03 julho 2022

Fotografia: Cena rural

 

Edson Tenório*

*Professor, líder sindical, fotógrafo amador
As muitas cores da vida https://bit.ly/3n47CDe


Emprego complicado

Os estragos no mercado de trabalho desde 2015

A Indústria perdeu 792 mil postos de trabalho. Mesmo com o boom agrícola, a Agricultura reduziu em 531 mil os postos de trabalho
Luis Nassif, Jornal GGN

 

O estrago do modelo neoliberal – inaugurado na gestão Joaquim Levy – pode ser medido pelos dados do PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio).

A última se refere ao período março-maio de 2022. A comparação é com mar-maio de 2015, início do período.

A População Economicamente Ativa cresceu 7,7%, ou 12,4 milhões de pessoas a mais em idade de trabalho. Mas a Força de Trabalho também cresceu 7,7%, mas em cima de uma base menor. No total, a PEA cresceu 12,4 milhões, mas a FT apenas 7,7 milhões. A FT Ocupada absorveu apenas 5,4 milhões desse total. Desocupados + Fora da Força de Trabalho cresceu 7 milhões de pessoas, 10,3% a mais do que em 2015.

A composição do emprego mostra a queda de qualidade nas ocupações. 




A Indústria perdeu 792 mil postos de trabalho. Mesmo com o boom agrícola, a Agricultura reduziu em 531 mil os postos de trabalho.  

Os maiores aumentos vieram em setores de baixa qualificação, Comércio e Reparação de Veículos (1 milhão), Alojamento e alimentação (1 milhão).

Há uma queda acentuada nos rendimentos em todos os setores, com exceção da Agricultura, Pecuária. Na Indústria Geral a queda chegou a R$ 307,00.

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Veja: Política pela base sem poluição https://bit.ly/3OHJZvr

Aurinha do Coco, na palavra de Cida

Aurinha do Coco, ícone da cultura popular pernambucana, era mestra do ritmo tradicional brasileiro e carnavalesco coco, que carrega influências africanas e indígenas. Cida Pedrosa conta a história da artista guardiã da cultura coquista.
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Veja também: A poesia em seus lugares e cores https://bit.ly/3BKdwhd    

Covid: reinfecções

Quantas vezes posso pegar Covid?

Resposta depende muito mais de comportamento do que de imunidade
Atila Iamarino, Folha de S. Paulo

 

Infelizmente essa resposta vai depender muito mais do seu comportamento do que da sua imunidade.

Como escrevi no começo de maio: "na falta de medidas como máscaras, redução de aglomerações e mudanças na ventilação de ambientes fechados, a barreira contra o vírus que mantém essa estabilidade é só a nossa imunidade. E [...] a situação pode estar prestes a mudar".

O motivo dessa afirmação em maio foi a detecção na África do Sul de novas versões da variante ômicron capazes de infectar novamente quem teve ômicron em janeiro. Por lá, são comuns os casos de pessoas que já estão na segunda, terceira ou quarta infecção recente pelo vírus.

E aqui estamos, no meio de outra onda de Covid causada por essas linhagens no Brasil, com muita gente pegando Covid de novo. Você provavelmente conhece várias pessoas que têm ou tiveram Covid recentemente, se também não tiver.

Tudo indica que essa reinfecção deve continuar acontecendo. Temos um gradiente entre infecções que só contraímos uma vez na vida e outras que podemos ter várias vezes.

Em uma ponta estão vírus como o sarampo ou o vírus da varíola humana, contra os quais nossos anticorpos e nossa imunidade celular são suficientes para neutralizar o patógeno durante décadas ou até pela vida toda.

No outro extremo estão vírus como o HIV, que pode mudar tão rápido que, na falta de tratamento, nosso sistema imune está sempre atrasado e perseguindo a linhagem errada.

Entre os coronavírus que infectam humanos, o Sars-CoV-1, causador do surto de Sars, parece despertar uma imunidade intermediária. Quem teve Sars entre 2002 e 2003 ainda tinha anticorpos capazes de neutralizar o vírus por pelo menos um ou dois anos depois. Já entre os coronavírus humanos que causam resfriados, como o NL63 e o OC43, a imunidade protetora parece durar menos.

