A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
30 abril 2026
O que a IA não faz?
À sua imagem e semelhança
No futuro, cada um poderá ser o deusinho de seu
próprio mundo. Graças ao 'prompt' a minha amiga pode se vestir como quiser
Antonio Prata/Folha
de S. Paulo
Uma amiga manda três fotos, com três roupas, "qual você sugere pro meu LinkedIn?". Antes de reparar nas roupas, respondo impressionado: "Como você conseguiu exatamente o mesmo ângulo e a mesma cara nas três fotos?". "É IA." Ela pegou uma foto em que estava bonita e pediu: "Um vestido preto básico, braços à mostra". "Camiseta branca, gola rulê." "Uma blusinha bege, colar verde com pingentes."
Essas ordens,
eu não sabia, se chamam "prompt". "Prompt" é o pedido que
você faz pra inteligência artificial criar algo. "Quero um urso azul com
cara de bonzinho dançando lambada e comendo um cachorro-quente na quadra da
Portela." "Quero Einstein lutando MMA com Leonardo da
Vinci na praça Benedito Calixto."
A máquina faz.
Faz tudo errado no começo, porque ela ainda é mais artificial do que
inteligente, mas quanto mais você afina o "prompt", mais ela afina a
resposta. Minha amiga, depois de alguns "prompts" tava pronta nas
três fotos —embora na última estivesse com três orelhas. Bugs que logo serão
consertados.
Fiquei
pensando: hoje minha amiga pode se vestir como quiser numa foto pro LinkedIn.
Daqui a pouco, quando todos usarem óculos ou lentes de contato da Meta ou da Open IA, não será apenas nas fotos que nos
vestiremos como quisermos, mas aos olhos (ou às lentes) dos outros. Imagino um
casamento.
Tem que ir de
terno. Detesto vestir terno. Vou de bermuda, regata e pantufas. Mas programo
minha IA para emitir pras IAs alheias um terno muito chique –e é assim que
todos me verão no casamento.
A não ser, é
claro, que algumas pessoas tenham filtros em suas IAs visuais. Digamos que meu
amigo Rodriguêra, com quem eu andava de skate na adolescência, se recuse a ver
qualquer pessoa de terno. Ele é contra terno. Odeia terno. Tem "skate or
die" tatuado no peito. Decidiu viver num mundo sem ternos. Suas lentes
mudarão as roupas de todos que ele cruzar para as que mais lhe agradarem.
Rodriguêra é palmeirense roxo. (Verde, no caso).
Pode programar a ferramenta para, em dias de jogos do Palestra, ver todo mundo
que olhar com roupas do Palmeiras. O papa com camisa do Palmeiras.
A Monalisa com
a camisa do Palmeiras. Jesus, na cruz, com uma tanguinha do Palmeiras. E pode
ver todos os são-paulinos (sua IA saberá quem é são-paulino, a não ser que a IA
dos são-paulinos tenham filtros) com focinhos e chifres de Bambi.
Talvez haja um
filtro nos óculos e lentes da IA, lei do país, que proíba a programação para
ver todos os são-paulinos de Bambi, pois seria considerado homofobia. Talvez este filtro converta
automaticamente todos os são-paulinos que o Rodriguêra quisesse ver
transformados em Bambi numa mensagem "A homofobia é crime hediondo,
procure ajuda".
Pode ser que
as lentes da IA puxem, a partir desse alerta anti-homofobia, vários stand-ups
homofóbicos ou anti-woke. Pode ser que a pessoa seja processada pelo que os
algoritmos a fizeram ver, afinal, os algoritmos são um chorume de tudo o que
ela pensa.
Conto pro
Márcio, meu amigo, essa visão de futuro. Ele discorda. As pessoas não quererão
ver todo mundo numa festa com as roupas que ela gosta. As pessoas querem ser
surpreendidas, ver coisas diferentes, aprender. Infelizmente, discordo. O
primeiro "prompt", o "prompt" mais eficiente da história da
humanidade, dizia que Deus nos fez à sua imagem e semelhança.
Com nossos
óculos ou lentes "inteligentes", poderemos enxergar o mundo à nossa
"imagem e semelhança". Cada um pode ser o deusinho de seu próprio
mundo. Enxergar só o que quiser. Da forma que quiser. Igualzinho a si. Pensando
bem, é exatamente como já é. Só com melhor tecnologia.
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O cigarro que não fumo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/o-cigarro-que-nao-fumo.html
Humor de resistência
O lugar do PCdoB na cena política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/partido-renovado-e-influente.html
Dica de leitura
Terras raras
O tema
segue em destaque – sobretudo na mídia de esquerda e progressista, atenta à preeervação da sobenaria nacional.
O portal
Vermelho, em editorial recente, critica firmememnte a venda da mina de Serra
Verde, em Goiás, para os Estados Unidos. A entrega desses recursos estratégicos
representa uma grave afronta aos interesses do país, uma vez que tais minerais
são essenciais para tecnologias de ponta e para a transição energética global.
O Brasil
não pode seguir como mero exportador de matéria-prima, enquanto o valor
agregado e o domínio tecnológico permanecem com potências estrangeiras.
