Reverência ao Velho CamaradaAbraham B. Sicsu
Já não responde mais. No seu canto, quase imobilizado. Enxerga menos, os óculos lhe cansam, ouve com dificuldade, o zumbido do aparelho auditivo o incomoda.
Os estímulos externos pouco o atraem, não deseja conhecer mais nada, não quer mais se preocupar com o cotidiano, desafios lhe são infernais.
O velho, que foi ativo e com prestígio, se entrega ao torpor da cadeira de balanço, ao ver passar as horas sem muito fazer, sem muito querer.
Um processo complexo, o recolhimento e a introspecção, a se entregar até que ela chegue. Sabem do que falo.
Assim reage o ancião, outrora influente e ativo, hoje se deixando a um nada poder.
Aqueles que o conheceram não podem crer. Eles têm na cabeça a imagem do combativo, do falante companheiro.
O recolhimento o marca. Isolado, irritadiço. Não aceita companhias., nem mesmo dos livros que eram sua vida.
Televisão sempre ligada, sem som porque não precisa, não escuta mesmo, imagens passando, na sua cabeça, não fazem sentido apenas distraem os olhos. Mas, é sua companhia, os minutos e horas se indo.
A sonolência, quase constante, maneira de ainda estar na vida, se ela ainda existe para ele?
Ruídos pouco incomodam, a perguntas jamais responde, ao tato é indiferente. Difícil de ser ajudado. Tem que ser respeitado em sua vontade de solidão, é o que pede, é o único que deseja.
Quase não tem autonomia para se movimentar e nem mesmo para ingerir alimentos. Uma ajuda e um resmungo, raríssimos são os apoios que aceita, jamais deseja sair de sua cadeira reclinável, o único local em que consegue se reconhecer na existência, a única opção para estar confortável.
O emocional nem sempre expressado. O físico debilitado. Líquidos são necessários, em doses pequenas, somente por canudos. Parece não reagir. Entes queridos falam, tentam animar, imutável sempre permanece, nada responde.
O ciclo vai se fechando. Fim de vida se aproximando. Dignidade, o último querer.
Não quer loas, nem salamaleques. Hipocrisia só lhe machuca. Se ainda consciente, abreviar a solidão, o último desejo. Nada o anima, nada o instiga, nada o faz procurar algum novo caminho. O novo sempre é um perigo.
Viveu tudo o que pode. Infância no sítio e na bola de futebol. Juventude, namoros adolescentes. Teve vida universitária. Política o interessava. Movimentos reivindicadores o motivavam.
Acreditou num mundo melhor. Justiça social foi o seu lema. Participou de lutas e embates acalorados. Sempre nos outros pensando, os ideais, a razão de procurar caminhos.
Dirigente da melhor espécie. Jamais se curvou diante do medo. Sofreu a opressão, a repressão e os descaminhos. Teve que abrir mão de muito, mas nunca dos princípios em que se sustenta. Isso jamais.
Na carreira foi exitoso. Reconhecido pelos seus pares. Abriu caminhos para os jovens, lutou pelo que acreditou e ainda acredita, se algo passa por sua mente.
A razão de vida não foi o material. Não desprezou bens e recursos que lhe recompensaram os esforços profissionais. Mas, tinha seu propósito. A luta pelo mais próximo do igualitário, o desejo de um mundo mais humano, a diminuição do sofrimento, seus princípios norteadores de vida.
Cansado vai se entregando. Velho amigo querido. Entendo sua opção. Entendo seu desejo de fim. Entendo, foi-se o tempo. Deixou o exemplo, que outros a sigam.
Não será lembrado na história, não será glorificado, apenas uns poucos sabemos o que realmente representou, apenas uns poucos, que logo se irão, esses têm a convicção de que gente que é gente têm você como espelho orientador.
“Este relato, embora não seja fotografia da vida real, tem muito de concreto vivido”
Autor da frase: eu mesmo.
[Ilustração: Filipe Pinhas]
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