Autobiografia
Mia Couto
Onde eu nasci
há mais terra que
céu.
Tanto leito é uma bênção
para mortos e
sonhadores.
E de tão pouco ser o céu
nasce o sol
em gretas nos nossos
pés
e os corações se
apertam
quando remoinhos de
poeira
se elevam nos
telhados.
As mães
espanam o teto
e poeiras de astros
cobrem o soalho.
De tão raso o firmamento,
a chuva tropeça nas
copas
enquanto nuvens
se engravidam de
rios.
Com tanta escassez de céu
não há encosto
nem para a mais
minguante lua
e os meninos,
na ponta dos dedos,
ascendem estrelas.
Pois,
nessa terra
que é tanta para tão
pouco céu,
calhou-me a mim ser
ave.
Pequenas que são,
as minhas asas
parecem-me enormes.
Envergando,
escondo-as dos
olhares vizinhos.
Nas minhas costas
pesam
versos e plumas.
Voarei,
um dia,
sem saber
se é de terra ou de
céu
a pegada do voo que
sonhei.
[Ilustração:
O Agente Secreto tratou o Recife como se fosse
Paris https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/o-filme-e-cidade.html

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