29 janeiro 2024

Lula nas pesquisas

Por que a popularidade de Lula não cresce?

Há mais brasileiros crentes do que descrentes em que o emprego, a renda, saúde e a educação vão melhorar. Quando o assunto é segurança, porém, os brasileiros se dividem
André Cintra/Vermelho


 

A aprovação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se mantém estável há quatro meses, mas os brasileiros têm cada vez mais expectativas positivas com o governo. É o que aponta a nova rodada da pesquisa do Instituto MDA, encomendada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) e divulgada nesta terça-feira (23).

Em números arredondados, 55% dos eleitores aprovam o desempenho pessoal de Lula como presidente – percentual similar ao do levantamento anterior, feito entre 27 de setembro e 1º de outubro de 2023. A rejeição oscilou dentro da margem de erro, indo de 39% para 40%

Com relação ao conjunto do governo, a avaliação positiva passou de 41% para 43%, enquanto a negativa foi de 27% para 28%. Para outros 28%, a gestão é regular. A pesquisa CNT/MDA ouviu presencialmente 2.002 pessoas, em todas as regiões do País, de 18 a 21 de janeiro. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais.

Na base de apoio ao governo, há razoável consenso de que o primeiro ano deste terceiro mandato de Lula foi de entregas. A percepção de que o Brasil, em geral, está melhor após a saída de Jair Bolsonaro (PL) do poder também tem respaldo na opinião pública. Por que, então, a popularidade do governo e do próprio Lula se mantém praticamente inalterada e não cresce?

Por regra, mandatários com apenas um ano de governo só tendem a exibir aprovação elevada se tiverem vencido a eleição e chegado ao cargo com grande adesão popular. Com “gordura para queimar”, esses governantes podem se dar ao luxo de arriscar a tomar medidas mais polêmicas, que eventualmente desagradem segmentos do eleitorado, mas se tornam marcas de gestão.

Lula não tem essa gordura. Eleito em 2022 com exíguos 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Bolsonaro, o petista ainda enfrenta dificuldades para ampliar sua base num Congresso majoritariamente conservador e repleto de bolsonaristas. As pautas econômicas têm prevalecido, mas cada uma delas demanda muita articulação – e concessões – para ser aprovada. O tempo do Executivo tem sido o tempo do Legislativo.

Mas a pesquisa CNT/MDA também mostra trunfos e gargalos do governo. Recortes da sondagem revelam nichos em que Lula ainda enfrenta resistência. A rejeição ao governo é maior que a aprovação em poucos – mas significativos – segmentos: entre quem ganha mais de cinco salários mínimos, tem nível superior, mora no Sul ou é evangélico.  

“Lula encerra seu primeiro ano de governo com avaliação positiva e mantendo índices favoráveis de avaliação de sua gestão, em especial na economia, saúde, educação e benefícios aos mais pobres”, diz Vander Costa, presidente da CNT. “O crescimento da geração de emprego e a queda da inflação projetam um cenário mais positivo para 2024. Para avançar na popularidade, contudo, o governo precisará se conectar mais com evangélicos e com o público de maior renda e escolaridade.”

Um dado curioso foi captado numa das perguntas destinadas aos 40% que desaprovam Lula. O instituto questionou se eles poderiam eventualmente apoiar o governo caso o presidente consiga “reduzir a inflação, melhorar a economia, reduzir o desemprego e melhorar a qualidade de vida do brasileiro”. Nada menos que 63,3% disseram que sim.

A contradição é que, já no primeiro ano de governo, a inflação caiu, os indicadores econômicos melhoraram e o desemprego diminuiu. Por que, mesmo assim, esses brasileiros continuaram hostis à gestão Lula? Ou a comunicação oficial é falha demais, ou essas conquistas ainda não representam uma melhoria efetiva nas condições de vida da família.

Tanto que, segundo a pesquisa, dois terços dos brasileiros (66%) dizem não ter notado “alguma ação direta do governo Lula” onde moram, “seja investimentos em rodovias, educação, saúde, segurança, infraestrutura, melhora na economia local, dentre outras ações”. Se é necessário “ver para crer”, o governo, de fato, precisa se comunicar melhor e prestar contas do que tem feito.

