21 março 2026

Mídia reacionária

Há franco-atiradores em Brasília e eles se escondem em redações
Aliança de defesa da democracia forjada sobre as ruínas da Praça dos Três Poderes era frágil e já não existe
Luis Costa Pinto/Liberta     

As cenas de selvageria e boçalidade de hordas de golpistas transtornados, quebrando as sedes dos três poderes da República – o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o edifício principal do Supremo Tribunal Federal –, naquela tarde infame de 8 de janeiro de 2023, deveriam estar gravadas em ouro, prata e bronze nas retinas dos jornalistas brasileiros e de quem lhes paga o salário ou viabiliza o exercício profissional. Não estão. O preço a ser pago por essa rápida desmemória será alto e, estimo, fatal.

Há que lembrar aos que rápido esqueceram os arrancos e coices de Jair Bolsonaro, de todos os seus filhos, dos ministros e ministras dele e de muitos dos amigos do clã que sitiavam a Esplanada dos Ministério para saquearem os programas públicos e pilharem o Tesouro Nacional: desde a primeira hora da camarilha golpista no poder, foram suspensos ou modificados os rituais de transparência e de prestação de contas à população mediados pela imprensa. Vem dessa nobre missão dos jornalistas o substantivo “mídia” usado para designar o coletivo de veículos de comunicação, cujo papel central é mediar a relação entre governos (de quaisquer matizes), Estado e sociedade civil.

Coliseu a céu aberto

O chiqueirinho, cercadinho ou curralzinho (cada um chama como quiser aquela excrescência anacrônica, que há até tão pouco tempo tivemos como presença marcante em nossos noticiários, montada pelos taifeiros das três Forças Armadas diante do Palácio da Alvorada) foi uma espécie de micro Coliseu erguido a céu aberto.

O objetivo era lançar os jornalistas que cobriam política e o dia a dia de Brasília às feras pegajosas, andrajosas, todas agindo a soldo dos diretores de cena do bolsonarismo e das variadas denominações de igrejas evangélicas que ruminavam à sombra das alamedas onde grassava dinheiro público. As redes sociais, onde por definição e lógica a mediação dos jornalistas é dispensada e depauperada para que haja o contato direto entre detentores do poder e seu povo – e, de toda forma, a turma dos chiqueirinhos é povo de alguém –, deslegitimaram os veículos de comunicação como foros apropriados para dar notícia, reivindicar credibilidade e arrogar-se o papel de formador de opinião.

Durante os trágicos quatro anos de duração do mandato de Bolsonaro (pai), repórteres (em escala massiva as do sexo feminino) eram ofendidos, diuturnamente, por escroques de gabinete cumprindo o clássico roteiro das subcelebridades ou dos guardas da esquina em ditaduras que lograram degenerar o meio em que se implantaram. Mentiras e especulações ganhavam lançamentos solenes como se fossem políticas de Estado.

Recesso das almas

Naqueles tempos, os finais de semana em Brasília se tornaram infernais para os profissionais de mídia destacados para a cobertura palaciana. Sábado sim, outro não, atos de paradoxais “protestos a favor” eram convocados para que um bando de dementes marchasse desde a Praça das Fontes até a Avenida das Bandeiras, no Eixo Monumental. Domingo sim, outro também, um ajuntamento de militares desqualificados, reservistas de pijama, sentava praça na altura da Superquadra 208 da Asa Sul, no Eixo Estrutural da cidade (o popular Eixão) para grasnar platitudes bizarras, saídas do recesso das almas sebosas que povoam o espectro da extrema direita nacional.

Não é possível, nem plausível, imaginar que os repórteres pagos para falarem dos fatos da política, para analisarem a conjuntura, para discorrerem sobre a sempre tensa realidade brasileira, tenham apagado de suas memórias tamanha pandemia de boçalidade que vivemos. Contudo, apagaram. É o que se depreende pela velocidade e pelo diapasão com os quais foram normalizadas e assimiladas como naturais as estratégias de retorno à ribalta da turma que colocou a Nação face à tragédia.

Dois dos Três Poderes da República foram ágeis e assertivos na apuração dos crimes contra a democracia, a Constituição e o Estado de Direito cometidos em 8 de janeiro de 2023 no coração cívico de Brasília. O Executivo, o governo federal, correu para garrotear o golpe em curso, vencê-lo e prender em flagrante delito 1,8 mil criminosos: a massa de manobra usada pelos golpistas para destruir os palácios republicanos. O Judiciário, coordenado pelo Supremo Tribunal Federal, conduziu quase duas mil ações em paralelo, individualizou as condutas delitivas, determinou a ação de cada um dos presos no dia do golpe, julgou-os e sentenciou todos eles – desde reles obreiros do caos até os formuladores do ataque à democracia.

