02 maio 2026

Postei nas redes

Toda a iniciativa do governo Lula em beneficio dos trabalhadores e do povo é considerada pela grande mídia neoliberal como "eleitoral". Oposição de baixíssimo nível.  

O lugar do PCdoB na cena política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/partido-renovado-e-influente.html 

Companheiro Raimundo, presente!

Raimundo Pereira, o jornalista da contracorrente
Um dos principais nomes da imprensa alternativa no Brasil, Raimundo faleceu aos 85 anos, no Rio de Janeiro
André Cintra/Vermelho     

O jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, um dos principais nomes da imprensa alternativa no Brasil, faleceu na manhã deste sábado (2/5), aos 85 anos, no Rio de Janeiro. Ele estava internado desde quinta-feira (30/4) e não resistiu às complicações de uma pneumonia. O corpo será cremado ainda nesta tarde.

Com sua morte, encerra-se uma trajetória que atravessa seis décadas de jornalismo, sempre em tensão com o poder e invariavelmente fora dos trilhos da grande mídia. Não por acaso, sua biografia, escrita em 2013 por Júlia Rabahie e Rafael Faustino, recebeu o título Contracorrente – A História de Raimundo Rodrigues Pereira.

“Das figuras que conheci e com quem convivi, nenhuma reunia simultaneamente doses tão imensas de inteligência, espírito empreendedor e resiliência quanto Raimundo Pereira”, afirma Walter Sorrentino, presidente da Fundação Maurício Grabois, ligada ao PCdoB. “Raimundo pôs tudo isso a serviço do pensamento da esquerda progressista, nacional e democrática, de modo militante.”

Segundo o dirigente, “o jornalismo independente foi sua vida, seu partido político e sua paixão. Com sua obra em RealidadeOpiniãoMovimento e Retratos do Brasil, ele foi protagonista em todos os acontecimentos marcantes do país por mais de 50 anos. Foi, sem dúvida, um dos maiores jornalistas da história brasileira”.

Infância e ITA

Raimundo nasceu em 8 de setembro de 1940, em Exu (PE) – a mesma cidade natal do “Rei do Baião”, Luiz Gonzaga. Mas sua ligação com o Nordeste durou pouco. Em 1942, o pai, Joaquim, mascate de profissão, e a mãe, Lindanora, pegaram os filhos e partiram rumo ao interior de São Paulo, em busca de terras mais fartas. A família – incluindo a ama de leite Maria Pedro, que amamentou e ajudou a criar Raimundo – passou por Córrego dos Macacos e Monte Serrat antes de se fixar em Pacaembu, a Cidade Paraíso.

Foi em Pacaembu que Raimundo, apelidado de “Lorinho”, cresceu dividido entre a escola (onde tirava dez em matemática) e o futebol, sua “coisa incrível”, como ele mesmo definia. Na mesma cidade, descobriu o gosto pela comunicação, narrando, aos 12 anos, jogos do time infantil pelo sistema de alto-falantes da cidade.

Aos 19, passou no vestibular do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), em São José dos Campos. Foi lá que o “Lorinho” comportado deu lugar a “Dana Key”, apelido inspirado no comediante norte-americano Danny Kaye. Raimundo fazia teatro de rua e escrevia artigos subversivos no jornal estudantil O Suplemento. Numa edição, simulou uma emenda constitucional propondo a extinção das Forças Armadas.

No ITA, Raimundo foi eleito para o Centro Acadêmico Santos Dumont e ajudou a articular a tentativa de filiação da escola à UNE (União Nacional dos Estudantes). Seus amigos da época, como Gilcio Martins e Ezequiel Dias, lembravam que o rapaz de pernas tortas e “jeito muito brincalhão” estava sempre dominando a cena.

O golpe militar de 1964 interrompeu seus planos. Em 8 de abril, Raimundo foi tirado da sala de aula, levado ao Dops em São Paulo e submetido a uma sessão de tortura psicológica. “Chegaram até a anunciar no jornal do sindicato que eu estava largando o jornalismo para fazer política”, contou Raimundo numa entrevista. Com a expulsão, deixaria o ITA para sempre, sem o diploma de engenheiro.

Na grande imprensa

A vida deu uma guinada. Em 1965, ainda se recuperando do trauma, Raimundo entrou na USP. Mudando de área, formou-se em Física e trabalhou como redator de revistas técnicas. Em 1968, foi chamado por Mino Carta para ser editor de Ciências da recém-lançada revista Veja.

Quando a publicação amargava baixas vendagens, usou sua formação científica para produzir uma série de reportagens sobre a corrida espacial. O homem chegou à Lua e ajudou a impulsionar a circulação da revista. O jornalista descrevia o lançamento do foguete Saturno V como uma aventura: “O Saturno V tremeu, amarrado ao solo por imensas braçadeiras que agarravam suas 3.000 toneladas, seus 121 metros de altura”.

No auge do prestígio, comandou a histórica edição especial “Amazônia” da revista Realidade, que lhe rendeu o Prêmio Esso em 1971. Mas algo o incomodava: a grande imprensa havia se acomodado à ditadura. Conforme escreveu mais tarde, na edição zero do jornal Movimento, as grandes empresas jornalísticas estavam “aferradas a grandes interesses econômicos”.