Ainda assim, há mais brasileiros crentes do que descrentes em que o emprego, a renda, saúde e a educação vão melhorar. Quando o assunto é segurança, porém, os brasileiros se dividem: 31% acham que a área vai melhorar, 29% que vai piorar e 39% que vai ficar igual.

“Após o primeiro ano do governo Lula, as expectativas para os próximos meses se mantêm positivas, em especial nos temas que são prioritários para a população, como economia, saúde e educação. É preciso atenção com ações que envolvem a segurança pública, já que é onde apresenta as piores avaliações”, afirma Marcelo Souza, diretor do Instituto MDA.

O governo já sabe onde o humor dos brasileiros está mais sensível. Avançar nessas áreas, conseguir resultados e divulgá-los melhor é o desafio. Há tempo de alcançar mais apoio antes das eleições municipais de 2024, desde que a comunicação do governo Lula saia da zona de conforto. A esperar.

A realidade é furta-cor https://bit.ly/3Ye45TD

Cláudio Carraly opina

O novo – o final do ciclo e seu eterno recomeço 
Cláudio Carraly*

Ao se desenrolar diante de nós, o começo de um novo ano emerge como uma tela em branco, uma página em branco na absurda existência humana, somos lançados ao mundo sem escolha, condenados à liberdade, e é na medida dessa liberdade que confrontamos a responsabilidade de esculpir nosso próprio destino, a temporalidade, como o rio do poeta Khalil Gibran, escorre diante de nossos olhos, e somos compelidos a questionar o sentido, a razão de ser em meio a um universo aparentemente indiferente. 

Em um mundo sem essência pré-definida, uma grandeza que não encontra significado senão na autenticidade de nossos desejos mais profundos, o universo mira em nossa direção e talvez esse observador, mesmo diante do aparente impossível, faça com que cada desejo, cada anseio, se realize, esses nossos desejos, pedidos, gritos, pode quem sabe ser recebido com algum significado em um cosmos aparentemente desprovido de qualquer propósito e vontade. 

Ao ingressarmos em um ciclo, somos confrontados com o absurdo da transformação, onde ecoa na mudança constante nos instiga a enfrentar o "como" quando temos um "porquê" profundo, em um mundo onde existência precede a essência, cada proposição e desejo são como atos de rebelião contra o absurdo, uma tentativa de conferir significado ao significado insubstancial, ao fecharmos este capítulo não encontramos respostas definitivas, mas sim a percepção de que a vida é uma busca constante em meio à incerteza, uma dança no delicioso palco do absurdo. 

Diante da possibilidade do novo, somos confrontados com a liberdade de moldar nossas próprias narrativas, cada página é um ato de escolha em meio à contingência, uma expressão individual na vastidão do universo, não encontramos resoluções finais na máxima cínica de que existência é dor, em meio às angústias da vida, encontramos a liberdade de sermos autênticos, únicos e singulares, quando, na verdade, sabermos não ser nada especiais, apenas seres minúsculos, de um pequeno planeta no canto extremo do braço espiral da nossa galáxia. 

Ao se desenrolar diante de nós, mais um começo de ano, emerge novamente diante de nós essa página a ser desenhada, na absurda existência humana, somos lançados ao mundo que nos faz crer que temos escolhas, condenados a essa liberdade, a de escolher sempre, e nessa medida confrontamos a responsabilidade de esculpir nosso próprio destino, e assim nossos desejos ecoam no cosmos, como estrelas solitárias em um céu aparentemente indiferente, uma grandeza que não encontra significado senão na autenticidade de nossos sonhos, desejos e amores. 

Diante do novo, com a renovada liberdade de moldar nossas próprias narrativas, cada página é um ato de escolha em meio à contingência, uma expressão individual na vastidão do absurdo, e ao final, quando encerrarmos este capítulo, não haverá resoluções, mas sim a compreensão de que a existência vida é, em si, um ato de criação constante, e aí tudo recomeça mais uma vez, pois, somos os artífices de nossos próprios destinos, construindo nossa realidade a cada passo. Sim, não somos únicos, mas que possamos ser ao menos autênticos, mas, às favas com o racionalismo, em meio ao caos que chamamos vida, é uma verdadeira dádiva sempre podermos recomeçar, e se isso não bastar, a chegada do carnaval haverá de resolver.

