09 junho 2026

Celso Pinto de Melo opina

A revolução quântica já começou – e o Brasil ainda pode embarcar
Como uma nova geração de tecnologias pode redefinir indústria, segurança, ciência e soberania no século XXI
Celso Pinto de Melo/
substack.com     

“A ciência reúne conhecimento mais rápido do que a sociedade reúne sabedoria” - Isaac Asimov


Quando o primeiro laser foi demonstrado em 1960, muitos o viam apenas como uma curiosidade científica sofisticada. Na época, chegou a ser ironicamente descrito como “uma solução em busca de um problema”. Poucos imaginavam que, algumas décadas depois, aquela tecnologia estaria presente em leitores de código de barras, fibras ópticas, cirurgias, telecomunicações, sensores industriais, internet e smartphones.

Algo semelhante pode estar acontecendo agora com as chamadas tecnologias quânticas.

Embora frequentemente associadas a imagens futuristas – computadores extraordinários, comunicações instantâneas ou máquinas quase mágicas –, sua incorporação ao cotidiano ocorrerá provavelmente de maneira muito mais silenciosa. Assim como aconteceu com o laser, os semicondutores e a própria internet, a revolução quântica tende a chegar primeiro como infraestrutura invisível: sistemas de comunicação, sensores, segurança digital, novos materiais, medicina avançada e ferramentas industriais que a maioria das pessoas usará sem sequer perceber.

Mas há uma diferença importante em relação às revoluções tecnológicas anteriores: desta vez, a disputa geopolítica começou antes mesmo da maturação plena da tecnologia.

Estados Unidos, China, União Europeia, Reino Unido e Japão já investem bilhões de dólares em programas nacionais de tecnologias quânticas. Grandes empresas de tecnologia – como IBM, Google, Microsoft e Huawei – disputam posições em áreas como computação quântica, criptografia, sensores e redes de comunicação seguras. O motivo é simples: essas tecnologias poderão redefinir parte importante da infraestrutura econômica, científica e estratégica do século XXI.

Apesar do nome, tecnologias quânticas não significam “máquinas misteriosas”. Elas se baseiam no controle extremamente preciso de fenômenos previstos pela mecânica quântica – a teoria física que descreve o comportamento da matéria e da energia em escalas atômicas e subatômicas. Conceitos como superposição e emaranhamento quântico, antes restritos quase exclusivamente aos laboratórios e à física teórica, começam agora a ser explorados tecnologicamente.

Em geral, o público costuma associar essa área apenas aos computadores quânticos. Eles são, de fato, importantes. Em certos problemas específicos, poderão realizar cálculos impossíveis para computadores convencionais. Mas provavelmente não teremos “notebooks quânticos” ou “celulares quânticos” em casa tão cedo. Os computadores clássicos continuarão dominantes por muitas décadas.

O impacto mais imediato talvez venha de áreas menos conhecidas.

Sensores quânticos, por exemplo, poderão medir campos magnéticos, gravidade, posição e variações moleculares com precisão sem precedentes. Isso poderá transformar diagnósticos médicos, monitoramento ambiental, prospecção mineral, agricultura de precisão e sistemas de navegação independentes de GPS. Em medicina, pesquisadores já exploram técnicas capazes de detectar sinais biológicos extremamente fracos, abrindo caminho para exames mais sensíveis e diagnósticos precoces.

Outra frente estratégica envolve segurança digital. Os futuros computadores quânticos poderão quebrar parte dos sistemas criptográficos atualmente utilizados em bancos, comércio eletrônico e comunicações governamentais. Por isso, diversos países já iniciaram a transição para a chamada criptografia pós-quântica, considerada essencial para proteger dados financeiros, militares e industriais nas próximas décadas.

Também há enorme expectativa em torno do uso combinado de computação quântica, inteligência artificial e ciência de materiais. Simulações avançadas poderão acelerar o desenvolvimento de novos medicamentos, baterias mais eficientes, fertilizantes menos intensivos em energia, ligas metálicas avançadas e materiais estratégicos para energia e eletrônica.

