22 outubro 2026

A batalha nas redes

O ativismo algorítmico nas eleições de 2026
A coordenação das ações produz um impacto imediato nas métricas, forçando, em teoria, o algoritmo a apresentar o conteúdo do campo progressista a sujeitos não alinhados, ou partidários de Bolsonaro 
Glaucia Maricato e Alexandre Branco-Pereira/Le Monde Diplomatique   

O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 desencadeou uma intensa reorganização das estratégias de mobilização dos apoiadores do presidente Lula. Embora a pequena diferença de votos que colocou o petista em segundo lugar não tenha sido propriamente surpreendente, uma vez que diversas pesquisas já apontavam um cenário de empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro, seus desdobramentos teriam sido muito difíceis de antecipar. Nos dias seguintes à votação de 4 de outubro, uma onda de manifestações tomou as ruas e avenidas de diferentes cidades do país, surpreendendo o meio político e levando alguns analistas a estabelecer comparações com grandes mobilizações da história do país. Com apenas três semanas para reverter a vantagem do adversário nas urnas, ganhou força o diagnóstico de que a candidatura petista precisava ampliar e reorganizar sua atuação nas plataformas digitais.  

As eleições de 2018 já haviam evidenciado, de maneira contundente, uma transformação nas condições da disputa eleitoral: candidaturas com pouco tempo de propaganda televisiva conquistaram vitórias expressivas, expondo a crescente importância das plataformas digitais na construção de sua força política. Atrelado a isso, e de forma cada vez mais intensa ao longo das três semanas entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais de 2026, crescia a percepção que já vinha se formando havia algum tempo: a de que parte importante da disputa eleitoral se desenrolava em um terreno pouco visível, cujos mecanismos de funcionamento permaneciam, em grande medida, inacessíveis.  

A disputa não consistia simplesmente em publicar mais conteúdo ou conquistar novos seguidores. Era preciso fazer com que mensagens produzidas por redes já mobilizadas alcançassem pessoas situadas fora de seus circuitos habituais de interação. A expressão “furar a bolha”, que se tornaria recorrente naqueles dias, condensava esse desafio. Foi nesse cenário que se multiplicaram iniciativas de articulação entre parlamentares, influenciadores, comunidades digitais e apoiadores dispostos a transformar suas próprias interações em instrumentos de mobilização eleitoral. Era preciso, portanto, “tomar terreno” nas redes sociais – em uma das muitas noções militarescas que passaram a dominar o debate político. A campanha de Lula reuniu deputadas e deputados eleitos com votações expressivas em seus estados, e com forte presença nas redes: Ana Elisa (PT-MG), André Janones (Rede-MG), Áurea Carolina (PSOL-MG), Marília Campos (PT-MG), Guilherme Cortez (PSOL-SP), Luna Zarattini (PT-SP), Érika Hilton (PSOL-SP), Bernardo Moreira (PSB-DF), Fábio Félix (PSOL-DF), Max Maciel (PSOL-DF), Jones Maciel (PSOL-PE), Natália Bonavides (PT-RN), entre outros. Essas pessoas deveriam produzir conteúdos próprios, mas também atuar na replicação do conteúdo do perfil de Lula, que passou a publicar em colaboração com perfis associados, como o PT Brasil, Camilo Santana (PT-CE), Rafael Fonteles (PT-PI), Gleisi Hoffmann (PT-PR), Paulo Pimenta (PT-RS). Todos esses usuários, e contas de apoio, também faziam associações próprias com perfis locais, e assim por diante.  

Simultaneamente, redes auto-organizadas já produziam materiais com orientações sobre como impulsionar o alcance de mensagens do campo progressista, engajando-se na campanha presidencial. Fandoms de artistas e grupos como Billie Eilish, Beyoncé, Taylor Swift, Lady Gaga, Dua Lipa, BTS e BLACKPINK, páginas de memes, microinfluenciadores digitais e veículos de imprensa alternativa (ICL, Mídia Ninja, Brasil Fora da Caverna e Intercept) passaram a declarar apoio a Lula, e a produzir cartazes, vídeos e infográficos por conta própria para tratar de temas específicos. Se a premissa era a de que a interação com os conteúdos postados na plataforma – o Instagram e o TikTok, por exemplo – produz métricas legíveis pelo algoritmo enquanto o “sucesso” de um post, era, portanto, preciso produzir esses índices métricos curtindo, salvando e compartilhando todos os conteúdos visualizados, assistindo os vídeos até o fim, ou visualizando todos os cards de um carrossel. Publicações com conteúdo próprio deveriam ser feitas em colaboração com outros usuários. Assim, essa postagem tem mais chances de ser entregue a outros usuários da plataforma: inicialmente, a pessoas próximas, com quem se interage mais frequentemente. Se essas pessoas também se engajarem com os conteúdos, a postagem vai ampliando seu alcance “organicamente”. Isso se dá pois o objetivo último dessas plataformas é disputar a atenção dos usuários, e as métricas de engajamento sinalizam às empresas o que é eficaz para garantir a retenção do usuário na plataforma pelo maior tempo possível. 