[Ilustração: Salvador Dali]

*Advogado, ex-secretário executivo de Diureitos Humanos de Pernambuco
Melhor talvez do que nunca ttps://bit.ly/3Ye45TD

Arte é vida

Paulo Klee

As cores do tempo https://bit.ly/3Ye45TD 

 

Qual política industrial?

Política industrial: heresia ou solução?
A busca mitológica do Estado mínimo levou os governos de todo o globo a praticarem o liberalismo em seu estado mais puro e natural
Paulo Kliass/Vermelho


 

Durante o apogeu da hegemonia do paradigma neoliberal em todo o mundo, determinados conceitos da macroeconomia e boa parte das orientações de política econômica até então praticadas passaram a ser consideradas como pura heresia. Desde que os preceitos do chamado Consenso de Washington foram transformados em definições de estratégias de governo, o fato é que a ideia de retirada do Estado de qualquer espaço da ideia de economia virou regra.

A conversão ao novo credo da ortodoxia monetarista envolveu professores e pesquisadores nas principais universidades, formuladores e funcionários das organizações multilaterais (a exemplo do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e similares) e formadores de opinião nos grandes meios de comunicação por todos os continentes. A nova profissão de fé atingiu também a tecnocracia governamental de maior parte dos países, de modo que a política econômica por eles praticada estivesse em consonância com as convenções da nova fé.

A busca mitológica do Estado mínimo levou os governos de todos os cantos do globo a praticarem o liberalismo em seu estado mais puro e natural, promovendo a venda das empresas estatais ao capital privado e dando tratos à bola para conceber de maneira criativa as mais variadas formas de privatização da atividade econômica.

Tudo aquilo que cheirasse a setor público ou se aproximasse de algum tipo de arranjo governamental na esfera da economia deveria ser evitado. Expressões como planejamento de governo, política salarial, subsídios, incentivos tributários ou creditícios, política cambial e inúmeras outras passariam a compor algo semelhante a um index terminus proihibitorum, em uma alusão ao conjunto de livros que a Igreja havia proibido nos tempos da Inquisição. Toda e qualquer tentativa de pensar fora da caixinha do diktat do financismo neoliberal era imediatamente classificada como heresia e deveria ser descartada do cardápio de possíveis alternativas a serem aplicadas.

Neoliberalismo e a proibição da política industrial.

Dentre as expressões que foram banidas do discurso e da prática dos governos esteve por longo tempo a importante formulação “política industrial”. Para os neoliberais autênticos ou convertidos ao longo do processo inquisitório, essas duas palavrinhas juntas representavam um perigo. Mesmo separadas elas poderiam representar algum tipo de ameaça de retrocesso aos tempos em que a dinâmica da economia era inseparável da “política”. Aos olhos do liberalismo extremado, essa vinculação era perversa e deveria ser evitada a todo custo, uma vez que a economia era uma ciência exata e onde todos os processos deveriam ser passíveis de cálculo e previsão.

No que se refere ao segundo termo da expressão, o incômodo dos divulgadores da nova religião também era evidente. Afinal, o mais adequado seria que os países se acomodassem com a realidade da nova ordem mundial em construção. Assim, segundo o desenho do neocolonialismo em ação, a forma mais eficiente da divisão internacional do trabalho, da produção e das trocas pressupunha a incorporação de realidade inescapável onde as tarefas de exportação de bens primários e agrícolas caberia aos chamados países em desenvolvimento. Assim, nada de sonhar com tempos passados da busca do desenvolvimento da “indústria”, o único setor capaz de produzir bens de elevado valor agregado.

A combinação dos dois termos foi uma das bases para as estratégias de desenvolvimento, opções típicas do período que se seguiu ao pós Segunda Guerra. Os países organizavam planos de desenvolvimento econômico e social. Os governos aperfeiçoavam seus instrumentos de planejamento de médio e longo prazos. A consolidação de cadeias de produção econômica e de infraestrutura compunha a existência e o surgimento de importantes empresas estatais em diversos setores da economia. Assim, é compreensível que a “política industrial” tenha sido fundamental para os anos de crescimento que foram observados na maior parte dos países do globo, incluindo o Brasil.

O sonho do financismo: Estado mínimo.

