24 junho 2015

Festa e luta contra a fome

Mesas nas tão fartas neste São João

Luciano Siqueira

É da nossa tradição, nesta parte do Brasil – o Nordeste: o ciclo junino – a noite de São João, dia 23, sobretudo – é comemorado pelo nosso povo com mais amplitude e paixão do que mesmo o Carnaval.
Não apenas no interior, mas também nas capitais, especialmente nos bairros periféricos, a noite é engalanada por fogueiras, quadrilhas e “palhoções” armados para o bom forró.
No Recife, a Prefeitura dá suporte a extensa programação, envolvendo artistas da Região.
Segunda-feira última, 22, ocorreu a 9ª Exposição da Culinária Afro-Brasileira, no Pátio de São Pedro, promovida pelo Núcleo da Cultura Afro-Brasileira em parceria com Mãe Elza de Iemanjá. Uma celebração da culinária africana, com cantos e rezas alusivos ao orixá Xangô e ao santo católico São João. Expressão da miscigenação, uma das marcas da formação do nosso povo.  
São João é sinal de mesa farta. Este ano, tem tanto.
A crise econômica e a escassez de chuvas concorrem para o aperto também à mesa. Nem tudo o que se quer é possível. Infelizmente.
O que chama a atenção para o combate à fome em sua dimensão, digamos, universal.
Mundo afora, a fome sempre existiu. Fatores diversos como causas – de calamidades naturais e climáticas à exploração e à iniquidade sociais.
O paradoxo é que, nas condições de hoje, tamanha a evolução da ciência e da tecnologia e da capacidade do homem explorar a natureza com eficiência e bom senso, é possível produzir alimentos em dobro do necessário para alimentar toda a população do Planeta, conforme assinala José Graziano da Silva, diretor-geral da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura).
Daí ser significativo que, recentemente, fruto de políticas públicas articuladas, a ONU proclamou o Brasil fora do Mapa da Fome.
Uma conquista extraordinária, verificada no transcorrer das transformações em curso desde 2003, nos governos Lula e Dilma, em que mais de quarenta milhões de brasileiros e brasileiras superaram as condições de existência abaixo da linha da pobreza ou de extrema pobreza.
Conquista em certa medida ameaçada pelas graves incidências da crise econômica global sobre o nosso País e pelo atual ajuste fiscal rigoroso. Inflação e desemprego são irmãos gêmeos da subalimentação.
Em termos globais, a fome atinge 870 milhões de seres humanos.
O que reclama, segundo Graziano, a correta compreensão de que “a economia é capaz de lançar a pedra do futuro o mais longe possível. Cumpre à ética cuidar de sua trajetória”.
Que os festejos juninos reforcem em todos nós o melhor de nossa tradição cultural e também reavivem a consciência de que é preciso seguir na luta pela erradicação da fome no mundo. 

Arte: Militão dos Santos
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22 junho 2015

PCdoB no governo do Maranhão

Governo Flávio Dino é aprovado por 74,4% dos maranhenses

De acordo com levantamento divulgado neste fim de semana, o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), aumentou o nível de confiança do eleitorado. Ele foi aprovado por 74,4% da população maranhense na primeira pesquisa do Instituto DataM, após cinco meses de administração do Estado.
Flávio Dino foi o primeiro governador comunista eleito no Brasil. Ele obteve, em 5 de outubro de 2014, mais de um milhão e oitocentos mil votos, e foi eleito com 63,52% dos votos válidos dos maranhenses. Comparando com a pesquisa, uma boa parte dos que não votou no Dino, agora aprova o seu governo.
Comparações - O levantamento confirmou a pesquisa realizada pelo Instituto Exato, em abril deste ano, que apontava que a aprovação do governo Flávio Dino havia aumentado de 72% para 74%. Os índices de não aprovação praticamente se mantiveram nos mesmos patamares de 23%. O saldo da diferença entre os que acham ótimo/bom e ruim/péssimo manteve-se praticamente inalterado, variando de 27 para 26 pontos. “Considerando que o governo ainda não realizou nenhuma campanha publicitária e sofre forte oposição de um aparato midiático poderoso, o índice de aprovação, passados cinco meses, mostra que a população tem muita confiança na figura do governador Flávio Dino”, salienta o relatório.
O relatório da pesquisa destaca que a aprovação se dá em todas as regiões pesquisadas, sendo mais elevada no sul do estado, em que chega a 82%. Os patamares de aprovação do governo Flávio Dino são em média 10% superiores aos votos obtidos em outubro do ano passado e os índices de reprovação bem inferiores ao somatório do que foi alcançado pelos demais candidatos.
A pesquisa DataM ouviu 3 mil pessoas em 33 municípios de todas as regiões do Estado, entre os dias 8 e 15 de junho. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Do Portal Vermelho, com informações Jornal Pequeno
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Plano Safra

