21 junho 2015

Bom dia, Joaquim Cardozo:

Quando os teus olhos fecharem
E as tuas mãos repousarem
No peito frio e deserto,
Hão de morrer as cantigas;
Irá ficar desde e sempre
Entre ilusões inimigas,
Meu coração descoberto.



Arte: Kylli Sparre

20 junho 2015

Uma crônica para distrair

Dois vilões à espreita. Será?

Luciano Siqueira, no Jornal da Besta Fubana 

Viver é arriscoso, ensina Riobaldo em ‘Grande Sertão: Veredas’, de Guimarães Rosa. Tudo o que é pecado é bom e engorda, completa o poeta Ascenso Ferreira. 
Pois aqui temos um caso de ameaçadora fusão entre o prazer e o risco.
É que acabo de ler que cientistas chegaram a uma conclusão tétrica e definitiva: tanto faz açúcar como sal, sentar à mesa é correr risco de vida. Porque essas duas substâncias que nos dão prazer não passam de vilões à espreita, prontos a atacar desde a primeira refeição do dia. 
O sal todo mundo sabe que contribui para dar “alma” ao que comemos - mas faz um mal danado, como adverte o sábio Epaminondas. Hipertensão é consequência certa, agora ou em futuro próximo. 
O professor Nilton de Souza, de quem fui aluno no curso médico da Universidade Federal de Pernambuco, costumava dizer que devia ser proibido saleiro em restaurante.
E também em nossas inocentes mesas domésticas, claro. 
Porque a tentação de “completar” o sal é quase irresistível para muita gente. Como para o amigo André, que sempre assevera que sem aquela camada extra de cloreto de sódio a comida não tem gosto.
E a turma que exagera no doce?
É bom saber que o açúcar também provoca hipertensão, segundo pesquisa feita por cientistas ingleses e americanos. Quem beber mais do que 355 ml de sucos de frutas ou outras bebidas adoçadas por dia pode sofrer uma ruptura do tônus dos vasos sanguíneos e alterar o nível de sal do organismo – e, por consequência, ter elevada a pressão arterial. 
O jeito é optar por bebidas dietéticas ou sem açúcar, recomendam os pesquisadores. O risco seria quase nulo.
Feito aquela comida de hospital, aguada até dizer basta.
Bom que se divulguem essas descobertas. Quanto mais se saiba sobre como atuam em nosso organismo as coisas que a gente engole, por prazer ou necessidade, melhor.
Mas aí há um risco, digamos, psicológico (ou espiritual). Se você leva a sério todas as ameaças à mesa, desiste de comer. E de viver.
Melhor o meio termo: não exagerar na dose, nem se privar de um bom tempero, que leve sal ou açúcar.
Sejamos tão radicais quanto a realidade – e a ciência - nos permite, insiste aqui ao meu lado o Epaminondas.
Aliás, a todo instante a gente lê ou vê na TV notícias de pesquisas justamente destinadas a nos alertar sobre isso – os excessos. Seja em horas/dia dedicadas à internet, ou diante da TV, ou mesmo a atividades físicas em academias ou parques.
Quando eu era criança ouvia dizer que até estudar demais podia prejudicar o juízo!
Dando razão ao romancista Rosa e ao poeta Ascenso, também há estudos que provam que até sexo – prazer supremo! – também é arriscado.
Moral da história: tudo na vida requer equilíbrio. E prazer. Inclusive à mesa e na cama.
Será?
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Dois vetores da crise

