18 agosto 2026

Fragmentos

A campanha eleitoral é uma batalha em múltiplas frentes e tarefas que se sucedem ininterruptamente e se entrelaçam. A direção tem que identificar a cada instante qual a tarefa central e agir com firmeza em função dela. Fora disso, o espontaneísmo toma conta. 

(Anotação minha de 20/9/98). 

Pequenas grandes contribuições https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/pequenas-grandes-contribuicoes.html 

Palavra de poeta

DESAFIOS
Marcelo Mário se Melo     

Desafios pedem passagem
numa malha a se trançar
feita em fibras resistentes
num vigoroso tear
desafios de anteontem
em novo recomeçar.
 
Desafios renitentes
repetindo seus clamores
ante ouvidos insensíveis
de rotineiros atores
presos ao mesmo pincel
pintando com as mesmas cores.
 
Desafios em corpo vivo
computando resultados
alianças de latão
acordos enferrujados
nas moendas da mesmice
nos esquemas superados.
 
Desafios já antigos
em lamentos atuais
esperando que um dia
contrariando o jamais
surjam atores atentos
que não lhes descuidem mais.
 
Desafios postos na mesa
desafios em prontidão
desafios em estudo
desafios à solução
desafios  em ultimato
desafios clamando ação.
 
[Ilustração:  
Edvard Munch]
 
Leia também: "a parede e a flor", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/palavra-de-poeta_01116453344.html 

Fragmentos

A paciência frequentemente é uma atitude revolucionária. 

(Anotação minha de 22.9.98)

Pequenas grandes contribuições https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/pequenas-grandes-contribuicoes.html 

17 agosto 2026

Lula em São Bernardo

Lula dá largada à campanha de 2026 com soberania no centro da disputa
Em São Bernardo, presidente abre sua sétima campanha presidencial com ato marcado por memória sindical, defesa da democracia e mobilização popular.
Barbara Luz/Vermelho  
 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu oficialmente, neste domingo (16), sua sétima campanha à Presidência da República com um ato no Estádio Primeiro de Maio, a histórica Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP). O lançamento reuniu militância do PT e das legendas da coligação “O Brasil Pronto Pra Mais” — PDT, PSB, PCdoB, PV e Psol e Rede —, além de centrais sindicais, movimentos sociais, caravanas de diferentes estados e apoiadores da chapa Lula-Alckmin.

A escolha do local buscou conectar a disputa de 2026 à trajetória política e sindical de Lula. Foi na Vila Euclides que milhares de metalúrgicos realizaram as grandes assembleias das greves do ABC no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, mobilizações que desafiaram a ditadura militar e contribuíram para a reorganização do movimento sindical e para o surgimento do PT. Em 1979, uma das primeiras grandes assembleias reuniu mais de 60 mil trabalhadores.

Antes do discurso do presidente, trabalhadores que participaram daquele período subiram ao palco e relembraram a organização nas fábricas e a luta pela democracia. Ao final do encontro, Lula e antigos companheiros de movimento sindical deram as mãos e as ergueram diante da militância que ocupava as arquibancadas e o gramado.

O passado também apareceu em um vídeo exibido durante o ato, no qual imagens das greves de 1979 foram combinadas com uma espécie de diálogo entre o Lula daquele período e o atual presidente. “Aguenta companheiro, que a democracia vai vencer”, diz Lula. Em seguida, a mensagem aponta para a nova etapa da disputa: “Aqui, em 2026, a gente reconstruiu o Brasil e quer mais”.

Soberania e segurança pública no centro do discurso

A defesa da soberania nacional atravessou os discursos do ato. O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), candidato novamente na chapa de Lula, associou a mobilização histórica dos trabalhadores à defesa da democracia. “Aqui quem faz o gol é a democracia. Os trabalhadores nos ensinaram como se faz a democracia”, afirmou. Alckmin também defendeu a indústria nacional, o Pix e a soberania brasileira.

Lula também tratou da segurança pública, reafirmando o compromisso de criar o Ministério da Segurança Pública caso a PEC da Segurança seja aprovada no Congresso. O presidente criticou o afrouxamento das regras para compra de armas promovido pelo governo anterior e disse que parte do arsenal vendido naquela gestão acabou abastecendo o crime organizado.

Em tom emotivo, o presidente relembrou a trajetória da mãe, Dona Lindu, e a greve de 1979, e voltou a fazer acenos ao eleitorado feminino, tema recorrente nas falas de aliadas como a primeira-dama Janja da Silva, que discursou e cantou ao lado do cantor Kleber Lucas, e as candidatas ao Senado Simone Tebet (PSB-SP), Marina Silva (Rede-SP) e Gleisi Hoffmann (PT-PR). Ao falar às mulheres, fez um chamado contra a violência e a submissão: “Mulheres desse país, não abaixem a cabeça nunca, porque nós homens precisamos aprender a responder vocês”.

