17 maio 2026

Postei nas redes

Entra em cena o ex-deputado Eduardo Bolsonaro tentando esclarecer as relações do clã com o banqueiro presidiário Vorcaro. Diz que assinou o documento como produtor executivo do tal filme biográfico do pai. Vem mais por aí. 

Extrema direita patina na lama https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/minha-opiniao_01219044875.html

"Dark Horse"

Filme falseia a história para transformar Bolsonaro em mártir e vender conspirações
Portal Vermelho teve acesso ao roteiro do longa-metragem Dark Horse, que cria uma narrativa fictícia para converter ex-presidente em vítima heroica
André Cintra/Vermelho    

Antes mesmo da estreia, Dark Horse – a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) – já pode ser considerada a produção mais cara, controversa e escandalosa do cinema nacional. Concebido como peça de propaganda para a extrema direita brasileira, o longa está cercado por suspeitas de financiamento irregular, denúncias de lavagem de dinheiro e abusos trabalhistas.

Nesta sexta-feira (15), diversos veículos – inclusive o Portal Vermelho – tiveram acesso ao roteiro de Dark Horse, escrito em inglês pelo ator e deputado federal Mario Frias (PL-SP), ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro. O texto, longe de ser um registro documental, é uma ficção de propaganda política explícita, que falseia a história e edulcora a trajetória do ex-presidente. Frias omite sistematicamente seus crimes, mas, sem provas, atribui a terceiros a autoria intelectual do atentado que Bolsonaro sofreu em 2018, em Juiz de Fora (MG).

Se já era polêmica a ideia de glorificar um político condenado a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, as 107 páginas do roteiro reforçam o caráter manipulatório de Dark Horse. A obra procura reconstruir a imagem pública de Bolsonaro por meio de heroificação pessoal, vitimização messiânica e construção de inimigos conspiratórios.

Em linhas gerais, o roteiro se divide em três atos: primeiro, Bolsonaro surge como outsider perseguido pela imprensa e homem de família exemplar. Depois, sofre o atentado tratado como ritual de martírio. No desfecho, uma conspiração de traficantes e esquerdistas tenta assassiná-lo no hospital – mas ele sobrevive por “milagre” e vence a eleição.

O resultado é um thriller político que mistura fatos de domínio público, fantasia paranoica e propaganda emocional. No eixo central da história está a facada, transformada numa espécie de “paixão de Cristo” bolsonarista.

O mártir improvável

O roteiro opera em dois registros paralelos: a jornada do herói hollywoodiana e o martirológio cristão. Logo na abertura, um talk show apresenta Bolsonaro como um “dark horse” – o azarão improvável da política brasileira –, em oposição ao sistema corrupto representado pela esquerda.

Chamado apenas de “Jair”, Bolsonaro aparece como um político espontâneo e conectado ao “povo comum”, que “não se importa com o que a mídia pensa”. Em um flashback ambientado em 1985, ele enfrenta um traficante conhecido como “Cicatriz”, chefe do narcotráfico. A sequência tenta estabelecer Bolsonaro como militar destemido que combate o crime desde a juventude, algo sem paralelo consistente em sua biografia real.

O roteiro também investe pesadamente na dimensão familiar. Bolsonaro surge cercado pela esposa e pelos filhos – especialmente a caçula Laura – em cenas calorosas, com música, piadas e celebrações populares. Longe dos holofotes, é mostrado como homem simples, religioso e paternal.

Diferentemente da figura pública associada a declarações violentas e ataques autoritários, o Bolsonaro da ficção surge constantemente sorridente e carismático. Quando confrontado sobre ter chamado homossexuais de “viados”, responde: “Muitas pessoas usam essa linguagem. Vou tentar temperar meu jeito”. A fala sobre a deputada Gloria (“não te estupraria”) aparece sem contexto crítico, em meio a uma discussão em que a agressividade parte dela, não dele.

O roteiro trabalha intensamente a ideia de predestinação messiânica. Numa das sequências mais simbólicas, a misteriosa Dolores aborda Bolsonaro num restaurante e toca sua cabeça: “Deus me enviou. Uma febre está chegando”. Ela entrega comprimidos “milagrosos” e desaparece “como um fantasma”. A cena lembra uma anunciação bíblica e sugere que Bolsonaro seria um escolhido divino prestes a atravessar um calvário.

Esse tom religioso se repete continuamente. Antes da viagem a Juiz de Fora, Michelle convence Bolsonaro a ajoelhar-se para rezar. O atentado vira uma paixão laica: Bolsonaro é carregado pela multidão como Cristo na Via Sacra e, a caminho do hospital, “segura as próprias entranhas”.

Na sala de espera, Carlos Bolsonaro contempla quadros de La Pietà e da Ressurreição de Lázaro, alegorias religiosas transparentes. A sobrevivência do personagem se torna o ponto de virada da narrativa. Mesmo gravemente ferido, Bolsonaro se recusa a morrer. Ele toma o antibiótico dado por Dolores e sobrevive por “milagre”, numa clara alusão à intervenção divina.

Após a cirurgia, Bolsonaro se levanta pela primeira vez, e o roteiro descreve a cena como “o primeiro passo do homem na lua”. Dolores retorna para confirmar a dimensão messiânica do personagem: “Deus te poupou para a nação, para o mundo”.

Inimigos do mito

A construção dos antagonistas é igualmente reveladora. A imprensa aparece retratada como manipuladora, elitista e moralmente corrompida. A jornalista Lara Clarke, descrita como “atraente, opinativa e muito inteligente”, personifica essa caricatura.

Em diferentes cenas, Lara demonstra desprezo explícito por Bolsonaro, a ponto de celebrar a notícia de que ele teria sido esfaqueado: “Fuck Bolsonaro. He brought it on himself” (“Que se foda o Bolsonaro. Ele mesmo provocou isso”).

Posteriormente, ela divulga falsamente a morte do candidato após receber uma foto clandestina tirada por um infiltrado no hospital. Em seguida, vídeos comprovando que Bolsonaro está vivo viralizam entre apoiadores, que passam a chamá-lo de “Mito” e “A Lenda”.

Ao mesmo tempo, o roteiro associa opositores de esquerda à violência política e ao terrorismo. Bolsonaro afirma que “a esquerda controla a mídia”, manipula pesquisas e ameaça o País. Em outro discurso, acusa “globalistas”, ambientalistas e até “pedófilos de Hollywood” de conspirarem contra o Brasil. O roteiro converte teorias conspiratórias frequentemente disseminadas pelo bolsonarismo em estrutura dramática.

O atentado também é reinterpretado de maneira altamente manipuladora. O agressor, rebatizado como “Aurelio Barba”, clara referência a Adélio Bispo, não aparece como autor solitário. O roteiro cria um grande vilão: Paulo Pontes, o “Cicatriz”, traficante enfrentado por Bolsonaro em 1985.

Pontes é um ex-marxista que faz cirurgia plástica em Cuba e se transforma em barão das drogas graças à “cooperação estatal”. O personagem não encontra respaldo em nenhum fato conhecido da investigação do atentado. Sua função dramática é atribuir à esquerda o planejamento do crime.

É Tato, um de seus capangas, quem contrata Aurelio Barba para matar Bolsonaro. O próprio Aurelio é retratado como militante radical que aceita participar do atentado em troca de dinheiro. Ao abordar a tese de insanidade usada em sua defesa, o roteiro sugere uma farsa montada por advogados contratados por Paulo Pontes para encobrir o crime.

Não há evidência real de que o PT ou qualquer grupo de esquerda tenha financiado a facada. Adélio Bispo foi apontado pela investigação como autor solitário e considerado inimputável por transtornos mentais. Ao apresentar outra versão como ficção cinematográfica, o filme propaga uma teoria conspiratória sem assumir o ônus da prova.

É legítimo que uma obra de ficção tome liberdades narrativas. O problema de Dark Horse não é inventar diálogos ou condensar acontecimentos. É atribuir a pessoas reais vivas – jornalistas, magistrados e adversários políticos – condutas criminosas sem respaldo probatório.

