi duro na cobrança de seus aliados sobre aumento de gastos militares. Ele disse que os europeus devem aumentar seus gastos de 2% para 5% do PIB, sob pena de perderem o apoio dos Estados Unidos. Trump ameaçou repetidamente deixar a aliança caso os aliados não cumpram a exigência. E o secretário de Defesa, Pete Hegseth, condicionou o aumento dos gastos à venda mais rápida de armas estadunidenses.

Trump, em público, não escondeu o regozijo pelos bilhões e bilhões auferidos pelo complexo industrial e militar do país. Se referiu ao comércio de armas com a naturalidade de um vendedor de trigo. Alastra guerras não somente para impor domínio sobre países e saquear riquezas, busca também super-lucros com a venda de armamentos. É macabro, mas é um dos caminhos dos Estados Unidos para tentar conter o declínio de sua hegemonia.

O embaixador estadunidense na Otan, Matt Whitaker, elogiou os aliados europeus por terem comprometido quase US$ 120 bilhões em gastos militares no ano passado, metade dos quais em equipamentos fabricados nos Estados Unidos, significativamente maior do que o da cúpula do ano passado, cerca de US$ 90 bilhões. O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, disse, em visita a Washington, que os investimentos europeus sustentam 110 mil empregos nos Estados Unidos por meio de encomendas de armamentos no valor de US$ 300 bilhões.

Trump, em reuniões com executivos de gigantes da defesa como Lockheed Martin, Boeing e BAE Systems, costurou acordos para triplicar e até quadruplicar a produção de mísseis (como o Patriot e o Tomahawk) e interceptadores cruciais. Ele invocou o Ato de Produção de Defesa – uma lei de 1950, da época da Guerra da Coreia, que concede ao presidente amplos poderes para intervir na economia e na indústria privada do país – para assumir maior controle sobre a cadeia produtiva nacional.

A ordem exige que as empresas de armamento atuem com agilidade máxima de fabricação para reabastecer os arsenais. Ao discursar na Cúpula de Defesa e Inovação, realizada dia 15 de julho na Escola Superior de Guerra do Exército, na Pensilvânia, Trump disse que “conflitos prolongados” consumiram grandes quantidades de mísseis, interceptadores e outras armas.

Esse cenário, que projeta o ideal de guerra sem limites contra os povos, exige ações cada vez mais efetivas em favor de uma ordem mundial equilibrada e de paz. A ordem trumpista, regida pela regra da força bruta, é uma declaração de guerra contra a humanidade. A defesa da paz e a luta para conter a ferocidade do imperialismo sob Trump se impõem como tarefa de todos os povos.

Os brasileiros e os demais povos da América Latina e do Caribe não podem ter a ilusão de que se trata de guerras longe da daqui. O Brasil se encontra sob pressão, chantagens e ameaças. Reeleger o presidente Lula e derrotar a extrema-direita subserviente a Trump é a maior contribuição que a nação brasileira pode oferecer à jornada pela paz em nossa região e no mundo.

Se comentar, identifique-se. https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/06/participe.html

"Calígula moderno" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0577670490.html 

Sylvio: bumerangue

Pesquisa divulgada pela Quest mostra o que a população brasileira pensa nas tarifas absurdas impostas por Trump ao Brasil: 63% acham que haverá prejuízo para suas famílias e a grande maioria responsabiliza Flávio Bolsonaro pela crise com os Estados Unidos.

Sylvio Belém    

"Toda sugestão vale a pena" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0217269134.html

Celso Pinto de Melo opina

Quando a Copa muda o mapa do mundo
O que distingue as grandes seleções não é a existência de talentos extraordinários. É a capacidade de transformá-los em competência coletiva.
Celso Pinto de Melo/Jornal GGN  

Os resultados da Copa do Mundo de 2026 talvez estejam revelando
uma transformação muito maior do que um novo equilíbrio esportivo.
Eles podem ser um dos primeiros sinais visíveis de uma lenta redistribuição
das capacidades coletivas no século XXI.
 

“A verdadeira viagem de descoberta consiste não em procurar novas paisagens,
mas em ter novos olhos.”

Marcel Proust

Uma Copa do Mundo faz mais do que revelar um campeão. Ela revela uma mudança de época.

O espanto 

Bilhões de pessoas acompanharam a Copa do Mundo de 2026. A maioria viu gols, vitórias, derrotas e surpresas. Talvez o mais importante, porém, não estivesse dentro de campo.

Ao longo de poucas semanas de competição, seleções de países tradicionalmente considerados periféricos passaram a enfrentar, de igual para igual, antigas potências do futebol. Para muitos, tratava-se apenas de uma sucessão de zebras. Mas talvez aqueles resultados estivessem revelando algo que ia muito além do esporte.