Tebet e Gleisi dirigiram críticas à campanha de Flávio Bolsonaro (PL), principal adversário de Lula segundo pesquisas recentes, em especial ao uso de bandeiras dos EUA em atos do candidato do PL. “Enquanto eles falam de pátria, quem defende as cores da bandeira somos nós”, disse Tebet.

PCdoB convoca militância às ruas e às redes

Integrante da coligação que apoia a reeleição de Lula, o PCdoB participou do lançamento com dirigentes e militantes. A presidenta nacional do partido, Nádia Campeão, afirmou que a abertura oficial da campanha inaugura uma nova etapa de mobilização e convocou a militância a disputar votos para Lula e para as candidaturas comunistas. “Hoje começa a campanha, agora é pra valer, dá pra usar nome, número, agora é pedir voto. Pedir voto pro Lula, pros nossos candidatos a governador, governadora, senadores, mas principalmente, vamos pedir voto pros nossos candidatos e candidatas do PCdoB”, afirmou.

A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Luciana Santos (PCdoB), destacou a necessidade de levar a campanha às ruas e às redes, com um debate capaz de mobilizar a sociedade em torno de um projeto de país. “Agora nós precisamos garantir nas ruas e nas redes o bom debate, elevado, politizado, que empolgue as pessoas, que inspire as pessoas para agarrar sonhos, para acreditar nesse país”, declarou. Luciana vinculou a disputa eleitoral à defesa do interesse nacional: “Nós somos os verdadeiros brasileiros. Somos nós que defendemos o interesse nacional. Viva a soberania, viva Luiz Inácio Lula da Silva”.

Com a largada em São Bernardo, a campanha Lula-Alckmin entra oficialmente nas ruas buscando transformar a memória das lutas do ABC em mobilização para a disputa de outubro — agora sob o lema de que o Brasil está “pronto pra mais”.

A soberania em destaque https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_01847079127.html 

Minha opinião

Anel pra quê?
Luciano Siqueira 

A novidade agora é um tal anel inteligente que você põe no dedo e ele monitora indicadores fisiológicos, como o sono, a frequência cardíaca e a temperatura corporal. Permanentemente.

Se for um modelo mais sofisticado, mais caro, com ele é possível fazer pagamentos por aproximação, receber notificações através de vibrações e coisas mais. 

Sinceramente, nada contra artefatos tecnológicos produtos do incessante desenvolvimento da ciência. 

Neste caso, trata-se de algo para mim inalcançável: custa em média R$ 6000 e os mais sofisticados em torno de 8.000.

“E se você ganhasse na mega-sena, com dinheiro sobrando no banco, comprar um anel desses seria fichinha” — comenta meu amigo Epaminondas, ele impressionadíssimo com a geringonça. 

Digo que não. De jeito nenhum! 

Basta o telefone celular, esse computador minúsculo que carregamos no bolso. Nem sei o que falta fazer através dele, bastando 3 ou 4 toques num aplicativo qualquer. 

Dito isso, chama a atenção um detalhe: o tal anel não tem tela e os dados que emite temos que ler na tela de um celular via aplicativo específico. 

Como costuma dizer o querido Marquinhos, de Aracaju, "estou fora!"

A soberania em destaque https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_01847079127.html 

Arte é vida

 

Candido Portinari

Três "questões de ordem" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0658357328.html 

Thiago Modenesi opina

Milei, a extrema direita e a erosão da democracia nas Américas
A tecnologia política da extrema direita não admite mediação; é um mecanismo que exige o esvaziamento da própria democracia
Tiago Modenesi/Vermelho    

A participação de Javier Milei na convenção nacional do Partido Liberal (PL) em São Paulo, no dia 25 de julho, não foi um mero gesto de solidariedade ideológica entre pares. Foi a materialização de um projeto continental da extrema direita: o desmonte sistemático das relações institucionais entre os países das Américas como estratégia para enfraquecer a democracia, substituindo o diálogo diplomático pela provocação, o respeito mútuo pelo insulto e a cooperação regional pela interferência eleitoral descarada.

Milei subiu ao palco do Pacaembu ao som de rock e, durante quase 30 minutos, ofereceu um show de degradação do debate político. Chamou o presidente Lula de “ladrão”, “presidiário”, “lixo socialista” e “totalitário”. Referiu-se ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, como “lixo careca”. Acusou Lula de tentar fraudar as eleições argentinas de 2023 e de conduzir o Brasil a uma crise de dívidas.

