03 novembro 2013

A vida do jeito que é

Uma noite com Valquíria
Marco Albertim, no Vermelho

Nas primeiras chuvas do inverno, o canto da praça, sob o oitizeiro, ficou vazio. Na véspera, um mudo grupo de moços, sem saber o que falar, sorvera um tubo plástico de cola; cada um com o seu.

Com a chuva, abrigaram-se sob a marquise do Suíça Hotel; sem correria, posto que a rotina enfadonha nunca lhes reservara surpresas, a não ser a certeza de que uma brisa noturna insinuar-se-ia nos narizes, trazendo um feliz embrulho para os estômagos vazios. O porteiro olhou-os, pôs nos olhos a tolerância de um cão de guarda. Conhecia-os, tinha-os como cinco cheira-cola vadios; recontou-os para reafirmar o instinto canino. A menina de quinze anos, cabelos soltos, peitos crescidos, coagidos na blusa apertada; muda, pedindo para não ser expulsa dali. Pusera o tubo de cola entre um peito e outro, cruzando os braços. Nos olhos o efeito da droga, inda que os braços, as p ernas mostrassem pelos eriçados sob o frio. Era a única com um colchão de espuma, sem tecido, o mais confortável entre as esteiras de papelão trazidas pelos outros.

Na segunda-feira, pouco ou nenhum registro na portaria do hotel. O porteiro entrou, deixou a porta da frente entreaberta, sentou na cadeira de costume, fechou os olhos para dormir... Ou para fingir familiaridade com a noite. Até o começo da madrugada, nenhum casal alugara os lençóis rotativos do hotel. Menos mal, ele urdiu. Logo o sol cobriria as árvores da Praça 13 de Maio, os moleques voltariam para o oitizeiro junto com o mascote, o vira-lata pulguento.

Às cinco horas, o moleque mais velho se deu conta do mundo. Pálpebras inchadas, cílios remelosos, coçou os olhos e viu o colchonete de Valquíria vazio. Quis acordar os outros. Não foi preciso, a narina suja e o fedor da rua acordaram o resto. Não tinham hora para comer, vez que queriam comer a toda hora. Mas os quiosques com guaranás, coxinhas, o cheiro, deram-lhes sustento nas pernas. Ficaram mais uma hora, o tempo imaginado para o chão de grama e areia, sob o oitizeiro, enxugar. Valquíria deixara a própria cama, por certo dormira numa melhor, longe da friagem.

De volta à sombra do oitizeiro, repuseram os minguados trapos. A cama da loura Valquíria, enrolada num cordão de barbante. Cada um seguiu para um lado, catando sobras nos quiosques, nas lanchonetes. Os tubos de cola, escondidos entre os panos. O vira-lata submisso, intimidado com os motores dos ônibus, aquietara-se entre as raízes da árvore.

O Parque 13 de Maio enchera-se de estudantes. Havia faixas alusivas ao aniversário da cidade.

O moleque mais velho, de volta ao quiosque vizinho à marquise do hotel, não se surpreendeu quando viu Valquíria saindo da portaria. Atrás dela, o porteiro; tomara um banho, o zeloso porteiro. Valquíria também se banhara, mas os cabelos estavam revoltos e o tubo de cola ainda entre um peito e outro.

02 novembro 2013

Livre

O sábado é de Vinícius de Moraes: “Amo-te, enfim, com grande liberdade/Dentro da eternidade e a cada instante.”

Combate à miséria

São 14 milhões de famílias hoje beneficiadas pelo Programa Bolsa Família, o que corresponde a uma transferência média de US$ 35/mês.

Lula x FHC

Mais do que natural a participação militante de Lula na próxima campanha eleitoral, em defesa da candidata do seu partido. Um direito que não lhe pode ser suprimido. O mesmo deveria fazer o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em defesa do candidato tucano. Personalidades tão importantes na história recente do País, ambos terão muito que contribuir para o debate esclarecedor sobre os dois projetos em confronto: o que tem seus pilares nos dois mandatos consecutivos de FHC, de cunho neoliberal; versus o novo projeto nacional de desenvolvimento com soberania e inclusão social, que vem sendo construído com muito esforço e enfrentando enormes obstáculos, desde o primeiro governo Lula. Será bom para a democracia. Ajudará o eleitor a escolher conscientemente.

