Há
franco-atiradores em Brasília e eles se escondem em redações
Aliança de defesa da democracia forjada sobre as
ruínas da Praça dos Três Poderes era frágil e já não existe
Luis
Costa Pinto/Liberta
As cenas de selvageria e boçalidade de hordas de golpistas transtornados, quebrando as sedes dos três poderes da República – o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o edifício principal do Supremo Tribunal Federal –, naquela tarde infame de 8 de janeiro de 2023, deveriam estar gravadas em ouro, prata e bronze nas retinas dos jornalistas brasileiros e de quem lhes paga o salário ou viabiliza o exercício profissional. Não estão. O preço a ser pago por essa rápida desmemória será alto e, estimo, fatal.
Há que lembrar
aos que rápido esqueceram os arrancos e coices de Jair Bolsonaro, de todos os
seus filhos, dos ministros e ministras dele e de muitos dos amigos do clã que
sitiavam a Esplanada dos Ministério para saquearem os programas públicos e
pilharem o Tesouro Nacional: desde a primeira hora da camarilha golpista no
poder, foram suspensos ou modificados os rituais de transparência e de
prestação de contas à população mediados pela imprensa. Vem dessa nobre missão
dos jornalistas o substantivo “mídia” usado para designar o coletivo de
veículos de comunicação, cujo papel central é mediar a relação entre governos
(de quaisquer matizes), Estado e sociedade civil.
Coliseu a céu aberto
O
chiqueirinho, cercadinho ou curralzinho (cada um chama como quiser aquela
excrescência anacrônica, que há até tão pouco tempo tivemos como presença
marcante em nossos noticiários, montada pelos taifeiros das três Forças Armadas
diante do Palácio da Alvorada) foi uma espécie de micro Coliseu erguido a céu
aberto.
O objetivo era
lançar os jornalistas que cobriam política e o dia a dia de Brasília às feras
pegajosas, andrajosas, todas agindo a soldo dos diretores de cena do
bolsonarismo e das variadas denominações de igrejas evangélicas que ruminavam à
sombra das alamedas onde grassava dinheiro público. As redes sociais, onde por
definição e lógica a mediação dos jornalistas é dispensada e depauperada para
que haja o contato direto entre detentores do poder e seu povo – e, de toda
forma, a turma dos chiqueirinhos é povo de alguém –, deslegitimaram os veículos
de comunicação como foros apropriados para dar notícia, reivindicar
credibilidade e arrogar-se o papel de formador de opinião.
Durante os
trágicos quatro anos de duração do mandato de Bolsonaro (pai), repórteres (em
escala massiva as do sexo feminino) eram ofendidos, diuturnamente, por
escroques de gabinete cumprindo o clássico roteiro das subcelebridades ou dos
guardas da esquina em ditaduras que lograram degenerar o meio em que se
implantaram. Mentiras e especulações ganhavam lançamentos solenes como se
fossem políticas de Estado.
Recesso
das almas
Naqueles
tempos, os finais de semana em Brasília se tornaram infernais para os
profissionais de mídia destacados para a cobertura palaciana. Sábado sim, outro
não, atos de paradoxais “protestos a favor” eram convocados para que um bando
de dementes marchasse desde a Praça das Fontes até a Avenida das Bandeiras, no
Eixo Monumental. Domingo sim, outro também, um ajuntamento de militares
desqualificados, reservistas de pijama, sentava praça na altura da Superquadra
208 da Asa Sul, no Eixo Estrutural da cidade (o popular Eixão) para grasnar
platitudes bizarras, saídas do recesso das almas sebosas que povoam o espectro
da extrema direita nacional.
Não é
possível, nem plausível, imaginar que os repórteres pagos para falarem dos
fatos da política, para analisarem a conjuntura, para discorrerem sobre a
sempre tensa realidade brasileira, tenham apagado de suas memórias tamanha
pandemia de boçalidade que vivemos. Contudo, apagaram. É o que se depreende
pela velocidade e pelo diapasão com os quais foram normalizadas e assimiladas
como naturais as estratégias de retorno à ribalta da turma que colocou a Nação
face à tragédia.
Dois dos Três
Poderes da República foram ágeis e assertivos na apuração dos crimes contra a
democracia, a Constituição e o Estado de Direito cometidos em 8 de janeiro de
2023 no coração cívico de Brasília. O Executivo, o governo federal, correu para
garrotear o golpe em curso, vencê-lo e prender em flagrante delito 1,8 mil
criminosos: a massa de manobra usada pelos golpistas para destruir os palácios
republicanos. O Judiciário, coordenado pelo Supremo Tribunal Federal, conduziu
quase duas mil ações em paralelo, individualizou as condutas delitivas,
determinou a ação de cada um dos presos no dia do golpe, julgou-os e sentenciou
todos eles – desde reles obreiros do caos até os formuladores do ataque à
democracia.
