11 maio 2012

A palavra instigante de Jomard

RELER o pensador-ensaista BOAVENTURA de SOUZA SANTOS
Jomard Muniz de Britto

RELER o pensador-ensaista
BOAVENTURA de SOUZA SANTOS
na sempre bela baía de Guanabara...
O ser humano não é apenas o ser humano e
sua circunstância, como ensina Ortega, é
também o ser humano e o que falta na
circunstância para ele ser plenamente
humano. Nunca demasiadamente.
A aposta é a metáfora da construção
precária... da possibilidade de um mundo
melhor, ou seja, a possibilidade de
emancipação social, sem a qual a rejeição
da injustiça do mundo atual e o in-con-
for-mis-mo perante ela não fazem sentido.
Apostemos em nome da razão cosmopolita.
A ecologia dos saberes sinaliza a passagem
de uma política de movimentos sociais para
uma política de intermovimentos sociais.
Transgressivos pelo inteiro ambiente.
O mundo que hoje é natural ou social e
amanhã será ambos, visto como um texto,
um jogo, um palco ou ainda como uma
autobiografia. Do nós: mas quem somos nós?
Cada método é uma linguagem e a realidade
responde na língua em que é perguntada.
Só uma constelação de métodos pode captar
o silêncio que persiste em cada língua
que pergunta. E não nos faz calar.
Cada um (autor, crítico) é a tradução do outro,
ambos criadores de textos, escritos em
línguas distintas, ambas conhecidas e
necessárias para aprender a gostar das
palavras e do mundo. No livro dos enigmas.
Tal como Descartes, no limiar da ciência
moderna, exerceu a dúvida em vez de a sofrer,
nós, no limiar da ciência pós-moderna, devemos
exercer a insegurança em vez de a sofrer.
Se VOCÊ, leitor enigmático, não estiver na
praia do Flamengo em companhia de
Célia Salsa e Cláudio Aguiar, REINVENTE
sua mais próxima paisagem.
Para dialogar com Roberto Cavalcanti de
Albuquerque sobre o perspectivismo de uma
racionalidade sem adjetivação.
Sem dialogismo em criticidade não resistiria
para a ONU uma DEVASSA nos DIREITOS
HUMANOS. E jamais compreenderíamos a
DIFERENCIAÇÃO do mal-estar da civilização
para o mal-ficar nas barbáries.
A LÍNGUA dos TRÊS PPPÊS, livro-coletivo
em proposição do SESC/PIEDADE/PE/BR,
pode encarar urgências e potencialidades da
poesia, política e pedagogia.
Pelas citações sem aspas e melhor dispondo
da BOAVENTURA dos leitores em trânsito.
Jomard Muniz de Britto/maio/2012
atentadospoeticos@yahoo.com.br

Lentidão que incomoda

.Levantamento da Akamai, empresa americana de infraestrutura de rede, analisou o tráfego de dados na rede da empresa em 187 países, informa a Folha de S. Paulo.
. Numa lista de 50 países com ao menos 25 mil acessos à rede, a Coreia do Sul teve a maior velocidade média, com 17,5 Mbps (megabits por segundo). O Brasil ficou em 40º, com média de 1,8 Mbps --a média mundial foi 2,3 Mbps.

10 maio 2012

O fio tênue, porém essencial da vida

O CVV e a condição humana
Luciano Siqueira

Publicado no Blog de Jamildo (Jornal do Commercio Online) 

Nunca é demais reafirmar que na vida o gesto vale mais do que mil palavras. Nesta quarta-feira, a Assembleia Legislativa pratica um gesto de reconhecimento ao valor da palavra – quando ouvida com atenção e pronunciada com sinceridade – como expressão da condição humana. Por proposição nossa, com a aprovação unânime dos demais quarenta e oito deputados, acontece hoje, às 18 horas, sessão solene para assinalar os 50 anos de atividades no Brasil do CVV–Centro de Valorização da Vida.

A palavra como expressão da condição humana - atenta, paciente, solidária - é o que materializa a missão do CVV, instituição de natureza filantrópica, que além da unidade do Recife engloba mais 69 outras em várias partes do País, sustentadas por 1.800 voluntários.

O CVV nasceu justamente da constatação do crescente número de suicídios verificados, sobretudo nas grandes brasileiras - 33,5% nos últimos 10 anos, quase o dobro do crescimento populacional. Em nossa cidade, o índice de 20% está acima da média.

Com a chamada explosão urbana verificada no Brasil entre os a nos 30 e 80, fruto de dois fatores principais – a industrialização e da ausência de um reforma agrária distributiva, que rompesse com o monopólio da propriedade territorial no campo - a relação entre população rural urbana se inverteu na de ordem de 80%. Em decorrência, avolumaram-se as carências físicas, urbanísticas e sociais na esteira do agravamento das contradições em torno do uso e da ocupação do solo. O mapa social de nossas metrópoles se apresenta extremamente desigual, no qual se percebem ilhas de abundância e largas faixas de pobreza e de miséria.

