18 outubro 2026

Em defesa da democracia

Manifesto pró-Lula une centro e direita contra ameaças bolsonaristas

Grupo de intelectuais, economistas e ex-ministros vê em Flávio Bolsonaro risco de retrocessos institucionais, sociais e na política externa
Cezar Xavier/Vermelho       

Um grupo de intelectuais, economistas, acadêmicos, ex-ministros e personalidades de diferentes trajetórias políticas, inclusive de centro-direita, declarou neste sábado (17) apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O manifesto, intitulado “Pela democracia, pela estabilidade, pelo desenvolvimento com justiça social e ambiental e pelo Brasil”, aponta na candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) riscos de retrocessos institucionais e sociais.

A declaração foi apresentada durante o “Encontro pela democracia, pela estabilidade, pela justiça socioambiental e pelo Brasil”, realizado no Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados e Tecnologia da Informação de São Paulo, na região de Santa Cecília. Participaram do encontro o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e os ex-ministros Fernando Haddad (Fazenda), Marina Silva (Meio Ambiente) e Simone Tebet (Planejamento).

Entre os quinze signatários estão quatro ex-ministros dos governos de Fernando Henrique Cardoso, adversário histórico de Lula, além de nomes como o ex-ministro da Justiça Miguel Reale Jr., que participou do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, e o ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero. O manifesto ainda é assinado por Aloysio Nunes Ferreira, Beatriz Bracher, Beatriz Cardoso, Carlos Nobre, Claudia Costin, Eduardo Giannetti, Fabio Feldman, Floriano Pesaro, José Carlos Carvalho, José Carlos Dias, Izabella Teixeira, Rosiska Darcy de Oliveira e Oscar Vilhena.

A democracia acima das diferenças partidárias

O manifesto sustenta que a eleição deste segundo turno ultrapassa as divergências partidárias e ideológicas. Para os signatários, a reeleição de Lula oferece melhores condições para preservar o equilíbrio entre os Poderes, as liberdades democráticas e os canais de diálogo na sociedade e no cenário internacional.

“Consideramos que a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva oferece ao país melhores condições para assegurar esse equilíbrio institucional, preservar direitos e liberdades, manter canais de diálogo entre diferentes setores da sociedade”, afirma o documento.

Em contraposição, o grupo identifica no projeto representado por Flávio Bolsonaro “ameaças a esses princípios”, além de intenções de desarticular conquistas sociais consolidadas e riscos à interlocução internacional multilateral construída pelo Brasil.

A crítica é especialmente significativa por partir de um grupo que reúne nomes que não se identificam com a esquerda e que mantêm diferenças com o governo Lula.

“Não é um apoio irrestrito a Lula”

Os signatários fazem questão de registrar que o apoio eleitoral não significa adesão integral ao governo. O manifesto afirma que muitos dos participantes mantêm críticas ao presidente e preservarão a independência para continuar expressando suas divergências.

“É justamente por valorizarmos o pluralismo que fazemos esta escolha”, afirma o texto. “Antes de apoio a um nome, esta manifestação é de apoio ao Brasil, ao nosso espaço nacional e aos seus valores fundamentais comuns.”

O argumento desloca a disputa eleitoral para além da polarização entre esquerda e direita e apresenta a reeleição de Lula como uma escolha em defesa das instituições democráticas e de um projeto nacional de desenvolvimento.

Desenvolvimento, emprego e soberania

O documento também estabelece uma agenda econômica e social. O grupo defende crescimento econômico, geração de empregos, recuperação da capacidade industrial, inovação, agricultura de baixo carbono, educação, ciência e tecnologia.

A preservação ambiental aparece associada à própria soberania nacional. Florestas, recursos hídricos, biodiversidade e minerais estratégicos são apresentados como riquezas que devem contribuir para o desenvolvimento brasileiro, mas com uso responsável e compromisso com as futuras gerações.