Outro aspecto revelador é aquilo que o filme escolhe omitir. Desaparecem praticamente por completo as declarações de Bolsonaro defendendo torturadores da ditadura, os ataques ao sistema eleitoral, as ameaças ao STF, a condução da pandemia e os episódios golpistas ligados ao 8 de Janeiro.

O resultado é um personagem quase inteiramente purificado: perseguido, patriótico, espontâneo e vítima de elites corruptas. A narrativa de martírio pressupõe essa purificação para mobilizar emocionalmente a base bolsonarista e reconstruir uma memória épica de 2018.

A conspiração como roteiro

O longa reforça pilares centrais da identidade bolsonarista: a ideia de perseguição permanente, o mito do outsider antissistema, a desconfiança contra imprensa e instituições e a associação entre Bolsonaro e uma missão espiritual.

No epílogo, Paulo Pontes tenta novamente assassinar Bolsonaro no hospital, enviando capangas que acabam mortos pela polícia. Bolsonaro vence a eleição, enquanto Aurelio Barba é inocentado por insanidade, num suposto conluio do Judiciário.

A última cena mostra a posse presidencial passando na TV do escritório de Paulo Pontes. Ele desliga o aparelho e recebe um grupo de “homens importantes” numa reunião secreta. Entre eles está um homem “careca, magro e sério”, referência transparente ao ministro do STF Alexandre de Moraes. Embora não seja nomeado, o personagem é identificável o suficiente para sugerir participação numa conspiração criminosa.

Uma tarja final informa que Bolsonaro foi condenado a 43 anos por tentativa de golpe, inflando a pena real, que foi de 27 anos e três meses. Mas o filme não discute os fatos relacionados ao 8 de Janeiro nem a denúncia da PGR sobre tentativa de assassinato de autoridades. Segundo o roteiro, a condenação teria sido arbitrária.

Curiosamente, Lara Clarke é a única personagem que percorre trajetória de transformação. Inicialmente hostil a Bolsonaro, ela se redime no final ao impedir um novo atentado. O arco da jornalista sintetiza aquilo que o roteiro parece desejar do próprio espectador: uma jornada de preconceito em direção à revelação.

Dark Horse funciona como peça de reorganização simbólica do bolsonarismo após a derrota eleitoral, as investigações judiciais e as condenações do ex-presidente. Mais do que recontar acontecimentos recentes, o filme tenta disputar a própria memória política do país usando thriller, melodrama religioso e conspiração para transformar Bolsonaro em herói mitológico.

O filme e o escândalo

A ideia inicial dos produtores era lançar o longa às vésperas da eleição presidencial de 2026. Mas há expectativa de que as denúncias desta semana forcem a antecipação da estreia. Na quarta-feira (13), o The Intercept Brasil publicou mensagens e áudios revelando bastidores da produção: o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) articulou diretamente com o banqueiro Daniel Vorcaro um financiamento de R$ 134 milhões para o filme, o maior orçamento da história do cinema brasileiro.

Ex-controlador do Banco Master, Vorcaro foi preso ao tentar deixar o País enquanto era investigado por fraudes que causaram um rombo de R$ 47 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito. Seu envolvimento com o filho de Jair Bolsonaro e pré-candidato à Presidência alçou Dark Horse ao centro do escândalo nacional.

O vazamento do roteiro parece ter sido uma tentativa de deslocar o debate das páginas policiais para as editorias de política e cultura. Até esta semana, haviam sido divulgados apenas trechos esparsos do longa e imagens isoladas das filmagens, enquanto a trama permanecia cercada de sigilo. Agora, porém, Dark Horse pode ser analisado pelo que efetivamente é.

Sob o disfarce da ficção, a cinebiografia de Jair Bolsonaro sobressai como peça de propaganda baseada em omissões, revisionismo e enquadramento seletivo. O longa reescreve acontecimentos recentes para absolver simbolicamente um condenado por tentativa de golpe.

O cinema brasileiro já produziu obras ideológicas e panfletárias de diferentes orientações. Mas raramente – talvez nunca – uma produção tentou reorganizar a memória política recente do País com tamanha carga de fantasia conspiratória, financiamento suspeito e desprezo pelos fatos.

[Ilustração: imagem produzida em IA]

Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Leia também "Esticando a corda" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/minha-opiniao_01971886741.html 

16 maio 2026

Postei nas redes

Campanha em favor de um detergente contaminado. Quanta irresponsabilidade e inconsequência da extrema direita!

Angu de caroço https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Palavra de poeta

acima de tudo ame
Rupi Kaur    

acima de tudo ame
como se fosse a única coisa que você sabe fazer
no fim do dia isso tudo
não significa nada
esta página
onde você está
seu diploma
seu emprego
o dinheiro
nada importa
exceto o amor e a conexão entre as pessoas
quem você amou
e com que profundidade você amou
como você tocou as pessoas à sua volta
e quanto você se doou a elas.

[Ilustração: Almeida Junior]

"Estarei errado em minhas escolhas?" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_23.html  

Dica de leitura

Desafio teórico, político e prático
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65   

No artigo "Eleições e estruturação partidária", Altair Freitas, secretário nacional de organização do PCdoB, argumenta que as campanhas eleitorais não devem ser vistas apenas como um fim em si mesmas, mas como uma janela de oportunidade para o fortalecimento orgânico do PCdoB.

Ressalta que a mobilização em torno de candidaturas é o momento ideal para reativar a militância, atrair novos filiados e consolidar as Organizações de Base (OBs), que são o alicerce da estrutura partidária.

O êxito eleitoral está diretamente ligado à capacidade de planejamento das direções, que devem integrar as táticas de campanha ao projeto de crescimento e fortalecimento político e orgânico do Partido num horizonte de médio e longo prazo.

Para além das plataformas eleitorais imediatas, importa relacioná-las com o Programa Socialista para o Brasil, referência essencial do PCdoB como corrente política de projeto estratégico para o país.

Assim, no ambiente da agitação eleitoral é possível o debate político-ideológico mais aprofundado junto a militantes e ativistas mais avançados. Atingir os objetivos eleitorais – a conquista do voto – e ampliar a base militante do Partido.

Confira https://pcdob.org.br/noticias/eleicoes-e-estruturacao-partidaria/ 

Editorial do 'Vermelho'

R$ 61 milhões de Vorcaro a Flávio Bolsonaro. Master e extrema-direita, tudo a ver!
Impõe-se rigorosa apuração sobre as transações entre Flávio Bolsonaro e o “irmãozão” criminoso Vorcaro que somam milhões de dólares. CPI do Master, Já! 
Editorial do 'Vermelho' 

O peixe morre pela boca, segundo o ditado. É o caso do pré-candidato a presidente da República Flávio Bolsonaro, que confirmou, em mensagem de áudio para o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, tenebrosas transações envolvendo R$ 134 milhões, cerca de US$ 24 milhões, segundo relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), alegadamente para bancar o filme Dark Horse, sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Flávio Bolsonaro estava cobrando Vorcaro, porque, desse valor, foram liberados, entre fevereiro e maio de 2025, R$ 61 milhões. A Go Up Entertainment, produtora do filme, negou o recebimento de repasses de verba de Vorcaro para o projeto. Karina Ferreira da Gama, sócia-administradora da empresa, disse que a produtora só tem investimentos estrangeiros, sem ligação com o ex-banqueiro.

O deputado federal Mario Frias (PL-SP), produtor executivo do filme, que teria intermediado o apoio de Vorcaro, contradisse Flávio Bolsonaro ao negar qualquer participação financeira de Vorcaro na produção. Um pouco depois, Frias emitiu nova versão, contraditória e confusa, tentando dar cobertura a Flávio Bolsonaro.

Assim que o áudio foi divulgado, Flávio Bolsonaro disse que era “mentira” o financiamento de Vorcaro, mas depois, em nota oficial e entrevista, validou o teor da gravação e das mensagens. Mas minimizou sua relação com o ex-banqueiro, atitude que não se sustenta.

