Discurso furta-cor
Luciano Siqueira
No artigo "Chutzpah: quando a cara de pau se torna uma tecnologia
política", publicado no Jornal GGN https://jornalggn.com.br/artigos/chutzpah-quando-a-cara-de-pau-se-torna-uma-tecnologia-politica/ , Celso Pinto de Melo
analisa como o conceito judaico de chutzpah (termo em iídiche para audácia
extrema, cinismo ou “cara de pau”) deixou de ser apenas um rasgo de insolência
individual para se transformar em uma estratégia e tecnologia de comunicação
política.
Chutzpah é a atitude do homem que mata o pai e a mãe e, no julgamento
diante do juiz, deseja ser absolvido alegando ser um "pobre órfão".
Ou seja, a inversão absoluta de papéis, na qual o próprio causador do
problema transforma as consequências do seu ato em argumento de
vitimização.
Caso do discurso sobre as milícias. Atores políticos viam benefícios e
elogiavam esses grupos. Posteriormente, por conveniência, passaram a rotulá-los
como narcoterroristas.
Assim, chutzpah como tecnologia política tergiversa, substituindo o
debate por outra pauta ou simplesmente contradizendo-se.
Em certa medida, o público aceita ou tolera essas inversões devido a
motivações eleitorais imediatistas.
Em uma cultura política pautada pela chutzpah, a recusa em recuar ou
fazer autocrítica é vista pelo eleitorado como "coragem" ou
"autenticidade", e a cobrança por coerência como "perseguição do
sistema".
O fenômeno viceja numa esfera pública polarizada que permite ao oportunista mudar a pauta, transformar culpa em vitimização e converter o questionamento ético em demonstração de força perante seus seguidores.
Tudo a ver com a extrema direita, o bolsonarismo em particular.
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