O Sars-CoV-2, causador da Covid, transitou da primeira para a segunda situação. A imunidade contra a linhagem original de Wuhan parecia durar pelo menos seis meses, e os casos de reinfecção eram raros. Mas, conforme ele continuou circulando e evoluindo, adquiriu mutações que o ajudam a escapar da nossa imunidade. Agora, os casos de reinfecção são tão recorrentes e tão próximos no tempo, que fica difícil saber se a pessoa pegou Covid de novo ou se ainda está com o mesmo vírus.

A ômicron, primeira variante que continua predominando em mais de uma onda, desperta uma resposta imune menor do que as anteriores e ainda consegue fugir da resposta imune que já temos. E essa tendência parece ser mais acentuada entre quem pegou Covid antes de se vacinar. Nem as vacinas, nem infecções prévias, nem a própria infecção por ela são suficientes para barrar o vírus.

Respondendo à pergunta que fiz aqui há dois anos, a imunidade contra a Covid não é protetora. Não temos a menor perspectiva de imunidade coletiva. Não sabemos quantas vezes seguidas alguém pode ter a doença e os efeitos de infecções repetidas em alguém –bons certamente não são, mas não sabemos quão ruins podem ser.

O que nos traz a uma reversão do que escrevi em maio. Na falta da barreira imune, serão medidas como máscaras, redução de aglomerações e mudanças na ventilação que vão prevenir que você tenha Covid novamente. E a dose de reforço é uma excelente forma de evitar que a Covid que você pegar seja grave.

estimativa mais recente é que mais de 1 milhão de vidas foram salvas no Brasil graças à vacinação contra a Covid, só em 2021. É urgente que possamos estender essa proteção às crianças de menos de cinco anos.

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Veja: Será aceitável que 9 crimes tão graves fiquem impunes? https://youtu.be/sJ2lSvc193E

01 julho 2022

Tanderine, presente!

Luis Tanderine, guerreiro firme e determinado. Fraterno, solidário, afetuoso.

Fundador do Movimento Emaús em Recife e um dos maiores colaboradores de Emaús América.

Viverá sempre na memória de todos os que seguimos adiante na luta.
 

Uma luz na escuridão

As velhas vozes do racismo

Isso choca a gente, ao mesmo tempo que acende uma luz na escuridão da meritocracia, que nos inculcam desde a infância
Urariano Mota*, Vermelho www.vermelho.org.br

 

Uma fala do grande piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton nos desperta uma reflexão. Quando Hamilton pergunta “Por que continuamos dando espaço a estas velhas vozes?”, com referência a Nelson Piquet, o racista que o chamou de “neguinho” em um vídeo, descobrimos o inesperado. Isto é, não basta a um negro possuir talento genial para uma atividade humana, como o supercampeão Lewis Hamilton, para se tornar um homem admirável. Não. Na ótica racista, o seu gênio maior seria ser branco para só então vir a ser reconhecido. Aliás, maior, não, o seu único gênio deveria ser branco, pois todos os talentos lhe seriam acrescentados por força da sua raça.

Isso choca a gente, ao mesmo tempo que acende uma luz na escuridão da meritocracia, que nos inculcam desde a infância: todos os homens seriam iguais, todos, e se têm gênio e talento incomuns irão aonde quiserem, pois a glória do mundo será sua. Engano absoluto. Porque a sociedade que vem de classes e da mais profunda injustiça, portanto, nos ensina há muito que a cor, a raça e o sexo determinam a aceitação universal. E aqui a idealização briga com a experiência. Mas na verdade isso me chegou sem que eu acordasse para a revelação no pensamento, antes que eu tivesse mais informações e consciência do fenômeno. Por força do visto e sentido, quando escrevi o romance “O filho renegado de Deus”, isso me veio. Destaco alguns trechos desse romance sobre o personagem Filadelfo a seguir.