Na área institucional, os signatários defendem respeito à diversidade e aos direitos fundamentais. Também rejeitam a transformação de adversários políticos, instituições públicas, universidades, imprensa e organizações da sociedade civil em “inimigos”.

“Uma medida civilizatória”

Antes do encontro, Alckmin afirmou que os participantes estavam mobilizados em defesa da democracia, da Constituição e de um projeto de desenvolvimento capaz de combinar crescimento e distribuição de renda.

“Não queremos o Brasil indo para a recessão, para o desemprego, para o fechamento de empresas. Queremos economia crescendo, distribuindo renda”, afirmou.

Depois da reunião, o vice-presidente resumiu sua avaliação sobre a escolha eleitoral: “A reeleição do presidente Lula é uma medida civilizatória”.

Marina Silva também destacou o caráter mais amplo da mobilização. “Há uma profusão de movimentos pró-Lula acontecendo nesse país para virar voto. É um grupo de pessoas que são do campo democrático, mas não são necessariamente dos partidos de esquerda e que estão aqui”, afirmou.

Paralelamente, um grupo de evangélicos realizava outra reunião em defesa da reeleição de Lula, ampliando o movimento de setores da sociedade que buscam ultrapassar as fronteiras tradicionais do campo político na disputa do segundo turno.

Leia o manifesto na íntegra:

“Neste segundo turno, o Brasil está diante de uma escolha que ultrapassa diferenças partidárias e preferências ideológicas. Está em jogo a capacidade do país de preservar a estabilidade institucional, o equilíbrio entre os Poderes, as liberdades democráticas; de enfrentar a crise climática, cuidar de nossos biomas, dos povos indígenas, das comunidades tradicionais e de toda a população sacrificada pela acentuada desigualdade social. Está em risco um caminho capaz de levar ao desenvolvimento econômico com justiça social, soberania e paz.

Nós, que temos distintas origens, trajetórias e visões sobre muitos dos desafios nacionais, entendemos que, sobretudo nos momentos de maior polarização, a democracia é o nosso norte comum, e ela exige responsabilidade, respeito às instituições e compromisso inequívoco com a Constituição.

Consideramos que a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva oferece ao país melhores condições para assegurar esse equilíbrio institucional, preservar direitos e liberdades, manter canais de diálogo entre diferentes setores da sociedade e com espaço geopolítico global, e evitar retrocessos institucionais, preservando conquistas sociais, trabalhistas, educacionais, na saúde pública e na proteção ambiental. Ao mesmo tempo vemos, no projeto representado por Flávio Bolsonaro, ameaças a esses princípios, intenções de desarticular patamares de conquistas sociais já consolidados e riscos à interlocução internacional multilateral consagrada pelo Brasil.

O Brasil precisa crescer, gerar empregos, estimular a inovação, recuperar sua capacidade industrial, estimular a agricultura de baixo carbono, avançar na educação, criar oportunidades para seus cidadãos e corrigir erros, onde isso se fizer necessário. Esse desenvolvimento deve estar associado à estabilidade econômica, à ciência, à tecnologia e à responsabilidade ambiental, com a preservação de nossas riquezas naturais. Florestas, água, biodiversidade e minerais estratégicos são parte da soberania brasileira e devem contribuir para o desenvolvimento do país, com uso responsável desses recursos e compromisso com as futuras gerações.

Também consideramos indispensável que o próximo governo respeite a diversidade da sociedade brasileira, proteja direitos fundamentais, sem transformar adversários políticos, instituições públicas, universidades, imprensa ou organizações da sociedade civil em inimigos.

Muitos de nós temos diferenças com o presidente Lula e críticas a seu governo, e preservaremos nossa independência para expressá-las. É justamente por valorizarmos o pluralismo que fazemos esta escolha. Antes de apoio a um nome, esta manifestação é de apoio ao Brasil, ao nosso espaço nacional e aos seus valores fundamentais comuns.”