A interação entre essas duas redes se deu especialmente por meio da emergência de iniciativas que deixavam de ser uma etiqueta de conduta individual nas redes, passando a ter como objetivo produzir impacto massivo e coordenado de maneira a alterar substancialmente o funcionamento do algoritmo, entregando a mensagem fora do círculo de “mentes semelhantes” que já interagem uns com os outros. André Janones, que já havia assumido função semelhante na campanha petista em 2022, passou a coordenar a multidão de pessoas interessadas em colaborar, congregando-as no canal “Exército do Lula”. Criado em abril de 2026, o canal, então com 50 mil seguidores, não parecia destinado a se tornar um dos principais acontecimentos do segundo turno das eleições. O próprio Janones se reelegeu com 78 mil votos, uma fração dos 238 mil votos recebidos em 2022, quando foi o segundo deputado mais votado de Minas Gerais. Em 7 de outubro, apenas três dias após o primeiro turno, o canal ultrapassou a marca de 2 milhões de seguidores, e, no momento em que este texto está sendo escrito, o canal já ultrapassou os 8 milhões de seguidores. Essa expansão merece atenção não apenas por sua velocidade, mas pelo modelo de comunicação que procurava instituir. Diferentemente das contas públicas em redes como Instagram ou TikTok, nas quais a distribuição dos conteúdos depende fortemente dos sistemas de recomendação das plataformas, o canal de WhatsApp permite uma comunicação direta e unidirecional entre administradores e seguidores. 

Não se tratava, portanto, apenas de aumentar a audiência do canal propriamente dito. O objetivo era constituir uma infraestrutura de mobilização capaz de conectar milhões de participantes e coordenar suas atividades digitais. A distinção é importante: uma audiência numerosa não constitui, por si só, uma rede efetivamente mobilizada, assim como o número de inscritos não permite determinar quantas pessoas executavam as orientações recebidas. Mais que isso, uma rede difusamente mobilizada pode produzir impacto métrico e algorítmico, mas talvez sem que o efeito desejado seja efetivamente produzido: a “entrega” do conteúdo a quem se quer convencer, furando a bolha. 

Importante pontuar que essa tem sido uma tônica de movimentos de resistência mundo afora. O genocídio palestino é um dos exemplos mais emblemáticos dos últimos anos. A produção de vídeos, imagens e relatos por palestinos, muitos dos quais jornalistas independentes – atuando como freelancers de grandes veículos de imprensa internacional, e produzindo conteúdos próprios –, articulou-se a uma rede de distribuição internacional formada por influenciadores de “todos os tamanhos” localizados, em especial, na Inglaterra e nos Estados Unidos. No Instagram e no TikTok, conteúdos gráficos, como corpos despedaçados e bebês mortos, passaram a ser entregues aos celulares de milhões de britânicos e estadunidenses, mudando, de maneira inédita, a percepção positiva sobre Israel, historicamente presente nesses países. O engajamento algorítmico mudara o jogo para os palestinos. Estudantes ocuparam universidades nos Estados Unidos, e foram brutalizados e perseguidos – muitos não conseguiram se formar, outros foram deportados com apoio do governo democrata de Joe Biden. A própria Convenção Nacional Democrata concluiu que Kamala Harris perdeu apoio significativo nas eleições de 2024 em razão da atuação do governo Biden diante do genocídio, tamanha a repercussão do tema nos Estados Unidos. 

