24 fevereiro 2026

Celso Pinto de Melo opina

Quando o diálogo meliano falha
Celso Pinto de Melo   

“A expansão excessiva corrói a base econômica que sustenta o poder.”

Paul Kennedy, Ascensão e queda das grandes potências [1]

 

Ao longo da história, há momentos em que a força deixa de ser apenas um instrumento e passa a funcionar como linguagem. É quando a potência dominante – pressionada por declínio relativo, perda de legitimidade ou disputa sistêmica – decide falar não em termos de negociação, mas de imposição. Tucídides chamou isso, com brutal honestidade, de “diálogo meliano”: os fortes fazem o que podem, os fracos sofrem o que devem [2].

O que costuma escapar à leitura apressada é que esse tipo de diálogo não surge nos momentos de segurança imperial, mas justamente nos de incerteza. O recurso à força, nesses casos, não expressa confiança; revela ansiedade. E a história sugere que esse expediente nem sempre dá certo.

O episódio fundador é conhecido. Em 416 a.C., Atenas, envolvida em uma guerra longa e custosa, dirige-se à pequena ilha de Melos, não para negociar, mas para comunicar uma dura realidade: a submissão seria racional; a resistência, irracional. Não havia ali qualquer apelo à justiça ou ao direito – apenas à correlação de forças. Atenas venceu Melos, mas aprofundou o processo que acabaria por minar sua própria primazia. O diálogo meliano foi eficaz como gesto de imposição, mas incapaz de resolver a tensão estrutural que atravessava o império ateniense. A coerção produziu obediência imediata; não produziu equilíbrio duradouro. Como observa Paul Kennedy, o problema das grandes potências não é a ausência de vitórias no instante da expansão, mas o acúmulo progressivo de custos – militares, econômicos e políticos – que elas passam a carregar [1].

Esse padrão se repetiria em outros contextos. No final do século XIX, a Itália recém-unificada buscava afirmar-se como uma potência colonial tardia. Encontrou na Abissínia – a atual Etiópia – o alvo ideal: um Estado africano independente, fora do circuito colonial europeu. O resultado foi a batalha de Adwa, em 1896, quando, pela primeira vez, um exército africano derrotou de forma decisiva uma potência europeia moderna. Ali, o diálogo meliano simplesmente não funcionou. A derrota italiana teve um efeito simbólico profundo, expondo os limites do imperialismo europeu e transformando a Etiópia em referência global de resistência.

Quatro décadas depois, o mesmo impulso retornaria sob outra forma. A Itália, agora fascista, invadiu novamente a Etiópia, com uma força esmagadora e o uso de armas químicas, praticando uma violência sistemática contra civis. Venceu militarmente – mas à custa da completa deslegitimação da ordem internacional da época. A Liga das Nações mostrou-se impotente, e a ideia de segurança coletiva saiu gravemente comprometida. Mais uma vez, a força falou mais alto – e, mais uma vez, o custo político foi maior do que o ganho estratégico.

A crise do Canal de Suez, em 1956, oferece um exemplo ainda mais didático. Reino Unido e França, potências imperiais em declínio, reagiram à nacionalização do canal pelo Egito como se ainda governassem o mundo do século XIX. Agiram militarmente, com eficiência tática, mas ignoraram a transformação do sistema internacional. O resultado foi uma vitória militar vazia e uma derrota política histórica. Suez não marcou o triunfo da força; marcou o fim da ilusão imperial.

No auge do chamado “momento unipolar”, após o fim da Guerra Fria, o diálogo meliano reapareceu sob roupagem liberal-humanitária. Na Iugoslávia, em 1999, os Estados Unidos e a OTAN impuseram sua vontade por meio de bombardeios prolongados, à margem de um mandato explícito do Conselho de Segurança da ONU. A vitória militar foi rápida; o precedente institucional, duradouro. A intervenção fragilizou o direito internacional e alimentou ressentimentos geopolíticos que moldam ainda hoje a política europeia.