A mensagem, enviada um dia antes da prisão de Vorcaro na primeira fase da Operação Compliance Zero, em 17 de novembro de 2025 – no dia seguinte o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master –, trouxe à tona, pelas próprias palavras de Flávio Bolsonaro, como o caso Master e a extrema direita são irmãos carnais, inclusive ao tratar o ex-banqueiro como “meu irmão” e mesmo “irmãozão”. Em outra mensagem, essa escrita, o pré-candidato disse: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente.”

O mesmo tratamento ocorreu em mensagens de Vorcaro descrevendo o presidente do Partido Progressistas (PP), senador Ciro Nogueira, aliado do bolsonarismo, como “um dos meus grandes amigos de vida”, referindo-se a propostas defendidas pelo senador que poderiam beneficiar o esquema do Banco Master. O desdobramento do caso revelou também mais acusações de gangsterismo com a prisão do pai do ex-banqueiro, Henrique Vorcaro, suspeito de bancar uma espécie de milícia privada que intimidava e espionava adversários.

Uma parte dos R$ 61 milhões veio da Entre Investimentos, empresa ligada a Vorcaro e suspeita de operar para o crime organizado e lavagem de dinheiro. O grosso do montante teria sido depositado num fundo administrado nos Estados Unidos por Paulo Calixto, advogado do irmão de Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos desde o ano passado.

Uma pergunta que se impõe: por que o dinheiro não foi direto para a produtora do filme, pois a versão de Flávio Bolsonaro é de que há um contrato? A Polícia Federal já investiga se essa grande soma foi, na verdade, usada para financiar as conspirações de Eduardo Bolsonaro contra o Brasil, a exemplo do “tarifaço” imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

O envolvimento do bolsonarismo com a família Vorcaro remonta às doações de campanha eleitoral de 2022. Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro – apontado pela Polícia Federal como seu principal operador financeiro, também preso –, doou a campanha de Jair Bolsonaro R$ 3 milhões.

Tarcísio de Freitas, que seria eleito governador de São Paulo, recebeu R$ 2 milhões. Os repasses, trazidos a público pela Operação Compliance Zero, mostram também que Henrique Vorcaro destinou R$ 1 milhão ao diretório estadual do Partido Novo em Minas Gerais, legenda do pré-candidato a presidente Romeu Zema, com fortes ligações com o bolsonarismo.

O caso envolve também Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central indicado pelo então presidente Jair Bolsonaro – que, em 2022, votou vestindo a camisa amarela da Seleção Brasileira, símbolo de apoio ao bolsonarismo –, avalista da expansão das operações do Banco Master, com suspeitas de facilidades dadas a operações de Vorcaro.

Há ainda o caso da Rioprevidência, que no governo bolsonarista de Claudio Castro alocou cerca de R$ 2,6 bilhões em ativos do grupo no Banco Master. Ibaneis Rocha, ex-governador do Distrito Federal, também da tropa de choque de Bolsonaro, diretamente envolvido na operação de tentativa de “salvamento” do Master, que acarretou bilhões de reais de prejuízo ao Banco Regional de Brasília (BRB).

Os deputados Pedro Uczai, líder do PT na Câmara dos Deputados, Jandira Feghali, líder do PCdoB, e Tarcísio Mota, líder do PSOL, apresentaram à Procuradoria Geral da República e à Polícia Federal uma notícia-fato com pedido de instauração de inquérito e representação pela prisão preventiva de Flávio Bolsonaro. Os três partidos também anunciaram que pedirão a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar o caso.

Todas essas indicações são imperativamente necessárias. Assim como a mobilização dos movimentos e das entidades do povo e dos trabalhadores, exigindo a apuração rigorosa, pois os milhões que Bolsonaro filho arrancou do ex-banqueiro mafioso indicam que o revelado até aqui é apenas a ponta de um iceberg.

Estes fatos gravíssimos certamente impactarão no debate eleitoral, mais uma oportunidade para desmascarar o que e quem Flávio Bolsonaro representa. É preciso revelar a fundo a verdadeira face do pré-candidato e de seus aliados, mostrando a dimensão de mais um crime que deve ser investigado com rigor para desbaratar o clã e deixar nítido o caráter embusteiro de sua candidatura. A máscara de patriota já caiu, quando Flávio Bolsonaro se revelou o que sempre foi, traidor da pátria. Agora, quando vem à público suas súplicas a um banqueiro mafioso, ele se vê despido da fantasia de moralista. “As rachadinhas” eram apenas tostões diante dos milhões do “BolsoMaster”.

Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Acompanhe aqui https://lucianosiqueira.blogspot.com/

Minha opinião

Pré-candidato em inferno astral

Luciano Siqueira 

instagram.com/lucianosiqueira65  



Segue exposto em praça pública o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à presidência da República, atingido duramente pela revelação dos áudios de suas relações promiscuas com o banqueiro presidiário Daniel Vorcaro – ele em posição nitidamente subalterna, pedindo em nome de uma amizade de “irmãos” uma parcela referente ao financiamento milionário do filme biográfico do pai.

Hoje, entrou em cena o irmão ex-deputado Eduardo com explicações sobre as transações reveladas, reconhecendo-se produtor temporário do filme e depois (sic) não mais.

E agora?

O senador manterá a narrativa acentuando o caráter estritamente privado dos recursos transacionados e, desse  modo, incapaz de deter a hemorragia de sua imagem pública?

Insistirá na defesa de uma inviável CPI sobre o Banco Master como forma de retirar o fogo de si mesmo?

Difícil prever, pois a natureza do imbróglio sugere que mais revelações poderão vir.

Mais: agora passa à condição de candidato incômodo, alvo de fritura por parte de partidos e próceres seus aliados naturais e que agora tentam guardar distância.

É o que se diz por aqui: verdadeiro angu de caroço.

[Ilustração: imagem em IA]

Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Leia também "Esticando a corda" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/minha-opiniao_01971886741.html  


Fotografia

 

Noemia Prada  

Postei nas redes

Às vésperas da convocação oficial da seleção brasileira que irá à Copa do Mundo, dúvidas persistem sobre quase todo o time supostamente titular e ainda temos que aguentar essa polêmica degradante em torno da convocação ou não do ex-craque Neymar. Nosso futebol decadente. 

Futebol permite sonhar o sonho impossível https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/futebol-ciencia-arte.html

15 maio 2026

Arte é vida

 

Dario Mecatti

Para além das faces visíveis https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Postei nas redes

Li agora que o Instagram realizou uma remoção em massa de contas falsas, bots e perfis considerados inativos, provocando uma queda expressiva no número de seguidores de artistas e celebridades ao redor do mundo. Quer dizer, então, que esse pessoal ostenta volume astronômico de seguidores, mas uma parte é de araque. 

Releio e anoto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/teoria-pratica.html 

Uma crônica de Urariano Mota

Memória literária e política para o Recife
Agora, aproveitando as indicações da grande Luzia Amélia Jakomeit, conhecida pelos resistentes com o nome mais simples de Memélia, esboço o que ela descobriu com sacada maravilhosa
Urariano Mota/Vermelho 

Nesta semana, como se caíssem na vista de repente, as notícias falam em turismo literário. Esse novo lazer permitiria “vivenciar cenários reais que inspiraram obras ou personagens e mergulhar mais profundamente nas histórias narradas”.

No entanto, em vez da viagem por lugares, de passagem, a fundamental escritora e jornalista Memélia, vivendo hoje nos Estados Unidos, já havia levantado a bola muitos anos antes. Mais exatamente em 2017, mas com uma dimensão política e histórica: 

“Quando eu estava lendo seus livros, apelei para o Google Mapas e tive uma ideia que está valendo. Se eu morasse no Brasil, talvez pudesse pôr em prática. A ideia é criar um roteiro turístico-amoroso da resistência do Recife. E, quem sabe, fazer pacotes para os turistas. E se os bares citados ainda existem, o roteiro programaria o final do tour num desses bares. Eu realmente gostaria de fazer isso. Mostrar os lugares do Recife em ambos os romances, ‘Soledad no Recife’ e ‘A mais longa duração da juventude’.