E se a Copa não estiver apenas mostrando um novo equilíbrio entre as seleções? 

E se ela estiver revelando uma mudança histórica que já vinha sendo construída silenciosamente havia décadas?

As grandes mudanças históricas raramente chegam de forma espetacular. Elas se acumulam lentamente, quase sempre longe dos holofotes, até que um acontecimento aparentemente comum nos obriga a enxergar aquilo que já estava acontecendo.

Talvez seja esse o verdadeiro significado da Copa de 2026. 

Durante boa parte do século XX, bastava olhar uma Copa do Mundo para reconhecer onde estavam concentradas algumas das maiores competências do futebol. Europa e América do Sul dominavam quase completamente o cenário. As demais regiões produziam talentos extraordinários, mas apareciam como exceções, não como protagonistas permanentes.

Hoje esse mapa parece menos estável.

A explicação mais imediata aponta para a globalização do esporte, a profissionalização dos clubes, a circulação internacional de atletas e o aperfeiçoamento dos métodos de treinamento. Todos esses fatores contribuíram para tornar o futebol mais competitivo. Mas talvez expliquem apenas como essa transformação ocorreu, e não por que ela ocorreu. 

Fotografias e filmes

Fotografias congelam um instante. Filmes revelam trajetórias.

Grande parte dos equívocos na interpretação da História nasce justamente dessa diferença. Fotografias mostram onde uma sociedade está. Filmes revelam de onde ela veio e, sobretudo, para onde parece estar caminhando. Quando observamos apenas o instante, mudanças graduais parecem surgir de repente. Quando acompanhamos o filme, percebemos que elas vinham sendo construídas havia muito tempo. 

Foi essa mudança de perspectiva que levou o demógrafo francês Jean-Claude Chesnais, ainda no final do século passado, a chamar a atenção para uma transformação que poucos percebiam. Enquanto o debate permanecia concentrado na distribuição da riqueza e do poder daquele momento, Chesnais observava outro movimento: a lenta redistribuição demográfica da população mundial. O crescimento relativo da África e de partes da Ásia alteraria, ao longo do século XXI, o centro de gravidade humano do planeta.

Na época, essa parecia apenas uma projeção demográfica. Hoje sabemos que ela descrevia o início de uma mudança histórica.

Anos depois, Hans Rosling acrescentaria uma observação igualmente provocadora. O mundo havia mudado muito mais rapidamente do que nossa percepção dele. Continuávamos descrevendo a realidade com categorias herdadas dos anos 1970, enquanto centenas de milhões de pessoas experimentavam melhorias profundas em educação, saúde, urbanização e expectativa de vida. 

Quando o talento encontra instituições

Rosling costumava dizer que continuávamos descrevendo o mundo com categorias que já não correspondiam à realidade. Em outras palavras, seguíamos assistindo ao filme por meio de uma fotografia antiga.

Mas a demografia, por si só, não produz desenvolvimento. Populações numerosas nunca bastaram para criar universidades de excelência, sistemas científicos sofisticados, empresas inovadoras ou seleções competitivas. Entre o potencial humano e a realização coletiva existe um processo longo, cumulativo e frequentemente invisível: a construção de capacidades. 

Foi essa mudança de perspectiva que levou o demógrafo francês Jean-Claude Chesnais, ainda no final do século passado, a chamar a atenção para uma transformação que poucos percebiam. Enquanto o debate permanecia concentrado na distribuição da riqueza e do poder daquele momento, Chesnais observava outro movimento: a lenta redistribuição demográfica da população mundial. O crescimento relativo da África e de partes da Ásia alteraria, ao longo do século XXI, o centro de gravidade humano do planeta.

Na época, essa parecia apenas uma projeção demográfica. Hoje sabemos que ela descrevia o início de uma mudança histórica.

Anos depois, Hans Rosling acrescentaria uma observação igualmente provocadora. O mundo havia mudado muito mais rapidamente do que nossa percepção dele. Continuávamos descrevendo a realidade com categorias herdadas dos anos 1970, enquanto centenas de milhões de pessoas experimentavam melhorias profundas em educação, saúde, urbanização e expectativa de vida. 

Quando o talento encontra instituições

Rosling costumava dizer que continuávamos descrevendo o mundo com categorias que já não correspondiam à realidade. Em outras palavras, seguíamos assistindo ao filme por meio de uma fotografia antiga.

