01 dezembro 2022

Usura

A vida "financeirizada" em todas as dimensões - é o que nos oferece o capitalismo decadente dos nossos dias. Mais vale a usura do que a produção. E a qualidade de vida cai mesmo entre os bem remunerados.

Amplitude na transição: correta, mas arriscosa https://bit.ly/3EkFrJ7

Copa do Mundo: destaques

Seleção brasileira é melhor no sistema defensivo até agora

Thiago Silva, Marquinhos e Casemiro, além de Vinicius Junior, foram os destaques nos dois jogos
Tostão, Folha de S. Paulo

 

atuação do Brasil contra a Suíça, até sair o gol da vitória, foi muito parecida com a contra a Sérvia, até sair o primeiro gol. Nas duas partidas, o Brasil, na maior parte do tempo, foi muito previsível, certinho, sem troca de posições, o que facilitava a marcação, a não ser quando a bola caía nos pés de Vinicius Junior. Parecia o desenho na prancheta. Isso, até o volante Casemiro bagunçar o coreto, improvisar, avançar como um meia e fazer o gol.

Assim também aconteceu contra a Sérvia, com o surpreendente e belíssimo gol de voleio de Richarlison.

O Brasil, nas duas partidas, como aconteceu nos últimos quatro anos, foi melhor no sistema defensivo do que no ofensivo. Thiago Silva, Marquinhos e Casemiro, além de Vinicius Junior, foram os destaques durante todo o tempo nos dois jogos.

O Brasil tem problemas e dificuldades, como todas as outras seleções favoritas ao título, mas dá para ser campeão, mesmo sem encantar. É uma equipe segura e consistente. Com a volta de Neymar, a equipe poderá evoluir, vencer e fascinar.

Leia mais: Tite não deveria prender mais o time; tem que deixar a garotada jogar à vontade https://bit.ly/3OI8aLi

Holanda x Estados Unidos e Inglaterra x Senegal farão duas das oitavas de final. A Holanda parece melhor do que é, e os Estados Unidos são melhores do que parecem, mesmo sem grandes jogadores. A Inglaterra tem organização tática e bons jogadores. Contra o País de Gales, o técnico, enfim, escalou os melhores (Rashford e Foden). Kane ainda não marcou na Copa, mas dá show de lucidez, criatividade e ótimos passes para gols. Os ingleses, favoritos, terão dificuldades contra Senegal, a melhor seleção africana.

Na coluna anterior, exagerei, com ironia, ao falar que Giroud, centroavante da França, é nulo quando não faz gol, porque não pega na bola. Não quis desprezar os centroavantes apenas goleadores. Eles são importantes, embora, às vezes, é melhor não ter um centroavante fixo e ter mais jogadores que façam gols. O ideal é possuir centroavantes que marcam e que criam jogadas para os companheiros. São poucos os craques, como Benzema e Kane.

Portugal tem alternado ótimos e maus momentos. Há excelentes jogadores do meio para frente. O técnico Fernando Santos prefere escalar João Félix, que quase sempre joga mal na seleção e no Atlético de Madrid, e deixar de fora Rafael Leão, que quase sempre atua muito bem no Milan e na seleção, quando entra. O treinador português me passa também a imagem, durante o jogo –posso estar enganado– de melancolia e pessimismo.

As atuações na Copa são importantíssimas, mas não podemos criar conceitos definitivos, muito menos por apenas um jogo, da qualidade dos jogadores, mesmo sendo um Mundial. Os apressados e inconsequentes estão preocupados em criar heróis e vilões.

Messi não deixará de ser um dos três maiores da história se a Argentina não se classificar nesta quarta-feira (30) contra a Polônia. Se ganhar, a Argentina pode se agigantar na competição, como já aconteceu com outras seleções que começaram mal.