Conversei com o autor algumas vezes e lhe disse que se tivesse capital criaria um roteiro turístico no Recife percorrendo as ruas, restaurantes, bordéis, pensões, a praia da Boas Viagem, Porto de Galinhas e outros logradouros que em vários momentos foram cenários daqueles meninos que carregavam no peito o ardor revolucionário; daqueles pós-adolescentes que eram feridos de morte quando cada companheiro caía nas mãos dos nossos implacáveis inimigos, entre eles Cabo Anselmo e o delegado Sérgio Fleury.

E mais, que produziria um filme com inspirações de Jean-Luc Godard dos anos 60/70 e Fellini. A viagem daqueles combatentes a Porto de Galinhas é felliniana. Mais especificamente, uma ‘Dolce Vita’ de uma juventude que criava situações que poderiam subverter a perversa ordem social vigente e cujas armas eram o sonho, a palavra, uma arma talvez enferrujada e um simples mimeógrafo guardado sob cuidados. Um dos mais revolucionários instrumentos da nossa geração”.

Agora, aproveitando as indicações da grande Luzia Amélia Jakomeit, conhecida pelos resistentes com o nome mais simples de Memélia, esboço o que ela descobriu com sacada maravilhosa. A seguir, um resumo feito no calor da hora para mandar logo o artigo.

Em “Soledad no Recife”, mostro o Pátio de São Pedro, um dos lugares onde Soledad Barrett fala:  

“- É tão bonita esta praça! Eu passaria aqui o resto de minha vida. Que igreja linda, disse, apontando a Igreja de São Pedro”.

Ao que responde Daniel, o outro nome do Cabo Anselmo no Recife:

“- Certo. Mas temos tarefas mais práticas. Quem quer mudar o mundo não pode ficar admirando praças”.

Ao que torna Soledad:

“- Sim, mas deixamos de ver a beleza?”

E volta o narrador:

“Entre nós – entre mim e ela – se estabeleceu uma corrente, que digo?, senti, devemos ter sentido uma zona de radiação, de imantação, algo como deve existir nos espaços curvos em torno dos imensos corpos. Lá no espaço escuro, mas repetido aqui nesta noite no Pátio de São Pedro. Correu por mim uma corrente, um fluxo, que pareceu me dizer ‘Toca-lhe o pescoço, toca-lhe as mãos, e haverá um incêndio’. Senti que se a tocasse eu lhe transmitiria um choque, uma doce e pequena descarga em corpo inflamável. Então me veio a tortura de um sentimento de atração e medo. Como se eu recebesse um irresistível chamamento para o abismo”.  

Em “A mais longa duração da juventude”, são muitos os espaços do Recife em momentos críticos. Destaco agora apenas alguns.

Cinema São Luiz, na Rua da Aurora:

Eu não sei por quê, não entendo qualquer motivo ou razão, inclusive a mais absurda, eu não sei por que acabo de comprar um disco de Ella Fitzgerald, o long-play Ella, de 1969. Eu não tenho nem mesmo um toca-discos para ouvi-la. Mas que felicidade dá nos lábios, feito um menino com um chocolate que não poderá comer, mas ainda assim feliz pelo cheiro e textura do chocolate. É inexplicável que eu esteja feliz quando encontro Luiz do Carmo em frente ao Cine São Luiz, que ao me ver exibindo a capa de Ella, pergunta:

– Você tem vitrola para ouvir o disco?

– Eu não tenho, mas quando tiver uma, já tenho Ella Fitzgerald”.

Rua Diário de Pernambuco:

“Os refletores do palco no bar vão para o Gordo. Para nós, na Rua Diário de Pernambuco, em todo bar A Portuguesa ele é a pessoa mais ilustre. Na verdade, a presença mais procurada. E quem somos, em 1976 e 1977? Militantes em infinita gama e multiplicidade, dos socialistas aos anarquistas, dos amargurados aos revoltados, dos fodidos, desempregados, aos funcionários de empregos públicos, não importa, todos queremos estar ao redor do Gordo”.

Rua Sete de Setembro, Avenida Conde da Boa Vista, Avenida Guararapes, Ponte Duarte Coelho, Rio Capibaribe: 

“Ele sai pela Sete de Setembro sem olhar para os lados. Se o seguem, se está perdido, não adianta mais. Vai num andar que deseja firme até o ponto do ônibus. Quem sabe? Quem sabe se não tem um resto de vida um pouquinho mais longo? Ele se encoraja com os termos finais de quem não possui mais esperança. Vai morrer? Vai morrer. ‘Faz parte do revolucionário’. Mas que porra de revolução é essa que o deixa sozinho na última hora? ‘Vargas, a revolução não tem culpa’, outra voz lhe vem. ‘Que não tenha, mas eu é que estou me fodendo, sem ninguém’. Viver não é passear por um jardim, recorda de um poema de Bóris Pasternak. Que consolo!’, e põe o rosto entre as mãos frias. Um ônibus para, pessoas sobem. Ele entra também, sem saber para onde vai. Que importa? será executado amanhã.

E pela janela vê a Conde da Boa Vista, a ponte Duarte Coelho, a avenida Guararapes, o rio Capibaribe, como pela primeira vez. Que amargo encanto. “Como é bonita a minha cidade. Só agora percebo. Me perdoa, Recife, por ter sido tão brutal. Tu és para mim a mundo, o lugar da fraternidade que ainda não temos. Mas um dia vamos ter, e tu serás a companheira e camarada da revolução”. E põe as mãos juntas como se rezasse, logo ele, um ateu sectário, põe as mãos juntas por um reflexo antigo, da infância: “Eu te amo a ti, somente a ti, acima de todas as coisas. Eu te amo como o meu último afeto. Estás acima do que mais amo, a minha pátria e túmulo da revolução”. E começa a rezar, pelo Recife, ele se diz. Mas reza por ele mesmo, enquanto o ônibus sai da Avenida Guararapes”.

Fico neste esboço por enquanto. Mas para fingir ser um cara normal, jamais direi que penso sempre no Recife, a noiva da revolução.

Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Dica de leitura “Arraes” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/dica-de-leitura_31.html

Palavra de poeta

VENTO CAIS
Maurílio Rodrigues      

De um certo cais,
Um saveiro parte
Com a esperança
Que não tenho mais.
 
Um vento frio,
Um arrepio,
Sem precisar
Onde ela vai chegar.
 
Este vento cais,
E um vento mais,
Tornou sem sentido
Todo o amor vivido.
 
O vento amor,
Ao certo, irá passar,
Deixando apenas solidão
E um resto de ilusão.
 
Só sei que a dor
Obrigou- me a chorar,
Pois, comigo ficaram
As lágrimas e o teu olhar.
 
Eu queria ser feliz,
Mas o saveiro levou
O que sempre quis,
E nunca mais voltou.
 
Espero um saveiro mais,
Levado pelo vento cais,
Para me conduzir
Na direção de ti.


[Ilustração: Istvánné Horváth]


Leia também um poema de Mia Couto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/palavra-de-poeta_29.html 

Minha opinião

Enrolados e hipócritas

Luciano Siqueira 

instagram.com/lucianosiqueira65   


“Enrolado” é o termo que alguns repórteres têm usado referindo-se ao (ex) banqueiro Ricardo Vorcaro, inclusive em entrevistas ao vivo com o senador Flávio Bolsonaro (PL). Mas vale igualmente para o próprio pré-candidato à presidência da República e toda a horda bolsonarista, ou nem tanto, ainda comprometida com o seu projeto eleitoral.

É uma turma habituada a erguer a bandeira do combate à corrupção, mas que na prática escorrega. O "rachadão" do dinheiro que o senador diz ter sido destinado pelo banqueiro ao filme biográfico sobre o ex-presidente presidiário,  expõe a hipocrisia de setores que outrora se diziam paladinos da moralidade pública.

Afinal, o dinheiro foi destinado ao filme, mas também a outras finalidades? Certamente o avanço das investigações esclarecerá.E a chamada Faria Lima, que pensa disso tudo? Essa gente predisposta a criticar o presidente Lula, o governo, partidos e lideranças da esquerda e progressistas, conserva um silêncio estranho e comprometedor.O pragmatismo oportunista ocupa o lugar da ética e da moralidade.