Era hora de fazer um jornal sem patrão. Ou melhor, de romper com a lógica da grande imprensa e mergulhar no que viria a ser sua marca definitiva: o jornalismo independente, crítico e militante. Raimundo queria ser dono do próprio instrumento de trabalho. A partir dos anos 1970, ele passa a criar praticamente todos os projetos em que atua, financiando-os com enorme dificuldade, mas preservando autonomia editorial.

Opinião e Movimento

Raimundo desconfiava da homogeneização da grande mídia e via no jornalismo uma ferramenta de interpretação da realidade a serviço da sociedade, especialmente dos trabalhadores. Essa escolha teve custos: projetos interrompidos, circulação irregular e dificuldades financeiras constantes. Mas também produziu um legado singular: uma obra vasta, construída fora das estruturas tradicionais.

É como lembra o jornalista Carlos Azevedo, ao comentar sua trajetória: “São montanhas de textos, jornais, livros, revistas que ele produziu ou comandou. Inacreditável como, além disso, autofinanciou seus projetos durante toda a jornada. Sempre na contracorrente, sempre vitorioso!”

Em 1972, Raimundo aceitou o convite do empresário Fernando Gasparian para dirigir o recém-lançado semanário Opinião. O jornal rapidamente se tornou um fenômeno, vendendo 38 mil exemplares e servindo de tribuna para nomes como Fernando Henrique Cardoso, Celso Furtado e Chico Buarque.

A relação com o patrão era tensa. Raimundo, de bermuda, enfrentava Gasparian, de terno. A gota d’água veio quando Gasparian se aliou à abertura política do governo Ernesto Geisel, e a redação, não. Em 1975, o jornalista foi demitido.

Sua resposta foi imediata: ao lado de parte da equipe, fundou Movimento, o “jornal dos jornalistas”. Financiado por cotas e apoiado por uma rede de colaboradores que ia do seringueiro Chico Mendes ao sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, o jornal se tornou uma das mais importantes trincheiras da imprensa de oposição.

O preço foi alto. Movimento foi censurado desde o primeiro número. Depois que a censura prévia caiu, em 1978, bancas de jornal foram incendiadas para impedir sua circulação. Raimundo reagia com denúncias e processos, além de uma cobertura incansável das greves do ABC, que ele próprio reportava de dentro das fábricas, burlando a proibição. Sua máxima era simples: “informar para conscientizar”.

A vida pessoal

Nem tudo, porém, era política. Contracorrente dedica um capítulo inteiro a um dos episódios mais dramáticos da vida de Raimundo: o relacionamento de sua irmã, Leonora, com Sérgio Paranhos Fleury, o delegado do Dops conhecido como um dos torturadores mais temidos do regime. Raimundo rompeu com a irmã quando soube do caso – e só voltou a vê-la no leito de morte dela, em 2002.

O livro também revela facetas bem-humoradas. Raimundo, que durante a ditadura dormia sobre uma mesa de trabalho com uma folha de papel no rosto (furada para respirar), também era um pai presente que ensinava as quatro filhas a separar fato de interpretação nas notícias. As meninas retribuíam com um jornal feito à mão, O Olhudo, que o pai relia orgulhoso.

Com a redemocratização, Raimundo tentou emplacar um jornal diário, Retrato do Brasil. Fracassou em três meses. “São tentativas desesperadas”, disse Mino Carta, fundador da Veja e parceiro de longa data de Raimundo, em depoimento ao livro. Para Carta, o jornal diário “é um absorvedor de dinheiro, uma coisa infernal”.

Mesmo assim, Raimundo não desistiu. Em 1997, fundou a Editora Manifesto e, nos anos seguintes, lançou a revista Reportagem e a segunda versão de Retrato do Brasil. Passou a sobreviver com contratos de publicidade de empresas estatais e com a ajuda de amigos. Cobriu o mensalão – e sustentou a tese de que o julgamento foi parcial. Defendeu Daniel Dantas contra o que considerava uma “conspiração da mídia”, o que lhe rendeu uma ruptura dolorosa com Mino Carta.

“A ditadura que nós vivemos de 1964 a 1985 era simples de ver. A ditadura sob a qual nós vivemos hoje, na imprensa, que é a ditadura do grande capital, é difícil de ver”, declarou Raimundo ao receber o Prêmio Especial Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, em 2013.

Relação com o PCdoB

Raimundo nunca se filiou a nenhum partido, apesar de ter ensaiado uma entrada no PCdoB no início dos anos 1990. Questionado certa vez pelo ex-ministro José Dirceu se tinha interesse em aderir a alguma legenda, respondeu com bom humor: “Todo mundo fala que eu sou do PCdoB, mas eu não gozo das vantagens de ser do PCdoB. Preciso resolver esse grande problema”.

Esteve sempre por perto, ajudando campanhas e formulando ideias. Raimundo apoiou inúmeras candidaturas comunistas, como as de Benedito Cintra, Jamil Murad e Orlando Silva. Em 1976, criou o slogan da campanha a vereador de Cintra, uma jovem liderança da região da Freguesia do Ó: “Sem direitos, sem feijão, é hora de oposição.” A frase sintetiza meio século de trabalho: olho na carestia, olho na liberdade, sem nunca perder o senso de oportunidade.

“O Raimundo Pereira morou por muito tempo na Freguesia do Ó e teve uma relação profícua com os movimentos políticos e sociais da região. Contribuiu muito com a luta democrática e popular de resistência à ditadura”, lembra Nivaldo Santana, secretário Sindical do PCdoB, que conheceu Raimundo na década de 1970.