O tempo passa, e alguns países que, décadas atrás, fizeram grandes planos de se tornar potências mundiais no futebol, como Estados Unidos e Japão, não conseguem, mesmo melhorando, se aproximar das fortes seleções. Isso apesar dos altíssimos investimentos na estrutura e na formação de atletas. Não há uma fórmula, um modelo que garanta a produção de bons jogadores em série, como se fosse uma fábrica de parafusos, o que me lembra do inesquecível filme "Tempos Modernos", de Charles Chaplin.

O craque não se faz na escola.

Leia também: Em um piscar de olhos, em uma bola perdida, muda-se o resultado de uma Copa do Mundo https://bit.ly/3VeSRfB

Palavra de poeta: Wislawa Szymborska

PERSPECTIVA

Wislawa Szymborska


Cruzaram-se como estranhos,
sem um gesto, uma palavra,
ela indo em direção à loja,
ele para o carro.


Talvez por pânico
ou por distração,
ou por deslembrança
de que por um breve tempo
amaram-se para sempre.


Não há garantia, aliás,
de que fossem eles.
Talvez de longe sim,
mas de perto de jeito nenhum.


Eu os avistei da janela,
e quem olha do alto
é quem mais facilmente se engana.


Ela sumiu atrás de uma porta de vidro
ele sentou-se ao volante
e partiu depressa.
Portanto, nada aconteceu
mesmo que tenha acontecido.


E eu, só por um instante
certa do que vi,
procuro agora num poeminha casual
persuadi-los, caros leitores,
de que isso foi triste.


Veja: A poesia libertária de Cida Pedrosa — de Bodocó e Recife para o mundo https://bit.ly/3mnZlcd

Peixe fora d'água

Visível o constrangimento do ministro da Saúde Queiroga na solenidade de lançamento do Pacto Nacional pela Consciência Vacinal, ontem, em Brasília. Peixe fora d'água.

O golpe da crise permanente do mercado https://bit.ly/3V7IsCy

Lula hábil

Lula demonstra arguta percepção da real com relação de forças no Senado e na Câmara dos Deputados e age de modo eficaz e consequente.

Na transição ao novo governo Lula nada é fácil https://bit.ly/3V3Skx5

Enio Lins opina

CONTROLE JÁ DAS ARMAS E DAS MUNIÇÕES

Enio Lins, tribunahoje.com

 

Uma das tragédias nacionais legadas como herança do desgoverno Jair B está na nova cultura das armas. “Nova” porque até então essa era uma questão que seguia sua própria história no Brasil, com a legislação e conceituação evoluindo tendo como base o cuidado para a não-proliferação da vertente armamentista.

Com o bolsonazismo no poder
, a partir de 2019, veio à tona o incentivo governamental, por pronunciamentos e alterações legais, numa idolatria às armas. Toscamente, o discurso de Jair B e asseclas tenta copiar o dito na Segunda Emenda da Constituição dos Estados Unidos, desconsiderando todas as diferenças históricas entre as duas Nações e o ignorando histórico de tragédias americanas contemporâneas causadas por essa permissividade.

No final do século XVIII
, os Estados Unidos se formavam como Nação, em guerra pela preservação da independência e em processo de expansão territorial, sendo os cidadãos armados fundamentais para a segurança das comunidades na falta de forças policiais estruturadas. O longo e belicoso processo de avanço para o Oeste e de ocupação de territórios mexicanos, com participação civil armada, consolidaram a Segunda Emenda feita em 15 de dezembro de 1791, considerando direito individual a posse e porte de arma.

Nos Estados Unidos
, as armas individuais eram, nos primórdios, consagradas para a defesa do Estado, mas, na modernidade, desaparecida a necessidade da população civil armada que existiu até o começo do Século XX, esse direito constitucional degenerou para atender aos objetivos de uma poderosa indústria armamentista e virou milionário nicho de mercado, perdendo sua função precípua de defesa da pessoa e da comunidade. E daí viraram instrumentos de recorrentes assassinatos em massa, entre outras tragédias.