Demais, num mundo marcado pela concorrência exacerbada em todas as suas variantes – pelo espaço físico, por um posto de trabalho, por melhor remuneração, por ascensão funcional – e também pela violência e pela insegurança, a solidão sobrevém com componente das relações humanas.

Solidão de quem vive literalmente só; solidão dos que, embora cercados de familiares, colegas de trabalho ou de escola, ou de vizinhos, guardam relações interpessoais apenas superficiais. Não há diálogo nem compartilhamento de agruras, alegrias, infortúnios e esperanças.

Quanta gente, em tais condições, se vê levada a níveis insuportáveis de angústia e ao desespero? E que, na ausência de quem lhe possa ouvir, muitas vezes tão somente ouvir, atenta contra a própria vida?

Nesse cenário psicossocial os voluntários do CVV cumprem um inestimável papel na defesa da vida, frequentemente convertidos na última possibilidade de diálogo. E porque ouvem pacientemente, possibilitam vazão de sentimentos e alívio a quem lhes procura. Praticam, assim, ininterruptamente – porque o CVV atende durante as vinte a quatros horas do dia – atos cotidianos de solidariedade humana.

Contra juros altos, delimitando campos

A nação contra a usura
Luciano Siqueira

Publicado no portal Vermelho

São medidas corajosas as adotadas pela presidenta Dilma no intuito de destravar o crescimento econômico. Uma peleja entre a nação e a usura, que tende a clarear o cenário pondo em lados opostos, separados por um risco nítido e definitivo, a maioria da população versus o capital financeiro, este identificado como inimigo maior do povo e da na nação.

Os dados divulgados ontem pela Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) são animadores. Há uma queda importante, pelo terceiro mês consecutivo, dos juros cobrados por instituições financeiras de pessoas físicas e pela quarta vez para pessoas jurídicas, alcançando o menor nível desde 1995.

Segundo a Anefac, a taxa média cobrada de pessoas físicas ficou em 6,25% ao mês (106,99% ao ano), uma redução de 0,08 ponto percentual (p.p.) ante março, quando o juro médio cobrado foi 6,33% (108,87% ao ano). Das seis linhas de crédito avaliadas, apenas a taxa do cartão de crédito rotativo se manteve inalterada em 10,69% ao mês. Todas as demais foram reduzidas, inclusive para o empréstimo pessoal em bancos que passou de 3,84% ao mês na apuração anterior para 3,69% em abril.

Algum benefício para o consumidor? Sim. O comércio diminuiu em 2,05% a taxa média cobrada, passando de 4,87% ao mês, para 4,77%. O juro do crédito direto ao consumidor (CDC) para financiamento de automóveis caiu de 1,97% no mês em março para 1,94% no último levantamento. O cheque especial e o empréstimo pessoal em financeiras sofreram retração de 0,72% (8,34% para 8,28%) e 1,45% (8,26% para 8,14%), respectivamente.

E para os banqueiros? Estes nunca deixam de ganhar muito, mas é clara que sofrem uma baixa, que se reflete na queda do valor de suas ações negociadas no mercado cuja cotação cai diante da perspectiva de redução de lucros.

Tudo bem. Nada disso acontece sem o esperneio de analistas econômicos postados na grande mídia e sempre prontos a defender a política macroeconômica conservadora. Sempre há um senão, uma ameaça de efeitos negativos (para quem, cara pálida?) e quejandos.

E há o rebatimento político. Seguindo-se o roteiro estabelecido pela presidenta Dilma, a economia se aquece, expandem-se as oportunidades de novos investimentos e a oferta de novos postos de trabalho. E, por conseguinte, alarga-se a base social do governo.

Este é um fator importante a considerar no ambiente das eleições municipais que se aproximam. Seja nas plataformas de candidatos às Prefeituras, seja no discurso dos postulantes às Câmaras Municipais. Porque há uma conexão entre essas medidas do governo central e as condições de existência da maioria da população, inclusive das camadas mais populares.

08 maio 2012

Bom dia, Ju Dutra

Modo escuro

No quarto escuro
Procuro
O cômodo
Que incômodo!

O incômodo cômodo
Que procuro
É escuro.

Alí, sem ti
Procuro
No escuro

07 maio 2012

Entre a pirotecnia e a verdade

Charge de Enio Lins na Gazeta de Alagoas
CPI do Cachoeira: o joio e o trigo
Luciano Siqueira

Publicado no portal Brasil 247

Toda CPI é cercada de uma margem imensa de imponderabilidade, sobretudo quando o objetivo de sua apreciação envolve personagens e instituições de grande importância política. Caso da chamada CPI do Cachoeira, que de pronto põe no foco um senador da República que até dias atrás era enaltecido pela grande mídia oposicionista como arauto da probidade e da ética – Demóstenes Torres, ex-DEM –, agora mergulhado em lama, uma grande empresa detentora de contratos milionários em obras de infraestrutura nas três esferas federativas e o submundo da contravenção e da chantagem.

