01 novembro 2022

Silêncio ensurdecedor

"Abalado”, “perdido”: o silêncio de Bolsonaro, o “Trump dos Trópicos”. Passadas 36 horas do anúncio oficial da vitória de Lula, ainda não sabemos o que Bolsonaro fará. Leia mais https://bit.ly/3WhUxGa

Humor de resistência: Aroeira

 

Aroeira

A pressa é inimiga da opinião https://bit.ly/3n47CDe


Futuro sombrio

Como se comportará o atual presidente da República sem mandato? Macaquear Trump não lhe será fácil, pois lhe faltam um império econômico e um grande partido sob seu controle.

Nem tudo o que reluz é ouro https://bit.ly/3n47CDe      

Diagnóstico

Uma modesta contribuição para compreender o ambiente no Palácio do Planalto: na psiquiatria, qual o nome técnico para caracterizar fuga da realidade?

Nem tudo o que reluz é ouro https://bit.ly/3n47CDe

Como deve ser

Saiba o que é e como deve funcionar o governo de transição de Bolsonaro para Lula

Regulamentada por lei, mudança de gestão envolve acesso de dados das contas públicas e de projetos
Idiana Tomazelli, Marianna Holanda e Julia Chaib, Folha de S. Paulo

 

Com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para a Presidência da República, o governo Jair Bolsonaro (PL) deve iniciar do zero os trabalhos para fazer uma transição nos próximos dois meses até a posse do novo chefe do Executivo, em 1º de janeiro de 2023.

É na transição que a equipe do presidente eleito obtém informações detalhadas sobre a situação das contas públicas, dos programas e projetos do governo federal, bem como do funcionamento dos órgãos.

Essa etapa é crucial para que o futuro chefe do Executivo possa traçar um plano de ação e tomar decisões sobre os primeiros passos ao assumir o cargo.

A transição é regulamentada por uma lei aprovada em 2002 e um decreto editado em 2010. Ela tem início com a proclamação do resultado da eleição e se encerra com a posse do novo presidente.

Um gabinete provisório é instalado, inclusive com a disponibilização de um espaço físico específico em Brasília para que a equipe do presidente eleito possa trabalhar. Tradicionalmente, o local usado é o CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) na capital federal.

O primeiro passo formal deve ser dado pela campanha vitoriosa. Como presidente eleito, Lula deve solicitar o início do processo de transição e indicar um coordenador, por meio de ofício endereçado ao atual presidente da República.

Bolsonaro e seu ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, precisarão então editar um decreto nomeando o coordenador da transição —que ganha o título de ministro extraordinário.

O coordenador costuma ser uma pessoa chave para a formação do novo governo e tende a ocupar um ministério de grande relevância. Em 2002, o coordenador da transição para o primeiro mandato de Lula foi Antonio Palocci, depois indicado para comandar o Ministério da Fazenda.

Leia também: Transição: Lula tem respaldo jurídico para exigir dados e cooperação técnica desde já https://bit.ly/3Du805j

Já em 2018, o então deputado federal e agora derrotado na corrida pelo Governo do Rio Grande do Sul Onyx Lorenzoni foi nomeado na época ministro extraordinário da transição de Bolsonaro.

Depois, ele ocupou a Casa Civil, pasta responsável pela articulação interna do governo e por onde passam todas as principais decisões do presidente.

Ao todo, a equipe de transição pode ter até 50 integrantes. Os nomes podem ser de servidores públicos ou pessoas de fora do governo.

Eles são designados para cargos especiais de transição governamental, remunerados pelo governo federal. O Orçamento reserva R$ 3,2 milhões em recursos para a atividade de apoio técnico e administrativo à transição.

É comum que os nomeados sejam depois indicados a outros cargos dentro da nova administração. Caso isso não ocorra, eles são automaticamente exonerados em até dez dias após a posse.