Esse padrão atingiu sua forma mais extrema no Iraque, em 2003. Sob a justificativa de armas de destruição em massa – que jamais existiram, conforme posteriormente reconhecido pelo Iraq Survey Group Report [3]–, os Estados Unidos derrubaram o regime de Saddam Hussein em poucas semanas. A assimetria de poder era absoluta; o resultado político, desastroso. O Estado iraquiano foi desmantelado, a violência sectária explodiu, e o vazio de poder abriu espaço para o surgimento do ISIS. A guerra foi vencida; a política, destruída. Poucos episódios ilustram tão claramente o equívoco de confundir força militar com uma solução estratégica. Aqui, a máxima clássica de Clausewitz – segundo a qual a guerra seria a continuação da política por outros meios – parece inverter-se: a guerra passou a substituir a política, em vez de servi-la [4].

A Líbia, em 2011, completou o ciclo. Sob a bandeira da “responsabilidade de proteger”, uma intervenção autorizada para a proteção de civis transformou-se rapidamente em uma mudança de regime [5]. Muammar Gaddafi foi derrubado e o Estado líbio implodido. O resultado foi a fragmentação do país, a proliferação de milícias armadas, o tráfico regional de armas e a desestabilização de todo o Sahel[2] [5]. Mais uma vez, o diálogo meliano funcionou no instante da queda do regime, mas falhou de maneira retumbante no tempo histórico. Como já observava Adam Smith, toda guerra é fácil de começar, mas extremamente difícil de encerrar [6].

Outros casos reforçam a lição. No Vietnã, a assimetria extrema não impediu a derrota política da superpotência. No Afeganistão, primeiro os soviéticos, depois os norte-americanos, aprenderam que, mesmo sem vencer, alguns Melos podem exaurir. O tempo, quase sempre negligenciado pelos impérios, mostrou-se mais decisivo do que a força.

É nesse pano de fundo que se insere o caso venezuelano. Após anos de sanções, isolamento e estrangulamento econômico, a ação direta dos Estados Unidos contra a Venezuela, culminando no ataque de janeiro de 2026, amplamente noticiado e debatido como marco de escalada hemisférica, materializa uma lógica que vinha sendo anunciada: a reativação prática da Doutrina Monroe como instrumento de coerção hemisférica. A mensagem é clara: a soberania passa a ser condicional; a dissidência, punida. Como lembraria Antonio Gramsci, a hegemonia não se sustenta apenas pela coerção, mas também pelo consentimento – e quando este se perde, a força tende a falar mais alto [7].

A pergunta relevante, no entanto, não é se a assimetria de poder existe – ela existe –, mas se o diálogo meliano produzirá, desta vez, uma ordem mais estável. A experiência recente do Iraque e da Líbia recomenda cautela. Em ambos os casos, a vitória militar abriu caminho para décadas de instabilidade, radicalização e perda de controle estratégico, com custos que recaíram não apenas sobre os países destruídos, mas também sobre a própria potência interventora.

Se o “momento unipolar” dos anos 1990 parecia confirmar a consolidação de uma ordem centrada em uma única potência, os desdobramentos posteriores sugerem algo distinto. A sucessão de intervenções assimétricas, a expansão de rivalidades estratégicas e o reposicionamento de atores como a China, a Índia e a Rússia apontam para um mundo cada vez mais multimodal, no qual múltiplos centros de decisão coexistem, competem e se limitam mutuamente. Nesse ambiente, o recurso recorrente ao diálogo meliano deixa de ser uma demonstração de confiança e passa a soar como sintoma de transição.

