Amostras da Chang'e-5 sugerem recursos de água exploráveis na
Lua
Diário do Povo online
Ao estudar as amostras lunares
recuperadas pela missão Chang'e-5, os cientistas chineses descobriram que os
grãos do solo lunar retêm mais água implantada pelo vento solar na região de
latitude média do que se pensava anteriormente.
Com base nessa descoberta, os
cientistas preveem que há uma grande quantidade de recursos hídricos
disponíveis para utilização na região de alta latitude da Lua.
Os cientistas tinham descoberto
previamente a presença de água na superfície da Lua. Eles acreditavam que a
implantação do vento solar, a desgaseificação vulcânica e os impactos de
asteroides/cometas provavelmente seriam importantes fontes de água superficial
na Lua.
Mas como a água chega e permanece na
Lua? Quanta água há no solo lunar? Como a água é distribuída espacialmente? Um
estudo das amostras do solo lunar retornadas pela missão chinesa Chang'e-5
lançou uma nova luz sobre essas questões.
A equipe de pesquisa, liderada
conjuntamente pelos cientistas do Centro Nacional de Ciências Espaciais (CNCE)
e do Instituto de Geologia e Geofísica (IGG), ambos sob a Academia Chinesa de
Ciências (ACC), publicou as novas descobertas na terça-feira, na última edição
da revista Proceedings of the National Academy of Sciences.
Lin Yangting, pesquisador do IGG que
liderou o estudo, explicou que a água a que eles se referem não é a água no
sentido usual, mas a água estrutural encontrada nos grãos do solo. Como o
hidrogênio é um dos principais componentes da água, a sua concentração é
geralmente usada para expressar o conteúdo de água.
A equipe de pesquisa selecionou 17
grãos do solo lunar, incluindo olivina, piroxena, plagioclásio e vidro, das
amostras da Chang'e-5, e realizou análises experimentais do conteúdo de
hidrogênio e isótopos usando uma técnica recém-desenvolvida de definição de
perfil em um espectrômetro de massa de íons secundários em nanoescala.
Os cientistas descobriram que o teor
médio de água na zona mais alta de 0,1 mícron dos grãos lunares é de 0,7%,
bastante alto para minerais não aquosos. Eles provaram em seguida através das
proporções deutério-hidrogênio que a água na superfície lunar era derivada
exclusivamente do vento solar.
"Os íons de hidrogênio emitidos
pelo Sol atingem a uma velocidade média de 450 quilômetros por segundo e chegam
à superfície dos grãos do solo lunar como balas", disse Tian Hengci,
co-primeiro autor do artigo, professor associado do IGG.
Com base na análise de experimentos
de aquecimento, a equipe de pesquisa realizou as simulações sobre a preservação
do hidrogênio em solos lunares a diferentes temperaturas, e os resultados
mostraram que a água originada do vento solar poderia ser bem preservada nas
regiões de latitude média e alta da superfície lunar.
Anteriormente, os cientistas não
podiam usar as amostras recolhidas para estudar a possível influência da
latitude no conteúdo de água na superfície lunar, pois as amostras lunares
coletadas pelas missões Apollo, dos Estados Unidos, e pelas missões Luna, da
União Soviética, eram todas das áreas de baixa latitude da Lua.
A missão chinesa Chang'e-5 coletou
com sucesso 1.731 gramas de amostras lunares no final de 2020. A sonda pousou a
43,06 graus de latitude norte da Lua, mais alta do que as latitudes dos locais
de pouso das missões Apollo e Luna. Além disso, a idade de cristalização do
basalto na área de pouso da Chang'e-5 tem cerca de 2 bilhões de anos, muito
mais jovem do que as áreas de amostragem das missões Apollo e Luna.
"As amostras da Chang'e-5 nos
proporcionaram a oportunidade de estudar a evolução do vento solar e a
implantação e migração de água na superfície lunar", disse Xu Yuchen,
co-primeiro autor do artigo do CNCE.
A equipe de pesquisa construiu um
modelo de equilíbrio dinâmico entre a implantação de hidrogênio pelo vento
solar e a perda de difusão por aquecimento, com base nos resultados da análise
das amostras da Chang'e-5 e nos dados experimentais das amostras da Apollo.
O modelo previu que os grãos lunares
na região de alta latitude contêm mais água fornecida pelo vento solar em suas
bordas. A zona mais alta de 0,1 mícron dos grãos lunares poderia conter até
8,5% de água em termos de peso. E se os solos lunares forem classificados por
tamanho de partícula, o teor de água nas partículas com menos de 2 mícrons pode
chegar a 2% em peso.
"Esta descoberta é de grande
importância para a futura utilização dos recursos hídricos na Lua. A China
planeja construir uma estação de pesquisa científica na região polar sul da
Lua. Nossa pesquisa mostra que a região polar sul da Lua pode ter mais água do
que se pensava anteriormente. E é relativamente fácil explorar e usar a água
contida no solo lunar através da classificação e aquecimento de tamanho de
partículas", disse Lin.
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