23 setembro 2026

Editorial do 'Vermelho'

Acabar com as bets! Pauta do povo ocupa centro da campanha de Lula
Ao tempo em que ocupa as ruas e redes, a campanha de Lula foca a vida concreta da população, demonstra que Flávio Bolsonaro está do lado dos ricaços e contra o povo
Editorial do 'Vermelho' 

A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição entrou numa fase de maior conteúdo voltado para o povo, depois de um período em que a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) interditou o debate de temas que afetam diretamente o povo e o país. A campanha trouxe ao debate público o que é essencial: renda, trabalho, saúde, educação, direitos sociais, redução do endividamento, o direito do povo à paz e à segurança, fim do feminicídio, entre outras bandeiras.

É nesse terreno concreto, no eixo da vida real, que a campanha de Lula ganhou impulso, abordando temas como o reajuste do Bolsa Família, o anúncio, em breve, de medidas contra as bets, as chamadas canetas emagrecedoras no Sistema Único de Saúde (SUS) e o problema do endividamento. São questões que falam diretamente ao cotidiano popular e recolocam a eleição diante daquilo que realmente importa para a vida das pessoas.

O reajuste do Bolsa Família já é fato. A partir de outubro, o benefício mínimo passará de R$ 600 para R$ 691, uma recomposição de 15,04%, enquanto o benefício médio estimado subirá de R$ 675 para R$ 777. O benefício por pessoa aumentará de R$ 142 para R$ 164, o Benefício Primeira Infância passará de R$ 150 para R$ 173 por criança e o Benefício Variável Familiar subirá de R$ 50 para R$ 58.

O Bolsa Família está presente nos 5.570 municípios brasileiros e alcança 19,29 milhões de famílias, com benefício médio de R$ 678,18 e repasses de aproximadamente R$ 13 bilhões no mês. Isso significa que a transferência de renda entra simultaneamente em milhares de cidades, bairros, pequenos estabelecimentos, supermercados, farmácias, feiras, padarias, transportes e serviços, circulando rapidamente em economias municipais nas quais uma parcela significativa do consumo depende da renda das famílias mais pobres.

Estudo do Banco Mundial divulgado pelo Ministério do Desenvolvimento Social mostrou que a expansão do programa produz efeitos positivos sobre o consumo, o emprego, a bancarização e a arrecadação tributária. A estimativa é de que R$ 5,8 bilhões serão injetados na economia em 2026 e cerca de R$ 22 bilhões a R$ 22,7 bilhões por ano em 2027 e 2028.

As medidas contra as bets completam esse movimento pelo outro lado. Se o Bolsa Família coloca dinheiro no bolso, a luta contra a disseminação das apostas pretende impedir que esse dinheiro seja drenado por uma perversa engrenagem associada ao endividamento e à vulnerabilidade financeira. Lula foi direto e inequívoco: “Se depender de mim, a gente fecha as bets.” Em outra passagem, questionou: “Se as bets causam o mal que a gente acha que causam, por que a gente não acaba com as bets?” “O lucro não pode estar acima da vida das pessoas”, resumiu a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ).

Nádia Campeão, presidente em exercício do PCdoB, aplaude a decisão do presidente Lula de alertar o povo e mobilizar a sociedade brasileira contra as bets, asseverando que elas estão afetando gravemente as famílias brasileiras, em especial as mais carentes. “As apostas retiraram quase R$ 140 bilhões da economia do país e levaram o SUS a gastar mais de R$ 30 bilhões para cuidar de doenças como depressão e ansiedade”, afirmou.

O governo também estuda novas medidas para ajudar as famílias a sair do endividamento. A iniciativa dá continuidade ao Novo Desenrola Brasil, criado por Lula em maio. Essa nova fase, em elaboração, objetiva em vez de renegociar, quitar dívidas antigas, possivelmente, via Tesouro Nacional. Embora, ainda, sem data definida sinaliza o compromisso do presidente Lula de oferecer máxima ajuda para as famílias saírem do tormento das dívidas.