“A desgraça, a expulsão de Filadefo direto para o inferno, foi destino do gênio e gênero do seu talento. Onde outros, de sua mesma cor e classe, chegavam a um patamar elevado e se recolhiam modestos e humildes – com esperteza, é certo, porque um homem tem consciência do próprio valor –, onde indivíduos de passado de exclusão pediam desculpas nos gestos, na fala, no tom, uma vez que estavam em uma posição tida como inadequada, Filadelfo, não: abria as portas, escancarava a entrada, sentava-se no trono e parecia dizer, em atos e feições, apontando pretendentes que reclamavam trono semelhante:

– Os inadequados são eles. Este cetro, esta casa e este poder são meus, sob o mais estrito critério de merecimento.

Uma loucura, palavra que os privilegiados de fortuna e sangue chamavam de ‘uma descabida provocação’. Aquele negro, como ousava? Em guerra, a ilusão de Filadelfo se dava ao acreditar que por força da sua inteligência, do seu trabalho, da sua vontade, o mundo se abria para ele. O sol nasceu para todos, dizia, repetia-se, não bem para expressar que o sol iluminava mendigos e reis igualmente, mas para dizer que os raios do sol podiam ser arrancados por quem os conquistasse. E os conquistadores eram negros, brancos, amarelos, pardos, índios, netos de escravos, todos que tivessem suficiente força de vontade. Pois a maravilha da vontade fazia o mundo ser justo. ‘Hum, hum, hum…’. Como podia um homem tão machucado ser tão estúpido?

Leia também: Canção pra Amazônia: “Salve-se a selva ou não se salva o mundo”

Ou será, para entendimento mais exato, que existe um limite para a aceitação da dor, da merda de vida em nossa própria imagem? Naquela altura do beco, em que conversava com o espírito de Manoel de Carvalho às seis da manhã, ele já era o homem que melhor falava inglês no Recife. Falar, comer, orientar navios sem megafone no cais, em lugar de um prático naval, mais beber, gargalhar, todas essas mostras e exibições de inglês ninguém fazia tão bem quanto ele no Recife.

Como um pistoleiro do oeste americano, como um herói dos filmes de faroeste, ele não cansava de se medir, de provocar, de corrigir e fazer perguntas aos mais nobres e privilegiados falantes da língua. Se cruzasse o seu caminho um acadêmico, um advogado, um médico, um doutor, enfim, lá estava Filadelfo a se mostrar, a se exibir, impiedoso para os portadores de diplomas de toda e qualquer natureza:

– Não, esta frase não se fala. Ninguém fala assim. Você aprende isso nos livros. A fala na América é outra. No Texas, em Chicago, em New York…

Era cômico, vexatório – para ele uma vitória – ver os cidadãos médicos se tornarem pálidos, brancos sem cor, diante da lição que os desarmava, e lhes dizia além da fala: ‘Olha, este negro aqui sabe muito mais que você. E lá vai um golpe mais de nocaute’. Eles, os privilegiados de nascimento e fortuna, iam à lona. Caíam com um olho de raiva, incrédulos: ‘O que vejo? Como pode? É um trapaceiro’. E beijavam o chão do ringue. Mas uma conta passavam a carregar para um acerto futuro com Filadelfo.

Com os populares, com os conhecedores de inglês como ele da beira do cais, o trato era outro. Eles apanhavam de Filadelfo por força mesmo do gênero do aprendizado deles da língua.

