23 janeiro 2026

Estética imperialista

A política do espetáculo
Estética ganha dimensão de poder e controle cultural para legitimar narrativa de Trump e seus asseclas
Adriana Ferreira da Silva/Liberta   

Preso à poltrona de um avião, Nicolás Maduro aparece algemado, vendado, com os ouvidos cobertos por um fone. Suas mãos apertam uma garrafa d’água de plástico, reforçando a ideia de fragilidade. Numa sala que simula um bunker, Donald Trump fixa a tela à sua frente com os olhos semicerrados. O semblante tenso dos homens que o cercam reforça o clima de suspense.

Em cortes feitos para viralizar, as cenas mostrando a humilhação do primeiro e a vitória do segundo reafirmam um modelo de gestão baseado no espetáculo da força bruta. No show de Trump, ele encarna o xerife, numa encenação de valentia em detrimento do trabalho burocrático e deliberativo de leis e instituições como o Congresso e as organizações multilaterais.

Aqui, a estética ganha uma dimensão central de poder e controle cultural, com o objetivo de legitimar a narrativa do presidente e de seus asseclas. “Trump é um líder do passado. Sua promessa política singular é: ‘Vou levá-los de volta a um passado imaginário – antes de tudo isso acontecer, antes de todas as coisas ruins do passado acontecerem, antes de vocês se sentirem desconfortáveis, antes de sentirem medo do que poderia acontecer com vocês, antes de sentirem medo de serem alienados de seus filhos. Vai ser acolhedor e confortável, exatamente como você imagina que o passado tenha sido’”, diz Masha Gessen, jornalista e ativista em causas LGBTQIAP+, de origem russa.

Entre os livros que Gessen publicou, estão O Homem Sem Rosto: A Improvável Ascensão de Vladimir Putin (Ed. Intrínseca), Surviving Autocracy (Sobrevivendo à Autocracia) e The Future Is History: How Totalitarianism Reclaimed Russia (O Futuro É História: Como o Totalitarismo Recuperou a Rússia, em tradução livre), com o qual venceu o National Book Award, em 2017, principal prêmio literário dos Estados Unidos.

(Por se identificar como uma pessoa trans, não binária, ao longo do texto, Gessen receberá tratamento neutro.)

Propaganda do ato

Numa entrevista ao podcast Ezra Klein Show, Gessen concentra-se na dimensão do espetáculo e do que chama de “propaganda do ato”, na qual o Estado opera por meio de choques visuais para redefinir a realidade.

Realidade que, nos Estados Unidos, é moldada pela ascensão ao poder do que Naomi Klein batiza de mundo-espelho no livro Doppelgänger – Uma Viagem Através do Mundo-Espelho (Ed. Carambaia). Segundo a jornalista canadense, nessa versão invertida da vida em sociedade, fato e ficção se misturam numa existência alternativa, em que as coisas mais absurdas passam a fazer sentido e onde a verdade é distorcida e manipulada.

No mundo-espelho, Maduro infestou os Estados Unidos de pessoas saídas de instituições de saúde mental e delinquentes, a poeta Renee Nicole Good foi assassinada por tentar atropelar um agente do ICE (forças policiais que perseguem imigrantes) e os integrantes do Partido Democrata são responsáveis por uma rede de pedofilia. Deu para entender, né?

Tendo as redes sociais como plataforma perfeita de disseminação, o mundo-espelho desenhado por Donald Trump e pelo movimento MAGA (Make America Great Again) inclui essa nova modalidade de governança na qual Trump tudo pode para que os estadunidenses retornem a “gilded age”, como é chamado o período de crescimento econômico e industrialização no final do século 19 e início do 20, pouco importando as profundas desigualdades de gênero, raça e classe dessa mesma época.