Releio e anoto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/teoria-pratica.html 

Humor de resistência

 

Miguel Paiva

Acontece https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Sylvio: "maracutaia"

A grana solicitada e obtida por Flávio Bolsonaro do banqueiro Vorcaro para supostamente pagar o documentário sobre seu pai foi destinada, na verdade, a custear as despesas com a manutenção de seu irmão Eduardo nos Estados Unidos. Mais um indício de maracutaia envolvendo membros da família do ex-presidente.

Sylvio Belém    

Crônica de uma vitória a conquistar https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/minha-opiniao_30.html 

Uma crônica de Enio Lins

Do fundo do coração, exclamo, vivo: Viva o SUS!
Enio Lins     

HOSPEDEI-ME NO HOSPITAL DA CIDADE na segunda-feira, 5, por 48 horas. Prédio muito bem projetado para tal finalidade por Pedro Cabral, Arquiteto e companheiro de lutas com mais talento, mais humor e mais stents que eu. Adentrei pela porta do SUS, depois de uma caminhada iniciada na UPA de Marechal Deodoro, por conta de umas dores renitentes na caixa dos peitos. Atendimentos de primeira qualidade em todas as etapas. Os primeiros exames teimavam em não indicar nada de preocupante, mas o incômodo não saía de cartaz, daí os testes foram se aprofundando até que uma angiografia coronariana localizou obstruções merecedoras de intervenção urgente.

ROBERTO LÚCIO foi o médico responsável pelo procedimento realizado no dia 5. Um craque. Enquanto ele pilotava o catéter e conduzia, com maestria, um stent até a coronária danificada, permutamos reminiscências. A sedação superficial deixa o cabra consciente, meio de porre, e a anestesia local elimina a dor no ponto da punção; no caso, o pulso direito. Enquanto, grogue, tentava acompanhar pelo telão o andar da carruagem, falamos sobre o movimento estudantil dos anos 70/80. Relembramos a retomada das atividades – interrompidas pela repressão em 1973 – do Teatro Universitário de Alagoas, com Ponto de Partida, peça de Gianfrancesco Guarnieri, em cujo elenco figurava Roberto Lúcio de Gusmão Verçosa, o Beto. Era 1980 e na direção do TUA estava Dênisson Menezes, acadêmico da Es cola de Ciências Médicas, preso e duramente torturado sete anos antes do espetáculo ser exibido no Teatro de Arena, em Maceió. Desenhei o cartaz, há 46 anos, usando o braço por onde, naquela segunda-feira, a cânula estava andando em busca do ponto exato onde consertaria o vaso parcialmente obstruído. Dentre os presentes, só eu e Beto falávamos – os demais nasceram depois.

SEM ESCALAS, DA SALA de cirurgia fui levado a UCI (Unidade de Cuidados Intermediários). Espaço arrumado. Um magote de pacientes, impacientes alguns, divide a área sob a tênue proteção de cortinados. O atendimento, 24 horas no ar, fica por conta de um batalhão de técnicos, enfermeiros e médicos. Da companheirada acamada, duas pessoas me chamaram a atenção: José e João. Descobri que ambos enfrentavam problemas maiores que o meu. José, com 71 anos, praticamente morava na unidade; e João, aos 17, estava de passagem e sua cardiopatia não tinha um diagnóstico conclusivo. O trato humanista, simultaneamente técnico e carinhoso, da equipe do Hospital da Cidade, ficou patente – e me emocionou – especialmente nesses dois casos de idades tão extremadas. João dividia as atenções da enfermagem e de seus familiares ; por ser de menor, tinha acompanhamento permanente de alguém da família. José é a alegria do lugar, e a cena de seu barbear teve uma espécie de transmissão ao vivo em que ele repetia insistentemente para as técnicas de enfermagem: “Meninas, cuidado com meu bigode!”, arrancando risos gerais numa algaravia em um ambiente onde se supõe dominado por dores e temores. Ao sair, me despedi de todo mundo, mas cumprimentei particularmente José (ele me lembrou meu pai, pela cor bronze, mas com vastos bigodes brancos que Seu Miro nunca cultivou) e fui cumprimentado pelo imberbe João (que me achou parecido com o avô dele).

COM ENCANAÇÃO NOVA no velho coração, me sinto como se tivesse estufado o peito e gritado “Shazam!” (quem gosta de gibis entenderá). Volto ao batente hoje, agradecendo – nos nomes dos doutores, e amigos de longa data, Roberto Lúcio, José Wanderley, Cid Célio, Rodrigo Perez, Diógenes Bernardes – a todos os profissionais de saúde pelos quais fui atendido nessa longa batalha travada desde dezembro do ano passado. Recebo alta com disposição redobrada, neste ano eleitoral, para guerrear, votar, e pedir votos para quem defenda o SUS, para quem se comprometa a ampliar os investimentos sociais sem medo dos mitos neoliberais. Vamos à luta!

Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Idosos em suas trincheiras https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/renovacao-conscienciosa.html

Palavra de poeta

Reinvenção
Cecília Meireles     

A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... — mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço...
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

[Ilustração: Gustav Klimt]

Leia também: Um milhão de amigos e a trena imaginária https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_10.html 

Minha opinião

Esticando a corda
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65   


 

 

O complexo midiático dominante, porta-voz do sistema financeiro, resolveu esticar a corda em relação ao inferno astral do senador Flávio Bolsonaro para testar até onde pode resistir.

A Rede Globo é exemplar nesse sentido. Em todos os seus canais de TV, digitais e no jornal O Globo realiza uma espécie de campanha de cerco e aniquilamento explorando as contradições que envolvem o filho do ex-presidente presidiário em todas as tentativas de se explicar.

Como que preferindo que a pré-candidatura do PL naufrague agora e se possa ter um substituto menos encrencado e m ais competente.

Em outra faixa, colunistas políticos abertamente reacionários se lamentam. Jair Bolsonaro seria o mentor da escolha equivocada do PL e o senador Flávio Bolsonaro, antes de debater um projeto para o país, concentra-se em atacar o governo Lula e a agitar a bandeira da anistia para os golpistas encarcerados.

Também não parece haver simpatia pelos ex-governadores Caiado, de Goiás e Zema, de Minas Gerais. Haveria tempo ainda para a tão desejada “terceira via”? Parece que não.

[Ilustração: Gilmal]

Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Jacaré e porco espinho não combinam https://lucianosiqueira.blogspot.com/

14 maio 2026

Arte é vida

 

Alfred Joseph Kruppa

Nem sempre é o que parece https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Sua opinião


Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/sua-opiniao.html 

Prisão preventiva, sim!

Esquerda pede prisão preventiva de Flávio Bolsonaro e quebra de sigilos
Partidos da base do governo Lula na Câmara pressionam por CPI do Master após escândalo do pedido de dinheiro do senador ao “irmão” Vorcaro
Murilo da Silva/Vermelho 

O diálogo entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, preso pelo escândalo do Banco Master, caiu como uma bomba no colo do centrão e da extrema direita. O áudio revelado pelo Intercept Brasil na quarta-feira (13) evidencia a relação próxima entre eles a ponto de gerar um pedido financeiro de R$ 134 milhões sob o pretexto da produção do filme sobre Jair Bolsonaro.

A gravidade dos fatos apurados pela Polícia Federal (PF) fez com que deputados do PCdoB, PT e Psol acionassem a Procuradoria-Geral da República (PGR) com um pedido de instauração de inquérito e outro de prisão preventiva do senador. Em paralelo, pedirão à PF busca e apreensão, além de quebra dos sigilos bancário e telefônico de Flávio.

Além disso, a base do governo Lula agora trabalha para que seja aberta uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para analisar a atuação do Banco Master e as relações de Vorcaro com bolsonaristas e membros do centrão.

Ainda que muitos parlamentares ligados a Flávio defendam a abertura da CPI, o pedido vindo deles é demagógico, para não se opor publicamente, em um primeiro momento, aos graves fatos diante da opinião pública. Como eles sabem que instalar a CPI demandaria muito esforço, fazem esse jogo político, mas por trás das câmeras os bolsonaristas atuam para que a proposta não avance.