No entanto, a entrada na década de 1980 pôs uma pá de cal nesse modelo. Política industrial passou a ser uma expressão herética, em especial pelo fato de que ela exigia a presença ativa de financiamento e de linhas de crédito oferecidas pelos grandes bancos públicos. Esse tipo de aporte, por suas próprias características de setores estratégicos e inovadores, implicava a presença de subsídios públicos nos modelos de empréstimo e capitalização. Além disso, os arranjos adotados envolviam a preferência por grupos nacionais, de forma a internalizar os efeitos positivos da multiplicação do crescimento das atividades de forma geral. Enfim, tratava-se de um caldo que não rezava apenas pela obediência burra e cega às “livres forças de mercado”. Assim, tais afrontas aos dogmas da nova profissão d e fé deveriam ser abolidas rapidamente.

O Brasil cumpriu à risca as novas recomendações e imposições do financismo internacional em vários aspectos. Privatizamos um conjunto importante de setores e grupos de empresas estatais desde 1990. Incorporamos as regras da austeridade fiscal em nossos marcos legais, em especial a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) em 2000. Fernando Henrique Cardoso falou em enterrar a herança de Getúlio Vargas no governo em geral e no BNDES em particular. Ocorre que a partir da crise econômico-financeira de 2008/9 e depois da crise mais recente da COVID, os paradigmas extremos do neoliberalismo do próprio centro do capitalismo foram flexibilizados. A presença do Estado na economia deixou de ser encarada como um problema tão grave como anteriormente. A austeridade passou a ser relativizada e a política industrial voltou ao centro da agenda.

Este é o panorama geral no qual deve ser compreendido o surgimento das diretrizes de neoindustrialização que o terceiro mandato de Lula tem apresentado ao País. Os primeiros passos foram dados logo no início de janeiro, com a recriação do Ministério da Indústria e Comércio (MDIC) e a consequente nomeação do Vice Presidente Geraldo Alckmin para o cargo. Com isso, foi restabelecido o Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI), contando com a participação de quase todos as demais pastas e entidades do mundo empresarial, dos trabalhadores e de pesquisa. Em julho de 2023 foi anunciado um plano de neoindustrialização, com a previsão de aporte de recursos da ordem de R$ 106 bilhões. No entanto, a maior part e das ações ainda não haviam sido encaminhadas até o final do primeiro ano do mandato.

Lula 3.0 e a neoindustrialização.

O segundo ato desse importante movimento foi dado no início desta semana. O governo realizou um evento de peso, com a presença de quase todos integrantes de primeiro escalão para anunciar o “Nova Indústria Brasil”, um Plano de Ação para a Neoindustrialização. Trata-se de um conjunto muito bem elaborado de diretrizes e linhas de ação voltados para recuperar o atraso que a nosso País enfrenta há muito tempo no setor. O processo dramático de desindustrialização precisa urgentemente ser revertido, para que se criem condições de se retomar os rumos de um modelo de desenvolvimento de médio e longo prazos. A nota destoante do evento, liderado pelo Presidente Lula, foi a ausência significativa de seu Ministro da Fazenda. O fato de Fernando Haddad não ter participado do lançamento lançou dúvidas e especulações a respeito dos motivos para tanto.

O Plano foi concebido com uma metodologia bastante avançada e se implanta sobre as bases de “missões”. Esse procedimento permite a articulação de um conjunto de atores e mecanismos em torno de temas considerados prioritários para o processo de reindustrialização. São elas:

  • Missão 1 – Cadeias agroindustriais sustentáveis e digitais para a segurança alimentar, nutricional e energética.
  • Missão 2 – Complexo econômico industrial da saúde resiliente para reduzir as vulnerabilidades do SUS e ampliar o acesso à saúde;
  • Missão 3 – Infraestrutura, saneamento, moradia e mobilidade sustentáveis para a integração produtiva e o bem-estar nas cidades;
  • Missão 4 – Transformação digital da indústria para ampliar a produtividade;
  • Missão 5 – Bioeconomia, descarbonização e transição e segurança energéticas para garantir os recursos para as gerações futuras.
  • Missão 6 – Tecnologias de interesse para a soberania e defesa nacionais

Além disso, o plano incorpora princípios que deverão nortear o conjunto de ações, programas e projetos do “Nova Indústria Brasil”. São eles:

  • I – inclusão socioeconômica;
  • II- equidade, em particular de gênero, cor e etnia;
  • III- promoção do trabalho decente e melhoria da renda;
  • IV- desenvolvimento produtivo e tecnológico e inovação;
  • V- incremento da produtividade e da competitividade;

O anúncio oficial menciona o total de R$ 300 bi em recursos para colocar o plano em movimento. No entanto, ali estão contabilizados os R$ 106 bi já destinados em julho e que ainda não foram dispendidos. Assim, trata-se de R$ 194 bi de recursos “novos” a serem gastos até 2026. A maior parte deste total deverá ser desembolsado pelo BNDES (80%) sob a forma de financiamentos e empréstimos, enquanto o restante será de responsabilidade de outros dois órgãos federias, a saber – FINEP e EMBRAPII.