A imponderabilidade agora está diretamente associada ao ambiente político marcado por gritante desequilíbrio entre o governo e sua base de sustentação parlamentar, partidária e social, fortíssima, versus a oposição decadente, desidratada, anêmica, perdida. De quebra, uma mídia sequiosa de encontrar brechas por onde possa atacar o governo e colocar uma bandeira nas mãos hesitantes da oposição.

A própria mídia, a revista Veja em especial, vê-se envolvida nos escandalosos acontecimentos relacionados com a ação do contraventor Carlinhos Cachoeira, seu sócio senador Demóstenes Torres e arapongas a serviço de ambos. Estes municiavam de denúncias plantadas o chefe da sucursal da revista em Brasília, Policarpo Junior, que produzia matérias fantasiosas, ao melhor estilo da imprensa marrom. Deveria ser investigado, o jornalista, tanto quanto a dupla Cachoeira-Demóstenes – e possivelmente será, desde que a maioria dos componentes da CPI não se iniba diante do poder de fogo dos Civita.

O fato é que a partir do núcleo inicial de denúncias apoiadas na divulgação de trechos comprometedores de conversações entre os principais personagens das ações corruptoras, é possível desenrolar um novelo que, tal como o fio de Ariadne, pode deslindar a trama entre os que se constituíram como quadrilha e seu parceiro operador de diatribes da Veja.

Mais gente pode ser arrastada pelo tsunami? Sim, desde que se separe o joio e o trigo e se chegue à verdade dos fatos. A dificuldade está justamente na batalha política que se instala no âmbito da CPI, com o inevitável e bastante conhecido expediente da profusão de requerimentos para a escuta deste ou daquele personagem, haja ou não indícios reais de comprometimento, para que na onda de poeira que assim se forma, o diversionismo ocupe o lugar da investigação objetiva.

Desse modo, a guerra se dará em dois campos de batalha paralelos e articulados entre si: o parlamento e a mídia. Ao leitor, telespectador, ouvinte, internauta... restará afiar a sua capacidade de discernimento para escoimar as informações do invólucro que confunde e captar a essência que esclarece.

Fazendo da mosca um elefante

E quando for crise de verdade?
Luciano Siqueira

Publicado no Blog da Folha

Certa vez, referindo-se à banalização do uso de certas categorias políticas, Miguel Arraes anotou que “as palavras perderam seu sentido real”. É que uma simples discrepância entre aliados aparecia em manchetes como “ruptura iminente”; dificuldades banais de governo logo ganhavam a alcunha de “crise”.

Eu mesmo muitas vezes fui interpelado por repórteres desejos de saber sobre hipotética “crise” com o PT – alinhado de primeira linha do PCdoB – em razão do anúncio de pretensões eleitorais de ambos os partidos numa mesma cidade. O pressuposto aparente é de que divergências eventuais e abordagens diferenciadas de questões polêmicas seriam inaceitáveis entre partidos coligados.

Se fosse assim, onde estaria o espaço para o bom debate democrático? A que levaria o engessamento das ideias, aprisionadas na aliança celebrada?

Agora mesmo se tem notícia de dificuldades no relacionamento entre a presidenta Dilma e sua base parlamentar, especialmente segmentos de inclinação mais conservadora. Nada mais comum, até porque não se pode colocar sinal de igualdade entre o Executivo e o Legislativo, isto valendo também para a lógica de quem administra e de quem dá sustentação no parlamento. Desencontros são naturais e absolutamente compreensíveis.

Mas, donde vem a necessidade de caracterizar esse tipo de divergência como “crise”?

Creio que vem do fato evidente de que parte da grande mídia brasileira assume, já há algum tempo, o papel dos partidos políticos que ora se encontram à margem do poder e carecem de ideário e iniciativa. Importa a todo instante identificar brechas por onde se possa combater o governo, que a oposição não estaria apta a identificar. E diante da dificuldade do confronto entre ideias e projetos, resvala-se para o velho método de transformar a mosca num elefante. Ou seja, ampliar com lentes poderosas a dimensão de fatos menores com o fito de fazer do acontecido objeto de grande interesse e, quem sabe, de desgaste do governo.

Então, se o governo libera recursos do Orçamento Geral da União referentes a emendas parlamentares – expediente normal e rotineiro -, a manchete é de que a presidenta assim age para abafar suposta “crise” com sua base. Se não libera, ou atrasa a liberação por razões de ritmo na execução orçamentária – igualmente comum -, logo se destaca em manchete que uma “crise” estaria por se instalar.

Parece aquela historinha do garoto que costumeiramente se escondia numa moita e simulava estar sendo atacado por um lobo, só para se divertir com eventuais passantes. No dia em que realmente foi atacado, ninguém mais acreditou e ele não obteve socorro. Quando surgir uma crise de verdade, qual termo será usado pela grande mídia para convencer o público de agora sim, um fato novo existe?