31 agosto 2026

Postei nas redes

Mídia neoliberal agora reconhece juros altos por tempo prolongado como fator de crise e recuperação judicial de grandes empresas do varejo. Quanta hipocrisia!

Mulheres ocupam 57,4% dos empregos formais no 3º governo Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/boa-noticia_0729037115.html 

Terras raras

Do urânio ao nióbio, as lições para o Brasil das terras raras
Apesar dos expressivos recursos, país carece de ecossistema que articule universidades, governo e agentes financeiros. Desafio é construir um marco que estimule a produção mineral e induza a internalização de capacidades tecnológicas
Anderson Gomes, Celso Pinto de Melo, Cid Bartolomeu de Araújo, Sergio Machado Rezende/Folha de S. Paulo  

Após a Segunda Guerra Mundial, o Brasil voltou-se ao uso pacífico da energia nuclear, impulsionado por cientistas como Cesar Lattes, Mário Schenberg e José Leite Lopes, além do almirante Álvaro Alberto, atentos ao valor estratégico da areia monazítica do litoral do Espírito Santo e da Bahia. Em 1946, o governo Dutra criou a Comissão de Energia Atômica, embrião da atual Cnen (Comissão Nacional de Energia Nuclear), para estudar e controlar os "minerais atômicos".

Logo surgiram dificuldades. EUA e Reino Unido pressionaram o Brasil pelo acesso à monazita, largamente exportada sem contrapartida tecnológica —parte dela levada como "lastro" de navios cargueiros, sem autorização. A experiência contribuiu para a criação do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), em 1951, e consolidou a percepção de que independência científica e tecnológica é condição de soberania. Nos anos seguintes, o país criou o Instituto de Energia Atômica e construiu o reator IEA-R1.

Nos anos 1970, o programa nuclear ganhou nova escala. Angra 1 foi implantada com tecnologia Westinghouse e combustível importado. O Acordo Nuclear Brasil–Alemanha, de 1975, previa oito usinas e transferência de tecnologia, mas pressões externas, dificuldades econômicas e limitações da tecnologia negociada frustraram grande parte dos seus objetivos.

Em resposta à dependência estrangeira, a Marinha iniciou, em 1979, um programa para dominar o ciclo do combustível nuclear. Em Aramar (SP), sob a liderança de Othon Luiz Pinheiro da Silva, desenvolveu-se a tecnologia de ultracentrifugação de urânio. Hoje, a INB atua da mineração em Caetité (BA) ao enriquecimento em Resende (RJ), e a implantação da conversão em UF₆ permitirá concluir o domínio completo do ciclo do combustível nuclear.

Outro caso de sucesso está no nióbio, do qual o Brasil detém cerca de três quartos das reservas mundiais. Em Araxá (MG), a CBMM (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração) desenvolveu, ao longo de décadas e em colaboração com universidades, competências que vão da mineração e do beneficiamento à metalurgia, à engenharia de processos, ao P&D ("pesquisa e desenvolvimento") e ao desenvolvimento de aplicações. Essa acumulação de conhecimento permitiu ao país alcançar uma posição de liderança mundial não apenas na produção, mas também na tecnologia associada a esse mineral estratégico.

Urânio e nióbio mostram que o Brasil dispõe de capacidade científica, tecnológica e empresarial para extrair de seus recursos mais do que renda mineral. A questão reaparece agora nas terras raras —17 elementos essenciais a turbinas eólicas, motores elétricos, fibras ópticas, sistemas de defesa e equipamentos médicos. Apesar de seus expressivos recursos, o país ainda carece de um ecossistema que articule universidades, centros de pesquisa, governo, agentes financeiros e empresas, avançando da mineração e separação ao refino, à metalurgia e aos dispositivos de alta tecnologia.

Nesse contexto, o projeto de lei 2.780/2024, aprovado pela Câmara e atualmente no Senado, constitui avanço importante. Ao instituir uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, procura estimular a pesquisa, o beneficiamento, a transformação e a agregação de valor e prevê uma instância nacional de coordenação vinculada à Presidência da República. Porém, o PL precisa ser melhorado, pois como está não estabelece obrigações suficientes para forçar o processamento dos minerais antes de exportá-los.

O desafio do Congresso Nacional é construir um marco que estimule a produção mineral e induza, progressivamente, a internalização de capacidades tecnológicas. Para as cadeias estratégicas, isso requer metas de agregação de valor e domínio nacional de processos, engenharia, equipamentos críticos, fornecedores e recursos humanos, associadas a financiamento, incentivos e compromissos verificáveis.

É igualmente necessário articular governo, empresas, universidades, institutos de pesquisa e agentes financeiros em torno de missões, metas e indicadores. O objetivo deve ser transformar a vantagem geológica brasileira não apenas em produção e renda mineral, mas também em conhecimento, capacidade industrial e domínio tecnológico duradouros.

Lula garante recursos para submarino nuclear https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/submarino-nuclear-em-destaque.html

Minha opinião

Na prática, a teoria importa
Luciano Siqueira    

Na prática, a teoria é outra? Ou prática consequente há que se apoiar na teoria?

A teoria científica desempenha um papel fundamental em todas as áreas do conhecimento, proporcionando referências conceituais para a compreensão do mundo. A exemplo do legado de Marx e Engels.

Nas ciências naturais, impulsiona descobertas e inovações, cada vez mais “em tempo real”, tal o avanço da pesquisa em todas as áreas.