Anteriormente já foram feitas tentativas de abertura de CPI, inclusive com um pedido no STF negado. O presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), se vale da fila de CPIs para impedir que outra seja aberta.

Já aliados da família Bolsonaro, como Ciro Nogueira, que foi ministro de Bolsonaro, são apontados como receptores de dinheiro vindo do Master. Analistas apontam que existe uma atuação no Senado para enterrar qualquer investigação sobre o banco.

Pedido de prisão

A líder do PCdoB na Câmara, Jandira Feghali, assinou junto a outros deputados uma notícia de fato criminal enviada a PGR com um pedido de instauração de inquérito e outro de prisão preventiva do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato da extrema direita à presidência do Brasil.

Conforme o texto apresentado pelos deputados, “o ponto central desta notícia de fato está no conteúdo dos prints e do áudio divulgados. Os elementos revelam uma relação que extrapola contato eventual, institucional ou protocolar. A linguagem utilizada por Flávio Bolsonaro indica proximidade pessoal, dependência financeira, cobrança direta e vínculo de confiança com Daniel Vorcaro, justamente no período que antecedeu a prisão do controlador do Banco Master.”

Em discurso no plenário da Câmara, Jandira aponta que a família Bolsonaro, por meio de Flávio, mostrou ser aliada e cúmplice dos que “ganham dinheiro a partir dos sonegadores e fraudadores do sistema financeiro brasileiro”.

A deputada ainda destaca a proximidade de Flávio e Vorcaro, em que o senador chama o banqueiro de “irmão” e diz “estarei contigo sempre”.

Para completar, Feghali lembra que o filme “Ainda Estou Aqui” custou cerca de R$ 50 milhões e deu ao Brasil seu primeiro Oscar. Já o filme “O Agente Secreto” custou R$ 28 milhões e deu ao Brasil dois Globos de Ouro.

Portanto, “R$ 134 milhões para fazer um filme [Dark Horse] de uma biografia pobre como essa aí, do Bolsonaro? Obviamente, não é só um filme”, critica a líder do PCdoB.

Repercussão

O deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP) também comentou o caso, lembrando que dos R$ 134 milhões solicitados por Flávio, há indícios de que R$ 61 milhões foram efetivamente pagos.

“Agora está explicado porque os bolsonaristas odeiam tanto a Lei Rouanet. O Daniel Vorcaro é a Lei Rouanet particular deles”, afirma Orlando. Em outra postagem, o deputado remete à proximidade entre senador e banqueiro:  “Irmãozão”, é muita conta para pagar. E olha que o cara estava acostumado a comprar mansões em dinheiro vivo. O BOLSOMASTER é roubalheira PESADA!”

Já a deputada federal Alice Portugal (PCdoB-BA) observa que “a máscara da ‘familícia’ está caindo mais uma vez”. Conforme indica, “o senador manteve conversas diretas com o dono do Banco Master dias antes da prisão do empresário.”

Leia mais: Pai de Vorcaro é preso em nova operação sobre o escândalo do Master

O deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA) apontou a falsidade de Flávio que, horas antes do áudio ser revelado, negou em frente às câmeras qualquer relação com o banqueiro: “A extrema direita brasileira já nem tenta esconder a própria contradição. Uma hora nega. Na outra, admite. Uma hora posa de vítima. Na outra, aparece cobrando milhões nos bastidores. O roteiro do filme ainda nem saiu… mas o da hipocrisia já ganhou bilheteria nacional”, diz Almeida em alusão à cinebiografia de Jair.

Por sua vez, a deputada Daiana Santos (PCdoB-RS) afirma que “essa é a índole de quem quer governar o Brasil. É o BOLSOMASTER!”, em referência à pré-candidatura de Flávio. Ela ainda ressalta que o pai do banqueiro também foi preso, assim como Jair Bolsonaro: “Agora, além dos R$ 134 milhões, Flávio e Vorcaro têm mais uma coisa em comum: pais presos. Nesta manhã, Henrique Vorcaro foi alvo da operação Compliance Zero, que investiga fraudes financeiras ligadas ao banco.”

Ofensiva contra Flávio

O pedido de prisão de Flávio feito à PGR e a articulação por uma CPI do Master são apenas algumas das atitudes da base governista, que deve lançar uma ofensiva ainda maior a fim de elucidar os fatos.

Em coletiva na quarta-feira, os líderes da federação formada por PCdoB e PT junto com representantes do Psol indicaram pedidos à Polícia Federal e à Receita Federal para obter mais informações sobre as relações do senador e do banqueiro preso.

Nesses pedidos devem constar a quebra dos sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático de Flávio e Vorcaro; busca e apreensão; bloqueio de bens; perícia nos áudios divulgados; retenção de passaportes; proibição de contato entre os investigados, entre outras medidas.

Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Leia também: Extrema direita patina na lama https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/minha-opiniao_01219044875.html

Postei nas redes

Agência de marketing digital que aproximou Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro cobrou R$ 3,5 mi para atacar o Banco Central, noticia o UOL. Jogo pesado.

Angu de caroço https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Estados Unidos: big techs & governo

IA: Assim Washington tenta manter o controle
Seguem, nos EUA, negociações entre empresas e Estado, para definir que usos da nova tecnologia são “legítimos”. Pentágono dobra a aposta, ao incluir emprego militar. União Europeia mantém-se passiva. Todo o Sul Global, exceto a China, aguarda ordens. Até quando?
James Görgen/Outras Palavras  
 


Antes de ir para o mercado, uma nova tecnologia é submetida a testes de pressão para ver sua capacidade de suportar situações extremas e eventuais riscos aos seres humanos. Foi assim com os cintos de segurança, medicamentos, dispositivos submetidos a altas temperaturas e várias outras inovações ao longo de décadas. Mas não é o que vem ocorrendo com os serviços de inteligência artifical desde a febre da IA generativa que tomou conta do mundo nos últimos três anos. As principais plataformas entraram em operação comercial sem que os órgãos reguladores pudessem aferir seu processo de desenvolvimento e, principalmente, seus efeitos sobre os usuários.

Depois do deslumbramento inicial, e registrada uma série de riscos econômicos, políticos e de saúde pública da nova ferramenta, as demandas pela criação de maior segurança sobre o uso de IA foi trazida à pauta como ponto relevante da agenda digital global. O que passa desapercebido neste debate, porém, é a ausência de atores do Sul Global enquanto empresas dos Estados Unidos e da China já passam por uma correção de rumos.

Em 13 de maio, Donald Trump aterrissou em Pequim acompanhado de Tim Cook (Apple), Elon Musk (Tesla e SpaceX), Dina Powell McCormick (Meta), Sanjay Mehrotra (Micron), Chuck Robbins (Cisco) e Cristiano Amon (Qualcomm) para discutir, entre outros temas, inteligência artificial com Xi Jinping. Jensen Huang, CEO da Nvidia — cujos chips alimentam o boom global de IA —, não constava da lista original; foi convidado de última hora pelo próprio Trump após reportagens sobre sua ausência repercutirem mal. Como observa o The Guardian, o detalhe relevante da viagem não é o que Trump vai vender, mas o que sua administração está copiando. As leis chinesas exigem há anos que empresas de IA submetam se us modelos a Pequim para revisão de segurança e de sensibilidade política. A Casa Branca caminha exatamente para esse formato. Já fechou acordos com Google DeepMind, Microsoft e xAI, via Center for AI Standards and Innovation, para revisão pré-lançamento de modelos de fronteira por motivos de “segurança nacional”; estuda ordem executiva que tornaria essas revisões obrigatórias. A Anthropic, designada pelo Pentágono como “risco de cadeia de suprimentos” por se recusar a flexibilizar salvaguardas contra vigilância em massa e armas autônomas, recebeu pedido pessoal do vice-presidente JD Vance para não ampliar o acesso ao Mythos além da lista inicial de parceiros. A contradição é a forma da nova ordem. Comercialmente liberal para fora, controlado pelo Estado para dentro. Quando o “alinhamento” for exportado como padrão glo bal, parte do que viajará é um modelo regulatório que Pequim ou Washington cunharam primeiro. 