Essa tática de resistência talvez seja uma reorientação produtiva da noção de flood the zone, estratégia de comunicação política popularizada pela extrema direita. A tática consiste em produzir uma enxurrada contínua de conteúdos para que, em função da sobrecarga de informações, seja impossível discernir a verdade, exaurindo o público que acompanha. Com publicações em volume massivo, impulsionadas pelos engajamentos produzidos por um ecossistema de perfis automatizados (os famosos bots) e orgânicos, essa tática também produz dois efeitos: domina a zona “inundada” com os temas pertinentes à extrema direita, e entrega mensagens direcionadas aos interesses específicos das pessoas, mapeados previamente por meio das métricas que aquele perfil produziu ao longo de sua história em determinada rede social. Assim, a eficácia se multiplica. Essa descrição, por óbvio, considera que as plataformas seriam politicamente neutras, e que as decisões do algoritmo são isonômicas em relação a todas as perspectivas políticas, o que diferentes investigações acadêmicas e jornalísticas têm demonstrado que não é a realidade. 

De toda forma, André Janones, por meio da ação coordenada de milhões de pessoas, consegue impedir a inundação do terreno. São criadas barreiras de proteção por meio de táticas de engajamento que domesticam as linhas do tempo das pessoas para receber conteúdos de uma rede de perfis afins, evitando o engajamento com conteúdos do campo oposto ou danosos a Lula. Simultaneamente, a coordenação das ações produz um impacto imediato nas métricas, forçando, em teoria, o algoritmo a apresentar o conteúdo do campo progressista a sujeitos não alinhados, ou partidários de Bolsonaro. Essa tática foi capaz de colocar a extrema direita na defensiva durante todo o segundo turno, com derrotas em sequência. Também foi capaz de empatar a disputa eleitoral, tornando a previsão sobre o resultado das urnas impossível – uma façanha notável, especialmente após muitos analistas terem decretado que Flávio Bolsonaro já era virtualmente Presidente da República após a vitória por margem apertada no primeiro turno. 

Esse é um aprendizado fundamental aos movimentos de resistência ao fascismo globalmente. Para nós, é preciso incorporar tais aprendizados às nossas táticas usuais de ativismo e militância, independente do resultado das urnas, já que os quatro anos de mandato de Lula e a prisão de Jair Bolsonaro produziram uma falsa sensação de calmaria desse lado da bolha. A organização de nossos esforços é mais necessária do que nunca. É preciso, adicionalmente, compreender os limites dessas táticas, implementadas em um terreno que não é neutro, e o que significa para nós fortalecer as big techs, levando mais pessoas para dentro das redes. O engajamento de perfis de extrema direita, como Nikolas Ferreira – com mais visualizações que perfis como os de Beyoncé, Messi e outras figuras públicas globais –, levanta flagrantes suspeitas de engajamento inorgânico, e há muitas evidências de que as plataformas desempenham um papel nos números inflados da extrema direita. Por fim, é preciso destacar que nada disso é possível sem a construção e a coordenação de uma infraestrutura de distribuição e impulsionamento orgânico das mensagens produzidas, com um ecossistema constituído de perfis com diferentes quantidades de seguidores, e com amplo engajamento de perfis pessoais. Essa infraestrutura, no entanto, nunca é plenamente nossa: basta uma decisão da Meta para desativar perfis influentes, como também vimos no caso da Palestina.  

Diferentemente das manifestações que ocupam as ruas e avenidas do país, onde a atuação seletiva das forças policiais pode ser observada, documentada e denunciada, como historicamente fizeram os movimentos progressistas; diferentemente das disputas travadas no Judiciário, onde decisões seletivas podem ser identificadas e contestadas, como ocorreu com a tentativa inicial de censura ao Exército do Lula, sem medida equivalente contra a Tropa de Bolsonaro; diferentemente, ainda, dos debates televisionados, nos quais eventuais violações das regras do jogo acontecem diante dos olhos do público, nas plataformas digitais o próprio terreno da disputa permanece, em grande medida, inacessível ao escrutínio público. Em uma eleição presidencial na qual parte expressiva da mobilização política se desenrola nesses ambientes, não são apenas os conteúdos que estão em disputa, mas as próprias condições de sua circulação. Estamos falando, afinal, de uma das maiores democracias do mundo realizando eleições presidenciais em ruas e avenidas digitais cujas regras de circulação, mecanismos de vigilância e possibilidades de intervenção permanecem sob o controle de empresas privadas estrangeiras, sem a transparência que um processo democrático dessa magnitude exige.  

Glaucia Maricato é doutora em Antropologia Social. Está vinculada como Pesquisadora Colaboradora no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de Brasília. Atua em temas da antropologia das ciências e tecnologias, antropologias das métricas, saúde, dados e burocracias. 