Sucesso da “Nova Indústria Brasil”: fim da austeridade fiscal.

A maior dúvida que permanece dentre os analistas refere-se à capacidade de o governo federal conseguir realizar tais despesas de investimento. Afinal, o Novo Arcabouço Fiscal é um instrumento limitador dos gastos públicos, inibindo o crescimento das rubricas de dispêndios e de investimentos públicos. Além disso, o estabelecimento adicional da “meta zero” para o resultado fiscal primário de 2024 também deverá contribuir para dificultar ou mesmo impedir que os desembolsos previstos no “Nova Indústria Brasil” possam ser efetivados.

Mais uma vez, a possibilidade de este importante projeto sair do papel está nas mãos do Presidente Lula. Caso a meta fiscal seja mantida e as orientações conservadoras do Ministro Haddad em prol da austeridade não sejam corrigidas, muito dificilmente o ambicioso e necessário projeto de neoindustrialização sairá do papel. Não basta apenas apelar para o sentido de responsabilidade dos grupos empresariais. Enquanto não for recuperado o protagonismo do Estado no processo econômico, o capital permanecerá acomodado em seu canto, satisfeito com os ganhos proporcionados pelo parasitismo financista. E para isso, as amarras da austeridade fiscal devem ser superadas e deixadas de lado.

A vida em espiral https://bit.ly/3Ye45TD

Raul Córdula opina

Manifesto da Resistência em Resistencia

Raul Córdula*

 

A grande maioria de nós, brasileiros, vivemos olhando para o Oceano Atlântico em busca da Europa que não alcançamos com os olhos, de costas para o Brasil e de costas para a América do Sul, nosso território fundamental. Parece que deixamos do outro lado do Atlântico alguma coisa que não conseguimos recuperar. Nossa identidade? Nossa história? Nossas guerras? Nossa honra?

Por que não conseguimos nos integrar às nossas matas em vez de queimá-las? Porque não conseguimos nos aliar com os povos indígenas, em vez de excluí-los, escravizá-los, dizimá-los? Que vergonha!

De Norte a Sul, de Porto Alegre a Manaus, passando por cidades de importante presença cultural como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife, Belém, a maioria dos artistas brasileiros de agora vivem e pensam numa aventura irreal, distante do povo, sonhando com Nova Iorque, Londres, Berlim, olhando o oceano e o céu, criando uma arte distante das raízes étnicas da América Latina, que não leva em conta o Pantanal, a Amazônia, os Andes, o Lago Titicaca, os Pampas, o Chaco, o Rio Paraná, os povos Cariris, Ianomanis, Kadiwéus, Tupis, Guaranis, Tapuias, Tairarius, Incas, Nascas, Maias, Astecas e tantos outros povos e línguas que formam este triste, porém grandioso Continente. Sim, a América do Sul é triste, mas por que é triste?

Ao aceitar o convite para integrar o júri de premiação desta Bienal Internacional de Escultura que acontece na cidade de Resistencia, no Charco argentino, importante produção da Fundacion Urunday conduzida de forma exemplar pelo escultor Fabriciano Gomes, dissemos que iríamos falar sobre arte e pobreza porque conhecemos de perto a pobreza do povo brasileiro. Mas depois de ver esta cidade luminosa, ágil, expressiva, que mantem em praça pública mais de trezentas esculturas de artistas modernos, mais da metade delas obras premiadas nas Bienais anteriores a esta, nos lembramos de onde viemos e pensamos melhor e modificamos nossa fala: nosso povo parece pobre, especialmente o povo de nossa Região, o Nordeste brasileiro, mas somos pobres apenas de dinheiro, pois ainda somos dominados por uma classe colonialista e perversa. Mas como pode ser pobre um povo que vive num dos continentes mais ricos do mundo em recursos naturais e dono de culturas mestiças de altíssima expressão que apontam para o futuro das etnias do mundo, como os povos irmãos brasileiros e argentinos?

