Quando o diálogo meliano falha
Celso Pinto
de Melo
“A expansão excessiva corrói a base econômica que sustenta o poder.”
Paul Kennedy, Ascensão e queda das
grandes potências [1]
Ao longo da história, há momentos em
que a força deixa de ser apenas um instrumento e passa a funcionar como
linguagem. É quando a potência dominante – pressionada por declínio relativo,
perda de legitimidade ou disputa sistêmica – decide falar não em termos de
negociação, mas de imposição. Tucídides chamou isso, com brutal honestidade, de
“diálogo meliano”: os fortes fazem o que podem, os fracos sofrem o que devem
[2].
O que costuma escapar à leitura
apressada é que esse tipo de diálogo não surge nos momentos de segurança imperial,
mas justamente nos de incerteza. O recurso à força, nesses casos, não expressa
confiança; revela ansiedade. E a história sugere que esse expediente nem sempre
dá certo.
O episódio fundador é conhecido. Em
416 a.C., Atenas, envolvida em uma guerra longa e custosa, dirige-se à pequena
ilha de Melos, não para negociar, mas para comunicar uma dura realidade: a
submissão seria racional; a resistência, irracional. Não havia ali qualquer
apelo à justiça ou ao direito – apenas à correlação de forças. Atenas venceu
Melos, mas aprofundou o processo que acabaria por minar sua própria primazia. O
diálogo meliano foi eficaz como gesto de imposição, mas incapaz de resolver a
tensão estrutural que atravessava o império ateniense. A coerção produziu
obediência imediata; não produziu equilíbrio duradouro. Como observa Paul
Kennedy, o problema das grandes potências não é a ausência de vitórias no
instante da expansão, mas o acúmulo progressivo de custos – militares,
econômicos e políticos – que elas passam a carregar [1].
Esse padrão se repetiria em outros
contextos. No final do século XIX, a Itália recém-unificada buscava afirmar-se
como uma potência colonial tardia. Encontrou na Abissínia – a atual Etiópia – o
alvo ideal: um Estado africano independente, fora do circuito colonial europeu.
O resultado foi a batalha de Adwa, em 1896, quando, pela primeira vez, um
exército africano derrotou de forma decisiva uma potência europeia moderna.
Ali, o diálogo meliano simplesmente não funcionou. A derrota italiana teve um
efeito simbólico profundo, expondo os limites do imperialismo europeu e
transformando a Etiópia em referência global de resistência.
Quatro décadas depois, o mesmo
impulso retornaria sob outra forma. A Itália, agora fascista, invadiu novamente
a Etiópia, com uma força esmagadora e o uso de armas químicas, praticando uma
violência sistemática contra civis. Venceu militarmente – mas à custa da
completa deslegitimação da ordem internacional da época. A Liga das Nações
mostrou-se impotente, e a ideia de segurança coletiva saiu gravemente
comprometida. Mais uma vez, a força falou mais alto – e, mais uma vez, o custo
político foi maior do que o ganho estratégico.
A crise do Canal de Suez, em 1956,
oferece um exemplo ainda mais didático. Reino Unido e França, potências imperiais
em declínio, reagiram à nacionalização do canal pelo Egito como se ainda
governassem o mundo do século XIX. Agiram militarmente, com eficiência tática,
mas ignoraram a transformação do sistema internacional. O resultado foi uma
vitória militar vazia e uma derrota política histórica. Suez não marcou o
triunfo da força; marcou o fim da ilusão imperial.
No auge do chamado “momento
unipolar”, após o fim da Guerra Fria, o diálogo meliano reapareceu sob roupagem
liberal-humanitária. Na Iugoslávia, em 1999, os Estados Unidos e a OTAN
impuseram sua vontade por meio de bombardeios prolongados, à margem de um
mandato explícito do Conselho de Segurança da ONU. A vitória militar foi
rápida; o precedente institucional, duradouro. A intervenção fragilizou o direito
internacional e alimentou ressentimentos geopolíticos que moldam ainda hoje a
política europeia.