De acordo com Gessen, a promessa de riqueza da “era de ouro” é acompanhada de uma “barganha totalitária” similar à usada por Vladimir Putin na Rússia. Quando o líder já não pode garantir o bem-estar econômico individual, ele oferece em troca a glória imperial: você pode ser pobre, mas fará parte de uma nação que toma a Groenlândia ou subjuga a Venezuela. É a troca do conforto pela grandeza bélica.

Para corroborar essa volta aos tempos áureos, a estética trumpista inclui desde a reforma neoclássica, que encheu de dourado o salão oval da Casa Branca, à desqualificação de qualquer pessoa que não se enquadre no padrão de “raça pura” europeia, incluindo estadunidenses de ascendência africana, asiática ou latina. Nas recentes incursões da polícia migratória em Minneapolis, há relatos de perseguição a cidadãos dos Estados Unidos devido à cor da pele e outras características físicas.

“Esteticamente, uma representação desse passado é a arquitetura clássica. É uma história americana inteiramente branca. São os grandes monumentos e tudo o mais que ele [Trump] prometeu trazer de volta”, diz Gessen. A outra perspectiva, explica, é a afirmação de uma raça superior. “Essa é a outra dimensão do fascismo. E, esteticamente, ela está muito presente. Raça pode ser definida de maneiras diferentes, mas o que vemos são homens cisgêneros brancos em excelente forma física. Esse é o ideal deste governo.”

Vírus da fraqueza

A obsessão com o vigor físico não é apenas vaidade. Para Gessen, a ideologia do governo vê a empatia, os direitos humanos e a deliberação democrática como um “vírus de fraqueza”, que teria infectado a sociedade, impedindo a “vitalidade natural” de conquista e dominação masculina, que, na visão deles, fez a “América grande” originalmente.

É claro que, como em todo Estado autoritário, essas pessoas estão longe de tal modelo. Uma demonstração é o ensaio publicado na edição de dezembro da revista Variety com personagens da alta cúpula do governo Trump, como o vice-presidente JD Vance, o secretário de Estado Marco Rubio, o conselheiro Stephen Miller e a secretária de imprensa Karoline Leavitt.

Deslocados, mal posicionados ou retratados em closes que evidenciaram poros, imperfeições e procedimentos estéticos – o preenchimento labial de Karoline recebeu comentários cruéis –, as fotos expunham o ridículo daquelas figuras. Rodaram o mundo como exemplo de desconstrução de imagens de controle que esses personagens tentam estabelecer, graças ao talento do fotógrafo Christopher Anderson.

Junto à espetacularização das demonstrações de autoridade externas e internas (como a federalização da Guarda Nacional em estados governados por democratas, como a Califórnia), Gessen destaca a “propaganda do ato”. O termo se refere a uma tática anarquista do início do século passado, que considerava que ações muitas vezes violentas e espetaculares poderiam romper com a normalidade social e mostrar que o Estado não tem o poder que se imagina.

Na versão trumpista, o cerco à Venezuela, os ataques a embarcações sob a justificativa de estarem à serviço do tráfico de drogas e o sequestro de Nicolás Maduro, bem como o assassinato de Renee Nicole Good pela repressão estatal, cumprem o papel de mostrar ao mundo e aos próprios estadunidenses que o líder “não está para brincadeira”.

Junta-se a essa estratégia uma sucessão ininterrupta de eventos para dominar o debate público numa velocidade alucinante, que, segundo Gessen, é a forma como a autocracia “hackeia” o sistema. Para ele, a democracia é, por desenho, lenta e deliberativa. Ao acelerar a produção de crises e espetáculos, o regime impede que as instituições de arbítrio tenham tempo hábil para reagir, tornando a opinião pública e a checagem de fatos irrelevantes.

Por tudo isso, Gessen é pessimista quanto às consequências dessas e de outras ações nas eleições de meio de mandato deste ano, nos Estados Unidos. Até lá, quem ainda vai se lembrar de Maduro ou Renee?

O jogador, sua aposta e a desordem mundial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eua-e-ordem-mundial-fissurada.html

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