Enquanto os consertadores de sacos furados de carga, enquanto os estivadores, os arrumadores de fardos de açúcar, empunhavam um inglês imediato, do ‘estou com fome’, ‘dê-me isto’ ou ‘tu queres sexo? eu sei onde tem sexo’, e assim falavam e se dirigiam a trabalhadores norte-americanos da mesma condição que eles, Filadelfo, por ambição servil, aprendera a falar com os de condição mais alta, os oficiais na segunda guerra, e depois com os comandantes de navios mercantes. Ou seja, sem desconhecer o baixo inglês, conhecia os modos e frases de gente mais educada. A isso ele se impôs uma escola de língua, um aprendizado que somente 50 anos adiante o filho pôde entender o acerto. Filadelfo ia ao cinema para acostumar os ouvidos. Lá chegando, encostava a cabeça no espaldar da cadeira e fechava os olhos. Apesar de no começo desse método muita fala fosse incompreensível, ele captava os volteios, o ritmo, a entonação, o acento, com uma mente plástica e ágil. Assim posto, ficava com o cérebro que era ele todo, de olhos fechados e em absoluta atenção, aprendendo e pagando caro pelas imagens do filme perdido, sem se importar com as legendas na tela que poderiam dispersá-lo.

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Os processos mnemônicos também eram empregados. Mesmo sem saber o nome desse caminho de aprendizagem, nem como isso se dava, a sua intuição o guiava para uma ciência antes da ciência. Pois dizia e contava para os encantados com a sua facilidade para línguas:

– A primeira palavra que aprendi em inglês foi ‘I’. Eu me disse: ‘engraçado, quando a gente tem dor, grita: ai!. Eu em inglês é ai Engraçado. Ai, eu!’.

A sua história voltava para a nova língua. Era um aprendizado que envolvia todo o ser. Às dificuldades naturais, de sua condição, ele respondia com as conquistas multiplicadas por sua vontade e inteligência. Aprender o inglês não era então uma coisa à parte, de horas arquivadas do dia, era e se tornou em determinado ponto de sua vida uma, mais que uma, a razão de viver.

‘No inglês ele é um maníaco, um tarado’, diziam dele os inimigos. No que, descontado o desprezo, tinham razão. Movido pela vontade de comer – atenção, abstratos, atenção, formais, atenção, só espíritos, a fome é uma pedagogia primária que move para os mais finos conhecimentos –, ele passou a misturar a língua ao leite, pão, feijão, arroz, ovos, roast beef e concluiu: ‘a língua é boa’. Passou a amar aquela material, desejá-la, querê-la, com todos seus lixos, caralhaços, sangue e virtudes. De cambulhada assimilou a bandeira norte-americana, pois o inglês era a pátria do império, sob as listras vermelhas e estrelas do pano; passou a gostar dos rostos dos States, aos quais assimilava sem deixar de lhes perceber a diferença; a ser fascinado pelo modo de vida da gente dos Estados Unidos, a quem copiava com toda sorte de bugigangas que pudesse trazer dos navios; e por força da ideologia desse mundo, ganhou um novo e repugnante anticomunismo, que era a mais caricatural propaganda da guerra fria…

Do mau e do bom, do bem e do mal a sua competência linguística era feita. Em lugar da ilusão que crê no aperfeiçoamento espiritual somente pelos livros, como se a educação se desse por partenogênese, dos livros para os livros, da escola para a escola, de citações para as citações, uma autorreprodução de ensino formal, ele punha em seu aprendizado toda a ganga bruta de que é feita a sobrevivência. ‘Com toda a vontade’, ele poderia dedicar numa foto que espelhasse tal esforço. E nisso vinha uma dor fina no filho, uma vergonha misturada a raiva, por ter nas veias um sangue, um lodo de tamanha magnitude. Pois era fatal, inegável, o filho se diz de passagem, enquanto rola na cama lá no alto da Pensão 13 de Maio, ele se diz sem ver, enquanto tenta a leitura de John Reed com o mesmo fervor com que lia as vidas dos santos na infância”.

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Veja: Onde a luta encontra a poesia https://bit.ly/3IxslYK

Bomba de efeito retardado?

Política monetária em 2023

A partir do primeiro dia de janeiro de 2023, o novo governante vai encontrar uma diretoria do BC composta e nomeada pela dupla Bolsonaro & Guedes
Paulo Kliass, Vermelho www.vermelho.org.br

 

Ao longo de sua desastrosa e criminosa passagem pela Presidência da República, Jair Messias Bolsonaro vem colecionando uma série impressionante de atos e decisões que podem comprometer de forma assustadora o futuro de nosso País. Para além de suas intervenções deliberadas para promover a destruição do Estado e o desmonte das políticas públicas, ele se orgulha de ter levado em frente propostas como a continuidade da reforma trabalhista redutora de direitos dos assalariados e o aprofundamento extremado das propostas de austericídio, que foram introduzidas pela Emenda Constitucional do teto de gastos – a EC nº 95.