A história mostra, porém, que revoluções tecnológicas ocorrem raramente de forma instantânea.

O transistor foi demonstrado em 1947. Mas os circuitos integrados vieram anos depois; o microprocessador só surgiria em 1971; o computador pessoal popularizou-se apenas nos anos 1980; e os smartphones só se tornariam ubíquos após 2007.

O mesmo ocorreu com a internet. Durante décadas, ela permaneceu restrita a usos militares, acadêmicos e científicos antes de transformar completamente a economia e o cotidiano.

As tecnologias quânticas provavelmente seguirão uma trajetória semelhante: uma longa fase de maturação, integração industrial e redução de custos antes de se tornarem amplamente disseminadas. Ainda assim, essa transição poderá ser mais rápida do que no passado, porque hoje já existe uma poderosa infraestrutura global de semicondutores, computação avançada, inteligência artificial e capital tecnológico capaz de acelerar sua incorporação.

A questão estratégica talvez não seja “quando teremos um computador quântico em casa”, mas sim quem controlará as cadeias produtivas, os algoritmos, os sensores, os materiais avançados e a infraestrutura associados a essa nova etapa tecnológica.

É nesse ponto que o tema deixa de ser apenas científico e passa a envolver diretamente o desenvolvimento econômico e a soberania nacional.

O Brasil ainda possui uma janela de oportunidade.

O país tem grupos científicos respeitados em física, óptica, fotônica, materiais avançados e computação. Universidades e centros de pesquisa brasileiros acumulam competências relevantes em áreas potencialmente estratégicas para a economia quântica. Nos últimos anos, também começaram a surgir iniciativas voltadas à construção de uma estratégia nacional para tecnologias quânticas, incluindo discussões sobre formação de recursos humanos, redes cooperativas de pesquisa, comunicação segura, sensores e aplicações industriais.

Mais recentemente, o debate começou a deixar o espaço exclusivamente acadêmico e passou a envolver também temas como política industrial, segurança digital e soberania tecnológica. Afinal, nenhum país constrói capacidade tecnológica avançada apenas comprando equipamentos prontos. O desafio envolve formar pessoas, integrar universidades, empresas e Estado, desenvolver instrumentação, software, materiais, fotônica e aplicações capazes de gerar competências nacionais duradouras.

Para países como o Brasil, as oportunidades talvez não estejam necessariamente na corrida pelos grandes computadores quânticos universais – hoje concentrada nas maiores potências tecnológicas do planeta –, mas em nichos estratégicos como sensores quânticos, metrologia, fotônica, criptografia, materiais avançados e aplicações específicas para agricultura, energia, mineração, saúde e monitoramento ambiental.

A experiência dos semicondutores, da microeletrônica e da computação oferece um alerta importante. Países raramente “perdem o futuro” porque ignoram completamente uma tecnologia. Em geral, perdem porque percebem tarde demais que ela deixou de ser apenas ciência experimental – e passou a reorganizar a indústria, o poder econômico e a capacidade estratégica.

Talvez o maior erro seja imaginar que tecnologias quânticas dizem respeito apenas a laboratórios sofisticados ou a experimentos distantes da realidade cotidiana. O laser também parecia distante. O transistor também parecia. A internet também.

Hoje, quase ninguém pensa neles. E exatamente por isso eles se tornaram infraestrutura.

As tecnologias quânticas provavelmente caminham na mesma direção.

O Brasil ainda possui competências científicas relevantes e uma janela de oportunidade para participar dessa nova etapa tecnológica. Mas isso exigirá continuidade, coordenação estratégica e capacidade de transformar ciência em política de desenvolvimento. Revoluções tecnológicas raramente esperam países indecisos.

A pergunta talvez não seja se o mundo quântico sairá dos laboratórios. A verdadeira questão é se o Brasil participará da construção dessa nova fronteira tecnológica – ou se, mais uma vez, chegará quando os mapas já estiverem por outros desenhados.