O maior volume de crédito da história para a agricultura familiar

Blog do Planalto
O Novo Plano Safra da Agricultura Familiar 2015-2016 é o maior já lançado pelo governo federal, com um valor recorde R$ 28,9 bilhões, ou seja, 20% a mais que na safra anterior. Esse valor, disse a presidenta Dilma Rousseff ao lançar o programa nesta segunda-feira (22), revela o compromisso do governo com o setor, que é uma das prioridades para a economia brasileira. Foi esse compromisso que tirou o Brasil do mapa da fome no mundo, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), lembrou.
Do total anunciado pela presidenta, R$ 26 bilhões serão destinados ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), que completa 20 anos de criação. “O esteio da nossa política é reconhecer que temos que fazer um imenso esforço para criar, dentro da nossa agricultura, um fator de fortalecimento da agricultura familiar. O Pronaf chega ao seu vigésimo ano mais justo”, declarou.
Além do valor recorde de financiamento, a presidenta Dilma anunciou ainda que, mesmo em ano de ajuste da economia, as taxas de juros reais para a tomada de crédito continuarão sendo negativas, isto é, abaixo da inflação, variando de 0,5% a 5,5% ao ano, sendo que as taxas mais baixas serão pagas pelos agricultores e agricultoras de baixa renda. Outros R$ 2,9 bilhões anunciados hoje serão destinados a outras fontes de crédito e terão taxas de 7,75% para custeio e de 7,5% para investimento.
Dados comprovam apoio ao setor - Falando sobre a prioridade de seu governo ao setor da agricultura familiar, Dilma Rousseff apontou os gráficos que mostram a evolução dos recursos para os planos, ao longo das últimas duas décadas. Em 2002, foram investidos R$ 2,3 bilhões. No Plano Safra 2009-2010, o valor subiu para R$ 12, 6 bilhões. E agora, o governo dobrou esse valor, atingindo a marca de R$ 28,9 bilhões.
E isso mostra efetivamente que esses recursos vêm crescendo. Em todos os anos do meu primeiro mandato, no mandato do presidente Lula, ampliamos a oferta de crédito do Pronaf. Porque isso era essencial para que a agricultura familiar do nosso País se fortalecesse e tivesse asseguradas todas as condições para que possa contribuir para alimentar a nossa população. Para colocar a comida na mesa da nossa população”, afirmou.
Semiárido - Dilma Rousseff também reafirmou o apoio diferenciado que o governo dará aos produtores dessa região, que enfrenta uma das piores secas da história. Ela anunciou a manutenção de taxas menores para os produtores do semiárido, que variarão de 0,5% a 4,5% ao ano.
É algo que nós começamos a fazer no meu primeiro mandato, com taxas de juros que, de fato, reconhecem as dificuldades dos agricultores do semiárido de conviver com a seca no Brasil”, disse ela.
Essas taxas representam um esforço para facilitar assa convivência com condições adversas e também o reconhecimento da diversidade existente entre os agricultores do País quanto à renda. “Portanto, os patamares de juros são diferenciados e também o valor do financiamento, garantindo que o subsídio para os pequenos e mais pobres seja maior. “Isso não significa nenhum processo de privilégio, é o reconhecimento que a gente tem de tratar os desiguais de forma desigual, ou de forma diferente, melhor dizendo”, pontuou a presidenta.
Apoio à comercialização - Para impulsionar a produção das cooperativas e associações de produtores da agricultura familiar, a presidenta Dilma Rousseff determinou, também nesta segunda-feira, que pelo menos 30% da aquisição de alimentos pelos órgãos da administração pública federal sejam feitos de produtos oriundos da agricultura familiar e de suas organizações, ampliando as possibilidades de mercado para o setor. “Temos crédito e temos compras. E [isso] é muito importante para a venda dos produtos da agricultura familiar”.
Dilma destacou ainda que tanto o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) quanto o Programa Nacional de Alimentação escolar (Pnae) estão dentro dessa nova política de compras, que visa garantir que a agricultura familiar possa vender pelo menos para 30% da demanda de todas as áreas da Defesa: Exército, Marinha Aeronáutica; e penitenciárias. “Enfim, de todas as áreas que o governo fornece alimentação ou que demanda alimentação”. Ela lembrou que os dois programas, o Pnae e PAA, contam com R$ 1,6 bilhão.
Nesse sentido, adicionou o ministro Patrus Ananias, o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) passará a adquirir, a partir de agora, o café orgânico da agricultura familiar, a exemplo do que já estava sendo feito pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS). “Utilizando esse novo marco legal de amparo à agricultura familiar, o ministro Jaques Wagner também determinou que o Ministério da Defesa adquira 2.500 toneladas de alimentos para as Forças Armadas”, relatou Patrus.
Suasa - A presidenta assinou, durante o lançamento do Plano Safra da Agricultura Familiar 2015-2016, o decreto que regulamenta o Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária (Suasa), a nova sistemática de inspeção de produtos de origem animal e de bebidas produzidas por estabelecimentos de pequeno porte. O sistema é organizado de forma unificada, descentralizada e integrada entre a União, os estados e Distrito Federal, e os municípios, por meio de adesão voluntária.