O Legislativo,
o Congresso Nacional, depauperado de vergonha ou de grandeza institucional,
meteu os pés pelas mãos, deixou que sobrevivessem células golpistas em seu
interior e dentro do sistema político. Ali, vicejaram os brotos da estupidez
antidemocrática, antirrepublicana, amoral e aética da extrema direita
brasileira, que se renovou e ganhou forma. Ela sempre teve nome e sobrenome,
Flávio Bolsonaro, a quem jamais os franco-atiradores da mídia autoproclamada
profissional importunaram com a precisão dos rifles adquiridos e mantidos pelos
donos dos veículos comerciais de comunicação.
Tendo chegado
ao Senado em 2019 como um deputado estadual do Rio de Janeiro transfigurado em
senador, em razão da conjunção histórica mal sã do ano eleitoral de 2018, o
primogênito de Jair Bolsonaro escondeu-se sob a casca protetora que o fato de
ser “filho do presidente” lhe conferia. Hibernou por todo o primeiro ano de
governo do pai, como um embrião de dinossauro dentro do ovo. Na CPI da
Pandemia, que podia ter se convertido em pedra de toque do impedimento
administrativo do traste que governava o país com a ignorância de sua mente
desgovernada e o peso dos coturnos sujos das Forças Armadas, Flávio Bolsonaro
começou a quebrar a casa do ovo e ensaiou coordenar a defesa do governo. Não se
saiu bem, mas, também não foi cobrado por suas responsabilidades como devia
tê-lo sido.
Ovo
da serpente
O ovo eclodiu
em seu esplendor há cerca de seis meses, quando ficou claro que o Bolsonaro pai
ficaria por um bom tempo cumprindo sentença em regime fechado ou domiciliar em
razão do golpe de 2023 e tampouco recuperaria os direitos políticos em razão da
tentativa de golpe contra as eleições de 2022. Daquele ovo chocado com o
silêncio benevolente da parcela da imprensa brasileira que se diz
“profissional”, que lança em sua própria direção autoindulgências plenárias a
fim de fugir do inferno das cobranças pelos atos e omissões cometidos nos
verões passados, revelou-se a serpente demoníaca: Flávio Nantes Bolsonaro.
Serelepe, a
serpente que atende pela alcunha de “filho 01” do demônio, desembarcou em
Brasília num já longínquo 2019 montado no cometa de investigações de
estripulias. Era promoção de rachadinhas
salariais no gabinete de deputado estadual numa órbita,
lavagem de dinheiro numa franquia de marca de chocolate noutra; associações
pontuais com milícias no Rio de Janeiro em trajetória paralela, auxílio na fuga
da Justiça de um ex-funcionário, o celebérrimo Fabrício Queiroz, e mais um
filão apuratório que nunca rendeu grandes investigações na imprensa que se diz
profissional.
Ambientado na capital da República e
confortável à sombra do mandato do pai, Flávio Bolsonaro comprou uma confortável
casa de R$ 6,5 milhões no Lago Sul, lançando mão de um empréstimo no BRB sem
lastro aparente de ter como pagá-lo. Em seguida, constituiu sociedade suspeita
no ramo da advocacia com uma figura nefasta como Frederik Wassef, advogado
sempre se misturando às figuras dos réus. A sociedade jurídica prescindia de
ser “de fato”, posto que atuava “de direito” nos desvãos do Judiciário e era
bússola à qual recorriam candidatos a magistrados que perseguiam indicações
para si ou para outrem nos tribunais superiores. A ficha corrida é imensa e, no
descrito aqui, não há menção ao exercício do mandato de senador em si.
Os snipers do jornalismo tupiniquim,
protegidos pela armadura do “jornalismo profissional” forjada por eles mesmos,
deixaram de apontar suas miras descalibradas para o coração da operação de
poder que construiu e sustenta esta personagem nefasta, que hoje é ameaça real
à democracia – Flávio Bolsonaro. Vencido o 8 de janeiro de 2023, aquele ponto
fora da curva de assustadora ousadia registrado na História nacional, as miras
foram reprogramadas para seguir o proverbial festival de cafajestices e
recalques, que é a incompreensão da dimensão histórica e do protagonismo
contemporâneo do ex-sindicalista e presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Mais atenção à realidade concreta! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minha-opiniao_26.html

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