Soberania & Direitos Humanos

Proposta do Brasil e da Alemanha à ONU associa espionagem à violação de direitos humanos
. Brasil e Alemanha evocaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos na proposta de resolução contra invasão de privacidade entregue hoje (1ª) à Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Para os dois países, as pessoas devem ter garantidos, no ambiente digital, os mesmos direitos que têm fora dele, informa a Agência Brasil. A iniciativa é uma resposta para as ações de espionagem internacional da Agência Nacional de Segurança (NSA) dos Estados Unidos.
. De acordo com o documento, a coleta de informação por meio da interceptação de dados é uma "preocupação crescente", devido ao ritmo do desenvolvimento tecnológico dos países, que aumenta a capacidade de monitoramento por parte de Estados e empresas.
. As normas internacionais que fundamentam proposta conjunta são o Artigo 12 da Declaração Universal dos Direitos Humanos e o Artigo 17 do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos - que mencionam o direito à privacidade, a inviolabilidade de correspondência e a proteção contra ofensas.
. No texto apresentado à ONU, os dois países observam que, apesar da necessidade das medidas de combate ao terrorismo, essas práticas devem ser feitas de acordo com o direito internacional, os direitos humanos, o direito dos refugiados e o direito humanitário.
. Brasil e Alemanha pedem, no texto, garantia para proteção de dados em comunicações digitais; medidas para a cessação das violações do direito à privacidade (inclusive, por meio da adequação das legislações nacionais); revisão dos procedimentos adotados atualmente; estabelecimento de mecanismos nacionais de supervisão de atividades de espionagem e intensificação da transparência no âmbito das comunicações.
. A proposta de resolução, que vai tem de passar pela apreciação das delegações dos 193 países-membros da ONU, pede ainda que a alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Navi Pillay, apresente à Assembleia Geral da ONU, de forma prioritária, um relatório preliminar sobre a proteção do direito à privacidade e recomendações a serem consideradas pelos Estados nas próximas sessões da assembleia - em outubro de 2014 e 2015.
. O documento apresentado hoje está no contexto das recentes denúncias de espionagem feitas pela imprensa internacional por meio de informações repassadas por Edward Snowden, ex-consultor contratado para prestar serviços à Agência Nacional de Segurança (NSA), órgão de segurança do governo norte-americano.
Segundo as denúncias, a NSA grampeou o celular da chanceler alemã Angela Merkel e ainda monitorou mais de 70 milhões de telefonemas na França. O mesmo foi divulgado em relação à Espanha.
. A presidenta brasileira, Dilma Rousseff, foi uma das primeiras chefes de Estado a se queixar das práticas dos norte-americanos, depois de reportagem denunciando que suas comunicações haviam sido interceptadas. De acordo com as denúncias, a espionagem ao Brasil também teve como alvo a Petrobras.

Jomard com a palavra

TODAS AS COISAS ESTÃO CHEIAS DE DEUSES?
Jomard Muniz de Britto, jmb

 
Tudo se faz por contraste: da luta dos contrários
nasce a mais bela e justa harmonia.
Os pré-socráticos por NÓS.
Heráclito nos entrelugares contemporâneos
percorrendo reais, simbólicos, imaginários.
Tudo sempre singular no plural.
O que aguarda os humanos após a morte
(e mesmo antes) é o que desesperam
nem tentam pelos deuses imaginar.
Investigam caminhos, labirintos, enigmas
e jamais encontrarão os limites da vida
tão profundo é  o seu LOGOS.
O itinerário da espiral sem fio
é reto e curvo, desdobrável ao infinito.
Deuses em conversações analógicas
preferem desconhecer situações-limite
entre espionagens planetárias e outras
bisbilhotices planaltinas e provinciais.
Por NÓS manifesta-se sempre uma e mesma
coisa: vida e morte, vigília e sono,
velhice e juventura, invenção e retrocessos.
Coragem nas redes da insustentabilidade.
O fogo se transforma pelo LOGOS em todas
as coisas e todas as coisas podem ainda
transcender em labaredas clarividentes.
Assim ousamos trocar mercadorias por ouro
e ouro por mercadores partidários.
Deuses pré-socráticos não devem ser reféns
de um Deus do Impossível.
Seres não coisificados investem na
aventura do experimental, desejando
o LOGOS além das lógicas dualistas,
tornando-se fogo, fôlego, fulgor pela
intuição das práticas transformadoras.
Todas as coisas estão cheias de deuses
replicantes, visionários, experimentadores
do tudo ao nada?
Recife, outubro/2013
atentadospoeticos@yahoo.com.br   

01 novembro 2013

Um flor, um céu

A sexta-feira é de José Martí: “Já sei: de carne se pode/Fazer uma flor: se pode/Com o poder do carinho/Fazer um céu – e um menino.”