A riqueza
de Serra Verde deve ser integrada a um projeto de reindustrialização nacional,
servindo ao desenvolvimento da indústria brasileira em vez de abastecer cadeias
produtivas externas, pois fragiliza a capacidade de planejamento estratégico do
Estado brasileiro diante das disputas globais por recursos finitos.
Confira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/editorial-do-vermelho_28.html
(LS)
Sylvio: palhaço
O deputado Sostenes Cavalcanti parece um animador de festas. Em todas derrotas do Governo ele aparece pulando, festejando e rebolando como se estivesse num baile carnavalesco.
Jacaré e porco espinho não combinam https://lucianosiqueira.blogspot.com/
Intervencionismo bélico dos Estados Unidos
A violência plurissecular dos Estados Unidos
O
intervencionismo bélico dos Estados Unidos como mecanismo de preservação
imperial em um cenário de transição hegemônica inconclusiva
Tadeu Valadares*/A Terra é
Redonda
“Ou bem o
livre ou o determinado; não há lugar para o indeterminado”
(Fernando Pessoa).
1.
Diante da enormidade da crise
geopolítica de fato mundial, impossível, de momento e tendo em conta a
enxurrada dos acontecimentos cotidianos, elaborar mapa preciso de conjuntura
tão complexa quanto desnorteante. Daí que me limite a esboçar precário
portulano que traduz meu sentimento de estarmos vivendo à beira do abismo.
Aceita essa ideia inicial, algo se
torna em decorrência evidente: a ordem antiga se esgotou – há quem negue isso
–, mas outra ainda não surgiu, e há quem isso também negue. Para mim, estamos
vivendo paradoxal momento longo, perigosamente longo, dessa transição de um
mundo a outro, de uma hegemonia a outra. Seu término, indeterminável. Em
princípio, não se estenderá pelo que resta do século.
Tão enormes quanto a enormidade da
crise que é policrise são as expectativas que a provável quebra de hegemonia em
curso desperta no Sul global, em especial nos países – Estados, sociedades,
povos e nações – que desde 1945 constituem a periferia imediata e a periferia
extrema do sistema que funciona para afirmar o centro, beneficiário maior do
esquema global de extração de recursos do Sul global para o Norte, cujo
primeiro momento ‘orgânico’, no dizer dos historiadores da longa duração, foi o
ciclo genovês-espanhol nos séculos XV e XVI.
Para boa parte do Sul global, a
transição de um ciclo sistêmico a outro e de uma hegemonia a outra, bem como
seu vetor final, são favas contadas. Estamos prestes a deixar para trás a ordem
exaurida, estamos prontos para ingressar no mundo novo. Em outras palavras, o
grande jogo da política e da economia mundial nos favorece estruturalmente.
Para o novo que desejamos caminhamos com olhos abertos.
Mas quando se observa a coisa mais de
perto, depois de registrarmos o óbvio esgotamento da ordem caduca, pouco se
detecta quanto ao que será a base essencial a sustentar a ordem futura. Por
enquanto, invisível os delineamentos da estrutura formal jurídico-política e
diplomática eletivamente afim com esse projeto audaciosa e ideologicamente
inovador. Por enquanto inexiste a malha mínima de instituições suficientemente
cristalizadas – instituições, não grupos de países, não acertos informais –,
capazes de eficientemente operar o cotidiano do novo sistema, conferir-lhe vida
efetiva.
Nesse contexto, o BRICS e outros
agrupamentos mais ou menos similares são desde já evidentemente importantes,
mas ainda não deixaram de todo o embrionário. Ainda estão no casulo enquanto em
geral os vemos como belas borboletas. E, completando o raciocínio, até o
momento não ocorreram, nem parecem prestes a ocorrer, os grandes acertos de
poder que em última instância são os estruturadores da ordem nova como espaço
institucionalizado favorável ao exercício de algum novo tipo de hegemonia,
algum tipo novo de ciclo de acumulação de poder e de capital, ambos por igual
indeterminados.
2.
Estamos, portanto, na plena ambiguidade
que marca as grandes transições históricas de hegemonia. A ‘ordem onusiana’
perdeu quase completamente sua relevância, e o quase é cláusula minha de
prudência. A velha ordem representa o mundo velho nos estertores. Mas o novo
ainda não nasceu, não se sabe se nascerá e, se nascer, qual será sua real
fisionomia. Provável seja bastante diferente das tantas configurações
imaginárias que tantos analistas de grande fôlego e saber generosamente
desenham, quem sabe se guiados pelos votos do coração. O curso real do mundo
não disse sua palavra final. Ela, até pronunciada, persistirá como claro
enigma.
Pensando a partir dessa moldura algo
(?) heterodoxa, decerto coisa muito frágil, importante assinalar: para os da
longa duração, a decadência final do hegemon de turno e o
estabelecimento em cada ciclo de seu eventual sucessor foram sempre
mediatizados por período com características particulares, os chamados tempos
de “caos sistêmico”. Esse tempo de caos ocorreu tanto na passagem da hegemonia
genovesa-espanhola para a holandesa quando na transição da hegemonia de
Amsterdã para Londres. Também na ‘chegada à hegemonia’ de Nova Iorque em
substituição a londrina.