A política e a economia

Eduardo Bomfim, no portal Vermelho

Em conversa sobre a conjuntura, um jovem ativista indagou se a saída da atual crise institucional em que vive o país é de natureza econômica ou política.
Tenho a impressão que ela se expressa através dos dois vetores, sendo que ela é essencialmente política, dado que é pela via da luta de ideias e a articulação de setores políticos, camadas sociais, que se encontram as saídas e os rumos de qualquer processo, seja ele imediato ou de fundo estratégico.
No entanto, se é verdade que não há solução para as crises econômicas fora da iniciativa, da decisão pela vontade política, também não é menos correto, entendo, identificar que o acerto na tática ou na estratégia política não substitui por si só a necessária orientação de uma linha econômica.
Por outro lado existe no campo das várias ciências, como na História, antropologia, sociologia etc., um confronto, que já é de largo tempo, entre aqueles que consideram que o Brasil só conseguiria modernizar-se economicamente de maneira associada e dependente ao capital financeiro internacional e aqueles que lutam pelo protagonismo do País e da sociedade brasileira.
Além da subordinação intelectual às grandes metrópoles mundiais seja à Inglaterra, de ontem, quanto aos Estados Unidos hoje.
Daí resulta aquilo que já se chamou a sociologia do desgosto para com o Brasil. Uma visão cosmopolita subordinada, a incapacidade de pensar o país a partir das suas particularidades e necessidades. Dos seus objetivos estratégicos e prioridades enquanto Estado independente, das aspirações da sociedade nacional. Na verdade, é o velho complexo de inferioridade citado por Nelson Rodrigues.
É fundamental vencer a ideia da dependência ideológica bradada pela grande mídia oligárquica, encontrar rumos que apontem um novo projeto nacional de desenvolvimento econômico.
São desafios que serão enfrentados através da construção de ampla frente democrática patriótica contra as forças retrógradas, em defesa do Brasil e por um desenvolvimento econômico mais avançado.
O país necessita enfrentar uma crise política muito complexa, onde forças conservadoras buscam sistematicamente, com o apoio da mídia hegemônica, interromper o legítimo resultado das eleições presidenciais, ao tempo em que é fundamental compor um novo ciclo de crescimento virtuoso.
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Bom dia, Tom Jobim

Se eu pudesse por um dia 
Esse amor, essa alegria 
Eu te juro, te daria 
Se pudesse esse amor todo dia


Foto: LS

19 junho 2015

Crise e perspectiva

Tempo ruim, tempo bom

Luciano Siqueira, no portal Vermelho

Não se trata de simplificar o que é complexo, nem de tentar enxergar a realidade com lentes cor de rosa.
O Brasil atravessa situação momentaneamente difícil. O governo e as forças que lhe dão sustentação, idem. Desde 2003, quando se iniciou o processo mudancista no País com o primeiro governo Lula, este é o instante mais difícil.
Pela primeira vez dá-se uma correlação de forças adversa.
O centro - amplo, influente e hegemônico nas duas Casas do Congresso - representado principalmente pelo PMDB, escapa à liderança do PT, principal corrente da coalizão governista.
A instabilidade é a marca em meio a uma múltipla crise - econômica, institucional e, sobretudo, política.
Uma onda conservadora ganha terreno através da agenda do Congresso Nacional e do Judiciário.
A economia, submetida a um ajuste fiscal de base ortodoxa lado a lado com a política de juros altos como instrumento antiinflacionário (sic), prossegue estagnada.
Demais, as repercussões nefastas da crise global sobre os,países emergentes, a China inclusive, continuam a descer sua mão forte sobre
O Plano Safra, a possibilidade de investimentos pesados em infraestrutura - estradas, ferrovias, hidrovias, portos, aeroportos - e a fase 3 do Minha Casa, Minha Vida surgem como hipóteses futuras de retomada do crescimento. No meio do caminho, entretanto, há muitas pedras a remover – os juros altos inclusive.
Tempo ruim, sem dúvida.
Tempo bom, contudo, se o encararmos em perspectiva.
É que uma variável de enorme dimensão permeia a cena mundial e a cena brasileira: o capital financeiro hegemônico, que atua em todas as frentes feito um gás venenoso a se infiltrar nas entranhas da sociedade e das instituições, não oferece solução real para a crise.
Nem na Europa, nem nos EUA, nem aqui.
Tem força para prosseguir manobrando e impondo aos povos alternativas que concentram mais ainda o capital usurário, inibem a produção e a oferta de oportunidades de trabalho e a solução de problemas emergentes relativos às condições de vida da população. Aprofundando a crise.
Trata-se de uma guerra de longo curso, na qual as forças populares e progressistas tentam ainda acumular condições para uma contra-ofensiva futura.
Resistir é necessário - em todas as frentes, inclusive e especialmente no terreno das ideias.
Nunca foi tão necessário, conjunturalmente, se elevar a um patamar superior o debate sobre o que se passa agora, sobre saídas para a crise. O que envolve lastro teórico, político e técnico.
Para o PCdoB, que integra a coalizão que governa o país e tem no seu DNA uma sólida tradição de enfrentamento de dificuldades, num determinado sentido este é um tempo ruim, sim, mas igualmente um tempo bom. Porque está armados teórica e politicamente para encarar a luta como ela se apresenta – conforme sinaliza a resolução da 10ª Conferência Nacional recentemente realizada. E assim pode abrir veredas por onde pode ampliar a sua influência, crescer e se posicionar a altura dos novos combates que se prenunciam.