“O jornal Movimento era distribuído em larga escala entre a militância. Além do jornal, vale destacar que um importante colaborador do semanário, Duarte Pereira, realizava cursos de formação marxista e deu valiosa contribuição para forjar uma legião de quadros políticos na região”, agrega Nivaldo.

Legado

Raimundo Rodrigues Pereira deixa quatro filhas, quatro netos e uma obra espalhada por dezenas de publicações, que compõem um dos retratos mais completos do Brasil da segunda metade do século 20. Fica a pergunta que ele próprio cultivava: o que leva um físico, expulso do ITA e prestes a se tornar uma estrela da grande imprensa, a largar tudo para fazer jornalismo de oposição “passando o chapéu”?

Para Raimundo, “jornalismo não é tecnologia”. A seu ver, a imprensa popular se faz “sem medo da verdade e sem omitir fatos relevantes”. Ele desenvolveu um método próprio, quase científico, de tratar a informação com precisão e desconfiança em relação aos enquadramentos dominantes. Carregou ao longo da vida o reconhecimento – inclusive de adversários – de ser “um dos mais competentes jornalistas brasileiros em toda a história”.

Mais do que seus textos, Raimundo deixa uma escola prática. Quem trabalhou com ele aprendeu um modo de fazer jornalismo. Vida e profissão se misturaram a ponto de se tornarem indistinguíveis. Ele pertence a uma geração que enfrentou a ditadura com papel, tinta e coragem, mas seu legado não se limita àquele período: atravessa a redemocratização e chega ao século 21 insistindo no jornalismo como ferramenta de compreensão do mundo.

Raimundo se foi. Mas o jornalismo que ele praticou – rigoroso, independente e desconfiado do poder – segue como necessidade. Em tempos de velocidade e superficialidade, talvez mais do que nunca.

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Escolhas e conflitos https://lucianosiqueira.blogspot.com/   

Palavra de poeta

redenção
Cida Pedrosa    

Não quero a redenção 
da dor, que retalha 
a alma do vizinho.
prefiro o açoite 
da insensatez, que expõe 
a chaga em flor 
e depõe sobre a loucura

[Ilustração: Kees van Dongen]

Leia também "Modinha", poema de Cecília Meireles https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/palavra-de-poeta_24.html 

Bolsa banqueiro x Bolsa família

A política de juros do Banco Central é um desastre
Juros altos mantêm intactas e até reforçam a bolsa-banqueiro e a bolsa-rentista, varrendo do mapa os efeitos distributivos da bolsa-família e de outros programas sociais.
Paulo Nogueira Batista Jr./Vermelho  
 

“Gabriel Galípolo é um traidor”, disparou Bresser-Pereira há poucos dias. Não iria tão longe, ainda tenho uma esperança (minguante) de que Galípolo possa reorientar a política monetária. Mas não há dúvida de que é imensa a frustração com o presidente e os diretores do Banco Central – tanto mais que todos eles foram nomeadas pelo presidente Lula

Que diferença fez a nova diretoria do Banco Central até agora? Pode ser que estejam preparando coisas importantíssimas nos bastidores, mas não se nota por enquanto nenhuma mudança expressiva em comparação com a gestão Roberto Campos Neto. Os juros continuam na lua, produzindo estragos consideráveis no país.

Antes de entrar no assunto, faço duas ressalvas rápidas. Primeira: Gabriel Galípolo é um quadro de valor, experiente (apesar de jovem) e conhecedor dos meandros do mercado financeiro. Os problemas que apontarei no artigo não decorrem de incompetência ou despreparo dele. Segunda ressalva: o Banco Central tem atribuições variadas: conduz a política monetária por meio da taxa básica de juros (a Selic); supervisiona e regula o sistema financeiro; administra a política cambial e as reservas internacionais do país; e cuida do sistema de pagamentos, entre outras atribuições. Vou tratar neste artigo apenas da primeira atribuição, a mais central e que chama mais atenção – a política de juros.

Bem. Nesse terreno, a política monetária comete um “erro grotesco”, como disse recentemente um participante do mercado financeiro em entrevista a um jornal. De fato, as taxas de juro no Brasil impressionam qualquer um. Há casos de outros países relevantes que tenham mantido juros reais na estratosfera por tanto tempo? Se existem, são raríssimos.

Apesar das duas reduções de 0,25 ponto percentual nas últimas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom), a Selic se situa em cerca de 10% a.a. em termos reais ex ante, isto é, quando a taxa nominal é deflacionada pelas projeções de inflação do Banco Central e do mercado. E, pior, os juros médios cobrados pelos bancos e outras instituições financeiras, na faixa livre de crédito, situam-se em torno de 35% a.a. em termos reais – 15% para pessoas jurídicas e nada menos que 52% para pessoas físicas! São taxas de juro para ninguém botar defeito. Destroem as finanças de famílias, de empresas e do próprio governo.

O quarto choque do petróleo

Há justificativas para manter os juros nesse nível? O argumento mais recente em favor de juros altos é o choque do petróleo decorrente da agressão ao Irã. É verdade que a guerra na Ásia Ocidental produz impacto substancial não só sobre as cotações do petróleo e seus derivados, mas também de outros produtos importantes, como gás natural, fertilizantes e alimentos. Esse impacto deve persistir, pois não há solução à vista que permita reabrir duradouramente o Estreito de Ormuz.