Parece-me bem mais do que aceitável
trabalhar com a hipótese de que – desde mais ou menos 50 anos atrás, e muito
especialmente no curso do século XXI – estamos vivendo o caos sistêmico
mediador da queda da hegemonia americana e da ascensão da China ao ápice do
sistema. Ordem e sistema que, ao permanecerem em última análise como sistema e
ordem, permitem ao novo hegemon dar início a novo e diferente
ciclo de acumulação de capital e poder.
Certo, isso tem muito de teórico,
especulativo, hipotético. A hegemonia prevista e desejada pela maioria do Sul
Global tem de deixar de ser teoria, especulação, hipótese. Tem que se afirmar
na prática da realidade efetiva. Lembrando Friedrich Engels, a prova da
materialidade do pudim está em comê-lo.
O conhecimento acumulado pelos
historiadores no que diz respeito às transições de hegemonia induz a certa
sobriedade: nas quatro passagens conhecidas de hegemonia, todas mediatizadas
por períodos de caos sistêmico, as guerras foram as parteiras da história. Em
todo esse período, que cobre o desenvolvimento do capitalismo histórico desde
ao menos o século 15, como os historiadores da longa duração viram a relação
entre guerra e capitalismo?
Para autores como Fernand Braudel
(1902-1985), Charles Tilly (1929-2008) e José Luís Fiori, octogenário como eu,
a guerra, fenômeno fundamental que singulariza o homo sapiens, nos
acompanha como uma espécie de invariante histórico.
Para Fernand Braudel, a constância das
guerras se expressa muito além das fronteiras do capitalismo histórico. A
guerra acompanha e conforma em grande medida toda a história da espécie“, como
se fosse uma necessidade biológica’. O americano Charles Tilly, ao analisar o
fenômeno no período que mais ou menos se inicia no século 15, realça : “De 1480
a 1800, a cada 2 ou 3 anos iniciou-se em algum lugar do mundo um conflito
internacional expressivo’. Diz ainda que “de 1800 a 1944, esse tipo de conflito
passou a ocorrer a cada 2 anos’. E sinaliza: ‘a partir da II Guerra Mundial, um
conflito internacional expressivo eclodiu a cada 14 meses’.
3.
Mais preocupante ainda, sugiro, o
ingresso da humanidade na era nuclear não enfraqueceu essa tendência ou pulsão
que vem dos tempos mais recuados. Agora, evidente para mim, a guerra é feita
nos moldes ditados pela expansão do modo de produção capitalista, processo e
dinâmica irremediavelmente conflitivos, vigentes no mínimo há mais de cinco
séculos.
Para José Luís Fiori, a guerra – em
suas diversas modalidades – é desde sempre a ultima ratio a que recorrem todos
os que exercem o poder tentando acumulá-lo, independentemente dos tipos ou
formas de vida social humana predominantes. E não há como, em se tendo poder,
deixar de obsessivamente acumulá-lo. Idealmente, acumular poder até exercer uma
espécie de monopólio temporário.
A guerra é, portanto, mais do que uma
possibilidade. É necessidade a que todas as formas sociais estão – queiram ou
não – submetidas. Diferentemente do dito por Fernando Pessoa, neste mundo – o
do poder – não há lugar para o livre nem para o indeterminado. Diria eu, então,
que só há lugar, nesse registro que é do mundo, para o que é determinado pela
própria lógica eternamente expansiva do poder. Eternamente, enquanto homens
houver.
Daí que a guerra seja copresente ao
arco inteiro da história humana, desde as organizações comunitárias e tribais
mais recuadas, passando pelas cidades, reinos, estados, repúblicas e impérios
antigos e medievais. Essa quase que necessidade bioógica, na formulação
‘braudeliana’, vige, creio que até mesmo com mais força, desde os começos do
mundo moderno. Sobredetermina, parece-me, os detinos dos estados nacionais ou
plurinacionais, dos impérios, repúblicas – entre elas a imperial –, e as
reveste com diversificadas formulações retóricas legitimadoras, muitas delas
imperiais.
Resumida de maneira obviamente abrupta
e incompleta as formulações de alguns dos principais historiadores da longa
duração – os que tentam fazer convergir a dimensão estrutural com a conjuntural,
ambas inseridas no corpo mais amplo da história humana –, façamos (outro?)
corte abrupto: deixemos essa moldura-macro e foquemos nossa atenção nos Estados
Unidos.
Ao fazermos isso, a violência
plurissecular que os Estados Unidos deflagaram ao longo de sua história – até
mesmo, via guerras contra os povos indígenas, no seu período de colônia
britânica – pode nos deixar com a sensação de que o que era o famoso cinza que
se põe sobre o cinza hegeliano ameaça de vez com a escuridão completa. A
escuridão nuclear que poria termo ao último voo do mocho de Minerva.
4.
Minha hipótese sobre a violência
plurissecular dos Estados Unidos talvez pareça no mínimo exagerada. Entendo.
Então, vamos a uma tentativa de ilustração da tese.
Quatro anos atrás, o Instituto Quincy
para Política Estatal Responsável (em inglês Quincy Institute for
Responsible Statecraft) circulou os resultados de ampla pesquisa sobre os
Estados Unidos e suas guerras. Resumidamente: de 1946 a 1989 (43 anos) os
Estados Unidos realizaram 104 intervenções militares; de 1990 a 2019 (29 anos),
112 intervenções foram feitas. No período pós-Guerra Fria coberto pela pesquisa
(1991-2022), mais de 100 intervenções militares em 31 anos.