É justamente esse o ponto que venho desenvolvendo nos textos que tenho publicado recentemente. Em Trump, Venezuela e o retorno do Diálogo Meliano [8], analiso como o ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro cristalizam uma forma de coerção que dispensa mediações diplomáticas e redefine a soberania como condição subordinada à assimetria de poder – uma reatualização da Doutrina Monroe em termos contemporâneos. Em Diplomacia das canhoneiras: quando a coerção explica o comércio [9], examino como instrumentos de pressão – presença naval, bloqueios, restrições logísticas e econômicas – funcionam historicamente como alternativas à guerra formal, impondo condições políticas e comerciais sem negociações de fato, uma prática que aparece com clareza no episódio venezuelano. Por fim, no artigo Quando os fortes falam, os fracos pagam [10], retomo a mesma lógica estrutural do Diálogo dos Melianos para mostrar que o padrão observado não é episódico, e sim uma forma de política externa que naturaliza a força como critério decisório e transforma a hegemonia em norma de comportamento internacional.

O verdadeiro risco do diálogo meliano não é apenas a violência que ele legitima, mas sim a lógica que ele naturaliza. Iraque e Líbia mostram que a força pode alterar governos, mas não resolve as condições que tornaram a intervenção possível. Pode impor obediência imediata, mas amplia frequentemente as fissuras que, mais tarde, corroerão a própria potência interventora. Sempre que aceitamos que “não há alternativa”, estamos menos descrevendo a realidade do que renunciando à política. E a história – de Melos a Suez, de Adwa a Bagdá e Trípoli – sugere que essa renúncia permanece raramente confinada ao lado dos vencidos.

Bibliografia

1. Kennedy, P., Ascensão e queda das grandes potências. 1989, Rio de Janeiro: Campus.

2. Tucídides, História da Guerra do Peloponeso. Vol. Livro V. Brasília: Editora UnB.

3. Iraq Survey, G., Comprehensive Report of the Special Advisor to the DCI on Iraq’s WMD (Duelfer Report). 2004, Central Intelligence Agency: Washington, DC.

4. von Clausewitz, C., Da guerra. 1996, São Paulo: Martins Fontes.

5. ONU, Security Council Resolutions on Libya. 2011, United Nations: New York.

6. Smith, A., Lectures on Jurisprudence. 1978, Oxford: Oxford University Press.

7. Gramsci, A., Cadernos do cárcere. 2000, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

8. de Melo, C.P., Trump, Venezuela e o retorno do Diálogo Meliano. 2026.de Melo, C.P., Trump, Venezuela e o retorno do Diálogo Meliano. 2026. https://jornalggn.com.br/opiniao/trump-venezuela-e-o-retorno-do-dialogo-meliano-por-celso-p-de-melo/.

9. de Melo, C.P., Diplomacia das canhoneiras: quando a coerção explica o comércio. 2026. https://jornalggn.com.br/artigos/diplomacia-das-canhoneiras-quando-a-coercao-explica-o-comercio-por-celso-pinto-de-melo/.

10. de Melo, C.P., Quando os fortes falam, os fracos pagam. 2026. https://jc.uol.com.br/opiniao/artigo/2026/01/10/quando-os-fortes-falam-os-fracos-pagam.html.

9. de Melo, C.P., Diplomacia das canhoneiras: quando a coerção explica o comércio. 2026.https://jornalggn.com.br/artigos/diplomacia-das-canhoneiras-quando-a-coercao-explica-o-comercio-por-celso-pinto-de-melo/.

10. de Melo, C.P., Quando os fortes falam, os fracos pagam. 2026.https://jc.uol.com.br/opiniao/artigo/2026/01/10/quando-os-fortes-falam-os-fracos-pagam.html.


[1] Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

[2] Sahel é a faixa semiárida que se estende ao sul do deserto do Saara, atravessando a África de oeste a leste, do Senegal ao Sudão. A região funciona como zona de transição entre o deserto saariano e as áreas mais úmidas da África subsaariana. Nos últimos anos, o Sahel tornou-se uma das áreas mais instáveis do mundo, marcada por conflitos armados, expansão de grupos jihadistas, crises humanitárias e intensa circulação ilegal de armas – fenômenos agravados após a desestruturação do Estado líbio em 2011

Ilustração: Alsal

Leia também: Trumpismo é neofascismo, uma ameaça a ser rechaçada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_26.html 

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