Mas a demografia, por si só, não produz desenvolvimento. Populações numerosas nunca bastaram para criar universidades de excelência, sistemas científicos sofisticados, empresas inovadoras ou seleções competitivas. Entre o potencial humano e a realização coletiva existe um processo longo, cumulativo e frequentemente invisível: a construção de capacidades. 

É justamente nesse ponto que o futebol oferece uma metáfora particularmente esclarecedora.

Talentos individuais podem surgir em qualquer lugar. O que distingue as grandes seleções não é a existência de talentos extraordinários. É a capacidade de transformá-los em competência coletiva. Isso exige escolas de formação, treinadores experientes, instituições sólidas, continuidade, intercâmbio internacional, infraestrutura e conhecimento acumulado ao longo de gerações.

O mesmo acontece com as sociedades. Países não se tornam protagonistas na ciência, na tecnologia, na indústria ou na cultura apenas porque possuem grandes populações ou abundância de recursos naturais. Tornam-se protagonistas quando conseguem construir, ao longo de décadas, ecossistemas capazes de formar pessoas, produzir conhecimento, estimular a inovação e transmitir competências entre gerações. 

Talvez seja justamente isso que esteja mudando em diferentes partes do mundo. Ao longo das últimas décadas, diversos países investiram simultaneamente em educação, saúde, infraestrutura, pesquisa científica, formação profissional e fortalecimento institucional. Os resultados não foram imediatos nem homogêneos. Mas, vistos em perspectiva, começaram a deslocar lentamente a distribuição mundial das capacidades humanas.

Essa transformação não aparece apenas no futebol.

Uma nova cartografia 

Ela pode ser percebida na expansão da produção científica de países antes considerados periféricos, no surgimento de novos polos tecnológicos, na crescente importância demográfica e econômica da África e até na redistribuição das grandes comunidades linguísticas. O próprio português oferece um exemplo eloquente desse processo. Ao longo deste século, seu centro demográfico tenderá a deslocar-se cada vez mais para a África, onde vivem algumas das populações mais jovens e de crescimento mais acelerado do planeta. À primeira vista, esses parecem fenômenos independentes. Observados em conjunto, porém, sugerem que fazem parte de uma mesma transformação histórica.

Os mapas tradicionais continuam indispensáveis. Eles mostram fronteiras, recursos naturais, população e riqueza. Mas dizem pouco sobre uma questão talvez ainda mais decisiva: onde estão sendo construídas as capacidades que definirão a economia, a ciência, a tecnologia, a cultura – e até o esporte – nas próximas décadas?

Talvez estejamos precisando de um novo tipo de mapa.

Não um mapa dos territórios.

Mas um mapa das capacidades coletivas.

Uma cartografia capaz de revelar não apenas onde os países estão, mas para onde parecem estar caminhando. 

A verdadeira lição da Copa

Se essa hipótese estiver correta, a Copa do Mundo de 2026 deixa de ser apenas um torneio esportivo.

Ela passa a representar um raro momento em que uma mudança histórica se torna visível para bilhões de pessoas ao mesmo tempo. Durante algumas semanas, um espetáculo acompanhado em praticamente todos os continentes talvez tenha revelado algo que vinha sendo construído silenciosamente havia décadas: a lenta redistribuição das capacidades humanas. 

É por isso que talvez estejamos fazendo a pergunta errada. O mais importante não é saber por que surgiram novas potências do futebol, mas compreender o que elas podem estar sinalizando.

Mudanças dessa natureza raramente começam onde esperamos. Primeiro aparecem como episódios isolados. Depois começam a surgir em diferentes áreas do conhecimento, da economia, da cultura ou do esporte. Só muito mais tarde percebemos que todos esses fenômenos faziam parte de uma mesma transformação.

Talvez o futebol não tenha mudado o mundo 

Talvez tenha sido apenas um dos primeiros lugares onde o novo mundo resolveu aparecer.

Uma mudança de época

Durante algum tempo continuamos interpretando o presente com mapas desenhados para o passado. Até que um acontecimento aparentemente comum nos obriga a reconhecer que uma nova época já começou. 

Talvez seja essa a maior contribuição da Copa do Mundo de 2026.

Não a de revelar um novo campeão.

Nem apenas a de anunciar novas potências do futebol. 

Mas a de mostrar, diante de bilhões de espectadores, que o mapa das capacidades humanas está sendo redesenhado.

O mapa do futebol mudou.

Talvez ele tenha sido apenas o primeiro a nos mostrar que o mapa do mundo já vinha mudando havia muito tempo.

*Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

Se comentar, identifique-se.

"Como o capitalismo sequestrou a Copa e o sonho de uma criança" 
https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/futebol-argentario.html