Duas coisas da campanha de agora https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0613695841.html 

Contra a democracia

Flávio Bolsonaro é o filho do Riocentro. Nascido no dia do atentado que tentou parar a redemocratização, candidato do PL tem longo histórico de defesa do golpe e da ditadura militar – escreve Bernardo Mello Franco n’O Globo.  

Sua mensagem em vídeo importa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_01459560701.html 

Arte é vida

Henrique Pichardo

Ganhos do povo sob bombardeio midiático https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_01555616586.html 

Palavra de poeta

VÉU DE PIRILAMPO
Virginia Leal      

E eu coloquei meus óculos escuros
contra a mediocridade dos neons
contra a agressão das almas monstruosas
e a crueldade oculta nas manhãs
— na penumbra amnésica anteparo
o cotidiano fogo dos dragões.

E eu ajustei meus óculos escuros
mas vi gente comendo carne humana
crianças assaltando à mão armada
cheirando cola ou sendo trucidadas
enquanto os vaidosos declamavam
a sua dor tão dicionarizada.

[Iustração: Miguel Ángel Blinchón Bujes]

"Soletrando no escuro a tua voz", poema de Jaci Bezerra https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/palavra-de-poeta_010771146.html  

Esperança nas ruas

Os corpos de uma democracia 
Brasileiros tomam as ruas e mostram que a luta pela dignidade é um movimento de massa
Jamil Chade/Liberta      

Nos últimos dias, viralizou uma cena da elite carioca que, do balcão do decadente Copacabana Palace, mandava beijos e fazia gestos, provocando a multidão que saía em defesa da democracia. Com os dedos, aquelas pessoas faziam os números da candidatura de Flávio Bolsonaro. Com a alma, zombavam de trabalhadores e de seus sonhos.

Resguardados pela distância, pela certeza da impunidade e pela falta de sensibilidade, reafirmavam que daquele palácio ninguém as tiraria. Mandavam beijos e adeus aos que jamais conseguirão ter acesso à corte. Um retrato perfeito de um Brasil aristocrata e colonial.

Mas as ruas parecem não ter se intimidado. Em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Brasília e em tantos outros pontos do país, milhões de brasileiros entenderam que não se trata apenas de mais uma eleição. Estamos diante de uma decisão que vai definir quem somos. Um voto que vai traçar o destino da República.

De forma espontânea ou em dezenas de comitês organizados pelo país, uma parcela do país decidiu ocupar o espaço e o debate público com seus corpos. Corpos jovens. O resultado foi o maior movimento progressista desde a campanha das Diretas Já, nos anos 80.

Em Origens do Totalitarismo, Hannah Arendt explicou:

“Os movimentos totalitários são organizações de massa compostas por indivíduos atomizados e isolados. Em comparação com todos os outros partidos e movimentos, sua característica externa mais marcante é a exigência de lealdade total, irrestrita, incondicional e inalterável por parte de cada membro. Essa exigência é feita pelos líderes dos movimentos totalitários mesmo antes de assumirem o poder. Ela geralmente precede a organização total do país sob seu domínio efetivo e decorre da pretensão de suas ideologias de que sua organização venha a abranger, oportunamente, toda a humanidade.”

Em 2026, o Brasil está mostrando que a defesa da democracia também pode ser um movimento de massa. Mas, ao contrário do totalitarismo, o que vemos não são indivíduos atomizados.

Na defesa da democracia brasileira, aquilombar-se parece ser o caminho escolhido. Ou, como diria Conceição Evaristo, “é tempo de formar novos quilombos, em qualquer lugar que estejamos”.

As ruas sabem que, diante de nós, em poucos dias, estará mais uma vez uma encruzilhada. Nas urnas estará uma pergunta tão simples quanto poderosa: quem somos? Somos o negacionismo, o ódio, a mentira, a misoginia? Normalizaremos a censura e a repressão contra qualquer dissidência?