Nas últimas semanas, quatro cenas se sobrepuseram no debate global sobre inteligência artificial. A Anthropic publicou a agenda de pesquisa do seu recém-criado Anthropic Institute, organizada em quatro pilares: difusão econômica, ameaças e resiliência, sistemas de IA em uso no mundo real e P&D conduzida por IA, incluindo o problema da auto-melhoria recursiva. O Pentágono fechou acordos com sete empresas (Google, Microsoft, Amazon, Nvidia, OpenAI, SpaceX e Reflection) para integrar modelos de fronteira a redes classificadas, com o objetivo declarado de transformar as Forças Armadas dos EUA em uma “AI-first fighting force”. Em paralelo, o Departamento de Comércio estadunidense firmou com Microsoft, Google e xAI um regime de testes pré-implantação para “riscos de segurança nacional” enquanto o departamento de políticas do fundo de tecnologia a16z divulgava um manual didático sobre como um projeto de IA vira lei nos Estados Unidos.

Em todas estas salas, os “adultos” — laboratórios, fundos, alto escalão militar e da Casa Branca — conversaram entre si e convergiram sobre como rearranjar a nova tecnologia. Em nenhuma das salas, porém, há um assento reservado para o Brasil, a Índia, a Indonésia, a África do Sul, a Nigéria ou os mais de 130 países que serão importadores das normas que se forjam nestes espaços. O “alinhamento”, essa palavra técnica que orienta bilhões de dólares de pesquisa, supõe harmonizar a IA a valores humanos em escala global. A pergunta segue suspensa: alinhar a quais humanos e sob qual governança? Por enquanto, os únicos humanos que aparecem nessa equação são os que estão sentados à mesa — funcionários de laboratórios em três cidades americanas, equipes de venture capital, ofici ais de Washington.

Antes da disputa sobre quem governa a IA, há uma disputa sobre o que IA é. Como aponta análise recente da Foreign Policy, os principais atores do debate global trabalham com definições incompatíveis do mesmo objeto. Para a Anthropic, a OpenAI e setores do governo estadunidense, IA é uma tecnologia em rota para a superinteligência, governável por meio de conceitos como “frontier risk”, “model welfare” e “thresholds de capacidade”. Para reguladores em Brasília, Pretória ou Jakarta, IA é predominantemente um problema de viés algorítmico em sistemas de crédito e justiça, de proteção de dados, de impacto sobre o mercado de trabalho. Não são apenas posições diferentes em torno do mesmo tema. São definições incompatíveis do que está em jogo. A sala de “alinhamento” foi montada em torno da primeira ontologia. Mesmo que o Sul Global conseguisse uma cadeira, falaria uma língua conceitual distinta.

A geografia oculta do “alinhamento”

A literatura técnica de segurança de IA discute alinhamento como se fosse problema puramente de engenharia, limitado a garantir que o modelo siga instruções, recuse pedidos abusivos e evite saídas perigosas. Mas a definição operacional de “perigoso” e “abusivo” é cultural antes de ser técnica. As equipes que estressam modelos como Claude, GPT-5.5 ou Gemini são compostas majoritariamente por engenheiros formados em universidades anglófonas do Norte Global. Os manuais de política, incluindo o roadmap federal de IA publicado pela a16z em dezembro, que defende regular o uso nocivo em vez do desenvolvimento, assumem como pano de fundo o sistema jurídico dos EUA, o devido processo da Common Law e categorias como diversidade, equidade e inclusão que sequer existem como conceitos jurídicos transferíveis para Buenos Aires ou Bangkok.

Quando esses parâmetros viram padrão global, o modelo treinado sob essas premissas é o mesmo que atende um usuário em Lagos, em Recife ou em Nova Délhi. E a IA chega “alinhada” antes que a sociedade receptora tenha sequer formulado o que considera desalinhamento. Pesquisa recente sobre viés geoeconômico em modelos de fundação demonstra exatamente isso. O conhecimento técnico dos sistemas está concentrado em regiões de renda alta, enquanto países do Sul Global enfrentam lacunas sistêmicas de informação ou são apresentados a fatos alucinados e o processo atual de alinhamento reforça assimetrias geopolíticas existentes em vez de corrigi-las.

Isso não significa que programas de localização não existam. A OpenAI lançou em fevereiro o OpenAI for Countries, que inclui um piloto de ChatGPT adaptado para estudantes na Estônia com currículo e abordagem pedagógica locais. Mas o próprio Model Spec da empresa define que a localização pode afetar “linguagem ou tom”, porém não pode “mudar a substância ou o equilíbrio dos fatos apresentados”. Ou seja, o que pode ser localizado e o que é núcleo intocável é decidido unilateralmente em São Francisco. O Sul Global não participa de nenhuma das duas decisões — nem do que se adapta, nem do que se preserva.

Um relatório da Chatham House publicado em março ajuda a dimensionar a assimetria material por trás dessa exclusão. Estima-se que os hyperscalers gastarão US$ 527 bilhões em capex de IA em 2026 e que um único treinamento de modelo de fronteira já pode custar próximo a US$ 100 bilhões. Em contraste, o AI Act europeu — a regulação mais ambiciosa do planeta — dispõe de apenas € 1 bilhão para sua aplicação; o AI Security Institute britânico opera com £ 100 milhões em dois anos, menos do que os laboratórios de fronteira gastam em uma semana de computação. Os reguladores do Sul Global trabalham com frações dessas frações. A assimetria não é apenas pol&iacu te;tica. É concreta e mensurável. 

Regras invisíveis

O alinhamento não é apenas atmosfera cultural. Literalmente, é texto. Reportagem recente do Washington Post expôs os prompts de sistemas dos principais chatbots que trazem instruções secretas de 2.300 a 27 mil palavras injetadas pelas empresas em cada conversa, estabelecendo prioridade hierárquica sobre o que o usuário digita em suas questões. A distribuição temática é reveladora. A Anthropic dedica mais de 2.000 palavras só a direitos autorais, com regras minuciosas sobre citação máxima e proibição de reproduzir letras de música, preocupações casadas com a indústria editorial e fonográfica estadunidense. O ChatGPT recebeu instruções para não negar categoricamente a presença dos novos anúncios inseridos em suas respostas. O Grok foi reescrito após escândalo antissemita; o Gemini, após a controvérsia das imagens “ahistóricas” dos Founding Fathers da república dos EUA.

Toda regra é cicatriz de um episódio reputacional no Norte. Em nenhum desses prompts vazados há uma palavra sobre conhecimentos tradicionais indígenas, folclore, propriedade coletiva de comunidades quilombolas ou línguas africanas em risco. As regras invisíveis protegem, mas apenas o que está na mesa. E mudam unilateralmente, da noite para o dia, sem auditoria externa.

O desenho da militarização

O componente militar muda a aposta. Quando o cliente prioritário dos modelos de fronteira passa a ser o aparato de defesa de uma única potência, as definições de “segurança” são reescritas em torno do que serve à hegemonia desta nação. Como já informamos, a Casa Branca desenvolve, em paralelo, um marco que exigirá que o Pentágono teste modelos antes de serem implantados por governos federais, estaduais e locais. A lógica é direta. Se um modelo é capaz de encontrar vulnerabilidades de cibersegurança “com extraordinária velocidade”, como temem fontes próximas à Casa Branca após o lançamento do Myth os, ele é simultaneamente arma e mercadoria. Quem define qual uso é legítimo, quais alvos são adversários e quais ameaças justificam vigilância é o operador soberano, não o usuário em São Paulo, Mumbai ou Joanesburgo.

A própria Anthropic, que se construiu como a empresa “responsável” do setor, mantém publicamente restrições contra usos de vigilância doméstica em massa e armas autônomas letais — restrições que, segundo reportagem do Washington Post, geraram fricção com setores do governo dos EUA. Outras companhias ocupam o espaço com contratos militares mais flexíveis, em que o que conta como guardrail é negociado entre Washington e empresas sediadas no Vale do Silício. Para os usuários brasileiros do ChatGPT, do Copilot, do Claude ou do Gemini, esses termos chegam prontos, embutidos opacamente no produto, sem consulta nem direito de revisão.

