11 abril 2026

Soberania nacional em jogo

Tecnologia de ponta logo cedo
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65   

Logo cedo porque no início da manhã deste sábado. Tecnologia de ponta é tema de matérias várias que me vêm à tela do computador numa primeira olhada nos principais jornais do país e sites noticiosos e analíticos.

E não é sem razão.

Mesmo a agressão dos Estados Unidos e Israel ao Irã põe em destaque a capacidade de resistência dos iranianos movidos a armamentos de defesa e contra-ataque de altíssima tecnologia.

Tudo a ver com os desafios atuais e mediatos do Brasil, pois há o risco de nos tornarmos mero consumidores de serviços das big techs norte-americanas.

Aqui no blog, dias atrás, publicamos texto esclarecedor do professor e cientista da UFPE Celso Pinto de Melo sobre o tema https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/autonomia-tecnologica-brasileira.html

A soberania nacional implica necessariamente competência para armazenar e processar dados em nosso território, evitando a exportação de inteligência para nuvens controladas por potências estrangeiras.

Mais: dispomos de uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, vale dizer posição estratégica para infraestruturas sedimentares de IA de forma sustentável. Desde que inseridas num projeto nacional.

Tudo a ver com a nossa capacidade de integrar recursos naturais (energia) com potencial computacional (IA).

O Ministério da Ciência, Tecnologia & Inovação vem abordando esse desafio através do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024-2028 - "IA para o Bem de Todos", tendo como foco transformar a abundância de energia renovável do Brasil em vantagem competitiva para a soberania digital.

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Estados Unidos fracassam na agressão ao Irã e consolidam posição de contraventor da ordem internacional. 

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Midia sob desconfiança

Brasileiros desconfiam mais da imprensa do que de amigos no WhatsApp e nas redes sociais
Pesquisa inédita do Cetic.br revela crise profunda de credibilidade da mídia tradicional: plataformas digitais já superam rádio e TV como principal fonte de informação no Brasil
Barbara Luz/Vermelho  

Quase metade dos brasileiros desconfia da imprensa tradicional. É o que mostra a pesquisa “Painel TIC – Integridade da Informação”, lançada nesta sexta-feira (10) pelo Cetic.br: 48% dos usuários de internet desconfiam “sempre” ou “na maioria das vezes” das informações publicadas por veículos jornalísticos — índice superior ao registrado em relação a influenciadores e figuras públicas em redes sociais (43%). Enquanto isso, 72% se informam diariamente pelas redes sociais e 60% por aplicativos de mensagem como o WhatsApp.

O dado é revelador: em pleno debate sobre desinformação, o brasileiro confia mais no conteúdo que chega pelo grupo da família do que naquele apurado por uma redação. As plataformas digitais já superaram o rádio e a televisão — acessados diariamente por 58% dos entrevistados — e os jornais e revistas ficam ainda mais para trás, com 34%. Para ver a íntegra pesquisa, clique aqui.  

Ao Portal Vermelho, Renata Mielli, coordenadora do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), explica que o fenômeno tem raízes históricas e estruturais. “Isso é muito preocupante, mas infelizmente não é exatamente uma surpresa. A primeira motivação é a própria perda de credibilidade de muitos veículos de imprensa no Brasil, principalmente pós-2013, quando a polarização política nacional acabou explicitando para a sociedade que aquela suposta neutralidade e objetividade da imprensa, na verdade, não existia desta maneira como era propalada”, diz ela.

O grupo vale mais do que a verdade

A desconfiança na imprensa varia conforme o perfil do entrevistado. Entre os usuários com ensino fundamental, o índice chega a 59% — bem acima dos 48% da média geral. Entre os homens, é de 52%. Já a desconfiança em relação a influenciadores é maior entre os mais velhos: 51% entre os usuários de 60 anos ou mais.

Mas a pesquisa vai além da desconfiança e revela algo mais profundo onde uma parcela expressiva dos brasileiros simplesmente não vê sentido em checar o que recebe. Nada menos que 34% concordam, total ou parcialmente, que “não vale a pena pesquisar se as informações que recebo são verdadeiras ou falsas”. Outros 30% afirmam não ter interesse nesse tipo de verificação.