A questão não é o que o poder sem limites pode fazer. A pergunta é: o que nós estamos preparados para fazer diante desse poder? E as ruas do Brasil estão dando a resposta, inclusive para que Lula possa governar, caso saia vitorioso.

Confio nos ecos das palavras de Manuel Alegre, que nos ensina que, mesmo na noite mais triste, “em tempo de servidão, há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não.”

Nas ruas, ecoam o não ao fascismo. Dos corpos de milhares de brasileiros, brotam o sonoro não à barbárie, à opressão contra qualquer um que atente contra esse poema-sinfônico chamado Brasil.

As ruas estão dizendo que a democracia não se faz em silêncio. Tampouco envergonhada.  Ela se faz com a coragem que o jagunço Riobaldo, de Guimarães Rosa, nos convocou a ter.

Arte e festa

Mas as ruas também são arte e festa. O samba da Lapa, no último fim de semana, foi mais um capítulo da confirmação da tese do professor Luiz Antonio Simas, que insiste que nossas celebrações não são distrações contra uma realidade dura, contra os desmandos e a opressão. A festa não é o ópio. É parte da resposta e da resistência.

As ruas sabem que, sim, chegou a hora da encruzilhada. Do encontro. Da força dos corpos e da energia das mãos dadas que, depois de alguns segundos, passam a coordenar a batida do coração daqueles entrelaçados em seus destinos.

Ocupemos as praças, os locais de votação, as festas, os bailes, as ruas, as assembleias, as igrejas, os coretos. O coração pulsa.

O chão no Brasil treme. Seja pelo forró que brota da terra, pelo grito de gol na arquibancada, pelos protestos ou pela violência. Mas ele sempre treme. Um país que chacoalha com o imaginário do planeta.

E o mundo uma vez mais nos observa. Diante dos ventos gelados do autoritarismo, podemos ser mais uma vez a resposta e a esperança.

Nas urnas, estará a nossa capacidade de frear a extrema direita e o autoritarismo. Completar a descolonização de uma sociedade e ousar inventar um Brasil democrático estão em nossas mãos. E as ruas estão nos mostrando que somos muitos. Nós nos levantamos.

Duas coisas da campanha de agora https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0613695841.html 

17 outubro 2026

Na linha de frente

Às ruas, às redes, à virada
Passado o susto, o Brasil voltou a pulsar de esperança
Juca Kfouri/Liberta   

O susto do primeiro turno pôs os democratas nas ruas.

As manifestações pelo Brasil afora devolveram aos ares a famosa força estranha que Caetano Veloso detectou.

Uma força que, logo na primeira semana antes do segundo turno, mobilizou multidões e impediu que as primeiras pesquisas apresentassem números previsivelmente ruins para os democratas.

Ao contrário, foram alvissareiros, porque de cima a baixo no Brasil o combustível popular inflamou as massas e equiparou a contagem, ao permitir, assim, até pequena vantagem para quem reage às trevas bolsonaristas.

A novidade esteve na maneira como os atos se deram, espontâneos, além do comando da campanha oficial.

A juventude disse presente e motivou cabeças brancas a também mostrarem seus rostos e revelarem, mais do que os votos secretos de quase 54 milhões de eleitores, impulso para impressionante reviravolta nas redes sociais.

Independentemente do Partido dos Trabalhadores, a militância progressista rapidamente mudou o panorama eleitoral e os adeptos do obscurantismo, que, açodados, já haviam sentado na cadeira presidencial, tiveram de alertar seus torcedores que o jogo ainda precisa ser jogado.

O barulho das ruas é essencial, bem sabemos, porque revigora quem luta e assusta os adversários.

Ocupar as praças é condição necessária, embora não suficiente em tempos de algoritmos despolitizantes.