É nesse ponto, o da degenerescência
, que o Brasil bolsonazista quer pegar o bonde. O mentecapto da faixa verde-amarela declarou, e repetiu, que um dos “principais feitos de seu governo” era a multiplicação dos clubes de tiro e a liberação (descontrole total) das armas em nosso País. O resultado pode ser visto em acontecimentos como o ocorrido na cidade capixaba de Veracruz, onde um jovem – de 16 anos – fantasiado como militar nazista invadiu duas escolas, matou quatro pessoas e feriu outras 12. O pai do assassino, um policial, havia presenteado o filho com o livro “Minha Luta”, de Hitler. Precisa dizer mais alguma coisa?

O Brasil não tem o passado dos Estados Unidos
, nem precisa copiar o presente de desastre mortal em que se transformou a Segunda Emenda lá.

Leia também: Na transição ao novo governo Lula nada é fácil https://bit.ly/3V3Skx5 

Amazônia agredida

AU
MENTO DO DESMATAMENTO NO AMAZONAS ALARMA AMBIENTALISTAS
Derrubada da Amazônia durante o governo Bolsonaro cresceu 59% em relação aos quatro anos anteriores
Bernardo Esteves, revista Piauí 


Uma alta de 13% no estado do Amazonas é o destaque negativo da taxa de desmatamento na Amazônia de 2022, que ficou em 11 568 km2, conforme anunciou hoje (30/11) o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O número deste ano representa uma queda de 11% em relação à taxa de 2021, quando o desmatamento passou de 13 mil km2 – foi o maior índice desde 2006. Durante o governo Bolsonaro, a taxa ficou quatro anos seguidos acima dos 10 mil km2, depois de uma década em que esteve contida na casa dos quatro dígitos. A taxa de desmatamento na Amazônia é calculada pelo Inpe a partir de imagens de satélite e se refere ao período de agosto de 2021 a julho de 2022.

Nos anos Bolsonaro, a taxa média de desmatamento na Amazônia foi de 11,4 mil km2 – um aumento de 59% em relação à média dos quatro anos anteriores, que foi de 7,1 mil km2. A explosão do desmatamento nesse período é um reflexo da política ambiental do governo federal, marcada pelo afrouxamento da fiscalização, pela diminuição expressiva das multas ambientais e pelo estímulo ao crime ambiental no discurso do presidente.

O Inpe já tinha entregue o número desde antes da COP27, a 27ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que aconteceu de 6 a 18 de novembro no balneário de Sharm el-Sheikh, no Egito. No entanto, a exemplo do que fizera no ano passado, o governo brasileiro escolheu não divulgar a taxa de desmatamento antes da conferência, possivelmente para evitar o desgaste com a má notícia. Questionado pela piauí durante a COP27 sobre por que o governo ainda não tinha anunciado o dado, o chefe da delegação brasileira em Sharm el-Sheikh – o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite – não quis responder.

Nos dados apresentados pelo Inpe, chamou a atenção a participação expressiva do Amazonas na derrubada da floresta, uma tendência que se observa desde o ano passado. Com 2,6 mil km2 de devastação, o estado respondeu por 22,5% de toda a área desmatada. Historicamente o Amazonas costumava ter participação discreta no desmatamento da região, por abrigar florestas mais protegidas – os estados de Pará, Mato Grosso e Rondônia são os que apresentam a maior área desmatada acumulada desde que o Inpe começou seu monitoramento, em 1988.

“É muito grave e assustador ver que o desmatamento chegou ao coração da floresta densa, numa área muito mais densa de estoque de carbono”, disse Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa, organização dedicada a questões de política climática. 

Eletricidade com energia limpa precisa dobrar até 2030 para limitar aquecimento global https://bit.ly/3F0qOeF

O aumento do desmatamento no estado reflete o avanço do agronegócio na fronteira entre Amazonas, Acre e Rondônia, uma região conhecida como Amacro. Mas o número espelha também a explosão da violência na região – em 2021, o Amazonas registrou 1,7 mil mortes violentas e foi o estado brasileiro onde esse tipo de crime mais cresceu (49%). O estado é ainda aquele com o maior número de indígenas assassinados desde 2019. O Vale do Javari, no Oeste do Amazonas, foi a região onde foram executados em junho o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips, um crime que chocou o Brasil e o mundo. 