Pela relevância, a área econômica recebe uma atenção prioritária nesse momento, e a escolha dos integrantes sinaliza como será conduzida a agenda durante o mandato.

No caso atual, a composição da equipe de transição terá um desafio adicional, diante da necessidade de negociação entre integrantes de uma frente ampla com dez partidos que apoiaram Lula no segundo turno.

Do lado do governo, o decreto atribui a coordenação da transição à Casa Civil, que fica responsável pela articulação entre a equipe de transição e a atual administração.

Os secretários-executivos dos ministérios, número dois na hierarquia das pastas, devem ficar disponíveis para atender a pedidos e entregar informações solicitadas pelo time do presidente eleito.

Além disso, a lei obriga titulares dos órgãos a prestar apoio técnico e informações solicitadas pelo coordenador da equipe de transição.

A lei que regulamenta a transição foi editada em 2002, sob a gestão de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

O tucano foi o primeiro presidente eleito pelo voto popular a transferir a faixa presidencial a outro presidente eleito desde a redemocratização do país. Os antecessores José Sarney e Itamar Franco foram alçados ao posto após a morte de Tancredo Neves e o impeachment de Fernando Collor, respectivamente.

Após aprovada, a lei foi promulgada pelo então presidente do Congresso Nacional, senador Ramez Tebet —pai da senadora Simone Tebet (MDB), que concorreu à Presidência da República e, no segundo turno, declarou apoio a Lula.

Em 2002, a transição do petista tinha Palocci na coordenação e Luiz Gushiken como coordenador-adjunto. A equipe foi dividida em cinco grupos de trabalho: gestão e governo, desenvolvimento econômico, políticas sociais, infraestrutura, e empresas públicas e instituições financeiras do Estado. A divisão desses grupos já trazia pistas da divisão de ministérios pensada pelo presidente eleito à época.

Em 2010, Dilma Rousseff (PT) também formou uma equipe de transição para iniciar os preparativos de sua gestão, coordenada por Palocci —depois nomeado ministro da Casa Civil. A petista também contou com seu então vice-presidente, Michel Temer (MDB), e outros integrantes do PT na coordenação política.

Em 2016, com o afastamento de Dilma em um processo de impeachment, não houve transição para o início do governo Temer. Em 2018, o emedebista não concorreu à reeleição, o que facilitou os preparativos para a transição seguinte.

O então ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, recebeu economistas que integravam as campanhas presidenciáveis e adotou postura de total colaboração com as equipes, mesmo antes do resultado das eleições.

Após a proclamação do resultado, o então ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, recebeu Onyx no Palácio do Planalto e deu início aos trabalhos da transição para o governo Bolsonaro.

O Ministério do Planejamento, comandado na época por Esteves Colnago, elaborou uma série de cadernos sobre os principais temas na área econômica a serem discutidos com a nova equipe, inclusive indicando as questões prioritárias, que demandavam atenção imediata do governo eleito.

Em meio às discussões entre os times, Colnago foi escolhido por Guedes para continuar no alto escalão da Economia. Ele virou secretário especial adjunto da Fazenda no governo Bolsonaro, depois assessor especial do ministro e hoje é secretário especial de Tesouro e Orçamento na pasta.

Ainda vale a pena ler também: A frente ampla diante da nação dividida https://bit.ly/3EWSIbq

Dever constitucional

Transição não é terra sem lei

Lula tem respaldo jurídico para exigir dados e cooperação técnica desde já
Rafael Mafei, Folha de S. Paulo

 

demora inédita em o presidente Jair Bolsonaro (PL) reconhecer sua derrota nas eleições, quando ela já era admitida até mesmo por aliados muito próximos seus, somada a seu histórico de comportamento hostil a regras comezinhas da civilidade democrática, gera apreensão sobre seu comportamento até o final do mandato. Que mecanismos temos para nos defender de um presidente que se recuse a cooperar com a transição ao próximo governo, que obteve uma vitória incontestável nas urnas?