É mais um importante marco para a consolidação e o fortalecimento da agroindústria familiar, pois simplifica procedimentos e adapta regras, inclusive de infraestrutura e transporte. Desta forma, amplia as possibilidades de comercialização dos produtos, garantido a segurança, tanto para os produtores quanto para os consumidores.
Em seu discurso, Dilma assegurou que o sistema será implantado em todo o País, “porque todas as condições estão dadas para que ele seja realizado” e que possa garantir que um agricultor do Sul exporte para o Norte; do Centro-Oeste para o Sudeste. “Enfim, que todas as cinco regiões do nosso País, do Nordeste, do Sul, do Sudeste, do Centro-Oeste e do Norte tenham acesso ao mercado de 200 milhões de brasileiros”.
Disse ter certeza disso pelo empenho da ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Kátia Abreu, e do ministro Patrus Ananias. Sobre o Suasa, Patrus agregou que o sistema anterior era injusto, porque os agricultores familiares tinham de seguir o padrão da agroindústria. “Agora, não mais. Todos poderão produzir com qualidade e respeito às existências sanitárias, sem medo, pois a legislação está adaptada à realidade da agricultura familiar, vai ampará-los e protegê-los”, disse ele.
Seguro Garantia Safra - A presidenta falou ainda sobre o Seguro da Agricultura Familiar, que completa dez anos, informando sobre importantes alterações nessa área, com a criação do Novo Seguro da Agricultura Familiar. Agora, será possível cobrir o valor financiado para a produção em até 80% da receita esperada. Anteriormente, essa receita tinha o limite de cobertura de R$ 7 mil por produtor e agora passará a R$ 20 mil, praticamente triplicando o limite de indenização por família, o que dá mais segurança a quem trabalha e produz.
“Quando a gente fala em segurança, fala do seguro. E a implementação do Novo Seguro da Agricultura Familiar, que é o Seguro Garantia Safra, que terá recursos agora para atender 1,35 milhão de produtores no semiárido. Sabemos que os agricultores precisam ter esse seguro para se proteger contra as variações da safra ou contra qualquer outra tragédia até climática”, afirmou.
Qualidade de vida - Todas essas medidas, disse a presidenta, visam garantir a qualidade de vida para quem vive da agricultura, homens, mulheres e jovens. “Daí porque três eixos formam as políticas que garantem a sustentabilidade da agricultura e a mudança do seu patamar”.
Em primeiro lugar, o financiamento do Pronaf e as contas públicas. Em segundo, o incentivo à agroindústria, com assistência técnica, crédito e a agroecologia, “que é um verdadeiro nicho de mercado”. E, por fim, com estímulo à expansão do cooperativismo, organizando a produção, ajudando cooperativamente ao desenvolvimento da produção da agricultura familiar.
“Esses três eixos formam a sustentação da nossa política de transformar a agricultura familiar numa agricultura moderna e desenvolvida. Na qual a população que vive de garantir para nós a alimentação, possa ter um padrão de vida adequado a todas aspirações de seus integrantes”, disse.
Anater - A presidenta Dilma também citou, entre essas conquistas, a indicação da diretoria da Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater), por meio de um processo integrado também com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDA).
“E eu vou hoje indicar, para a presidência da Anater, o engenheiro agrônomo Paulo Guilherme Francisco Cabral”, anunciou. “Com a indicação do nome do Paulo vamos acelerar a oferta de assistência técnica aos pequenos e aos médios e, quando for necessário, aos grandes agricultores do Brasil”.
A Anater, explicou Dilma, é uma cooperação entre duas áreas fundamentais da agricultura do nosso País: de um lado agricultura comercial, e de outro a agricultura familiar.
CAR - A Anater terá uma ação também voltada para o Cadastro Ambiental Rural (CAR), em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, contribuindo para o processo de regularização ambiental de propriedades de posse rurais, com planejamento do imóvel rural e com a recuperação de áreas degradadas.
“Nós garantimos, para essa safra, recursos para atender mais de 230 mil famílias, com foco na produção agroecológica e apoio a elaboração do CAR. O CAR foi uma conquista, porque mostra que é possível sim, produzir respeitando o meio ambiente. Além disso, produzir de forma eficiente”.
Futuro - Para a presidenta, por todos os fatores anunciados nesta segunda-feira, “é muito difícil, daqui para a frente, em qualquer momento no futuro, ter esse plano sem os desafios e o tamanho que ele conquistou na última década”.
“Então, podem ter certeza que, [da mesma forma que] soubemos tirar o nosso País do mapa da fome da FAO, iniciamos um processo de modernização da agricultura familiar e  vamos avançar. Eu tenho plena confiança na capacidade dos agricultores, na capacidade de produção, na inventividade, na criatividade e no trabalho. E o governo dará seu suporte e apoio. Estendendo sua mão, faz com que nós, juntos, sejamos capazes de, neste plano safra, darmos vários passos à frente”.
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21 junho 2015