Mielli explica que a lógica por trás desse desengajamento tem a ver com pertencimento. “Quando você recebe um conteúdo num grupo de WhatsApp da família, que tem ali uma pessoa com autoridade familiar, ou um grupo de amigos no qual você tem pertencimento, aquelas informações têm muito mais peso do que a qualidade da informação em si” — seja o grupo da igreja, do sindicato ou de qualquer outra comunidade de confiança.

O fenômeno não é novo. Nas eleições de 2018, segundo a coordenadora, já havia indícios de que muitas pessoas sabiam que estavam recebendo fake news — como as relacionadas ao “kit gay” —, mas preferiam confiar na informação vinda de um familiar ou pastor a checar num veículo jornalístico. “Isso mostra a fragilidade que nós estamos enfrentando do ponto de vista da construção da opinião pública na sociedade brasileira”, avalia Mielli.

Sem dados para checar: a dimensão estrutural do problema

O desengajamento com a verificação de informações é mais frequente entre jovens do sexo masculino, das classes C e DE, e com ensino fundamental incompleto — e a pesquisa revela que esse perfil também é o que tem maior dificuldade em classificar corretamente informações como falsas ou enganosas na internet.

Mielli aponta que, para grande parte da população, checar uma informação não é apenas uma questão de hábito ou vontade — é uma questão de infraestrutura. A maioria dos brasileiros acessa a internet pelo celular com pacotes de dados pré-pagos. “No 12º, 15º dia do mês, a franquia de dados já zerou. Como checar uma informação quando eu saio do serviço de mensagem, que é gratuito, para ir no site de qualquer veículo de comunicação? Prefiro guardar os meus dados para saber se meu filho chegou bem da escola no fim do mês”, ilustra a coordenadora do CGI.br.

O exercício prático realizado pela pesquisa, com apoio da Agência Lupa, confirma a assimetria: os entrevistados foram convidados a classificar como falsas ou verdadeiras informações que circularam no país nos últimos dois anos. Os melhores resultados foram entre pessoas com 45 anos ou mais, das classes AB, com maior escolaridade e com conexão por fibra óptica. Os grupos mais engajados com verificação e com melhor compreensão do funcionamento das plataformas digitais também se saíram melhor.

Algoritmos, deepfakes e a captura da atenção

A pesquisa revela ainda que metade dos entrevistados (50%) acredita que o que faz um conteúdo circular mais na internet é ele ser mais confiável — uma confusão direta entre viralização e veracidade. Outros 45% afirmam que todos encontram as mesmas informações quando pesquisam na internet, demonstrando desconhecimento sobre o funcionamento das bolhas algorítmicas.

Sobre deepfakes — imagens, vídeos ou áudios produzidos ou manipulados por inteligência artificial para parecerem verdadeiros —, 41% dos entrevistados relatam contato diário com esse tipo de conteúdo, proporção que sobe para 44% entre jovens de 16 a 24 anos. A coordenadora do CGI.br admite que nem ela própria está imune ao problema: “Eu sou jornalista de formação, lido com temas de tecnologia há muitos anos, e não me sinto 100% confiante de identificar quando um conteúdo é falso ou não, ainda mais no contexto de inteligências artificiais generativas.”

O desconhecimento sobre deepfakes é maior justamente entre os mais vulneráveis: 20% das classes DE e 24% das pessoas com menor escolaridade afirmam não saber o que é ou nunca ter tido contato com o fenômeno.

Quanto ao uso de ferramentas de IA generativa, 47% dos usuários de internet de 16 anos ou mais já utilizaram o ChatGPT ou similares. Entre os que acessam a internet exclusivamente pelo celular, a IA do WhatsApp é predominante (38%) — mais um reflexo da divisão digital do país.

“A pesquisa inteira é um alerta”

Para Mielli, o caminho passa obrigatoriamente pela regulação das grandes plataformas digitais. “Essas plataformas não são veículos jornalísticos. Elas têm outro propósito. O modelo de negócios é baseado exatamente na captura da atenção para que a gente permaneça conectado, interagindo, reagindo, compartilhando”, afirma.