Não se deve perder de vista, entretanto, que o Brasil é um dos ganhadores com esse choque do petróleo, o quarto desde a década de 1970. Diferentemente do que se verificava na época dos primeiros choques, o Brasil não mais depende de importação de petróleo bruto. Ao contrário, estima-se que o Brasil tenha sido, em 2025, o sétimo maior exportador de petróleo bruto no mundo (em termos de volume) e o décimo maior (em termos de valor), graças notadamente à política de longo prazo da Petrobrás. E estamos entre os exportadores que não dependem do Estreito de Ormuz para escoar a sua produção para o exterior. Com a guerra, o Brasil sobe nesse ranking, ultrapassando provavelmente o Kuwait, o Iraque e os Emirados Árabes Unidos, países que dependem criticamente da passagem pelo Estreito e que sofreram, ademais, grandes danos à sua cap acidade de produção e infraestrutura de transporte em razão do contra-ataque do Irã à agressão sofrida da parte dos Estados Unidos e de Israel.

Ou seja, em consequência do choque do petróleo, aumentam não só os nossos preços médios de exportação como também as quantidades exportadas – com o Brasil substituindo exportadores da região do Golfo Pérsico. Os termos de troca e a balança comercial melhoram. E, com isso, diminui o déficit de balanço de pagamento em conta corrente, que está alto demais, chegando a 3% do PIB em 2025. Poucos alertam para esse problema, diga-se de passagem. Bresser-Pereira é uma das exceções. Um déficit em conta corrente tão elevado, somado à necessidade de refinanciar as amortizações da dívida externa, cria dependência de capitais estrangeiros – uma dependência que já nos fez passar por grandes dificuldades nas décadas finais do século XX.

Além de favorecer o balanço de pagamentos, o choque do petróleo ainda proporciona ganhos fiscais para o Brasil. O Instituto Fiscal Independente, do Senado, estimou que o resultado primário do setor público pode melhorar em algo como 0,6 ponto percentual do PIB em 2026, admitindo-se que o barril tipo Brent fique em torno de US$ 100. O impacto positivo projetado reflete, entre outros fatores, o aumento dos royalties, dos impostos sobre lucros e sobre a produção das petroleiras, além dos maiores dividendos pagos pela Petrobrás. Esse tipo de estimativa é sempre incerta, como se sabe, mas dá uma ideia do que se pode esperar.

Outro ponto fundamental para essa discussão: dados os efeitos positivos do choque do petróleo, que são percebidos e antecipados pelo mercado, o real tende a se apreciar em relação a outras moedas. Não é por acaso que a moeda brasileira está entre as que mais se valorizaram em 2026. Essa apreciação cambial, ressalte-se, amortece o impacto inflacionário do choque do petróleo.

Vejam bem, não estou negando que a alta dos preços externos do petróleo complica o controle da inflação, pois afeta preços importantes, notadamente derivados do petróleo, transporte e alimentos. O Brasil sofre de dependência excessiva de importações de diesel e, sobretudo, de fertilizantes, o que nos fragiliza.

Mesmo assim, esse impacto inflacionário, já atenuado pelo movimento do câmbio, pode ser compensado também por diversos instrumentos de que o governo dispõe, alguns dos quais já estão sendo acionados – entre eles, desoneração tributária sobre derivados do petróleo, tributação regulatória das exportações de petróleo bruto e derivados, fiscalização dos preços praticados no país e crédito subsidiado para setores mais afetados pelo choque. Importante notar que os efeitos positivos sobre o balanço de pagamentos e as contas governamentais abrem espaço para essas medidas compensatórias.

Por todos esses motivos, o argumento de que a crise internacional justifica a manutenção de juros estratosféricos é duvidoso, para dizer o mínimo – tanto mais que constitui uma forma ineficaz de neutralizar o choque por acarretar uma série de prejuízos econômicos e sociais, como veremos na sequência.

Expectativas de inflação “desancoradas”

O Banco Central alega que a expectativas de inflação estavam “desancoradas”, mesmo antes do choque externo, o que justificaria a política monetária superapertada. Com o choque, a mediana das expectativas de mercado para a variação do IPCA, apuradas pelo Banco Central, subiram para 4,9% em 2026 e 4% em 2027. As projeções do próprio Banco Central apontam para taxas um pouco inferiores, de 4,6% neste ano e 3,5% no ano que vem. Como se vê, as projeções superam, de fato, o centro da meta de inflação, que é 3% com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo. A inflação esperada para este ano situa-se, inclusive, ligeiramente acima do teto da meta.

Aqui cabem duas observações. Primeira: o Banco Central não estaria nessa posição desconfortável se não tivesse fixado, nos tempos do governo Temer, uma meta irrealista – justificada na época com o seguinte argumento altamente científico: se a Colômbia e o Chile têm uma meta de 3%, por que não o Brasil?

No início do atual governo, em 2023, o Conselho Monetário Nacional, presidido pelo ministro Haddad, poderia ter revisto a meta central para cima e ampliado um pouco o intervalo de confiança – movendo o centro da meta para, digamos, 3,5% ou 4% e aumentando o intervalo para +/-2 pontos percentuais. O teto para a inflação seria hoje de 5,5% ou 6%. Isso foi sugerido na época por vários economistas, inclusive eu mesmo. O próprio presidente Lula chegou a mencionar essa possibilidade em público. Mas faltou iniciativa da área econômica do governo, talvez por temor reverencial ao mercado financeiro, e ficamos amarrados a um regime de metas excessivamente ambicioso.