Mas o cara parece cada vez mais tomado pelo receio de perder as eleições para Lula em outubro e com isso ter de começar o ano que vem já sem o porto seguro do foro privilegiado. Isso significa que ele terá de passar boa parte do resto de sua vida tentando se defender na Justiça dos inúmeros processos que serão liberados para julgamento sem as prerrogativas da imunidade prevista na nossa legislação. São acusações de todo tipo que correm nos tribunais aqui dentro do País, além dos processos já correndo nas cortes internacionais por crimes contra a Humanidade.

Esse medo de enfrentar os ambientes judiciais como réu, com elevada probabilidade de condenação, provavelmente está na base dos inúmeros decretos que ele mesmo assinou impondo sigilo de 100 anos sobre atos envolvendo sua atuação à frente da Presidência da República. Assim foi feito com a proibição da divulgação de suas reuniões com os pastores suspeitos de atos de corrupção no caso do MEC. Assim foi feito com o processo de ex Ministro da Saúde, General Pazuello, que participou de manifestação partidária a favor de Bolsonaro, infringindo as normas legais das Forças Armadas. Ou ainda ao se negar a oferecer informações sobre a participação de seus filhos em eventos comprometedores realizados no interior do Palácio do Planalto. O mesmo aconteceu quando veio à tona a polêmica respeito de seu cartão de vacinação, no auge da polêmica sobre a postura negacionista do chefe de governo. E também o bloqueio secular de informações a respeito da matrícula de sua filha na Escola Militar de Brasília sem que a garota tivesse de enfrentar a concorrida seleção para ingressar naquela instituição de ensino.

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Bolsonaro acuado promove destruição.

Mas a herança maldita de seu governo vai se manifestar também no âmbito da política monetária e dos instrumentos de regulação e fiscalização do sistema financeiro. Em fevereiro do ano passado, o governo estimulou e apoiou a aprovação pelo Congresso Nacional da Lei Complementar nº 179, que trata da independência do Banco Central (BC). Tratava-se de um pleito antigo das elites do financismo tupiniquim, que pretendiam colocar na letra da lei toda a estratégia de apropriação desse importante órgão regulador público para a defesa de seus interesses privados. Para esse pessoal, não bastava a leitura histórica de que os banqueiros sempre estiveram muito representados na direção do BC. Eles querem o pacote completo, com controle assegurado para sempre.

O texto retira do Presidente da República o poder de nomear os responsáveis do Banco, um direito legítimo e apoiado pelo mandato a ele conferido pela maioria da população no pleito. Assim, a partir da vigência da nova lei, os nove diretores recebem um mandato fixo, com a duração de quatro anos. A medida se apoia em um discurso falacioso de que a instituição não deveria estar submetida a pressões de natureza política, com a intenção de preservar a sua suposta neutralidade técnica. Ora, a economia política não é uma ciência exata. Muito pelo contrário, trata-se de um campo do conhecimento que se aproxima bastante das ciências humanas.

Não existe apenas uma única solução ou apenas um diagnóstico para analisar o fenômeno econômico. Os modelos econométricos obtusos, aos quais os conservadores recorrem para justificar suas opções no campo da ortodoxia, não são os únicos a oferecerem as alternativas de política econômica a cada conjuntura. Os diretores do BC, portanto, estão permanentemente sujeitos a pressões em suas tomadas de decisão. A questão é saber se tais pressões são as do poderoso lobby das finanças ou a legítima vontade política do Chefe do Executivo e da maioria da sociedade.