Esse padrão atingiu sua forma mais
extrema no Iraque, em 2003. Sob a justificativa de armas de destruição em massa
– que jamais existiram, conforme posteriormente reconhecido pelo Iraq
Survey Group Report [3]–, os Estados Unidos derrubaram o regime de
Saddam Hussein em poucas semanas. A assimetria de poder era absoluta; o
resultado político, desastroso. O Estado iraquiano foi desmantelado, a
violência sectária explodiu, e o vazio de poder abriu espaço para o surgimento
do ISIS. A guerra foi vencida; a política, destruída. Poucos episódios ilustram
tão claramente o equívoco de confundir força militar com uma solução
estratégica. Aqui, a máxima clássica de Clausewitz – segundo a qual a guerra
seria a continuação da política por outros meios – parece inverter-se: a guerra
passou a substituir a política, em vez de servi-la [4].
A Líbia, em 2011, completou o ciclo.
Sob a bandeira da “responsabilidade de proteger”, uma intervenção autorizada
para a proteção de civis transformou-se rapidamente em uma mudança de regime
[5]. Muammar Gaddafi foi derrubado e o Estado líbio implodido. O resultado foi
a fragmentação do país, a proliferação de milícias armadas, o tráfico regional
de armas e a desestabilização de todo o Sahel[2] [5]. Mais uma vez, o diálogo meliano funcionou no
instante da queda do regime, mas falhou de maneira retumbante no tempo
histórico. Como já observava Adam Smith, toda guerra é fácil de começar, mas
extremamente difícil de encerrar [6].
Outros casos reforçam a lição. No
Vietnã, a assimetria extrema não impediu a derrota política da superpotência.
No Afeganistão, primeiro os soviéticos, depois os norte-americanos, aprenderam
que, mesmo sem vencer, alguns Melos podem exaurir. O tempo, quase sempre
negligenciado pelos impérios, mostrou-se mais decisivo do que a força.
É nesse pano de fundo que se insere o
caso venezuelano. Após anos de sanções, isolamento e estrangulamento econômico,
a ação direta dos Estados Unidos contra a Venezuela, culminando no ataque de
janeiro de 2026, amplamente noticiado e debatido como marco de escalada
hemisférica, materializa uma lógica que vinha sendo anunciada: a reativação
prática da Doutrina Monroe como instrumento de coerção hemisférica. A mensagem
é clara: a soberania passa a ser condicional; a dissidência, punida. Como
lembraria Antonio Gramsci, a hegemonia não se sustenta apenas pela coerção, mas
também pelo consentimento – e quando este se perde, a força tende a falar mais
alto [7].
A pergunta relevante, no entanto, não
é se a assimetria de poder existe – ela existe –, mas se o diálogo meliano
produzirá, desta vez, uma ordem mais estável. A experiência recente do Iraque e
da Líbia recomenda cautela. Em ambos os casos, a vitória militar abriu caminho
para décadas de instabilidade, radicalização e perda de controle estratégico,
com custos que recaíram não apenas sobre os países destruídos, mas também sobre
a própria potência interventora.
Se o “momento unipolar” dos anos 1990
parecia confirmar a consolidação de uma ordem centrada em uma única potência,
os desdobramentos posteriores sugerem algo distinto. A sucessão de intervenções
assimétricas, a expansão de rivalidades estratégicas e o reposicionamento de
atores como a China, a Índia e a Rússia apontam para um mundo cada vez mais
multimodal, no qual múltiplos centros de decisão coexistem, competem e se
limitam mutuamente. Nesse ambiente, o recurso recorrente ao diálogo meliano
deixa de ser uma demonstração de confiança e passa a soar como sintoma de
transição.