Segunda observação: mesmo com a meta atual, seria perfeitamente possível praticar uma política de juros menos extravagante, mirando por exemplo, sem declarar, o teto da meta de 4,5%. E se a inflação ficar um pouco acima disso, não será o fim do mundo.

Efeitos destrutivos dos juros altos

Moderação na comando da política monetária é essencial. Como ignorar os estragos que as taxas de juro estão fazendo no país?

Quem perde? Simples. As empresas que dependem de crédito interno, o governo por causa do efeito sobre o custo da dívida pública e, sobretudo, as pessoas físicas endividadas, como se vê pelos dados antes mencionados.

Quem ganha? Não há mistério. Quando aumentam as despesas financeiras das empresas e das famílias, o aumento vai para o bolso dos grandes bancos privados e de outras instituições financeiras. Quando aumentam as despesas financeiras do governo, ganham os bancos (de novo), os ricos e os super-ricos, ou seja, quem possui elevado patrimônio financeiro no país. E os juros altos alimentam também a renda dos investidores estrangeiros detentores de títulos públicos e outros ativos financeiros denominados em reais.

Não é à toa que a política de juros escorchantes faz tanto sucesso no mercado financeiro e na mídia tradicional (que se tornou um puxadinho desse mercado). E não é à toa que manter fielmente essa política ajuda a garantir um futuro brilhante no mercado para os que passam pela diretoria do Banco Central.

Para minorar os efeitos dessa porta giratória, seria preciso introduzir uma quarentena longa para presidentes e outros diretores do Banco Central. De dois anos, por exemplo. Nesse período, os diretores ficariam legalmente impedidos de se empregar em instituições financeiras ou prestar serviços de consultoria a elas. Atualmente, a quarentena no Brasil é de apenas seis meses, baixa para padrões internacionais, e nem parece ser devidamente fiscalizada.

Medidas rigorosas como uma quarentena longa e bem vigiada são recomendáveis, uma vez que o Banco Central é uma instituição poderosa, capaz de produzir efeitos de grande magnitude sobre a economia.

É gigantesco, por exemplo, o desajuste que o Banco Central produz nas finanças públicas no Brasil. Fala-se muito do déficit primário, mas nem sempre da carga de juros suportada pelo governo. O déficit primário do setor público consolidado anda por volta de 0,5% do PIB, em si mesmo nada de assustador. O problema é que o déficit nominal ou total está em torno 8,5% do PIB, refletindo a carga de juros da ordem de 8% do PIB. Ressalte-se que é esse déficit nominal elevado, e não o déficit primário, que determina o aumento do estoque da dívida governamental. E a pesada carga de juros decorre justamente do tamanho da dívida governamental conjugado com o seu custo médio, que é determinado, por sua vez, pelos juros do Banco Central.

A grande anomalia no Brasil é o custo da dívida, e não o seu tamanho. Diferentemente do que se espalha, o endividamento do setor público brasileiro não é muito elevado para padrões internacionais. O ponto fora da curva é a taxa de juro, sempre entre as mais altas do mundo.

Como se não bastasse, a política monetária ainda provoca um efeito rebote sobre as finanças públicas. Na medida em que restringe o crescimento da economia, ela gera aumentos nas despesas governamentais sensíveis ao nível de atividade (os gastos com o seguro-desemprego principalmente, mas também com o abono salarial e benefícios assistenciais). E mais importante do que o efeito sobre gastos: a retração da economia estreita a base sobre a qual incidem os tributos. Em outras palavras, a taxa de juro gera um efeito direto sobre o componente financeiro do déficit ao mesmo tempo em que prejudica o componente primário.

Não se deve esquecer que a desaceleração da atividade econômica é um objetivo deliberado da diretoria do Banco Central, que nela vê uma forma de combater a inflação pelo lado da demanda. No período 2022-2025, o PIB brasileiro cresceu cerca de 3% ao ano em média, um crescimento modesto. Para 2026 e 2027, refletindo nossos juros bizarros, as projeções do mercado brasileiro e do FMI indicam um crescimento de 2% ou menos, inferior ao da economia mundial – resultado maravilhoso para um economia que sofre há décadas de perda de dinamismo.

E há ainda uma outra dimensão. Os juros altos se encarregam fielmente de manter intactas e até reforçar a bolsa-banqueiro e a bolsa-rentista. O gasto financeiro do governo é renda do banqueiro e do rentista. Promove-se, assim, a concentração da renda nacional, varrendo do mapa os impactos distributivos da bolsa-família e de outros programas sociais. Isso num país que é um dos campeões mundiais da desigualdade.

Note-se, por último, que ao colocar fortunas na mãos de investidores estrangeiros e de elites locais apátridas, o Banco Central aumenta a vulnerabilidade externa do país, pois são esses os que têm capacidade de transferir fácil e rapidamente recursos ao exterior quando aumentam as incertezas no Brasil ou os juros no exterior. Essa facilidade só é possível porque houve uma liberalização prematura dos movimentos de capital, notável feito dos governos Fernando Henrique Cardoso e Fernando Collor. A fuga de capitais virou um instrumento de chantagem dos bancos, dos ricos e dos super-ricos sobre todo e qualquer governo brasileiro.

Como dizia Leonel Brizola (que falta ele faz!), a elite brasileira é um lixo.