Alexandre Branco-Pereira é doutor em Antropologia Social. Está vinculado como Pesquisador Colaborador do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de Brasília, onde também desenvolve pesquisa de pós-doutorado com financiamento do CNPq. Atua em temas da antropologia das migrações, da saúde e das ciências e tecnologias. Também é coordenador da Frente Nacional pela Saúde de Migrantes (FENAMI) e do Observatório Saúde e Migração (OSM).

Leia também: Debate na TV para quê? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0643838648.html 

Bom sinal

Aprovação ao governo Lula supera desaprovação numericamente pela primeira vez desde o início da campanha, segundo Datafolha.  

Subiu o sarrafo da luta política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0999410531.html 

Episódio escabroso

Rolex, prostitutas e passeio de lancha põem Flávio Bolsonaro em escândalo na pandemia
Revista piauí revela uma história de corrupção e prostituição, ligada ao candidato Flávio Bolsonaro (PL), ao mesmo tempo em que milhares de brasileiros morriam de Covid-19
Murilo da Silva/Vermelho      

Durante a pandemia de Covid-19, pela qual Jair Bolsonaro é considerado culpado por demorar a comprar vacinas para o país, o que ocasionou mais de 700 mil mortes, o seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL), atendeu os empresários Danilo Berndt Trento e Francisco Maximiano, diretor institucional e dono da Precisa Medicamentos, segundo reportagem da revista piauí.

Embora a vacinação em massa só começasse no final de 2020, em julho daquele ano, época em que os fatos aconteceram, as farmacêuticas já estavam em plena elaboração das vacinas e firmando contratos com os governos. Porém, o governo Jair Bolsonaro era negacionista quanto à eficácia da imunização em massa.

Querendo ampliar os contratos com o governo, os representantes da Precisa Medicamentos, que já tinham contratos de preservativos femininos e testes rápidos de Covid, viram a oportunidade de emplacar mais uma venda. Representando o laboratório indiano Bharat Biotech, que estava desenvolvendo a vacina Covaxin, a dupla traçou um plano: aproximar-se do filho senador do presidente para tentar facilitar o negócio.

A partir daí o que a revista traz já excede qualquer perspectiva republicana. Flávio Bolsonaro aceitou o passeio de lancha com churrasco no Lago Paranoá, em Brasília, promovido por Trento e Maximiano, que contrataram o agente de viagens, Raphael Barão, dono da Barão Turismo, para organizar tudo. Os fatos aconteceram em 17 de julho de 2020.

Com vasto detalhamento, inclusive com indicação do horário de voos e deslocamentos dos envolvidos no encontro, a revista indica que estavam na embarcação Danilo Trento, o condutor da lancha, três garotas de programa trazidas de São Paulo, Flávio Bolsonaro e o seu amigo Alexandre Santini, do qual o senador era sócio na loja de chocolates da Kopenhagen, sobre qual pesa a acusação de ser fachada para lavagem de dinheiro de casos de ‘rachadinha’.

É relatado que os ocupantes estavam preocupados com drones que os flagrassem furando as medidas de distanciamento social. Também é relatado que Flávio utilizou os serviços das garotas.

Depois da festa no lago, ao atracar a lancha, Trento ainda teria dado um relógio Rolex para Flávio. Como lembrado pela reportagem, naquele dia 1.110 pessoas morreram por causa da Covid-19 no Brasil e a reconstituição do passeio de lancha foi feita com base em depoimentos, quebras de sigilo, documentos enviados à CPI e dados de rastreamento de voos, cruzando informações de diferentes fontes. Entre os depoimentos constam o de dois pilotos, um ex-deputado, três assessores parlamentares e uma garota de programa que não participou daquele evento.

Covaxin

É de conhecimento público que o governo Bolsonaro contratou a compra de 20 milhões de doses da Covaxin por R$ 1,6 bilhão. Houve desde sempre a suspeita de irregularidades e favorecimento à intermediária Precisa Medicamentos, representada pelos organizadores do passeio de lancha com Flávio.

As denúncias de irregularidades e suspeitas de sobrepreço levaram o contrato a ser cancelado em 2021, sem pagamento.

Durante a CPI da Covid, no mesmo ano, senadores questionaram Maximiano sobre a atuação de Flávio Bolsonaro na aproximação da Precisa com o governo, mas ele negou a intermediação e depois ficou em silêncio. Trento admitiu ter participado de eventos públicos com Flávio.

O senador defendeu publicamente a Precisa, apesar de a Covaxin ter sido negociada por valores superiores aos de outras vacinas. O relatório final da CPI recomendou o indiciamento de 78 pessoas, entre elas Flávio, Trento e Maximiano.