O pânico como legislador?

Há ainda uma dimensão que a cena militar não captura inteiramente. A velocidade. A Casa Branca de Donald Trump passou seu primeiro ano demolindo toda a infraestrutura de segurança de IA erguida pelo ex-presidente Biden e começou a reconstruí-la em semanas, depois que Mythos assustou a chefe de gabinete, Susie Wiles, o vice-presidente, J.D. Vance, e o secretário do Tesouro, Scott Bessent. A General Services Administration chegou a propor cláusula contratual dando ao governo poder de auditar respostas de chatbots em busca de “conteúdo ideológico não solicitado”, sem definir, naturalmente, o que conta como ideologia. Aqui o pânico é o legislador. E o que o pânico de Washington produzir, seja uma ordem executiva sobre alimentos ou cláusulas contratuais sobre “conteúdo ideológico”, chegará ao Sul Global não como pr oposta a debater, mas como exigência de fornecedor.

O Brasil e os demais países do Sul Global não participaram da fase de desconstrução, não foram consultados na fase de reconstrução e não têm o instrumento que os EUA reservam para si como última linha. Trata-se do Defense Production Act, que permitiria ao presidente estadunidense nacionalizar funcionalmente qualquer empresa de IA em “emergência nacional”. O Sul Global recebe o produto final de cada alteração, sem ter estado em nenhuma das salas onde as viradas foram decididas.

A sala é menor do que parece

Há, ainda, uma camada ainda mais inquietante por baixo desse diagnóstico. A jornalista Yi-Ling Liu, em ensaio publicado pelo New York Times, observa que a vida cotidiana nos dois supostos polos da rivalidade tecnológica chegou a um espelhamento perturbador. O motorista da Didi em Xangai que implora para burlar o algoritmo da empresa repete o gesto do trabalhador da DoorDash em Chicago. Os engenheiros do Zhongguancun chinês adotaram o regime “996” ao mesmo tempo em que engenheiros do Vale do Silício o reimportaram como cultura de produtividade. Termos como shechu (gado corporativo) e jiabangou (cão de hora extra) na China dialogam com a linguagem de “bots” e “permanent underclass” que circula nos EUA.

Pesquisadores ocidentais cunharam em 2025 o conceito de gradual disempowerment para descrever a erosão silenciosa da agência humana pela integração de IA em decisões de contratação, demissão, vigilância no trabalho e infraestrutura cotidiana. É a tradução técnica do que este artigo descreve em termos políticos. Há, portanto, um deslocamento importante a fazer. A sala onde se decide o alinhamento não exclui apenas o Sul Global. Exclui também o motorista de aplicativo americano, a engenheira júnior chinesa, o trabalhador europeu submetido aos mesmos sistemas. O eixo do problema não é apenas Norte versus Sul. É uma elite muito específica, com endereço no Vale do Silício e em Zhongguancun, contra quase todo mundo. A própria narrativa da rivalidade EUA-China, como observa Liu, funciona como instru mento de desregulação pois serve para justificar o avanço sem guardrails em nome de não perder a corrida. Isso abre uma possibilidade que a moldura exclusivamente geográfica oculta. Pode ser formadas alianças horizontais entre sociedade civil, trabalhadores e reguladores dos dois polos e do Sul Global, articuladas em torno de um interesse comum em não serem expropriados pela mesma elite.

A captura legislativa

A peça da a16z sobre como um projeto vira lei é didática e instrutiva, mas omite a parte mais importante do enredo. A fábrica de venture capital de Andreessen e Horowitz é, ela própria, uma das maiores forças moldando o conteúdo dessas leis. A firma administra 90 bilhões de dólares em ativos, investiu em 10 das 15 empresas privadas mais valiosas do mundo, incluindo OpenAI, SpaceX, xAI, Databricks e Stripe, e gastou meses pressionando contra leis estaduais de IA. Como resultado,  conseguiu enfraquecer substancialmente o projeto enviado à governadora de Nova York, Kathy Hochul, que acabou sancionando uma versão mais branda. Em dezembro, Trump assinou a Executive Order 14365, que cria uma força-tarefa de litígio para desafiar leis estaduais de IA consideradas incompatíveis com o “comércio interestadual” e condiciona financiamento federal à conformidade com a agenda federal. A ordem converge com a agenda que a a16z defende há meses e foi celebrada por sua equipe de políticas, escrita por advogados que jamais precisarão se preocupar com o que pensa um regulador de Brasília, Pretória ou Jakarta.

Esse aparato, composto de laboratórios, capital, lobby, Pentágono e normativos, produz aquilo que, em três ou cinco anos, será apresentado ao mundo como “padrão internacional de segurança de IA”. O UK AI Security Institute, o EU AI Act e os memorandos da OCDE e os documentos do G7 calibram-se todos em relação ao que ocorre nessa sala. E aqui está a armadilha para o Sul Global. Quando o Brasil aprova seu marco legal de IA inspirado na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), quando a Índia lança as diretrizes do IndiaAI Mission, quando a União Africana publica sua estratégia continental, esses esforços já chegam reagindo a um vocabulário que não construíram. Discutem “riscos sistêmicos”, “modelos de fronteira”, “thresholds de capacidade”, conceitos cunhados em um deb ate do qual estiveram ausentes.

Eleições e soberania epistêmica

A questão se agrava em 2026, ano de eleições no Brasil, na Colômbia e em meia dúzia de países africanos. Modelos de IA atuam como infraestrutura epistêmica e definem o que é “informação verificada”, o que é “discurso de ódio”, o que é “manipulação”. O Anthropic Institute identificou como uma de suas prioridades o estudo de como a IA influencia “a tomada de decisão em grupo e a epistemologia social, especialmente à medida que poucos modelos dominantes moldam o discurso globalmente”. O reconhecimento é importante. O ponto que falta nomear é que essa modelagem ocorre em uma direção, das salas onde se decide alinhamento para os países que recebem o produto.

Há respostas possíveis, todas em andamento incipiente. Ganha tração internacional, sobretudo entre potências médias, o conceito de soberania de IA: infraestrutura computacional independente, clusters de GPU locais, proteção de dados domésticos contra provedores estrangeiros. Emirados Árabes, Índia e China já operam nessa lógica; o Brasil tem capacidade técnica e diplomática para se inserir, mas ainda trata o debate prioritariamente como assunto de regulação de produto, não de soberania tecnológica. O Brasil pode usar a posição que conquistou com a LGPD, hoje em negociação avançada de adequação com a União Europeia, para liderar uma agenda Sul-Sul de governança, articulando coalizões via Mercosul, BRICS+ e G20. A Índia tem escala computacional e diplomática suficiente p ara impor revisões de salvaguardas em modelos que operem em hindi, tâmil e bengali e tem feito isso via política industrial, sem grande publicidade internacional. A África do Sul pode acoplar a tradição ética do ubuntu e o continente como um todo as suas tradições de governança comunitária, à regulação concreta de reconhecimento facial e sistemas biométricos. A China, que desenvolve alguns dos modelos de linguagem fora do circuito norte-americano, opera em uma sala paralela à qual o Sul Global também não tem acesso garantido.

O obstáculo é de outra ordem. Enquanto a conversa sobre “segurança de IA” continuar enquadrada como assunto técnico de poucos laboratórios em três cidades americanas, segue invisível o que está em jogo: a definição, em tempo real, de quais idiomas, culturas e referências jurídicas vão virar padrão planetário.

A pergunta sobre alinhamento com quais humanos não é retórica nem abstrata. A cláusula proposta pela GSA dos EUA, que quer auditar IA em busca de “ideologia não solicitada”, resume o problema com precisão involuntária. Quem define o que é ideológico define o que é neutro. E essa definição, embutida em contratos de fornecimento, viaja para o mundo inteiro antes que qualquer parlamento do Sul Global a tenha lido. O Sul Global não pode continuar permitindo que ela seja respondida em uma sala onde não está sentado.

Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Marcio Pochmmann: Do Iluminismo ao algoritmo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/monopolio-da-atencao.html