Entretanto, quanta bobagem se diz com ares de cientificamente fundamentado!

O complexo midiático dominante defende a todo instante “teorias” econômicas cujo proposito é justificar o predomínio, sob múltiplas formas, do capital financeiro.

Muitas vezes manchetes sensacionalistas ou a busca por audiência podem levar a simplificações excessivas ou distorções de estudos científicos, comprometendo a precisão e a integridade das informações transmitidas. Pode contribuir para a disseminação de desinformação e a formação de opiniões inadequadas.

É fundamental cultivar o pensamento crítico ao consumir notícias, priorizando fontes confiáveis e avaliando cuidadosamente a validade científica por trás das afirmações apresentadas.

E a dúvida é sempre um bom ponto de referência.

Leia também "Tecnologia: não confunda a minha cabeça" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/uma-cronica-de-abraham-sicsu.html 

Postei nas redes

O balanço das manifestações pró e contra candidatos à Presidência da República nas redes digitais sobre a sabatina da TV Globo é contaminado pela imensa bateria de postagens contratadas.

Guerra híbrida midiática https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/dica-de-leitura_0865126294.html 

30 agosto 2026

Minha opinião

Tudo para entender ou confundir
Luciano Siqueira     

Estima-se que já foram gastos este ano R$ 109 milhões em pesquisas eleitorais com foco nacional e, a maioria delas, voltadas para a disputa majoritária nos Estados. 

As pesquisas são úteis, mas não o suficiente para justificarem o destaque quase que monárquico que alcançam na mídia dominante. 

Como se fosse a última palavra na percepção da vontade coletiva. 

O comportamento humano não se resume em questionários e estatísticas.

Requer vivência. 

Certamente era nisso que se apoiava Miguel Arraes quando ele próprio valorizava ao extremo a ausculta da população. 

Até repórteres ele incluía. 

Não foram poucos os que tentaram entrevistá-lo e depois se deram conta de que o governador é que os havia perguntado mais do que falara.

A supervalorização das pesquisas realizadas por várias institutos especializados de grande repercussão midiática, outros nem tanto, é compreensível quando feita pelo mercado — que em tudo toca à semelhança do rei Midas. 

Mas o militante, não. Há que tomar ciência dos números divulgados pelos institutos sem porém abrir mão da sua própria sondagem. Esta se faz no contato direto com as pessoas — compartilhando insatisfações, desejos, sonhos... que afinal haverão de se traduzir na urna como vontade política individual, uma entre milhões, base da vitória de uns e da derrota de muitos outros. 

Em outras palavras: prestemos atenção aos números das pesquisas, porém sem mais abrir mão do contato direto com as pessoas — na tela do celular e, sobretudo, olhos nos olhos, em toda parte.

Prazeroso diálogo na telinha https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_0215026545.html 

Fotografia

 

Henri Cartier-Bresson 

Prazeroso diálogo na telinha https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_0215026545.html 

Palavra de poeta

Canção do amor armado
Thiago de Mello      

Vinha a manhã no vento do verão,
e de repente aconteceu.
Melhor
é não contar quem foi nem como foi,
porque outra história vem, que vai ficar.
Foi hoje e foi aqui, no chão da pátria,
onde o voto, secreto como o beijo
no começo do amor, e universal
como o pássaro voando — sempre o voto
era um direito e era um dever sagrado.

De repente deixou de ser sagrado,
de repente deixou de ser direito,
de repente deixou de ser, o voto.
Deixou de ser completamente tudo.
Deixou de ser encontro e ser caminho,
deixou de ser dever e de ser cívico,
deixou de ser apaixonado e belo
e deixou de ser arma — de ser a arma,
porque o voto deixou de ser do povo.

Deixou de ser do povo e não sucede,
e não sucedeu nada, porém nada?

De repente não sucede.
Ninguém sabe nunca o tempo
que o povo tem de cantar.
Mas canta mesmo é no fim.
Só porque não tem mais voto,
o povo não é por isso
que vai deixar de cantar,
nem vai deixar de ser povo.

Pode ter perdido o voto,
que era sua arma e poder.
Mas não perdeu seu dever
nem seu direito de povo,
que é o de ter sempre sua arma,
sempre ao alcance da mão.

De canto e de paz é o povo,
quando tem arma que guarda
a alegria do seu pão.
Se não é mais a do voto,
que foi tirada à traição,
outra há de ser, e qual seja
não custa o povo a saber,
ninguém nunca sabe o tempo
que o povo tem de chegar.

O povo sabe, eu não sei.
Sei somente que é um dever,
somente sei que é um direito.
Agora sim que é sagrado:
cada qual tenha sua arma
para quando a vez chegar
de defender, mais que a vida,
a canção dentro da vida,
para defender a chama
de liberdade acendida
no fundo do coração.

Cada qual que tenha a sua,
qualquer arma, nem que seja
algo assim leve e inocente
como este poema em que canta
voz de povo — um simples canto
de amor.
Mas de amor armado.

Que é o mesmo amor. Só que agora
que não tem voto, amor canta
no tom que seja preciso
sempre que for na defesa
do seu direito de amar.

O povo, não é por isso
que vai deixar de cantar.

[Ilustração: João Câmara]

Leia também: "Homem comum", poema de Ferreira Gullar https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-de-poeta_01601986954.html