Princípios

Uma leitura indispensável.

18 junho 2015

Duas questões candentes

Ajuste fiscal e empreendedorismo estatal

No Blog do Planalto

O ajuste fiscal é uma política passageira, que não veio para ficar, garantiu, nesta sexta-feira (15), o ministro de Ciência e Tecnologia, Aldo Rebelo. Segundo o ministro, o governo está se adaptando para se adequar às exigências dos ajustes necessários ao orçamento e para a retomada do crescimento do País.
“Em primeiro lugar é preciso saber que o ajuste não é uma coisa eterna, não veio para ficar, então é um momento passageiro.  Nós estamos trabalhando com essa ideia e estamos ajustando o que for necessário para nos adaptarmos as exigências do ajuste esse ano e, enquanto isso, se preparar para quando o País voltar a ter uma situação favorável ao crescimento e ao desenvolvimento”, defendeu em entrevista à imprensa.
O ministro ainda garantiu que o governo não ficará sem orçamento e que haverá recursos para os programas prioritários. “O governo não vai ficar sem orçamento, mas o orçamento para as atividades sempre existirá.  Eu estou fazendo os cálculos e estabelecendo as prioridades no MCTI [Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação],” ressaltou.
Aldo Rebelo fez essas afirmações após participar de reunião da presidenta Dilma Rousseff com a economista italiana, Mariana Mazzucato. A acadêmica é uma das maiores referências internacionais na área de empreendedorismo estatal e defende uma posição estratégica do poder público no que se refere aos investimentos em inovação e em desenvolvimento tecnológico.
O papel do Estado no capitalismo moderno é um dos pontos centrais do trabalho da economista ítalo-britânica Mariana Mazzucato. Em visita ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), ela concedeu entrevista em que defende a definição de missões – grandes problemas a resolver – orientadoras do investimento e a preocupação inclusiva na atividade inovadora.
Autora do livro O Estado Empreendedor – Desmascarando o Mito do Setor Público vs. o Setor Privado, ela lembra que mesmo o Vale do Silício – um dos principais casos de geração de negócios baseados em novas tecnologias – contou com investimentos públicos vultosos e diversificados. Na entrevista, citou o papel do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) como exemplo de aplicação do retorno de investimentos em inovação.
"Escolas requerem inovação, hospitais requerem inovação. Ela não é só hi-tech, é como vivemos", ressalta a professora de economia da inovação na Universidade de Sussex, na Inglaterra.
Nesta tarde, Mariana Mazzucato se reuniu com o ministro Aldo Rebelo e seguiu para encontro com a presidenta Dilma Rousseff. Na quarta-feira (13), ela deu palestra no 6º Congresso Brasileiro de Inovação, em São Paulo.
Um dos eixos do seu trabalho é o papel do Estado como indutor da inovação e a necessidade de uma adequada parceria com o setor privado para esse fim. Como atingir esse objetivo?
A primeira coisa é admitir que os poucos lugares do mundo que cresceram por meio do chamado "smart growth", baseado em inovação, tiveram um papel do setor público muito ativo, mais ativo do que admitimos na teoria econômica, na qual, na melhor hipótese, falamos que o Estado ajusta o mercado, conserta seus problemas, mas não cria ativamente mercado.