Então, o que queremos propor como tema desta fala é exatamente esta questão: como um povo tão rico pode parecer tão pobre? Como algumas nações podem ser tão cruéis com seus filhos? Como e por que pode existir pobreza na América Latina? Porque ainda sofremos da ideia esquizofrênica de que o poder nos impôs, no decorrer de toda nossa história, uma ideia de isolamento e divisão entre os nossos povos.

Pensando melhor, o que desejamos anunciar é a riqueza, e não a pobreza da América Latina.

Não será a arte de raízes profundas, ligada povos autóctones, que estamos querendo dizer que é forte, renovadora e libertária? Sim, é isto que queremos dizer, é isto que finalmente queremos que esteja claro neste discurso-manifesto. Deveríamos também mostrar imagens do que consideramos arte de gente pobre, quando propusemos ao escultor Fabriciano Gomes, curador da Bienal, falar ao público daqui. Mas pra que mostrar mais imagens de arte nesta festa para o olhar que é esta Bienal Del Chaco da cidade das mil esculturas?

Os críticos de arte brasileiros Frederico Moraes, Aracy Amaral, Frederico Moraes e Roberto Pontual e a colombiana Marta Traba, entre outros especialistas em arte latino-americana, para citar os mais destacados, encontram e pesquisam a raiz construtiva de nossa arte no que denominam “geometria sensível” a partir de nossa base cultural indígena. Ao vermos a arte Guarani compreendemos isto, ao entrarmos em Cuzco, nas ruínas de Macho Pichu, Tiahuanaco, Teotihuacán, Copam, Chichen Itza, Pedra do Ingá, por exemplo, percebemos o quanto foi civilizatoriamente culta e forte a construção das cidades a partir da compreensão do número harmônico, das proporções áureas, do norteamento das ruas e casas, das relações naturais das cidades, com a chuva, o vento e o sol e o solo fértil. Na pintura de Torres Garcia vemos traços dessa ordem cósmica andina, nos artistas geométricos latino-americanos encontramos os traços dessa “geometria sensível”, assim como não seria o também e escultura africana, em especial o entalhe das máscaras ritualísticas, uma das bases fundamentais do cubismo de Picasso, que influenciou definitivamente a estética moderna?

A pintura corporal dos índios da América do Sul, com ênfase nos brasileiros, é também, além de uma expressão performática, um monumental registro de expressão geométrica. Os Kadiwéus, Caiapós, Ianomanis, Carajás, Botocudos, Bororos, Krenakarores, Tchacurramães e Ricbactivas, entre tantos, são donos de expressões corporais que se manifestam através da pintura e da arte plumária, de um nível estético e simbólico que transcende a muitos dos sentidos da arte européia. 

Quando nos referimos à arte construtiva não estamos nos limitamos à questão formal, mas ao sentido lato da palavra construção. Não queremos dizer apenas geometria, mesmo que sensível, mas queremos falar de uma harmonia significativa, algo que ordena o olhar para a construção de coisas, objetos, cidades, propósitos, sociedades. Queremos nos opor ao caos. Pensamos que na história da arte tivemos sempre correntes construtivas e correntes caóticas, em constante oposição, dentro da evolução das sociedades, e verificamos que os artistas acompanham estas correntes porque estão sempre ligados aos acontecimentos dos seus tempos. Mas há tempos de guerra e tempos de paz...

Não seria, portanto, a arte dos negros, com sua ancestralidade profunda, mística a mágica, também testemunha de uma “geometria sensível”? De resto, não seria a geometria a marca real do design do Universo?

Portanto, para falar de arte construtiva não posso evocar apenas o suprematismo de Malevitch, a vanguarda russa, o neoplasticismo de Mondrian, o cubismo de Picasso ou o concretismo brasileiro de Sacilotto, Lígia Clarck, Oiticica, Ligia Pape e Da Costa.  É preciso evocar a arte dos índios americanos e dos povos africanos, nas mãos dos quais está também o substrato da construção de cidades e de sociedades, a sensibilidade dos xamãs de todos os cantos da Terra, donos de um saber geomântico particular e poderoso e de um domínio sem par do conhecimento do solo e dos quadrantes da terra.