Venha para o PCdoB

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Desafio militante


Um caso de borboletas

A grande travessia

Rafaele Ribeiro*

Seu Gaspar acordou naquela terça-feira, véspera de São João, com uma fome insuportável e, rapidamente, bateu suas frágeis asas até a copa do flamboyant, árvore de flores lindas e avermelhadas, considerada uma das mais lindas do mundo. 

Se observássemos com atenção, precisamente, entre 6 e 7 horas da manhã, o flamboyant que fica na área militar, às margens da BR 232, em Recife, se enche de inúmeras borboletas, tão lindas quanto seu Gaspar. 

São espécies de diferentes tamanhos, cores, asas... todas lindas, se alimentando do néctar das flores, rico em nutrientes. 

Só tinha um problema para seu Gaspar que o deixava infeliz: ele não tinha família. 

Dona Cigarra já estava distribuindo os convites do forró que aconteceria naquela noite; seguia toda animada conversando com um, conversando com outro... insistindo com aqueles amigos, os quais, sempre diziam que compareceriam, mas, na verdade, nunca iam à festa alguma. 

Seu Gaspar resolveu ir, afinal precisava de distração... Dona Sabiá, seu Sapo, dona Rã...todos no back vocal enquanto dona Cigarra, toda metida, cantava Santana ao som da sanfona do seu Grilo; entre uma música e outra, seu Gaspar confiou à dona preguiça sua tristeza por não ter família, pois morava em um único flamboyant, onde todos já tinham seus amores. 

Dona Preguiça viajou durante muitos anos pelo entorno da área militar e confidenciou ao amigo choroso que morou há alguns anos no Jardim Botânico e que, justamente, no caminho do jardim de cactos, dentro do Botânico, tinha uns quatro flamboyants, com muitas flores e borboletas. 

- Quem sabe, amigo, lá você não encontra seu grande amor e se casa de vez?!

Nessa noite seu Gaspar não dormiu. 
Pensava, pensava, pensava... já se via casando...vestido de terno ao lado da sua noiva: uma linda e encantadora borboleta, com direito a daminhas, bolo e música!

Agora surgia outro grande problema: como fazer aquela travessia? O Botânico ficava no outro lado da BR 232. Carros voavam, ferozmente, nessa via e ele não passava de uma miúda borboleta. 
O dia amanheceu e ele foi logo se perfumando, bem como fazendo as malas. Precisava tentar. Despediu-se dos amigos, dos vizinhos e partiu feliz para a BR 232. 
Era uma travessia muito arriscada para qualquer pessoa, que dirá uma borboleta? 