Sobre a disponibilização gratuita no SUS das chamadas canetas utilizadas no tratamento da obesidade, o governo prepara protocolo para utilização responsável dos medicamentos e trabalha também com a expansão da produção nacional, concorrência e redução dos preços, facilitando o acesso à saúde e potencializando a capacidade tecnológica do país.

Flávio Bolsonaro representa a negação dessa agenda. Ele, por exemplo, realiza uma verdadeira cruzada contra a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1. Opõe-se, ferrenhamente, a que o/a trabalhador/a tenha mais um dia de descanso. O partido dele, o PL, entrou na Justiça para derrubar o reajuste do Bolsa Família. Seu programa de governo não garante o aumento real do salário-mínimo, tampouco das aposentadorias. Deve ser desmascarado: se eleito, será o governo dos banqueiros e dos ricaços, contra o povo e os trabalhadores, isto é a essência de sua agenda neoliberal.

Integra a pauta do povo a defesa da soberania nacional, que hoje significa impedir que o Brasil e suas riquezas caiam nas garras de Donald Trump, pois Flávio Bolsonaro é um sabujo do presidente dos Estados Unidos, um traidor da pátria. Igualmente, o regime democrático é bandeira do povo. É na democracia que os trabalhadores e as forças populares usufruem das condições para se organizarem, reivindicar direitos, defender políticas públicas e decidir os rumos do país. Se eleito, Flávio Bolsonaro, tal e qual seu pai, que se encontra preso por tentativa de golpe, já explicitou que irá atacar as liberdades para impor um regime autoritário-ditatorial.

Nesta reta final do primeiro turno, a frente democrática e popular, em especial, as forças progressistas, devem ocupar com intensidade crescente, dia a dia, até quatro de outubro, as ruas e as redes, disseminando os compromissos de Lula, a pauta do Brasil e do povo para o futuro e desmascarando, num combate sem tréguas, Flávio Bolsonaro. A campanha deve, ainda, ter especial direcionamento ao eleitorado que oscila entre as duas principais candidaturas. A mobilização nacional marcada para o próximo domingo, dia 27, tem a importância de criar nas ruas e praças e nas redes um clima de vibração e entusiasmo que sinalize a possibilidade concreta de vitória. E que vá convocando, desde já, a necessidade de comparecimento maciço às urnas.

Brasil na resistência à onda neofascista https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_0863894061.html

Palavra de poeta

Solo da paixão
Antonio Cícero    

O solo da paixão não dura mais
que um dia antes de afundar, não mais
que esta noite ou esta noite e um dia
e o clarão da noite antes de amargar.
Um dia solar eu vou lhe entregar:
que ela sequestre o mundo por um dia
(um dia só será que já vicia?)
depois devolva  tudo: terra céu e mar.


[Ilustração: Albena Vatcheva]

Leia também "Em violino fado", poema de José Saramago https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/palavra-de-poeta_01034304464.html 

Sylvio: prepotência

Na ONU, enquanto o presidente Lula fazia um discurso equilibrado propondo o melhor desempenho da organização e busca da paz, Donald Trump, com a arrogância e a prepotência que lhes são peculiares, simplesmente ameaçava destruir o Irã .

Sylvio Belém 

Desempatar é urgente! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_02008909635.html 

Uma crônica de Ruy Castro

Quer ser empregado de um robô?
Robôs já são capazes de fazer tudo, exceto pinçar um pelo encravado ou descascar uma banana. Para isso, uma empresa de IA criou um serviço para eles: Rent a Human, ou Alugue um Humano
Ruy Castro/Folha de S. Paulo    

Estava demorando. Depois de aprender a fazer em microssegundos operações que levariam uma eternidade para um humano, os robôs estão se aventurando agora naquelas que são naturais para nós, mas, por enquanto, inalcançáveis para eles. Exemplo: "Hei, Robby, me traz um café!".