É também preciso evocar ainda artistas contemporâneos que trabalham com a terra, a natureza, a condição humana em relação ao planeta que nos abriga. Evocar artistas como Richard Long, Beuys e Kraschberg, por exemplo, mas também artistas da paisagem real, da natureza vegetal urbana, como Burle Max e Pradial Gutierrez.

Sobre o paisagista argentino Pradial Gutierrez gostaria de dizer que sinto por ele uma grande admiração pela maneira como faz a integração da arte com a paisagem, pelos exemplares projetos que envolvem as esculturas aplicadas na cidade de Resistência, e pelo que ele me informou sobre o Parque das Esculturas Sonoras da Patagônia. Trata-se de um trabalho coletivo do qual o mestre Pradial é o organizador dos seus espaços, mas também o elaborador dos seus conceitos. Sei, e isto me deixa ainda mais admirado, da atuação que a da Fundação Urunday tem nestes trabalhos, e de seus integrantes, que conseguem proporcionar à população da cidade este fato novo na cultura americana que é esta Bienal Del Chaco.

Costumo dizer que “o Brasil é lá dentro”, como se diz na minha terra, “nas brenhas”, “nos breus”. O Brasil não está apenas nas cidades litorâneas olhando o mar nostalgicamente. Depois que comecei a conhecer outros países americanos passei a dizer que a “América Latina também é lá dentro”: no Pantanal, nos Andes, no Chaco, nos Pampas, na Floresta Amazônica, além das lindas praias da minha terra. Por isto não posso falar de pobreza, mas de riquezas ocultas, de tesouros que existem como cavernas cheias de ouro, encravadas nas montanhas, levando em conta que o coração é a caverna do corpo assim como a caverna é o coração da montanha.

Dou-me conta de que num passe de mágica poderemos ligar todos estes pontos: as raízes de nossa arte, as histórias de nossos povos, os lances criativos de nossos artistas, a aberturas das cavernas de nossos corações. Este passe de mágica está em nossa vontade de quebrar as fronteiras de nossos países, para depois quebrá-la entre nós mesmos.

O que precisamos é nos integrar, intercambiar nossas criações, criar circuitos entre nós fora dos circuitos exploradores do marketing artístico americano do Norte ou europeu. Não nos basta circuitos como Buenos Aires/Paris/Nova Iorque, São Paulo/Kassel ou Caracas/Londres. Queremos Paraíba/Chaco, Bahia/Corrientes, Campina Grande/Montevideo, Recife/Santiago do Chile. Precisamos nos conhecer, nos tocar, nos desculpar por nossa falta de atenção. Nem sempre o tronco principal do nosso sistema circulatório vai bem, para tanto se podem implantar, pontes de safena, para criar uma circulação colateral e salvar as nossas vidas.

Há algum tempo, visitando Assunção eu vi no Museo del Barro obras de artistas que representavam não apenas o Paraguai, mas toda a América Latina, como o argentino Berni, o peruano Zilizlo, o colombiano Abularach, o venezuelano Cruz Díez, além do brasileiro Lívio Abramo, entre tantos outros do México, da Venezuela, do Chile e do Panamá. Pensei que no Brasil, com todo seu território e seus museus importantes do Rio, São Paulo, Salvador, Recife, Curitiba e Porto Alegre, pouco se vê e se conhece destes e de outros importantes artistas da América de fala espanhola. Pouco sabemos da arte da América do Sul. As poucas obras de Torres Garcia, Matta, ou Soto que lá se encontram estão mais em coleções particulares do que em nossos museus, as obras de artistas contemporâneos como as do grupo argentino CAIC, nos chegaram através da Bienal de São Paulo, uma mostra que, embora importante na sua estratégia, é eventual, não proporcionando o enriquecimento do acervo nacional. (Devo registrar, porém, que num pequeno museu na cidade de Campina Grande, onde nasci, há obras de dois ilustres artistas argentinos: Berni e Segui.) Foi, portanto, exatamente no Paraguai, país que o Brasil fez mais pobre através de uma absurda guerra que atendeu aos desejos imperialistas ingleses, foi justamente ali que aprendi a melhor lição sobre unidade latino-americana, naquele pequeno e belo Museo Del Barro dirigido na época pelo escritor e crítico de arte Tício Escobar e pelo artista gravador Oswaldo Salerno.