No Vale do Silício [na Califórnia, Estados Unidos], o Estado, por meio de muitas organizações diferentes, criou em muitas áreas – investindo dinheiro em biotecnologia, nanotecnologia, na área de internet e também na de inteligência artificial. Investimentos descentralizados, porém públicos. Por exemplo, só no ano passado, os Institutos Nacionais de Saúde [NIH, na sigla em inglês] gastaram US$ 32 bilhões em biotecnologia. Então, como imitar um pouco a dinâmica do Vale? Muitos países pensam simplesmente que têm que dar um pouco de dinheiro para as empresas pequenas ou financiar a ciência, sem se dar conta que, naquele caso, o Estado teve papel ativo em toda a cadeia – na pesquisa básica e aplicada, e dando dinheiro para as próprias empresas, as mais inovadoras. Os recursos privados vieram depois disso. Intel, Compaq e também Apple tiveram dinheiro para a [constituição como] empresa, não só para a tecnologia. O não reconhecimento do Estado como sócio, cocriador, justifica que todo o lucro seja privatizado.
Como enfrentar essa questão?
Temos que ter instrumentos para socializar os lucros, senão acontece como no Vale do Silício, onde, apesar de todo o investimento público, as escolas e hospitais públicos foram perdendo verba, porque não temos uma história coletiva de onde vem o valor, a riqueza. É uma narrativa muito assimétrica, em que se pensa no sucesso como privado, obra de alguns poucos inovadores que ficam ricos, e no fracasso, como público.
É interessante, no caso do Brasil, a atuação de um banco público, o BNDES. Por definição, quando há um retorno do investimento por ele feito, vamos dizer, de 20%, o Tesouro vai retomar 80% disso e pode reinvestir na economia. Uma parte do dinheiro que se ganha com inovação pode ser destinada a urbanização de favelas, saneamento, Bolsa Família, o que for.
A sra. defende "missões" para definir investimentos e mobilizar esforços.
Esse tipo de investimento de que eu estava falando era sempre regido por prioridades. E elas não eram pontuais, como [a produção de] automóveis. Eram missões ligadas a problemas. Como chegar à Lua: um problema concreto, mas aberto, porque envolve 15 setores. Quais poderiam ser as novas missões? O problema demográfico – alguns países que têm a população muito velha –, o problema climático... A Alemanha mudou toda sua economia – produção, distribuição, consumo – por meio da missão verde. Não se pode ajudar o todo [o conjunto dos setores econômicos], é preciso priorizar. Mas uma missão pode colocar muitos setores para trabalhar juntos. É também um modo de dinamizar, catalisar e provocar. E, se são públicas, têm que ter um valor público. Alguns países que estão atraindo capital – como China, Dinamarca e Alemanha – mostram às empresas que têm uma visão de transformação, e as empresas reagem a isso.
Sua análise também passa pela necessidade de criar organizações estatais inovadoras. O que permitiria formá-las com essa vocação?
Isso se conecta diretamente com a ideia da missão. Se você tem uma organização envolvida nisso, pode colocar cientistas de alto nível nela. Meses atrás, o responsável pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos era um Nobel de Física, Steven Chu. Se o objetivo é apenas ajudar empresas privadas, não é tão interessante, eu posso preferir a área acadêmica. Outro ponto é a admissão de que é possível falhar, que nunca se vai inovar sem erros. Por definição, aprende-se com eles. A necessidade de ter um pouco de lucro é também para cobrir as perdas quando acontecerem.
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