Para tanto, o robô precisará saber identificar as portas e gavetas certas do armário, abri-las e reunir os apetrechos: coador, filtro, pó de café, colher, xícara e açúcar ou adoçante. Feito isso, terá de aprender a abrir o saco de pó sem rasgá-lo, pôr a água para ferver, despejá-la sem molhar seus eletrodos, encher a xícara, mexer com a colherinha e, no caso de adoçante em cubinhos, desfazer o invólucro —façanha de respeito mesmo para humanos. Até agora, os robôs estão fracassando. Como são mais cérebro do que corpo, e ainda por cima eletrônico, não têm muito jeito com as mãos.

Ao contrário deles, qualquer criança já nasce sabendo segurar um objeto com o polegar. Logo conseguirá executar os 27 movimentos de que, segundo a ciência, a mão é capaz e, em pouco tempo, servirá um competente café. Posso garantir isso porque, há pouco, até eu, analfabeto na cozinha, fui capaz dessa proeza —digo, servir um café. Donde os robôs estão tentando chegar aonde as crianças e eu já chegamos.

Enquanto não chegam lá, os robôs, cientes de suas limitações, resolveram agir. Uma empresa de IA nos EUA acaba de criar um serviço, Rent a Human —Alugue um Humano—, para desempenhar missões ainda supercomplexas para eles, como fazer truques com cartas de baralho, pinçar um pelo encravado ou descascar uma banana. Já há até sites com anúncios classificados em que humanos oferecem seus serviços profissionais para robôs, cada qual descrevendo sua especialidade.

Ao saber disso, comecei a preparar um currículo para o caso de ter de me colocar na praça. Passei a vida me esforçando para escrever com clareza, objetividade e verdade. Mas, se preciso for, sou capaz também de simular uma tese de pós-doc, um poema-piada ou um texto da IA.

Leia também: “Livros como a roupa do corpo” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/minha-opiniao_35.html 

Postei nas redes

A primavera começa hoje. Que seja o prenúncio da reeleição de Lula. 

Desempatar é urgente! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_02008909635.html   

Lula na ONU

Na ONU, Lula sobe o tom contra o imperialismo:“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”   
Presidente denuncia investidas neocoloniais, cobra o Conselho de Segurança e afirma que a democracia brasileira pertence aos brasileiros
Davi Dmolir/Vermelho  

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou a tribuna das Nações Unidas nesta terça-feira (22) para rechaçar qualquer tipo de tutela sobre o Brasil e a ingerência externa no processo eleitoral brasileiro.

Na abertura da 81ª Sessão da Assembleia Geral, em Nova York, Lula expôs as contradições vigentes nas relações internacionais e tratou de todos os temas que afligem a humanidade.“Somos chamados a optar entre: multilateralismo ou unilateralismo; democracia ou extremismo; soberania ou subordinação”, declarou.

O presidente tratou o momento atual como o período mais severo da diplomacia internacional nas últimas duas décadas e cobrou assertividade do organismo multilateral. “Desde que ocupei pela primeira vez esta tribuna, em 2003, este é o momento mais crítico das Nações Unidas. O sentimento que me move hoje é o da indignação. A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. (…) Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel”, afirmou.

Saiba mais: Lula aponta a perda de credibilidade do Conselho de Segurança da ONU; leia discurso na íntegraw

Soberania e integração regional

Sem mencionar explicitamente a política expansionista norte-americana, Lula criticou a postura hegemônica dos EUA: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomente o desenvolvimento”. Ele vinculou as recentes tentativas de interferência política no entorno regional aos interesses geopolíticos sobre recursos estratégicos, a que se referiu como posturas anacrônicas na América Latina. “Diferenças ideológicas não devem ser obstáculos para maior integração entre vizinhos. Os países da região conheceram os horrores dos regimes de exceção. Percorremos um longo caminho para restaurar a vontade popular. A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais.

A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos”, disse.

Ele aproveitou para defender a autodeterminação dos países e destacou o que o povo venezuelano merece definir seu destino, classificou e o bloqueio norte-americano a Cuba como punição coletiva.