O fenômeno eleitoral Ana Elisa, a jovem mineira de 21 anos que obteve estonteantes 524 mil votos, maior votação feminina da história das Minas Gerais, conta que visitou pessoalmente apenas cerca de 20 cidades, mas teve votos, via redes, nos 853 municípios do estado.

Lição mais clara, impossível.

Marcha democrática

Vocês, rara leitora e raro leitor, respondam: sabiam o que são os fandoms?

Se a resposta for sim, parabéns!

Há quem tenha tomado contato com tais comunidades de fãs de influenciadores apenas ao saber que eram estas que convocavam para a Marcha Democrática do 11 de outubro, na Avenida Paulista, em São Paulo.

E foram para o Espigão paulistano entre curiosos e céticos, para ver que bicho daria, surpresos até com a repentina adesão de Lula, anunciada apenas no sábado.

De megafone nas mãos, pelas redes, o candidato ao tetra convocou para “a maior manifestação já vista em São Paulo”.

Que tem, louco?, pensou o cético, cá entre nós, com razão.

A presença de Lula estava prevista para o meio-dia.

Quem chegou depois das 11h não teve a menor chance de se aproximar do palanque.

Doze quarteirões ocupados, do alto do trio elétrico a vista não alcançava o fim da multidão dos dois lados da avenida e não se via pedaço algum do asfalto. No chão, então, andar exigia habilidade e paciência.

Trezentas mil pessoas, 400 mil, um milhão?

O DataJK não se atreve a calcular.

Seu proprietário, em declarações à coluna, limitou-se a dizer que só no Vale do Anhangabaú, no derradeiro comício da campanha pelas Diretas Já, em 1984, havia visto tanta gente reunida.

E olhe que ele era assíduo frequentador tanto do Maracanã quanto do Morumbi nos tempos em que os dois estádios tinham mais cimento do que cadeiras para sentar, ou ficar em pé.

No dia seguinte, em Copacabana, outro mar vermelho tomou conta da praia mais famosa do mundo, para repetir o que já havia sido visto no Recife, em Belo Horizonte, pelo país afora, graças aos corações generosos, e sábios, do estudantes.

Da ponta dos pés na avenida para sentar os dedos das mãos em telefones celulares, tabletes e computadores portáteis ou de mesa, nem foi um pulo, porque já havia sido.

E o Brasil voltou a pulsar de esperança pela reviravolta, porque, como se sabe, de virada é mais gostoso.

Resta saber se Flávio Bolsonaro terá coragem de ir a debates ou se teme repetir o vexame vivido em 2016, quando, candidato a prefeito carioca, borrou-se todo e teve de ser amparado pela candidata do PCdoB, e médica, Jandira Feghali.

Ouviu-se, então, um grito na plateia: “Comunista não mete a mão no meu filho!”.

Adivinha de quem, adivinha de quem?

De lá para cá, ele nunca mais participou de debates, nem na sequência da campanha no Rio, nem agora no primeiro turno, quando temeu o confronto com Renan Santos.

Às ruas, às redes, à vitória!

As ruas, as redes e o almoço do domingo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_02010278885.html 

Editorial do 'Vermelho'

Fim da escala 6×1 é conquista histórica dos trabalhadores e do governo Lula

Pressão das ruas e a articulação de Lula derrotam sabotagens da extrema direita, aprovam redução da jornada e desmascaram oportunismo de Flávio Bolsonaro
Editorial do 'Vermelho' www.vermelho.org.br   



A aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que põe fim à escala 6×1 e reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, consagra mais uma conquista histórica dos trabalhadores brasileiros.

Trata-se de uma antiga pauta dos trabalhadores, que agora avançou sob a força das grandes e numerosas mobilizações da juventude lideradas pela União Nacional dos Estudantes (UNE), da longa jornada de lutas das centrais sindicais e outros movimentos, e da ação política do presidente Lula, que levou o assunto ao centro das decisões do Congresso Nacional.