No debate ocorrido no lançamento do
relatório do Instituto Quincy, John Mearsheimer sublinhou que de 1946 a 1989
(43 anos), Washington operacionalizou 104 intervenções militares. Em média, 2,4
intervenções por ano. Mas de 1990 a 2019 (29 anos), 112 intervenções americanas
ocorreram. Em média, 3.7 por ano. Ou seja, houve aumento do número de
intervenções e de sua média durante os tempos da ‘hegemonia liberal’ americana.
Isso ocorreu enquanto a ‘ordem internacional baseada em regras’ era cantada em
prosa e verso neoliberal no centro, na periferia imediata e na periferia extrema
do sistema internacional crescentemente em crise. Por quem, bem sabemos.
Desde 2022, o quadro não mudou para
melhor. Tanto assim que de certa forma contabilizando o estado bélico do mundo,
dois anos atrás o espanhol El país circulou matéria pela qual
informou estarem em curso 56 “guerras ativas entre países”. Também em 2024,
relatório elaborado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha registrou mais
de 120 conflitos armados a envolver cerca de 60 estados. Ou seja, mais ou menos
30% dos países que estão representados na Assembleia-Geral da ONU. A maioria
desses conflitos armados, para nenhuma surpresa nossa, se concentra na África e
na Ásia.
Simplificando escandalosamente o
panorama geopolítico mundial no registro bélico que vai muito além dele mesmo,
registremos que ele é pontuado: (a) pela guerra ou operação militar especial na
Ucrânia, em que os Estados Unidos desempenharam e desempenham papel
fundamental; e (b) pela guerra relâmpago de agressão à Venezuela, feita ao
arrepio de todas regras estabelecidas pela ONU, mas que numa subserviência com
medo e mácula foi aceita pelo Conselho de Segurança; e (c) pela ‘guerra
de escolha’ contra o Irã encetada por Washington e Tel Aviv.
Na verdade, guerra em dois estágios, o
dos 12 dias de junho passado e o atual, que no momento em que escrevo chegou ao
seu quinquagésimo-sétimo dia. Guerra que pode voltar ao estado mais ativo e
destrutivo a qualquer momento, dada a imprevisibilidade que caracteriza as
ações, intenções, gestos, falas e incoerências geopolíticas do governo
americano. Impossível vencer o Irã, mas bem possível para os Estados Unidos e
Israel nesse intento destruírem ‘nolens volens’ – dada a segura reposta
iraniana à terceira onda agressiva – toda a infraestrutura das monarquias do
Golfo e a maior parte da israelense. Isso seria uma espécie de suicídio que
levaria o capitalismo planetário a uma crise que muitos só encontram termo de
comparação no caos provocado pela crise de 1929.
Esses, os focos principais.
Indispensável, entretanto, não esquecer: o genocídio em Gaza e a falsa paz
imposta por Donald Trump e Benjamin Netanyahu com o beneplácito vergonhoso do
Conselho de Segurança; as violências cotidianas cometidas contra o povo
palestino na Margem Ocidental e em Jerusalém Oriental; a guerra de ocupação em curso
contra o Líbano, com remoção forçada de 20% da população libanesa antes
concentrada no sul do país.
Em todos esses ‘conflitos
internacionais expressivos’, para lembrar a categoria elaborada por Tilly, os
Estados Unidos ou são participantes ativos ou apoiadores pavlovianos de Israel.
Reflexo condicionado substituiu qualquer estratégia minimamente racional. Isso,
no caso de Israel como um quase-estado americano, sua condição desde ao menos
1967.
A quase perenidade com que os Estados
Unidos recorrem à guerra para manter o império se manifesta num dado nem tão
conhecido assim: desde o término da Segunda Guerra Mundial, a república
imperial – cada vez menos república, cada vez mais imperial e imprevisível – só
não esteve em guerra contra um ou mais países em três ‘anos fora da curva’:
1946, 1952 e 1974.
Arrisco especular, a despeito da frase
de Augusto Roa Bastos segundo a qual no futuro a gente entra de costas. De
costas, sim, tal como de costas está o Anjo de Paul Klee descrito por Walter
Benjamin na nona tese em Sobre a filosofia da história. Para mim,
dos resultados dessas duas guerras, a da Ucrânia e a resultante da agressão
cometida contra o Irã, em muito depende, para voltarmos ao início deste texto,
o surgimento com dose de clareza, em lugar de um ainda obscuro esboço de outra
ordem internacional que consagre uma nova hegemonia. As duas guerras bem podem
funcionar como aceleradores, dependendo dos respectivos vetores finais.
Mas apesar do papel e do peso desses
dois eventuais ‘aceleradores’, não creio que o mundo novo surja no prazo curto
de anos. A nova ordem continua em potência. Torná-la realidade efetiva, só no
longo prazo keynesiano, aquele que se aplica muito especialmente a todos os da
minha geração. Até lá é viver o momento tendencialmente catastrófico. Ou
não-catastrófico, como quer nossa esperança. Mas decerto caracterizado pela
vigência do caos sistêmico mediador. Viver é mesmo muito perigoso, como nos
ensinou Riobaldo.[1]
*Tadeu Valadares é embaixador
aposentado.