A primeira coisa a se ter clara é que nem a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nem sua posse em 1º de janeiro, dependem de qualquer ato de Bolsonaro. Quem proclama o vencedor das eleições é o Tribunal Superior Eleitoral, e quem dá posse ao eleito é o Congresso Nacional. Ambas as instituições, por seus respectivos presidentes, já felicitaram Lula pela vitória de domingo (30).

A passagem de faixa, que festeja a transição civilizada entre governos democraticamente eleitos, é uma solenidade de forte simbologia, mas não é condição para a investidura do novo presidente. Se Bolsonaro confirmar a pequenez que dele se espera e não comparecer à cerimônia de posse de Lula, repetindo o gesto mesquinho do general João Figueiredo na posse de José Sarney, nem o país ficará surpreso nem o mandato de Lula restará de qualquer forma afetado.

Mesmo que Bolsonaro escolha impugnar a vitória de Lula na Justiça Eleitoral, repetindo o gesto de Aécio Neves (PSDB) em 2014, a medida não tem o poder de impedir a transição para o novo governo. Nesse caso, seus apoiadores não devem sequer sonhar com a possibilidade de êxito da medida —não apenas pela falta de qualquer indício de irregularidade na vitória de Lula como também porque o principal instrumento para a prática de abuso de poder, que é o controle da máquina pública, estava sob o controle de Bolsonaro, não do presidente eleito.

Nessa seara, aliás, o mais esperado é que o TSE reconheça os diversos usos impróprios dos poderes da Presidência da República pelo atual presidente: desde a convocação abusiva de embaixadores para espalhar delírios golpistas até as ações da Polícia Rodoviária Federal em locais que parecem ter sido escolhidos a dedo para prejudicar o comparecimento do voto lulista às urnas no domingo. Se isso ocorrer, Bolsonaro será declarado inelegível por oito anos, como manda a lei.

Por sorte, o Brasil tem a herança institucional deixada por Fernando Henrique Cardoso (PSDB), político maiúsculo de nossa época não apenas no presente, quando juntou-se à frente ampla para salvar a democracia brasileira, mas também no passado, pouco antes da primeira vitória presidencial de Lula.

Em 25 de outubro de 2002, dois dias antes da votação de segundo turno que confirmou a vitória do candidato petista sobre José Serra, correligionário de FHC, o então presidente editou uma medida provisória disciplinando o governo de transição. Era evidente que o novo regramento visava a dar garantias públicas em benefício de Lula, candidato de oposição ao governo FHC.

A medida, depois convertida em lei que ainda hoje está vigente, dá ao presidente eleito o direito de instituir uma equipe de transição, comandada por um coordenador, que pode se integrar imediatamente aos diversos órgãos da administração pública federal, obtendo dados sobre contas públicas e programas em curso a fim de viabilizar os primeiros atos do novo governo. A lei obriga os atuais titulares dos órgãos federais a prestar todo apoio técnico e administrativo requisitado pelos membros da equipe de transição.

Qualquer recusa ou desídia em fazê-lo sujeitará os atuais ocupantes dos ministérios e secretarias, que são em grande parte servidores públicos de carreira, a processos disciplinares. A cooperação, porque determinada por lei, poderá ser facilmente exigida judicialmente, sob pena de crime de desobediência.

Eventual tentativa de apagamento ilegal de dados deixará vestígios que poderão levar à responsabilização subsequente de quem a executar.

Claro que Bolsonaro poderá se esforçar para atrapalhar, mas há mecanismos jurídicos para nos defendermos de suas derradeiras investidas ilegais. A transição de governo não é terra sem lei.

A gente se encontra em várias trincheiras https://bit.ly/3vhYCww

O dia começa com poesia: Mia Couto

Para ti

Mia Couto
 
Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
 
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre
 
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida
 
A gente se encontra em várias trincheiras https://bit.ly/3vhYCww