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Dois projetos e dois Brasis em disputa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/financas-publicas.html

Arte é vida

 

Edvard Munch

Acontece https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Monopólio da atenção

Do Iluminismo ao algoritmo
A transição da expansão da consciência iluminista para a fragmentação digital revela como o monopólio da atenção sequestra a capacidade humana de abstração e reflexão profunda
Marcio Pochmann/A Terra é Redonda 

Se Karl Jaspers identificou na chamada “era axial” um momento de ruptura, em que diferentes civilizações produziram formas superiores de pensamento abstrato, reflexivo e universal, o século XXI parece apontar para um movimento inverso, com a reconfiguração regressiva das capacidades cognitivas sob a hegemonia das grandes plataformas digitais. Guardadas as devidas proporções históricas, trata-se de um processo que poderia sugerir uma espécie de nova forma de obscurecimento.

A era axial foi marcada pela emergência de figuras como Buda, Confúcio, Sócrates, Jesus Cristo e Maomé, associadas à ampliação do vocabulário humano e à formulação de categorias abstratas fundamentais, como ética, transcendência, razão e universalidade. Foi um salto qualitativo na capacidade humana de simbolizar, argumentar e refletir.

Com a Idade média eurasiana, o retrocesso obscurantista que se manifestou concentrado no saber nas instituições religiosas por dez séculos, coube ao Iluminismo colocar a razão, a crítica e a autonomia intelectual no centro da vida social. Ao defender o conhecimento científico, a liberdade de pensamento e a secularização do saber, o Iluminismo ampliou as bases da reflexão racional e da contestação das verdades impostas pela autoridade religiosa e política. Ainda que não tenha eliminado as formas de dominação, representou um avanço histórico decisivo ao afirmar a capacidade humana de compreender, explicar e transformar o mundo por meio do uso público da razão.

Hoje, sob o domínio quase monopolista das big techs, consolida-se uma nova infraestrutura do pensamento, baseada menos na expansão da consciência do que em sua captura e fragmentação. O que está em jogo não é apenas o conteúdo da informação, mas a própria forma de pensar.

Do monopólio da fé ao monopólio do algoritmo

Se, no passado, o obscurecimento esteve ligado ao monopólio religioso do saber, o presente digital revela um novo tipo de concentração, não mais a da verdade teológica, mas a da atenção e da mediação cognitiva. Os algoritmos não apenas distribuem informação, pois eles hierarquizam o que merece visibilidade, privilegiando conteúdos de alta circulação e baixa complexidade. Com isso, contribuem para formar um ambiente em que o vocabulário se simplifica, a escrita se torna mais funcional e imediata, e a abstração cede lugar à reação.

Essa é a transformação silenciosa da linguagem e, por consequência, da própria consciência. A linguagem não seria apenas instrumento de comunicação, mas a condição do pensamento abstrato. Quando o vocabulário se empobrece, reduzem-se também as possibilidades de conceituar e compreender o mundo.

George Orwell já alertava para esse problema ao criticar a degradação da linguagem política. Empobrecer as palavras é reduzir a capacidade de pensar criticamente. Na era digital, frases curtas substituem argumentos, imagens substituem conceitos e velocidade substitui reflexão.

O resultado não é ignorância no sentido clássico, mas algo mais profundo, como o enfraquecimento da capacidade de sustentar raciocínios complexos e encadeados. Filosofia, ciência e política dependem de tempo, silêncio e continuidade. No ambiente digital, ao contrário, predomina a interrupção permanente. Quanto maior a quantidade de informação disponível, menor tende a ser a capacidade de processá-la em profundidade.

Não se trata de falta de inteligência individual, mas de um ambiente que fragmenta sistematicamente a atenção, recompensa a superficialidade e penaliza o esforço cognitivo prolongado. O resultado é uma mudança na própria ecologia do pensamento. Por isso, a hipótese de redução do QI deve ser tratada com cautela, ainda que haja indícios de estagnação ou reversão em algumas sociedades.

Mais importante do que esse debate, porém, é reconhecer que estamos diante de uma mudança qualitativa, com menos memória interna e mais dependência externa, bem como menos leitura profunda e mais navegação superficial, menos argumentação e mais reação. A inteligência, assim, não desaparece, mas tem sido redirecionada para tarefas compatíveis com a lógica das plataformas.

Sob o capitalismo de plataforma, a regressão cognitiva

Esse processo não é acidental. Ele está inscrito no modelo de negócios das plataformas digitais, cujo objetivo central é maximizar tempo de permanência e engajamento. A simplificação cognitiva não é mero efeito colateral, mas um subproduto funcional de um sistema que transforma atenção em valor econômico.

Nesse sentido, a regressão da capacidade de abstração pode ser entendida como uma forma contemporânea de dominação estrutural. O controle já não se exerce principalmente pela censura, mas pela modulação dos padrões de pensamento. Se a Era Axial representou um momento de expansão da consciência humana, o desafio do século XXI talvez seja evitar sua contração.

A questão, portanto, não seria rejeitar a tecnologia, mas disputar as suas formas de organização e seus objetivos sociais. Isso exige reconstruir espaços de pensamento lento e profundo, revalorizar a linguagem como ferramenta crítica e submeter os sistemas algorítmicos ao controle democrático.

A era digital não inaugura uma nova Idade das trevas no sentido clássico. Ela produz algo mais sofisticado, como uma forma de obscurecimento que opera não pela falta de informação, mas, sobretudo, por seu excesso desestruturado. Não se trata da proibição do pensamento, mas de a sua dispersão.