Nota
[1] Este texto é dedicado à professora
Paula Bastos, da UnB. Com a professora, alunos e alunas conversei, em 24 de
abril, sobre os temas aos quais voltei para esboçar este portulano à beira do
abismo.
Assine seu comentário para que possamos
publicá-lo.
"Uma crítica oportuna, mas insuficiente" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_15.html
Sua opinião
É apenas um amostra. A quase totalidade dos leitores que postam comentários aqui no blog esquecem de assiná-los. Em geral muito bons, mas involuntariamente apócrifos. Por isso não os publicamos.
Se comentar, identifique-se.
As voltas que o mundo dá https://lucianosiqueira.blogspot.com/
Minha opinião
Crônica de uma vitória a conquistar*
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
Tão
logo proclamada a rejeição de Jorge Messias, indicado pelo presidente da
República ao STF, explodiu na mídia dominante uma espécie de comemoração do que
se convencionou denominar "derrota histórica" de Lula.
Histórica sim, pois só no governo Floriano
Peixoto, na República Velha, em 1894,
cinco nomes foram barrados.
Porém não
o fim da linha.
Embora
com pequena margem de flutuação (os que oscilam conforme as circunstâncias), é
preciso considerar, grosso modo, que dos 81 senadores apenas 38 são
considerados da base do governo; entre 14 a 15 se situam no Centrão
conservador; e 29 se postam na oposição, dos
quais 15 do PL bolsonarista.
Uma maioria que votou em
Bolsonaro duas vezes.
Ou seja, uma correlação de forças
abertamente adversa. Tanto que a cada matéria relevante, o governo precisa
negociar pacientemente para obter maioria circunstancial.
Demais, pelo Regimento o
presidente da Casa detém superpoderes, inclusive sobre a pauta dos trabalhos,
ele próprio (David Alcolombre, União Brasil-Amapá) dúbio e chantagista.
E o ambiente de ontem,
marcadamente influenciado pelas eleições de novembro e (para parcela dos
senadores oposicionistas) sob tensão diante do rumoroso caso do Banco Master,
objeto de uma emenda destinada a elevar a garantia do Fundo Garantidor de
Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, que beneficiaria diretamente os
investidores em caso de quebra.
De quebra, a rejeição de Jorge
Messias também tem como alvo o STF, ora em confronto aberto com o Senado.
Ou seja, ambiente maduro para uma
derrota do governo.
Mas daí a avaliar que as
possibilidades de reeleição do presidente estariam irremediavelmente
comprometidas, como assinalam comentaristas da Globo News, entre outros, é de
uma irresponsabilidade jornalística sem tamanho!
Terá sido o momento oportuno para
a deliberação sobre a indicação de Jorge Messias? Parece que não, mas agora é
tarde, Inês é morta...
Às forças que dão sustentação ao
governo, por seu turno, cabe fortalecer a sua unidade em torno reeleição de
Lula e por cadeiras no Senado (que poderá ser renovado em dois terços) e na
Câmara dos Deputados (onde a base governista também é minoritária).
A empreitada é hercúlea. Como bem
assinala a Resolução Política do XVI Congresso do PCdoB, duas
grandes tarefas se impõem: batalhar por nova vitória da frente ampla
democrática e lutar pela realização de mudanças estruturais, com um plano e um
polo estratégicos, constituídos pela esquerda e por forças populares e
patrióticas.
Não é fácil, mas é possível.
*Texto da minha coluna no portal Vermelho.
Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.
O lugar do PCdoB na cena política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/partido-renovado-e-influente.htm
Palavra de poeta
Poema
XLIV*
Pablo Neruda
Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.
Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.
Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.
Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.
*Excerto de “Cem Sonetos de Amor”
[Ilustração: Edvard Munch]
Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.
Leia também “Segunda-feira”, poema de Primo Levi https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/palavra-de-poeta_48.html
29 abril 2026
Europa submissa
Europa transfere € 108 bilhões aos EUA e expõe dependência econômica
Dados do BCE e Eurostat mostram saída recorde de riqueza para Washington e apontam domínio norte-americano em setores estratégicos do continente
Davi Molinari/Vermelho
A economia europeia vive um paradoxo crescente: mantém produção elevada e superávit comercial em bens, mas perde renda de forma consistente para os Estados Unidos. Em 2025, essa transferência atingiu € 108 bilhões, segundo dados do Banco Central Europeu (BCE), evidenciando um movimento estrutural de deslocamento de riqueza para fora do território europeu.
O dado — que mais que dobrou em relação aos € 49 bilhões registrados em 2024 — não se refere apenas ao intercâmbio comercial, mas ao fluxo de renda gerado por investimentos, lucros, dividendos e juros. Trata-se, na prática, de riqueza produzida na Europa que termina apropriada por empresas e investidores, majoritariamente estadunidenses. A tendência reforça o diagnóstico apresentado pela publicação The Economist, que classificou o fenômeno como uma forma de “vassalagem econômica” construída ao longo das últimas décadas.