Combate ao crime e segurança das fronteiras

O chefe de Estado brasileiro também destacou o combate às facções criminosas e rejeitou a militarização externa ou a ingerência de potências estrangeiras na defesa do território sob a alegação de combate ao terrorismo. “O Brasil não subestima o desafio representado pelo crime organizado. Estamos preparados para enfrentar as organizações criminosas que aterrorizam nossas comunidades. Trabalhadores são roubados. Mães perdem seus filhos. Policiais não voltam para suas casas. As pessoas estão cansadas da violência”, pontuou. “Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime”, acrescentou, deixando claro que a proposta de cooperação e de combate conjunto à lavagem de dinheiro foi entregue ao governo norte-americano.

​Defesa do processo eleitoral

​Lula aproveitou a proximidade das eleições no país, e mandou um recado contra a ameaça sobre a autonomia das instituições e a lisura da disputa democrática no Brasil.“Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais. Teremos um pleito transparente e competitivo, em que todos os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão. Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país. Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros”, enfatizou, garantindo que “ninguém…!!! Ninguém nos afastará desse caminho”.

​A paz e a crítica ao genocídio

​O presidente foi interrompido por aplausos várias vezes. Ele enfatizou a busca por soluções pacíficas e o repúdio ao uso da força militar no cenário internacional. “A guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política. Num mundo interdependente, liderar é conciliar os interesses da pátria com os da humanidade”, ressaltou.

Lula recebeu uma salva de palmas ao condenar a tragédia no Oriente Médio, afirmando que gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma do “genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza”.

Neoliberalismo digital e regulação

​Na agenda econômica e tecnológica, o presidente criticou a desregulamentação das grandes corporações do setor e defendeu a soberania nacional sobre ativos digitais. “Vivemos uma revolução tecnológica sem precedentes, com grandes riscos e oportunidades. Um punhado de tecno-oligarcas quer ressuscitar uma versão de neoliberalismo digital, sem regras nem transparência. Empresas que conhecem os riscos de seus produtos transferem para as famílias a impossível tarefa de enfrentar os algoritmos”, denunciou.

O presidente também refutou qualquer ameaça contra a plataforma de pagamentos do Brasil. “Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso PIX, uma infraestrutura de pagawmentos pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros.

E por fim criticou a indústria bilionária das BETs que “transforma o vício em lucro”(…)e “está endividando e destruindo lares. O Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio”, finalizou

Na reta final detalhes importam https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_01182604884.html 

22 setembro 2026

Dica de leitura

Condição para a soberania nacional

Luciano Siqueira     

 

O professor e pesquisador Celso Pinto de Melo, da Universidade Federal de Pernambuco, aborda elementos fundamentais para a soberania das nações em seu ensaio "Do Sputnik ao silício", publicado no Jornal GGN https://jornalggn.com.br/artigos/do-sputnik-ao-silicio-por-celso-p-de-melo/#goog_rewarded  

Destaca como a União Soviética exibiu enorme força tecnológica ao lançar o Sputnik e Yuri Gagarin no espaço, bem como ao alcançar a paridade nuclear com os EUA, mas falhou na revolução digital dos semicondutores. O erro foi concentrar nos "grandes projetos" fechados e na cópia de arquiteturas externas (como o IBM System/360 ), em vez de criar um ecossistema de inovação contínua e cumulativa.

Observa que diferente de grandes projetos estáticos (como bombardeiros ou programas espaciais), a indústria de semicondutores e silício exige inovação dinâmica e permanente.

Diferentemente, o modelo adotado pela China, que superou a fase de imitação ao estruturar um ecossistema tecnológico integrado entre Estado, mercado e universidades.

O Brasil, por seu turno, apesar de ter desenvolvido uma comunidade científica sólida e universidades de excelência, ainda enfrenta o desafio histórico de integrar a pesquisa científica ao setor industrial e de mercado.

Nesse desafiante contexto, o valor real de um ecossistema tecnológico não está em produzir isoladamente um produto (seja um chip, um avião ou um algoritmo), mas na capacidade institucional de "colocar o conhecimento em movimento" e gerar continuamente as próximas gerações de inovação.

Leia também: Marie Curie no Brasil e as contradições da modernidade https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/historia-ciencia.html