A coordenadora do CGI.br aponta avanços recentes como a condenação da Meta por causar vício nos Estados Unidos e a aprovação do ECA digital no Brasil — que proíbe o perfilamento de crianças com base em conteúdo de caráter moral e emocional e o scroll infinito. Mas avalia que muito mais precisa ser feito, inclusive na questão do financiamento do jornalismo.

“Nós precisamos urgentemente restabelecer o debate na sociedade sobre o papel do jornalismo. Isso passa por criar regras para que essas plataformas possam remunerar os conteúdos jornalísticos que circulam no seu interior, porque vivemos uma crise do financiamento de veículos de comunicação em razão da migração dos recursos de publicidade para essas plataformas. Acho que a pesquisa inteira é um alerta para a sociedade brasileira de que algo precisa mudar.”

A pesquisa “Painel TIC – Integridade da Informação” foi conduzida pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), em parceria com o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). Foram entrevistados 5.250 usuários de internet de 16 anos ou mais, por meio de questionário online, entre agosto e setembro de 2025. Os dados completos estão disponíveis em cetic.br.

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Engrenagem mistura propaganda política, dinheiro sujo e plataformas que lucram https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/m   

Humor de resistência

 

Orlando Pedroso

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Região sob disputa

EUA e China: uma disputa palmo a palmo na América Latina
Guerra comercial e competição por influência na região aumentam a tensão política entre as superpotências
Jamil Chade/Liberta     

Das minas da Nicarágua aos portos do Peru e telescópios na Argentina. Do petróleo da Venezuela ao Canal do Panamá e minérios em Goiás. De Norte a Sul, a América Latina se transforma em palco da disputa entre os interesses chineses e americanos.

Um ano depois de Donald Trump iniciar uma guerra comercial e declarar abertamente sua intenção de militarizar o hemisfério, a China se organiza para defender seus ativos e investimentos na região. O resultado tem sido uma crescente tensão política entre governos locais e as duas superpotências.

Em seu plano de segurança, Trump deixou claro que quer o controle da América Latina e que não irá tolerar a presença chinesa em locais considerados como estratégicos. A Casa Branca sabe como empresas chinesas construíram, possuem ou operam grande parte da infraestrutura critica da região. A disputa por recursos naturais e influência passou a ser um fator constante nas capitais da região.

Mas, em dezembro de 2025 e poucos dias depois de Trump consolidar num documento sua Doutrina Donroe de reocupação do espaço latino-americano, a China divulgou o que chamou de seu novo “Livro Branco” sobre seu relacionamento com a América Latina.

Ainda que não cite nominalmente os EUA, o plano de Pequim criticou a “intimidação unilateral” e destacou a “gloriosa tradição de independência” da América Latina. Para completar, afirmou que apoia a estratégia da região de manter seu status de “zona de paz”, uma alusão ao militarismo de Trump no continente. O recado, portanto, estava dado.

Voos espaciais

De um lado, a estratégia chinesa foi a de capitalizar o enorme descontentamento de certos setores e governos latino-americanos diante das tarifas de Trump e, assim, atrair esses países ainda mais para a sua esfera de influência. Não por acaso, o plano apresenta a China como a defensora de um “ambiente internacional aberto e cooperativo”, opondo-se à ‘intimidação”, em mais uma referência aos EUA.

Alguns dos projetos chineses acenderam o alerta na Casa Branca. O texto defende a ideia da redução do peso do dólar no comércio da região e fala numa aproximação em áreas estratégicas, como transferência de tecnologia e intercâmbios de cientistas, bem como inteligência artificial e cooperação espacial.

Uma das apostas é a introdução do sistema de satélites BeiDou, concorrente do Sistema de Posicionamento Global, ou GPS. Se não bastasse, a China se comprometeu a incluir um latino-americano nos programas espaciais tripulados de Pequim.

Na Argentina, porém, a Casa Branca convenceu Javier Milei a abandonar a concessão de uma área do país para que a China construísse um novo telescópio espacial.

Mas a China também deixou claro que, depois de décadas de aproximação e acordos com os latino-americanos, não aceitará simplesmente deixar a região.

No documento, portanto, Pequim rejeita o que chama de “ciber-hegemonia”. Ou seja, a manobra dos EUA para excluir empresas e componentes chineses da infraestrutura digital da América Latina.