O Legislativo, o Congresso Nacional, depauperado de vergonha ou de grandeza institucional, meteu os pés pelas mãos, deixou que sobrevivessem células golpistas em seu interior e dentro do sistema político. Ali, vicejaram os brotos da estupidez antidemocrática, antirrepublicana, amoral e aética da extrema direita brasileira, que se renovou e ganhou forma. Ela sempre teve nome e sobrenome, Flávio Bolsonaro, a quem jamais os franco-atiradores da mídia autoproclamada profissional importunaram com a precisão dos rifles adquiridos e mantidos pelos donos dos veículos comerciais de comunicação.

Tendo chegado ao Senado em 2019 como um deputado estadual do Rio de Janeiro transfigurado em senador, em razão da conjunção histórica mal sã do ano eleitoral de 2018, o primogênito de Jair Bolsonaro escondeu-se sob a casca protetora que o fato de ser “filho do presidente” lhe conferia. Hibernou por todo o primeiro ano de governo do pai, como um embrião de dinossauro dentro do ovo. Na CPI da Pandemia, que podia ter se convertido em pedra de toque do impedimento administrativo do traste que governava o país com a ignorância de sua mente desgovernada e o peso dos coturnos sujos das Forças Armadas, Flávio Bolsonaro começou a quebrar a casa do ovo e ensaiou coordenar a defesa do governo. Não se saiu bem, mas, também não foi cobrado por suas responsabilidades como devia tê-lo sido.

Ovo da serpente

O ovo eclodiu em seu esplendor há cerca de seis meses, quando ficou claro que o Bolsonaro pai ficaria por um bom tempo cumprindo sentença em regime fechado ou domiciliar em razão do golpe de 2023 e tampouco recuperaria os direitos políticos em razão da tentativa de golpe contra as eleições de 2022. Daquele ovo chocado com o silêncio benevolente da parcela da imprensa brasileira que se diz “profissional”, que lança em sua própria direção autoindulgências plenárias a fim de fugir do inferno das cobranças pelos atos e omissões cometidos nos verões passados, revelou-se a serpente demoníaca: Flávio Nantes Bolsonaro.

Serelepe, a serpente que atende pela alcunha de “filho 01” do demônio, desembarcou em Brasília num já longínquo 2019 montado no cometa de investigações de estripulias. Era promoção de rachadinhas salariais no gabinete de deputado estadual numa órbita, lavagem de dinheiro numa franquia de marca de chocolate noutra; associações pontuais com milícias no Rio de Janeiro em trajetória paralela, auxílio na fuga da Justiça de um ex-funcionário, o celebérrimo Fabrício Queiroz, e mais um filão apuratório que nunca rendeu grandes investigações na imprensa que se diz profissional.

Ambientado na capital da República e confortável à sombra do mandato do pai, Flávio Bolsonaro comprou uma confortável casa de R$ 6,5 milhões no Lago Sul, lançando mão de um empréstimo no BRB sem lastro aparente de ter como pagá-lo. Em seguida, constituiu sociedade suspeita no ramo da advocacia com uma figura nefasta como Frederik Wassef, advogado sempre se misturando às figuras dos réus. A sociedade jurídica prescindia de ser “de fato”, posto que atuava “de direito” nos desvãos do Judiciário e era bússola à qual recorriam candidatos a magistrados que perseguiam indicações para si ou para outrem nos tribunais superiores. A ficha corrida é imensa e, no descrito aqui, não há menção ao exercício do mandato de senador em si.

Os snipers do jornalismo tupiniquim, protegidos pela armadura do “jornalismo profissional” forjada por eles mesmos, deixaram de apontar suas miras descalibradas para o coração da operação de poder que construiu e sustenta esta personagem nefasta, que hoje é ameaça real à democracia – Flávio Bolsonaro. Vencido o 8 de janeiro de 2023, aquele ponto fora da curva de assustadora ousadia registrado na História nacional, as miras foram reprogramadas para seguir o proverbial festival de cafajestices e recalques, que é a incompreensão da dimensão histórica e do protagonismo contemporâneo do ex-sindicalista e presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Mais atenção à realidade concreta! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minha-opiniao_26.html

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