06 julho 2026

EUA: decadência

250 anos de hipocrisia: o império decadente dos EUA comemora a si mesmo
Primeira revolução anticolonial das Américas pariu a potência que mais sistematicamente sufoca soberanias alheias
André Cintra/Vermelho 


Os Estados Unidos completaram neste sábado (4) 250 anos de independência. A primeira colônia das Américas a romper com uma metrópole europeia inspirou movimentos emancipatórios em todo o continente e difundiu a ideia de autodeterminação dos povos. Dois séculos e meio depois, porém, o país que nasceu da luta contra o Império Britânico se consolidou como a principal potência imperialista do planeta.

A independência proclamada em nome da liberdade deu lugar à expansão sobre territórios indígenas, à anexação de partes do México, à política do “Big Stick”, às invasões militares, à Doutrina Monroe, aos bloqueios econômicos e às guerras de intervenção. O abismo entre o mito fundador, personificado por Thomas Jefferson, e a prática de Washington nunca foi tão evidente quanto neste aniversário.

As comemorações dos 250 anos, marcadas por disputas políticas internas e demonstrações de força militar, refletem a decadência de um poder que não sustenta sua antiga narrativa moral. Em nome da “democracia”, os EUA intensificam ações que afrontam a soberania de outras nações e aprofundam tensões globais. A festa em Washington, entre fogos e patriotismo, cheira cada vez mais a pólvora e arbítrio.

O sequestro e a prisão do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, representam uma escalada contra a soberania latino-americana. Em janeiro, Maduro foi retirado de Caracas por uma operação militar dos EUA, levado ao território norte-americano e detido sob acusações de narcoterrorismo. O episódio escancarou a lógica colonial segundo a qual Washington se atribui o direito de decidir quem pode governar outros países.

O próprio Donald Trump descreveu a ação como um “ataque de grande escala” e afirmou que os EUA passariam a “governar” a Venezuela até uma transição considerada adequada. Mais do que combate ao narcotráfico, o que está em jogo é o controle direto sobre um Estado soberano e suas riquezas. É a mais grave afronta ao direito internacional desde as invasões do Iraque e do Afeganistão – a Doutrina Monroe reeditada em pleno século 21.

Enquanto fogos iluminam Washington, mísseis reais seguem caindo sobre o Oriente Médio. Em fevereiro, EUA e Israel lançaram uma ofensiva conjunta contra o Irã, matando autoridades – inclusive o líder supremo iraniano – e atingindo a infraestrutura civil. A guerra, encerrada formalmente em junho, reafirmou o velho intervencionismo baseado na força militar e na “mudança de regime”. A independência que um dia simbolizou a luta contra um império hoje é celebrada mediante bombardeios sobre povos do Sul Global. É a “Pax Americana” em sua essência: estabilidade para os aliados, guerra para os que desafiam sua hegemonia.

A mesma lógica de exclusão e arbítrio que guia os bombardeios no Oriente Médio se manifesta nas fronteiras domésticas – e nem mesmo o futebol escapa desse ambiente de intolerância. A Copa do Mundo de 2026, vendida pela Fifa como celebração global da diversidade, é marcada por políticas migratórias agressivas, barreiras discriminatórias e repressão xenófoba. A Anistia Internacional denunciou episódios de discriminação racial e revistas invasivas.

Anfitriões do Mundial ao lado de México e Canadá, os EUA converteram a festa do futebol em símbolo de sua decadência moral e em palco de vigilância e exclusão. Mais de 167 mil pessoas foram presas pelo ICE nas cidades-sede entre 2025 e 2026. Torcedores de países como Irã, Haiti e Senegal enfrentaram restrições de entrada, e até um árbitro somali foi impedido de atuar apesar de possuir visto válido. O fato de entidades como Anistia Internacional e Human Rights Watch terem pedido uma “trégua” migratória durante a Copa revela o tipo de país que os Estados Unidos se tornaram.

Ao abalar o colonialismo e inspirar emancipações, a Independência de 1776 teve seu lugar na história. Mas o paradoxo destes 250 anos é que a primeira revolução anticolonial das Américas pariu a potência que mais sistematicamente sufoca soberanias alheias. A primeira colônia independente das Américas tornou-se mais predadora que sua antiga metrópole. Celebrar a independência enquanto se impõem sanções, bloqueios e bombas a outros povos é transformar o símbolo libertador em instrumento de dominação.

Da América Latina ao Oriente Médio, da África à Ásia, a defesa dos interesses estratégicos de Washington invariavelmente significou golpes, ocupações, sabotagens econômicas e apoio a ditaduras. Os povos da América Latina, que tantas vezes sentiram na pele o intervencionismo de Washington, sabem bem que a “liberdade” que os EUA dizem exportar costuma vir acompanhada de bases militares, sanções e, quando necessário, bombas.

Impérios passam. Enquanto as elites de Washington brindam na National Mall, os povos agredidos cavam trincheiras. Nenhuma nação pode reivindicar para si o monopólio da liberdade enquanto nega aos demais o direito de existir soberanamente.

Que este 4 de julho seja lembrado como um marco de reflexão sobre os rumos do imperialismo estadunidense no século 21. Nestes 250 anos sob o signo da hipocrisia, não há o que comemorar. Há, isso sim, o que denunciar. Às forças progressistas e anti-imperialistas, cabe desmascarar a farsa deste aniversário e seguir marchando por um mundo multipolar e verdadeiramente livre.

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