[1] Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Pernambucana de Ciências e da Academia Brasileira de Ciências.

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Tecnologias quânticas: soberania e inovação para o futuro do Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/palavra-de-luciana_0673507353.html 

Postei nas redes

Noticia a revista Exame, o presidente Lula alcança o primeiro lugar no Índice Datrix de Presidenciáveis, o IDP, que mede a força digital de pré-candidatos à presidência da República. Tudo a ver com a defesa da soberania nacional. 

Lula desmascara extrema direita https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/palavra-de-lula.html


Sylvio "enrolados"

Enquanto Flávio Bolsonaro está  enrolado até o pescoço com a corrupção do Banco Master, Mário Frias vive uma fria com os milhões que seriam destinados ao filme sobre a vida do ex-capitão. Ao que parece, o horizonte para a extrema direita está bastante obscuro e  promete mais escândalos.

Sylvio Belém 

Caso Master: os personagens que os vazamentos protegeram https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/fantasmas-do-banco-master.html 

PCC e CV na Faria Lima

PGR investiga a conexão de fundos e fintechs com o crime organizado desde 2020
A pandemia por Covid-19 e o desmonte da Operação Lava Jato retardaram e desmobilizaram ações de procuradores que teriam evitado o avanço de PCC e CV na Faria Lima
Liberta 
 

Por dever de ofício e em razão dos cargos que ocupam na estrutura da Procuradoria Geral da República, subprocuradores-gerais que auxiliam o procurador-geral, Paulo Gonet, reabrem aos poucos e cautelosamente um acervo de informações e investigações inconclusas que poderiam ter antecipado em alguns anos a descoberta de conexões entre os mecanismos de lavagem de dinheiro das facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) e as fintechs e os fundos de investimento cujos cérebros estão sediados no centro financeiro do país, a Avenida Faria Lima (São Paulo).

Entre os anos de 2020 e 2021, em razão das urgências operacionais demandadas pela pandemia de Covid-19 e pelas ilegalidades que vinham sendo reveladas em ações da Operação Lava Jato, foram paralisados os entrecruzamentos de contas e investimentos que ocultavam a origem de recursos e dispersavam a atenção de órgãos de controle. Em 2022, a PGR chegou a rascunhar acordos de cooperações internacionais de investigação com nações europeias (o “EuroJust”) e com países integrantes da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Esses acordos deveriam ter sido chancelados pelo Congresso brasileiro. Nunca foram. Senado e Câmara dos Deputados arquivaram todos os procedimentos de chancela. Esse corpo mole parlamentar foi um bálsamo para o crime organizado seguir contaminando as contas de instituições financeiras com o chorume de suas ações de lavagem de dinheiro e “branqueamento de capitais”. Agora, com a reunião de dados das operações Tank, Carbono Oculto, Carbono 086, Compliance Zero e Fluxo Oculto no “mind map” dos investigadores da Polícia Federal, Ministério Público da União, Ministério Público de São Paulo, Receita Federal, Banco Central e Coaf, abre-se nova janela de oportunidade para seguir os descaminhos do dinheiro do crime – e é isso que leva as operações investigativas para os endereços abastados da Faria Lima.

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Leia também: Para além do “economicismo governamental” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/minha-opiniao_5.html

Uma crônica de Enio Lins

A copa do mundo e as memórias de um torcedor muito grosso
Enio Lins  

POR PURO PATRIOTISMO palpitei 4x0 para o Brasil pouco antes do início do jogo contra o Egito, durante entrevista na rádio Delmiro FM. Chutei. Não tinha a menor ideia da correlação de forças entre as seleções. Deu 2x1 a favor do escrete canarinho.