Embora responda por 36% de toda a área desmatada registrada pelo Inpe, o estado do Pará teve uma queda de 21% no desmatamento em relação ao ano passado. O Mato Grosso, onde fica 16% da área derrubada, também registrou uma queda no desmatamento, de 14%. Nos dois casos, a redução é um reflexo da ação dos governos estaduais, de acordo com o engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador do Mapbiomas, plataforma de monitoramento do desmatamento que une ONGs, empresas e universidades. “São dois estados que começaram a agir de forma mais contundente em relação ao desmatamento com as forças próprias”, afirmou.

Azevedo chamou atenção para outro fator que ajuda a explicar os diferentes padrões regionais de desmatamento registrados pelo Inpe. “No período em questão, houve mais chuva no Pará e no Mato Grosso, onde o desmatamento caiu, e menos chuva no Sul do Amazonas, onde ele mais aumentou”, afirmou. O engenheiro florestal notou também que, no período de agosto a novembro deste ano – que não entrou no cálculo da taxa divulgada esta semana –, um outro sistema de monitoramento por satélite realizado pelo Inpe apontou um recorde histórico do desmatamento na Amazônia, que possivelmente será computado na taxa a ser divulgada em 2023. “É de se esperar que ainda venha bastante desmatamento por aí”, disse Azevedo.

No discurso que fez na COP27, o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, se comprometeu a não medir esforços para zerar o desmatamento não só na Amazônia, mas nos demais biomas do Brasil. No primeiro governo Lula, foi lançado um plano de ação que levou a uma redução de 83% no desmatamento da Amazônia, entre 2004 e 2012, já no primeiro mandato de Dilma Rousseff. 

Marina Silva, que era a ministra do Meio Ambiente quando o plano foi elaborado, está cotada para reassumir o cargo no terceiro mandato de Lula – há a expectativa de que o presidente eleito anuncie esta semana o nome do futuro titular da pasta. Ela aparece também na lista de possíveis indicados para a Autoridade Nacional Climática, uma secretaria com status ministerial que se reportaria diretamente à Presidência e lidaria de forma transversal com as políticas ligadas à mudança do clima nas várias pastas da Esplanada.

A criação do cargo estava entre as propostas que Marina Silva levou a Lula quando selou seu apoio ao petista às vésperas do primeiro turno. Na sua concepção, seria um posto de caráter técnico para acompanhar as ações de diferentes ministérios para o cumprimento dos compromissos do Brasil no âmbito do Acordo de Paris, à imagem dos órgãos técnicos na área econômica que monitoram o cumprimento das metas de inflação, por exemplo. 

Numa entrevista que deu à piauí em Sharm el-Sheikh, Marina Silva desconversou quando indagada sobre se teria o perfil mais talhado para ocupar o ministério ou a nova secretaria. Mas deu uma pista sobre suas intenções quando questionada se não faria falta na Câmara dos Deputados caso abrisse mão do cargo para o qual foi eleita pela Rede-SP para ocupar um cargo na Esplanada. 

“O que fizemos no Ministério é a milésima potência do que consegui fazer ao longo de dezesseis anos como senadora”, afirmou. Em seguida, a ex-ministra enumerou as principais realizações de sua gestão: “Fomos responsáveis de 2003 a 2008 por 80% das áreas protegidas criadas no mundo; evitamos lançar na atmosfera 5 bilhões de toneladas de CO2; inibimos 35 mil propriedades ilegais; aplicamos 4 bilhões em multa; conseguimos apreender 1 milhão de metros cúbicos de madeira; fizemos 25 grandes operações da Polícia Federal; colocamos na cadeia 725 criminosos” , entre outras realizações. O recado está dado: em sua própria avaliação, sua atuação foi mais eficaz no ministério que no Legislativo.

Leia também: Mudanças climáticas: - verdades ou falácias? https://bit.ly/3Cghod7