Produção europeia, renda americana
A diferença entre a produção e a apropriação da riqueza aparece de forma clara na renda primária — indicador que mede o saldo entre o que um país recebe e paga ao exterior em lucros e investimentos. Segundo o BCE, a zona do euro passou de um superávit de € 54 bilhões em 2024 para um déficit global de € 44 bilhões em 2025. O principal fator desta inversão foi a relação com os Estados Unidos.
Dados do Eurostat mostram que, apenas no quarto trimestre de 2025, o déficit europeu em renda primária chegou a € 18 bilhões, confirmando a aceleração da saída líquida de recursos. Esse movimento significa que empresas estrangeiras — sobretudo norte-americanas — não apenas operam na Europa, mas capturam uma parcela crescente do valor gerado no continente.
EUA ampliam vantagem global
Enquanto a Europa registra saída líquida de renda, os Estados Unidos consolidam a posição inversa. Dados do Bureau of Economic Analysis indicam que a renda nacional estadunidense alcançou cerca de US$ 31,4 trilhões no final de 2025, sustentada por ganhos obtidos no exterior.
Este diferencial é estrutural: empresas dos EUA operam globalmente e repatriam lucros, enquanto economias europeias absorvem investimento estrangeiro sem reter integralmente os resultados. A transferência de renda acompanha a presença dominante de corporações norte-americanas em áreas centrais da economia europeia.
No sistema de pagamentos, Visa e Mastercard concentram a maior parte das transações. Na infraestrutura digital, Amazon (AWS) e Microsoft (Azure) lideram o mercado de nuvem e inteligência artificial. No setor energético, os EUA ampliaram sua participação como fornecedores de gás natural liquefeito. Na defesa, cresce a dependência de equipamentos militares adquiridos por meio de contratos com o Pentágono.
Vulnerabilidade e a armadilha tecnológica
A análise da The Economist sugere que o cenário de transferência de renda não é acidental. Segundo a publicação, a arquitetura regulatória europeia — com regras rigorosas em concorrência, dados e meio ambiente — teria limitado a expansão de empresas locais, abrindo espaço para as multinacionais estrangeiras.
Entretanto, analistas ponderam que o argumento liberal ignora questões estruturais de soberania tecnológica. O domínio das corporações dos EUA não decorre apenas de normas flexíveis, mas de um vácuo de política industrial na Europa. Enquanto Washington utiliza massivos subsídios estatais para integrar seu setor de defesa às big techs, o mercado europeu, fragmentado e dependente de infraestruturas externas — como o mercado de nuvem, dominado em mais de 70% por empresas americanas —, tornou-se um exportador líquido de lucros.
Essa vulnerabilidade econômica já é reconhecida por lideranças do bloco. Em relatório recente sobre o futuro da competitividade do continente, o ex-presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, alertou para a necessidade de mudanças profundas. “A Europa está perdendo sua relevância no cenário global porque falhou em se tornar um polo de inovação tecnológica. Estamos financiando o crescimento de outros blocos enquanto nossas empresas ficam presas em um emaranhado burocrático que as impede de escalar”, afirmou Draghi.
Na mesma linha, o chanceler alemão destacou a urgência de uma maior autonomia financeira. Durante um fórum econômico em Berlim, realizado na última quinta-feira (16) de abril de 2026, declarou: “Não podemos ser apenas um mercado consumidor para as big techs americanas. A soberania europeia depende da nossa capacidade de manter os lucros e a inovação dentro de nossas fronteiras”. Uma crise que ja havia sido antecipada pela própria presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em setembro do ano passado. “A União Europeia deve reduzir sua dependência econômica dos Estados Unidos e diversificar suas parcerias estratégicas”, afirmou
Superávit comercial não impede perda de riqueza
Mesmo com um superávit de € 199,6 bilhões em bens em 2025, a Europa não consegue reter plenamente a riqueza gerada. O motivo reside na combinação do déficit em serviços, dominado por empresas estrangeiras; na saída de renda primária (lucros e dividendos) e na dependência tecnológica e financeira. O resultado é um equilíbrio externo mais frágil do que sugerem os dados comerciais isolados.
A relação entre Europa e Estados Unidos deixou de ser apenas comercial e passou a envolver um fluxo contínuo de transferência de renda. Mais do que produzir, o ponto central da economia global contemporânea é a capacidade de capturar valor. Nesse aspecto, os Estados Unidos operam em posição vantajosa, enquanto a Europa enfrenta dificuldades para reter os ganhos gerados dentro de seu próprio território.
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Europa, a capitulação permanente https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/europa-submissa.html
Minha opinião
Milei num poço de areia movediça
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
É o que se depreende do noticiário no complexo midiático dominante que, a contragosto, noticia o agravamento da situação econômica e social na Argentina e a consequente perda de popularidade do presidente Javier Milei.
Registra-se que o governo do ultraliberal argentino atravessa forte turbulência
interna. Além da crise econômica, graves contradições no núcleo dirigente.
Figuras de destaque na equipe do presidente, como o ex-chefe de gabinete
Nicolás Posse saem do governo sob acusação de irregularidades, incluindo
espionagem interna contra outros ministros.