POR PATRIOTISMO PURO
torço danadamente para que nosso Brasil conquiste a sexta estrela. Não posso prometer que esse meu esforço de torcedor quadrienal se traduza em assistir todos os jogos, pois há muitas décadas assumi ter simpatia zero para com o futebol, sentimento igualitariamente distribuído em relação a acompanhar quase todos os esportes – à exceção do boxe e algumas modalidades olímpicas. Nada, entretanto, se aproxima da minha antipatia pela Fórmula 1, pois nunca entendi como alguém pode concentrar atenção numa competição na qual quem torce é capaz de destroncar o pescoço ao tentar acompanhar bólidos passando a mil por hora: zum! zum! zum!

TENTEI DE TODO CORAÇÃO
me ligar ao futebol. Em minha meninice isso era exigência social e rito de passagem: jogar bola, ter um time para torcer, ir ao estádio. Jogar bola sem ser ridículo sempre me foi impossível, mas fui um dos fundadores do Mangabeiras Futebol Clube, agremiação que nem sempre alcançava os 11 voluntários para disputar uma partida, e o time achava menos arriscado jogar com 10, ou nove, pois minha presença dentro das quatro linhas era um risco terrível. Testado nas 11, fiquei garantido na 12ª posição, depositado no banco. Mas era titular na redação dos ofícios manuscritos, em papel pautado, convidando times adversários para disputas quase sempre perdidas, apesar de Marcus, Marlon e Gibson jogarem bem. De vez em quando, contávamos com o craque Noé. Tive sucesso ao desenhar o escudo do MFC, copiado do Fluminense por conta do único terno de camisas que pudemos adquirir – de segunda ou terceira mão – ser tricolor no padrão verde-branco-grená. Não tivemos outra camisa, pois o time encerrou sua jornada de insucessos com menos de um ano de areiões e chão-de-barro-batido, como eram os campos em inóspitos terrenos baldios na Mangabeiras e no Jacintinho.

DOS 11 AOS 17 ANOS
de idade, entre 1968 e 1974, fui assiduamente aos estádios. Antes do Trapichão, frequentei as arquibancadas da Pajuçara e do Mutange. Por influência de minha Vó Tila (Domitila Lins da Silva), militante do cordão encarnado no Pastoril, aderi ao Clube de Regatas Brasil. Fiz parte do embrião da torcida organizada regatiana, então um punhado de gente em torno da batucada regida por Ascendino Santos (líder de um “regional”, como chamavam-se os grupos de samba, choros e outros brasileirismos). Eram quase todos homens negros, dentre os quais me recordo bem do pai do professor Edson Alcântara, um mecânico idoso com postura de rei ou xamã africano, cujo nome nunca soube, mas que me tratava como se eu fosse um neto, e não se cansava de tentar me explicar os lances em campo, pois minha ignorância era acintosa. Eu só distinguia o gol. No começo de 1974, num final de jogo no Rei Pelé procurei meu “avô africano” e expliquei que ia me afastar para estudar para o vestibular. O velho pai do professor Edson me deu força: “Está certo, rapaz. Estudo deve vir em primeiro lugar, e vestibular é coisa séria. Estude, passe, e depois volte”. Estudei, passei e não voltei mais. Contabilizo 52 anos sem ir a um estádio para ver uma partida. No final de 1994, voltei ao Rei Pelé, num CRB x CSA, mas apenas por uns minutos no intervalo – noutro artigo contarei o porquê.

INSPIRADO PELO 2x1
da partida que não assisti, repito – sem preconceito, por ter sido slogan criado pela ditadura – o brado da Copa 1970: PRÁ FRENTE BRASIL!! Minhas lembranças se concentram ali porque foi a única que acompanhei todos os jogos – pela TV, lógico – e sabia até a escalação completa. Em resumo: VIVA A SELEÇÃO! VAMOS AO HEXA!!!

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Futebol permite sonhar o sonho impossível https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/futebol-ciencia-arte.html 

08 junho 2026

Palavra de poeta

Tereza

Manuel Bandeira    

A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

[Ilustração: Marie Fox]

Leia também: "Da rede tudo se ouve e se imagina" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_29.html 

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