Não se tratam de críticas políticas. Trata-se de um método: a aniquilação do outro como sujeito político legítimo. A extrema direita de Milei não reconhece adversários, reconhece todos como inimigos a serem destruídos. É uma tecnologia política que não admite mediação, um mecanismo que exige o esvaziamento da própria democracia.

A reação do Itamaraty foi imediata: convocou o embaixador argentino e chamou de volta o embaixador brasileiro em Buenos Aires para consultas. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, classificou Milei como palhaço. O presidente Lula, com a ironia que lhe é característica, respondeu ao ser perguntado sobre os ataques: “Quem é esse cara?”. Mas, a crise não é apenas diplomática. É estrutural.

Milei não age sozinho. Ele é a ponta de lança de uma ofensiva coordenada da extrema direita que já governa sete dos 12 países da América do Sul. Da Colômbia de Abelardo de la Espriella ao Chile de José Antonio Kast; da Bolívia de Rodrigo Paz ao Peru de Keiko Fujimori, o que se vê é a ascensão de um bloco político que não apenas compartilha uma agenda econômica ultraliberal, mas também uma mesma concepção autoritária do poder.

Essa direita não é liberal no sentido clássico. É uma direita que ataca direitos das minorias, que tem uma relação mais precária com a democracia, que professa um alinhamento automático com os Estados Unidos e que vê nas instituições (tribunais, parlamentos, organismos multilaterais) não garantias da democracia, mas obstáculos a serem removidos.

O próprio Milei já anunciou o desmonte total do Estado argentino com 90 reformas estruturais. Seu governo é uma experiência política radicalizada de reconfiguração do Estado e da economia, na qual a suposta emergência econômica é instrumentalizada para justificar um estado de exceção permanente que favorece a reconfiguração do Estado em prol do capital financeiro.

Aqui está o núcleo da questão: a diminuição da institucionalidade é a diminuição da democracia. As relações institucionais entre países, o respeito à soberania alheia, a não interferência em assuntos internos, o diálogo diplomático como norma, não são formalidades vazias. São os andaimes da convivência democrática entre nações.

Quando um chefe de Estado viaja a outro país para interferir abertamente em seu processo eleitoral, chamando o presidente em exercício de “ladrão” e “presidiário”, o que está em jogo não é apenas o protocolo. É o princípio da autodeterminação dos povos.

Mas a interferência de Milei não é um desvio. É a regra da nova extrema direita continental. Ela se insere em um movimento mais amplo que busca se posicionar como um contrapeso à chamada ordem liberal internacional e aos valores progressistas que sustentaram o sistema internacional do pós-guerra.

Desmontar as instituições internacionais, desde a diplomacia bilateral até os fóruns multilaterais, é desmontar a democracia, porque é desmontar os mecanismos pelos quais os povos e seus representantes dialogam, negociam, resolvem conflitos e constroem futuros comuns.

Milei encerrou seu discurso com um grito: “Viva la liberdade, carajo!”. É a mais cruel das ironias. Porque o que sua postura e a de seus aliados continentais promovem não é liberdade, mas a liberdade do mais forte, a liberdade do capital financeiro de subjugar Estados, a liberdade do discurso de ódio de destruir a política, a liberdade do autoritarismo de solapar a democracia em nome de uma suposta emergência permanente.

A extrema direita que avança nas Américas não quer menos Estado. Quer um Estado diferente: um Estado que não proteja, que não regule, que não redistribua, que não dialogue. Um Estado que se curve ao mercado e à geopolítica dos EUA, que desmonte direitos e que transforme a política em espetáculo.

O episódio da convenção do PL não é apenas mais um escândalo diplomático. É um sintoma e um presságio. Sintoma de que a extrema direita continental descobriu que pode avançar não apenas pelas urnas, mas pelo desmonte das regras do jogo, dentro e entre os países. Presságio de que, se esse projeto não for enfrentado, a democracia nas Américas será cada vez mais um invólucro vazio, uma formalidade sem substância.

A resposta a Milei não pode ser apenas o “quem é esse cara?” de Lula, por mais precisa que tenha sido a ironia. A resposta deve ser o fortalecimento das instituições democráticas, nacionais e internacionais. A defesa da diplomacia como prática civilizatória. A rejeição de qualquer tentativa de transformar a política em guerra e o adversário em inimigo.

Porque, no fim das contas, a democracia não é um estado de natureza. É uma construção institucional, frágil, contingente, sempre ameaçada. E quando as instituições caem, o que sobra não é liberdade. É o deserto.

Leia também: Trump com poucas cartas na mão https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/fragilidades-de-trump-contra-ira.html