Se Karl Jaspers identificou na história momentos de elevação da consciência, o presente obriga a perguntar se não está diante do risco de sua negação. A questão não é apenas técnica. É política. E, sobretudo, urgente.

*Marcio Pochmannprofessor titular de economia na Unicamp, é o atual presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Autor entre outros livros de Novo sujeito coletivo: a governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil (Editora da Unicamp). [https://amzn.to/40lMNWU]

Referências


CARR, N. A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros. Rio de Janeiro: Agir, 2011.

HAN, B. No enxame: perspectivas do digital. Petrópolis: Vozes, 2018.

JASPERS, K. Origem e meta da história. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

KAHNEMAN, D. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

ORWELL, G. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

POSTMAN, N. Divertindo-nos até a morte. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

ZUBOFF, S. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.

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Guerra "cirúrgica"?

O mito dos bombardeios libertadores
“Ataques cirúrgicos”, caças guiados por satélite, mísseis cheios de tecnologia… A guerra por bombardeios aéreos, à primeira vista tão simples e controlada quanto um videogame, permitiria atingir com eficiência objetivos estratégicos, preservando a vida das tropas. No entanto, a história mostra os problemas desse tipo de método
Mathias Delori*/Le Monde Diplomatique   
 

Israel e os Estados Unidos afirmam perseguir dois objetivos ao conduzir uma guerra aérea contra o Irã: destruir o programa nuclear de Teerã e provocar uma mudança de regime. A história, no entanto, mostra os limites práticos e éticos desse tipo de estratégia. A escolha por bombardeios aéreos decorre em geral menos de uma reflexão sobre o melhor meio de atingir um objetivo e mais de uma preocupação prática: não expor as próprias tropas. Esse raciocínio não é novo. Ao longo dos anos 1910, com os exércitos de países como França e Reino Unido sofrendo pesadas perdas em suas colônias, os bombardeios por aviões lhes pareceram um meio de “pacificar” esses territórios limitando a exposição de seus combatentes.

Esse cálculo desconsidera um dado essencial: os bombardeios aéreos provocam mais mortes de civis inocentes do que os deslocamentos de tropas terrestres. O historiador David E. Omissi relata assim o dilema de um oficial britânico no Iraque, antes da Segunda Guerra Mundial: “O desencanto de Lionel Charlton com os bombardeios punitivos começou quando ele foi a Diwaniya, visitou o hospital local e viu vítimas dos bombardeiros britânicos se recuperando de seus ferimentos. […] Atormentado por seu desejo contraditório de condenar os métodos […] e de seguir uma carreira na Força Aérea, ele […] pediu para ser afastado de seu posto”.[1]

Quando o objetivo é incitar uma população a não apoiar um grupo ou um regime inimigo, ou a se rebelar contra ele, a “transferência de risco”[2] para os civis não é apenas um problema ético, mas também estratégico. Isso ficou claro quando essa estratégia foi aplicada contra o que então se chamava de “nações civilizadas”. “Os bombardeados se unem automaticamente em um ódio e um terror comuns diante do inimigo invisível”,[3] observou o psicólogo Erich Benjamin Strauss depois de estudar as reações das populações aos ataques ítalo-alemães a Barcelona em março de 1938. A mesma co nstatação valeu para os ataques nazistas durante a batalha da Inglaterra, em 1940.[4]

Isso não impediu o Reino Unido e os Estados Unidos de travarem contra a Alemanha uma guerra aérea de intensidade dez vezes superior, em toneladas de bombas e em número de civis mortos, em comparação com aquela ocorrida na Inglaterra. Já em 1943, porém, acadêmicos norte-americanos concluíram em um relatório que “nenhum elemento permite concluir que os bombardeios britânicos e norte-americanos das cidades alemãs tenham efetivamente enfraquecido a influência do governo nazista sobre a população”.[5]

Ainda assim, o comando aliado decidiu dobrar a aposta. Entre 1944 e 1945, as cidades alemãs receberam mais de 1 milhão de toneladas de bombas, contra 250 mil nos três anos anteriores. Sem que os civis se revoltassem contra o regime. Pior: “Os ataques aéreos ajudaram [o ministro do Armamento Albert] Speer”, constatou o economista John K. Galbraith, autor de uma avaliação sobre o assunto em 1945. “O estresse gerado pelos ataques aéreos lhe permitiu mobilizar as energias da população.”[6] Apesar desse alerta mais uma vez ignorado, os Estados Unidos aplicaram a mesma estratégia ao Japão. Na avaliação do historiador Sheldon Garon, a destruição de Tóquio e de dezenas de outras cidades na primeira metade de 1945 deu um golpe decisivo na produç& atilde;o de guerra inimiga, mas outros fatores também pesaram na rendição: o bloqueio naval, a entrada da União Soviética na guerra e, segundo alguns analistas, as duas explosões nucleares de agosto de 1945.[7]