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Pois a realidade concreta é que a partir do primeiro dia de janeiro de 2023, o novo governante vai encontrar uma diretoria do BC composta e nomeada pela dupla Bolsonaro & Guedes. Caso Lula venha ser confirmado pela vontade da maioria do eleitorado, tal como apontam as pesquisas de opinião, ele não poderá fazer nada a esse respeito. Terá de esperar até março para indicar ao Senado Federal dois nomes, mas convivendo ainda com os demais sete já fazendo parte do colegiado. Em 2024 poderá indicar outros dois nomes. E só terá maioria dos indicados a partir de janeiro de 2024.

Copom capturado: Selic nas alturas.

É importante lembrar que os diretores do Banco cumprem uma missão fundamental como responsáveis pelas funções de regulação e fiscalização do sistema financeiro. No entanto, há décadas que nunca se preocuparam, de fato, em defender os interesses daqueles setores que são os mais prejudicados na relação com os bancos e instituições similares. Ao invés de impedirem práticas abusivas de juros altos, de tarifas exorbitantes e de spreads elevados, os dirigentes do BC fazem cara de paisagem e seguem a vida, contribuindo para “naturalizar” essas distorções escandalosas no relacionamento entre os bancos e seus clientes.

Porém, além disso, a institucionalidade da área financeira prevê a atribuição da responsabilidade pela política monetária ao Comitê de Política Monetária (COPOM). Cabe a esse colegiado a definição do patamar da taxa referencial de juros do governo, a SELIC. Ocorre que o Comitê é composto exatamente pelos mesmos integrantes da diretoria do BC. Assim, o próximo Presidente da República vai ser obrigado a começar o seu governo dependendo das vontades e dos desejos de Paulo Guedes no que se refere às diretrizes de política monetária. Uma loucura!

O calendário oficial prevê ainda mais quatro encontros do COPOM ao longo de 2022, sendo a última reunião em 6 e 7 de dezembro. Como a periodicidade estabelece um intervalo de 45 dias entre cada encontro, o primeiro do novo governo deverá ser realizado na última semana de janeiro. Imaginemos o quadro de uma nova equipe na área econômica e o chefe do governo anunciando um plano de retomada do crescimento das atividades de forma geral, com estímulos de vários tipos à geração de emprego e ao aumento da oferta de bens e serviços. Dentro desse contexto, parece óbvio que a taxa referencial de juros se reveste de importância fundamental para a viabilização de tal estratégia. Trata-se de uma sinalização essencial para os agentes econômicos de que o País estaria entrando em uma nova fase, onde a busca do desenvolvimento se sobrepõe ao cumprimento irresponsável dos ajustes austericidas do passado.

Mas como fazer esse movimento se à frente da política monetária ainda permanecerem as mesmas pessoas que são as responsáveis pelo atual estado de calamidade que atravessa o Brasil? Vale recordar que essa mesma composição do BC e do COPOM deliberou por aumentar a SELIC de 2% em março de 2021 para os atuais 13,25%. Ou seja, um aumento de quase 600% na principal referência do custo financeiro em um intervalo de apenas 15 meses.

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Esse deverá ser apenas um desafio a mais, dentre os inúmeros reptos colocados para um provável terceiro mandato de Lula. A questão é crucial, pois ou bem ele convence a maioria da atual direção do BC a pedir demissão ou então precisa convencê-los a se alinhar a uma abordagem mais heterodoxa no estabelecimento da política monetária a partir de 2023. A realidade é que os agentes do financismo não devem entregar os pontos assim tão facilmente. Deverão prosseguir com seu comportamento anti-povo e anti- nacional, sem nenhuma preocupação com o futuro de um país desenvolvido e com menos desigualdades sociais e econômicas.

Para tanto, é bem capaz que transformarão essa disputa pela orientação da política monetária em um cavalo de batalha, utilizando de sua nefasta influência junto aos atuais integrantes do COPOM para promover chantagens contra o futuro governo desde o seu início. Afinal, Lula terá dificuldades para promover a superação do atual quadro de austeridade recessiva e para implementar um programa desenvolvimentista caso a taxa Selic permaneça em patamares que dificultem tais caminhos.

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