01 julho 2026

Abraham Sicsu opina

Direita volver?
Abraham B. Sicsu  

Em recente debate pela internet, o professor Cristovam Buarque se posicionou da seguinte maneira, respondendo sobre as razões que têm levado os eleitores a preferir a posição de direita em eleições recentes:

Minha hipótese é que o eleitor não acredita mais na possibilidade do “distributivismo” para dar a todos uma parte substancial do PIB tradicional. Porque o Estado e os recursos naturais não permitem que o progresso tradicional seja distribuído a todos. Por falta de uma alternativa que satisfaça ao eleitor, ele não quer decrescimento, nem dificultar o consumo, nem abrir as portas para a imigração social ou geográfica, nem salvar o planeta para as próximas gerações, nem a ilusão abstrata de desenvolvimento sustentável, o eleitor confia na possibilidade de receber sua parte pela exclusão de outros, conseguida pela liberdade, o darwinismo social praticado democraticamente. Se erra quando se acusa a atual direita como antidemocrata, ela está sendo eleita e praticando desumanismo ecológico (anti migratório e prisional), mas com apoio dos eleitores. A Era da Escassez Plena (não a era da escassez parcial em que a esquerda podia prometer tirar dos ricos para os pobres), o poder do Tecnológico da Era Antropocena, os Limites ao Crescimento, a Planetarização da Civilização criaram uma contradição entre Humanismo e Democracia e as forcas progressistas não têm proposta capaz de
retomar o casamento entre estas duas ideias, e seduzir aos eleitores nacionais e imediatistas, em qualquer pais.”

Concordo com essa visão. O problema é procurar alternativas que venham a trazer o retorno da empatia e da busca de sociedades mais igualitárias, propostas em que o efeito distributivo seja aceito pela maioria e não visto como mecanismo de exclusão daqueles que algo já possuem.

Fui formado sob a lógica cepalina em que se acreditava que a industrialização periférica traria a solução para a diminuição das disparidades centro periferia, em que se via no crescimento a solução para a resolução dos males sociais e a inserção das populações no contexto de avanço do padrão de vida. Infelizmente, pouca atenção foi dada à questão distributiva, à lógica capitalista per si concentradora, à exclusão de uma grande parcela da sociedade dos frutos do progresso técnico. Avançou-se, sem dúvida, mas também se aumentou o fosso entre os incluídos na lógica do crescimento e os excluídos das benesses dele.

O desenvolvimento caracterizava-se pelo crescimento continuado do produto (PIB), a taxas mais elevadas do que as do crescimento populacional, ao longo do tempo.  Se o PIB crescesse mais do que a população, o PIB/capita (ou renda/capita) cresceria. Ou seja, bastava aumentar a produtividade da sociedade, que cada membro da sociedade poderia comprar cada vez mais bens e serviços e, portanto, viver melhor. Esqueceu-se da lógica capitalista de concentração de riqueza.

Boa parte da minha vida profissional teve o dito Desenvolvimento Sustentável como norte de um mundo melhor. Os ensinamentos de Amartia Sen nos orientavam política e tecnicamente. A diferenciação entre crescimento e desenvolvimento ficava patente. Só haveria desenvolvimento se houvesse inclusão social e respeito ao semelhante. Nas palavras da economista Nayyar, que trabalhou com Sen, assim deveria ser definido:

“O desenvolvimento precisa expressar-se em aperfeiçoamento das condições de vida das pessoas (do povo). É necessário, portanto, que ele garanta a satisfação das necessidades humanas básicas para todos: não apenas alimentação e vestuário, mas também habitação, cuidados com a saúde e educação.”   

Em tese, essa visão ainda seria dominante hoje, mas não, na verdade o conceito de desenvolvimento que está por trás da visão recente é outro.

No subconsciente coletivo, o desejo é bem diferente. A maioria quer viver e ter condições de vida idênticas às dos países centrais, tendo os Estados Unidos da América como padrão referencial mais expressivo.

Deseja-se, então, uma vida em que se elimine as diferenças em relação aos países mais desenvolvidos, uma organização sócio-política que permita ter condições de saúde e educação e segurança, por exemplo, similar aos desenvolvidos. E, nesse processo de busca de melhores condições pessoais, vendo a impossibilidade de ser generalizado, se aterem a garantir seus privilégios sem haver nenhuma preocupação com os excluídos.

