25 março 2026

Palavra de poeta

Autobiografia
Mia Couto   

Onde eu nasci
há mais terra que céu.

Tanto leito é uma bênção

para mortos e sonhadores.

E de tão pouco ser o céu

nasce o sol
em gretas nos nossos pés
e os corações se apertam
quando remoinhos de poeira
se elevam nos telhados.

As mães

espanam o teto
e poeiras de astros
cobrem o soalho.

De tão raso o firmamento,

a chuva tropeça nas copas
enquanto nuvens
se engravidam de rios.

Com tanta escassez de céu

não há encosto
nem para a mais minguante lua
e os meninos,
na ponta dos dedos,
ascendem estrelas.

Pois,

nessa terra
que é tanta para tão pouco céu,
calhou-me a mim ser ave.

Pequenas que são,

as minhas asas parecem-me enormes.

Envergando,

escondo-as dos olhares vizinhos.

Nas minhas costas

pesam 
versos e plumas.

Voarei,

um dia,
sem saber
se é de terra ou de céu
a pegada do voo que sonhei.

[Ilustração: Gustave Caillebotte]

O Agente Secreto tratou o Recife como se fosse Paris https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/o-filme-e-cidade.html 

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