A maioria dos especialistas concorda quanto à ineficiência estratégica dos bombardeios na Coreia, nos anos 1950. Isso não desanimou os partidários desse modo de fazer a guerra, que voltaram a usá-lo no Vietnã, no Camboja e no Laos, nas décadas de 1960 e 1970, com o único resultado concreto de matar milhões de civis.[8] Um elemento contribui para legitimar a sobrevivência das ilusões em torno dessa estratégia: a tecnologia. A partir dos anos 1990, a generalização de dois novos instrumentos – as armas guiadas e os softwares de estimativa dos danos colaterais – passou a fornecer argumentos aos defensores das guerras aéreas. Essas tecnologias são apresentadas como “morais”, porque permitiriam cumprir o direito de guerra ao visar apenas alvos apresentados como combatentes e ao garantir que os “danos colaterais” sejam proporcionais ao efeito militar almejado. Essa maneira de conduzir os combates constituiria um progresso em relação ao que o cientista político Martin Shaw chama de “antiga maneira ocidental de fazer a guerra”:[9] a do tapete de bombas. Para tomar um exemplo entre outros, a associação Airwars estima em cerca de 10 mil o número de civis iraquianos e sírios mortos pelos bombardeios norte-americanos, britânicos e franceses contra a Organização do Estado Islâmico (OEI) entre 2014 e 2018.[10] Em 1944-1945, os ataques aliados contra cidades de porte médio produziam esse saldo humano em dois dias.
 

®Dezenas de civis mortos para neutralizar um militante

É importante, no entanto, sublinhar que a menor letalidade das guerras aéreas dos anos 1990-2010 não as tornou mais estratégicas. Ao atingirem grupos que não dispõem de sistemas de defesa antiaérea (Al-Qaeda, OEI), elas deixam a estes últimos apenas duas opções: não responder ou atacar os civis dos países autores dos ataques. Nesse sentido, produziram não uma, mas duas “transferências de risco”: a primeira, dos combatentes dos países atacantes para os civis dos países bombardeados; e a segunda, para os civis dos países que bombardeiam. Os atentados que ensanguentaram a França a partir de 2015 ilustram esse fenômeno.

Além disso, cabe perguntar se a chegada da inteligência artificial (IA) não constitui um retorno assustador ao passado. Em Gaza, em 2023-2024, Israel se apoiou nessa nova tecnologia para identificar o máximo possível de alvos ditos “combatentes” (na maioria das vezes, supostos militantes do Hamas). Em seguida, o comando militar apresentou o argumento (jurídico) de que seria aceitável matar dezenas de civis para neutralizar um militante. Com isso, Tel Aviv produziu uma violência comparável aos maiores bombardeios da história,[11] ao mesmo tempo que deu a essa ação uma fachada liberal – da qual seus representantes se valeram diante da Corte Internacional de Justiça no processo em curso aberto pela ação movida pela África do Sul por violaç&atild e;o da Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio. Os objetivos de Israel e dos Estados Unidos no Irã são visivelmente diferentes, mas os dois países reconheceram usar a IA em seus softwares de direcionamento de bombardeios. Essa guerra já teria deixado mais de mil civis mortos em apenas duas semanas.

*Mathias Delori é pesquisador do Centro de Pesquisas Internacionais (Ceri) e autor de La Guerre contre le terrorisme comme rivalité mimétique [A guerra contra o terrorismo como rivalidade mimética], Peter Lang, Paris-Bruxelas, 2025.

[1] David E. Omissi, Air Power and Colonial ControlThe Royal Air Force 1919-1939 [Poder aéreo e controle colonial. A Força Aérea Real 1919-1939], Nova York, Saint Martin’s Press, 1990.

[2] Martin Shaw, The New Western Way of WarRisk-Transfer and Its Crisis in Irak [O novo modo ocidental de fazer a guerra. Transferência de risco e sua crise no Iraque], Polity Press, Cambridge, 2006.

[3] Eric Benjamin Strauss, “The psychological effects of bombing” [Os efeitos psicológicos dos bombardeios], The Royal Services Institution Journal, v.84, n.534, Londres, 1939.

[4] Ian Burney, “War on fear. Solly Zuckerman and civilian nerve in the Second World War” [Guerra ao medo. Solly Zuckerman e a resistência civil na Segunda Guerra Mundial], History of the Human Sciences, v.25, n.5, Londres, 2021.

[5] Gian P. Gentile, How Effective is Strategic Bombing? Lessons learned from World War II to Kosovo [Quão eficaz é o bombardeio estratégico? Lições aprendidas da Segunda Guerra Mundial ao Kosovo], New York University Press, 2001.

[6] The United States Strategic Bombing Survey. The Effects of Strategic Bombing on the German War Economy [Levantamento estratégico de bombardeio dos Estados Unidos. Os efeitos do bombardeio estratégico sobre a economia de guerra alemã], Washington, DC, 1945.

[7] Ver Kai Bird, “Fallait-il lancer la bombe sur Hiroshima?” [Era preciso lançar a bomba sobre Hiroshima?], Le Monde Diplomatique, ago. 1995.

[8] Thomas Hippler, Le Gouvernement du cielHistoire globale des bombardements aériens [O governo do céu. História global dos bombardeios aéreos], Les Prairies ordinaires, Paris, 2014.

[9] Martin Shaw, op. cit.

[10] “Reported civilian deaths from US-led coalition strikes in Iraq and Syria” [Mortes civis relatadas decorrentes dos ataques da coalizão liderada pelos Estados Unidos no Iraque e na Síria], 29 set. 2022, https://airwars.org.

[11] Michael Spagat et al., “Violent and non-violent death tolls for the Gaza conflict” [Totais de mortes violentas e não violentas no conflito em Gaza], The Lancet Global Health, v.14, n.4, Londres, abr. 2026.

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