O mito dos bombardeios libertadores
“Ataques cirúrgicos”, caças guiados por satélite, mísseis cheios de tecnologia… A guerra por bombardeios aéreos, à primeira vista tão simples e controlada quanto um videogame, permitiria atingir com eficiência objetivos estratégicos, preservando a vida das tropas. No entanto, a história mostra os problemas desse tipo de método
Mathias Delori*/Le Monde Diplomatique
Israel e os Estados Unidos afirmam perseguir dois objetivos ao conduzir uma guerra aérea contra o Irã: destruir o programa nuclear de Teerã e provocar uma mudança de regime. A história, no entanto, mostra os limites práticos e éticos desse tipo de estratégia. A escolha por bombardeios aéreos decorre em geral menos de uma reflexão sobre o melhor meio de atingir um objetivo e mais de uma preocupação prática: não expor as próprias tropas. Esse raciocínio não é novo. Ao longo dos anos 1910, com os exércitos de países como França e Reino Unido sofrendo pesadas perdas em suas colônias, os bombardeios por aviões lhes pareceram um meio de “pacificar” esses territórios limitando a exposição de seus combatentes.
Esse cálculo desconsidera um dado essencial: os bombardeios aéreos provocam mais mortes de civis inocentes do que os deslocamentos de tropas terrestres. O historiador David E. Omissi relata assim o dilema de um oficial britânico no Iraque, antes da Segunda Guerra Mundial: “O desencanto de Lionel Charlton com os bombardeios punitivos começou quando ele foi a Diwaniya, visitou o hospital local e viu vítimas dos bombardeiros britânicos se recuperando de seus ferimentos. […] Atormentado por seu desejo contraditório de condenar os métodos […] e de seguir uma carreira na Força Aérea, ele […] pediu para ser afastado de seu posto”.[1]
Quando o objetivo é incitar uma população a não apoiar um grupo ou um regime inimigo, ou a se rebelar contra ele, a “transferência de risco”[2] para os civis não é apenas um problema ético, mas também estratégico. Isso ficou claro quando essa estratégia foi aplicada contra o que então se chamava de “nações civilizadas”. “Os bombardeados se unem automaticamente em um ódio e um terror comuns diante do inimigo invisível”,[3] observou o psicólogo Erich Benjamin Strauss depois de estudar as reações das populações aos ataques ítalo-alemães a Barcelona em março de 1938. A mesma co nstatação valeu para os ataques nazistas durante a batalha da Inglaterra, em 1940.[4]
Isso não impediu o Reino Unido e os Estados Unidos de travarem contra a Alemanha uma guerra aérea de intensidade dez vezes superior, em toneladas de bombas e em número de civis mortos, em comparação com aquela ocorrida na Inglaterra. Já em 1943, porém, acadêmicos norte-americanos concluíram em um relatório que “nenhum elemento permite concluir que os bombardeios britânicos e norte-americanos das cidades alemãs tenham efetivamente enfraquecido a influência do governo nazista sobre a população”.[5]
Ainda assim, o comando aliado decidiu dobrar a aposta. Entre 1944 e 1945, as cidades alemãs receberam mais de 1 milhão de toneladas de bombas, contra 250 mil nos três anos anteriores. Sem que os civis se revoltassem contra o regime. Pior: “Os ataques aéreos ajudaram [o ministro do Armamento Albert] Speer”, constatou o economista John K. Galbraith, autor de uma avaliação sobre o assunto em 1945. “O estresse gerado pelos ataques aéreos lhe permitiu mobilizar as energias da população.”[6] Apesar desse alerta mais uma vez ignorado, os Estados Unidos aplicaram a mesma estratégia ao Japão. Na avaliação do historiador Sheldon Garon, a destruição de Tóquio e de dezenas de outras cidades na primeira metade de 1945 deu um golpe decisivo na produç& atilde;o de guerra inimiga, mas outros fatores também pesaram na rendição: o bloqueio naval, a entrada da União Soviética na guerra e, segundo alguns analistas, as duas explosões nucleares de agosto de 1945.[7]
A maioria dos especialistas concorda quanto à ineficiência estratégica dos bombardeios na Coreia, nos anos 1950. Isso não desanimou os partidários desse modo de fazer a guerra, que voltaram a usá-lo no Vietnã, no Camboja e no Laos, nas décadas de 1960 e 1970, com o único resultado concreto de matar milhões de civis.[8] Um elemento contribui para legitimar a sobrevivência das ilusões em torno dessa estratégia: a tecnologia. A partir dos anos 1990, a generalização de dois novos instrumentos – as armas guiadas e os softwares de estimativa dos danos colaterais – passou a fornecer argumentos aos defensores das guerras aéreas. Essas tecnologias são apresentadas como “morais”, porque permitiriam cumprir o direito de guerra ao visar apenas alvos apresentados como combatentes e ao garantir que os “danos colaterais” sejam proporcionais ao efeito militar almejado. Essa maneira de conduzir os combates constituiria um progresso em relação ao que o cientista político Martin Shaw chama de “antiga maneira ocidental de fazer a guerra”:[9] a do tapete de bombas. Para tomar um exemplo entre outros, a associação Airwars estima em cerca de 10 mil o número de civis iraquianos e sírios mortos pelos bombardeios norte-americanos, britânicos e franceses contra a Organização do Estado Islâmico (OEI) entre 2014 e 2018.[10] Em 1944-1945, os ataques aliados contra cidades de porte médio produziam esse saldo humano em dois dias.