Ela proporciona mais dignidade e melhores condições sociais ao conjunto dos trabalhadores e do povo. É uma conquista de quem enfrenta jornadas exaustivas, dispõe de pouco tempo para a família e para o descanso, o lazer, o estudo e a convivência social.

Esse movimento, articulado à ação das bancadas progressistas e à decidida atitude do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de abraçar a causa e incorporá-la à agenda do governo, atuando para reunir as condições políticas à sua aprovação, teve papel decisivo para o êxito da proposta.

A interlocução do presidente com as centrais sindicais, a mobilização da base parlamentar e a articulação com as presidências da Câmara e do Senado e com diferentes segmentos parlamentares asseguraram a força necessária para derrotar a sabotagem do campo bolsonarista. Essas ações criaram o ambiente político que emparedou o bolsonarismo e seu candidato, Flávio Bolsonaro.

Ele, de mãos dadas com os grandes empresários, moveu céus e terra para que a proposta não fosse aprovada. O partido de Flávio, o PL, apresentou inclusive uma proposta alternativa de “livre negociação” que o presidente Lula chamou de “acordo leonino” por jogar os trabalhadores desarmados na jaula de seus oponentes, armados até os dentes para negar-lhes direitos. E agora, por puro oportunismo eleitoral, Flávio e demais senadores da extrema direita votaram a favor da PEC.

A decisão de última hora foi ditada pelo medo do povo, numa manobra casuística para que seus verdadeiros intentos não se revelassem de maneira escancarada. Jogaram para a plateia quando sentiram o peso da força popular ocupando posição central na campanha presidencial. Eles nada têm a ver com essa conquista, por estarem na outra margem da história do presidente Lula, desde sempre ligado às lutas dos trabalhadores e dos partidos políticos que defendem direitos, democracia e liberdade de organização para o povo.

Aprovada pela Câmara dos Deputados em 27 de maio de 2026, por ampla maioria, após intensa mobilização de trabalhadores e parlamentares, a PEC demorou para ser votada no Senado exatamente pela sabotagem do bolsonarismo. Em 2 de setembro, o líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), denunciou uma articulação bolsonarista para esvaziar o plenário e impedir a votação naquele dia, uma manobra comandada por Flávio Bolsonaro e pelo líder da oposição, Rogério Marinho.

O fato de Flávio Bolsonaro votar remotamente acrescenta um elemento simbólico ao episódio. Ele se ausentou do compromisso de defender seu cinismo publicamente e do enfrentamento no Senado com os óbvios questionamentos sobre essa repentina mudança de posição. Teria de expor o oportunismo de quem tentou vestir a roupa de defensor dos trabalhadores depois de todo o jogo sujo para sabotar a votação da PEC.

Já o líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante, um dos principais porta-vozes do partido de Flávio Bolsonaro, escancarou a manobra ao anunciar que, se a extrema direita vencer as eleições, apresentará, em 2027, o “acordo leonino” de Rogério Marinho, que, na prática, revogaria a conquista dessa PEC agora aprovada.

Seria, ademais, a retomada dos ataques dos governos do golpista e usurpador Michel Temer e do fascista Jair Bolsonaro — o primeiro com a famigerada “reforma trabalhista”, que ampliou a precarização das relações de trabalho e abriu caminho para a brutal e autoritária ofensiva contra a estrutura sindical, e o segundo com a perversa reforma da Previdência Social, igualmente desumana.

Essa constatação demarca bem os dois campos em disputa nas eleições presidenciais. Enquanto Flávio Bolsonaro representa toda a história de retirada de direitos, de repressão e violência contra os trabalhadores, Lula garante conquistas e indica que pretende, em seu quarto mandato, implementar uma “nova geração” de direitos. Entre eles, estão a reindustrialização do país em novas bases tecnológicas, gerando empregos de qualidade e, consequentemente, melhores salários, além do fortalecimento dos sindicatos, com ampliação da negociação coletiva e regulamentação das relações de trabalho.