Ele tentava de todo jeito, mas cada vez mais que batia as asas para atravessar, um carro na maior velocidade, cruzava sua frente! Ele esperava, esperava... as motos passavam... caminhões imensos com cargas pesadas... o sol estava forte demais, seu Gaspar suava horrores, faminto, olhava para todo os lados e não via uma flor sequer... não via néctar. Nada. Estava fraco. Frustrado, pensou em desistir. 
Como ele poderia atravessar? O que deu na cabeça dele para achar possível ser mais rápido, voando, que um carro na BR?
Começou a chorar, desesperado. Pousou na grama e ficou parado, enquanto soluçava. 
De repente, ele olha para sua direita, não acredita no que vê! Será verdade? Meu Deus, ele se levanta e esfrega os olhos...e não é que é verdade?!  Sim, lá está ela! Seus olhos não estavam errados. Ele avista uma passarela. Isso mesmo: uma enorme passarela!
Ali, estará salvo!
As passarelas são como enormes pontes por cima das BRs e foram construídas para que todos cruzassem a via de forma segura, sem risco. 
Animado, mais uma vez, atravessou a BR 232, completamente seguro e esperançoso do que ia encontrar no Botânico. 
Não demorou muito, seu Gaspar realizou seu sonho: casou com uma linda borboleta azul. 
Hoje, eles têm vários filhos, são todos felizes e vivem colorindo o jardim. Quando for ao Botânico, fique atento, pois qualquer parente de seu Gaspar pode passar por você. 

Você sabe como reconhecê-los? Todos são borboletas azuis. 

*Rafaele Ribeiro (Rafinha) integra a Brigada Ambiental da Prefeitura do Recife

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Um gigante da literatura brasileira