Um problema sério. Defendem-se políticas similares às dos países capitalistas avançados já dominados por esses desejos incorporados. Evitar a todo o custo a imigração entrante, políticas de segurança sem nenhuma preocupação com a reinserção futura na sociedade, apenas como despejo e amontoamento de indivíduos em condições subumanas, classes médias que têm “ódio” de gente pobre, etc..

Sempre me vem à mente um provérbio nordestino que reflete essa situação. “Farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Mostrar políticas que permitem melhorias profundas na situação econômica, se não mudam as condições da classe média pouco sensibiliza. Ações que levem à melhoria dos menos favorecidos são consideradas perigosas, na medida em que podem trazer contingentes significativos de pessoas a disputar espaços que consideram seus e não aceitam dividir. Mesmo as classes médias baixas têm essa percepção e procuram se precaver para não terem os poucos recursos que dispõe ameaçados.

Na América Latina, são claros os avanços da extrema direita. Governos conservadores têm ganho as eleições mais recentes. Começando pelos ultraliberais de El Salvador, passando pela Argentina e Equador, até os mais recentes como Chile, Colômbia e Peru.

A volta de Trump nos EUA fez com que houvesse uma aposta de que uma aliança com ele diminuiria as crises econômicas dos periféricos. Pelo menos, é isso o que é sentido e vendido pela direita desses países.

Os anos vinte de nosso século deixam claro que, mesmo havendo melhoras significativas nos indicadores econômicos dos governos de centro esquerda, não conseguem sensibilizar o povo, há uma crescente descrença de que eles possam resolver os problemas que afligem as populações desses países, a comparação jamais é com o passado recente, sempre desejam condições similares aos mais desenvolvidos, que nunca tiveram.

Nas pautas de preocupações recentes segurança ganha destaque. A aliança com o Gigante do Norte é vista como solução para melhoria da situação. Mesmo que a soberania e autonomia de decisões nacionais sejam fortemente ameaçadas.

A inflação, gerada por crises internacionais e guerras, muitas vezes provocada pelo trumpismo, é sempre atribuída ao governo que está no poder e leva a posições bastante contrárias daqueles que apenas se centram em garantir seus privilégios. A falácia do gasto público como causador de todos os males econômicos das famílias coloca os governos na defensiva e faz com que a mídia venda uma imagem de ineficiência.

Aliado a isso, uma onda de líderes populistas que prometem cortes de impostos e medidas fiscais altamente restritivas. Nitidamente vistos, pelas populações, como um mecanismo para tornar o custo de vida mais barato e permitir um aumento do consumo das famílias. Condicionando e quase desestruturando os necessários gastos sociais.

A economia é sempre cíclica, se estamos em um momento internacional de crise conjuntural, haverá a retomada de atividades e investimentos que permitirão uma melhoria do padrão de vida. Também, é assim com a política. Fundamental que se mantenham princípios que não acabem com a necessidade de compromisso entre gerações, em que o avanço econômico não leve a desastres sociais e ambientais pelo imediatismo desejado inconsequentemente.

Há sinais positivos. Frustrações vêm surgindo fazendo com que o populismo de direita e os resultados alcançados comecem a levar a questionamentos. Em curto espaço de tempo. Como já acontece na América do Norte onde a popularidade do presidente cai vertiginosamente. 

Democracia é alternância de poder. Importante manter a chama acesa na latino América e ter lógicas de balizamento consistentes.

Mais do que nunca o Brasil aparece como farol que poderá permitir recuperar princípios fundamentais: humanismo, empatia, solidariedade.

A luta por manter o País nesse direcionamento é fundamental. E tem-se todas as condições de continuar sendo assim, mesmo com pressões e ingerências no processo eleitoral que surgiram e surgirão.

Os ideais de centro esquerda em que o humanismo e a busca de uma redistribuição de riqueza para melhoria das condições de vida  dos menos favorecidos têm permitido também saltos significativos no padrão de vida, inclusive das classes médias e alta.

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