Mas antes de a CPI ocorrer, a aproximação de Flávio e Maximiano já havia surtido resultados ao empresário. Em outubro de 2020, o senador intermediou uma reunião entre Maximiano e o então presidente do BNDES, Gustavo Montezano, para discutir financiamento a uma nova empresa de telecomunicações. Flávio participou do encontro virtual para apoiar a iniciativa. O banco informou que não houve contratação de crédito, enquanto Flávio negou vínculos comerciais ou financeiros com o empresário.

Esclarecer é preciso https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/esclarecer-e-preciso.html  

Palavra de poeta

Sou negro
Solano Trindade           

Sou Negro
meus avós foram queimados

pelo sol da África
minh'alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gonguês e agogôs

Contaram-me que meus avós

vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.

Depois meu avô brigou
como um danado nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu

o pau comeu
Não foi um pai João

humilde e manso.

Mesmo vovó

não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês

ela se destacou.

Na minh'alma ficou

o samba
o batuque

o bamboleio
e o desejo de libertação.  

[Ilustração: Candido Portinari]

Leia também "Mãos dadas", poema de Carlos Drummond de Andrade  https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_11.html 

Lula na live

Live de luta! 
Luciano Siqueira    

Confesso que nem sempre tenho paciência de ver lives no YouTube até o fim.

Desta vez fui.

A live do Exército de Lula, assim chamada, esclareceu e emocionou a cada instante. 

A palavra do presidente, com a simplicidade de sempre, mobilizadora. 

Ele próprio muito emocionado, os olhos marejados muitas vezes. 

Rico instante de exercício da verdade na reta final de uma batalha marcada pela perversidade da extrema-direita, que usa de todos os artifucios, sem o menor escrúpulo ético, para tumultuar o confronto de projetos e confundir o eleitorado. 

Um banho de solidariedade e convergência de ideias.

Clique aqui e veja a live https://www.youtube.com/watch?v=vq4haOVR4pE

Contra os trabalhadores

Flávio Bolsonaro prepara 200 decretos para derrubar direitos trabalhistas e outras conquistas
Bomba relógio contra a classe trabalhadora. Aliados revelam plano do clã para “decretaço” anti-povo em eventual primeiro dia de governo
Davi Dmolir/Vermelho      

A poucos dias do segundo turno das eleições, a máscara de moderação do candidato Flávio Bolsonaro (PL) voltou a cair. Uma reportagem do Correio Braziliense publicada nesta terça-feira (21) revelou que aliados do senador já mantêm pronto um pacote com mais de 200 decretos para serem assinados no primeiro dia de um eventual mandato.

O objetivo central é desferir um golpe imediato contra a legislação trabalhista, a proteção ambiental e a participação social.

O plano de bastidores prevê um agressivo “revogaço” de medidas do governo Lula e um “decretaço” que visa, fundamentalmente, neutralizar as conquistas recentes da classe trabalhadora, em especial a regulamentação do fim da escala 6×1.

O arsenal de normas foi desenhado em segredo e mantido sob sigilo pela campanha, sem qualquer transparência para a sociedade ou pronunciamento oficial da assessoria do candidato.

O pacote da destruição: trabalho, meio ambiente e privatizações

Segundo as informações vazadas por interlocutores do senador, as medidas guardadas na gaveta para o dia 1º de janeiro articulam um verdadeiro choque de desmonte:

Esvaziamento dos direitos trabalhistas: Utilizando a regulamentação do Executivo como atalho, o plano busca esvaziar a recém-promulgada Emenda Constitucional 141/2026. O texto prevê reintroduzir a lógica da “negociação individual”, isolando o trabalhador frente ao patronato e enfraquecendo a atuação dos sindicatos.

Ataque à fiscalização ambiental: Os decretos preveem a limitação da atuação de órgãos de fiscalização ambientais sobre vegetações em áreas rurais e propriedades privadas não classificadas expressamente como de proteção. Na prática, trata-se de um salvo-conduto para o desmatamento e a impunidade no campo.

Fim da participação popular: Alterações administrativas planejam extinguir conselhos, comitês e grupos de trabalho da administração federal. Sob a justificativa de “enxugar a máquina”, o projeto busca calar a sociedade civil organizada e eliminar mecanismos constitutivos da democracia participativa.

Ofensiva privatista: Para os primeiros três meses, o plano traça o envio ao Congresso Nacional de um pacote de privatizações de empresas públicas e estatais estratégicas para o desenvolvimento nacional.