A aprovação da PEC coroa a primeira etapa do segundo turno, marcada pelas grandes mobilizações da juventude organizadas pela UNE e pelo engajamento de militantes e apoiadores de Lula nas redes sociais. A sinergia entre ruas e redes criou uma grande onda que não para de crescer.

A campanha do presidente Lula superou quase toda a desvantagem do primeiro turno, e os números das pesquisas já indicam empate técnico. Flávio Bolsonaro cantou vitória antes da hora e, agora, diante da força da campanha de Lula, sua campanha toma decisões que soam como sinais de certo desespero (a exemplo do voto na PEC). Chefões bolsonaristas fazem cobranças contra o “corpo mole” de senadores e deputados.

Outra face da exasperação (leia-se medo da derrota) é a Ação de Investigação Judicial Eleitoral da campanha de Flávio Bolsonaro, protocolada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra a chapa de Lula e Geraldo Alckmin e 53 dirigentes sindicais, estudantis e de movimentos sociais, alegando que entidades estariam utilizando estruturas, recursos e canais institucionais. Essa investida para criminalizar as lideranças dos movimentos sociais tem um caráter intimidatório e é uma tentativa inútil de conter a voz da juventude e do povo nas ruas.

Entre as organizações mencionadas estão a União Nacional dos Estudantes (UNE), a União da Juventude Socialista (UJS), o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Força Sindical, a União Geral dos Trabalhadores (UGT), a Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), a Nova Central Sindical de Trabalhadores (NCST), o Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) e a Central de Movimentos Populares (CMP).

Por óbvio, a máquina bolsonarista será tensionada, a mídia monopolista tenderá a exacerbar sua parcialidade em favor da extrema direita, e as big techs intensificarão ações para favorecê-la, somando-se a outras investidas “invisíveis” do imperialismo. A Meta, por exemplo, acumula evidências e fatos que apontam para uma atuação em favor de Flávio Bolsonaro, já denunciada no TSE.

A campanha de Lula entra na reta final em ascensão e disputando, cabeça a cabeça, a vitória em 25 de outubro. Impulsionada pelo fim da escala 6×1, é preciso elevar a intensidade e o volume das ações pela disputa do voto.

Nesta etapa, quatro missões se destacam. A primeira: nas horas imediatas que se seguem, é preciso disseminar ao máximo o real significado da grande conquista do fim da escala 6×1. Dizer, às claras, que a nova escala 5×2, para perdurar, depende da vitória do presidente Lula, uma espécie de terceira votação. A segunda é reduzir a abstenção: o não comparecimento às urnas favorece a extrema direita. Pelas pesquisas, Lula tem vantagem entre os que se abstiveram.

A terceira é alertar o povo para a certeza trágica de que a vitória do bolsonarismo resultará em perdas de direitos nas esferas da educação, do Sistema Único de Saúde (SUS), da moradia popular, do aumento real do salário mínimo, das aposentadorias e dos benefícios, além do aumento da violência pela ação das milícias etc. A quarta missão é desmascarar Flávio Bolsonaro e revelar a verdade sobre ele: traidor da pátria, golpista, inimigo do povo, investigado por corrupção, “irmão” de Vorcaro, vinculado às milícias, desqualificado para governar.

Milhões, de um modo ou de outro, abraçaram a campanha de Lula. Entre eles, destaca-se a juventude, força motriz da vitória que vem sendo construída. Essa adesão do povo precisa crescer, impulsionada pelo trabalho da militância, pela eficácia das redes sociais e pela articulação da comunicação em todas as suas frentes. Personalidades da sociedade civil expressam apoio a Lula. É necessário que nenhum democrata se omita.

A vitória está no horizonte e não pode escapar das mãos da nação e da classe trabalhadora, dos democratas e patriotas. E, para tal, nenhum minuto de descanso: cada voto será decisivo.

Duas coisas da campanha de agora https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0613695841.html