Graciliano Ramos, um escritor comunista

José Carlos Ruy, no portal Vermelho
Poucos escritores brasileiros merecem, como Graciliano Ramos - cujo centenário foi comemorado em 27 de outubro de 1992 - a qualificação de clássico. Existem muitos, com obras de alto nível artístico que iluminam aspectos parciais dos sentimentos e modo de vida de nosso povo.
Porém nem todos conseguiram criar situações, tramas e personagens capazes de sintetizar as contradições típicas do desenvolvimento histórico e social e o reflexo dessas condições objetivas na subjetividade e na vida mental dos brasileiros.
Até que se tenha uma definição melhor, é a dialética do singular, do particular e do universal que torna uma obra clássica. Clássica porque extrapola os limites estreitos dessa particularidade e singularidade e se dirige a todos os homens, distantes no espaço e no tempo. É como se o escritor, ou o artista, descrevesse tipos humanos únicos, particulares, acrescentando-os ao imenso catálogo com representantes de todas as épocas e todos os povos, enriquecendo o registro da experiência histórica concreta da espécie humana em sua multifacética e rica variedade de manifestações sociais e existenciais.
Graciliano Ramos conseguiu registrar artisticamente os profundos conflitos humanos, a desorganização e reorganização da vida provocadas pelo impacto do desenvolvimento capitalista brasileiro partir da década de 1930, época em que a modernização da sociedade se acelerou sob a hegemonia conservadora. O modo de produção capitalista consolidou seu domínio sobre o conjunto da sociedade redefinindo as relações sociais e subordinando todas elas ao capitalismo, à lógica da acumulação e reprodução do capital.
Este é o quadro de transformações aceleradas e perturbadoras em que se movem personagens como Paulo Honório, Madalena, Luís da Silva, Julião Tavares, Fabiano, Sinhá Vitória e tantos outros.
Em seu destino pessoal eles representam também o destino das classes sociais. No ensaio Graciliano Ramos (1965) Carlos Nelson Coutinho escreveu: “Nesta fusão de indivíduo e classe reside um dos pontos mais altos do realismo de Graciliano. Seus personagens são sempre tipos autênticos precisamente na medida em que expressam em suas ações o máximo de possibilidades contidas nas classes sociais a que pertencem”. Destino pessoal e destino de classe confundem-se na trajetória de seus personagens.
Luís da Silva (Angústia, 1936) e Madalena (São Bernardo, 1934) são pequeno-burgueses inconformados com sua existência opressiva e alienada, desejosos de subir na vida, apavorados com a perspectiva de proletarização. Incapazes de compreender as forças que comandam seus destinos são também incapazes de lutar contra elas. Seus destinos melancólicos e trágicos são marcados pela impotência e pelo ressentimento.
Paulo Honório, o camponês que se tornou latifundiário (São Bernardo) e Fabiano (Vidas Secas, 1947) parecem encarnar dois destinos antagônicos para personagens de origem social semelhante.
Astuto, Paulo Honório consegue dominar as possibilidades de ascensão abertas pelo capitalismo. Negocia, trapaceia, abre caminho sem medir esforços nem escrúpulos. Usa o poder do dinheiro para - como um Fausto sertanejo – se impor à decadente oligarquia rural. Dedica sua vida a se tornar ele próprio um latifundiário. Consegue colocar-se acima de sua classe, como conclui no final do romance. Conseguiu tornar-se “um explorador feroz”, brutal e egoísta, como amargamente reconheceu.
A saga de Fabiano começa no mesmo ponto de onde Paulo Honório partiu: a estreita, pobre, mesquinha vida do camponês do Nordeste, massacrado pelo latifúndio e maltratado pela natureza.
Sua insatisfação - e dos seus - compara-se à animalidade da cachorra Baleia: querem apenas se manterem vivos e, depois, se possível, obter alguns modestos luxos, como a cama de couro que Sinhá Vitória queria.
Ao contrário de Paulo Honório, Fabiano busca seus meios de vida zanzando de fazenda em fazenda até que o destino - semelhante ao de multidões nordestinas - o coloca na estrada para a cidade e os centros industrializados do litoral e, depois, do Sul.
O mais miserável e mais rústico dos personagens de Graciliano é, contraditoriamente, o portador do futuro: na cidade ficará completa e acabada sua condição de vendedor da força de trabalho no mercado capitalista. Ele será um operário; seus filhos serão operários, num mundo novo com contradições de outra natureza, que só poderão ser superadas pela luta da classe operária e dos demais trabalhadores pelo socialismo.
Assim o destino de Fabiano indica o sentido do desenvolvimento da sociedade brasileira, dos trabalhadores brasileiros, colocando-os - juntamente com a sociedade - num novo patamar onde as contradições da vida rural e camponesa são superadas e substituídas pelas contradições próprias da sociedade capitalista.
Escritor comunista, o marxismo de Graciliano Ramos jamais lhe permitiu a subordinação às imposições normativas características do zdanovismo e seu realismo “socialista” na construção de suas obras.
Artesão exigente e minucioso do idioma, escritor enxuto, da palavra exata, a forma artística se subordinava nas obras de Graciliano à resolução do conteúdo.
O estilo memorialístico de São Bernardo, o obsessivo monólogo interior de Angústia, a aparente descontinuidade e fragmentação de Vidas Secas, subordinam-se rigorosamente às necessidades da trama, da exposição da psicologia do personagem, da criação do ambiente social e cultural onde eles se movem e da forma como esse ambiente externo, objetivo, se reflete em seu espírito condicionando-o e moldando suas ações.
Nas obras de Graciliano o socialismo emerge dessas contradições, como saída para os conflitos sociais e humanos retratados. Emerge de forma implícita, necessária, inscrita no desenvolvimento das situações e contradições descritas. Graciliano não caiu na tentação do populismo fácil e pseudo democrático praticado por tantos escritores de sua época, que reproduziram de forma maniqueísta a consciência popular. Eles não hierarquizaram as formas de manifestação dessa consciência., mas as abordaram de maneira acrítica e valorizando-as todas igualmente. Ora, a consciência dos homens reflete de forma muitas vezes alienada e distorcida as contradições da época em que vivem, enfrentadas no dia a dia. Se todos os homens tivessem espontaneamente uma consciência clara e precisa das condições de dominação, as sociedades divididas em classe nunca poderiam ter existido!
Na obra daqueles escritores populistas o socialismo aparece como um objetivo artificial, que não decorre da resolução da trama mas da mera vontade do escritor de colocar essa bandeira na boca dos personagens.
Estas são algumas das características que fazem de Graciliano Ramos um clássico, no sentido universal. Um escritor que não temia imposições e enfrentou as contradições colocadas pela vida. Que não buscou soluções literárias fáceis e artificiais para essas contradições. Que não tentou, de forma também artificial, resolver essas contradições em suas obras mas que escreveu pela necessidade de registrar, de forma artística, as dificuldades, mazelas e esperanças da vida de seu povo. E que, dessa forma, contribuiu como poucos para uma consciência mais profunda dos problemas da sociedade brasileira e das possibilidades que seu desenvolvimento promete. E ajudou a ampliar aquele catálogo de tipos humanos referido acima, de personagens característicos da vida nesta parte do mundo e num período da história: o contraditório período em que o modo de produção capitalista se tornou hegemônico na formação social brasileira.

Publicado originalmente em A Classe Operária, 26/10/1992

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