Há quase trinta anos assisti no México a um congresso mundial de artesanato promovido pela uma ONG Conselho Mundial de Artesanato e patrocinado pelo governo mexicano e produzido pelo Fundo Nacional para o Desenvolvimento do Artesanato, dirigido pelo intelectual Thonatihu Gutierrez. Na abertura o presidente Luiz Echeverría disse mais ou menos o seguinte: “O México tem três mil quilômetros de fronteira com os Estados Unidos, seria ridículo pensar que nossas heróicas, mas pequenas, forças armadas teriam capacidade de defender todo nosso país. O que defende o México é nossa cultura autêntica, a cultura de nosso povo”.

Somos nós, e seremos sempre nós, os artistas, os grandes cronistas da humanidade. Somos os que registram com a cabeça e interpretamos com o coração. Somos os Anjos anunciadores de novos tempos, de coisas práticas, e novas ideias. Mas somos também os Anjos Exterminadores, aqueles que anunciam as guerras, as fomes, as pestes e as mortes.

Os muralistas mexicanos contam ao mundo como foi a revolução de lá, o também muralista brasileiro Cândido Portinari mostrou no seu duplo mural da ONU a guerra e a paz, o brasileiro Abraham Palatinick, o argentino Júlio Le Parc e o venezuelano Jesus Soto transcenderam à pintura e a escultura com a arte cinética, o argentino Julio Plaza modificou o olhar dos jovens artistas brasileiros na década de 70.

Artistas latino-americanos estão hoje aqui, nesta cidade encantada de Resistência, dádiva do Rio Paraná, do Paranazão como dizemos no Brasil, rio de unidade e de integração, e em tantas outras cidades da latino américa, modificando a história, acrescentando algo mais ao cotidiano dos homens e agindo como testemunhos de seu tempo.

*Artista plástico, curador e crítico de arte

O mudo gira. E muda  https://bit.ly/3Ye45TD

Palavra de poeta: Chico de Assis

ROMERITO!!!

Chico de Assis*

 
Se o tempo voltasse 
eu só pediria que me desse
a mesma alegria que me deu
há quarenta e quatro anos. 
 
Sob o sol escaldante 
do meio-dia 
na cidade do Recife 
algo de bom aconteceria. 
 
Uma mulher de branco 
e sorriso bem largo 
na antessala de um hospital
 
segurava pelos pés o menino
e alegremente dizia:
“Nasceu! É todo seu!!!”
 
...
 
Ele se chamaria Romero.  E ninguém poderia calcular o orgulho e alegria que viria dar a seu velho pai, consubstanciados agora numa esperança clara de um mundo melhor: o nascimento de Lara, fruto do amor que ao lado de Júlia — a mais querida de todas as noras — ele soube construir! 
 
Parabéns, filhão!  Que vc continue sendo esse filho carinhoso que tem sido até aqui, esse irmão solidário, esse amigo de todas as horas e esse cara competentíssimo que soube enfrentar com maestria os desafios da vida! 
 
Beijo enorme acompanha o afetuoso abraço de parabéns do seu 
PAI!!!

[Ilustração: Joan Miró]

*Advogado, poeta
A vida é uma interminável obra de arte https://bit.ly/3Ye45TD 

28 janeiro 2024

Minha opinião

Calmaria momentânea
Luciano Siqueira

Às voltas com agenda sempre intensa, eis que me vejo de folga nesta tarde de domingo.

E percebo que o relógio na parede da sala parece desacelerar e o tempo flui preguiçosamente. 

Cá na rua do Futuro, o sol derrama uma luz suave, pintando o céu de tons quentes e amenos.

As ruas ganham um silêncio inusual, quebrado apenas por risadas dispersas de ciclistas que se cruzam na ciclofaixa.

Ou pela busina de motorista ansioso.

Como uma página ainda não lida de livro de poetas russos, que retiro da estante: versos que surpreendem.

Encaro um drink de Campari e ouço Tom Jobim instrumental.

Em flashback, acontecimentos recentes e mais longínquos se cruzam e avivam a memoria como que em pronúncio dos próximos dias que virão: embora em tempo pré-carnavalesco, semana densa.

Bendita tarde de domingo!

Bendito tempo de sonhos, desafios, trabalho e luta!

Poema de Mario Quintana com ilustração de Helena Wierzbicki http://tinyurl.com/4dfu9ahc