Um alerta claro da ameaça que seus interesses sofrem foi a audaciosa operação de Trump para sequestrar Nicolas Maduro, em janeiro deste ano, e romper os acordos de abastecimento a preços baixos de petróleo da Venezuela para a China. A partir de agora, Pequim terá de pagar um preço de mercado pelo combustível venezuelano. E, claro, passando pela administração dos EUA.

Menos de dois meses depois de publicar seu “guia” de atuação na região, a China passou a implementá-lo e não demorou para que, de ambos os lados, as disputas fossem iniciadas.

Um dos focos da tensão passou a ser o Panamá. Pressionado pelos EUA, o governo local provocou o Judiciário a anular os contratos que existiam entre uma empresa chinesa e o Canal do Panamá, em janeiro de 2026.

As autoridades em Pequim, imediatamente, iniciaram um processo para retaliar o governo local. Um procèsso de arbitragem internacional foi iniciado, com Pequim solicitando uma indenização de US$ 2 bilhões.

Os projetos de empresas chinesas com o Panamá foram suspensos e companhias de transporte marítimo passaram a redirecionar suas cargas por outros portos. Na China, tudo o que vinha do Panamá passou a ser alvo de uma inspeção reforçada. Um mês depois, o Panamá tomou o controle dos portos administrados por empresas chinesas e expulsou os funcionários contratados por Pequim.

No Peru, o porto de Chancay – operado pela China – também se transformou em foco da crise. Uma decisão da Justiça impediu a ingerência por parte de autoridades locais no porto, o que gerou protestos dos EUA e denúncias em Washington de que a China estaria violando a soberania peruana. Além disso, a recente queda do presidente do Peru, José Jerí, ainda ocorreu por conta de uma relação entre seu governo e um empresário chinês.

Reserva de mercado

A disputa entre EUA e China também abalou a política no Chile. No começo do ano, a decisão do então governo de Gabriel Boric de fechar um acordo para a construção de um cabo submarino de fibra óptica para conectar seu país aos territórios chineses levou o governo Trump a impor sanções contra ministros e outros funcionários de Santiago.

Segundo Washington, o acordo poderia abalar a “segurança regional”. Sob Boric, a China ainda assinou acordos para financiar a construção de hospitais e ferrovias.

A ingerência americana passou a ser um fator constante, sempre que algum governo da região anuncia um acordo com os chineses.

Nas Bahamas, a decisão do governo local de pegar um empréstimo milionário da China para a construção de um hospital foi o estopim de um protesto da Cada Branca. A diplomacia americana passou a pressionar as autoridades caribenhas a buscar outras fontes de financiamento.

Poucos aspectos são tão sensíveis nessa disputa entre as superpotências na região como a mineração. O governo Trump se apressou por montar uma espécie de pacto para garantir uma reserva de mercado de minerais críticos na região, com a participação de Equador, México, Paraguai e Peru.

No Brasil, o governo de Goiás, numa medida que passou a ser questionada internamente pelo governo Lula, também assinou um acordo com os EUA no setor de minerais críticos. Já na Argentina, o governo de Javier Milei se comprometeu a dar prioridade às vendas de seu cobre, lítio e outros minerais críticos em detrimento de “economias ou empresas que manipulam o mercado”, em referência à China.

Como resposta, Pequim fortaleceu sua ofensiva para garantir novas áreas de concessão de mineração, como no caso da Nicarágua, e se lançou em disputas por contratos em várias partes do continente.

Observadores na China destacam que, poucas vezes nas últimas décadas, a América Latina ocupou uma posição tão central na disputa entre duas nações em busca da hegemonia. Resta saber, para diplomatas, qual será o limite da guerra pelos recursos naturais da região e como os governos locais irão reagir para tirar proveito dessa disputa.

Leia também: Guerra ameaça a Economia do Ocidente: e agora, falastrão? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/trump-caleidoscopico.html

10 abril 2026

Palavra de poeta

Ternura
Vinícius de Moraes      

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma…
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.

[Ilustração: Lasar Chagall]

Leia também um poema de Fernando Pessoa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/palavra-de-poeta_31.html