Apesar de algumas vitórias em matérias sensíveis, o governo continua
enfrentando uma barreira gigantesca no Congresso: a Lei Bases (o pacote de
reformas ultraliberais), por exemplo, sofreu desidratações e atrasos
significativos).
Registra-se um ambiente de tensão e vigilância na equipe de governo. Quem
não se alinha 100% ao "estilo Milei" termina defenestrado.
O grande trunfo do governo, segundo o próprio Milei, o superávit fiscal
sofre o contraponto da recessão econômica profunda, queda brutal do consumo e
quase falência da atividade industrial.
Apesar de manter parcela do apoio popular, o governo segue em ambiente
corrosivo.
Ponto negativo para a extrema direita do subcontinente sul-americano.
Leia também: “Milei: hipóteses sobre uma derrota catastrófica” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/sinais-de-mudanca-na-argentina.html
Sylvio: Insensatez
Trump já gastou mais de 100 bilhões em dois meses, só de mísseis, nesta absurda e irresponsável guerra contra o Irã. Até quando o mundo vai tolerar que a violência e a insensatez perdurem contra o bom senso e a vida?
Marcelo
Barros: O imperador e o Papa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/visoes-de-mundo-dispares.html
Poderio comercial chinês
Xing-Ling, os chineses estão chegando!
A transição da hegemonia global para o Oriente
revela o triunfo da mercadoria chinesa, que converteu o antigo estigma da
descartabilidade em uma sofisticada rede de dominação tecnológica e industrial
SAMUEL
KILSZTAJN*/A Terra é Redonda
O fetichismo da mercadoria
Antes
da Revolução Industrial, a divisão social do trabalho era muito limitada e as
trocas eram marginais. Mesmo no período do chamado “capitalismo mercantil”, a
quantidade e o valor dos produtos comercializados eram muito pouco expressivos
na estrutura de produção e consumo das nações. A relação entre senhores e
trabalhadores (escravos, servos etc.) também não era comercial, era em espécie.
Foi só a partir do capitalismo industrial que a mercadoria se generalizou,
converteu o processo de produção e consumo em sistema e transformou todo mundo
(trabalhadores, capitalistas etc.) em agentes econômicos, ou seja,
prolongamentos da mercadoria.
Um
exemplo que talvez possa ajudar: antes da Revolução Industrial, poderia haver
crises climáticas, sociais, políticas, militares etc.; mas crise econômica é
uma categoria específica do capitalismo industrial, em que o sistema trava,
desocupando tanto os trabalhadores como os meios de produção (o capital),
porque o que se procura não é o produto em si (valor de uso), mas sim a
rentabilidade do investimento, com lucro e capital mensurados em dinheiro
(equivalente geral) – num sistema não mercantil, o que se procura não é o valor
(de troca) do produto, mas sim o produto em si.
No
início do século XX, o parque industrial da Inglaterra era robusto, as máquinas
duravam em média 25 anos. Nos Estados Unidos as máquinas duravam em média 15
anos. Se o progresso técnico vai tornar obsoleto o seu parque industrial em
pouco tempo, para que investir em máquinas sólidas que vão parar no ferro
velho? O numerador da rentabilidade é o lucro e o denominador é o valor do
capital; máquinas com menor vida útil são de baixo valor; quanto menor o valor
do capital, maior é a taxa de lucro (vá desculpando o economês). Além disso,
sob o Império Americano, o sistema alastrou-se para o setor terciário da
economia, ampliando o espaço da acumulação do capital.
Nota
de rodapé: no extremo oposto, a União Soviética, que era contra o consumismo,
produzia máquinas (e produtos) que poderiam durar (tecnicamente obsoletos) uma
eternidade.
A
Rússia derrotou Napoleão em 1812, teve que esperar um século para se livrar de
sua monarquia absolutista e, fazendo uso do socialismo real (o ritmo de
trabalho imposto na União Soviética deixaria Taylor e Ford encabulados), se
transformou em uma potência internacional da noite para o dia. A comédia Os Russos estão chegando! Os Russos estão chegando! foi
produzida durante a Guerra Fria e, apesar da paranoia existente, conseguiu
agradar a gregos e goianos. Nos anos 1970, os Estados Unidos reataram relações
diplomáticas e comerciais com a China como forma de isolar a União Soviética.
Nota
de rodapé: em sua concepção, o “socialismo científico” nunca havia sido pensado
como um modelo para industrializar economias “atrasadas”; muito pelo contrário,
foi pensado como um modelo para a superação do sistema capitalista de ponta
(destinado ao colapso, a tal “crise geral do capitalismo”).
A passagem do império
norte-americano para o império chinês
A
industrialização chinesa, mais tardia ainda do que a industrialização russa,
também fez uso do socialismo real (os direitos trabalhistas em vigor na China
deixariam qualquer sindicalista ocidental boquiaberto).
Nos
anos 1980, para dizer que um produto era de má qualidade, você dizia que ele
era xing-ling, ou seja, Made in China (leia-se meid
in tchaina). E a China conquistou o mercado mundial fabricando
produtos descartáveis a baixo preço. Se o negócio é ficar comprando, comprando,
para que investir em um produto que vai durar para sempre?