Estelionato eleitoral em marcha

A revelação dos decretos secretos expõe a falsidade do discurso do candidato na reta final da campanha. Flávio Bolsonaro, que criticou abertamente a proposta pelo fim da jornada 6×1, classificando-a como “oportunista” e defendeu a flexibilização irrestrita de horários, recalculou a rota apenas diante do amplo apoio popular à medida. Em entrevistas recentes, o senador chegou a declarar que “todos os direitos trabalhistas estão garantidos” e que respeitaria as decisões do Parlamento.

Entretanto, as informações de bastidores desmascaram o candidato, que publicamente prega a manutenção de direitos, mas nos bastidores articula um “revogaço” para esvaziá-los via decreto executivo e medidas provisórias logo após empossado, se vencer.

A ameaça à conquista histórica da jornada 6×1

A tentativa de contornar a emenda constitucional que acabou com a extenuante escapa 6 X 1, via normas infralegais no primeiro dia de governo atinge diretamente o coração dessa conquista, além de pretender aprovar a PEC do seu coordenador de campanha, Rogério Marinho que introduz o conceito de pagamento por horas trabalhadas, sem descanso remunerado, devolvendo o trabalhador à vulnerabilidade da imposição patronal.

Alerta máximo para o segundo turno

A falta de transparência e o silêncio da candidatura diante do vazamento do pacote não atenuam a gravidade do cenário, pelo contrário, elevam o estado de alerta das forças populares e democráticas. A omissão deliberada de textos que afetam diretamente a vida cotidiana da população impede o eleitor de conhecer a real agenda do candidato, que sabemos nunca será a favor do trabalhador.

Manifesto pró-Lula une centro e direita contra ameaças bolsonaristas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/em-defesa-da-democracia.html 

Minha opinião

Subiu o sarrafo da luta política* 
Luciano Siqueira      


Qualquer que seja o resultado da eleição de domingo próximo, o patamar do conflito de classes no país já não será o mesmo. 

Na melhor das hipóteses, Lula reeleito para um quarto mandato enfrentará uma conjuntura extremamente complexa.

No plano institucional, o esgarçamento das relações entre os chamados Três Poderes da República - o Executivo, o Judiciário e o Parlamento.

Governará com uma maioria parlamentar oposicionista de forte expressão conservadora e de extrema direita, super empoderada com o arsenal de emendas parlamentares à disposição. 

O Judiciário, a partir do Superior Tribunal Federal, mergulhado em conflitos internos e seriamente desgastado ao olhar da opinião pública. 

Demais, a aposição implacável do complexo midiático neoliberal dominante, poderoso e hábil na formação de uma consciência social fortemente contaminada pelo ideário da elite dominante. 

Ainda que seja possível explorar oportunidades de ampliação e diversificação de relações econômicas num padrão minimamente vantajoso - mediante política externa altiva, propositiva e hábil -, enorme é a insegurança e a instabilidade no âmbito geopolítico. 

Tudo isso permeado pela absoluta necessidade de superar entraves estruturais ao desenvolvimento do país em bases soberanas e socialmente progressistas. 

Mesmo sob correlação de forças complexa e sob muitos aspectos desfavorável, o novo governo Lula e, sobretudo, as forças do campo popular e progressista, estarão chamadas a erguer a bandeira das reformas estruturais.

Nesse cenário, um dado novo extremamente promissor: a movimentação de massas de grande envergadura ora desencadeada no apoio à candidatura de Lula e na resistência à ameaça de um novo governo de extrema direita, que tende a se firmar como uma espécie de “fator rua” no desdobramento da situação. 

Um passo adiante que o conflito de classes e a luta no plano institucional parecem alcançar. 

E mesmo que ainda patine na superação de dificuldades decorrentes de mudanças estruturais no mundo do trabalho e da ascensão da complexa comunicação midiática digital - essa Esfinge que as correntes de esquerda e movimentos sociais ainda não conseguiram desvendar plenamente -, a juventude e demais parcelas da sociedade que ganharam as ruas neste segundo turno das eleições tudo indica que vieram para ficar. 

Isso pode significar novo patamar na luta política no país. 

Como se diz nas provas de salto em altura do atletismo olímpico, "subiu o sarrafo" da luta política no Brasil. 

*Texto da minha coluna semanal no ‘Vermelho’ www.vermelho.org.br   

Leia também: Manifesto pró-Lula une centro e direita contra ameaças bolsonaristas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/em-defesa-da-democracia.html