®Dezenas de civis mortos para neutralizar um militante
É importante, no entanto, sublinhar que a menor letalidade das guerras aéreas dos anos 1990-2010 não as tornou mais estratégicas. Ao atingirem grupos que não dispõem de sistemas de defesa antiaérea (Al-Qaeda, OEI), elas deixam a estes últimos apenas duas opções: não responder ou atacar os civis dos países autores dos ataques. Nesse sentido, produziram não uma, mas duas “transferências de risco”: a primeira, dos combatentes dos países atacantes para os civis dos países bombardeados; e a segunda, para os civis dos países que bombardeiam. Os atentados que ensanguentaram a França a partir de 2015 ilustram esse fenômeno.
Além disso, cabe perguntar se a chegada da inteligência artificial (IA) não constitui um retorno assustador ao passado. Em Gaza, em 2023-2024, Israel se apoiou nessa nova tecnologia para identificar o máximo possível de alvos ditos “combatentes” (na maioria das vezes, supostos militantes do Hamas). Em seguida, o comando militar apresentou o argumento (jurídico) de que seria aceitável matar dezenas de civis para neutralizar um militante. Com isso, Tel Aviv produziu uma violência comparável aos maiores bombardeios da história,[11] ao mesmo tempo que deu a essa ação uma fachada liberal – da qual seus representantes se valeram diante da Corte Internacional de Justiça no processo em curso aberto pela ação movida pela África do Sul por violaç&atild e;o da Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio. Os objetivos de Israel e dos Estados Unidos no Irã são visivelmente diferentes, mas os dois países reconheceram usar a IA em seus softwares de direcionamento de bombardeios. Essa guerra já teria deixado mais de mil civis mortos em apenas duas semanas.
*Mathias Delori é pesquisador do Centro de Pesquisas Internacionais (Ceri) e autor de La Guerre contre le terrorisme comme rivalité mimétique [A guerra contra o terrorismo como rivalidade mimética], Peter Lang, Paris-Bruxelas, 2025.
[1] David E. Omissi, Air Power and Colonial Control. The Royal Air Force 1919-1939 [Poder aéreo e controle colonial. A Força Aérea Real 1919-1939], Nova York, Saint Martin’s Press, 1990.
[2] Martin Shaw, The New Western Way of War. Risk-Transfer and Its Crisis in Irak [O novo modo ocidental de fazer a guerra. Transferência de risco e sua crise no Iraque], Polity Press, Cambridge, 2006.
[3] Eric Benjamin Strauss, “The psychological effects of bombing” [Os efeitos psicológicos dos bombardeios], The Royal Services Institution Journal, v.84, n.534, Londres, 1939.
[4] Ian Burney, “War on fear. Solly Zuckerman and civilian nerve in the Second World War” [Guerra ao medo. Solly Zuckerman e a resistência civil na Segunda Guerra Mundial], History of the Human Sciences, v.25, n.5, Londres, 2021.
[5] Gian P. Gentile, How Effective is Strategic Bombing? Lessons learned from World War II to Kosovo [Quão eficaz é o bombardeio estratégico? Lições aprendidas da Segunda Guerra Mundial ao Kosovo], New York University Press, 2001.
[6] The United States Strategic Bombing Survey. The Effects of Strategic Bombing on the German War Economy [Levantamento estratégico de bombardeio dos Estados Unidos. Os efeitos do bombardeio estratégico sobre a economia de guerra alemã], Washington, DC, 1945.
[7] Ver Kai Bird, “Fallait-il lancer la bombe sur Hiroshima?” [Era preciso lançar a bomba sobre Hiroshima?], Le Monde Diplomatique, ago. 1995.
[8] Thomas Hippler, Le Gouvernement du ciel. Histoire globale des bombardements aériens [O governo do céu. História global dos bombardeios aéreos], Les Prairies ordinaires, Paris, 2014.
[9] Martin Shaw, op. cit.
[10] “Reported civilian deaths from US-led coalition strikes in Iraq and Syria” [Mortes civis relatadas decorrentes dos ataques da coalizão liderada pelos Estados Unidos no Iraque e na Síria], 29 set. 2022, https://airwars.org.
[11] Michael Spagat et al., “Violent and non-violent death tolls for the Gaza conflict” [Totais de mortes violentas e não violentas no conflito em Gaza], The Lancet Global Health, v.14, n.4, Londres, abr. 2026.
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