É justamente esse o ponto que venho
desenvolvendo nos textos que tenho publicado recentemente. Em Trump,
Venezuela e o retorno do Diálogo Meliano [8], analiso como o ataque
militar dos Estados Unidos à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás
Maduro cristalizam uma forma de coerção que dispensa mediações diplomáticas e
redefine a soberania como condição subordinada à assimetria de poder – uma
reatualização da Doutrina Monroe em termos contemporâneos. Em Diplomacia
das canhoneiras: quando a coerção explica o comércio [9], examino como
instrumentos de pressão – presença naval, bloqueios, restrições logísticas e
econômicas – funcionam historicamente como alternativas à guerra formal,
impondo condições políticas e comerciais sem negociações de fato, uma prática
que aparece com clareza no episódio venezuelano. Por fim, no artigo Quando
os fortes falam, os fracos pagam [10], retomo a mesma lógica
estrutural do Diálogo dos Melianos para mostrar que o padrão observado não é
episódico, e sim uma forma de política externa que naturaliza a força como
critério decisório e transforma a hegemonia em norma de comportamento
internacional.
O verdadeiro risco do diálogo meliano
não é apenas a violência que ele legitima, mas sim a lógica que ele naturaliza.
Iraque e Líbia mostram que a força pode alterar governos, mas não resolve as
condições que tornaram a intervenção possível. Pode impor obediência imediata,
mas amplia frequentemente as fissuras que, mais tarde, corroerão a própria
potência interventora. Sempre que aceitamos que “não há alternativa”, estamos
menos descrevendo a realidade do que renunciando à política. E a história – de
Melos a Suez, de Adwa a Bagdá e Trípoli – sugere que essa renúncia permanece
raramente confinada ao lado dos vencidos.
Bibliografia
1. Kennedy, P., Ascensão e
queda das grandes potências. 1989, Rio de Janeiro: Campus.
2. Tucídides, História da
Guerra do Peloponeso. Vol. Livro V. Brasília: Editora UnB.
3. Iraq Survey, G., Comprehensive
Report of the Special Advisor to the DCI on Iraq’s WMD (Duelfer Report).
2004, Central Intelligence Agency: Washington, DC.
4. von Clausewitz, C., Da
guerra. 1996, São Paulo: Martins Fontes.
5. ONU, Security Council
Resolutions on Libya. 2011, United Nations: New York.
6. Smith, A., Lectures on
Jurisprudence. 1978, Oxford: Oxford University Press.
7. Gramsci, A., Cadernos do
cárcere. 2000, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
8. de Melo, C.P., Trump,
Venezuela e o retorno do Diálogo Meliano. 2026.de Melo, C.P., Trump,
Venezuela e o retorno do Diálogo Meliano. 2026.
https://jornalggn.com.br/opiniao/trump-venezuela-e-o-retorno-do-dialogo-meliano-por-celso-p-de-melo/.
9. de Melo, C.P., Diplomacia
das canhoneiras: quando a coerção explica o comércio. 2026.
https://jornalggn.com.br/artigos/diplomacia-das-canhoneiras-quando-a-coercao-explica-o-comercio-por-celso-pinto-de-melo/.
10. de Melo, C.P., Quando os
fortes falam, os fracos pagam. 2026.
https://jc.uol.com.br/opiniao/artigo/2026/01/10/quando-os-fortes-falam-os-fracos-pagam.html.
9. de Melo, C.P., Diplomacia
das canhoneiras: quando a coerção explica o comércio. 2026.https://jornalggn.com.br/artigos/diplomacia-das-canhoneiras-quando-a-coercao-explica-o-comercio-por-celso-pinto-de-melo/.
10. de Melo, C.P., Quando os
fortes falam, os fracos pagam. 2026.https://jc.uol.com.br/opiniao/artigo/2026/01/10/quando-os-fortes-falam-os-fracos-pagam.html.
[1] Professor Titular Aposentado da UFPE,
Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.
[2] Sahel é a faixa semiárida que se
estende ao sul do deserto do Saara, atravessando a África de oeste a leste, do
Senegal ao Sudão. A região funciona como zona de transição entre o deserto
saariano e as áreas mais úmidas da África subsaariana. Nos últimos anos, o
Sahel tornou-se uma das áreas mais instáveis do mundo, marcada por conflitos
armados, expansão de grupos jihadistas, crises humanitárias e intensa
circulação ilegal de armas – fenômenos agravados após a desestruturação do
Estado líbio em 2011
Ilustração: Alsal
Leia também: Trumpismo é neofascismo, uma ameaça a ser rechaçada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_26.html

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