Amigos
me perguntam qual é o segredo na administração de meu fluxo de caixa. Ao que
respondo que nunca tive televisão, nem celular, e não participo de redes
sociais. Mas outro dia fui comprar um aparelho para cortar cabelo, perguntei a
origem de um dos modelos e o vendedor disse: “meu senhor, são todos chineses”.
Outra
experiência mercantil: fui comprar um monitor de pressão arterial numa farmácia
e o funcionário falou que o valor do produto era 250 reais. Aí eu perguntei por
que na Internet tinha aparelhos semelhantes por 40 reais. E o funcionário,
rindo, disse que os da Internet eram xing-ling. Fazia muito tempo que eu não
ouvia essa expressão e falei: “meu senhor, mas o seu produto também é
xing-ling, são todos chineses”.
A
mercadoria se generalizou pela Europa, atravessou o Atlântico e ocupou o mundo,
inclusive a Rússia e a China. A Inglaterra deteve a hegemonia inconteste do
capitalismo internacional no século XIX, a ponto do inglês se transformar em
língua franca universal. No século XX, os Estados Unidos herdaram a hegemonia
capitalista, com a União Soviética saindo do “atraso de vida” para ocupar o
posto de segunda potência internacional.
No
século XXI, ao que tudo indica, a China está fadada a herdar a hegemonia
internacional do capitalismo, isto é, personificar a mercadoria globalmente. O
governo chinês, extremamente centralizado, desenvolveu uma economia totalmente
descentralizada – uma economia “socialista” de mercado, ou melhor, uma economia
paternalista de mercado. Ajustada pelo custo de vida interno, a China já é a
maior economia do mundo, 40% maior que a economia dos Estados Unidos.
Por
acaso, a minha cultura é russa. Minha família atravessou gerações vivendo em
território do Império Czarista e Alexandre Pushkin e Liev Tolstói são os meus
autores de cabeceira. Mesmo não falando russo, entendo tudo o que eles dizem,
principalmente quando estão bêbados.
Por
algum outro acaso, sou terapeuta chinês, adepto das religiões orientais, mas
quanto mais vou à China, menos entendo o país. Só sei que a China já era
civilizada quando o ocidente vivia na barbárie (ainda vive), que foi submetida
nas Guerras do Ópio em meados do século XIX e que está usando o padrão
ocidental mercantil para se vingar do ocidente, ou melhor, está sendo usada
pela mercadoria em seu processo de dominação.
De
acordo com Keyu Jin, a aparente submissão cega da
população às autoridades reflete a deferência a um governo paternalista que lhe
garante estabilidade, segurança, paz, esperança e prosperidade. Keyu Jin
enfatiza que esta característica do povo chinês é cultural, é milenar, ou seja,
data do Império. O apoio popular ao governo (90%) está entre os mais elevados
do mundo.
Também,
por acaso, sou palestino e entendo que os árabes muçulmanos, mesmo sendo
conhecidos como exímios negociantes, não se sujeitam à mercadoria. Contudo, sendo
brasileiro, fecho mesmo é com o Ailton Krenak, o nosso filósofo discípulo de
Baruch Spinoza em busca de um futuro ancestral.
Post Scriptum
Em
2024, a empresa
chinesa de biotecnologia MGITech inaugurou em São Paulo o
Customer Experience Center (CEC), projetado para oferecer tecnologia avançada a
laboratórios clínicos, hospitais e universidades, com objetivo de impulsionar
avanços na saúde, agricultura e sustentabilidade ambiental. A MGITech já
construiu parcerias com o Grupo Oncoclínicas, Eva Holding Group, Grupo Sabin,
Unidade de Apoio ao Diagnóstico (UNADIG) e laboratórios da Fundação Oswaldo
Cruz (Fiocruz). Também uniu esforços com a Universidade Federal do Pará –UFPA
para enfrentar desafios ligados à biodiversidade amazônica por meio de
tecnologias avançadas de sequenciamento.
Em
2026, a empresa chinesa de transporte ferroviário CRRC vai implantar uma unidade industrial em Araraquara, São Paulo.
Além de tecnologia, os chineses já estão exportando até rappers. Apesar do mandarim ser uma língua
tonal, com uma variação de sons não absorvíveis após os sete anos de idade,
muitos jovens ocidentais estão se esforçando para aprender chinês. E alguns até
já estão se submetendo a cirurgias que os transformam em “chineses
natos”.
No
início de 2026, por acaso, como sempre, eu estava na Amazônia, ao lado da
Venezuela, e recebi um recado de Donald Trump para lembrar que, até prova em
contrário, a América Latina ainda era o seu quintal. Em 28 de fevereiro, ao
lado do Estado de Israel, Donald Trump resolveu também investir no Irã. América
primeiro? Se as manobras e maquinações de Donald Trump tornaram alguma nação
grande, foi a China, não os Estados Unidos. Make China Great Again! Enquanto
a política norte-americana – literalmente bombástica – degringola, a
China, decididamente, avança na liderança internacional.
Xing-ling,
os chineses estão chegando!
*Samuel Kilsztajn é
professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de 1968, sonhos e pesadelos.
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China reduziu a pobreza em proporção sem precedentes na história https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/china-reducao-da-pobreza.html














